Conto, S, 1885

S

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em Gazeta
de Notcias, de 06/01/1885.

Bonifcio, depois de fechar a
porta, guardou a chave, atravessou o jardim e meteu-se em casa. Estava s, finalmente s. A frente da casa dava para uma rua pouco freqentada e quase sem
moradores. A um dos lados da chcara corria outra rua. Creio que tudo isso era
para os lados de Andara.

Um grande escritor, Edgar Poe,
relata, em um de seus admirveis contos, a corrida noturna de um desconhecido
pelas ruas de Londres,  medida que se despovoam, com o visvel intento de
nunca ficar s. 'Esse homem, conclui ele,  o tipo e o gnio do crime
profundo;  o homem das multides.' Bonifcio no era capaz de crimes, nem
ia agora atrs de lugares povoados, tanto que vinha recolher-se a uma casa
vazia. Posto que os seus quarenta e cinco anos no fossem tais que tornassem
inverossmil uma fantasia de mulher, no era amor que o trazia  recluso. Vamos
 verdade: ele queria descansar da companhia dos outros. Quem lhe meteu isso na
cabea,  sem o querer nem saber,  foi um esquisito desse tempo, dizem que
filsofo, um tal Tobias que morava para os lados do Jardim Botnico. Filsofo
ou no, era homem de cara seca e comprida, nariz grande e culos de tartaruga.
Paulista de nascimento, estudara em Coimbra, no tempo do rei e vivera muitos
anos na Europa, gastando o que possua, at que, no tendo mais que alguns
restos, arrepiou carreira. Veio para o Rio de Janeiro, com o plano de passar a
S. Paulo; mas foi ficando e aqui morreu. Costumava ele desaparecer da cidade
durante um ou dois meses; metia-se em casa, com o nico preto que possua, e a
quem dava ordem de lhe no dizer nada. Esta circunstncia f-lo crer maluco, e
tal era a opinio entre os rapazes; no faltava, porm, quem lhe atribusse
grande instruo e rara inteligncia, ambas inutilizadas por um ceticismo sem
remdio. Bonifcio, um dos seus poucos familiares, perguntou-lhe um dia que
prazer achava naquelas recluses to longas e absolutas; Tobias respondeu, que
era o maior regalo do mundo.

 Mas, sozinho! tanto tempo assim,
metido entre quatro paredes, sem ningum!

 Sem ningum, no.

 Ora, um escravo, que nem sequer
lhe pode tomar a bno!

 No, senhor. Trago um certo
nmero de idias; e, logo que fico s, divirto-me em conversar com elas.
Algumas vm j grvidas de outras, e do  luz cinco, dez, vinte e todo esse
povo salta, brinca, desce, sobe, s vezes lutam umas com outras, ferem-se e algumas
morrem; e quando dou acordo de mim, l se vo muitas semanas.

Foi pouco depois dessa conversao
que vagou uma casa de Bonifcio. Ele, que andava aborrecido e cansado da vida
social, quis imitar o velho Tobias; disse em casa, na loja do Bernardo e a
alguns amigos, que ia estar uns dias em Iguau, e recolheu-se a Andara. Uma
vez que a variedade enfarava, era possvel achar sabor da monotonia. Viver s,
duas semanas inteiras, no mesmo espao, com as mesmas coisas, sem andar de casa
em casa e de rua em rua, no seria um deleite novo e raro? Em verdade, pouca
gente gostar da msica montona; Bonaparte, entretanto, lambia-se por ela, e
sacava dali uma teoria curiosa, a saber, que as impresses que se repetem so
as nicas que verdadeiramente se apossam de ns. Na chcara de Andara a
impresso era uma e nica.

Vimo-lo entrar. Vamos v-lo
percorrer tudo, salas e alcovas, jardim e chcara. A primeira impresso dele,
quando ali se achou, espcie de Robinson, foi um pouco estranha, mas agradvel.
Em todo o resto da tarde no foi mais que proprietrio; examinou tudo, com
pacincia minuciosidade, paredes, tetos, portas, vidraas, rvores, o tanque, a
cerca de espinhos. Notou que os degraus que iam da cozinha para a chcara,
estavam lascados, aparecendo o tijolo. O fogo tinha grandes estragos. Das
janelas da cozinha, que eram duas, s uma fechava bem; a outra era atada com um
pedao de corda. Buracos de rato, rasges no papel da parede, pregos deixados,
golpes de canivete no peitoril de algumas janelas, tudo descobriu, e contra
tudo tempestuou com uma certa clera postia e eficaz na ocasio.

A tarde passou depressa. S
reparou bem que estava s, quando lhe entraram em casa as ave-marias, com o seu
ar de vivas recentes; foi a primeira vez na vida que ele sentiu a melancolia
de tais hspedes. Essa hora eloqente e profunda, que ningum mais cantar como
o divino Dante, ele s a conhecia pelo gs do jantar, pelo aspecto das viandas,
ao tinir dos pratos, ao reluzir dos copos, ao burburinho da conversao, se jantava
com outras pessoas, ou pensando nelas, se jantava s. Era a primeira vez que
lhe sentia prestgio, e no h dvida que ficou acabrunhado. Correu a acender
luzes e cuidou de jantar.

Jantou menos mal, ainda que sem
sopa; tomou caf, preparado por ele mesmo, na mquina que levara, e encheu o
resto da noite como pde. s oito horas, indo dar corda ao relgio, resolveu
deix-lo parar, a fim de tornar mais completa a solido; leu algumas pginas de
uma novela, bocejou, fumou e dormiu.

De manh, ao voltar do tanque e
tomado o caf, procurou os jornais do dia, e s ento advertiu que, de
propsito, os no mandara vir. Estava to acostumado a l-los, entre o caf e o
almoo, que no pde achar compensao em nada.

 Pateta! exclamou. Que tinha que
os jornais viessem?

Para matar o tempo, foi abrir e
examinar as gavetas da mesa  uma velha mesa, que lhe no servia h muito, e
estava ao canto do gabinete, na outra casa. Achou bilhetes de amigos, notas,
flores, cartas de jogar, pedaos de barbante, de lacre, penas, contas antigas,
etc. Releu os bilhetes e as notas. Algumas destas falavam de coisas e pessoas
dispersas ou extintas: 'Lembrar ao cabeleireiro para ir  casa de D.
Amlia'.  'Comprar um cavalinho de pau para o filho do
Vasconcelos'.  'Cumprimentar o Ministro da Marinha'. 
'No esquecer de copiar as charadas que D. Antnia me pediu'. 
'Ver o nmero da casa dos suspensrios'.  'Pedir ao secretrio
da Cmara um bilhete de tribuna para o dia da interpelao'. E assim outras
algumas to concisas, que ele mesmo no chegava a entender, como estas, por
exemplo:  'Soares, prendas, a cavalo'.  'Ouro e p de
mesa'.

No fundo da gaveta, deu com uma
caixinha de tartaruga, e dentro um molhozinho de cabelos, e este papel:
'Cortados ontem, 5 de novembro, de manh'. Bonifcio estremeceu...

 Carlota! exclamou.

Compreende-se a comoo. As outras
notas eram pedaos da vida social. Solteiro, e sem parentes, Bonifcio fez da
sociedade uma famlia. Contava numerosas relaes, e no poucas ntimas. Vivia
da convivncia, era o elemento obrigado de todas as funes, parceiro
infalvel, confidente discreto e cordial servidor, principalmente de senhoras.
Nas confidncias, como era pacfico e sem opinio, adotava os sentimentos de
cada um, e tratava sinceramente de os combinar, de restaurar os edifcios que,
ou o tempo, ou as tempestades da vida, iam gastando. Foi uma dessas
confidncias, que o levou ao amor expresso naquele molhozinho de cabelos,
cortados ontem, 5 de novembro; e esse amor foi a grande data memorvel da vida dele.

 Carlota! repetiu ainda.

Reclinado na cadeira, contemplava
os cabelos, como se fossem a prpria pessoa; releu o bilhete, depois fechou os
olhos, para recordar melhor. Pode-se dizer que ficou um pouco triste, mas de
uma tristeza que a fatuidade tingia de alguns tons alegres. Reviveu o amor e a
carruagem  a carruagem dela , os ombros soberbos e as jias magnficas  os
dedos e os anis, a ternura da amada e a admirao pblica...

 Carlota!

Nem almoando, perdeu a
preocupao. E, contudo, o almoo era o melhor que se podia desejar em tais
circunstncias, mormente se contarmos o excelente Borgonha que o acompanhou,
presente de um diplomata; mas nem assim.

Fenmeno interessante:  almoado,
e acendendo um charuto, Bonifcio pensou na boa fortuna, que seria, se ela lhe
aparecesse, ainda agora, a despeito dos quarenta e quatro anos. Podia ser;
morava para os lados da Tijuca. Uma vez que isto lhe pareceu possvel,
Bonifcio abriu as janelas todas da frente e desceu  chcara, para ir at 
cerca que dava para a outra rua. Tinha esse gnero de imaginao que a
esperana d a todos os homens; figurou na cabea a passagem de Carlota, a
entrada, o assombro e o reconhecimento. Sups at que lhe ouvia a voz; mas era
o que lhe acontecia desde manh, a respeito de outras. De quando em quando,
chegavam-lhe ao ouvido uns retalhos de frases:

 Mas, Sr. Bonifcio...

 Jogue; a vaza  minha...

 Jantou com o desembargador?

Eram ecos da memria. A voz da
dona dos cabelos era tambm um eco. A diferena  que esta lhe pareceu mais
perto, e ele cuidou que, realmente, ia ver a pessoa. Chegou a crer que o fato
extraordinrio da recluso se prendesse ao encontro com a dama, nico modo de a
explicar. Como? Segredo do destino. Pela cerca, espiou disfaradamente para a
rua, como se quisesse embaar a si mesmo, e no viu nem ouviu nada mais que uns
cinco ou seis ces que perseguiam a outro, latindo em coro. Comeou a chuviscar; apertando a chuva, correu a meter-se em casa; entrando, ouviu
distintamente dizer:

 Meu bem!

Estremeceu; mas era iluso. Chegou
 janela, para ver a chuva, e lembrou-se que um de seus prazeres, em tais
ocasies, era estar  porta do Bernardo ou do Farani, vendo passar a gente, uns
para baixo, outros para cima, numa contradana de guarda-chuvas... A impresso
do silncio, principalmente, afligia mais que a da solido. Ouvia alguns pios
de passarinho, cigarras,  s vezes um rodar de carro, ao longe,  alguma voz
humana, ralhos, cantigas, uma risada, tudo fraco, vago e remoto, e como que
destinado s a agravar o silncio. Quis ler e no pde; foi reler as cartas e
examinar as contas velhas. Estava impaciente, zangado, nervoso. A chuva, posto
que no forte, prometia durar muitas horas, e talvez dias. Outra cainada aos
fundos, e desta vez trouxe-lhe  memria um dito do velho Tobias. Estava em
casa dele, ambos  janela, e viram passar na rua um co, fugindo de dois, que
ladravam; outros ces, porm, saindo das lojas e das esquinas, entravam a
ladrar tambm, com igual ardor e raiva, e todos corriam atrs do perseguido.
Entre eles ia o do prprio Tobias, um que o dono supunha ser descendente de
algum co feudal, companheiro das antigas castels. Bonifcio riu-se, e
perguntou-lhe se um animal to nobre era para andar nos tumultos de rua.

 Voc fala assim, respondeu
Tobias, porque no conhece a mxima social dos ces. Viu que nenhum deles
perguntou aos outros o que  que o perseguido tinha feito; todos entraram no
coro e perseguiram tambm, levados desta mxima universal entre eles:  Quem
persegue ou morde, tem sempre razo,  ou, em relao  matria da perseguio,
ou, quando menos, em relao s pernas do perseguido. J reparou? Repare e
ver.

No se lembrava do resto, e,
alis, a idia do Tobias pareceu-lhe ininteligvel, ou, quando menos, obscura.
Os ces tinham cessado de latir. S continuava a chuva. Bonifcio andou,
voltou, foi de um lado para outro, comeava a achar-se ridculo. Que horas
seriam? No lhe restava o recurso de calcular o tempo pelo sol. Sabia que era
segunda-feira, dia em que costumava jantar na Rua dos Beneditinos, com um
comissrio de caf. Pensou nisso; pensou na reunio do conselheiro ***, que
conhecera em Petrpolis; pensou em Petrpolis, no whist; era mais feliz
no whist que ao voltarete, e ainda agora recordava todas as
circunstncias de uma certa mo, em que ele pedira licena, com quatro trunfos,
rei, manilha, basto, dama... E reproduzia tudo, as cartas dele com as de cada
um dos parceiros, as cartas compradas, a ordem e a composio das vazas.

Era assim que as lembranas de
fora, coisas e pessoas, vinham de tropel agitando-se em volta dele, falando,
rindo, fazendo-lhe companhia. Bonifcio recompunha toda a vida exterior,
figuras e incidentes, namoros de um, negcios de outro, diverses, brigas,
anedotas, uma conversao, um enredo, um boato. Cansou, e tentou ler; a
princpio, o esprito saltava fora da pgina, atrs de uma notcia qualquer, um
projeto de casamento; depois caiu numa sonolncia teimosa. Espertava, lia cinco
ou seis linhas, e dormia. Afinal, levantou-se, deixou o livro e chegou  janela
para ver a chuva, que era a mesma, sem parar nem crescer, nem diminuir, sempre
a mesma cortina dgua despenhando-se de um cu amontoado de nuvens grossas e
eternas.

Jantou mal, e, para consolar-se,
bebeu muito Borgonha. De noite, fumado o segundo charuto, lembrou-se das
cartas, foi a elas, baralhou-as e sentou-se a jogar a pacincia. Era um
recurso: pde assim escapar s recordaes que o afligiam, se eram ms, ou que
o empuxavam para fora, se eram boas. Dormiu ao som da chuva, e teve um
pesadelo. Sonhou que subia  presena de Deus, e que lhe ouvia a resoluo de
fazer chover, por todos os sculos restantes do mundo.

 Quantos mais? perguntou ele.

 A cabea humana  inferior s
matemticas divinas, respondeu o Senhor; mas posso dar-te uma idia remota e
vaga:  multiplica as estrelas do cu por todos os gros de areia do mar, e
ters uma partcula dos sculos...

 Onde ir tanta gua, Senhor?

 No chover s gua, mas tambm
Borgonha e cabelos de mulheres bonitas...

Bonifcio agradeceu este favor.
Olhando para o ar, viu que efetivamente chovia muito cabelo e muito vinho, alm
da gua, que se acumulava no fundo de um abismo. Inclinou-se e descobriu
embaixo, lutando com a gua e os tufes, a deliciosa Carlota; e querendo descer
para salv-la, levantou os olhos e fitou o Senhor. J o no viu ento, mas
somente a figura do Tobias, olhando por cima dos culos, com um fino sorriso
sardnico e as mos nas algibeiras. Bonifcio soltou um grito e acordou.

De manh, ao levantar-se, viu que
continuava a chover. Nada de jornais: parecia-lhe j um sculo que estava
separado da cidade. Podia ter-lhe morrido algum amigo, ter cado o ministrio,
ele no sabia de nada. O almoo foi ainda pior que o jantar da vspera. A chuva
continuava, farfalhando nas rvores, nem mais nem menos. Vento nenhum. Qualquer
bafagem, movendo as folhas, quebraria um pouco a uniformidade da chuva; mas
tudo estava calado e quieto, s a chuva caa sem interrupo nem alterao, de
maneira que, ao cabo de algum tempo, dava ela prpria a sensao da
imobilidade, e no sei at se a do silncio.

As horas eram cada vez mais
interminveis. Nem havia horas; o tempo ia sem as divises que lhe d o
relgio, como um livro sem captulos. Bonifcio lutou ainda, fumando e jogando;
lembrou-se at de escrever algumas cartas, mas apenas pde acabar uma. No
podia ler, no podia estar, ia de um lado para outro, sonolento, cansado,
resmungando um trecho de pera: Di quella pira... Ou ento: In mia
mano alfin tu sei... Planeava outras obras na casa, agitava-se e no
dominava nada. A solido, como paredes de um crcere misterioso, ia-se-lhe
apertando em derredor, e no tardaria a esmag-lo. J o amor-prprio o no
retinha; ele desdobrava-se em dois homens, um dos quais provava ao outro que
estava fazendo uma tolice.

Eram trs horas da tarde, quando
ele resolveu deixar o refgio. Que alegria, quando chegou  Rua do Ouvidor! Era
to inslita que fez desconfiar algumas pessoas; ele, porm, no contou nada a
ningum, e explicou Iguau como pde.

No dia seguinte foi  casa do
Tobias, mas no lhe pde falar; achou-o justamente recluso. S duas semanas
depois, indo a entrar na barca de Niteri, viu adiante de si a grande estatura
do esquisito, e reconheceu-o pela sobrecasaca cor de rap, comprida e larga.
Na barca, falou-lhe:

 O senhor pregou-me um logro...

 Eu? perguntou Tobias,
sentando-se ao lado dele.

 Sem querer,  verdade, mas
sempre fiquei logrado.

Contou-lhe tudo; confessou-lhe
que, por estar um pouco fatigado dos amigos, tivera a idia de recolher-se por
alguns dias, mas no conseguiu ir alm de dois, e, ainda assim, com
dificuldade. Tobias ouviu-o calado, com muita ateno; depois, interrogou-o
minuciosamente, pediu-lhe todas as sensaes, ainda as mais ntimas, e o outro
no lhe negou nenhuma, nem as que teve com os cabelos achados na gaveta. No
fim, olhando por cima dos culos, tal qual como no pesadelo, disse-lhe com um
sorriso copiado do diabo:

 Quer saber? Voc esqueceu-se de
levar o principal da matalotagem, que so justamente as idias...

Bonifcio achou-lhe graa, e riu.

Tobias, rindo tambm, deu-lhe um
piparote na testa. Em seguida, pediu-lhe notcias, e o outro deu-lhas de vria
espcie, grandes e pequenas, fatos e boatos, isto e aquilo, que o velho Tobias
ouviu, com olhos meio cerrados, pensando em outra coisa.
