Crtica, Eduardo Prado, 1901

Eduardo Prado

Texto-Fonte:

Crtica Literria de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado
em O Comrcio de So Paulo, 1901.

A ltima vez que vi Eduardo Prado foi na
vspera de deixar o Rio de Janeiro para recolher a S. Paulo, dizem que com o
grmen do mal e da morte em si. Naquela ocasio era todo vida e sade. Quem
ento me dissesse que ele ia tambm deixar o mundo, no me causaria espanto,
porque a injustia da natureza acostuma a gente aos seus golpes; mas,  certo
que eu buscaria maneira de obter outras horas como aquela, em que me detivesse
ao p dele, para ouvi-lo e admir-lo.

S falamos de arte. Ouvi-lhe notcias e
impresses, senti-lhe o gosto apurado e a crtica superior, tudo envolvido
naquele tom ameno e simples, que era um relevo mais aos seus dotes. No
tnhamos intimidade; faltou-nos tempo e a prtica necessria. Antes daquela vez
ltima, apenas falamos trs ou quatro, o bastante para consider-lo bem e
cotejar o homem com o escritor. Eduardo Prado era dos que se deixam penetrar
sem esforo e com prazer. O que agora li a seu respeito na primeira mocidade,
na escola e nos ltimos anos, referido por amigos que parecem no o esquecer
mais, confirma a minha impresso pessoal. Alis, os seus escritos mostravam bem
o homem. Apanhava-se o sentimento da harmonia que ajustava nele a vida moral,
intelectual e social.

Principalmente artista e pensador,
possua o divino horror  vulgaridade, ao lugar comum e  declamao. Se
entrasse na vida poltica, que apenas atravessou com a pena, em dias de luta,
levaria para ela qualidades de primeira ordem, no contando o humour,
to diverso da chalaa e to original nele. Mas a erudio e a histria, no
menos que a arte, eram agora o seu maior encanto. Sabia bem todas as coisas que
sabia.

Naturalmente remontei comigo, durante
aquela boa hora, e ainda depois dela, ao tempo das cartas de viagem que nos deu
to rica amostra dum grande talento que viria a crescer e subir. A matria em
si convidava ao egotismo, mas ele no padecia desse mal. Tambm faria correr o
risco da repetio de coisas vistas e pintadas, que se no acham aqui. A
faculdade de ver claro e largo, a arte de dizer originalmente a sensao
pessoal, ele as possua como os principais que hajam andado as terras ou
rasgado os mares deste mundo. Inveno de estilo, observao aguda, erudio
discreta e vasta, graa, poesia e imaginao produziram essas pginas vivas e
saborosas. Aquela partida de Npoles, sob um cu chuvoso e de chumbo, no se esquece.
Rel-se com encanto essa explicao do tempo spero, durante o qual o cu
napolitano se recompe, para comear novamente a pera com os coros de
pescadores e as barcarolas, a msica de luz e de azul. Assim a frica, assim
todas as partes onde quer que este brasileiro levou a nsia de ver homens e
coisas, cidades e costumes, a natureza vria entre runas perptuas, atravs de
regies remotas...

Conta-se que ele chorou, quando morreu
Ea de Queiroz. Agora, que ambos so mortos, algum que imaginasse e escrevesse
o encontro das duas sombras,  maneira de Luciano, daria uma curiosa pgina de
psicologia. As confabulaes de tais espritos so dignas de memria. Sterne
escreveu que um dia, conversando com Voltaire... e imagina-se o que diriam
eles. Imagina-se o que diriam, todas as noites, Stendhal e Byron, passeando no
solitrio foyer do teatro Scala. Quando Montaigne ouvia as histrias que
Amyot lhe ia contar, podemos ver a delcia de ambos e admitir que as visitas
continuam no outro mundo. Assim se podia dizer do Ea e do Eduardo, por um
texto que exprimisse o talento, o amor das coisas finas e belas, e, enfim, a
grande simpatia que um inspirava ao outro.

Quando me despedi de Eduardo Prado,
naquele dia, vim perguntando a mim mesmo se teria vida bastante para ler e
admirar as obras-primas que esse talentoso brasileiro levava no crebro em
gestao, ou em grmen, e durante muitos anos viriam abastecer a nossa lngua e
a nossa terra. Seis dias depois, era ele que morria. Chamei injusta  natureza;
bastaria dizer  indiferente.


