Conto, Longe dos Olhos, 1876

Longe dos Olhos

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 3/1876 a 5/1876.

CAPTULO
PRIMEIRO

Na verdade, era pena que uma moa
to prendada de qualidades morais e fsicas, como a filha do desembargador,
nenhum sentimento inspirasse ao Bacharel Aguiar. Mas no a lastime a leitora,
porque o Bacharel Aguiar nada dizia ao corao de Serafina, apesar dos seus
talentos, da rara elegncia das suas maneiras, de todos quantos dotes costumam
adornar um heri de romance.

E no  romance isto, seno histria
verdica e real, pelo que, vai esta narrativa com as exguas propores de uma
notcia, sem enfeites de estilo nem recheio de reflexes. O caso conto como o
caso foi.

Sabido que os dois se no amavam
nem pendiam para l, convm saber mais que o gosto, o plano e no sei se tambm
o interesse dos pais  que eles se amassem e casassem. Os pais punham uma
coisa, e Deus dispunha outra. O comendador Aguiar, pai do bacharel, insistia
ainda mais no casamento, pelo desejo que tinha de o meter na poltica, o que
lhe parecia fcil desde que o filho se tornasse genro do desembargador, membro
ativssimo de um dos partidos e por agora deputado  Assemblia Geral.

O desembargador pela sua parte achava
que lhe no fazia mal nenhum a filha participar da pingue herana que devia
receber o filho do comendador, por morte deste.

Pena era que os dois jovens,
esperanas de seus pais, derrubassem todos estes planos olhando um para o outro
com a mxima indiferena. As famlias visitavam-se freqentemente, as reunies
e as festas sucediam-se, mas nem Aguiar nem Serafina pareciam dar um passo para
o outro. To grave caso exigia pronto remdio, e foi o comendador quem tomou a
resoluo de lho dar sondando o esprito do bacharel.

 Joo, disse o velho pai certa
noite de domingo, depois do ch, achando-se com o filho a ss no gabinete:
Acaso nunca pensaste em ser homem poltico?

 Oh! nunca! respondeu o bacharel
espantado com a pergunta. Por que razo pensaria eu na poltica?

 Pela mesma razo porque outros
pensam...

 Mas eu no tenho vocao.

 A vocao faz-se.

Joo sorriu.

O pai continuou.

 No te fao esta pergunta  toa.
J houve quem me perguntasse a mesma coisa a teu respeito, eu no tive que responder
porque a falar verdade as razes que me davam eram de peso.

 Quais eram?

 Diziam-me que tu andavas em
colquios e conferncias com o desembargador.

 Eu? Mas naturalmente converso
com ele;  pessoa da nossa amizade.

 Foi o que eu disse. A pessoa
pareceu convencer-se da razo que eu lhe dava, e ento imaginou outra coisa...

O bacharel arregalou os olhos 
espera de ouvir outra coisa, enquanto o comendador acendia um charuto.

 Imaginou ento, continuou o comendador
puxando uma fumaa, que tu andavas... quero dizer... que pretendias... em suma,
um namoro!

 Um namoro!

  verdade.

 Com o desembargador?

 Velhaco! com a filha.

Joo Aguiar deu uma gargalhada. O
pai pareceu rir tambm, mas reparando bem no era um riso, era uma careta.

Depois de um silncio:

 Mas no vejo que houvesse alguma
coisa de admirar, disse o comendador; tem-se visto namorar muito rapaz e muita
moa. Tu ests na idade do casamento, ela tambm; nossas famlias visitam-se
com freqncia; vocs falam-se com intimidade. Que admira que um estranho
supusesse alguma coisa?

 Tem razo; mas no  verdade.

 Pois tanto melhor... ou tanto
pior.

 Pior?

 Magano! disse o velho pai
afetando um ar galhofeiro, parece-te que a moa  algum peixe podre? Pela minha
parte, entre as moas com que temos relaes de famlia, nenhuma acho que se
lhe compare.

 Oh!

 Oh! qu!

 Protesto.

 Protestas? Achas ento que
ela...

 Acho que  muito formosa e prendada,
mas no acho que seja a mais formosa e prendada de todas as que conhecemos...

 Mostra-me alguma...

 Ora, h tantas!

 Mostra-me uma.

 A Ceclia por exemplo, a Ceclia
Rodrigues, para o meu gosto  muito mais bonita que a filha do desembargador.

 No digas isso; uma lambisgia!

 Meu pai! disse Joo Aguiar com
um tom de ressentimento que fez pasmar o comendador.

 Que ? perguntou este.

Joo Aguiar no respondeu. O
comendador arrugou a testa e interrogou o rosto mudo do filho. No leu, mas
adivinhou alguma coisa desastrosa;  desastrosa, entenda-se, para os seus
clculos cnjugo-polticos ou poltico-conjugais, como melhor nome haja.

 Dar-se- caso que... comeou a
dizer o comendador.

 Que eu a namore? interrompeu
galhofeiramente o filho.

 No era isso o que te ia
perguntar, acudiu o comendador (que alis no ia perguntar outra coisa), mas
visto que tocaste nesse ponto, no era mau que me dissesses...

 A verdade?

 A singela verdade.

 Gosto dela, ela gosta de mim, e aproveito
esta ocasio meu pai, para...

 Para nada, Joo!

O bacharel fez um gesto de
espanto.

 Casar, no ? perguntou o
comendador. Mas tu no vs a impossibilidade de semelhante coisa? Impossvel,
no digo que seja; tudo pode acontecer neste mundo, se a natureza o pede. Mas a
sociedade tem suas leis que no devemos violar, e segundo elas esse casamento 
impossvel.

 Impossvel!

 Tu levas-lhe em dote os meus
bens, a tua carta de bacharel e um princpio de carreira. Que te traz ela? Nem
sequer essa beleza que s tu lhe vs. Demais, e isto  o importante, no se
dizem boas coisas daquela famlia.

 Calnias!

 Pode ser, mas calnias que
correm e se acreditam; e visto que tu no podes fazer na vspera do casamento
um manifesto aos povos desmentindo o que se diz e provando que nada  verdade,
segue-se que as calnias triunfaro.

Era a primeira vez que o bacharel
conversava com o pai a respeito daquele grave ponto do seu corao. Aturdido
com as objees dele, no achou logo que responder e todo se limitou a
interromp-lo com um ou outro monosslabo. O comendador continuou no mesmo tom
e concluiu dizendo que esperava dele no lhe desse um grave desgosto no fim da
vida.

 Por que te no levou a fantasia
 filha do desembargador ou outra nas mesmas condies? A Ceclia, no, nunca
ser minha nora. Pode casar contigo,  verdade, mas ento no sers meu filho.

Joo Aguiar no achou que
responder ao pai. Ainda que achasse, no o poderia fazer porque quando deu
acordo de si ele estava longe.

O bacharel foi para o seu quarto.

CAPTULO II

Entrando no quarto, Joo Aguiar
fez alguns gestos de enfado e zanga e de si para si prometeu que, embora no
agradasse ao pai, havia de casar com a formosa Ceclia, cujo amor era para ele
j uma necessidade da vida... O pobre rapaz to depressa fez este protesto como
entrou a ficar frio com a idia de uma luta, que se lhe afigurava odiosa para
ele e para o pai, em todo o caso triste para ambos. As palavras deste
relativamente  famlia da namorada fizeram-lhe grave impresso no esprito;
mas ele concluiu, que ainda sendo verdadeira a murmurao, nada tinha com isso
a formosa Ceclia, cujas qualidades morais estavam acima de todo o elogio.

A noite correu assim nestas e
noutras reflexes at que o bacharel dormiu e na manh seguinte alguma coisa se
lhe havia dissipado das apreenses da vspera.

 Tudo se pode vencer, disse ele;
o que  preciso  ser constante.

O comendador, porm, tinha dado o
passo mais difcil que era falar no assunto ao filho; vencido o natural
acanhamento que resultava da situao de ambos, aquele assunto tornou-se
assunto obrigado de quase todos os dias. As visitas  casa do desembargador
amiudaram-se; amiudaram-se igualmente as deste  casa do comendador. Os dois
jovens foram assim metidos  casa um do outro; mas se Joo Aguiar parecia frio,
Serafina parecia glida. Os dois estimavam-se antes, e ainda se estimavam
ento; entretanto, a nova situao que lhes haviam criado, estabelecera entre
ambos uma certa repulsa que a polidez mal disfarava.

Porquanto, leitora amiga, o
desembargador fizera  filha um discurso igual ao do comendador. As qualidades
do bacharel foram postas em relevo com suma habilidade; as razes financeiras
do casamento, melhor direi as vantagens dele foram levemente indicadas de
maneira a desenhar aos olhos da moa um brilhante futuro de prolas e
carruagens.

Infelizmente (tudo se conspirava
contra os dois pais), infelizmente havia no corao de Serafina um obstculo
semelhante ao que Joo Aguiar tinha no seu, Serafina amava a outro. No se
atreveu a diz-lo ao pai, mas foi diz-lo a sua me, que no aprovou nem
desaprovou a escolha visto que a senhora pensava pela boca do marido, a quem
foi transmitida a revelao da filha.

 Isso  uma loucura, exclamou o
desembargador; esse rapaz (o escolhido)  bom corao, tem carreira, mas a
carreira est no princpio, e demais... creio que  um pouco leviano.

Serafina soube deste juzo do pai
e chorou muito; mas nem o pai soube das lgrimas nem que soubesse mudaria de
inteno. Um homem grave, quando resolve uma coisa, no deve expor-se ao
ridculo, resolvendo outra unicamente levado de algumas lgrimas de mulher.
Demais, a tenacidade  prova de carter; o desembargador era e queria ser homem
austero. Concluso; a moa chorou  toa, e s violando as leis da obedincia,
poderia realizar os desejos do seu corao.

Que fez ento ela? Recorreu ao
tempo.

 Quando meu pai vir que eu sou
constante, pensou Serafina, h de consentir no que pede o corao.

E dizendo isto, entrou a lembrar-se
das amigas a quem acontecera o mesmo e que  fora de pacincia e tenacidade
domaram os pais. O exemplo alentou-a; sua resoluo era definitiva.

Outra esperana tinha a filha do
desembargador; era que o filho do comendador se casasse, o que no era
impossvel nem improvvel.

Nesse caso, cumpria-lhe ser com
Joo Aguiar extremamente reservada a fim de que ele no viesse a conceber
esperanas a seu respeito, o que tornaria muito precria a situao e daria
triunfo ao pai. Ignorava a boa moa que Joo Aguiar fazia a mesma reflexo, e
pelo mesmo motivo se mostrava frio com ela.

Um dia, andando as duas famlias
na chcara da casa do comendador, em Andara, aconteceu encontrarem-se os dois
numa alameda, quando justamente no passava ningum. Ambos mostraram-se
incomodados com aquele encontro e de boa vontade teriam recuado; mas no era
natural nem bonito.

Joo Aguiar resolveu
cumpriment-la apenas e ir adiante, como quem levava o pensamento preocupado.
Parece que isto foi fingido demais, porque no melhor do papel, Joo Aguiar
tropea num pedao de cana que se achava no cho e cai.

A moa deu dois passos para ele,
que apressadamente se levantou:

 Machucou-se? perguntou ela.

 No, D. Serafina, no me
machuquei, disse ele, limpando com o leno os joelhos e as mos.

 Papai est cansado de ralhar com
o feitor; mas  o mesmo que nada.

Joo Aguiar apanhou o pedao de
cana e atirou-o para uma moita de bambus. Durante esse tempo vinha-se
aproximando um moo, visita da casa, e Serafina pareceu um tanto confusa com a
presena dele, no porque ele viesse mas por ach-la a conversar com o
bacharel. A leitora, que  perspicaz, adivinhou j que  o namorado de
Serafina; e Joo Aguiar, que no  menos perspicaz que a leitora, percebeu a
coisa do mesmo modo.

 Ainda bem, disse ele consigo.

E cumprimentando a moa e o rapaz
ia seguindo pela alameda fora quando Serafina amavelmente o chamou.

 No nos acompanha? disse ela.

 Com muito gosto, balbuciou o
bacharel.

Serafina fez um sinal ao namorado para
que ele se tranqilizasse, e os trs seguiram a conversar de coisas que no
interessam  nossa histria.

No; h uma que interessa e no
posso omitir.

Tavares, o namorado da filha do
desembargador, no compreendeu que ela, chamando o filho do comendador a seguir
caminho com eles, tinha por fim evitar que o pai ou a me a encontrasse s com
o namorado, o que agravaria singularmente a situao. H namorados a quem 
preciso dizer tudo; Tavares era um deles. Inteligente e atilado em todas as
outras coisas, era neste particular uma verdadeira toupeira.

Por esse motivo, apenas ouviu o
convite da moa, a cara, que j anunciava mau tempo, passou a anunciar temporal
desfeito, o que tambm no escapou ao bacharel.

 Sabe que o Dr. Aguiar levou
agora uma queda? disse Serafina olhando para Tavares.

 Ah!

 No desastrosa, disse o
bacharel, isto , no me fez mal nenhum; mas... ridcula.

 Ah! protestou a moa.

 Uma queda  sempre ridcula,
tornou Joo Aguiar em tom axiomtico; e podem j imaginar o que seria do meu
futuro, se eu fosse...

 O qu? perguntou Serafina.

 Seu namorado.

 Que idia! exclamou Serafina.

 Que dvida pode haver nisso?
perguntou Tavares com um sorriso irnico.

Serafina estremeceu e baixou os
olhos.

Joo Aguiar respondeu rindo:

 A coisa era possvel, mas
deplorvel.

Serafina lanou um olhar de
repreenso ao seu namorado e voltou-se rindo para o bacharel.

 No diz isso por desdm, acho
eu?

 Oh! por quem ! Digo isto
porque...

 A vem Ceclia! exclamou a irm
mais moa de Serafina, aparecendo no fim da alameda.

Serafina que estava a olhar para o
filho do comendador viu-o estremecer e sorriu-se. O bacharel olhou para o lado
de onde logo apareceu a dama dos seus pensamentos. A filha do desembargador
inclinou-se para o ouvido de Tavares e murmurou:

 Ele diz isto... por causa
daquilo.

Aquilo era a Ceclia que chegava,
no to formosa quanto queria Joo Aguiar, nem to pouco como parecia ao
comendador.

Aquele encontro casual na alameda,
aquela queda, aquela vinda de Tavares e de Ceclia to a propsito, tudo
melhorou a situao e desafogou a alma dos dois jovens destinados por seus pais
a um casamento que lhes parecia odioso.

CAPTULO III

De inimigos que deviam ser os dois
condenados ao casamento passaram a ser naturalmente aliados. Esta aliana veio
devagar, porque, apesar de tudo, ainda se passaram algumas semanas sem que
nenhum deles comunicasse ao outro a situao em que se achava.

O bacharel foi o primeiro que
falou, e no ficou pouco pasmado ao saber que o desembargador nutria a respeito
da filha igual plano ao de seu pai. Haveria acordo dos dois pais? foi a
primeira pergunta que ambos fizeram consigo mesmo; mas houvesse ou no, o
perigo para eles no diminua nem aumentava.

 Oh! sem dvida, dizia Joo
Aguiar, sem dvida que eu seria muito feliz se os desejos de nossos pais
correspondessem aos de nossos coraes; mas h um abismo entre ns e a unio
seria...

 Uma desgraa, conclua afoitamente
a moa. Pela minha parte, confio no tempo; confio sobretudo em mim; ningum
leva uma moa  fora para a igreja e quando tal coisa se fizesse ningum lhe
podia arrancar dos lbios uma palavra por outra.

 Todavia, nada impede que  liga
de nossos pais, disse Joo Aguiar, opusssemos ns uma liga... ns quatro.

A moa abanou a cabea.

 Para qu? disse ela.

 Mas...

 A verdadeira liga  a vontade.
Sente-se com fora de ceder? Ento  que no ama...

 Oh! amo como se pode amar!

 Ah!...

 A senhora  bela; mas Ceclia
tambm o , e o que eu vejo nela no  a beleza, quero dizer as graas fsicas,
 a alma incomparvel que Deus lhe deu!

 Amam-se h muito?

 H sete meses.

 Admira que ela nunca me dissesse
nada.

 Talvez receio...

 De qu?

 De revelar o segredo do seu
corao... Bem sei que no h crime nisto, todavia pode ser que por um
sentimento de discrio exagerada.

 Tem razo, disse Serafina depois
de alguns instantes; tambm eu nada lhe disse a meu respeito. Demais, entre ns
no h grande intimidade.

 Mas deve haver, h de haver,
disse o filho do comendador. V-se que nasceram para ser amigas; ambas to
igualmente boas e belas. Ceclia  um anjo... Se soubesse o que me disse quando
eu lhe contei a proposta de meu pai!

 Que disse?

 Estendeu-me a mo apenas; foi
tudo quanto me disse; mas esse gesto era to eloqente! Eu traduzi-o por uma
expresso de confiana.

 Foi mais feliz do que eu?

 Ah!

 Mas no falemos nisto. O
essencial  que tanto eu como o senhor tenhamos feito uma boa escolha. O cu h
de proteger-nos; estou certa disso.

A conversa continuou assim por
este modo singelo e franco. Os dois pais, que ignoravam absolutamente o objeto
da conversa deles, imaginavam que a natureza os ajudava no plano do casamento
e, longe de impedir, lhes facilitavam as ocasies.

Graas a este equvoco, os dois
podiam repetir essas doces prticas em que cada um ouvia o seu prprio corao
e falava do objeto escolhido por ele. No era um dilogo, eram dois monlogos,
algumas vezes interrompidos, mas, sempre longos e cheios de animao.

Com o tempo vieram eles a fazer-se
confidentes mais ntimos; esperanas, arrufos, cimes, todas as alternativas de
um namoro, comunicados um ao outro; um ao outro se consolavam e se aconselhavam
em casos em que eram necessrios consolao e conselho.

Um dia o comendador disse ao filho
que era conhecido o namoro dele com a filha do desembargador, e que o casamento
podia ser feito naquele ano.

Joo Aguiar caiu das nuvens.
Compreendeu, porm, que a aparncia enganava ao pai, e o mesmo podia acontecer
s pessoas estranhas.

 Mas nada h, meu pai.

 Nada?

 Juro-lhe que...

 Retira-te e lembra-te do que te
disse...

 Mas...

O comendador havia j voltado as costas.
Joo Aguiar ficou s a braos com a nova dificuldade. Para ele, a necessidade
de uma confidente era j invencvel. E onde acharia melhor que a filha do
desembargador? Era idntica a situao de ambos, iguais os interesses; alm
disso, havia em Serafina uma soma de sensibilidade, uma reflexo, uma
prudncia, uma confiana, como ele no encontraria em nenhuma outra pessoa.
Ainda quando a outra pessoa pudesse dizer-lhe as mesmas coisas que a filha do
desembargador, no lhas diria com a mesma graa, e a mesma doura; um no sei o
que o levava a lastimar no poder faz-la feliz.

 Meu pai, tem razo, dizia ele s
vezes consigo; se eu no amasse a outra, devia amar a esta, que  certamente
comparvel a Ceclia. Mas  impossvel; meu corao est preso a outros
laos...

A situao, entretanto,
complicava-se, toda a famlia de Joo Aguiar dizia-lhe que a sua verdadeira e
melhor noiva era a filha do desembargador. Para acabar com todas essas
insinuaes, e seguir os impulsos do seu corao, teve o bacharel idia de
raptar Ceclia, idia extravagante e s filha do desespero, visto que o pai e a
me da namorada nenhum obstculo punham ao casamento deles. Ele mesmo
reconheceu que o recurso era um despropsito. Ainda assim disse-o a Serafina,
que amigavelmente o repreendeu:

 Que idia foi essa! exclamou a
moa, alm de desnecessrio, no era... no era decorosa. Olhe, se fizesse isso
nunca mais devia falar-me...

 No me perdoaria?

 Nunca!

 Entretanto, a minha posio 
dura e triste.

 No o  menos a minha.

 Ser amado, poder ser feliz
tranqilamente feliz para todos os dias da minha vida...

 Oh! isso!

 No cr?

 Quisera crer. Mas est-me a
parecer que a felicidade que sonhamos quase nunca sai  medida dos nossos
desejos, e que mais vale uma quimera que uma realidade.

 Adivinho, disse Joo Aguiar.

 Adivinha o qu?

 Algum arrufo.

 Oh! no! nunca estivemos melhor;
nunca andamos mais tranqilos do que agora.

 Mas...

 Mas no permite que s vezes a
dvida entre no corao? No  ele do mesmo barro que os outros?

Joo Aguiar refletiu alguns
instantes.

 Talvez tenha razo, disse ele
enfim, a realidade no ser sempre tal qual a sonhamos. Mas isto mesmo  uma
harmonia na vida,  uma grande perfeio do homem. Se vssemos logo a realidade
como ela h de ser quem daria um passo para ser feliz?...

 Isso  verdade! exclamou a moa
e deixou-se ficar pensativa enquanto o bacharel lhe contemplava a admirvel
cabea e a graciosa maneira com que ela trazia os cabelos penteados.

A leitora h de desconfiar muita
coisa s teorias dos dois confidentes relativamente  felicidade. Pela minha
parte, posso afianar que Joo Aguiar no pensava uma s palavra que disse; no
o pensava antes, quero eu dizer; ela porm tinha o secreto poder de lhe influir
as suas idias e sentimentos. No poucas vezes dizia ele que se ela fosse fada
podia dispensar a vara de condo; bastava falar.

CAPTULO IV

Um dia, Serafina recebeu uma carta
de Tavares dizendo-lhe que no voltaria mais  casa de seu pai, por este lhe
haver mostrado m cara nas ltimas vezes que ele l estivera.

M cara  exagerao de Tavares,
cuja desconfiana era extrema e s vezes pueril;  certo que o desembargador
no gostava dele, depois que soube das intenes com que ali ia, e  possvel,
 at certo que o seu modo afetuoso para com ele sofreu alguma diminuio. A
fantasia de Tavares  que fez daquilo m cara.

Eu aposto que o leitor, em caso
igual, redobrava de atenes com o pai, a ver se lhe reconquistava as boas
graas, e entretanto ia gozando a fortuna de ver e contemplar a dona dos seus
pensamentos. Tavares no fez assim; tratou logo de romper as suas relaes.

Serafina sentiu sinceramente esta
resoluo do namorado. Escreveu-lhe dizendo que refletisse bem e voltasse
atrs. Mas o namorado era homem teimoso; meteu os ps  parede, e no voltou.

Jurar-lhe amor isso fez ele, e no
deixava de lhe escrever todos os dias, cartas muito longas, muito repassadas de
sentimento e de esperanas.

Joo Aguiar soube do que se
passara e procurou por sua vez dissuadi-lo da funesta resoluo.

Tudo foi baldado.

 A desconfiana  o nico defeito
dele, dizia Serafina ao filho do comendador; mas  grande.

  um defeito bom e mau, observou
Joo Aguiar.

 No  sempre mau.

 Mas como no h criatura
perfeita,  justo relevar-lhe esse nico defeito.

 Oh! de certo; contudo...

 Contudo?

 Preferia que o defeito fosse
outro.

 Outro qual?

 Outro qualquer. A desconfiana 
uma triste companheira; arreda toda a felicidade.

 Eu a esse respeito, no tenho
motivo de queixa... Ceclia tem a virtude oposta num grau que me parece
excessivo. H nela um qu de simplria...

 Oh!

Aquele oh de Serafina foi como que
um protesto e repreenso, mas acompanhado de um sorriso, no digo aprovador,
mas benvolo. Defendia a moa ausente, mas talvez achasse que Joo Aguiar tinha
razo.

Dois dias depois adoeceu levemente
o bacharel. A famlia do desembargador foi visit-lo. Serafina escrevia-lhe
todos os dias. Ceclia,  intil diz-lo, escrevia-lhe tambm. Mas havia uma
diferena: Serafina escrevia melhor; havia mais sensibilidade na sua linguagem.
Pelo menos, as cartas dela foram relidas mais vezes que as de Ceclia.

Quando ele se levantou da cama,
estava bom fisicamente, mas recebeu um golpe na alma. Ceclia ia para a roa
durante dois meses; eram manias do pai.

O comendador estimou este
incidente, supondo que de uma vez para sempre o filho a esqueceria. O bacharel,
entretanto, sentiu muito a separao.

A separao efetuou-se dai a cinco
dias. Ceclia e Joo Aguiar escreveram um ao outro grandes protestos de amor.

 Dois meses! dizia o bacharel da
ltima vez que lhe falara. Dois meses  a eternidade...

 Sim, mas havendo constncia...

 Oh! essa!

 Essa havemos de t-la ambos. No
te esqueas de mim, sim?

 Juro.

 Falars de mim muitas vezes com
Serafina?

 Todos os dias.

Ceclia partiu.

 Est muito triste? disse a filha
do desembargador logo que nessa mesma tarde falou ao bacharel.

 Naturalmente.

 So apenas dois meses.

 Fceis de suportar.

 Fceis?

 Sim, conversando com a senhora,
que sabe tudo, e fala destas coisas de corao como senhora de esprito que .

 Sou um eco das suas palavras.

 Quem dera que assim fosse! Eu
poderia ento ter vaidade de mim.

Joo Aguiar disse estas palavras
sem tirar os olhos da mo de Serafina, que mui graciosamente brincava com os
cabelos.

A mo de Serafina era realmente uma
bela mo; nunca, porm, lhe pareceu mais bela do que naquele dia, nem ela a
movera nunca com tamanha graa.

Nessa noite Joo Aguiar sonhou com
a mo da filha de desembargador. Que lhe havia de pintar a fantasia? Imaginou
estar no alto das nuvens, a olhar pasmado o cu azul, de onde viu
repentinamente sair uma mo alva e delicada, a mo de Serafina, que se estendia
para ele, que lhe acenava, que o chamava para o cu.

Riu-se Joo Aguiar deste singular
sonho e foi cont-lo no dia seguinte  proprietria da mo. Tambm ela riu do
sonho; mas tanto ele como ela pareciam estar convencidos l no seu interior que
a mo era efetivamente anglica e era natural v-la em sonhos.

Quando ele se despediu:

 No v sonhar outra vez com ela,
disse a moa estendendo a mo ao bacharel.

 No desejo outra coisa.

No sonhou outra vez com a mo,
mas pensou muito nela e dormiu tarde. No dia seguinte para se castigar desta
preocupao, escreveu uma longa carta a Ceclia falando muito de seu amor e dos
projetos de futuro.

Ceclia recebeu a carta cheia de
contentamento, porque muito tempo havia j que ele no escrevia carta to
longa. A resposta dela foi ainda mais comprida.

Um perodo da carta convm ser
transcrito aqui:

Dizia assim:

Se
eu fosse ciumenta... se eu fosse desconfiada... havia de te dizer agora muito
duras coisas. Mas no digo, descansa; amo-te e sei que me amas. Mas por que
havia eu de dizer duras coisas? Porque nada menos de catorze vezes falas no
nome de Serafina. Catorze vezes! Mas so catorze vezes em catorze pginas, que
so todas minhas.

Joo Aguiar no se lembrava de
haver escrito tanta vez o nome da filha do desembargador; lembrava-se, porm,
de haver pensado muito nela enquanto escrevia a carta. Felizmente nada mau
resultara, e o jovem namorado achou que ela tinha razo na queixa.

Nem por isso deixou de mostrar o
trecho acusador  namorada do Tavares, que sorriu e agradeceu a confiana. Mas
foi um agradecimento com a voz trmula e um sorriso de ntima satisfao.

Parece que as catorze pginas deviam
servir para longo tempo, porque a seguinte carta foi apenas de duas e meia.

A moa queixou-se, mas com
brandura, e concluiu pedindo-lhe que fosse v-la  roa, ao menos por dois
dias, visto que o pai resolvera l ficar mais quatro meses, alm do prazo
marcado para a volta.

Era difcil ao filho do comendador
ir l ter sem oposio do pai. Imaginou porm um meio bom; inventou um cliente
e um processo, ambos os quais o digno comendador engoliu, cheio de satisfao.

Joo Aguiar partiu para a roa.

Ia por dois dias apenas; os dois
dias correm nas delcias que o leitor pode imaginar, mas com uma sombra, uma
coisa inexplicvel. Joo Aguiar, ou porque aborrecesse a roa ou porque amasse
demais a cidade, sentia-se um pouco tolhido ou no sei que seja. No fim de dois
dias desejava ver-se outra vez no bulcio da corte. Felizmente, Ceclia
procurava compensar-lhe os tdios do lugar, mas parece que era excessiva nas
mostras de amor que lhe dava, pois o digno bacharel dava sinais de impacincia.

 Serafina tem mais comedimento,
dizia ele.

No quarto dia escreveu uma carta 
filha do desembargador, que lhe respondeu com outra, e se eu disser  leitora
que tanto um como outro beijaram as cartas recebidas, a leitora ver que a
histria se aproxima do fim e que a catstrofe est prxima.

Catstrofe, na verdade, e terrvel
foi a descoberta que tanto o bacharel como a filha do desembargador fizeram de
que se amavam e j de longos dias. Foi principalmente a ausncia que lhes
confirmou a descoberta. Os dois confidentes aceitaram esta novidade um pouco
perplexos, mas muito contentes.

A alegria era travada de remorso.
Havia dois embaados, a quem eles fizeram grandes protestos e juramentos
repetidos.

Joo Aguiar no resistiu ao novo
impulso do corao. A imagem da moa, sempre presente, fazia-lhe tudo
cor-de-rosa.

Serafina, porm, resistiu; a dor
que ia causar no nimo de Tavares deu-lhe foras para calar o seu prprio
corao.

Em conseqncia disto, comeou a
evitar toda a ocasio de encontro com o jovem bacharel. Isto e lanar lenha ao
fogo era a mesma coisa. Joo Aguiar sentiu um obstculo com que no contava, o
amor cresceu-lhe e apoderou-se dele.

No contava com o tempo e o
corao da moa.

A resistncia de Serafina durou o
que duram as resistncias de quem ama. Serafina amava; no fim de quinze dias
abateu as armas. Tavares e Ceclia estavam vencidos.

Eu desisto de dizer ao leitor o
abalo produzido naquelas duas almas pela ingratido e perfdia dos dois felizes
namorados. Tavares enfureceu-se e Ceclia definhou longo tempo; afinal Ceclia
casou e Tavares est diretor de companhia.

No h dor eterna.

 Bem dizia eu! exclamou o
comendador quando o filho lhe impetrou licena para ir pedir a mo de Serafina.
Bem dizia eu que vocs deviam casar! Custou muito!

 Alguma coisa.

 Mas agora?

 Definitivo.

Casaram-se h alguns anos aqueles
dois confidentes. Recusaram fazer  fora aquilo que o corao lhes indicou
depois.

H de ser duradouro o casamento.
