Conto, Bagatela, 1859

Bagatela

Texto-fonte:

Contos de Machados de Assis:
Relicrios e raisonns,
de Mauro Rosso,

Editora PUC Rio, Edies Loyola,
Rio de Janeiro, 2008.

Publicado originalmente em A Marmota,
de 10/05 a 30/08/1859.

I

Um dia do ms de maio de 1842, numa das ltimas
janelas de uma casa, que forma a esquina da rua Hautefeuille e da rua Serpente,
estava encostado um moo pensativo e melanclico.

Era  para usar da expresso da Torre de Nesle  uma
bela cabea que mais de uma rapariga teria visto passar em seus sonhos. No uma
bela cabea,  maneira dos keepsakes mas a plida e inteligente
fisionomia que se encontra muitas vezes nas obras de Lemud e em seu mestre
Volfrand, alm de outras; bem o sabeis, leitor, este ouvinte atraente e grave
do primeiro plano.

Percebia-se a vida da alma atravs do invlucro do
corpo; e depois de contemplar aquele rosto que revelava o trabalho interior,
no podia haver engano, e era fora exclamar:   um artista ou um poeta.

Henrique d'Auberseint era com efeito uma e outra
coisa. Poeta, ele o era, como todas as criaturas felizmente dotadas e
maravilhosamente organizadas para o sofrimento. Porquanto a alma do homem
inteligente, o corao do poeta, do artista ou do filsofo,  um alade que
vibra harmonioso e sonoro ao sopro de todas as paixes humanas, grandes, fortes
e belas.

Henrique era, pois, poeta. Mas sobretudo era
artista. H nos cais, nas exposies de amostras de certos comerciantes, essas
fitas que no esto seladas com um nome, mas que so obras-primas. Uma
obra-prima, assinada com um nome obscuro, ser acaso uma obra-prima? Obscuro  quanto
nos temos votado a este rude trabalho, orvalhado de suor do sangue, que se
chama vida de artista  obscuro quer dizer pobre. Henrique era pobre. Ah!
Implacvel e madrasta natureza, bem faz aquele que te morde no seio para
forar-te a aliment-la!  andar  h de ser sempre feliz...

Henrique foi perturbado em seu cismar por um rumor
de passos precipitados que se fez ouvir na escada. A porta da mansarda abriu-se
bruscamente e entrou uma mulher.

 Bagatela!  exclamou o artista levantando-se e
indo ao seu encontro.

 Onde est ele?  pronunciou ela com uma voz
entrecortada pela fadiga, tomando a mo do mancebo e voltando para ele seus
olhos obscurecidos pelas lgrimas.

Henrique no compreendeu ao princpio esta pergunta
proferida de envolta com um soluo aos seus ouvidos inquietos, e durante alguns
minutos ele contemplou Bagatela com admirao.

O semblante da moa radiava neste momento com uma
beleza sobrenatural que no lhe era comum talvez. As grandes dores desfiguram,
assim como as grandes alegrias.

Ela era bela, como uma bela virgem  com a
elegncia de maneiras e fineza de trato de uma parisiense. Era bela, muito
bela!

 Mas o que acontece? pergunta Henrique com uma
ansiedade, que crescia de minuto em minuto.

 Mas desapareceu! H dois dias que no se tem
notcias dele!  respondeu Bagatela com um ar sombrio. E se meus
pressentimentos no se enganam,  ajuntou ela com um novo soluo e novas
lgrimas  morreu!

Henrique soltou um grito.

 Tomai,  continuou a moa apresentando-lhe uma
carta  lede depressa... eu vo-lo conjuro... Lede depressa... Acabam de ma
entregar e  para vs... Reconheci a letra do nosso amigo... Estive a ponto de
abri-la... Vede... Lede, Henrique, lede em nome do cu!

Henrique, trmulo, com os olhos perturbados, abriu
convulsivamente a carta que a moa lhe apresentara, e leu o que segue:

 um morto que te escreve, meu caro Henrique, um
verdadeiro morto, com a tinta negra do Estgio lago, e com uma pena arrancada 
asa de uma qualquer ave noturna ou maligna, vampiro ou o que quiseres.

No grites, no lamentes, no chores. As
lamentaes ensurdecem, e as lgrimas, vs-tu, so uma parvoce... O fato est
j consumado, e no  mais possvel uma volta:

 Quem volta de to longe?...

Fao-te a minha derradeira confisso, com certos
conselhos e certas recomendaes, que te peo tenhas sempre em vista.

Tive uma me, como qualquer porteiro, mas,
conquanto saibamos sempre que procedemos de algum  segundo a opinio de
Brid'oison, estou, todavia, embaraadssimo quanto a afirmar de quem sou filho.
 imoral, mas  verdade. Quanto ao meu nome  nada sei de legal  pela ausncia
de qualquer declarao de meus autores nos registros da municipalidade. Mas eu
tenho um, fantasiado, todo ao acaso, entre os nomes calendrios:   Mximo  nem
mais, nem menos.

Mximo  fui criado; Mximo  cresci; Mximo  vou
desta para a outra vida. Tu sabes, alm disso, que entre a rapaziada chamava-me
Max, por enquanto a vida  to curta... e intil  along-la com trs letras
realmente inteis.

Isto, quanto ao meu nascimento e quanto ao meu
passado  um pouco semelhante s origens do Nilo. No sabendo donde vinha,
compreendes bem que eu nunca saberia onde ia. Um basto tem sempre duas pontas;
 um comeo e um fim. Por muito tempo embalei-me na esperana de ter um fim e
assemelhar-me, ao menos por aqui a um basto. Eu acreditaria de boa vontade na
eternidade das rosas, mas sempre me repugnou acreditar na eternidade da
eternidade...

Se eu no conheci os meus autores  em desforra
conheci a vida  triste conhecimento, entre parnteses. Tiveste muita vez um
espcimen de meu carter fantstico e razovel. Eu era ao mesmo tempo o mais
jovial rapaz, e o mais aborrecido indivduo que se possa imaginar. Pamrgio
forrado de Trenmor. Muitas vezes me levantava com projetos fantsticos que,
postos em execuo teriam feito arrebentar de riso a venervel esttua do Hospital.
Muitas vezes entrava para casa com o semblante plido, enrugado  e envelhecido
horrivelmente. Lanava-me  cama, enchia de fumo o cachimbo, fumava-o e
atirava-o pela janela com uma raiva surda  sem respeito  sua cor potica de
bistre. Nesses dias eu seria capaz de devorar um policial  com as bandeirolas,
mas sem as botas, entretanto.

No repares nos arabescos do meu estilo; estes
gracejos so um vestido de arlequim  o corao palpita embaixo. Hoje, ao
escrever-te, sinto-me disposto a rir e rio-me. Vale isso mais, acredita-me, do
que atirar poeira ao cu, como os Gracos.  meia-noite, acabo de encontrar
alguns frangos ticos, fugindo de mim nas ruelas sombrias da Cit. Deu-me isso
uma alegria! Por qu? Ah! sim, porque! sempre este ponto de interrogao!

Abro-te a porta da alcova dos meus sentimentos; no
 a primeira vez, mas a ltima. Passava uma vida de tdio neste planeta, e alm
disso tenho um instinto viajor que me impelia sempre para as estepes infinitas
do incgnito. Corro para l, em teus braos, grande X., corro para l, abre-os
bastante!...

Estou, pois, a esta hora em marcha para a famosa
viagem ao campo de que falam alguns. O abade de Saint-Pierre. Eu mesmo me
forneci um passaporte ingls de Wester; no encontro, embora, alfndegas nas
fronteiras da vida!... Meti audaciosamente a mo na urna do destino  e antes
da minha hora  subtra  o meu nmero... Eis tudo!

Agora falemos um pouco de ti  e dela, dela!
dela!... Prometi-te um conselho, vou dar-to. Tu tens talento, Henrique, um
grande talento: confirma-o perante a multido, ela no achar dificuldades em
acredit-lo. Foste talhado por um Deus de Homero; em trs passos atingirs ao
termo, mas  preciso dar o primeiro; mos  obra, os outros dois  apenas uma
pernada.

Isto quanto ao conselho. Agora aos legados. Fao-te
meu herdeiro universal. Tudo o que existe em minha oficina  teu. Sabes o que
valem as telas de um artista morto? As minhas te ajudaro a viver. Vende-as!

Leva  Bagatela aquela pintura que eu fiz
ligeiramente um dia em sua casa... Mostra-lhe esta carta, consola-a, ama-a,
protege-a; responder-me-s por ela.

Bagatela  a escolhida de meu corao... Um dia, em
que ela estava triste e eu alegre, dei-lhe este nome de Bagatela que prevaleceu
sobre o seu de  Gabriela. Peo-lhe que o conserve,  minha vontade; fui eu que
lho deu! Tu e ela foram para mim o mundo. Ela era o amor  tu, eras a amizade.
Por que me no bastavam estas duas felicidades? Por qu? ainda este maldito
ponto de interrogao...

Assim, chego  recomendao que te queria fazer: 
 grave,  um morto que ta faz, Henrique. Cumpre obedecer religiosamente. Que
Bagatela seja tua irm, Henrique; s o seu protetor, seu amigo, seu pai  mas,
nada mais. Pensai em mim algumas vezes e entretanto sede ambos fiis  minha
memria

Dixi 
Adeus, Henrique, adeus, Bagatela, adeus ...

Mximo  vulgo o Velho!

Todo como o velho Palma !...

II

 Morto!  murmurou Auberseint com uma voz sombria.
 Morto sem me ter apertado a mo!

 Morto! repetiu por sua vez a moa  meus
pressentimentos no me enganaram... Meu Deus! Meu Deus!...

Pronunciando estas palavras, vacilaram-lhe os
joelhos; a trepidao compulsiva de seu corpo tornou-se mesmo to violenta que
se Henrique no a tivesse retido nos braos ela rolaria pelo cho.

 Gabriela! Gabriela!  gritou Henrique com um
desespero cheio de solicitude.

 Ah! Max! querido Max!  soluou Bagatela  Max
por que nos deixas assim?

 Como ela o ama!  murmurou Henrique  Feliz
morto!

 Ah! Henrique  tornou Bagatela  no sabeis o que
perco eu na morte dele! aquele nobre esprito, com o nobre corao... Eu lhe
devia tanto, que nem todos os amores, e adoraes bastariam para pagar-lhe!...
No o sabeis, Henrique, pois que a sua delicadeza com semelhante confisso
teria sofrido.  Ele levantou-me da calada em que eu estava na rua, uma noite
de inverno, eu tiritava de frio, tinha fome, e minha me acabava de morrer...
Nossa histria, a minha e de minha me  no vo-la contarei...  banal como a
misria, simples como a dor!... Eu estava pois na rua  exposta ao vento e 
neve, desfalecida, semimorta e quase louca!... Mximo passou. Quando ele viu as
lgrimas que corriam pelas minhas faces azuladas pelo frio, quando ele viu a
minha misria e o meu desespero, levou-me para a sua casa de artista, deu-me a
chave dela, e pelo espao de trs meses, foi para comigo respeitoso, benfeitor
e dedicado. Procurou-me trabalho... Enfim, uma manh bateu  minha porta  Minha
menina  me disse ele com tristeza   preciso que nos separemos... Tenho uma
m reputao, ao que parece, e  mister que a vossa no sofra. No deveis
desmerecer aos olhos das pessoas de bem... Aluguei para vs, em vosso nome, na
rua do Oeste, uma pequena habitao  donde se descortinam os jardins de Luxemburgo
e onde eu vos pedirei como um favor  a permisso de ir algumas vezes, como
amigo...

 Oh! sempre, senhor Mximo! sempre quando
quiser... Eu no sou seno o que me fizeste: uma costureira modesta e feliz por
viver do produto de seu trabalho... Esta ventura.., eu vo-la devo... Deus vos
abenoe por isso!

 Eis aqui o que eu respondi a Max com as lgrimas
nos olhos, ajuntou Bagatela.

 Bem sabeis, Henrique, como foi nobre e
desinteressada a conduta do nosso amigo... Eu o amava  nunca lho disse... mas
dir-lho-ia um dia se ele esperasse um pouco... Acreditou talvez na minha
frieza, na minha indiferena, e contudo Deus sabe com que gratido eu aceitaria
a oferta de seu corao e de seu nome!

Bagatela calou-se. Era grande a sua emoo na
evocao destas recordaes.

Com efeito, ela amara to ingenuamente Max! como
Gretchen ela fizera tanto por ele  que ele j nada lhe tinha a fazer... Porm Max
tinha cousas singulares no crebro... amava profundamente Bagatela... cercara-a
sempre de cuidados delicados de atenes ternas, mas sempre de mistura com uma
espcie de respeito. Ela era para ele mais que uma irm e menos que uma amante.
Quando trabalhava, entre ela e Henrique, ele lhe lanava de vez em quando um
olhar paternal e amoroso ao mesmo tempo, e murmurava depois: H de ser minha
mulher!

 Oh! Max! Max! murmurou de novo Bagatela.

 Ah! feliz morto!  murmurou de novo Henrique.

Na tarde desse dia, o jornal  O Mensageiro
 publicou estas linhas:  Acabamos de saber da desapario de Mr. Mximo  vulgo
o Velho  Mr. Mximo tinha h algum tempo acessos de febre ardente e tudo faz
crer que em um desses momentos ps fim aos seus dias...  uma perda imensa para
a arte de que Mr. Mximo era um digno representante... Cumpre registrar a sua
morte no martirolgio dos grandes pintores  que o desespero, uma paixo
continuada ou qualquer outra cousa levaram ao suicdio... Depois de David,
morto longe da Ptria, depois de Gros  agonizando no Sena, depois de Leopoldo
Roberto, que se degolou em Veneza  depois de Gericault Sigalon, citamos o fim
doloroso de Mr. Mximo!

 assim que se escreve a Histria!

Alguns meses se passaram e   mister confess-lo
para vergonha eterna deste pedao de caoutchouc (borracha) que se chama corao
humano  e cada dia levava consigo uma poro do amor e da amizade que Henrique
e Bagatela votavam a esse pobre Max, morte sem dvida, para os fazer felizes.

Toda a dor desaparece com o tempo por mais profunda
que seja... cedo os pesares deixam de manchar o estofo cambiante da
existncia... Nem custa a desembaraar a alma das recordaes, que ligam ainda
os vivos aos mortos... Assim, vai o mundo! Ontem, dor que parecia ser eterna, 
sim, eterna como a aurora; hoje, esquecimento total das criaturas extintas, e
cuja presena, alm disso, seria importuna! E, realmente, os mortos so bem
maantes personagens em exigir uma memria sua sobre a terra. Para qu?

Todavia, no nos devemos apressar em deitar a
primeira pedra da exprobrao a essas duas pobres crianas. Max no estava
totalmente morto na memria e no corao de Bagatela e de Henrique. Este
ltimo, sobretudo, quase s portas da misria, apesar da herana que lhe
deixara seu amigo, parecia acabrunhado por um remorso secreto de resto, bem
fraco pela idia de que Bagatela no partilhava seu criminoso amor. Primeiro
que tudo, por uma dessas delicadezas do corao, que os amantes ho de
compreender  tinha perdido o hbito de pronunciar esse nome de Bagatela sob o
qual Max amara a mulher que ele amava tambm, posto que sem esperana. Em
segundo lugar perdera ele tambm o hbito de se dirigir para o lado da casa de
Bagatela.

Esta, por seu turno, no ousara queixar-se deste apartamento,
mas lastimava-o porque o viu sofrer, e as mulheres que tm uma misso sobre a
terra de mansido, de comiserao, de afetuosidade, nunca faltam a ela.
Bagatela sabia que Henrique era pobre e orgulhoso, e atribua  sua misria,
que ele quisera suavizar, a dureza e grosseria que mostrava. Somente de vez em
quando afligia-se a pobre moa com seu silncio tenebroso, quando o interrogava
delicada e amigavelmente sobre as causas dessa dor que o minava surdamente...
Henrique no podia confessar-lhe que era o seu amor por ela a causa nica de
seus tormentos e de seus combates de cada dia. No ousava confessar-lho
receando chamar sobre si sua clera e desprezo... Belas, completas, e ingnuas
eram aquelas naturezas! Como Henrique se assemelhava a esses D. Juans que
inundam os sales e os bastidores, e que imaginam como Hans Svederlick, que no
h honra nem favor que no possam colher, querendo para eles, toda a galante
flor! Pobre namorado! pobre poeta! pobre artista!

Compreendendo, enfim, que aquele amor o mataria,
Henrique resolveu um dia matar-se e acabar com um golpe suas irresolues e
sofrimentos. Mas, ele no queria morrer na rua para ser transportado e exposto
figura hedionda  sobre as hediondas tbuas da Morgue! No!... a morte na sua
pequena mansarda, ao p de seus quadros, de suas obras:  na sua mansarda ainda
perfumada com a presena de Bagatela: na sua mansarda, onde ele vivia com a
imagem adorada, onde ela chorara; e onde lhe apertara a mo ao despedir-se!
Essa morte, sim, valia a pena!

Alm disso, ele morria descansado sobre a sorte
dessa mulher por quem ia morrer; porquanto no primeiro dia de cada ms, 
noitinha, um velho, cujo semblante austero e melanclico causava respeito,
apresentava-se em casa de Bagatela, dava-lhe um rolo de 150 francos, rendimento
mensal que lhe deixara Max; depois retirava-se cumprimentando, mas sem proferir
uma palavra.

Uma noite, pois, Henrique entrou em casa resolvido
a pr termo  existncia que o acabrunhava. Acendeu a lmpada, correu os
ferrolhos da porta, que no se fechava de todo, e depois de algumas disposies
testamentrias, tomou uma pistola que pusera ao entrar em uma mesa e
carregou-a...

 Amo-a muito, murmurou ele penivelmente, para no
persistir em minha resoluo... Sede fiel  minha memria!  disse Max..,
serei fiel  sua memria... vamos... Daqui a poucos minutos estarei de jornada
para a eternidade!... Ele gracejava nos seus ltimos momentos... Max! Tinha
essa coragem... Ah!  que era amado! Por que matou-se? Eu nunca ousara conceber
esta esperana que faz minha alegria e suplcio... Adeus, pois, vs todos
objetos queridos que vou abandonar, adeus!

Henrique inclinou orgulhosamente a cabea. No
momento em que colocava na fronte o cano da pistola, bateram na porta. Abaixou
a arma e esperou. Bateram de novo, mas com uma violncia inaudita. E a porta
rodou sobre os gonzos...

 Henrique! que eis fazer?  exclamou Bagatela,
precipitando-se ao mancebo e arrancando-lhe a pistola.

 Bem o vedes!  respondeu ele com uma voz surda  ia
morrer!

 Morrer! tu, Henrique! oh! no deves morrer... eu
to probo!

Dois olhos e dois lbios que dizem eloqentemente:
 vivei! tm o direito de serem ouvidos. Henrique sentiu desvanecerem-se as
suas veleidades de suicdio... sobretudo quando Bagatela ajuntou:

 H muito tempo que eu adivinhei o teu amor  porque
eu tambm te amava; sofrias, dizes tu? E eu? Eu! acreditas ento que eu no
houvesse mister de coragem, ou antes de crueldade, para deixar-te assim
esperar-me, sofrer e chorar? Combatias contra o vo fantasma de um passado que
l vai... lutavas com um remorso que no deve mais pesar em teu corao, agora
que eu venho a ti, e te absolvo! Se  um crime esse nosso amor, meu doce amigo,
tomo sobre mim a responsabilidade e a vergonha... Podemos ser felizes de hora
avante, Henrique, pois que eu sou rica... um parente de minha me deixou-me uma
herana...  uma bno do cu! no teremos mais necessidade dos benefcios
pstumos de Mximo.

Mr. Heine tem razo: Todos sabem o que so
cacetadas; mas o que  amor, todos ainda ignoram!

 Gabriela!  respondeu Henrique com um desespero
misturado de tristeza.  Fugi, deixai-me s... H entre ns uma barreira que
no podemos transpor... a lembrana de Mximo?

 Mas tu no me amas, Henrique?

 No te amo! Mas no  por ti que eu quero morrer?
Deixa-me... no quero ser perjuro!... vai-te!

 Ficarei aqui!  disse Bagatela com uma voz
resoluta.  H oito dias que te espero... oito sculos! pois que eu os
contei... Tu no me procuraste... procurei-te eu... Venho dizer-te: separados,
ramos infelizes; reunidos...

 Oh! no acabes, Gabriela.

 Ento morramos ambos morramos...

 Ainda no, meus filhos  disse uma voz.

Bagatela e Henrique voltaram-se e viram, a primeira
com medo, o segundo com espanto, aproximar-se um velho, cujo casaco pardo e
cabelos brancos tinham um ar respeitvel.

 O desconhecido!  murmurou a moa.

 Senhora, eu vos sado  disse o velho com uma voz
trmula e um pouco desfalecida.  Bom dia, Senhor! esto ambos espantados...
que tnheis! Quereis morrer, meu jovem amigo? Ah! fora com isso!  bom para os
manacos, e vs tendes juzo.

 Ah! esta voz! esta voz!...  exclamaram Bagatela
e Henrique.

  a de um homem que vos ama e quer a vossa
felicidade, meus filhos...  retrucou o velho;  eu soube apreciar-vos ambos,
h bastante tempo, posto que pouco me conheceis. Mr. Mximo, de quem fui amigo
outrora, deixou-me o cuidado de velar sobre vs... Obedeci-lhe
religiosamente... Vs que sois to dignos um do outro,  (aqui a voz do velho
fez-se um pouco irnica, o que no notaram os nossos amantes; to ocupados
estavam em recordar-se onde tinham ouvido essa voz to fresca e suave ainda,
apesar de seu abalo tremor de ancio)! Vs que sois to dignos um do outro...
ide tocar a meta da ventura! eis aqui o vosso dote... no  considervel...
porm Max ficar satisfeito  l em cima, se o aceitardes....  a ltima
recordao que ele vos d... Minha misso est terminada... O que vos peo
ainda, em nome de Max,  de vos lembrardes algumas vezes, de vez em quando,
quando no tiverdes outra coisa a fazer... nas vossas horas de tdio, ou de
prazer, que um homem existiu, que vos criou, e levou consigo a consolao de
ter ao menos as vossas saudades...  bem pouco uma recordao... e bem pouco
uma lgrima... Fazei algumas vezes essa melanclica esmola dos vivos a um
morto, que s tem aqui na terra uma preocupao:  a vossa ventura. Adeus, s
me vereis ainda uma vez, no dia do vosso casamento; at mais ver, meus filhos
e... at mais ver!....

E sem esperar uma resposta de Bagatela ou de Henrique,
o velho desapareceu.

 Henrique, murmurou Bagatela com uma doce
melancolia. Henrique... bem o vedes... Nada mais se ope  vossa ventura... Mas
no vos quis legar um remorso...

Coisa estranha!  justamente em razo daquela
absolvio que Max dera, de alm-tmulo aos seus criminosos pensamentos,
Bagatela e Henrique sentiam a conscincia agitar-se, e apenas o artista morto
levantava os seus escrpulos eles renasciam mais vivos em suas almas...

 Oh! Max valia mais do que eu!  respondeu
Henrique, voltando a cabea, para ocultar  Bagatela a vista de uma lgrima que
lhe resvalara furtivamente na face.

III

Um ms se tinha passado e em uma capela da Igreja
de S. Sulpcio, um padre abenoava dois jovens que tomavam diante de Deus o
cargo de se amarem at a morte.

A um canto da capela estava um velho imvel, com o
pescoo estendido, que seguia com o olhar febril e quebrado cada movimento dos
novos esposos que eram Bagatela e Henrique... apenas a moa pronunciou corando
de ventura o sim fatal, o velho estremeceu e a sua fisionomia exprimiu uma
angstia dolorosa...

Terminada a cerimnia dispersou-se a multido.
Bagatela estava radiante com o vestido azul do cu que parecia abenoar esta
unio e sorrir a esta festa. Henrique tinha por momentos, um ar pensativo e
triste e quando subiu para o carro, procurou e fez procurar por toda parte o
velho; mas ele tinha desaparecido.

Enquanto os noivos se iam de seu lado contentes e
brilhantes, ele apressava o passo com um ar sombrio, para chegar mais depressa.

Subiu uma escada de uma casa da rua dos Mrtires,
abriu uma porta e achou-se em uma oficina povoada de quadros, de esttuas, e
objetos de arte. Parou ento, ps a mo sobre o corao e contou as pancadas. 
Tudo est acabado! murmurou ele com uma voz quebrada.  Ela e ele so
felizes... Est bem...

E ficou entregue a uma meditao profunda que tinha
por fim incessante uma determinao terrvel.

 Nada de saudades estreis! Nada de desejos
quimricos!  disse ele contemplando com olhar quebrado e resignado as nuvens
que purpureavam o horizonte  l vai o tempo das saudades e desejos... agora 
a agonia...  a morte... a morte! Oh! ela j est em mim... em mim todo!

E ps a mo sobre a fronte!

 A inteligncia, esse archote soberbo que irradia
isoladamente ao lado do prprio sol?... Est apagada em mim...

Ps a mo no corao:

 O corao, esse diamante precioso que nada
altera... Meu corao! quebrou-se em mil pedaos, como vidro...

Sorriu amargamente e continuou:

 Ah! os cantos de meu corao, e as marcas da
minha vida so como cips da Via Apiena: no h mais que cinzas e aqui jaz!
Sobre os destroos dos meus amores e de minhas esperanas, s tinha de dormitar
agora... Ah! a vida  feita de abrolhos e espinhos... Pobres ovelhas que o
invisvel pastor leva ao matadouro da morte, deixam l a cada espinheiro,
sangue a cada fonte de pedra... Pus o dedo sobre a ventura e a ventura fugiu-me
para no voltar mais...

As divinas promessas do amor esvaneceram-se ao
sopro gelado da indiferena... como eu era insensato! crer na coragem de
Henrique e na virtude de Bagatela! Oh! queridos dolos derrocados! Mas para que
inventar Galatas impossveis? por que quis eu apoiar a ventura de toda a minha
vida na areia movedia das paixes?  Quis, fatal pensamento!  submeter o amor
de um e a amizade de outro  pedra de toque da ausncia, e essa experincia
provou-me o egosmo dessas duas afeies sem as quais eu no podia viver... No
fundo da nfora onde as lancei ambas, resta um pouco de ouro puro e muita
terra...

No me amam mais, no me podem mais amar... E  tal
o desencanto horrvel de minha alma que nesta hora solene chega a duvidar que
eles me amassem!... Mas que importa? Eu os amava, eu os amo ainda, ingratas
crianas que me esqueceram to depressa!... E a sua virtude me  cara, apesar
de haver quebrado a minha... Ah! a ventura! a ventura!  repetiu ele com
violento furor  a ventura! ... por ventura ns a conhecemos  ns os eleitos,
os predestinados, os gloriosos, cuja vida  um calvrio de estaes dolorosas...
A ventura nunca vem cedo; chega mesmo tarde demais.  um viajante descuidado e
fantstico, que no sabe onde vai, onde deve comer, onde deve dormir, e que uma
noite vem por fantasia bater  nossa porta. Mas j a velhice c estava: a
cabea est calva, os olhos sombrios, a boca fechada; ns nos habituamos 
imobilidade da sepultura, pela imobilidade da idia. Todavia abre-se a porta a
esse viajante estouvado e falador que para vir  nossa casa solitria toma um
caminho mais longe... que retardou-se na viagem a cercar com as mos as
cinturas das jovens aldes encontradas, e a contar-lhes loucas histrias que as
fizeram corar  de prazer! Abrimos a porta mas, rosnando; por que temos
reumatismos: abrimos rosnando e tossindo, escandalizados das risadas intempestivas
e da alegria extravagante desse hspede, cuja vinda, que nos importuna tantas
vezes, h bom tempo saudamos com efuso e gratido... No lhe compreendemos o
falar... J nos  um estrangeiro; mais que um estrangeiro mesmo, um inimigo;
por que sua presena agora em nossa casa  uma ironia amarga,  um insulto. Mas
no somos maus; no sabemos s-lo; a dor habitua  bondade; e em vez de dizer a
esse estranho que nos perturba o sono de ancio, batendo precipitadamente na
porta fechada de nosso corao: J no vem a tempo!  dizemos-lhe
melancolicamente:   bastante tarde!

 Ah! coisa terrvel.., coisa terrvel... a
ventura!

Durante um instante ficou ele com a cabea entre as
mos crispadas; depois continuou com os olhos mais midos de lgrimas, porm
mais enternecidos:

 Ouo soar em meu corao sinfonias inebriantes da
mocidade, como um alegre concerto de vozes amadas... Ouo minhas alegres e
frescas recordaes de mancebo bater carga e rolar louca e impetuosamente por
meu pobre crebro... Ah! toque insensato, amante risonho dessas recordaes,
dessas sinfonias me fazem mal!... Quero dormir o meu ltimo sono, embalado pelo
pensamento de que meu fantasma doce e triste atravessar talvez a vida de
Henrique e Bagatela, e deixar um vestgio perfumado em seus coraes... Ah!
ainda vem ver, por que tentei essa prova maldita?... Antes de morrer
experimentei a morte... Magoadora experincia! no sei se devo alegrar-me com
ela, pois eles so felizes, ou entristecer-me uma vez que morro! Oh! meus
dolos! dolos amados, castes do pedestal em que vos elevei!... Eu devera
morrer logo... teria lanado a campo, crena, f, iluso!... no assistira 
tua fraqueza Henrique! no assistira  tua queda, Gabriela!...

Depois, desembaraando-se do vesturio do velho que
o incomodava, Max dirigiu-se plido, grave, com a fronte carregada de idias
sinistras, para o fundo da sua oficina e para diante de uma tela branca que
parecia esperar dele o movimento e a vida...

O rosto viril do artista refletiu, nesse instante,
as torturas sem nome, as angstias horrveis, as dores inauditas que lhe
rasgavam a alma desde o dia em que voluntariamente deixara Henrique e
Bagatela... Estava acostumado ao uso das decepes como Mitrdates ao uso dos
venenos; mas desta vez a dose era forte demais: matava-o!...

Nesse instante, ele odiava a vida com todas as
foras que lhe restavam... desenganado deste mundo, chegava quase aos lbios a
taa fatal quando o vento lhe trouxe o eco fraco de um canto lanado no espao:
Ps-se a escutar. A voz dizia:

Debalde semeei formosas crenas.

Nem um raio de sol desceu-me aos prados!

Veio a dor s campinas da esperana

Como vai joio ao trigo.

  a voz de um poeta!  murmurou Max com um
melanclico sorriso.  No sou s eu a sofrer!

Chegou-se depois ao seu cavalete, tomou os pincis
e na tela colocada em frente dela construiu em uma hora, que passou como um
relmpago  o poema melanclico e pungente de sua vida despedaada ainda no
comeo... Evocou por um momento os dois entes adorados que tinham vindo um aps
outro cravar-lhe o punhal no corao... E essa tela animou-se como por encanto!
Iluminou-se de reflexos fantsticos e vertiginosos! Max dava assim o derradeiro
esforo de seu gnio, o ltimo grito de sua alma, a ltima vibrao de seu
corao...

Mas esse esforo sobrenatural devido  febre e ao
desespero, esmagou-o... Ele arrastou-se at a janela para contemplar ainda uma
vez o cu que lhe negava, como suprema consolao, fechar os olhos nos seios de
uma mulher, e nos braos de um amigo; palpitava-lhe o peito convulsivamente...

Grossas nuvens pardas, levadas por um vento. Estas
acumulavam-se no horizonte como uma massa de neve. O sol, em seu ocaso,
espalhava sobre a cidade uma cor sombria em harmonia com as sombrias idias do
artista...

 Vamos!  exclamou ele voltando  mesa onde
depusera ao entrar um pequeno frasco contendo um licor escuro.  Que o
sacrifcio se consuma! Agora que todas as afeies esto mortas, que as minhas
iluses esto extintas, vou extinguir-me com elas, como elas vou morrer... O
aventureiro Gabor tinha razo:  A vida  uma caoada amarga!...

E de um trago, o herico artista absorveu o licor
do vidro que descomps-lhe o semblante rapidamente.

Corria-lhe o olhar sangrento e mido de um a outro
objeto, roando de leve muitas recordaes que se prendiam a duas criaturas
queridas e amadas demais.

De repente, esse olhar moribundo parou na tela
deslumbrante em que seu gnio lanara a ltima palavra... Parecia-lhe que legar
aos vivos, aos indiferentes, aos felizes o admirvel poema que ele esboara
seria uma profanao, um sacrilgio, uma impiedade e reunindo ento as poucas
foras que lhe deixava o veneno, arrastou-se penivelmente at o cavalete, tomou
uma faca e em um sublime e ltimo esforo rasgou e despedaou freneticamente a
tela... Depois seus braos se torceram, os dedos se lhe crisparam, soltou um
grito surdo, um grito de angstia e de saudades supremas que o eco repetiu.

 Tudo acabara.
