Conto, Um Homem superior, 1873

Um Homem superior

Edio referncia:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, agosto,
1873

I

Aps uma noite de
insnia, saiu Clemente Soares da casa em que morava,  Rua da Misericrdia, e
entrou a caminhar  toa pelas ruas da cidade.

Eram quatro da
manh.

Os homens do gs
comeavam a apagar os lampies, e as ruas, ainda no bem alumiadas pela aurora,
que apontava apenas, apresentavam um aspecto lgubre. Clemente caminhava lento
e pensativo. De quando em quando abalroava nele uma quitandeira que se dirigia
para as praas do mercado com o cesto ou o tabuleiro  cabea, acompanhada de
um preto que levava outro cesto e a barraca. Clemente parecia despertar dos
seus devaneios, mas recaa logo neles at nova interrupo.

 proporo que o
cu clareava, abriam-se as portas dos botequins, para fazer concorrncia aos
vendedores de caf ambulantes que desde a meia-noite percorriam a cidade em
todos os sentidos. Ao mesmo tempo comeavam a passar os trabalhadores dos
arsenais atroando as ruas com os seus grossos tamancos. No poucos entravam nos
botequins e aqueciam o estmago.

Os entregadores
dos jornais concluam a sua tarefa com aquela preciso de memria que sempre
invejei a esses funcionrios da imprensa. As tavernas abriam as suas portas e
ornavam os portais com as amostras do uso. Da a pouco era completamente dia;
j a cidade comeava a levantar-se toda; numerosas pessoas transitavam a rua;
as lojas de todo gnero abriam as suas portas... Era dia.

Clemente Soares
no deu f de toda esta gradual mudana; continuou a andar  toa, at que,
cansado, foi ter  Praia de Santa Luzia, e a ficou a olhar para o mar.

Em qualquer outra
circunstncia  muito provvel que Clemente Soares admirasse o quadro que se
lhe apresentava ante os olhos. Mas naquela ocasio o pobre rapaz olhava para
dentro. Tudo  roda dele lhe era indiferente; um grande pensamento o
preocupava.

Que pensamento?

No era novo; era
um pensamento quase to velho como o mundo, um pensamento que s h de acabar
quando acabarem os sculos.

No era bonito;
era um pensamento feio, repelente, terrvel, capaz de trazer  mais bela alma a
mais completa demncia, e fazer de um gnio um idiota.

No era obscuro;
era um pensamento claro, evidente, incontestvel, difano, um pensamento
simples, que dispensava toda e qualquer demonstrao.

Clemente Soares
no tinha dinheiro.

S o muito amor
que tenho aos leitores me dispensa de fazer aqui a longa dissertao que este
assunto est pedindo. Demais, para alguns deles seria intil a dissertao. A
maior parte dos homens h de ter compreendido, ao menos uma vez na vida, o que
 no ter dinheiro. A moa que v o namorado distrado, o amigo que v o amigo
passar por ele sem lhe tirar o chapu, antes de fazer qualquer juzo temerrio,
deve perguntar consigo: estar ele sem dinheiro?

Clemente Soares,
pois, estava nessa precria situao. No tinha dinheiro, nem esperanas de o
ter, posto fosse um rapaz engenhoso e cheio de recursos.

No era contudo
to grande a falta que no pudesse almoar. Introduzindo na algibeira do colete
o indicador e o polegar, como quem tira uma pitada, arrancou de l dois cartes
da barca Ferry; e era quanto bastava para um almoo no Carceller.

Desceu pela Rua
da Misericrdia, entrou em casa para pesquisar as gavetas a ver se encontrava
um charuto esquecido; teve a fortuna de encontrar dois cigarros, e foi almoar.
Duas horas depois estava em casa almoado e fumado. Tirou de uma velha estante
um volume de Balzac e disps-se a esperar o jantar.

E de onde viria o
jantar?

O jantar no
preocupava muito a Clemente Soares. Costumava obter esse elemento da vida na
casa comercial de um amigo, aonde no ia almoar, a fim de no parecer que no
tinha com qu. No se diria o mesmo do jantar, porque o dito amigo lhe dissera
uma vez que lhe faria grande obsquio em ir l jantar todos os dias. Do almoo
no disse o mesmo; por isso Clemente Soares no se atrevia a l ir.

Clemente era
orgulhoso.

E no so
incompatveis a necessidade e o orgulho! O desditoso mortal a quem a natureza e
a fortuna deram estes dois flagelos, pode dizer que  a mais triste de todas as
criaturas.

II

A casa de
Clemente Soares no tinha o aspecto miservel que a algibeira do rapaz fazia
crer. Via-se que era casa onde j houvera alguma coisa, embora pouca. Era casa
de rapaz solteiro, adornada com certo gosto, no tempo em que o dono gozava de
sofrvel ordenado.

Alguma coisa lhe
faltava, mas no era do necessrio; seno do suprfluo. Clemente vendera,
apenas, alguns livros, dois ou trs vasos, uma estatueta, uma charuteira e
poucas coisas mais, que no faziam grande falta. E quem o visse ali, estendido
no sof, metido em um chambre, lendo um volume encadernado em Paris, diria que
o bom rapaz era um estudante rico, que havia falhado a aula e enchia com alguma
distrao as horas, at receber uma carta da namorada.

Namorada! Havia
efetivamente na vida de Clemente Soares uma namorada, mas j pertencia aos
exerccios findos. Era uma menina galante como uma das Graas, mas que na
opinio de Clemente ficou to feia como uma das Frias, desde que soube que o
pai apenas teria umas cinco aplices.

Clemente Soares
no tinha corao to mesquinho que se deixasse vencer por cinco aplices.
Demais, no a namorava muito disposto ao casamento; foi uma espcie de aposta
com outros rapazes. Trocou algumas cartinhas com a moa e precipitou o
desenlace da comdia fazendo uma retirada airosa.

Carlotinha no
era felizmente moa de grandes enlevos. Deu dois murros no ar quando adquiriu
certeza da retirada do rapaz, e travou namoro com outro que lhe andava a rondar
a porta.

Fora esse o nico
amor, ou coisa que o valha, do nosso Clemente, que da em diante no procurou
outras aventuras.

E como o faria
agora, que se achava desempregado, sem vintm, cheio de ambies, vazio de
meios?

Nem pensava
nisso.

Era perto das
trs horas da tarde, quando recebeu um bilhetinho do amigo em cuja casa
costumava jantar.

Dizia assim:

Clemente. No deixes de vir hoje. Temos um negcio.
Teu Castrioto.

A recomendao
era intil; Clemente no deixaria de l ir, mas a segunda parte do bilhete era
rutilante de promessas.

Da a pouco
estava em casa de Castrioto, honrado negociante de fazendas, que o recebeu com
duas ou trs graas de boa intimidade e o levou para o fundo da loja onde lhe
props um emprego.

 O Medeiros,
disse ele, est sem guarda-livros. Quer voc ir para l?

Isso era um raio
de sol que alumiava a alma do msero Clemente; todavia, como na gratido entra
sempre um tanto de diplomacia, recebeu Clemente a notcia e a oferta com ar de
calculada indiferena.

 No duvido ir,
disse ele, mas...

 Mas o qu?

 Voc bem sabe
que eu j estive em casas que...

 J sei,
interrompeu Castrioto, fala do ordenado.

 Justo.

 Trs contos e
seiscentos, serve?

Clemente estremeceu
dentro de si; mas achou conveniente fazer uma pergunta:

 Com comida?

 E casa, se
quiser, respondeu Castrioto.

 Serve.
Obrigado.

E dizendo isto,
apertou Clemente Soares as mos do amigo, desta vez com todas as mostras de
entusiasmo, o que alegrou muito a Castrioto, que o estimava deveras.

 Eu j tinha
alguma coisa em vista, disse Clemente depois de alguns instantes; mas era
precrio e inferior ao que voc me oferece.

 Pois v l
amanh, disse Castrioto; ou, melhor, iremos logo depois do jantar.

Assim se fez.

Logo depois do
jantar conduziu Castrioto o amigo  casa do Medeiros, que recebeu com extremo
prazer o novo guarda-livros. E no dia seguinte entrou Clemente Soares no
exerccio das suas novas funes.

III

Em dois simples
captulos vimos um rapaz desarranjado e arranjado, pescando um carto de barca
no bolso do colete e ganhando trs contos e seiscentos mil-ris por ano.

No se pode andar
mais depressa.

Mas por que fui
eu to longe, quando podia apresentar Clemente Soares j empregado, poupando 
piedade dos leitores o espetculo de um rapaz sem almoo certo?

Fi-lo para que o
leitor, depois de presenciar as finezas do negociante Castrioto, se admirasse,
como lhe vai acontecer, de que Clemente Soares ao cabo de dois meses esquecesse
de tirar o chapu ao ex-anfitrio.

Por qu?

Pela razo
simples de que o excelente Castrioto teve a infelicidade de falir, e alguns
amigos comearam a desconfiar de que falira fraudulentamente.

Castrioto ficou
assaz magoado quando lhe aconteceu esta aventura; mas era homem filsofo e
tinha quarenta anos feitos, idade em que s um homem de singular simplicidade
pode ter iluses a respeito da gratido humana.

Clemente Soares
tinha o seu emprego e o desempenhava com extrema solicitude. Alcanou no ter
hora certa para entrar no escritrio e, com esta, outras mais facilidades que
lhe deu o dono da casa.

J nesse tempo
no havia aquele rigor antigo, que no permitia aos empregados de uma casa
comercial certos usos da vida gamenha. Usava pois o nosso Clemente Soares tudo
quanto a moda prescrevia. No fim de um ano, Medeiros elevou-lhe o ordenado a
quatro contos e seiscentos mil-ris, com a esperana de interesse na casa.

Clemente Soares
ganhou depressa a estima do dono da casa. Era solcito, zeloso, e sabia levar
os homens. Dotado de inteligncia aguda, e instrudo, resolvia todas as dvidas
que estavam acima do entendimento de Medeiros.

No tardou, pois,
que fosse considerado pessoa necessria no estabelecimento, verdadeiro alvo de
seus esforos.

Ao mesmo tempo
tratou de se descartar de certos conhecimentos do tempo em que tinha o almoo
casual e a ceia incerta. Clemente Soares professava o princpio de que a um
pobre no se tira chapu em nenhuma hiptese, salvo se se encontram num beco
deserto, e ainda assim sem grandes mostras de intimidade, a fim de no dar
confiana.

Desejoso de
subir, no faltou Clemente Soares ao primeiro convite que lhe fez Medeiros para
um jantar que dava em casa a um diplomata estrangeiro. O diplomata simpatizou
com o guarda-livros, que da a oito dias lhe fez uma visita.

Com estas e
outras traas foi o nosso Clemente penetrando na sociedade que convinha ao seu
gosto, e no tardou que lhe chovessem em casa os convites de bailes e jantares.
Cumpre dizer que j nesse tempo o guarda-livros tinha um interesse na casa de
Medeiros, que o apresentava orgulhosamente como seu scio.

Nesta situao s
lhe faltava uma noiva elegante e rica.

No lhe faltava
onde escolher; mas no era isso to fcil como o resto.

As noivas ou eram
ricas demais ou pobres demais para ele. Mas Clemente confiava na sua estrela, e
esperava.

Saber esperar 
tudo.

Uma tarde,
passando pela Rua da Quitanda, viu apear-se de um carro um velho e pouco depois
uma linda rapariga, que ele conheceu imediatamente.

Era Carlotinha.

A moa trajava
como quem possua, e o velho tinha um ar que cheirava a riqueza a cem lguas de
distncia.

Era marido?
padrinho? tio? protetor?

Clemente Soares
no pde resolver este ponto. O que lhe pareceu foi que o velho era homem de
serra acima.

Tudo isto pensou
ele enquanto tinha os olhos cravados em Carlotinha, que estava esplndida de
beleza.

Entrou o par numa
loja conhecida de Clemente, que l tambm entrou para ver se a moa o
reconhecia.

Carlota
reconheceu o antigo namorado, mas nenhuma fibra do rosto se lhe contraiu;
comprou o que ia buscar, e entrou com o velho no carro.

Clemente ainda
teve idia de chamar um tlburi, mas desistiu da idia, e seguiu direo
oposta.

Durante toda a
noite pensou na gentil menina que ele havia deixado em outro tempo. Entrou a
perguntar a si mesmo se aquele velho seria marido dela, e se ela havia
enriquecido com o casamento. Ou seria um padrinho rico, que resolvera deix-la
por herdeira de tudo? Todas estas idias galoparam na cabea de Clemente
Soares, at que o sono se apoderou dele.

De manh tudo
estava esquecido.

IV

Dois dias depois,
quem lhe havia de aparecer no escritrio?

O velho.

Clemente Soares
apressou-se a servi-lo com toda a solicitude e zelo.

Era um
fazendeiro, fregus da casa de Medeiros e morador de serra acima. Chamava-se o
comendador Brito. Tinha sessenta anos e uma dor reumtica na perna esquerda.
Possua grandes cabedais e excelente reputao.

Clemente Soares
captou as boas graas do comendador Brito nas poucas vezes que ele l foi.
Fez-lhe mil obsquios de pequena monta, cercou-o de todas as atenes,
fascinou-o com discursos, a ponto que o comendador mais de uma vez lhe teceu
grandes elogios em conversa com Medeiros.

  um excelente
moo, respondia Medeiros, muito discreto, inteligente, servial;  uma
prola...

 Tenho notado
isso mesmo, dizia o comendador. Nas condies dele ainda no achei pessoa que
merea tanto.

Aconteceu um dia
deixar o comendador em cima da escrivaninha de Clemente Soares a boceta do
rap, que era de ouro.

Clemente viu a
boceta apenas o comendador voltou as costas, mas no quis incomod-lo, e
deixou-o ir adiante. Na vspera acontecera o mesmo com o leno, e Clemente teve
o cuidado de lho ir levar  escada. O comendador Brito era tido e havido por um
dos homens mais esquecidos do seu tempo. Ele mesmo dizia que no esquecia o
nariz na cama por t-lo pregado na cara.

 hora do jantar,
disse Clemente Soares ao patro:

 O comendador
esqueceu c a boceta.

 Sim?  preciso
mand-la.  Jos!...

 Mandar uma
boceta de ouro por um preto, no me parece seguro, objetou Clemente Soares.

 Mas o Jos 
fidelssimo...

 Quem sabe? a
ocasio faz o ladro.

 No creia
nisso, respondeu Medeiros sorrindo; vou mand-la j.

 Alm disso, o
comendador  um homem respeitvel; no ser bonito mandar assim a boceta por um
preto...

 Vai um
caixeiro.

 No, senhor,
vou eu mesmo...

 Pois quer?...

 Que tem isso?
retorquiu Clemente Soares rindo; no  coisa do outro mundo...

 Pois faa o que
lhe parecer. Nesse caso leve-lhe tambm aqueles papis.

Clemente Soares
informado da casa do comendador, meteu-se num tlburi e mandou tocar para l.

O comendador
Brito vinha passar alguns meses na Corte; tinha alugado uma bela casa, e deu 
mulher (porque Carlotinha era sua mulher) a direo no arranjo e escolha dos
mveis, no que ela se houve com extrema percia.

No nascera
aquela moa entre brocados nem fora educada entre as paredes de casa rica;
tinha, porm, um instinto do belo e um grande dom de observao, mediante o que
conseguira habituar-se facilmente ao mundo novo em que entrara.

Eram seis horas
da tarde quando Clemente Soares chegou  casa do comendador, onde foi recebido
com todos os sinais de simpatia.

 Aposto que o
Medeiros lhe deu todo este incmodo, disse o comendador Brito, para me mandar
uns papis...

 Trago, com
efeito, esses papis, respondeu Clemente, mas no  esse o principal objeto da
minha visita. Trago-lhe a caixa de rap, que V. Ex. esqueceu l.

E dizendo isto
tirou do bolso o aludido objeto, que o comendador recebeu com alvoroo e
reconhecimento.

 Eu havia de
jurar que tinha deixado na casa de Joo Pedro da Veiga, onde fui comprar uns
bilhetes para serra acima. Agradeo-lhe muito a sua fineza; mas por que veio
pessoalmente? por que tomou este incmodo?

 Quando fosse
incmodo, respondeu Clemente, e est longe disso, ficaria bem pago com a honra
de ser recebido por V. Ex.

O comendador
gostava de ouvir finezas como todos os mortais que vivem debaixo do sol. E
Clemente Soares sabia-as dizer de modo especial. De maneira que j essa noite
passou-a Clemente em casa do comendador, de onde saiu depois de prometer que
voltaria l mais vezes.

Trouxe boas
impresses do comendador; no assim de Carlotinha que parecia extremamente
severa com ele. Debalde o rapaz a cercava de atenes e respeitos, afetando no
a ter conhecido, quando alis podia alegar um beijo que lhe dera uma vez, a
furto, entre duas janelas, no tempo do namoro...

Mas no era
Clemente Soares homem que envergonhasse ningum, muito menos uma moa que ainda
podia faz-lo feliz. Por isso no saiu dos limites do respeito, convencido de
que a pertincia vence tudo.

V

E venceu.

Ao cabo de um ms
j a esposa do comendador no se mostrava arisca e o tratava com vivos sinais
de estima. Clemente sups que estava perdoado. Redobrou de atenes, tornou-se
um verdadeiro escudeiro da moa. O comendador morria por ele. Era o ai-jesus da
casa.

Carlotinha estava
mais bela que nunca; antigamente no podia realar as graas pessoais com os
inventos da indstria elegante; mas agora, que lhe sobravam meios, a boa moa
tratava quase exclusivamente de pr em relevo o seu airoso porte, tez morena,
olhos negros, testa elevada, boca de Vnus, mos de fada, e o mais que a
imaginativa dos namorados e dos poetas costuma dizer em casos tais.

Estaria Clemente
apaixonado por ela?

No.

Clemente antevia
que os dias do comendador no eram longos, e se havia de ir tentar alguma
empresa, mais duvidosa e arriscada, no era melhor continuar aquela j comeada
alguns anos antes?

Ignorava ele por
que concurso de circunstncias Carlotinha tinha escolhido aquele marido, cujo
nico mrito, para ele, era ter uma grande riqueza. Mas conclua de si para si
que ela seria essencialmente vaidosa, e para captar-lhe as boas graas, fez e
disse tudo o que pode seduzir a vaidade de uma mulher.

Um dia ousou
fazer uma aluso ao passado.

 Lembra-se,
disse ele, da Rua das Mangueiras?

Carlotinha
franziu a testa e saiu da sala.

Clemente ficou
fulminado; meia hora depois estava reposto na sua habitual indolncia e mais
disposto que nunca a perscrutar o corao da moa. Julgou, porm, que era
prudente deixar passar algum tempo e procurar outros meios.

Passeava uma
tarde com ela no jardim, enquanto o comendador discutia com Medeiros debaixo de
uma mangueira sobre alguns assuntos de comrcio.

 Que me disse
outro dia o senhor a respeito da Rua das Mangueiras? perguntou repentinamente
Carlotinha.

Clemente
estremeceu.

Houve um
silncio.

 No falemos
nisso, disse ele sacudindo a cabea. Deixemos o passado que morreu.

No respondeu a
moa e os dois continuaram a passear silenciosamente at que se acharam assaz
distantes do comendador.

Clemente rompeu o
silncio:

 Por que me
esqueceu to depressa? disse ele.

Carlotinha
levantou a cabea com um movimento de surpresa; depois sorriu-se com ironia e
disse:

 Por que o
esqueci?

 Sim.

 No foi o
senhor quem me esqueceu?

 Oh! no! Eu
recuei diante de uma impossibilidade. Era infeliz nesse tempo; no tinha os
meios necessrios para despos-la; e preferi o desespero... Sim, o desespero!
Nunca a senhora h de ter idia do que sofri nos primeiros meses da nossa
separao. Sabe Deus que lgrimas de sangue chorei no silncio... Mas era
necessrio. E bem v que foi obra do destino, porque a senhora  hoje feliz.

A moa deixou-se
cair em um banco.

 Feliz! disse
ela.

 No ?

Carlotinha abanou
a cabea.

 Por que se
casou ento com...

Estacou.

 Acabe, disse a
moa.

 Oh! no!
perdoe-me!

Foram interrompidos
por Medeiros, que vinha de brao com o comendador, e disse em voz alta:

 Sinto dizer,
minha senhora, que preciso do meu guarda-livros.

 E eu estou s
suas ordens, respondeu Clemente rindo, mas um pouco despeitado.

No dia seguinte
j Carlotinha no pde ver o rapaz sem corar um pouco, excelente sintoma para
quem prepara uma viva.

Quando lhe
pareceu conveniente, expediu Clemente Soares uma carta flamejante  moa, que
lhe no respondeu, mas que tambm no se zangou.

Neste meio-tempo
ocorreu que o comendador terminara alguns negcios que o trouxeram  corte, e
teve de partir para a fazenda.

Foi um golpe nos
projetos do rapaz.

Poderia ele
continuar a entreter aquela esperana que a sua boa estrela lhe deparara?

Assentou de dar
batalha campal. A moa, que parecia sentir inclinao para ele, no ops grande
resistncia e confessou que sentia renascer-lhe a simpatia de outro tempo,
acrescentando que se no esqueceria dele.

Clemente Soares
era um dos mais perfeitos comediantes que tm escapado ao teatro. Simulou
algumas lgrimas, expectorou alguns soluos e despediu-se de Carlotinha como se
tivesse por ela a maior paixo deste mundo.

Quanto ao
comendador, que era o mais sincero dos trs, sentiu separar-se de um cavalheiro
to distinto como Clemente Soares, ofereceu-lhe os seus servios, e pediu com
instncia que no deixasse de o ir visitar  fazenda.

Clemente
agradeceu e prometeu.

VI

Quis a desgraa
de Medeiros que os negcios lhe corressem mal; duas ou trs catstrofes
comerciais o puseram s portas da morte.

Clemente Soares
fez quanto pde para salvar a casa de que dependia o seu futuro, mas nenhum
esforo era possvel contra um desastre marcado pelo destino, que  o nome que
se d  tolice dos homens ou ao concurso das circunstncias.

Achou-se sem
emprego nem dinheiro.

Castrioto
compreendeu a situao precria do rapaz pelo cumprimento que este lhe fez
nesse tempo, justamente porque Castrioto, tendo sido julgada casual a sua
falncia, alcanara proteo e meios para continuar o negcio.

No pior da sua
posio, recebeu Clemente uma carta em que o comendador o convidava a ir passar
algum tempo na fazenda.

Sabedor da
catstrofe de Medeiros, queria o comendador naturalmente dar a mo ao rapaz.
Este no esperou que repetisse o convite. Escreveu logo dizendo que da a um
ms se poria em marcha.

Efetivamente um
ms depois saa Clemente Soares em caminho do municpio de ***, onde era a
fazenda do comendador Brito.

O comendador
esperava-o ansioso. E no menos ansiosa estava a moa, no sei se porque j lhe
tivesse amor, se porque ele fosse uma distrao no meio da montona vida rural.

Recebido como
amigo, tratou Clemente Soares de pagar a hospitalidade, fazendo-se conviva
alegre e divertido.

Ningum o poderia
melhor do que ele.

Dotado de grande
perspiccia, compreendeu em poucos dias como entendia o comendador a vida do
campo, e tratou de o lisonjear por todos os modos.

Infelizmente, dez
dias depois da sua chegada  fazenda, adoeceu gravemente o comendador Brito,
por maneira que o mdico poucas esperanas deu  famlia.

Era ver o zelo
com que Clemente Soares servia de enfermeiro do doente, procurando por todos os
meios suavizar-lhe os males. Passava noites em claro, ia aos povoados quando
era necessrio fazer alguma coisa mais importante, consolava o doente j com
palavras de esperanas, j com animada conversa, cujo fim era distra-lo de
pensamentos lgubres.

 Ah! dizia o
pobre velho, que pena que eu o no conhecesse h mais tempo! Bem vejo que  um
verdadeiro amigo.

 No me elogie,
comendador, dizia Clemente Soares, no me elogie, que  tirar o mrito, se o
h, destes deveres agradveis ao meu corao.

O procedimento de
Clemente influiu no nimo de Carlotinha, que nesse desafio de solicitude soube
mostrar-se esposa dedicada e reconhecida. Ao mesmo tempo fez com que em seu
corao se desenvolvesse o grmen de afeto que Clemente de novo lhe lanara.

Carlotinha era
uma moa frvola; mas a doena do marido, a perspectiva da viuvez, o desvelo do
rapaz, tudo fez nela uma profunda revoluo.

E mais que tudo,
a delicadeza de Clemente Soares, que, durante esse tempo de to graves
preocupaes para ela, nenhuma palavra de amor lhe dirigiu.

Era impossvel
que o comendador escapasse  morte.

Na vspera desse
fatal dia, chamou os dois a si, e disse com voz fraca e comovida:

 Tu, Carlota,
pela afeio e respeito que me tiveste durante a nossa vida de casados; tu,
Clemente, pela verdadeira dedicao de amigo que me tens provado, sois ambos as
duas nicas criaturas de quem levo saudades deste mundo, e a quem devo gratido
nesta e na outra vida...

Um soluo de
Clemente Soares cortou a palavra ao moribundo.

 No chores, meu
amigo, disse o comendador com voz terna, a morte na minha idade, no  s
inevitvel,  tambm necessria.

Carlota estava
banhada em lgrimas.

 Ora, pois,
continuou o comendador, se me querem fazer o ltimo favor, ouam-me.

Passou um
relmpago pelos olhos de Clemente Soares. O rapaz inclinou-se sobre a cama. O
comendador tinha os olhos fechados.

Houve um longo
silncio, no fim do qual o comendador abriu os olhos e continuou:

 Consultei
novamente a minha conscincia e Deus, e ambos aprovam o que vou fazer. So
ambos moos e merecem-se. Se se amarem, juram casar-se?

 Oh! no fale
assim, disse Clemente.

 Por que no? Eu
j tenho os ps na sepultura; no me fica mal dizer isto. Quero deixar felizes
as pessoas a quem mais devo...

Foram as suas
ltimas palavras. No dia seguinte, s oito horas da manh, deu a alma a Deus.

Algumas pessoas
da vizinhana ainda assistiram aos ltimos instantes do fazendeiro. Fez-se o
enterro no dia seguinte, e pela tarde pediu o nosso Clemente Soares um cavalo,
despediu-se da jovem viva, e tomou caminho da corte.

No veio, porm,
at  Corte. Deixou-se estar nas imediaes da fazenda, e no fim de oito dias
apareceu l em busca de no sei que objeto que lhe havia esquecido.

Carlotinha,
quando soube que o rapaz estava na fazenda, teve um momento de regozijo, de que
logo se arrependeu em respeito  memria do marido.

Curta foi a
conversa dos dois. Mas foi quanto bastou para fazer a felicidade de Clemente.

 V, disse ela,
que eu bem compreendo a grandeza de sua alma nesta separao. Mas prometa que
voltar daqui a seis meses...

Juro.

VII

Pedira o
comendador aquilo que os dois desejavam ardentemente.

Seis meses depois
eram casados o jovem Clemente Soares e a gentil viva; no houve nenhuma
escritura de separao de bens, pela simples razo de que o noivo foi o primeiro
que props a idia. Verdade  que se a props,  porque tinha a certeza de que
no seria aceita.

No era Clemente
homem que se encafuasse numa fazenda e se contentasse com a paz domstica.

Dois meses depois
de casado, vendeu a fazenda e os escravos, e veio estabelecer vivenda na corte,
onde hoje foi conhecida a sua aventura.

Nenhuma casa lhe
fechou as portas. Um dos primeiros que o visitou foi o negociante Medeiros,
ainda em tristes circunstncias, e por tal modo que chegou a lhe pedir algum dinheiro
emprestado.

Clemente Soares
fez a felicidade da mulher durante um ano ou pouco mais. Mas no passou da.
Dentro de pouco tempo, Carlotinha estava arrependida do casamento; era tarde.

Soube a moa de
algumas aventuras amorosas do marido, e censurou-lhe esses atos de
infidelidade; mas Clemente Soares motejou do caso, e Carlotinha recorreu s
lgrimas.

Clemente levantou
os ombros.

Comeou uma srie
de desgostos para a moa, que ao fim de trs anos de casada estava magra e
doente, e ao fim de quatro expirou.

Fez-lhe Clemente
um pomposo enterro a que assistiram at alguns ministros de Estado. Vestiu-se
de preto durante um ano, e quando acabou o luto foi viajar para se distrair da
perda, dizia ele.

Quando voltou, encontrou
os mesmos afetos e consideraes. Algumas pessoas diziam ter queixas dele, a
quem chamavam ingrato. Mas Clemente Soares no se importava do que a gente
dizia.

Aqui acaba a
histria.

Como! E a
moralidade? A minha histria  isto. No  uma histria,  um esboo, menos que
um esboo,  um trao. No me proponho a castigar ningum, salvo Carlotinha,
que se achou bem punida de ter amado outro homem em vida do marido.

Quanto a Clemente
Soares nenhuma punio teve, e eu no hei de inventar no papel aquilo que se
no d na vida. Clemente Soares viveu festejado e estimado por todos, at que
morreu de apoplexia, no meio de muitas lgrimas, que no eram mais sinceras do
que ele foi durante sua vida.
