TRADUO, Suplcio de uma uma mulher,1865

Oliver Twist

Texto-fonte:
Oliver Twist, Charles Dickens,
Traduo de Machado de Assis e Ricardo Lsias,
1. Ed., So Paulo Hedra, 2002.

Publicado originalmente em Jornal da
  Tarde, Rio de Janeiro, de 23/04/1870 a 23/08/1870.

NDICE

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

CAPTULO
  VIII

CAPTULO
  IX

CAPTULO
  X

CAPTULO
  XI

CAPTULO
  XII

CAPTULO XIII

CAPTULO XIV

CAPTULO XV

CAPTULO XVI

CAPTULO XVII

CAPTULO XVIII

CAPTULO XIX

CAPTULO XX

CAPTULO XXI

CAPTULO XXII

CAPTULO XXIII

CAPTULO XXIV

CAPTULO XXV

CAPTULO XXVI

CAPTULO XXVII

CAPTULO XXVIII

Captulo PRIMEIRO
Do lugar em que Oliver Twist nasceu e das circunstncias que
  ocorreram nessa ocasio.

Dentre
  os vrios monumentos pblicos que enobrecem uma cidade de Inglaterra, cujo nome
  tenho a prudncia de no dizer, e  qual no quero dar um nome imaginrio, um
  existe comum  maior parte das cidades grandes ou pequenas:  o asilo da
  mendicidade.

L em
  certo dia, cuja data no  necessrio indicar, tanto mais que nenhuma
  importncia tem, nasceu o pequeno mortal que d nome a este livro.

Muito
  tempo depois de ter o cirurgio dos pobres da parquia introduzido o pequeno
  Oliver neste vale de lgrimas, ainda se duvidava se a pobre criana viveria ou
  no; se sucumbisse,  mais que provvel que estas memrias nunca aparecessem,
  ou ento ocupariam poucas pginas, e deste modo teriam o inaprecivel mrito de
  ser o modelo de biografia mais curioso e exato que nenhum pas em nenhuma poca
  jamais produziu.

Ainda
  que eu no esteja disposto a sustentar que seja extraordinrio favor da fortuna
  nascer a gente num asilo de mendigos, posso afirmar que, nas circunstncias
  atuais, era o melhor que podia acontecer a Oliver Twist.

A razo
   esta. Houve imensa dificuldade em fazer com que Oliver desempenhasse as
  funes respiratrias, exerccio fatigante, mas necessrio  nossa existncia.
  Durante algum tempo ficou o pecurrucho deitado no colcho de l grosseira,
  fazendo esforos para respirar, oscilando entre a vida e a morte e
  inclinando-se mais para esta. Se durante esse tempo Oliver estivesse rodeado de
  avs solicitados, tias assustadas, amas experientes e mdicos profundamente
  sbios, morreria infalivelmente. Mas como no havia ningum, exceto uma pobre
  velha que havia bebido um trago demais e um mdico pago por ano para esse
  trabalho, Oliver e a natureza ficaram sozinhos em face um do outro.

O
  resultado foi que, aps alguns esforos, Oliver respirou, espirrou e deu
  notcia aos habitantes do asilo da nova carga que ia pesar  parquia, soltando
  um grito to agudo quanto se podia esperar de um varo que s desde trs
  minutos e meio possua este utilssimo presente que se chama voz.

No
  momento em que Oliver dava essa primeira prova da fora e da liberdade de seus
  pulmes, agitou-se a pequena coberta remendada da cama de ferro. Levantou-se
  com dificuldade o rosto plido de uma moa, e uma voz fraca articulou estas
  palavras:

-- Quero
  ver meu filho antes de morrer!

O mdico
  estava assentado diante da lareira, aquecendo-se e esfregando as mos. Ouvindo
  a voz da moa levantou-se e, aproximando-se da cama, disse com mais doura do que
  se podia esperar do seu ofcio:

-- Oh!
  No fale de morrer!

Deus
  proteja a pobre mulher! -- disse a enfermeira, metendo na algibeira uma garrafa
  cujo contedo provava nesse momento com evidente satisfao; quando ela tiver
  vivido tanto como eu e tiver tido treze filhos e perdido onze, visto que s me
  restam dois aqui no asilo, ento h de pensar de outra maneira. -- Ora, vamos,
  pense na felicidade de ser me deste pequeno.

E
  provvel que essa perspectiva consoladora da ventura maternal no produzisse grande
  efeito. A enferma sacudiu tristemente a cabea e estendeu as mos para o filho.

O
  mdico passou-lhe a criana aos braos; ela aplicou com ternura, na testa do
  pequeno, os lbios plidos e frios; depois passou as mos pelo prprio rosto,
  caiu na cama e morreu.

Esfregaram-lhe
  o peito, as mos, as fontes; mas o sangue estava gelado para sempre;
  falavam-lhe de esperana e de amparo; mas ela estava tanto tempo privada disso
  que achou melhor expirar.

-- Est
  acabado, Sra. Haingummy -- disse o mdico.

-- Ah!
  Pobre moa,  verdade disse a enfermeira apanhando a rolha da garrafa verde,
  que havia cado na cama, enquanto ela se abaixara para segurar o pequeno.

-- 
  intil mandar-me chamar se a criana berrar -- disse o mdico com resoluo. 
  provvel que no fique sossegado. Nesse caso d-lhe um pouco de mingau.

O
  mdico ps o chapu na cabea e, dirigindo-se para a porta, parou junto da cama
  e disse:

-- Era
  bonita! De onde veio ela?

-- Trouxeram-na ontem  noite -- respondeu a velha -- por ordem do inspetor; foi achada na rua;
  fizera um longo trajeto, porque os sapatos estavam em frangalhos; mas de onde
  vinha e para onde ia? Ningum sabe dizer.

O mdico
  inclinou-se para o corpo e, levantando a mo esquerda da defunta, disse
  abanando a cabea:

-- Sempre
  a mesma histria; no tem anel de aliana... No era casada... Boa noite!

O
  doutor foi jantar, e a enfermeira, depois de levar  boca a garrafa, assentou-se
  numa cadeira junto  lareira e entrou a vestir o pequeno.

Que
  exemplo da influncia da roupa ofereceu ento o pequeno Oliver Twist! Envolvido
  na coberta que at ento fora sua nica roupa, podia ser filho de um fidalgo ou
  mendigo; era impossvel ao estranho mais presumido dizer qual era a sua classe
  na sociedade; mas quando o meteram num vestidinho velho de morim, amarelecido
  nesse uso, achou logo seu lugar; filho da parquia, rfo do asilo de mendigos,
  vtima da fome, destinado aos maus-tratos, ao desprezo de todos,  piedade de
  ningum.

Oliver
  berrava com quantas foras tinha. Se ele soubesse que era rfo, abandonado 
  terna compaixo dos bedis e dos inspetores, talvez berrasse mais alto.

Captulo II
Como
  Oliver Twist cresceu e foi educado.

Durante
  os oito ou dez meses que se seguiram, Oliver Twist foi vtima de um sistema
  contnuo de trapaas e decepes.

Foi
  criado com mamadeira.

As
  autoridades da parquia perguntaram com dignidade s autoridades do asilo se
  no havia alguma mulher, residente no estabelecimento, que pudesse dar a Oliver
  Twist a consolao e o alimento de que ele carecia. As autoridades do asilo
  responderam humildemente que no havia;  vista do qu, as autoridades da
  parquia tiveram a humanidade e a magnanimidade de ordenar que Oliver fosse
  mandado para uma casa dependente do asilo, situada a trs milhas de distncia,
  onde uns vinte ou trinta infratores da lei dos pobres passavam o dia a rolar
  pelo cho sem medo de comer muito nem andar agasalhados demais. Tratava deles
  uma velha que recebia os delinqentes  razo de trs tostes por semana e por
  cabea.

Trs
  tostes fazem uma boa soma para sustentar um pequeno; pode comprar-se muita
  coisa com trs tostes; quanto baste para abarrotar o estmago de uma criana e
  alterar-lhe a sade.

A
  velha era prudente; sabia o que convinha aos pequenos e o que lhe convinha a
  ela; em conseqncia disto, gastava consigo a maior parte do auxlio
  hebdomadrio e reduziu a pequena gerao da parquia a um regime mais escasso do
  que aquele que se dava na casa onde Oliver nasceu. A boa senhora esticava cada
  vez mais os limites conhecidos da economia e mostrava ter consumada filosofia
  na prtica da vida.

Todos
  conhecem a histria daquele outro filsofo experimental, que imaginara uma bela
  teoria para fazer com que um cavalo vivesse sem comer e que a aplicou to bem
  que chegou a dar ao cavalo a rao de fio de palha. Indubitavelmente, ficaria
  aquele animal gil e ligeiro, se no tivesse morrido vinte e quatro horas antes
  de receber pela primeira vez uma forte rao de ar puro.

No
  que respeita  velha, a cujo cuidado Oliver foi confiado, esse resultado era
  quase sempre a conseqncia natural do seu sistema. Justamente na ocasio em
  que uma criana conseguia existir com uma escassssima poro de alimento,
  acontecia, oito vezes em dez casos, que a infame criana tinha a maldade de
  cair doente de frio e de fome ou deixar-se cair no fogo por descuido; ento
  partia a desgraada criaturinha para o outro mundo, onde ia encontrar os pais
  que no conhecera neste.

Fazia-se
  s vezes uma devassa do caso mais interessante que de costume, a respeito de
  uma criana abafada debaixo de um colcho ou achada numa bacia de gua a ferver
  em dia de varela, posto que este ltimo acidente fosse raro, porque na casa da
  velha quase nunca se lavava roupa. Nessas ocasies o jri fazia algumas
  perguntas de atrapalhar, ou ento os habitantes da parquia tinham a audcia de
  assinar uma reclamao; mas estas impertinncias eram logo reprimidas pelo
  relatrio do mdico ou pelo testemunho do bedel. O mdico declarava que abrira
  o corpo e nada achara dentro, o que era muito provvel; e o bedel jurava sempre
  no sentido das autoridades da parquia -- o que revelava admirvel dedicao.

Demais,
  a comisso administrativa fazia excurses peridicas a esses estabelecimentos
  secundrios, tendo o cuidado de mandar o bedel adiante para anunciar a visita;
  as crianas estavam lavadas e assediadas quando esses senhores chegavam.

Tal
  sistema de educao no daria s crianas muita fora nem grossas banhas. No
  dia em que completou nove anos, Oliver Twist era um pirralho, amarelo como um
  defunto e singularmente magro.

Oliver
  devia  natureza ou a seus pais um esprito vivo e reto, que no teve
  dificuldade em se desenvolver, apesar das privaes do estabelecimento, e foi
  talvez a isso que ele deveu ter chegado ao seu nono aniversrio natalcio.

Fosse
  como fosse, completava ele nove anos e estava nesse dia no depsito de carvo
  com dois companheiros, que receberam com ele uma dose de bofetes e foram
  metidos no dito depsito, por terem tido a audcia de dizer que estavam com
  fome. De repente a Sra. Mann, a excelente diretora da casa, foi surpreendida
  com a apario imprevista do bedel, o Sr. Bumble, que procurava abrir a porta
  do jardim.

-- Santo
  Deus!  o Sr. Bumble -- disse a Sra. Mann, pondo a cabea na janela e simulando
  uma grande alegria. -- Suzana, mande c para cima Oliver e os outros dois
  peraltas e lave-os depressa. Que prazer, que prazer tenho eu em v-lo, Sr.
  Bumble.

O Sr.
  Bumble era gordo e irritadio; em vez de responder polidamente a este
  cumprimento afetuoso, entrou a sacudir com toda a fora a porta, dando-lhe depois
  um pontap, mas um verdadeiro pontap de bedel.

-- Ser
  possvel? -- disse a Sra. Mann correndo a abrir a porta, enquanto se punham as
  crianas em liberdade. Esquecia-me que a porta estava fechada! Aqueles queridos
  pequenos fazem-me esquecer tudo. -- Queira entrar, Sr. Bumble, queira entrar.

Posto
  que este convite fosse feito com uma cortesia que abrandaria o corao mais
  duro, no comoveu o Sr. Bumble.

-- Acha
  decoroso, Sra. Mann -- perguntou ele agitando a bengala --, acha bonito fazer
  esperar os funcionrios da parquia  porta de seu jardim, quando eles vm
  desempenhar as suas funes paroquiais e visitar as crianas da parquia?
  Esquece acaso que a senhora  delegada da parquia e estipendida por ela?

-- Oh!
  No, Sr. Bumble -- respondeu a Sra. Mann humildemente. --Mas eu ia dizer a um ou
  dois destes queridinhos meninos que gostam tanto do senhor a honra que iam ter
  com a sua visita, Sr. Bumble.

Sr.
  Bumble tinha uma alta idia do seu talento oratrio e de sua importncia;
  tinha-os ostentado e defendido; acalmou-se.

-- Est
  bom, est bom -- respondeu ele. --  possvel; entremos, Sra. Mann; venho tratar
  de negcios.

A
  Sra. Mann introduziu o bedel em uma pequena sala, cujo cho era de tijolos, apresentou-lhe
  uma cadeira e apressou-se em tirar-lhe das mos a bengala e o chapu de trs
  bicos, colocando-os sobre a mesa. O Sr. Bumble enxugou a testa coberta de suor,
  lanou um olhar complacente ao chapu de trs bicos e sorriu.  verdade,
  sorriu.

-- No
  se zangue com o que lhe vou dizer -- observou a Sra. Mann com sedutora meiguice.
  -- O senhor vem cansado; se no fosse isso no lhe falaria em semelhante coisa;
  quer tomar uma gota de alguma coisa?

-- Nada,
  absolutamente nada -- disse o Sr. Bumble recusando com dignidade, mas com
  brandura.

-- No
  me h de recusar -- disse a Sra. Mann, que observara o tom do bedel --, no me h
  de recusar uma pingazinha, com gua e acar.

O Sr.
  Bumble tossiu.

-- Um
  quase nada -- disse a Sra. Mann.

-- Que
  me quer a senhora oferecer? -- perguntou o Sr. Bumble.

-- Naturalmente
  hei de ter em casa alguma coisa, para pr no caldo dos meninos quando eles
  esto doentes -- respondeu a Sra. Mann abrindo um buf, donde tirou uma garrafa
  e um copo. --  genebra.

-- A
  senhora d caldo aos meninos? -- perguntou o Sr. Bumble acompanhando com o olhar
  a operao da mistura.

-- Decerto
  que lhes dou caldo -- disse ela --, posto que custa caro; mas eu no posso ver
  sofrer; custa-me muito v-los doentes.

-- Muito
  bem -- disse o Sr. Bumble --, muito bem; a senhora  uma boa alma. (Ela ps o
  copo na mesa.) Aproveitarei a primeira ocasio para dizer isso ao conselho
  paroquial. (Aqui o Sr. Bumble puxou o copo para si.) Essas crianas tm na
  senhora uma verdadeira me. (Agitou a aguardente e a gua.) Bebo  sua sade,
  Sra. Mann. (Bebeu metade.) Agora falemos de negcios -- continuou o bedel
  tirando da algibeira uma carteira de couro. -- A criana que foi mandada com o
  nome de Oliver Twist faz hoje nove anos...

-- Queridinho!
  -- disse a Sra. Mann esfregando o olho esquerdo com a ponta do avental.

-- E
  apesar da oferta de uma recompensa de dez libras esterlinas, sucessivamente
  elevada at doze libras; apesar dos esforos incrveis e se ouso assim falar, sobrenaturais,
  da parte da parquia -- disse o Sr. Bumble --, at hoje foi impossvel descobrir
  quem  o pai, nem o nome e a condio da me.

A
  Sra. Mann levantou as mos em sinal de espanto; depois disse:

-- Mas
  como  que ele tem um nome de famlia?

O
  bedel empertigou-se com certo orgulho.

-- Fui
  eu que lho inventei -- disse ele.

-- O
  senhor?

-- Eu
  mesmo; ns damos os nomes aos enjeitados por ordem alfabtica: o ltimo era da letra
  S; chamei-lhe Swubble; este era da letra T; chamei-lhe Twist; o seguinte ser
  Unwin, o outro Volkent; tenho nomes prontos de uma ponta a outra do alfabeto; e
  em chegando ao Z, volto ao A.

-- O
  senhor  um grande letrado, Sr. Bumble -- disse a Sra. Mann.

-- 
  possvel,  possvel -- disse o bedel, evidentemente satisfeito com o
  cumprimento.

Bebeu
  o resto da genebra e continuou:

-- Como
  Oliver j no est em idade de c ficar, o conselho paroquial resolveu mand-lo
  buscar para o asilo, e eu vim cumprir essa misso. Mande-o vir.

-- Vou
  mand-lo buscar -- disse a Sra. Mann saindo da sala.

Oliver,
  que durante esse tempo foi lavado o melhor que pde ser, apareceu da a pouco
  conduzido pela sua benvola protetora.

-- Oliver,
  cumprimenta este senhor -- disse a Sra. Mann.

Oliver
  cumprimentou a um tempo o bedel, que estava assentado, e o chapu de trs bicos
  que estava na mesa.

-- Quer
  vir comigo, Oliver? -- perguntou o Sr. Bumble com majestade.

Oliver
  estava a ponto de dizer que no desejava outra coisa, quando deu com os olhos
  na Sra. Mann, que ficara por trs da cadeira do bedel e lhe mostrara a mo em
  atitude de soco; compreendeu logo o que aquilo queria dizer, porque o pulso da
  boa velha tantas vezes lhe fora aplicado s costas que era impossvel deixar de
  o ter em lembrana.

-- A
  Sra. Mann vai comigo? -- perguntou o pobre Oliver.

-- No,
   impossvel -- respondeu o Sr. Bumble --, mas h de ir v-lo de vez em quando.

No
  era isto consolador para a criana; mas, apesar da sua tenra idade, tinha ele
  j bastante sagacidade, para fingir um grande pesar de se ir embora; no lhe
  era difcil derramar lgrimas; fome e pancada fresca so muito teis quando a
  gente precisa chorar; Oliver chorou naturalmente.

A
  Sra. Mann deu-lhe mil beijos e, o que valia mais, uma fatia de po com
  manteiga, a fim de que ele no tivesse ar de esfaimado quando chegasse ao
  asilo. Com um pedao de po na mo e um bon de pano escuro, foi Oliver levado
  pelo Sr. Bumble para fora daquela humilde casa, onde um olhar ou uma palavra de
  afeio jamais lhe suavizou os seus tristes anos de infncia. E contudo
  rebentaram-lhe os soluos quando a porta se fechou; por mais miserveis que
  fossem os seus companheiros de infortnio, eram esses os nicos amigos que ele
  conhecera, e pela primeira vez sentiu ele em seu corao de criana a solido
  em que se achava neste vasto universo.

O Sr.
  Bumble caminhava apressadamente, e o pequeno Oliver, apertando nas mos a roupa
  do bedel, caminhava ao lado dele e perguntava a cada instante se estavam perto
  da casa. O Sr. Bumble respondia por modo breve e duro: j no sentia a
  influncia benfica que exerce a genebra em certos coraes.

Chegaram.

Mas
  no havia um quarto de hora que Oliver transpusera a soleira do asilo da
  mendicidade e fizera desaparecer o segundo pedao de po quando o Sr. Bumble,
  que o confiara aos cuidados de uma velha, veio dizer-lhe que era dia de
  conselho e que o conselho o mandara chamar.

Oliver
  teve medo de ver tantos homens e no deu resposta. Ficou muito espantado com a
  notcia, no sabendo se devia rir ou chorar; mas no teve tempo de longas
  reflexes, porque o Sr. Bumble teve a idia de lhe aplicar uma bengalada na
  cabea para que ficasse atento, outra nas costas para que ficasse esperto,
  ordenou-lhe que o acompanhasse e o levou para uma grande sala caiada, onde oito
  ou dez sujeitos gordos estavam  roda de uma mesa, a cuja cabeceira ficava um
  sujeito de bela corpulncia, caro redondo e vermelho, assentado em cadeira
  mais alta que as outras.

-- Cumprimente
  o conselho -- disse o Sr. Bumble.

Oliver
  enxugou duas outras lgrimas que lhe rolavam nos olhos e cumprimentou a mesa do
  conselho.

-- Como
  se chama voc? -- perguntou o presidente.

Oliver
  teve medo de ver tantos homens e no deu resposta. O bedel aplicou-lhe nova
  bengalada que o fez chorar; Oliver respondeu baixinho e com voz trmula; vendo
  isso, um sujeito de colete branco disse que ele era idiota, meio excelente de
  tranqilizar e animar o pequeno.

-- Oua
  -- disse o presidente --, voc sabe que  rfo?

-- Que
   ser rfo? -- perguntou o pobre Oliver.

-- Este
  pequeno  idiota -- disse peremptoriamente o sujeito do colete branco.

-- Silncio!
  -- disse o presidente. -- Voc sabe que no tem pai nem me e que  educado 
  custa da parquia?

-- Sei,
  sim, senhor -- respondeu Oliver chorando amargamente.

-- Por
  que chora voc? -- perguntou o sujeito do colete branco.

Era
  realmente extraordinrio; por que razo choraria Oliver?

-- Creio
  que voc no deixa de rezar todas as noites -- disse outro sujeito --, e rezar
  como bom cristo, por aqueles que lhe do de comer e de vestir...

-- Sim,
  senhor -- balbuciou a criana.

Tinha
  razo o sujeito que acabava de falar. Efetivamente era preciso que Oliver fosse
  bom cristo, e at um cristo modelo, para rezar por aqueles que lhe davam de
  comer e de vestir; mas a verdade  que no rezava, porque lho no haviam
  ensinado.

-- Est
  bem -- disse o presidente de cara rubicunda. -- Voc est aqui para ser educado e
  aprender um ofcio til.

-- Amanh
  s seis horas da manh comear a desfiar estopa -- disse o sujeito do colete
  branco.

Mandar
  que Oliver desfiasse estopa era combinar de um modo simples os dois benefcios que
  lhe prometiam; ele os reconheceu ambos com uma profunda cortesia por instigao
  do bedel, depois foi levado para uma grande sala do asilo onde, em cama dura,
  adormeceu soluando; prova evidente da brandura das leis do nosso venturoso
  pas que no impedem o sono aos pobres.

Pobre
  Oliver! Adormeceu na feliz ignorncia do que se passava em roda dele, nem
  pensava que nesse mesmo dia o conselho adotara uma resoluo que devia exercer
  em seus destinos uma influncia irresistvel. Mas a deciso estava assentada.

Vejamos
  qual ela era.

Os
  membros do conselho da administrao eram homens profundamente filsofos.
  Examinaram o asilo da mendicidade e descobriram repentinamente aquilo que os
  espritos vulgares nunca chegaram a descobrir; isto , que os pobres nadavam em
  prazer naquele estabelecimento. As classes pobres, no pensar daqueles senhores,
  tinham ali uma casa de recreio, uma taverna em que no se pagava nada, almoo,
  jantar, ch e ceia -- em suma um verdadeiro paraso de tijolos onde se gozava de
  tudo sem trabalhar.

-- Ol
  -- disse o conselho consigo --, vamos pr estas coisas em seus lugares; vamos
  acabar com isto.

Imediatamente
  estabeleceram como princpio que os pobres pudessem escolher (no se forava
  ningum) uma destas coisas: ou morrer de fome lentamente se ficassem no asilo,
  ou morrer de repente se sassem para a rua. Para este fim contratou o conselho
  com a administrao das guas uma quantidade ilimitada delas e com um mercador
  de trigo a remessa de um pouco de farinha de aveia em perodos determinados;
  concederam trs pequenas raes de mingau por dia, uma cebola duas vezes por
  semana e a metade de um po nos domingos.

A
  respeito das mulheres aprovaram outras resolues sbias e humanas, que 
  intil mencionar; por simples bondade d'alma, resolveram separar por uma
  espcie de divrcio os pobres casados, o que lhes poupava a despesa enorme de
  um processo na cmara eclesistica; e em vez de obrigar o marido a sustentar a
  famlia com o seu trabalho, tiravam-lhe a famlia e o punham outra vez celibatrio.
  No se pode dizer bem quantas pessoas em todas as classes da sociedade
  desejariam aproveitar este benefcio; mas os administradores eram homens
  previdentes e obviaram essa dificuldade; para gozar das vantagens do divrcio
  era preciso morar no asilo e viver de mingau; isto intimidava os outros.

Seis
  meses depois da chegada de Oliver Twist, o novo sistema estava em pleno vigor.
  A princpio foi um pouco dispendioso o tal sistema; era preciso pagar mais a
  empresa funerria e apertar a roupa dos pobres que emagreciam descomunalmente
  depois de uma semana ou duas de mingau; mas o nmero dos habitantes do asilo de
  mendicidade diminuiu muito e os administradores estavam no stimo cu.

O
  lugar onde as crianas comiam era uma grande sala, com cho de tijolo, tendo ao
  fundo uma grande caldeira onde o cozinheiro do asilo, de avental  cintura e
  ajudado por duas mulheres, tirava o mingau nas horas de refeio.

Cada
  criana recebia uma tigelinha cheia e nada mais, exceto nos dias de festa, em
  que se lhes dava mais duas onas e um quarto de po. As tigelas nunca
  precisavam ser lavadas; os pequenos, com as suas colheres, deixavam-nas
  completamente limpas e lustrosas; e quando acabavam esta operao, que no
  durava muito, porque as colheres eram quase do tamanho das tigelas, ficavam
  contemplando a caldeira com olhos to vidos que pareciam devor-la e lambiam
  os dedos para no perderem algum resto do mingau que lhes ficasse.

Geralmente
  a criana tem excelente apetite. Oliver Twist e seus companheiros sofriam durante
  meses as torturas de uma lenta consumpo, e a fome acabava por lhe transviar o
  esprito a ponto que um menino, alto demais para a idade que tinha e pouco
  acostumado a semelhante existncia (seu pai tivera uma casa de pasto), insinuou
  um dia aos seus companheiros que, se no tivesse maior poro de mingau por
  dia, receava devorar de noite o pequeno que dormia com ele, o qual era mais
  criana e dbil; falando assim, tinha ele o olhar desvairado e faminto e os
  outros acreditavam que ele faria realizar a ameaa.

Deliberaram
  entre si que um deles fosse nessa mesma noite pedir ao cozinheiro segunda
  poro de mingau.

A
  sorte designou Oliver.

De noite, as crianas ocuparam os seus lugares; o cozinheiro do asilo
  estava ao p da caldeira; foi servido o mingau; proferiu-se o benedicite.

O
  mingau desapareceu; as crianas cochichavam, faziam sinais a Oliver, que era
  acotovelado pelos que lhe ficavam mais perto. A fome exasperava o pobre Oliver,
  e o excesso de misria tinha-lhe tirado os cuidados; deixou o lugar e,
  caminhando com a tigela e a colher na mo, disse com voz trmula e assustada:

-- Eu
  queria mais um bocado de mingau.

O
  cozinheiro, homem gordo e bojudo, ficou plido como um defunto; ps as mos na
  caldeira para no cair; as velhas que o acompanhavam ficaram geladas de espanto
  e as crianas, de terror.

-- Que
  diz? -- perguntou o cozinheiro com voz alterada.

-- Eu
  queria mais um bocadinho -- respondeu Oliver.

O
  cozinheiro deu com a colher de pau na cabea de Oliver, apertou-o nos braos e
  chamou o bedel em altos gritos.

O
  conselho estava em sesso solene quando o Sr. Bumble, fora de si, entrou na
  sala e, dirigindo-se ao presidente, disse:

-- Sr.
  Limbkins, peo-lhe perdo; Oliver Twist pediu mais.

O
  pasmo foi geral; pintara-se o horror em todos os semblantes.

-- Pediu
  mais? -- disse o Sr. Limbkins. -- Acalme-se Sr. Bumble e responda calmamente: --
  Que ser, o senhor disse que ele pediu mais comida depois de ter recebido a
  ceia marcada pelo regulamento?

-- Sim,
  senhor -- respondeu Bumble.

-- Esse
  pequeno acaba infalivelmente na forca -- disse o sujeito do colete branco.

Ningum
  se ops a esta profecia. Rompeu logo vivssima discusso; Oliver foi preso, e
  no dia seguinte pregou-se uma carta na porta do asilo oferecendo cinco libras
  esterlinas a quem quisesse livrar a parquia de Oliver Twist; por outros
  termos, dava-se cinco libras esterlinas a Oliver Twist, a quem quer que
  precisasse de um aprendiz para qualquer ofcio ou negcio.

-- Nunca
  tive mais profunda certeza -- dizia o sujeito do colete branco lendo no dia
  seguinte o cartaz -- do que nesta ocasio: aquele rapaz h de acabar na forca!

Como
  eu me proponho a mostrar, pela obra adiante, se o sujeito do colete branco
  tinha ou no razo, prejudicaria agora esta narrao se fizesse pressentir
  desde j o desenlace dela.

Caminhemos
  devagar.

Captulo III
De
  como Oliver Twist escapou de um emprego que no era sinecura.

Depois
  de haver cometido o crime imperdovel de pedir mais uma dose de mingau, Oliver
  esteve durante oito dias estreitamente encerrado no crcere, a que o mandara a
  misericrdia do Conselho de administrao.


  primeira vista, podia supor-se que, se houvesse recebido com respeito a
  profecia do sujeito do colete branco, Oliver tinha nas mos o meio de plantar a
  reputao proftica daquele sbio administrador, atando uma ponta do seu leno
  num prego e pendurando-se na outra ponta. S havia um obstculo para a execuo
  deste ato:  que, por ordem expressa do conselho, assinalada, rubricada e
  selada por todos os membros, foram proibidos os lenos no asilo por serem
  objetos de luxo. O segundo obstculo era a tenra idade de Oliver.

Oliver
  chorou amargamente durante dias inteiros; e, quando vinham as longas e tristes
  horas da noite, punha as mozinhas diante dos olhos para no ver a escurido.
  Acocorava-se em um canto para dormir. s vezes acordava assustado e trmulo,
  nessas ocasies encostava-se  parede, como se em tocar essa superfcie dura e
  fria achasse preveno contra as trevas e solido que o rodeavam.

No
  imaginem os inimigos do sistema da lei dos pobres que, durante a sua priso,
  Oliver fosse privado do exerccio, da sociedade e das consolaes religiosas.

Quanto
  ao exerccio, como o tempo era frio, tinha ele licena para se lavar todas as
  manhs num tanque, em presena do Sr. Bumble. Podia resultar-lhe daqui algum
  defluxo; mas o Sr. Bumble removia esse inconveniente ativando a circulao do
  sangue do pequeno mediante algumas bengaladas. Quanto  sociedade, levavam-no
  de dois em dois dias ao refeitrio das crianas e a pregavam-lhe um sermo,
  para exemplo e edificao dos outros.

Longe
  de lhe recusarem as consolaes religiosas, era ele conduzido a pontaps, todas
  as noites,  sala de reza, onde, para maior gosto de sua alma, os outros
  pequenos repetiam uma orao correta e aumentada pelo conselho. Nessa orao,
  os meninos pediam ao cu que os fizesse bons, virtuosos, contentes e obedientes
  e que os preservasse dos crimes, vcios de Oliver Twist, protegido e guiado por
  Satans, amostra direta dos produtos do co tinhoso.

Ora,
  aconteceu que um dia de manh o Sr. Gamfield, limpador de chamins, ia descendo
  a rua e pensando na maneira de pagar uma poro de aluguis atrasados. Quanto
  mais pensava e calculava, tanto menos chegava  soma de cinco libras esterlinas
  de que precisava. No seu desespero de no poder perfazer aquela soma, batia na
  besta e no burro, quando deu com os olhos no cartaz que estava pregado na porta
  do asilo.

-- Ah!
  Ah! -- disse o Sr. Gamfield ao burro.

O
  burro estava nesse momento inteiramente distrado; provavelmente cogitava no
  almoo e perguntava a si mesmo se no teria um ou dois talos de couve para comer
  quando o aliviassem dos dois sacos de fuligem que levava no carrinho. No deu
  ateno  ordem do amo e continuou a andar.

O Sr.
  Gamfield dirigiu ao burro uma horrvel praga, correu atrs dele, desfechou-lhe
   cabea uma tremenda pancada que despedaaria qualquer outro crnio que no
  fosse o de um burro. Segurou-lhe na rdea e sacudiu-lhe a queixada para lhe
  recordar seus deveres de obedincia; deu volta com ele, repetiu a pancada e
  trepou a uma pedra para ler o cartaz.

O
  sujeito do colete branco estava de p  porta, com as mos nas costas, depois
  de ter opinado profundamente na sala do conselho; tinha assistido  discusso
  entre o Sr. Gamfield e o burro; sorriu com satisfao vendo o Sr. Gamfield
  aproximar-se do cartaz, porque viu que era ele o amo que convinha a Oliver.

O Sr.
  Gamfield sorriu tambm, lendo o cartaz, porque eram justamente as cinco libras
  de que ele precisava; e quanto  criana, como conhecia o regime do asilo,
  suspeitou que devia ser assaz magra para subir a uma chamin. Releu o cartaz e,
  descobrindo respeitosamente a cabea, aproximou-se do sujeito do colete branco.

-- H
  aqui um menino que a parquia deseja fazer aprendiz de alguma coisa? -- disse
  ele.

-- Sim
  -- respondeu o sujeito do colete branco com um benvolo sorriso. -- Que me quer?

-- Se
  a parquia quiser que ele aprenda um ofcio agradvel como o de limpador de
  chamins, por exemplo -- disse o Sr. Gamfield --, preciso de um aprendiz e estou
  disposto a encarregar-me dele.

-- Entre
  -- disse o sujeito do colete branco.

Quando
  o Sr. Gamfield exps ao conselho o que queria, disse o Sr. Limbkins,
  presidente:

-- O
  ofcio de limpador de chamin  bem porco.

-- Tem-se
  visto morrerem as crianas nas chamins -- disse outro sujeito.

O Sr.
  Gamfield dissipou esta dvida, alegrando muito ao sujeito do colete branco, que
  alis ficou srio depois de um olhar do presidente. O conselho entrou a
  deliberar durante alguns minutos, mas em voz to baixa que s se ouviam estas
  palavras: "Diminuio de despesa; sejamos econmicos; pode-se fazer um bom
  relatrio". Estas mesmas palavras s se ouviam porque eram energicamente
  repetidas.

Falou
  enfim o presidente:

-- Examinamos
  o seu pedido e no podemos dar-lhe o que deseja.

-- Repelimo-lo
  completamente -- disse o sujeito do colete branco.

-- Sem
  hesitao -- acrescentaram outros membros do conselho.

O Sr.
  Gamfield tinha sobre si a acusao frvola de ter morto trs ou quatro crianas
  a cacete; lembrou-se de que o conselho, por um capricho singular, teria em
  vista esta circunstncia de segunda ordem. No quis aludir a ela e tratou de
  retirar-se.

-- No
  querem dar-me o pequeno? -- disse ele na soleira da porta.

-- No
  -- disse o presidente --, salvo se diminuirmos a recompensa.

Depois de alguma discusso ficou assentado que s se dariam trs libras
  e dez shillings. Mandaram buscar Oliver que estava
  na priso. Vestiram-lhe uma camisola lavada e deram-lhe uma tigela de mingau
  acompanhada de duas onas de po, como nos dias de festa.

O Sr.
  Bumble avisou o pequeno de que o conselho ia d-lo a uma pessoa que lhe
  ensinaria um ofcio e conduziu-o  sala onde trabalhava o magistrado que devia
  lavrar o contrato. Era uma grande sala com uma grande janela. Estavam a uma
  secretria dois sujeitos velhos, um lendo um jornal, outro examinando um
  pergaminho com o auxlio de culos de tartaruga. Em frente da secretria estava
  o Sr. Limbkins acompanhado do Sr. Gamfield. Havia mais umas trs ou quatro
  pessoas.

O
  sujeito dos culos adormeceu a pouco e pouco, e houve um curto silncio, depois
  da entrada de Oliver.

-- Aqui
  est o menino -- disse o Sr. Bumble.

-- Gostar
  ele do ofcio de limpar chamins?

-- Morre
  por isso -- responde Bumble beliscando o menino.

-- Quer
  ser limpador de chamins?

-- No
  pede outra coisa -- tornou Bumble.

O
  magistrado dos culos que havia feito estas perguntas, tendo acordado ao aviso
  do Sr. Bumble, disse:

-- Bem,
  faamos os contratos.

Ps
  os culos no nariz e procurou o tinteiro.

Era o
  momento critico do destino de Oliver. Se o tinteiro estivesse no lugar onde o
  juiz o procurava, o contrato ficaria lavrado e Oliver seria entregue ao
  limpa-chamins. Mas quis o acaso que o tinteiro estivesse justamente debaixo do
  nariz do sujeito, de maneira que ele correu os olhos por toda a parte sem o
  achar. Durante essa pesquisa, deu ele com os olhos na cara de Oliver Twist,
  cuja expresso de medo e horror era to visvel que no podia escapa ao juiz,
  apesar de mope como era.

Daqui
  resultou que o juiz perguntou brandamente a Oliver se queria ser limpa-chamins
  e este ajoelhou-se dizendo que preferia morrer de fome. O contrato no foi
  lavrado. O Sr. Bumble quis intervir.

-- Cale-se
  -- disse o juiz.

O Sr.
  Bumble ficou assombrado.

-- Recusamos
  -- disse o juiz -- a nossa sano a este contrato.

-- Espero
  -- disse o Sr. Limbkins -- que o testemunho sem valor de uma criana no por em
  dvida o procedimento das autoridades.

-- No
  temos nada com essa parte -- disse em tom seco o magistrado.

-- Levem
  esse pequeno para o asilo e tratem-no bem.

Na
  mesma noite, o sujeito do colete branco afirmou formalmente que Oliver no s
  seria enforcado, mas at esquartejado. O Sr. Bumble abanou a cabea com ar
  sombrio e misterioso e disse que desejava que tal no acontecesse; a isto
  respondeu o Sr. Gamfield que estimaria bem ter ficado com o pequeno.

No
  dia seguinte, o pblico foi informado de que Oliver continuava em almoeda e que
  a pessoa que se encarregasse dele receberia cinco libras esterlinas.

CAPTULO IV
OLIVER ACHA UM EMPREGO E FAZ A SUA
  ENTRADA NO MUNDO.

Nas
  grandes famlias, quando um rapaz se adianta em anos e no se pode arranjar
  para ele um bom lugar por compra, sucesso ou reversibilidade, costuma-se met-lo
  a bordo. O conselho da administrao, para seguir to prudente exemplo salutar
  deliberou acerca da oportunidade de embarcar Oliver Twist a bordo de algum
  navio mercante com destino a algum porto insalubre.

Pareceu-lhe
  que isto era o melhor. Era provvel que o mesmo capito do navio desse cabo do
  canastro ao terrvel Oliver.

Quanto
  mais pensavam nisto, melhor lhes parecia a coisa. A concluso foi que o nico
  meio de assegurar o futuro de Oliver era embarc-lo.

O
  Sr. Bumble foi mandado em comisso a ver se achava algum capito que precisasse
  de um grumete por quem pessoa alguma se interessava. Voltava ao asilo para dar
  conta da sua misso, quando encontrou  porta o empresrio de enterros da
  parquia, o Sr. Sowerberry em pessoa.

O
  Sr. Sowerberry, alto e magro, trajando casaca preta, meias da mesma cor
  remendadas e sapatos primos-irmos das meias. A natureza no lhe dera 
  fisionomia uma expresso risonha; mas como ele achava em seu ofcio ampla
  matria para rir, tinha o andar por assim dizer elstico e a cara alegre. O
  empresrio de enterros apertou cordialmente a mo do Sr. Bumble.

-- Venho
  -- disse ele -- tomar a medida de duas mulheres que morreram a noite passada.

-- O
  senhor h de enriquecer -- disse o bedel introduzindo o polegar e o ndice na
  boceta que apresentava o empresrio dos enterros, boceta que tinha a forma de
  um pequeno caixo fnebre privilegiado sem garantia do Governo. -- Digo-lhe que
  h de enriquecer -- repetiu o Sr. Bumble batendo-lhe amigavelmente no ombro com
  a bengala.

-- Parece-lhe?
  -- disse o Sr. Sowerberry com um tom de quem no dizia sim nem no. -- Os preos
  da administrao so muito pequenos.

-- E
  os seus caixes tambm -- respondeu o bedel com um ar que se aproximava da
  pilhria, tanto quanto convinha a um funcionrio importante.

O
  Sr. Sowerberry ficou admirado, como convinha, da finura deste dito e soltou uma
  gargalhada.

-- 
  verdade, Sr. Bumble -- disse ele. -- Cumpre confessar que desde a adoo de novo sistema
  de alimentao do asilo os caixes so um pouco mais estreitos e menos
  profundos que antigamente; mas  preciso que a gente ganhe alguma coisa, a
  madeira custa caro e o ferro vem de Birmingham pelo canal.

-- Cada
  ofcio tem suas vantagens e desvantagens -- disse o Sr. Bumble --, e um bom lucro
  vale alguma coisa.

-- Dir-lhe-ei
  contudo -- continuou o Sr. Sowerberry -- que eu tenho contra mim uma grande
  desvantagem;  que as pessoas robustas morrem primeiro. Quero dizer que as
  pessoas que vivem bem durante muito tempo so as primeiras que espicham a
  canela quando entram no asilo; e olhe que trs ou quatro polegadas mais do que
  o clculo primitivo de um caixo fazem um grande furo nos lucros,
  principalmente a quem sustenta uma famlia como eu.

O
  Sr. Sowerberry dizia isto com o tom indignado de um homem que tem direito de se
  queixar; o Sr. Bumble compreendeu que isto podia produzir algumas reflexes
  desfavorveis aos interesses da parquia e mudou de conversa.

Oliver
  Twist foi o novo assunto.

-- Conhecer
  o senhor por acaso -- disse o Sr. Bumble -- algum que precise de um aprendiz? 
  um menino do asilo que l temos como uma carga s costas da parquia. Paga-se
  bem, Sr. Sowerberry, paga-se bem!

E
  falando assim, o Sr. Bumble levantava a bengala e apontava para o cartaz,
  batendo trs pancadinhas nas palavras cinco libras esterlinas que estavam
  impressas em letras grandes.

-- Homem!
  -- disse o empresrio de enterros segurando na aba da casaca do Sr. Bumble. -- 
  justamente o que eu precisava... Que lindo boto  esse seu; no tinha reparado
  nele.

-- Sim,
  no  feio -- disse o bedel, olhando com orgulho para os grandes botes de cobre
  que ornavam a sua casaca. -- A gravura  igual ao selo paroquial: o bom
  samaritano tratando do viajante ferido. Foi um presente de festas que me fez o
  conselho. A primeira vez que usei da casaca foi para assistir  devassa
  relativa quele mercador sem recursos que morreu de noite debaixo da porta.

-- Lembra-me
  -- disse o empresrio. -- O jri declarou que o homem morreu de fome e frio, no?

O
  Sr. Bumble fez com a cabea um sinal afirmativo.

-- E
  a sentena acrescentava, creio eu, por modo especial, que se o oficial dos
  socorros...

-- Tolices!
  Tolices! -- disse o bedel. -- Se o conselho desse ateno a quantas coisas dizem
  os trs jurados ignorantes, teria muito que fazer.

-- 
  verdade -- disse o empresrio. -- Mas deixemos l os jurados.

O
  Sr. Bumble tinha-se encolerizado. Tirou o chapu, e do chapu um leno, com o qual
  enxugou o suor que lhe escorria da testa, ps outra vez o chapu; e,
  voltando-se para o empresrio, disse em tom calmo:

-- E
  o pequeno? Quer o pequeno?

-- O
  senhor sabe -- respondeu o fabricante de caixes de defunto que eu pago um
  avultado imposto para os pobres.

-- E
  ento? -- disse o Sr. Bumble.

-- Ento,
   que se eu pago muito para os pobres, tenho o direito de os explorar tambm
  como posso; assim... Creio que esse pequeno pode ficar comigo.

O
  Sr. Bumble segurou no brao do fabricante de caixes de defunto e f-lo entrar
  no asilo. O Sr. Sowerberry conferenciou com os administradores durante cinco
  minutos e ficou assentado que Oliver iria nesse mesmo dia para casa dele e que,
  se no cabo de certo tempo, Oliver produzisse mais com o seu trabalho do que
  gastava com a comida, ficaria com o fabricante durante certo nmero de anos,
  com o direito de o empregar  sua vontade.

O
  pequeno Oliver foi levado nessa mesma noite aos administradores e informado de
  que ia entrar imediatamente, como aprendiz, na casa de um fabricante de caixes
  de defunto, e que, se se queixasse de sua posio, se volvesse ao asilo, seria
  embarcado para ser morto no mar ou a cacete. Oliver no manifestou nenhuma
  comoo. Os administradores declararam que ele era um peralta sem alma e deram
  ordem ao Sr. Bumble para lev-lo imediatamente.

Oliver
  no deixava de ter sensibilidade, mas os maus-tratos  que o tinham embrutecido
  tanto. Ouviu a notcia sem dizer palavra, ps a bagagem debaixo do brao, e no
  era pesada, porque no passou de um pequeno embrulho, enterrou o bon nos olhos
  e, agarrando-se outra vez  aba da casaca do Sr. Bumble, foi levado por esse
  funcionrio  casa do fabricante de caixes de defunto.

Durante
  algum tempo o Sr. Bumble arrastou Oliver aps si sem lhe prestar ateno.
  Ventava; o pequeno Oliver ia completamente escondido pela casaca do bedel, que
  se abria, deixando ver o colete de rebuo. No momento de chegar, o Sr. Bumble
  julgou conveniente ver se o pequeno estava capaz de aparecer e o fez com aquele
  ar prprio de um protetor benvolo.

-- Oliver
  -- disse ele.

-- Senhor?
  -- respondeu a criana com voz fraca e trmula.

-- No
  enterra assim o bon; levanta a cabea.

Oliver
  obedeceu, passando a mo pelos olhos; mas uma lgrima lhe tremia nos olhos quando
  ele os levantou para o Sr. Bumble e correu pela face abaixo; atrs dessa veio
  outra, e outra e outra e outra. A criana no as pde reter, os seus esforos
  foram vos; largou a aba do bedel, ps as mos na cara e uma torrente de
  lgrimas correu por entre os seus dedos emagrecidos.

-- Bom!
  -- disse o Sr. Bumble, parando e lanando um olhar feroz ao seu protegido. -- De
  todas as crianas mais ingratas, mais viciosas que tenho visto, voc ...

-- No,
  no senhor -- disse Oliver soluando e agarrando-se  mo que empunhava a famosa
  bengala. -- No, no senhor; eu quero ser bom; sim eu hei de ter juzo... eu sou
  criana.., eu sou... to... to...

-- To
  o qu? -- perguntou o Sr. Bumble admirado.

-- To
  infeliz! -- disse a criana. -- Todos me detestam. Oh! senhor, eu lhe peo, no
  se zangue comigo! A criana batia no peito, soluava e olhava para o bedel com
  angstia e terror.

Durante
  alguns instantes, o Sr. Bumble contemplou pasmado a cara assustada e triste de
  Oliver; tossiu trs ou quatro vezes, como um homem endefluxado, e disse a
  Oliver que enxugasse os olhos e tivesse juzo. Depois segurou-lhe na mo e
  penetrou na casa do fabricante de caixes de defunto.

Estava
  este a preparar-se para lanar algumas entradas no livro das contas,  luz de
  uma ruim vela, quando o Sr. Bumble entrou.

-- Ah!
  -- disse ele, erguendo os olhos e parando de escrever. --  o senhor?

-- Em
  pessoa -- respondeu o bedel. -- C lhe trago o pequeno.

Oliver
  cumprimentou o Sr. Sowerberry.

-- Ah!
  -- O pequeno de que falamos -- disse o empresrio de enterros levantando a vela
  para ver Oliver. --  minha dona, venha c fora.

A
  Sra. Sowerberry saiu de uma salinha que ficava por trs da loja; era uma mulher
  pequena, magra, arrebatada, uma verdadeira Megera.

-- Minha
  dona -- disse o Sr. Sowerberry com deferncia --, aqui est a criana de quem lhe
  falei.

Oliver
  fez outro cumprimento.

-- Meu
  Deus! -- disse ela. -- Como est magrinho!

-- Sim,
  no  forte -- disse o Sr. Bumble olhando severamente para Oliver como se a culpa
  fosse dele --, mas h de desenvolver-se.

-- Sim
  -- disse ela --, h de desenvolver-se com a nova comida. Que ganhamos ns com
  esses filhos da parquia? Custam mais do que valem. Vamos, desce, esqueleto.

Dizendo
  isto, abriu uma porta e empurrou Oliver para uma escada ngreme que conduzia a
  uma espcie de adega, sombria e mida, ao p da fogueira, que se chamava
  cozinha, onde estava uma rapariga suja, com sapatos rotos e grossas meias azuis
  e rasgadas.

-- Carlota
  -- disse a Sra. Sowerberry, que acompanhara Oliver --, d a esse pequeno os
  restos que se puseram de lado para dar ao co; ele no voltou hoje  casa,
  passar sem comer. E espero que no toras o nariz, meu pecurrucho.

Oliver,
  cujos olhos faiscavam com a idia de comer carne e morria de vontade de a
  devorar respondeu que no, e os restos do jantar foram postos diante dele.

Eu
  quisera que algum filsofo de estmago cheio, em quem a boa comida no gera
  blis, algum desses filantropos sem sangue nem alma, visse Oliver Twist
  atirar-se queles restos que nem o co quis comer e contemplasse a avidez com
  que ele partia e engolia os pedaos. S h uma coisa que eu preferia a isso;
  era ver o filsofo comer a mesma com igual prazer.

-- Ento
  -- disse a mulher, quando Oliver acabou a ceia, que ela assistiu com um horror
  silencioso, tremendo pelo futuro apetite do pequeno --, acabaste?

Como
  no havia mais nada, Oliver respondeu que sim.

-- Anda
  comigo -- disse ela.

Travou
  de uma candeia suja e fumegante e o levou ao alto da escada.

Tua
  cama  debaixo do balco. No tens medo de dormir entre caixes de defunto? E
  que importa que tenhas medo? No dormirs em outra parte. Ainda. No me faas
  estar  tua espera.

Oliver,
  sem perder tempo, acompanhou docilmente a sua nova ama.

CAPTULO V
OLIVER TRAVA NOVOS CONHECIMENTOS; ASSISTE
  A UM ENTERRO E FICA COM UMA M IDIA DO OFCIO.

Apenas ficou s na loja,
  Oliver ps a candeia num banco e deitou um olhar tmido  roda de si, com um
  sentimento de terror que muita gente de maior idade podia facilmente
  compreender.

Havia no meio da loja um
  caixo por acabar, e tinha uma aparncia to lgubre que Oliver estremecia
  sempre que olhava para ele. Esperava ver surgir dali a cabea de um espectro
  horrvel cujo aspecto o faria morrer de medo.

Ao longo da
  parede estava uma longa enfiada de tbuas de pinho cortadas uniformemente, que
  pareciam outros tantos espectros de largas espduas, com as mos nas
  algibeiras: placas de metal, argolas, pregos, pedaos de pano preto juncavam o
  assoalho.

Por trs
  do balco, na parede,  guisa de adorno, havia dois urubus engravatados e um carro conduzindo um fretro. A loja estava fechada e quente;
  a atmosfera parecia toda impregnada de um cheiro a defunto; o vo do balco
  onde foi posta a cama de Oliver tinha ares de cova.

Oliver acordou de manh,
  ouvindo um grande pontap na porta da loja, pontap que foi repetido vinte e
  cinco vezes, com clera, enquanto ele se vestia s pressas. Quando ele comeou
  a puxar os ferrolhos, cessaram os pontaps e ouviu-se uma voz dizer:

-- Abre ou no?

-- Sim, senhor, o quanto
  antes -- disse Oliver dando volta  chave.

-- Tu s o
  novo aprendiz? -- disse a voz pelo buraco da fechadura.

-- Sim, senhor.

-- Quantos
  anos tem?

-- Dez anos.

-- Bem, vou
  sacudir-te a preguia -- disse a voz. -- Vais ver, bastardo!

Depois
  desta graciosa promessa, a voz entrou a assobiar.

Oliver
  puxou tremulamente o ferrolho e abriu a porta.

Olhou para um lado e outro,
  pensando que o indivduo que lhe falava dera alguns passos para se aquecer; a
  nica pessoa que viu foi um rapazola assentado em uma grande pedra em frente da
  casa, ocupado em comer uma fatia de po com manteiga, que ia cortando em
  pedaos do tamanho da boca e engolia com avidez.

-- Perdo
  -- disse Oliver, no vendo ningum. -- Seria o senhor que bateu aqui?

-- Dei
  pontaps -- respondeu o outro.

--
  Precisa de algum caixo? -- perguntou ingenuamente Oliver.

O
  rapazinho pareceu furioso com isto e disse a Oliver que ele  que precisaria
  dentro de pouco tempo de um caixo, se tomasse a liberdade de tais gracejos com
  os seus superiores.

-- Naturalmente no sabes
  quem eu sou? -- disse ele descendo do frade de pedra com uma edificante
  gravidade.

-- No,
  senhor, -- respondeu Oliver.

-- Eu sou
  o Sr. No Claypole -- disse o outro --, e tu s meu subordinado. Anda l, tira as
  trancas das portas, peralta!

O Sr. Claypole acompanhou
  estas palavras com um pontap e entrou na loja com um ar de dignidade, que lhe
  deu muita importncia, posto que seja difcil a um rapaz, de cabea grande,
  olhos midos e fisionomia estpida, parecer majestoso em qualquer situao que
  seja; muito mais quando, alm de tudo isto, tem um nariz de pimento.

Oliver
  tirou as trancas da porta e, quando quis levar uma delas para o ptio que estava
  ao p da casa, e onde elas ficavam, escorregou e quebrou um vidro; No foi
  graciosamente ajud-lo, consolou-o dizendo que havia de pagar, e
  dignou-se apertar-lhe a mo. O Sr. Sowerberry desceu logo, e quase
  imediatamente apareceu a Sra. Sowerberry; Oliver pagou o vidro, segundo
  a predio de No, e foi com este para a cozinha a fim de almoar.

-- Ande
  c para perto do fogo, No -- disse Carlota. -- Eu tirei do almoo do amo um
  pedao de toucinho para voc. Oliver, fecha a porta; tira aqueles pedaos de
  po; aqui est o teu ch; vai comer l a um canto e no te demores, porque 
  preciso ir tomar conta da loja.

--
  Ouves, enjeitado? -- disse No Claypole.

-- Que traquinas  voc! --
  disse Carlota. -- Deixe aquele pequeno sossegado.

--Deix-lo sossegado! --
  disse No. -- Creio que  o que todos fazem. No tem pai nem me que o
  incomodem; todos os seus parentes deixam que ele faa o que quer... Que diz
  voc, Carlota?

-- Voc tem coisas, No! -- disse Carlota rindo
  s gargalhadas.

No fez o mesmo; depois
  deitaram um olhar desdenhoso para o pobre Oliver Twist, que tiritava assentado
  em uma caixa no fundo da cozinha e comia os restos de po duro que se lhe
  reservara especialmente.

No era pobre, mas no do
  asilo da mendicidade; no era enjeitado, porque podia remontar a sua genealogia
  at o pai e a me, que moravam perto dali; a me era lavadeira; o pai era
  ex-soldado e bbado, tinha uma perna de pau e uma penso de dois pence e meio
  por dia. Os caixeiros da vizinhana tiveram por muito tempo o costume de chamar
  a No os nomes mais injuriosos, e ele os sofreu sem dizer uma palavra. Mas
  agora que a sorte lhe pusera no caminho um pobre rfo sem nome, a quem o ente
  mais vil podia apontar com desprezo, vingava-se com usura. Belo assunto de
  reflexo  este. Vemos assim com que lindo aspecto se mostra s vezes a
  natureza humana e com que semelhana as mesmas qualidades amveis se
  desenvolvem no mais puro fidalgo e mais baixo pobreto.

Havia trs semanas ou um
  ms que Oliver morava em casa do empresrio de enterros; este com a mulher,
  estando s portas fechadas, ceavam na salinha do fundo, quando o Sr.
  Sowerberry, depois de ter contemplado a mulher com o ar mais respeitoso,
  comeou a conversa.

-- Minha cara amiga... --
  Ia continuar, mas a Sra. Sowerberry levantou os olhos com to m catadura que
  ele estacou.

-- Que tens? -- disse ela
  zangada.

-- Nada, minha dona, nada
  -- disse o Sr. Sowerberry.

-- s um asno -- disse a
  Sra. Sowerberry.

-- No, no, minha dona -- disse
  humildemente o marido --, eu pensava que voc no queria prestar-me ateno; eu
  queria dizer...

-- Oh! Guarde l para si o
  que queria dizer -- interrompeu a esposa. -- Eu nada valho; no me consulte,
  ouviu? No me quero meter nos seus negcios.

Dizendo isto, soltou uma
  risadinha afetada que fazia supor terrveis conseqncias.

-- Mas minha dona -- disse
  o Sr. Sowerberry --, eu preciso de sua opinio.

-- Que lhe importa a minha
  opinio? -- replicou a mulher com arrebatamento. -- Pea conselhos a outros.

E repetiu a risadinha
  afetada que fazia tremer o Sr. Sowerberry.

Nisto, seguia ela a
  poltica comum das mulheres, e que mais triunfos lhes d; obrigava o marido a
  solicitar como um favor a licena de lhe dizer o que ela estava curiosa por
  saber e, depois de uma discusso de trs quartos de hora, deu a reclamada
  licena.

-- Quero falar -- disse o
  Sr. Sowerberry --, quero falar do pequeno Oliver; tem uma boa cara.

-- Grande milagre! Come
  bastante para ter boa cara! -- respondeu ela.

-- As suas feies tm uma
  expresso de tristeza que lhe fica a matar -- continuou o Sr. Sowerberry. --
  Creio que seria um excelente urubu.

A Sra. Sowerberry
  levantou a cabea com ar de pasmo; o marido reparou nisso e, sem lhe dar tempo
  de observar nada, continuou:

-- No digo urubu para acompanhar os enterros das pessoas adultas, mas s para os enterros das
  crianas; seria uma novidade haver urubu com a mesma idade do defunto. Acredite que faria grande efeito.

A Sra. Sowerberry, que
  tinha apuradssimo gosto para o que diz respeito a enterros, ficou
  impressionada com a novidade desta idia; mas, como comprometeria a sua
  dignidade aprovando o marido, nas circunstncias atuais, contentou-se com
  perguntar desdenhosamente por que razo no lhe tinha acudido a mais tempo
  aquela idia. O Sr. Sowerberry concluiu com razo que a proposta era bem
  recebida; decidiu-se logo que Oliver seria iniciado nos mistrios da profisso
  e que, para isso, acompanharia o amo na primeira ocasio que se oferecesse.

No tardou a ocasio.

No dia seguinte de manh,
  depois do almoo, o Sr. Bumble entrou na loja e, apoiando a bengala no balco,
  tirou da algibeira uma grande carteira de couro e deu um papelinho ao Sr.
  Sowerberry.

-- Ah! -- disse o
  fabricante de caixes, lendo o papel com olhos alegres. --  uma encomenda de
  caixo.

-- Um caixo em primeiro
  lugar; depois um enterro paroquial -- disse o Sr. Bumble fechando a carteira,
  que era bojuda como ele.

-- Bayton? -- disse o
  empresrio de enterros acabando de ler e olhando para o Sr. Bumble. --  a
  primeira vez que ouo este nome.

-- Uns teimosos --
  respondeu o Sr. Bumble abanando a cabea. --Uns teimosos, e creio at que
  orgulhosos.

-- Orgulhosos? -- disse o
  Sr. Sowerberry com um riso zombeteiro. -- Esta  demais.

-- Causa lstima -- disse o
  bedel. -- Causa d.

-- Tem razo -- respondeu o
  fabricante de caixes com ar aprobtico.

-- S anteontem de noite
  ouvimos falar deles -- disse o bedel. -- E nada saberamos se uma mulher que mora
  na mesma casa no se dirigisse  comisso paroquial para pedir que mandasse um
  mdico paroquial assistir uma mulher que est muito mal. O mdico tinha sado
  para jantar; mas o seu ajudante, que  um rapaz muito hbil, mandou uma poro
  de remdios em uma garrafa de graxa.

-- Isto  o que se chama
  prontido -- disse o empresrio.

-- Justo -- disse o bedel
  --, mas qual foi o resultado? Quer saber a que ponto foi a ingratido daquele
  rebelde? Acreditar o senhor que o marido recambiou o remdio, dizendo que no
  convinha  molstia da mulher? Compreende isto? Um remdio excelente, enrgico,
  salutar, que se tinha empregado com muito bom xito h oito dias, a dois
  trabalhadores irlandeses e a um homem do ganho; um remdio que se lhe mandou de
  graa, com a garrafa de quebra; e ele manda dizer que a mulher no toma o
  remdio!

Como a atrocidade deste
  procedimento se apresentava em toda a sua fora ao esprito do Sr. Bumble,
  foi-lhe impossvel deixar de dar uma bengalada no balco.

Estava vermelho de
  indignao.

-- Oh! -- disse o Sr.
  Sowerberry. -- Nunca vi coisa assim...

-- No! Nunca! -- disse o
  bedel. -- Infmia tal nunca vi eu; mas agora que est morta  preciso
  enterr-la; quanto antes melhor.

O Sr. Bumble, no seu
  acesso, ps o chapu de trs bicos atravessado e saiu.

-- Vamos -- disse o Sr. Sowerberry quando ficou s --, vamos acabar com
  este enterro. No, toma conta da loja; Oliver, pe o bon e segue-me. Oliver
  acompanhou o patro.

Caminharam algum tempo
  pelo mais populoso bairro da cidade; depois desceram uma viela estreita mais
  suja e miservel que as outras e pararam para procurar a casa em questo. De
  ambos os lados da rua, as casas eram altas, mas velhssimas, e ocupadas por
  gente pobrssima, como era fcil reconhecer, ainda que no atravessassem s
  vezes a rua homens e mulheres curvados e andrajosos.

A maior parte das casas
  tinha lojas hermeticamente fechadas e caindo em runas; mas s os andares
  superiores eram habitados. Outras ameaavam cair e eram escoradas por grossas
  estacas de pau que estavam solidamente presas no cho; mas esses prdios
  rachados pareciam servir de asilo a alguns vagabundos, porque muitas das tbuas
  grosseiras que tapavam a porta tinham sido arrancadas como que era para dar
  passagem a um corpo. O rego estava sujo e estagnado. Os prprios ratos que
  passavam de um lado para o outro eram magros como carapaus.

No havia cordo de
  campainha na porta em que pararam Oliver e seu amo; este entrou s apalpadelas
  num corredor escuro, disse a Oliver que o acompanhasse e no tivesse medo,
  subiu ao primeiro andar e bateu devagarinho a uma porta.

Veio abri-la uma mocinha
  de 13 para 14 anos. O empresrio de enterros viu logo pelo aspecto do quarto
  que era ali mesmo que ele ia. Entrou acompanhado por Oliver.

No havia fogo; um homem
  estava ali encostado  lareira vazia; ao p dela havia uma velha sentada em um
  mocho; a um canto estavam muitas crianas esfrangalhadas, e l num desvo do
  quarto, em frente  porta, jazia no assoalho um objeto envolvido num cobertor.
  Oliver estremeceu lanando os olhos para aquele lado e encostou-se
  involuntariamente ao amo; apesar da cobertura adivinhou que era um cadver.

O homem estava plido e
  descarnado; tinha os olhos injetados, a barba e os cabelos grisalhos; a velha
  tinha os olhos penetrantes e os dois dentes que lhes restavam pendiam sobre o
  lbio inferior. Oliver teve medo de olhar para ambas as figuras; lembravam-lhe
  os ratos que vira to magros na rua.

-- Ningum lhe h de tomar
  -- disse o homem atirando-se para o empresrio que se aproximava do cadver. --
  Para trs! Para trs! Ou morre.

-- No sejas tolo, meu
  rico! -- disse o empresrio, que estava acostumado a ver a misria sob todas as
  formas. -- Deixa-te de tolices!

-- Repito -- disse o homem
  fechando a mo e batendo no cho com furor --, no quero que a enterrem; no
  cemitrio  impossvel que ela durma. Os vermes iro atorment-la sem terem o
  que comer; estava to magra! O empresrio nada respondeu a este infeliz em
  delrio; tirou um barbante do bolso e ajoelhou-se diante do cadver.

-- Ah! -- disse o homem
  debulhado em lgrimas e lanando-se aos ps da pobre defunta. -- Ajoelhemos
  todos diante dela e ouam-me. Ela morreu de fome; at o momento em que caiu com
  febre eu no sabia que estava to mal; mas ento j os ossos lhe rompiam a
  pele; no tnhamos fogo nem luz; morreu nas trevas, sim, nas trevas; nem pde
  ver o rosto dos filhos, mas ns ouvamos que ela chamava por eles na sua
  agonia; fui  rua mendigar para ela e meteram-me na cadeia. Quando voltei
  estava a expirar. Juro diante de Deus que ela morreu de fome!

O homem puxou pelos cabelos,
  soltou um grito horrvel e rolou pelo cho, com os olhos espantados e a boca
  espumante.

As crianas assustadas
  entraram a chorar; mas a velha que at ento ficara imvel e como que estranha
  ao que ali se passava ameaou-os para que se calassem; depois alargou a gravata
  do homem, que estava cado no cho, e caminhou vacilando para o empresrio de
  enterros.

-- Era minha filha -- disse
  ela, fazendo um sinal com a cabea para o lado do cadver e falando com o ar de
  uma idiota, mais hedionda de ver que a prpria morte. -- Meu Deus! quando penso
  que eu lhe dei a vida no tempo em que era mulher e que ainda estou viva e
  alegre, enquanto ela est morta e fria! Ah! meu Deus!... Isto  uma comdia! 
  uma comdia!  uma comdia!

Enquanto a pobre velha
  dizia estas palavras, o empresrio ia a sair.

--Espere! Espere! -- disse
  ela. -- Quando  o enterro? Hoje, amanh ou depois? Devo acompanh-lo, no? O
  frio est muito agudo? Ns devamos comer antes de ir algum pastel e beber
  vinho; mas no importa; mande-nos po; mande s um pedao de po e um pouco de
  gua. Sim, meus amigos, mande um pedao de po. -- A velha agarrava-se  casaca
  do Sr. Sowerberry, que ia sair.

-- Sim, mando, mando --
  disse ele, -- mando alguma coisa, tudo o que quiser.

Desvencilhou-se da velha e,
  arrastando Oliver consigo, saiu do quarto.

No dia seguinte, tendo j
  a famlia recebido um po de duas libras e um pedao de queijo, levados pelo
  Sr. Bumble em pessoa, Oliver e seu amo voltaram quela miservel casa,
  acompanhados por quatro homens do asilo de mendicncia que deviam carregar o
  caixo. Um velho manto preto cobria os andrajos da velha e do marido. Puseram o
  corpo no caixo; os carregadores puseram-no ao ombro e desceram  rua.

-- Ande, velha, veja se
  apressa o passo -- disse baixinho Sowerberry. -- J no  cedo e o padre no pode esperar... Carregadores, andem
  depressa.

Estes apressaram o passo
  com o leve peso que levavam, enquanto a velha e o homem os acompanhavam o mais
  depressa que podiam. O Sr. Bumble e Sowerberry iam na frente, e Oliver, com as
  suas perninhas, corria atrs do enterro.

No era porm to urgente
  apressar o passo como dizia o Sr. Sowerberry, porque ao chegarem ao canto
  escuro do cemitrio onde nascem urtigas e onde esto as covas dos pobres, ainda
  o padre no havia chegado, e o sacristo, assentado na sacristia, dizia que
  provavelmente no viria seno dali a uma hora. Puseram o caixo ao p da cova;
  o homem e a velha esperavam pacientemente com os ps na lama, debaixo de uma
  chuva fria e penetrante, ao passo que algumas crianas esfrangalhadas, atradas
  pela curiosidade, jogavam a cabra-cega por detrs das sepulturas ou saltavam a
  ps juntos por cima delas.

Sowerberry e Bumble,
  amigos do sacristo, aqueciam-se ao fogo com ele e liam os jornais.

Depois de uma hora de
  espera, o Sr. Bumble, Sowerberry e o sacristo foram at a cova, e ao mesmo
  tempo apareceu o padre, que andava e vestia a sobrepeliz ao mesmo tempo. O Sr.
  Bumble ralhou com duas ou trs crianas para salvar as aparncias; e o
  respeitvel clrigo, depois de ter lido o ofcio dos mortos durante quatro
  minutos, entregou a sobrepeliz ao sacristo e foi-se embora.

-- Agora, Bill, encha --
  disse Sowerberry ao coveiro.

A tarefa era fcil; a cova
  estava to cheia que o ltimo caixo ficava a poucos ps do nvel do solo. O
  coveiro deitou sobre o caixo algumas ps de terra, deu quatro passos por cima
  da cova, ps a p ao ombro e foi-se embora, acompanhado pelos meninos, que se
  queixavam de ter sido to curto o divertimento.

-- Vamos -- disse Bumble
  batendo no ombro do pobre homem --, vai fechar-se o cemitrio.

O homem, que no tinha
  feito nenhum movimento depois que chegara ao p da cova, estremeceu, ergueu a
  cabea, olhou para aquele que lhe falava, deu alguns passos e caiu sem
  sentidos. A velha idiota tratava da manta preta, que o empresrio lhe havia
  tirado outra vez, e no devia ateno a nada; tratou-se de pr gua fria no
  homem para faz-lo voltar a si; puseram-no so e salvo fora do cemitrio e,
  depois de fechada a porta, todos se foram embora.

-- Ento, Oliver -- disse o
  Sr. Sowerberry --, como achas isto?

-- Bem, obrigado -- disse o
  pequeno hesitando um pouco --, isto , no acho muito bom...

-- Hs de acostumar-te --
  disse o Sr. Sowerberry. -- Quando a gente se acostuma, no sente impresso
  nenhuma.

CAPTULO
  VI
LUTA E VITRIA.

Ao cabo de um ms de
  ensaios, Oliver estava admitido como aprendiz. Houve justamente nessa poca uma
  epidemia. Em estilo comercial, os caixes tinham subido,
  e no espao de algumas semanas Oliver ganhou muita experincia. O xito da
  engenhosa especulao do Sr. Sowerberry ia alm das suas esperanas.

Os mais antigos habitantes
  no se lembravam de ter visto tanta molstia mortfera, principalmente nas
  crianas; numerosos foram os enterros a cuja frente ia o pequeno Oliver com um
  retalho de fumo que lhe ia do chapu aos joelhos, o que causava grande pasmo e
  gosto a todas as mes.

Oliver acompanhou tambm o
  patro aos enterros de adultos para adquirir a impassibilidade e a
  insensibilidade necessrias a um urubu consumado. Teve muita ocasio de
  observar a bela resignao e fora de alma com que as pessoas corajosas
  suportam a perda de seus parentes.

Assim que, quando se encomendava
  a Sowerberry um enterro para alguma pessoa velha e rica, possuindo muitos
  sobrinhos e sobrinhas, os quais durante a ltima molstia se haviam mostrado
  inconsolveis, e cuja dor nem perante o pblico se pudera conter todos esses
  parentes eram depois encontrados em casa alegres e satisfeitos, conversando com
  uma iseno que pareciam no ter perdido nada. Certos maridos suportavam com
  admirvel calma a perda da mulher; as mulheres, por seu lado, vestindo luto
  pelo marido, procuravam torn-lo mais atraente possvel; era de notar que
  aqueles cuja dor fizera exploso na ocasio do enterro ficavam calmos quando
  entravam em casa e alegres antes do ch.

Este espetculo a um tempo
  curioso e consolador excitava o pasmo de Oliver.

No posso afirmar com certeza,
  na qualidade de bigrafo, se o exemplo de toda essa gente dispunha Oliver 
  resignao. O certo  que ele continuou durante muitos meses a suportar a
  dominao e maus-tratos de No Claypole, que tinha cime de o ver na posio de urubu, quando ele, mais antigo, no tinha subido a tanto.

Chego agora a um ponto
  importantssimo na histria de Oliver; vou falar de uma ao que pode parecer
  quase indiferente, mas que modificou e mudou completamente o seu futuro.

Oliver e No tinham descido
   cozinha,  hora do jantar, para comer um pedao de carneiro -- libra e meia da
  carne mais comum. Mas Carlota havia sado, e durante a sua ausncia o Sr. No
  Claypole, faminto e vicioso, cuidou que no podia passar melhor o tempo do que
  molestando o pequeno Oliver Twist.

Para ter esta inocente
  distrao, No ps os ps sobre a toalha, puxou pelos cabelos de Oliver,
  beliscou-lhe as orelhas e chamou-lhe um nome feio. Anunciou o projeto de ir
  v-lo enforcar algum dia; em suma, no houve diabrura que no fizesse ou dissesse;
  mas como nada disso fizera chorar Oliver, No experimentou outro meio mais
  engenhoso; fez o que fazem muitos espritos mais clebres que No; recorreu s
  personalidades.

-- Bastardo! -- disse ele. --
  Como vai tua me?

-- Morreu -- respondeu
  Oliver. -- Peo-lhe que me no fale nisso.

A criana corou dizendo
  estas palavras. Tinha a respirao precipitada, e, ao ver-lhe a contrao dos
  lbios e das narinas, o Sr. Claypole cuidou que ele ia chorar; por isso voltou
   carga.

-- De que morreu tua me? --
  perguntou ele.

-- De desespero, segundo me
  disseram -- respondeu Oliver como se fala a si mesmo --, e eu creio que
  compreendo o que  morrer assim.

-- Tra, l, l, l --
  cantarolou o Sr. Claypole vendo rolar uma lgrima pela face de Oliver. -- Por
  que diabo choramingas desse modo?

-- No  por sua causa --
  disse Oliver enxugando a face, -- acredite que no .

-- Ah! Sim? No sou eu?

-- No, no  -- respondeu
  Oliver em tom seco. -- Olhe, j basta; no diga mais uma palavra a respeito de minha
  me...  conselho que lhe dou.

-- Conselho que me d? --
  exclamou No. -- Na verdade, ests petulante! Parece que tua me era uma bela
  mulher, no?

E No abanou a cabea de
  um modo expressivo e torceu o narizinho vermelho.

-- Tu bem sabes, rfo -- continuou
  No, animado pelo silncio de Oliver e com um tom de compaixo fingida (mais
  ofensivo de todos) --, tu bem sabes que nem eu nem tu lhe podemos dar remdio;
  bem sabes que tua me era uma mulher da vida airada.

-- Que diz? -- perguntou
  Oliver levantando a cabea.

-- Uma mulher pblica --
  respondeu friamente No --, e muito melhor foi que morresse, porque haveria de
  acabar na cadeia ou na forca.

Com o rosto afogueado,
  Oliver atirou-se para No, derrubando cadeiras e mesa, agarrou-o pelo gasnete,
  sacudiu-o com raiva tal que os dentes de No bateram uns contra os outros e,
  reunindo todas as foras, aplicou-lhe um soco que o levou ao cho.

Um instante antes era
  aquele pequeno, apesar dos maus-tratos, a imagem da doura; mas a sua coragem
  fora despertada enfim; a afronta  memria de sua me p-lo fora de si;
  batia-lhe o corao com fora; tinha uma atitude altiva e os olhos animados;
  tudo nele estava mudado, agora que ele via o seu covarde perseguidor estendido
  a seus ps e o desafiava com mais energia que no conhecera antes.

-- Assassino! -- gritou
  No. -- Carlota! Patroa! O aprendiz assassinou-me; socorro! Oliver est danado!
  Carlota!

Aos gritos de No, respondeu Carlota com um
  grito agudo e a Sra. Sowerberry com outro grito agudssimo; a primeira entrou
  na cozinha por uma porta lateral e a segunda parou na escada a fim de observar
  se no expunha a sua vida, caso descesse mais.

-- Ah! Miservel! -- disse
  Carlota apertando Oliver com todas as suas foras, que eram iguais s de um
  homem robusto e sadio. -- Ingrato! Assassino! Monstro!

E a cada slaba Carlota
  dava um soco em Oliver e ao mesmo tempo um grito agudo, para maior glria da
  sociedade, cuja causa ela defendia.

O pulso dela no era
  leve; mas, receando que no fosse bastante para acalmar a clera de Oliver a
  Sra. Sowerberry desceu  cozinha e, segurando com uma mo na criana, com a
  outra lhe arranhava a cara. No, aproveitando a vantagem da posio,
  levantou-se e desandou alguns pares de socos nas costas de Oliver.

O exerccio era to violento
  que no podia durar muito; quando os trs se cansaram de dar pancadas,
  arrastaram a criana, que gritava e se debatia, sem todavia mostrar medo, para
  o celeiro, onde a fecharam a chave; depois a Sra. Sowerberry deixou-se cair
  numa cadeira e debulhou-se em lgrimas.

-- A patroa vai desmaiar!
  -- disse Carlota. -- No, d c um copo d'gua.

-- Oh! Carlota -- disse a
  Sra. Sowerberry, falando como podia apesar da tosse e da poro d'gua fria que
  No lhe deitava  cara. -- Oh! Carlota, que fortuna no termos sido assassinados
  na cama!

-- Foi uma grande fortuna,
  realmente -- respondeu Carlota. -- Espero que o patro tome esta lio a fim de
  no receber em casa estas criaturas terrveis, que nasceram para o assassinato
  e o roubo. Pobre No! Quando eu entrei estava quase morto!

-- Coitado! -- disse a Sra.
  Sowerberry, lanando um olhar compassivo para No.

No (que era mais alto
  que Oliver) esfregava os olhos com a palma da mo e soluava.

-- Que faremos? -- disse a
  Sra. Sowerberry. -- Meu marido saiu, no h homem em casa; e Oliver dentro de
  dez minutos vai pr a porta abaixo com pontaps.

Oliver dava efetivamente
  sucessivos pontaps na porta do celeiro.

-- Meu Deus... No sei --
  disse Carlota. -- Se mandssemos chamar a polcia?

-- Ou a guarda? --
  acrescentou No Claypole.

-- No, no -- disse a Sra.
  Sowerberry, lembrando do antigo amigo de Oliver. -- No, vai  casa do Sr.
  Bumble e diga-lhe que venha c, j e j; no precisa ir procurar o bon. Anda,
  anda; no caminho leva sempre uma faca aplicada no olho para desinchar.

No no esperou mais
  nada; saiu s carreiras. A gente da rua ficava admirada de ver um rapaz a
  correr, sem bon e com uma faca no olho.

CAPTULO
VII
OLIVER PROSSEGUE EM SUA REBELIO.

No Claypole correu a toda
  brida e s parou  porta do asilo da mendicidade. Esperou cerca de um minuto
  para comear outra vez seus soluos e dar  cara uma expresso de dor e de
  terror; depois bateu  porta e apresentou ao mendigo que lhe abriu a porta uma
  cara to triste que este, posto estivesse acostumado a ver caras infelizes,
  recuou espantado.

-- Que aconteceria a
  este pequeno? -- disse o velho mendigo.

-- O Sr. Bumble! O Sr.
  Bumble! -- gritou ele, fingindo um grande medo, e com tal fora que no s o Sr.
  Bumble ouviu logo, apesar de ser um pouco surdo, mas at criou tal susto que
  saiu ao ptio sem chapu de trs bicos, circunstncia notvel e verdadeiramente
  curiosa, pois mostra que um bedel, em um momento de comoo sbita e poderosa,
  pode momentaneamente ficar bruto e esquecer a sua dignidade pessoal.

No continuou:

-- Sr. Bumble,  Oliver
  que...

-- Como? -- interrompeu o
  Sr. Bumble com uma expresso de sincera alegria. -- Ele fugiu? Fugiu?

-- No senhor, no
  fugiu; mas quis assassinar-me; depois quis assassinar Carlota e a patroa. Oh!
  Que dores! Ai que dores, Sr. Bumble!

E No torcia-se em
  todos os sentidos para fazer crer ao Sr. Bumble que no ataque violento e feroz
  de Oliver Twist recebera alguma grave leso interna que lhe causava atrozes
  sofrimentos.

Quando No viu o efeito
  que as suas palavras produziam no Sr. Bumble, quis comov-lo ainda mais,
  redobrando as suas queixas; e quando viu atravessar o ptio um sujeito de
  colete branco gemeu de um modo mais trgico do que nunca, pois achou que era
  importante chamar a ateno do dito personagem.

Despertou-se a ateno
  deste, que se voltou subitamente e perguntou por que razo berrava aquele rapaz
  e por que motivo no lhe aplicava o bedel dois ou trs murros para faz-lo
  articular melhor as suas palavras.

--  um pobre rapaz da
  escola da caridade -- respondeu o Sr. Bumble, que escapou de ser assassinado
  pelo jovem Twist.

-- Ora, ora. Essa j
  esperava eu -- disse o sujeito do colete branco. --Desde o princpio tive um
  singular pressentimento de que aquele pequeno h de acabar na forca.

-- E quis tambm
  assassinar a criada -- disse o Sr. Bumble, plido de medo.

-- E a patroa tambm --
  acrescentou No Claypole.

-- E o patro tambm,
  no? -- disse o Sr. Bumble.

-- No, porque tinha sado;
  se no fosse isso morria s mos do diabrete; ele dizia que queria dar cabo da
  pele do patro.

-- Disse isso? --
  perguntou o sujeito do colete branco.

-- Sim, senhor --
  respondeu No --, e minha ama manda saber se o Sr. Bumble podia ir l dar uma
  sova em Oliver, porque o patro saiu.

-- Certamente que pode
  -- disse sorrindo o sujeito do colete branco. -- Tu s um rapaz digno; aqui est
  um penny pelo teu trabalho. Bumble, pegue na
  bengala e v  casa do Sr. Sowerberry. No poupe o infame.

-- Qual! Poup-lo! --
  disse o bedel, enterrando um chicote na ponta da bengala.

-- Diga a Sowerberry
  que no o poupe; no se deve poupar aquele peralta! -- disse o sujeito do colete
  branco.

-- Deixe estar --
  respondeu o bedel.

E depois de pr na cabea
  o chapu de trs bicos, o Sr. Bumble saiu apressadamente acompanhado por
  Claypole para a casa do empresrio de enterros.

A situao era a
  mesma. O Sr. Sowerberry no tinha ainda voltado para casa e Oliver continuava a
  dar vigorosos pontaps na porta do celeiro. A Sra. Sowerberry e Carlota
  pintaram por tal modo a ferocidade do pequeno que o Sr. Bumble achou prudente
  parlamentar antes de abrir a porta. Comeou por dar um tremendo pontap 
  maneira de exrdio; depois, aplicando a boca  fechadura, disse com voz forte e
  imponente:

-- Oliver!

-- Ande, abra a porta!
  -- respondeu o pequeno.

-- Conheces a voz que
  te fala? -- disse o Sr. Bumble.

-- Conheo.

-- E no tens medo?
  No tremes ouvindo a minha voz?

-- No! --respondeu
  corajosamente Oliver.

To contrria
  resposta quela que ele esperava fez com que o bedel hesitasse. Deixou a
  fechadura, empertigou-se e contemplou uma por uma as trs testemunhas desta
  cena, sem proferir uma palavra.

-- Olhe, Sr. Bumble --
  disse a Sra. Sowerberry --, Oliver naturalmente endoideceu. Uma criana que
  tivesse algum juzo no lhe responderia daquele modo.

-- No  loucura --
  disse o Sr. Bumble, depois de alguns instantes de reflexo,  carne.

-- Carne? -- perguntou
  a Sra. Sowerberry.

-- Sim, minha senhora,
  aquilo  carne -- disse o bedel com um tom majestoso. -- A senhora deu-lhe carne
  a comer. Por isso fez com que ele criasse uma alma artificial, deslocada em
  pessoas daquela condio. Pergunte isto aos membros do conselho, que so
  filsofos prticos. Que vale aos pobres ter alma? J  muito que lhe
  alimentamos a vida do corpo. Se lhe houvesse dado mingau, nunca aconteceria
  semelhante coisa.

-- Meu Deus! -- disse a
  Sra. Sowerberry, levantando os olhos para o resto da comida. -- Aqui est o que
   ser generosa!

-- Olhe -- disse o Sr.
  Bumble,  dona da casa --, na minha opinio o que se deve fazer  deix-lo no
  celeiro um ou dois dias at que a fome o enfraquea, solt-lo depois e
  aliment-lo com mingau durante todo o tempo de aprendizagem; a famlia dele
  toda era composta de gente raivosa; o mdico e a alma disseram que a me
  chegara ao asilo depois de fadigas tais que teriam morto outra qualquer mulher.

O Sr. Bumble estava
  neste ponto do seu discurso quando Oliver, que ouvia assaz o dilogo para
  compreender que tratavam de sua me, tornou a desprender pontaps na porta.
  Sowerberry chegou nessa ocasio; explicaram-lhe o atentado de Oliver com a
  exagerao que as duas mulheres acharam conveniente para encolerizar o patro;
  ele abriu a porta e trouxe Oliver pela gola.

As roupas de Oliver
  tinham-se rasgado na luta; estava com o rosto arranhado, os cabelos em
  desordem; estava porm calmo; ao sair lanou a No um olhar de clera.

-- Voc  uma prola!
  -- disse Sowerberry a Oliver dando-lhe uma bofetada.

-- Ele insultou minha me
  -- respondeu Oliver.

-- E quando assim
  fosse... miservel -- disse a Sra. Sowerberry. -- Ele ainda disse pouco, ela
  merecia muito mais.

-- No -- disse a
  criana.

-- Sim, sim -- disse a
  Sra. Sowerberry.

-- Mente! -- respondeu
  Oliver.

A Sra. Sowerberry desatou
  a chorar. A torrente de lgrimas no deixou ao marido nenhuma alternativa. Se
  ele hesitasse um instante em punir Oliver mais severamente,  claro como o dia
  que segundo os usos recebidos nas brigas domsticas ele seria um bruto, um
  marido desnaturado, tendo s de homem o rosto e mil outros eptetos agradveis
  que no posso meter neste captulo.

O fabricante de
  caixes de defunto tinha alguma estima ao pequeno, mas era impossvel deixar de
  o castigar. O castigo foi tal que a Sra. Sowerberry ficou satisfeita e a
  bengala paroquial do Sr. Bumble no entrou em servio. Oliver foi metido no
  quarto que ficava por trs da cozinha; de noite, abriram-lhe a porta e, no meio
  de descomposturas a ele e a me, saiu o pobre Oliver para a cama debaixo do
  balco.

Oliver entrou a
  refletir. Ouvira os sarcasmos e as injrias com desdm; sofrera a pancada sem
  um grito; j se ia desenvolvendo nele um sentimento de orgulho. Mas agora que
  ningum o via, ajoelhou-se e derramou amargas lgrimas.

Oliver ficou muito
  tempo nessa posio. A vela ia acabar de arder quando ele se levantou; olhou
  prudentemente  roda de si, escutou atentamente; depois puxou o ferrolho da
  porta e olhou para a rua.

A noite estava fria e
  escura; as estrelas pareciam mais do que nunca longe da terra; no ventava. As
  rvores tinham um aspecto sepulcral. Oliver fechou a porta e, aproveitando os
  ltimos clares da vela para reunir em um leno o pouco que possua,
  assentou-se em um banco e esperou a madrugada.

Desde que um raio de
  luz penetrou na loja, Oliver levantou-se e abriu outra vez a porta, olhou
  timidamente, hesitou alguns instantes, depois empurrou a porta para trs;
  estava na rua.

Olhou para todos os
  lados, incerto sobre que caminho tomaria. Lembrou-se de ter visto as carroas,
  quando saam da cidade, galgarem juntamente  colina; foi pela mesma direo e
  chegou a um pequeno atalho pelos campos, que iam ter  grande estrada; meteu-se
  por ele e caminhou rapidamente.

Lembrou-se de ter ido
  por aquele atalho quando acompanhava o Sr. Bumble da casa onde fora criado ao
  asilo de mendicidade. O caminho levou-o direitinho  tal casa; batia-lhe o
  corao violentamente, e ele esteve a ponto de voltar para trs; mas j tinha
  andado muito e, se se desviasse, perderia muito tempo; demais era j to claro
  que receava ser visto, continuara a andar.

Chegou  casa da
  velha onde fora criado; tudo estava silencioso; Oliver parou e olhou para o
  jardim; uma criana estava ali capinando, e, no momento de levantar a cabea,
  Oliver reconheceu um de seus antigos companheiros. Sentiu-se contente por v-lo
  antes de se ir embora; ainda que mais moo que ele, era aquele menino seu amigo
  e companheiro; tantas vezes tiveram fome, tantas vezes foram espancados ambos.

-- Silncio, Dick! --
  disse Oliver, vendo a criana correr  grade. -- J esto todos levantados?

-- No, eu s.

-- No digas que me
  viste, Dick; vou fugindo; do-me pancadas; vou buscar fortuna, to longe que
  nem sei. Como ests plido!

-- Ouvi dizer ao mdico
  que eu ia morrer -- disse a criana com um ligeiro sorriso. -- Estou bem contente
  por te ver, meu amigo; mas no te demores.

-- Sim, at algum dia;
  estou certo de que nos havemos de tornar a ver; e ento hs de estar bom e
  feliz.

-- Feliz, creio, quando
  tiver morrido, e no antes. O mdico tem razo, Oliver, porque eu sonho todas
  as noites com anjos. Abraa-me; adeus, meu amigo, que Deus te abenoe.

Aquela bno vinha
  da boca de uma criana, mas era a primeira que Oliver ouvia. No meio das
  provanas, dos sofrimentos, das vicissitudes de sua vida, jamais a esqueceu.

CAPTULO
  VIII
OLIVER VAI A LONDRES E ENCONTRA EM CAMINHO UM RAPAZ MISTERIOSO.

Chegando ao fim do atalho,
  achou-se Oliver na grande estrada. Eram oito horas; e, posto que estivesse j a
  cinco milhas da cidade, correu e escondeu-se por trs de uma cerca at
  meio-dia; assentou-se num marco de pedra, e pela primeira vez entrou a
  considerar que lugar escolheria para ganhar a vida.

O marco indicava, em letras
  grossas, que a cidade de Londres ficava a 7O milhas; o nome Londres despertou
  no esprito do menino uma nova srie de idias. No poderia ele ir a Londres, a
  cidade imensa, onde nem o sr. Bumble viria a descobri-lo? Oliver ouvira sempre
  dizer aos velhos mendigos do asilo que um rapaz de juzo nunca ficava
  desamparado em Londres, e que havia nessa grande cidade meios de existncia
  desconhecidos  gente do campo. Era esse o lugar que convinha a um rapaz sem
  asilo, destinado a morrer na rua, se lhe no dessem a mo.

Oliver levantou-se e
  continuou viagem.

Andou mais quatro milhas,
  sem pensar no que devia sofrer antes de chegar a Londres; como essa idia lhe
  surgisse ao esprito, atrasou o passo e ps-se a pensar nos meios de l chegar.

Tinha no embrulho que
  levava um pedao de po, uma camisa velha, dois pares de meias, e na algibeira
  um penny que lhe dera o Sr. Sowerberry depois de um
  enterro em que se distinguira na alta qualidade de urubu.

-- No  mal, pensava Oliver,
  ter uma camisa lavada, dois pares de meias, e um penny;
  mas  escasso recurso para viajar 63 milhas a p durante o inverno.

Oliver tinha, como muita
  gente, fcil penetrao para descobrir as dificuldades, e lenta inteligncia
  para achar os meios de a remover; de maneira que, depois de refletir muito, sem
  achar a soluo que procurava, ps o embrulho s costas e continuou a andar.

Nesse dia andou 20 milhas
  sem comer outra coisa alm do pedao de po e alguns copos d'gua que pediu 
  porta das cabanas. De noite, entrou em um campo, deitou-se ao p de um moinho,
  resolvido a esperar ali o dia. Ao princpio teve medo, ouvindo o assobiar do
  vento; sentia frio e fome; mais que nunca estava desamparado; contudo o cansao
  f-lo dormir e ele esqueceu tudo.

De manh, ao levantar-se,
  sentiu as juntas presas por causa do frio, e tinha tanta fome que comprou um
  pouco de po com o penny, na primeira aldeia que
  atravessou. Quando chegou a noite tinha andado 12 milhas; estava com os ps
  inchados e as pernas to fracas que tremiam; a segunda noite que passou ao
  relento quebrou-lhe totalmente as foras.

No podia andar; esperou,
  ao p de uma ladeirinha, que passasse alguma diligncia, e pediu esmola aos
  passageiros da almofada; ningum fez caso dele; os que o viram disseram-lhe que
  esperasse que a diligncia chegasse ao alto, e que lhes mostrasse quanto tempo
  era capaz de andar para ganhar meio penny. O pobre
  Oliver tentou acompanhar a diligncia, mas no pde; ento os passageiros da
  almofada puseram o meio penny na algibeira, dizendo
  que Oliver era um vadio. A diligncia desapareceu no meio de uma nuvem de
  poeira.

Se no fora a boa alma de
  um guarda-barreira, a caridade de uma velha, os sofrimentos de Oliver seriam
  abreviados como os de sua me, isto , morreria o pequeno na estrada. Mas o
  guarda-barreira, e a velha, cujo neto naufragara e errava em alguma paragem
  remota do mundo, teve piedade dele e deram-lhe do pouco que tinham, com
  palavras tais que encheram a alma de Oliver.

Na manh do stimo dia
  chegou ele  pequena cidade de Barnet.

As portas ainda estavam
  fechadas e as ruas desertas; o sol estava brilhante; com os ps em sangue e
  coberto de poeira, Oliver assentou-se nos degraus de uma casa.

Pouco a pouco foram-se
  abrindo as janelas e aparecendo gente que parava e olhava para Oliver, sem lhe
  darem nada.

Havia j algum tempo que
  ele ali estava; admirava-se de ver tantas tavernas, porque a metade das casas
  de Barnet so tavernas grandes e pequenas; olhava distrado para os carros que
  passavam e admirava-se de que fizessem em algumas horas um trajeto em que ele
  gastara um semana inteira.

Foi arrancado de suas
  reflexes por um rapaz que lhe passara pela frente pouco antes sem parecer
  v-lo, e voltara e se colocara do outro lado da rua para o observar atentamente.

A princpio Oliver no
  lhe deu grande ateno; mas o rapaz ficou tanto tempo na mesma posio e lugar,
  que Oliver levantou a cabea e olhou para ele.

Ento o rapaz
  atravessando a rua e dirigindo-se para Oliver disse:

-- Ento que h, amiguinho?

O rapaz que lhe falava
  tinha quase a mesma idade que ele; era o indivduo mais original que Oliver
  vira at ento. Tinha o nariz arrebitado e torcido, a testa estreita, as
  feies comuns, e o exterior porqussimo, o que no impedia que se mostrasse
  com ares de fidalgo. Era baixinho, tinha as pernas arqueadas e olhos sem
  vergonha; o chapu estava posto na cabea de modo que parecia prestes a cair; e
  efetivamente cairia se o pequeno no desse de quando em quando um movimento 
  cabea para o repor na posio primitiva. Tinha uma casaca que lhe descia at
  aos calcanhares; trazia as mangas arregaadas at os cotovelos, provavelmente
  com o fim de meter as mos, como ento fazia, na algibeira da cala de veludo.
  Calava sapatos  Bucher.

-- Ento, que h,
  amiguinho? Perguntou aquele misterioso rapaz.

-- Tenho fome e estou
  muito cansado, respondeu Oliver com lgrimas nos olhos. Ando h sete dias.

--Sete dias! Disse o
  outro; Ah! Compreendo. Por ordem do bico? Oliver
  parecia admirado.

-- Ignora acaso o que  o bico?

Oliver respondeu com
  singeleza que sempre cuidou que bico era boca de pssaro.

-- Que inocncia! Exclamou
  o rapaz; um bico  uma autoridade policial; andar por ordem do bico  nunca
  andar direito,  andar s furtadelas. Esteve no moinho?

-- Que moinho? Disse
  Oliver.

-- Que moinho! O moinho
  que anda sem gua*. Anda comigo; tu precisas comer; a
    bolsa no est muito recheada, mas enquanto houver... Anda, anda!

-- O rapaz ajudou Oliver
  a levantar-se, levou-o para a loja de um sujeito que vendia velas, comprou a
  um pouco de presunto e um po de duas libras; meteu o presunto dentro do po e
  foi com Oliver para uma sala que ficava no fundo de uma taverna.

Ali o misterioso rapaz mandou
  vir cerveja; a convite do seu novo amigo, Oliver atirou-se ao banquete e comeu
  com unhas e dentes, enquanto o companheiro o contemplava.

-- Voc vai a Londres?
  Disse o rapaz quando Oliver acabou.

-- Vou.

-- Tem casa l?

-- No.

O indivduo entrou a
  assobiar e meteu as mos na algibeira.

-- Mora em Londres?

-- Sim, quando estou em
  casa, respondeu o rapaz. Precisa de casa para passar a noite?

-- Sim, desde que sa de
  minha terra ainda no dormi em nenhuma casa.

-- No te incomodes, disse
  o misterioso rapaz, eu devo estar esta noite em Londres, e conheo l um velho
  respeitvel que te dar casa de graa, com a condio que sejas apresentado por
  um dos seus amigos. Eu sou amigo dele.

Dizendo isto, esvaziou o
  copo.

A inesperada oferta de
  uma casa no era para desprezar, principalmente depois que o rapaz afianou que
  o tal velho arranjaria um bom emprego para Oliver.

Daqui nasceu uma conversa
  mais ntima e confidencial, em que Oliver soube que o seu amigo se chamava Jack
  Dawkins e era amigo e protegido pelo referido sujeito velho.

O exterior do Sr. Dawkins
  no falava muito em favor das vantagens que lhe dava o crdito do seu protetor,
  mas como a sua conversa era leviana e incoerente, e como ele confessava que os seus
  amigos o conheciam pela alcunha de Matreiro, Oliver concluiu que o seu
  companheiro era naturalmente gastador e estouvado, pelo que os preceitos morais
  do seu benfeitor no lhe faziam efeito. Com este pensamento, resolveu captar o
  mais depressa possvel a estima do velho e desistir da amizade do Matreiro, se
  este, como parecia, no se corrigisse.

Jack Dawkins no quis
  entrar em Londres antes da noite, e era perto de onze horas quando chegaram 
  barreira de Islington. Tomaram pela rua de S. Joo, desceram a rua que vai ter
  ao teatro de Sadlerwell, costearam Exmouth Street Coppice-Row; atravessaram o
  terreno helnico que se chamava outrora Hokley in the Hot,
  e chegaram a Little Saffron Hill e Great
    Saffron Hill, que o Matreiro atravessou com passo rpido,
  recomendando a Oliver que o no perdesse de vista.

Posto que Oliver fizesse
  isso mesmo, no deixava de lanar alguns olhares furtivos para os dois lados da
  rua: era o lugar mais sujo e miservel que ele tinha visto. A rua era estreita
  e mida e o ar, carregado de miasmas ftidos. Havia um grande nmero de lojas
  pequenas onde as crianas berravam apesar da hora adiantada da noite. Os nicos
  lugares que pareciam prosperar eram as tavernas, onde irlandeses das fezes do
  povo, isto , das fezes da espcie humana, discutiam com todas as foras.
  Vielas e passagens estreitas deixavam ver algumas casas miserveis, diante das
  quais homens e mulheres embriagados rolavam na lama da rua; e s vezes saam
  com precauo desses antros indivduos de cara sinistra, cujas intenes no
  pareciam ser louvveis nem tranqilizadoras.

Oliver estava a perguntar
  a si mesmo se no era melhor fugir, quando chegaram ambos ao fim da rua.
  Segurou-lhe o guia no brao, empurrou a porta de uma casa prxima de Fieldlane,
  f-lo entrar em uma alameda e fechou a porta.

-- Quem vem l? -- gritou
  uma voz em resposta a um assobio do Matreiro.

-- Plummy e Slam! -- foi a
  resposta.

Era sem dvida uma senha
  para indicar que tudo ia bem.

A fraca luz de uma vela
  iluminou a parede no fundo da alameda e viu-se aparecer uma cabea ao nvel do
  solo, por trs de uma escada quebrada que outrora levava a uma cozinha.

-- So dois -- disse o
  homem levantando a vela e pondo a mo por cima dos olhos para melhor distinguir
  os objetos. -- Quem  o outro?

-- Um recruta, respondeu
  Jack Dawkins, apresentando Oliver.

-- De onde vem?

-- Do pas dos inocentes.
  Fagin est em cima?

-- Est separando os
  lenos. Subam.

O homem desapareceu e
  eles ficaram nas trevas.

Sempre levado pelo companheiro,
  que lhe segurava na mo, Oliver apalpava com a outra o lugar em que andava.
  Subiu dificilmente na escurido os degraus arruinados que o seu companheiro
  trepava com uma presteza denunciadora do muito que ele os conhecia.

O Matreiro empurrou a
  porta de um quarto e introduziu Oliver. As paredes e o teto estavam sujos pelo
  tempo e pelo desmazelo. Diante da lareira, em uma mesa de pinho, havia uma vela
  metida no gargalo de uma garrafa, duas ou trs canecas de estanho, um po,
  manteiga e um prato. Estavam ao fogo algumas salsichas, ao p das quais se
  achava um velho judeu com um garfo na mo.

O rosto do judeu estava
  todo cortado de rugas, e as feies ignbeis e repelentes desapareciam em parte
  debaixo de uma camada de cabelos ruivos que lhe caa pelas fontes; vestia um
  chambre velho de flanela, no tinha gravata e parecia dividir a sua ateno
  entre a assadeira e uma corda onde estava pendurada uma poro de lenos.

Havia no quarto uma
  poro de ruins camas feitas com sacos velhos.  roda da mesa, quatro ou cinco
  crianas da idade do Matreiro fumavam cachimbo e bebiam licor com ares de
  rapazes feitos.

O Matreiro disse algumas
  palavras em voz baixa ao judeu; os pequenos vieram ter com o Matreiro e
  voltaram-se rindo para Oliver. O mesmo fez o judeu, sempre com o garfo na mo.

-- Apresento-lhe o meu
  amigo Oliver Twist -- disse Jack Dawkins.

O judeu riu-se fazendo
  uma careta. Fez um grande cumprimento a Oliver, travou-lhe da mo e disse que
  esperava ter a honra de estreitar relaes.

Os outros pequenos vieram
  apertar a mo de Oliver, de maneira que lhe caiu o embrulho; um deles
  apressou-se a desembara-lo do bon; outro teve a bondade de lhe examinar as
  algibeiras para lhe poupar o trabalho de as esvaziar quando se fosse deitar.
  No teriam parado nisto os obsquios, se o judeu no comeasse a dar garfadas
  na cabea e nos ombros dos cinco peraltas.

-- Temos muito prazer em
  receber-te aqui Oliver -- disse o judeu. -- Matreiro, tira do fogo algumas
  salsichas e aproxima um banquinho para Oliver. Ah! Ests admirado dos lenos? 
  uma bela coleo, no, meu amigo? Acabamos de os preparar para a barrela. Nada
  mais, Oliver; nada mais. Eh! Eh! Eh!

As ltimas palavras do
  judeu foram recebidas com aclamao pelos jovens discpulos.

Depois comeou a ceia.

Oliver comeu o seu
  quinho; o judeu preparou-lhe depois um copo de grog feito com genebra recomendando que o bebesse de um s trago, porque outro
  conviva precisava do copo. Oliver obedeceu; da a pouco sentiu-se levado
  brandamente para cima de um dos sacos, onde dormiu profundamente.

CAPTULO
  IX
NOVOS PORMENORES ACERCA DO AMVEL ANCIO E SEUS DISCPULOS, RAPAZES
  DAS MAIS ALTAS ESPERANAS.

No dia seguinte, j a manh
  ia adiantada, quando Oliver acordou depois de um sono profundo e prolongado.

No quarto estava s o velho
  judeu, aquecendo caf em uma caarola, assobiando baixinho; de quando em quando
  parava para escutar, se acaso ouvia algum rumor; e quando via que tudo estava
  tranqilo continuava a assobiar e a mexer o caf com uma colher de metal.

Conquanto Oliver no
  estivesse dormindo, no se podia dizer que estivesse totalmente acordado. H
  certo estado entre o sono e a viglia em que a gente sonha mais no espao de
  cinco minutos, com os olhos abertos e sem ter conscincia do que se passa, do
  que sonharia em cinco noites com os olhos fechados e em completo sono. Nesses
  momentos o homem no percebe o que se passa em seu esprito de maneira que
  possa ter uma fraca idia das pujantes faculdades desse esprito quando,
  liberto dos vnculos terrenos, foge  terra zombando do tempo e do espao.

Oliver estava em um desses
  momentos. Com os olhos semifechados, via o judeu, ouvia-o assobiar baixinho,
  reconhecia o rumor da colher na caarola; e, contudo, o seu esprito, durante
  esse tempo, viajava no passado e ia ter com todas as pessoas que ele havia
  conhecido.

Apenas o caf ficou pronto,
  o judeu ps a caarola no cho e ficou alguns instantes em atitude indecisa,
  como se no soubesse o que faria primeiro; depois olhou para Oliver e o chamou
  pelo nome; este no respondeu e parecia dormir profundamente. O judeu
  dirigiu-se cautelosamente para a porta, fechou-a e tirou de um alapo no
  assoalho uma caixinha que levou cuidadosamente para a mesa; faiscavam-lhe os
  olhos enquanto abria a tampa e olhava para o interior da caixinha; aproximou da
  mesa uma cadeira velha, sentou-se e tirou da caixa um magnfico relgio de ouro
  cravejado de brilhantes.

-- Ah! Boas alminhas! --
  disse o judeu, erguendo os ombros e contraindo o rosto com um feio sorriso! --
  Foram sempre firmes! Incapazes de vender o velho Fagin. E com que interesse?
  No alargariam o lao, nem deixariam de espernear. No! No! Bons rapazes! Bons
  rapazes!

Fazendo estas e outras
  reflexes, o velho ps outra vez o relgio na caixinha; tirou ainda uma meia
  dzia de relgios do mesmo quilate, contemplou-os com os mesmos xtases; depois
  anis, broches, pulseiras, jias de todo gnero, to preciosas e de to fino
  lavor que Oliver nem de nome as conhecia.

O judeu ps todas essas
  jias na caixinha e tirou uma ltima jia, to pequena que lhe cabia na palma
  da mo semifechada; parece que tinha a inscrio finssima, porque o judeu
  levou a contempl-la muito tempo e com extrema ateno; como se perdesse a
  esperana de decifrar os caracteres, ps a jia outra vez na caixinha e,
  recostando-se na cadeira; continuou as suas reflexes:

-- Bela coisa  a pena de morte! -- disse ele a meia voz. -- Os mortos
  nunca se arrependem; os mortos no vm revelar nada! Ah!  uma boa garantia
  para o comrcio! Eram cinco enfileirados e pendurados e nenhum foi covarde,
  nenhum denunciou o velho Fagin!

Dizendo estas palavras, o
  judeu corria ao acaso os olhos negros e brilhantes  roda de si e de sbito deu
  com os olhos de Oliver.

Oliver contemplava o judeu
  com uma curiosidade muda; num abrir e fechar de olhos, o judeu compreendeu que
  fora observado; fechou atropeladamente a caixinha e, travando de uma faca,
  levantou-se furioso; mas tremia tanto que Oliver, apesar de seu terror, podia
  ver vacilar a lmina da faca.

-- O que ? -- disse o judeu.
  -- Por que razo me observas? No dormias? O que viste? Fala depressa! Anda!
  Fala ou morre!

-- Eu no podia dormir mais
  -- respondeu a criana com brandura -- e sinto t-lo incomodado.

--Ests acordado h uma
  hora? -- perguntou o judeu com ar ameaador.

-- No, senhor -- respondeu
  Oliver.

-- Ests certo disso?

-- Estou certo de que
  dormi at agora.

-- Est bom, est bom, meu
  amigo -- disse o judeu voltando subitamente s suas maneiras ordinrias e
  brincando com a faca antes de a pr na mesa, como para fazer crer que a tinha
  tirado para se divertir.

-- Eu estava certo disso; queria s meter-te medo. s um bom rapaz,
  Oliver.

E o judeu esfregava as
  mos e ria-se, mas deitava  caixinha um olhar inquieto.

-- Vistes algumas destas coisas
  to bonitas, meu amiguinho? -- disse ele depois de um curto silncio e pondo a
  mo sobre a caixinha.

-- Vi, sim senhor -- disse
  Oliver.

-- Ah! -- disse o judeu
  empalidecendo... -- So minhas, Oliver,  toda a minha riqueza,  o que me resta
  na velhice. Chamam-me avaro, meu amigo, avaro e nada mais.

Oliver pensou que o velho
  devia realmente ser imensamente avaro, pois vivia naquela casa to suja, tendo
  tantos relgios consigo; mas refletiu que a sua amizade ao Matreiro e aos
  outros rapazes devia custar-lhe muito dinheiro. Oliver olhou para o judeu com
  ar respeitoso e perguntou se podia levantar-se.

-- Pois no, amiguinho,
  pois no -- respondeu o velho. -- Olha, tens ali atrs da porta um cntaro d'gua,
  vai busc-lo, que eu te darei uma bacia para te lavares.

Oliver levantou-se,
  atravessou o quarto e abaixou-se para tirar o cntaro; quando se voltou a
  caixinha tinha desaparecido.

Mal acabara de se lavar e
  despejar a bacia pela janela por ordem do judeu quando viu entrar o Matreiro
  acompanhado por um jovem amigo que Oliver vira na vspera  noite ocupado em
  fumar e lhe fora apresentado com o nome de Carlinhos Bates. Depois sentaram-se
  todos  mesa; o almoo constava de caf e uns pes pequenos, com presunto que o
  Matreiro trouxe no fundo do chapu.

-- Ento -- disse o judeu,
  dirigindo-se ao Matreiro e olhando maliciosamente para Oliver --, espero, meus
  amigos, que tenham trabalhado hoje alguma coisa.

-- Muito.

-- Sim -- acrescentou
  Carlinhos Bates --, trabalhamos muito.

-- Vocs so duas flores --
  disse o judeu. -- Que trouxeste, Matreiro?

-- Duas carteiras.

-- Cheias? -- perguntou o
  judeu com ansiedade.

-- Tm alguma coisa --
  respondeu o Matreiro apresentando duas carteiras, uma verde e outra encarnada.

-- Podiam ter mais alguma
  coisa -- disse o judeu, depois de examinar o interior das carteiras. -- Mas esto
  novas e so bem trabalhadas. No , Oliver?

-- Sim, senhor -- respondeu
  Oliver.

A resposta fez com que o
  Sr. Carlinhos Bates risse s gargalhadas, com grande admirao de Oliver, que
  no via ali motivo de riso.

-- E tu que me trouxeste,
  meu amigo? -- disse Fagin a Carlinhos Bates.

-- Lenos -- respondeu
  mestre Bates.

E tirou quatro da
  algibeira.

-- Bem -- disse o judeu, examinando-os
  minuciosamente --, so excelentes; mas tu no os marcaste bem;  preciso tirar
  as marcas com uma agulha; ensinaremos a Oliver a desmarcar isto. No , Oliver?

-- Como o senhor quiser -- respondeu Oliver.

-- Tu hs de querer trabalhar
  nos lenos como o Carlinhos, no?

-- Com todo o gosto, se o
  senhor me ensinar.

Mestre Bates achou esta
  resposta to engraada que soltou uma nova gargalhada; mas como estava a beber
  caf quase se engasgou.

--  to inocente! -- disse
  Bates apenas pde falar, como para se desculpar da gargalhada.

O Matreiro no disse
  palavra; mas passou a mo pelos cabelos de Oliver, f-los cair sobre os olhos e
  disse que aprenderia depressa.

O sujeito, vendo que
  Oliver ficara muito corado, mudou de conversa e perguntou se a execuo que se
  fizera nessa manh atrara muita gente. Redobrou o pasmo de Oliver, porque da
  resposta dos dois rapazes concluiu que eles haviam assistido  execuo e
  achava esquisito que tivessem tido tempo para fazer obras to bonitas como as
  carteiras e os lenos.

Depois do almoo, o
  amvel ancio e os dois pequenos entraram a fazer uma coisa curiosa e
  extravagante.

Aqui est o que era.

O judeu punha uma boceta
  em uma algibeira da cala, uma carteira na outra; na do colete um relgio preso
  a uma corrente que passava pelo pescoo; ps na camisa um alfinete de pedra
  fingindo brilhante, abotoou a casaca at o pescoo e, pondo na algibeira de
  trs o leno e a caixa dos culos, entrou a passear de um lado para outro, com
  a sua bengala na mo, justamente como os nossos velhos passeiam na rua; ora
  parava diante do fogo e ora diante da porta, como se contemplasse atentamente
  os moradores das lojas. As vezes deixava  roda de si, olhos vigilantes como se
  receasse ladres, e apalpava todas as algibeiras, uma aps outra, para ver se
  no perdera nada, e tudo isso com um ar to cmico e natural que Oliver ria s
  gargalhadas.

Os dois rapazes o
  acompanhavam de perto e de cada vez que ele se voltava escondiam-se com tanta habilidade
  que era impossvel acompanhar os seus movimentos. Afinal, o Matreiro pisou-lhe
  nos ps, ao passo que o Carlinhos o empurrou por trs e, num fechar de olhos,
  boceta, carteira, relgio, corrente, alfinete, leno de assoar, tudo, at a
  caixa dos culos, desapareceu com extraordinria rapidez.

Quando o judeu sentia
  alguma mo em uma das algibeiras, dizia que algibeira era e a brincadeira
  recomeava.

Depois de se repetir esta
  brincadeira muitas vezes, vieram duas moas ver os rapazes: chamava-se uma
  Betty e outra Nancy; tinham os cabelos bastos, mas no tratados, e os sapatos
  rotos; no se podia dizer que fossem bonitas; mas eram muito coradas e tinham
  no olhar muita resoluo e descaramento. Como as maneiras delas fossem
  agradveis e livres, julgou Oliver que deviam ser amveis pessoas e no se
  enganava.

Durou muito a visita; uma
  delas queixou-se de ter o estmago gelado, veio licor, e a conversao
  tornou-se cada vez mais animada.

Afinal, o Carlinhos Bates
  declarou que era tempo de se pr na pira e Oliver pensou que aquilo, em boa
  linguagem, queria dizer sair, porque o Matreiro, o Carlinhos e as duas moas
  saram logo e o velho judeu teve a generosidade de lhes dar dinheiro para se
  divertirem.

-- No te parece agradvel
  este viver? -- disse Fagin a Oliver. --Todos eles tm agora o dia por seu.

-- J acabaram o trabalho?
  -- perguntou Oliver.

-- J -- disse o judeu. --
  Salvo se acharem alguma coisa que fazer no caminho; nesse caso, acredita que
  no ficaro ociosos. Imita-os, meu amigo, imita-os, faze tudo o que te
  disserem, obedece-lhes em tudo, principal-mente ao Matreiro. O Matreiro h de
  ser um grande homem, e tu podes seguir-lhe as pisadas. Dize c, a ponta do meu
  leno no aparece de fora do bolso?

-- Sim, senhor -- disse
  Oliver.

-- V se o tiras sem que
  eu sinta, como eles faziam h pouco.

Oliver levantou com uma
  mo o fundo da algibeira como vira fazer o Matreiro e com a outra tirou o
  leno.

-- Tiraste? -- perguntou o
  judeu.

-- Aqui est -- disse
  Oliver mostrando o leno.

-- s um bonito rapaz --
  disse o amvel ancio, passando a mo por cima da cabea de Oliver. -- Eu nunca
  vi rapaz mais hbil do que tu; toma l um shilling pelo teu trabalho; se
  continuares assim, hs de vir a ser o maior homem da poca. Anda, vem aprender
  a desmarcar lenos.

Oliver perguntava-se com
  espanto que relao havia entre bifar por brincadeira o leno do velho e a
  possibilidade de vir a ser um grande homem; mas pensou que o judeu, por ser mais
  velho, devia saber mais do que ele e foi entregar-se com ardor ao seu novo
  estudo.

CAPTULO
  X
OLIVER ESTREITA AS SUAS RELAES COM OS NOVOS AMIGOS E ADQUIRE
  EXPERINCIA  SUA CUSTA. A PEQUENEZ DESTE CAPTULO NO IMPEDE QUE SEJA UM DOS MAIS
  IMPORTANTES DA HISTRIA DO NOSSO HERI.

Oliver passou muitos dias
  no quarto do judeu ocupado em desmarcar os lenos que chegavam em quantidade e
  em tomar parte na brincadeira que j descrevemos e que se repetia todas as
  manhs entre o judeu e os dois discpulos.

Ao cabo de algum tempo,
  Oliver comeou a suspirar pelo ar da rua e pediu muitas vezes ao judeu que o
  deixasse ir trabalhar fora com os seus companheiros.

Oliver estava tanto mais
  desejoso de trabalhar ativamente, quanto que j fazia idia cabal da inflexvel
  severidade do judeu. Cada vez que o Matreiro ou o Carlinhos Bates voltavam para
  casa,  noite, com as mos abanando, proferia um longo e enrgico discurso
  acerca dos inconvenientes da preguia e da ociosidade e, para melhor lhes gravar
  na memria a necessidade de serem ativos, mandava-os dormir sem ceia. Uma vez
  chegou a precipit-los do alto da escada; mas eram raras as violncias como
  esta.

Obteve Oliver a licena to
  insistentemente solicitada; havia j trs dias que no tivera lenos para
  desmarcar, e os jantares foram mesquinhos; estes motivos influram talvez na
  deciso do velho judeu; fosse como fosse, ele disse a Oliver que podia sair e o
  ps sob a guarda de Carlinhos Bates e seu amigo, o Matreiro.

Saram os trs: o Matreiro com
  as mangas arregaadas e o chapu de banda, como era costume; mestre Bates com
  as mos nas algibeiras, e Oliver entre ambos perguntando a si mesmo onde iriam
  eles e que ramo de indstria tinha que aprender.

Caminhavam com um passo to
  vagaroso, e uns ares de basbaques ociosos, que Oliver comeou a crer que eles
  haviam sado para enganar o velho judeu, e no para trabalhar. O Matreiro tinha
  o mau costume de tirar os bons das crianas que encontrava e deit-los ao
  ptio que estivesse prximo; mestre Bates, pela sua parte, parecia ter uma
  noo imperfeitssima do direito de propriedade; bifava as batatas e cebolas
  que encontrava nas casas de quitanda e metia-as na algibeira, as quais eram
  assaz largas e profundas.

Oliver achava tudo isto
  muito malfeito e estava prestes a diz-lo e a voltar para casa, quando a sua
  ateno foi atrada para outro lado por causa de um movimento singular do
  Matreiro.

Vinham eles de uma passagem
  estreita a pouca distncia de Clerkenwell, quando o Matreiro parou, ps o dedo
  na boca e fez recuar os seus companheiros com a maior circunspeco.

-- Que h? -- perguntou
  Oliver.

-- Sio! -- disse o Matreiro.
  -- Vs aquele patinho ali  porta do livreiro?

-- Sim, vejo ali um senhor,
  do outro lado da rua -- disse Oliver.

-- Vamos pregar-lhe a pea --
  disse o Matreiro.

-- Famoso achado! --
  acrescentou Carlinhos Bates.

Oliver contemplou-os com
  surpresa, mas no teve tempo de os interrogar, porque eles atravessaram a rua
  devagarinho e foram colocar-se por trs do sujeito. Oliver acompanhou-os a
  alguns passos de distncia e, no sabendo se devia seguir ou recuar, parou e
  arregalou os olhos.

O velho tinha um aspecto
  respeitvel; trazia culos de ouro. Vestia uma casaca verde-garrafa, colete de
  veludo preto, calca branca e uma bengala de bambu debaixo do brao. Tirara da
  loja um livro e lia-o com tanta ateno como se estivesse em seu prprio
  gabinete.  provvel que imaginasse estar l, pois era evidente que ele no via
  nem a cara do livreiro, nem a rua, nem os rapazes, nem o que quer que fosse,
  exceto o livro que ia lendo absorto, voltando as pginas com mais vivo
  interesse.

Quais no foram o horror
  e o medo de Oliver, colocado a alguns passos atrs, quando viu o Matreiro
  mergulhar a mo na algibeira do velho, tirar um leno, que deu a Carlinhos
  Bates, depois fugir com o seu companheiro pela esquina da rua!

Num rpido instante, a
  pobre criana compreendeu o mistrio dos lenos, dos relgios, das jias e da
  existncia do judeu. Ficou dois segundos imvel; fervia-lhe o sangue como se
  ele estivesse em um braseiro; assustado e confuso e, sem saber o que fazia,
  deitou a correr.

Mas no mesmo instante que
  ele corria, o velho procurou o leno no bolso e, no o achando, voltou-se
  rapidamente. Quando viu a criana a correr, pensou naturalmente que era o
  ladro, entrou a correr atrs dele, sem deixar o livro, e gritando:

-- Pega ladro! Pega
  ladro!

No foi o velho o
  nico a gritar contra o ladro. O Matreiro e mestre Bates, para no atrair a
  ateno, correndo, meteram-se do outro lado da esquina e apenas ouviram gritar
  pega ladro e viram Oliver fugir, adivinharam o que se passava, voltaram 
  outra rua e, como bons cidados, gritaram igualmente:

-- Pega ladro! Pega
  ladro!

Posto que Oliver tivesse
  sido educado por filsofos, no conhecia esta admirvel mxima deles -- que a
  conservao prpria  a primeira lei da natureza; se a conhecesse talvez
  estivesse preparado para o que acontecera; mas, na sua ignorncia, ficou mais
  assustado com os gritos, correu ainda mais, sempre perseguido pelo velho e
  pelos dois rapazes.

Pega
  ladro! Neste grito h um qu
    de mgico; o negociante deixa o balco e o carroceiro, a carroa; o carniceiro
    abandona o cepo, o padeiro, o cesto, o leiteiro, a celha, o moo de recados, o embrulho,
    o menino de escola, os brinquedos, o calceteiro, a alavanca. Tudo corre em
    desordem, gritando, berrando, empurrando os que passam ao voltar s ruas,
    excitando os ces e assuntando as galinhas. Ruas, praas, becos, todas repetem
    o mesmo grito: pega ladro! Cem vezes repetem esse grito, e o povo aumenta em
    cada canto. Vai seguindo sempre o mesmo povo, patinhando na lama ou batendo com
    os ps na calada; abrem-se as janelas, sai gente das casas, todos se
    precipitam. Quem est no teatro de bonecos deixa Polichinelo e acompanha o
    povo, gritando todos: pega ladro!

Pega
  ladro! O homem tem no corao
    a paixo enraizada de perseguir algum. Uma infeliz criana ofegante de
    cansao, semimorta de medo, com o rosto banhado de suor redobra os esforos
    para no ser pegada; mas todos correm mais, redobram os gritos, aumentam as
    vaias. Pega ladro! Dizem todos com regozijo. Ah!
    Prendam a pobre criana quando no seja seno por piedade.

Est preso enfim. Bela
  proeza! L est o pobre menino estendido no cho, o povo  roda dele, lutam uns
  com os outros para verem melhor o criminoso.

-- D lugar!

-- Um pouco de ar!

-- No vale a pena!

-- Onde est a pessoa
  roubada?

-- Est aqui!

-- Deixem passar este senhor!

-- Ser este o pequeno?

-- .

Oliver estava no cho,
  coberto de lama e poeira, deitando sangue pela boca, olhando com olhos pasmados
  para o povo, quando o velho apareceu e respondeu s perguntas que lhe faziam
  com ansiedade.

-- Sim -- disse ele --,
  receio que seja ele.

-- Receia! -- murmurou o
  povo. -- Que bom corao.

-- Coitadinho! Feriu-se!

-- No, senhor -- diz um brutamontes. Fui eu que
  lhe despedi um soco, por sinal que os dentes dele me cortaram a mo; fui eu que
  o prendi.

Ao mesmo tempo levara a mo
  ao chapu e sorria, esperando receber alguma coisa em paga do trabalho; mas o
  velho olhou para ele com asco e olhou  roda de si como se procurasse fugir
  daquele lugar; t-lo-ia provavelmente feito e ocasionado assim nova
  perseguio, se um oficial de polcia, a ltima pessoa que aparece nestas
  ocasies, no tivesse passado por entre o povo e pegado na gola de Oliver.

-- Vamos, levante-se! --
  disse ele.

-- No fui eu, senhor;
  juro que no fui eu; foram os outros dois meninos; devem estar por a.

Isto dizia Oliver
  torcendo as mos com desespero.

-- Oh! No! Eles esto bem
  longe -- dizia o agente que, supondo brincar, dizia a verdade; porque o Matreiro
  e Carlinhos Bates tinham seguido pela primeira rua.

-- No lhe faa mal --
  disse o velho compassivamente.

-- Oh! No se lhe faz mal
  -- disse o agente (e como prova rasgou at o meio das costas o casaco de
  Oliver). -- Anda, eu bem te conheo; a mim ningum me embaa. Anda, levanta-te!

Oliver, que mal se podia suster, fez um esforo
  para se levantar, e o agente, com passo rpido, o arrastou pela gola pela rua
  adiante: o velho os acompanhava indo ao lado do oficial de polcia; muitas
  pessoas do povo tratavam de passar adiante e olhar para trs, a fim de ver
  Oliver; os garotos berravam alegremente e seguiam o cortejo.

CAPTULO XI
TRATA-SE DE UM SR. FANG, COMISSRIO DE POLCIA, E D-SE UMA AMOSTRA
  DE SUA MANEIRA DE JULGAR.

O delito fora cometido no
  distrito e at na proximidade de uma estao central de polcia. O povo no teve
  pois por muito tempo o prazer de escoltar Oliver. Em Mutton Hill fizeram-no
  entrar por baixo de uma abbada e da a um ptio situado por trs do santurio
  da justia sumria; a encontraram um homem alto com um grande par de suas na
  cara e um molho de chaves na mo.

-- O que h de novo? --
  perguntou este com indiferena.

--  um ratoneiro --
  respondeu o agente que conduzia Oliver.

-- O senhor  o roubado? --
  perguntou o homem das chaves.

-- Sim, senhor -- respondeu o
  velho --, mas eu no estou certo se foi esta criana que me tirou o leno. Eu...
  preferia que o negcio no passasse daqui.

--  preciso ir ter com o
  juiz -- respondeu o homem. -- No tarda que ele lhe possa falar. Por aqui,
  malvado! Pelintra!

Com estas palavras
  convidava Oliver a entrar em uma pequena cela, cuja porta havia aberto; Oliver
  foi examinado e, depois de se verificar que nada tinha consigo, foi metido na
  cela e fechado  chave.

O velho parecia quase to
  consternado como Oliver quando a chave rangeu na porta e deitou suspirando os
  olhos ao livro, causa inocente de todo aquele barulho.

-- H no rosto daquela
  criana alguma coisa que me comove e interessa -- dizia o velho consigo,
  esfregando o queixo com a lombada do livro. -- Ser ele inocente? Ele
  parece-se... Ora vejamos -- continuou ele olhando para o ar. -- Onde vi eu um
  rosto semelhante quele?

Depois de alguns minutos de
  reflexo, o velho, sempre pensativo, entrou em uma pequena antecmara que dava
  para o ptio; assentou-se a um canto e passou em revista uma chusma de caras em
  que no pensara desde muitos anos.

-- No --
  disse ele abanando a cabea. -- H de ser um sonho de minha imaginao.

Volveu s suas recordaes.

No era fcil despedir
  depressa os rostos que tinha evocado; via rostos amigos e inimigos, outros quase
  desconhecidos; uns de moas frescas, outros de velhas fanadas; alguns que
  haviam perecido, mas que a memria aformoseava; via-os com aqueles olhos
  brilhantes, aqueles sorrisos divinos que fazem irradiar a alma para fora do
  invlucro terreno; rostos formosos que nos foram arrebatados para irem alumiar
  com sua branda luz a estrada que leva ao cu.

Mas em nenhum deles pde
  achar as feies de Oliver. As recordaes que evocara fizeram com que soltasse
  um profundo suspiro; mas como, felizmente para ele, era distrado, continuou a
  leitura e esqueceu o resto.

Foi arrancado  leitura
  pelo carcereiro, que lhe deu uma pancadinha no ombro e o convidou a que o
  acompanhasse. O velho fechou o livro e foi introduzido na sala onde funcionava
  o imponente e clebre Sr. Fang.

A sala da audincia dava
  para a rua; ao fundo estava sentado o Sr. Fang e perto da porta, em um
  banquinho, o pobre Oliver, apavorado com a gravidade da cena.

Era o Sr. Fang de
  estatura regular e quase calvo; os poucos cabelos que tinha cobriam-lhe a nuca
  e os lados da cabea; a expresso de suas feies era dura e a tez, vermelha.
  Se, na realidade, ele no saa dos limites da sobriedade, podia intentar contra
  o seu rosto um processo de difamao e obter considerveis perdas e danos.

O velho fez-lhe um
  respeitoso cumprimento e, aproximando-se da mesa, disse entregando-lhe o
  carto:

-- Eis o meu nome e a
  minha morada.

Depois deu dois ou trs
  passos para trs e esperou que se lhe dirigisse a palavra.

Ora, aconteceu que o Sr. Fang
  estivesse justamente ocupado a ler um jornal da manh, em que se dava notcia
  de uma sentena que ele proferira recentemente e em que se recomendava pela
  centsima vez  vigilncia do ministro respectivo os atos de semelhante
  magistrado. Esta leitura p-lo fora de si; levantou os olhos com furor.

-- Quem  o senhor? --
  perguntou ele.

O velho, surpreso com a
  pergunta, apontou para o carto.

-- Oficial de polcia,
  quem  este indivduo? -- disse o Sr. Fang, pondo desdenhosamente para o lado o
  carto e o jornal.

-- O meu nome -- disse o
  velho com dignidade --, o meu nome  Brownlow; permita que eu pergunte agora o
  nome do magistrado que, protegido pela lei, insulta gratuitamente e sem nenhuma
  provocao um homem respeitvel.

Ao mesmo tempo o senhor
  Brownlow parecia procurar com os olhos na sala algum que lhe respondesse 
  pergunta.

-- Oficial de polcia! --
  disse o Sr. Fang. -- De que  acusado este indivduo?

-- No  acusado de nada, Sr.
  juiz -- respondeu o oficial. -- Comparece como queixoso contra este pequeno.

O juiz sabia isso
  perfeitamente; mas era um bom meio de fazer picuinhas ao outro.

-- Comparece contra este
  pequeno? -- disse Fang olhando desdenhosamente para o Sr. Brownlow. -- Faa-o
  prestar juramento.

-- Antes de prestar
  juramento -- disse o Sr. Brownlow --, deixe-me dizer uma palavra,  que se eu no
  fosse testemunha nunca poderia crer...

-- Cale-se, senhor! -- disse o Sr. Fang
  peremptoriamente.

-- No me calo -- respondeu o Sr. Brownlow.

-- Cale-se ou mando-o sair
  -- disse o Sr. Fang. -- No seja insolente, no se atreva a afrontar um
  magistrado.

-- Como assim! -- exclamou
  o Sr. Brownlow, vermelho de clera.

-- Faa com que este homem preste o juramento! -- disse o Sr. Fang ao
  escrivo. -- No quero ouvir mais uma palavra.

A indignao do Sr.
  Brownlow chegara ao cmulo; mas ele refletiu que se se zangasse seria em
  prejuzo de Oliver; conteve-se e consentiu em prestar o juramento.

-- Agora -- disse o Sr.
  Fang --, de que  acusado o pequeno?

-- Eu estava  porta
  de um livreiro... -- comeou o Sr. Brownlow.

-- Cale-se, senhor! --
  disse o Sr. Fang. -- Agente de polcia! Onde est o agente de polcia? Vamos,
  preste juramento. De que se trata?

O agente declarou em tom humilde
  que havia prendido o pequeno e que havia examinado as algibeiras sem lhe haver
  achado nada.

-- H testemunhas? -- perguntou o Sr. Fang.

-- No, senhor juiz --
  disse o agente de polcia.

O Sr. Fang calou-se
  durante alguns minutos; depois voltando-se para o Sr. Brownlow, disse com voz
  irada:

-- Quer ou no formular a
  sua queixa contra este pequeno? O senhor prestou juramento; se recusar a dar as
  provas, ficar punido por faltar ao respeito devido  magistratura; puni-lo-ei
  em nome de...

Nome de que ou de quem,
  ignora-se; por que o escrivo e o carcereiro tossiram alto nesse momento, e o
  primeiro deixou cair ao cho um grande livro; simples efeito do acaso para
  impedir que se ouvisse o fim da frase.

Apesar das interrupes e
  insultos da parte do Sr. Fang, o Sr. Brownlow conseguiu contar o fato; observou
  que, na surpresa do momento, correra atrs do pequeno por ver que ele corria;
  acrescentou que, no caso em que o juiz considerasse Oliver no como ladro, mas
  cmplice de ladro, o tratasse com a brandura que a lei comportava.

-- Demais, o menino est
  ferido -- disse ele terminando. -- E eu receio que esteja realmente muito doente.

-- Oh! Sem dvida, isso
  no se pergunta -- disse o Sr. Fang gracejando. -- Vamos l, vagabundo; deixa-te
  de fingimentos, que no valem nada. Como te chamas?

Oliver tentou responder,
  mas faltou-lhe a voz; estava plido como a morte, e a sala andava-lhe  roda.

-- Como te chamas,
  vagabundo? -- disse o Sr. Fang com voz de trovo. -- Oficial, como se chama este
  patife?

Eram estas palavras
  dirigidas a um sujeito gordo, com um colete riscado; o sujeito inclinou-se para
  Oliver e repetiu a pergunta, mas vendo que a criana no podia responder e que
  o silncio exasperava o juiz e agravaria a sentena, respondeu:

-- Diz que se chama Tom
  White.

-- Recusa falar, no ? --
  disse o Sr. Fang. -- Muito bem, muito bem. Onde mora?

-- Onde pode -- respondeu o
  oficial de polcia como se transmitisse a resposta de Oliver.

-- Tem parentes? --
  perguntou o Sr. Fang.

-- Diz que os perdeu desde
  a infncia -- respondeu o oficial, sempre do mesmo modo.

Estava nisto o
  interrogatrio quando Oliver ergueu a cabea e, deitando  volta de si olhares
  suplicantes, pediu com voz fraca um copo d'gua.

-- Fingimentos! -- disse o
  Sr. Fang. -- No me pegar por a.

-- Eu creio que ele est
  seriamente doente -- objetou o oficial de polcia.

-- Eu bem sei o que fao --
  disse o Sr. Fang.

-- Tome cuidado -- disse o
  Sr. Brownlow ao agente, levantando as mos instintivamente --, ele vai cair.

-- Saia, oficial de
  polcia -- disse o Sr. Fang com brutalidade. -- Deixe o pequeno cair se tiver
  gosto nisso.

Oliver aproveitou aquela
  obsequiosa licena e caiu no cho. Perdera os sentidos. A gente do servio no
  ousou socorrer a criana.

-- Eu bem sabia que ele
  representava uma comdia, disse o Sr. Fang, como se a queda de Oliver fosse
  prova. -- Deixem-no a; ele se h de levantar.

-- Que decide V.S.? --
  perguntou o escrivo em voz baixa.

-- Condeno-o sumariamente a
  trs meses de priso -- disse o Sr. Fang --, com trabalho, bem entendido. Faam
  evacuar a sala.

-- J se abria a porta e
  dois homens se preparam para conduzir Oliver  cela, quando um indivduo de
  certa idade, no mal trajado, posto que a roupa fosse pobre, entrou na sala e
  aproximou-se da mesa do juiz.

-- Suspendam! Suspendam!
  No o levem; por amor de Deus, no o levem! -- exclamava ele.

-- Quem  este homem?
  Disse o Sr. Fang. -- Mandem-no para fora; evacuem a sala.

-- Quero falar -- disse o homem.
  -- No quero sair. Eu vi tudo. Sou livreiro. Peo para prestar juramento. No se
  me pode mandar embora. H de ouvir-me, Sr. Fang. No pode recusar.

O homem estava no seu
  direito. Tinha um ar resoluto, e a coisa ia ficando sria.

-- Preste o juramento --
  respondeu o Sr. Fang. -- Que quer dizer o senhor?

-- Eu vi trs rapazes --
  disse o livreiro --, o que est preso e mais dois. Um desses  que cometeu o
  roubo; vi o ato e vi tambm o espanto e admirao do pequeno que se acha preso.

Falando assim, o honesto
  livreiro tomou respirao e contou todas as circunstncias do furto do leno.

-- Por que no veio h
  mais tempo?

-- No tinha quem me guardasse a loja.

-- Este homem estava
  lendo? -- disse o Sr. Fang.

-- Sim -- disse a
  testemunha, o livro que ainda tem na mo.

-- Ah! Ah! Este livro --
  disse o Sr. Fang. -- E tinha pago o livro?

-- Ainda no -- respondeu o livreiro rindo.

-- Na verdade, esquece-me
  disso -- disse ingenuamente o velho Brownlow.

-- Belo acusador  o senhor,
  que vem aqui processar uma criana -- disse Fang, fazendo esforos cmicos para
  tomar um ar de lstima. -- O senhor apoderou-se deste livro por modo censurvel,
  e muito feliz  que o livreiro o no acuse; sirva-lhe isto de lio. Absolvo o
  pequeno. Evacuem a sala.

-- No! Com os diabos! Eu
  quero!... -- disse o Sr. Brownlow que fazia esforos para se conter.

-- Evacuem a sala! -- disse
  o juiz.

Executou-se a ordem.

O Sr. Brownlow saiu com o
  livro em uma das mos, a bengala na outra, e extremamente colrico.

Chegou ao ptio e a
  clera passou. O pequeno Oliver est no cho, com as fontes molhadas de gua,
  plido e trmulo.

-- Pobre criana! -- disse
  o Sr. Brownlow baixando-se para Oliver. Vo buscar um carro depressa.

Veio o carro; Oliver foi
  posto dentro, e o Sr. Brownlow entrou tambm e sentou-se defronte de Oliver.

-- Quer que eu o
  acompanhe? -- perguntou o livreiro.

-- Sim, meu amigo -- disse
  o Sr. Brownlow. -- Eu ia esquecendo outra vez. Suba. Pobre criana, no h tempo
  a perder!

O livreiro subiu e o
  carro saiu.

CAPTULO
  XII
OLIVER  TRATADO COMO NUNCA; NOVAS INFORMAES A RESPEITO DO AMVEL
  ANCIO E SEUS DISCPULOS.

Desceu o carro Mount
  Pleasant e subiu Exmouth Street, indo quase pelo mesmo caminho que Oliver seguiu
  no dia em que chegou a Londres em companhia do Matreiro. Chegando a Islington
  diante do hotel do Anjo, tomou outra direo e parou enfim diante de uma linda
  casa perto de Pentonville, em uma rua tranqila e retirada.

Preparou-se logo uma
  cama onde o Sr. Brownlow deitou o jovem protegido.

Durante muitos dias o
  pobre Oliver ficou insensvel a todos os cuidados de seus novos amigos; muitas
  vezes o sol nasceu e desapareceu, e a criana continuava deitada no leito de
  dores, ardendo em uma febre que o minava como o cido sutil penetra e ri o
  ferro mais duro: fraco; plido, magro, saiu enfim desse sonho penoso e
  prolongado.

Levantou-se com
  dificuldade, apoiou a cabea no brao trmulo e olhou assustado  roda de si.

-- Onde estou? --
  perguntou ele.

Exausto como estava
  pela febre, proferiu estas palavras com uma voz fraca; mas foram logo ouvidas;
  abriram-se as cortinas da cama e uma senhora idosa, vestida com simplicidade e
  decncia, levantou-se de uma cadeira, onde trabalhava, perto da cama.

-- No fale, meu filho --
  disse ela com doura a Oliver. --  preciso ficar tranqilo, seno volta-lhe a
  doena; voc esteve muito mal; torna a deitar-te.

Ao mesmo tempo, ps a
  cabea de Oliver no travesseiro, levantou-lhe os cabelos que lhe caam na testa
  e olhou para ele com um ar to benvolo que ele no pde deixar de pr a sua
  mo descarnada na da velha e pux-la para si.

  -- Meu Deus! O pobre pequeno tem boa alma! -- dizia a velha com lgrimas nos
  olhos. -- Pobre criana! Que emoo sentiria a me, se, depois de cuidar dele
  como eu fiz, o visse agora!

-- Talvez ela me esteja
  vendo -- disse Oliver juntando as mos --, talvez estivesse aqui ao p de mim; eu
  creio que esteve.

-- Foi a febre que lhe
  deu essa idia -- disse a velha afetuosamente.

--  provvel -- disse
  Oliver pensativo. -- O cu est to longe e a felicidade l  tanta que ningum
  vem c estar ao p da cama de uma criana; mas se ela soube que eu estava
  doente, teve naturalmente pena de mim; ela sofreu tanto antes de morrer! No,
  ela no pode saber o que me acontece -- acrescentou Oliver depois de um silncio
  --, porque se ela tivesse visto que me espancavam ficaria triste e nos meus
  sonhos sempre lhe vi o rosto risonho e feliz.

A velha no respondeu
  nada, mas enxugou os olhos e depois os culos; deu a Oliver uma bebida
  refrigerante e passou-lhe afetuosamente a mo pela face, recomendando-lhe que
  tivesse juzo e estivesse sossegado, sem o que ficaria outra vez doente.

Oliver no se mexeu
  mais, no s porque queria obedecer  boa velha, como porque as poucas palavras
  que proferira lhe haviam esgotado as foras. Adormeceu suavemente e foi
  acordado pela luz de uma vela que, posta ao p da cama, alumiou a figura de um
  sujeito que tinha um grande relgio na mo; o sujeito apalpou o pulso da
  criana e declarou que ia muito melhor.

-- Est muito melhor,
  no, meu amigo? -- disse ele a Oliver.

-- Sim, senhor.

-- Eu bem sabia que ia
  melhor -- disse o sujeito. -- Tem fome, no ?

-- No, senhor.

-- O qu? -- disse o
  mdico. -- Ah! Eu bem sabia que no tinha fome. Ele no tem fome, Sra. Bedwin --
  acrescentou o mdico com ar sentencioso.

A velha fez um sinal
  de cabea respeitoso, que parecia dizer que considerava o mdico uma
  capacidade; este parecia ter igual opinio de si mesmo.

-- Tem sono, no, meu
  amigo? -- disse ele.

-- No, senhor.

-- No tem sono? --
  disse o doutor com ar satisfeito. -- Aposto que tambm no tem sede?

-- Tenho sim, senhor.

--  justamente o que
  eu esperava, Sra. Bedwin -- disse o mdico. --  natural que tenha sede,  natural;
  pode dar-lhe um pouco de ch e uma fatia de po torrado, sem manteiga. Convm
  no lhe pr muita roupa na cama; nem pouca. Quer ter esta bondade?

A velha fez um
  cumprimento, e o mdico, depois de provar o remdio e louvar a qualidade dele,
  saiu como um homem apressado e desceu a escada fazendo rinchar os sapatos nos
  degraus com ar de importncia.

Oliver adormeceu
  outra vez, e quando acordou era perto da meia-noite.

A velha deu-lhe as
  boas-noites e o confiou aos cuidados de uma criada gorda que acabava de entrar
  trazendo um livro de oraes e uma grande carapua. A dita criada ps o livro
  na mesa e a carapua na cabea, disse a Oliver que ela velaria a noite e,
  sentando-se na cadeira, caiu em um semi-sono interrompido por sobressaltos;
  nessas ocasies esfregava o nariz e continuava a cochilar.

A noite passou
  lentamente.

Oliver ficou algum
  tempo acordado, ocupado em contar os crculos luminosos que a lamparina
  projetava no teto ou em acompanhar com os olhos o desenho complicado do papel
  que forrava as paredes do quarto.

Aquela meia-luz e o
  profundo silncio que reinava no quarto tinham um qu de imponentes, e faziam
  com que a criana pensasse na morte que durante muitos dias e noites pairara
  sobre ela; voltou-se na cama e fez uma fervente orao.

Depois dormiu.

Era j dia claro
  quando acordou; sentiu uma forte alegria; a crise estava passada e ele
  pertencia definitivamente a este mundo.

Ao cabo de trs dias
  pode estender-se em uma chaise-longue bem forrada com travesseiros. Como
  era ainda muito fraco para andar, a Sra. Bedwin f-lo transportar para baixo,
  no seu prprio quarto, p-lo diante da lareira, assentou se ao p dele e, no
  transporte de sua alegria, vendo-o sem perigo, entrou a soluar.

-- No faa caso,
  amiguinho -- disse a velha. -- Eu no pude resistir; mas j acabou.

-- A senhora  muito
  boa -- disse Oliver.

-- No falemos disso,
  meu amigo -- disse a velha. -- Tratemos do seu caldo que so bons de tomar; o
  diretor disse que o Sr. Brownlow vir aqui ter com voc hoje de manh;  preciso
  ter boa cara, a fim de que ele fique mais contente.

Imediatamente a boa
  velha fez aquecer um caldo, to gordo que daria para trezentos e cinqenta
  pobres pelo menos, no asilo da mendicidade.

-- Gosta de quadros? --
  perguntou a Sra. Bedwin, vendo Oliver contemplar atentamente um retrato
  pendurado na parede diante dele.

-- No sei -- disse ele
  sem tirar os olhos do quadro. -- Tenho visto to poucos que no sei se gosto
  deles ou no. Como o rosto daquela moa  suave e belo! Parece-se com algum?

-- Sim -- disse a
  velha, deixando de olhar para o caldo. --  um retrato.

-- De quem? --
  perguntou Oliver muito depressa.

A velha respondeu
  alegremente:

-- No sei de quem  o
  retrato; no ser de pessoa que eu ou voc tenhamos conhecido. Parece que voc
  est impressionado.

--  to bonito! --
  disse Oliver.

-- No mete medo --
  disse a velha, observando com surpresa o ar de respeito com que a criana
  contemplava o retrato.

-- Oh! No, no -- disse
  vivamente Oliver --, mas os olhos so to tristes e esto to cravados em mim.
  Bate-me o corao como se aquela moa quisesse falar-me e no pudesse.

-- Jesus! No diga
  essas coisas, meu amiguinho; voc est fraco e nervoso; isso  efeito da
  molstia. Deixe-me voltar-lhe a cadeira para outro lado, para que no veja o
  retrato; olhe, agora j o no pode ver.

Oliver via o retrato
  com os olhos do esprito to distintamente como se no houvesse mudado de
  posio, mas receava importunar a boa velha; sorriu para ela quando ela olhou
  para ele, e a Sra. Bedwin, feliz por v-lo mais tranqilo, salgou o caldo e
  deitou-lhe alguns pedacinhos de po torrado, com toda a seriedade que esta
  operao comporta. Oliver engoliu o caldo apressadamente e mal tinha tomado a
  ltima colherada quando ouviu bater devagarinho na porta.

-- Entre -- disse a
  velha.

Apareceu o Sr.
  Brownlow.

Caminhou
  apressadamente para Oliver; porm, mal tinha levantado os culos e posto as mos
  atrs das costas para contemplar Oliver, quando o rosto se lhe contraiu e mudou
  muitas vezes de expresso. Exausto pela molstia, Oliver, querendo respeitar o
  seu benfeitor, fez um esforo para se levantar e caiu na cadeira; e o velho Sr.
  Brownlow, que tinha mais alma do que seis velhos juntos, sentiu rebentarem-lhe
  as lgrimas dos olhos com uma abundncia que no explicarei por no ser assaz
  filsofo.

-- Pobre criana!
  Pobre criana! -- disse ele, procurando falar claro. -- Estou hoje muito rouco,
  Sra. Bedwin, creio que apanhei um defluxo.

-- Talvez no -- disse
  --, toda a sua roupa est bem seca.

-- No sei, creio que
  a senhora ontem me deu um guardanapo mido; mas no falemos mais nisto. Como
  vai o meu amiguinho?

-- Estou satisfeito,
  senhor -- disse Oliver -- e muito grato pelo que o senhor me tem feito.

-- Deu-lhe alguma
  coisa, Sra. Bedwin, um caldo?

-- Tomou agora um
  excelente caldo -- respondeu a Sra. Bedwin.

-- Alguns copos de
  Porto seriam muito melhor -- disse o Sr. Brownlow erguendo os ombros. No acha,
  Tom White?

-- Eu chamo-me Oliver
  -- respondeu o enfermo admirado.

-- Oliver? -- disse o
  Sr. Brownlow. -- No  Tom White?

-- No, senhor, Oliver Twist.

-- Singular nome --
  disse o velho. Por que razo disse ao juiz que se chamava White?

-- Eu nunca disse isso
  -- respondeu Oliver.

Isto tinha ares to
  de mentira que o Sr. Brownlow lanou ao pequeno um olhar severo; mas no era
  possvel duvidar da palavra dele; o carter da verdade estava impresso em todas
  as feies de Oliver.

-- Foi engano, naturalmente
  -- disse o Sr. Brownlow.

Mas, posto que j no
  houvesse motivo para encarar fixamente a criana, voltou-lhe ao esprito a
  semelhana de Oliver com um rosto conhecido e no pde tirar os olhos do
  menino.

-- Espero que no
  esteja zangado comigo -- disse Oliver com olhos suplicantes.

--No, no -- disse o
  velho. -- Cus! Que vejo! Sra. Bedwin, olhe, olhe.

E falando assim
  apontava com o dedo o retrato colocado por cima da cabea de Oliver e depois o rosto
  do pequeno; era a cpia viva do retrato; os mesmos olhos, a mesma boca, as
  mesmas feies. Neste momento a semelhana era tal que todas as linhas do rosto
  pareciam reproduzidas com maravilhosa preciso.

Oliver ignorava a
  causa da exclamao sbita; no era to forte a comoo que ela lhe produziu e
  desmaiou.

. . . . . . . . . . .
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Quando o Matreiro e
  seu digno camarada, mestre Bates, depois de se apropriarem ilegalmente do leno
  do Sr. Brownlow, se juntaram ao povo que perseguia Oliver, como dissemos,
  obedeceram a um sentimento louvvel e meritrio, o de salvarem a respectiva
  pele. Como o respeito de liberdade individual  um dos privilgios de que mais
  se desvanece o cidado ingls, cuido que no ser preciso observar que a fuga
  dos nossos jovens ratoneiros deve dar-lhes relevo no esprito dos patriotas
  sinceros.

A prova de que eles
  andaram como verdadeiros filsofos  que, apenas a ateno geral se fixou toda
  sobre Oliver, deixaram eles de o perseguir e voltaram para casa pelo caminho
  mais curto.

Depois de percorrerem
  a toda a pressa um ddalo de ruas e becos, pararam de comum acordo, e apenas
  mestre Bates pde respirar, soltou um grito de alegria e uma tal gargalhada que
  caiu.

-- Por que te ris
  assim? -- perguntou o Matreiro.

--Ah! Ah! Ah!

-- No faa barulho --
  observou o Matreiro lanando  volta de si um olhar assustado. -- Queres ser filado,
  animal?

-- No posso, no
  posso -- disse Carlinhos. -- Como ele corria, enfiando ruas e ruas, esbarrando
  nas paredes, e eu c com o leno no bolso, a gritar: pega ladro! No posso!

A viva imaginao do mestre
  Bates reproduziu aquela cena com ares to cmicos que ele continuou a rir e a
  rolar no cho.

-- Que dir Fagin? -- perguntou o Matreiro, aproveitando um instante
  em que Bates tomava flego.

-- O que ? -- disse
  Carlinhos.

-- Sim, que dir ele?

-- Que poder dizer? --
  perguntou Carlinhos, suspendendo o acesso de hilaridade, porque o tom do
  Matreiro era srio. -- Que poder dizer?

A nica resposta que
  lhe deu o Sr. Dawkins (o Matreiro) foi assobiar, tirar o chapu, sacudir a
  cabea e coar a orelha.

-- Que quer dizer com
  isso? -- perguntou-lhe Carlinhos.

-- La, ra, ra, la, ra,
  ra -- respondeu o Matreiro.

-- Era uma explicao;
  mas pouco satisfatria.

Mestre Bates repetiu
  a pergunta:

-- Que significa isso?

O Matreiro no
  respondeu, mas ps o chapu, levantou a aba da casaca, fez com a lngua uma
  bola na face, beliscou a ponta do nariz, muitas vezes, voltou as costas e
  entrou no ptio da casa.

Mestre Bates foi
  atrs dele com ar pensativo.

Alguns instantes depois
  desta conversa, o amabilssimo ancio prestava ouvidos para ver se ouvia rumor
  de passos na velha escada.

Estava ele assentado
  perto do fogo, diante de uma caarola, tratando de fazer comida e tendo uma
  faca na mo.

Horrvel sorriso lhe passou
  pelo rosto lvido, quando se voltou para escutar, inclinando o ouvido para a
  porta e volvendo os olhos ferozes por baixo das sobrancelhas vermelhas.

-- Quem ? -- disse ele
  mudando de cara. -- So apenas dois. Aconteceria alguma coisa? Ateno.

Os passos se
  aproximaram e foram ouvidos mais perto.

Abriu-se a porta
  lentamente.

Entraram o Matreiro e
  Carlinhos e fecharam a porta.

Oliver no vinha com
  eles.

CAPTULO XIII
APRESENTAO DE ALGUNS PERSONAGENS NOVOS QUE NO SO ESTRANHOS A
  CERTOS PARTICULARES INTERESSANTES DESTA HISTRIA.

-- Onde est Oliver? --
  disse o judeu com furor e ameaa. -- Que  feito dele?

Os jovens ratoneiros
  olharam para o patro com ar de medo; depois olharam um para o outro com ar de
  atrapalhao e no disseram palavra.

-- Que  feito de
  Oliver? -- disse o judeu, segurando o Matreiro pela gola e ameaando-o com
  horrveis imprecaes. -- Fala ou eu te esgano!

Fagin dizia isto com um
  modo to srio que o Carlinhos Bates, j posto de longe por causa das dvidas, e
  receando que tambm ele fosse esganado, ajoelhou e soltou um grito agudo e
  prolongado, combinao do urro de um touro e do som de uma trombeta.

-- No falars, demnio?
  -- disse o judeu com voz de trovo, sacudindo o Matreiro com fora tal que era
  de admirar no lhe rasgasse a casaca.

-- Caiu na ratoeira --
  disse o Matreiro. -- Faa o favor de me deixar em paz.

E com um s movimento
  fugiu s mos do velho, segurou num garfo e apontou para o colete do amvel
  ancio um golpe tal que se fosse despedido lhe faria perder a alegria por um ou
  dois meses, ou talvez mais.

Nesta ocorrncia, o
  judeu recuou com mais agilidade do que era de esperar de um velho e, travando
  de uma caneca de estanho, j se preparava para a atirar  cara do adversrio;
  mas o Carlinhos Bates atraiu a sua ateno com um berro e foi  cabea dele que
  a caneca se dirigiu.

-- Que terremoto  este?
  -- murmurou de repente uma voz grossa. -- Quem diabo me atirou isto  cara? Muito
  feliz fui em s me cair a cerveja, e no a caneca, sem o que teria pano para
  mangas. Nunca pensei que um velhaco judeu pudesse deitar outra coisa que no
  gua, e ainda assim s com a inteno de defraudar a companhia das guas
  filtradas. Que h por c, Fagin? Diabo! A minha gravata est cheia de
  cerveja... Entra, animal! Que fazes l fora? Entra!

O homem que assim
  falava era um slido rapago de 35 anos, vestido de palet de veludo grosso,
  cales pardos, meias azuis, escondendo pernas rolias e cheias, pernas que
  parecem incompletas quando no trazem alguma corrente. Trazia um chapu escuro
  e  roda do pescoo um leno velho, com cujas pontas enxugava a cara; quando
  acabou de enxugar deixou ver uma cara vulgar, barba por fazer, dois olhos
  sinistros, um dos quais tinha sinais de murro recente.

-- Vem c! -- gritou o
  bandido.

Um co, com a cara
  ferida em vinte lugares, entrou rastejando no quarto.

-- Anda depressa. Tens
  vergonha de me obedecer  vista de gente? Deita-te: bota abaixo.

Esta ordem foi
  acompanhada de um pontap que deitou o co para o outro lado do quarto. O co
  parecia acostumado a este tratamento; encolheu-se tranqilamente no canto, sem
  soltar um grito, fechando e abrindo os olhos, vinte vezes por minuto, parecendo
  fazer a inspeo do quarto.

-- Com quem estavas
  brigando? -- disse o homem, assentando-se com ar resoluto. -- Maltratas as
  crianas, velho avarento? Admira-me que eles te no dem cabo da pele; no lugar
  deles j eu tinha feito isso. Se eu tivesse sido teu discpulo, h muito que
  essa farsa estaria representada e... Mas no; nem poderia vender a tua pele;
  quando muito meter-te-ia numa garrafa para mostrar-te como um prodgio de
  fealdade; mas no h garrafas tamanhas.

-- Sio, sio, Sr. Sikes
  -- disse o judeu tremendo. -- No fale to alto.

-- No me chames senhor
  -- respondeu o bandido. --  sinal de que tramas alguma coisa. Sabes o meu nome,
  no? Eu no o desonrei nunca.

-- Est bom, Guilherme
  Sikes -- disse o judeu com humildade abjeta. -- Pareces estar de mau humor.

-- Talvez -- respondeu
  Sikes. -- Parece-me que tu tambm ests fora dos eixos, quando atiras canecas de
  cerveja  cara dos outros, salvo se se trata de coisa pior que ir dar uma
  denncia de ti, e...

-- Ests louco? --
  disse o judeu, puxando o homem pela manga e apontando para os rapazes.

O Sr. Sikes
  contentou-se em fazer um lao de corda e inclinou a cabea sobre o ombro
  direito, pantomima que o judeu pareceu compreender perfeitamente.

Depois em termos de
  gria, que usava muito, mas que  intil citar porque seriam ininteligveis ao
  leitor, pediu um copo de licor.

-- Mas no ponhas
  veneno -- acrescentou ele, pondo o chapu na mesa.

Dizia isto brincando;
  mas se pudesse ver o judeu morder os lbios com um infernal sorriso,
  dirigindo-se para o buf, pensaria que a precauo no era intil e que o amvel
  ancio podia ceder  vontade de aperfeioar a indstria do destilador.

Depois de ter
  engolido dois ou trs copos de licor, o Sr. Sikes teve a bondade de prestar
  ateno aos jovens aprendizes; e esta amabilidade produziu uma conversa em que
  se falou da causa e das circunstncias da priso de Oliver com a modificao e
  ornatos que o Matreiro julgou oportuno fazer.

-- Tenho medo que ele
  d com a lngua nos dentes e nos ponha em apuros.

--  provvel -- disse
  Sikes com um sorriso malicioso. -- Ficas em bons lenis, Fagin.

-- E tenho medo --
  acrescentou o judeu, sem dar ateno  interrupo e olhando para o seu
  interlocutor fixamente --, tenho medo que, se a dana comear por ns, chegue
  tambm a outros; meu caro, a tua posio  pior do que a minha.

O homem estremeceu e
  voltou-se para o judeu com ar ameaador; mas este abaixou a cabea e seus olhos
  erraram ao acaso no muro colocado em frente dele.

Houve um longo
  silncio; cada um dos membros daquela respeitvel associao parecia absorvido por
  suas prprias reflexes, sem excetuar o co, que parecia meditar um ataque s
  pernas da primeira pessoa que entrasse da rua.

--  preciso que
  algum v  estao policial saber o que houve -- disse o Sr. Sikes, em voz mais
  baixa do que a que usara at ento.

O judeu fez um sinal
  de assentimento.

-- Se ele no falou e
  est preso, no h que recear at que seja solto -- disse o Sr, Sikes -- e ento
  veremos.  necessrio descobrir-lhe o rasto seja como for.

O judeu fez um novo
  sinal de assentimento.

Se ele no falou era
  evidentemente o melhor; mas infelizmente um grave obstculo se apresentava;
  esse obstculo era profunda antipatia que o Matreiro, Carlinhos Bates, Fagin e
  Guilherme Sikes votavam  polcia, e a repulso que sentiam em ir andar nos arredores
  dela, qualquer que fosse o motivo.

Seria difcil dizer
  quanto tempo ficaram sem falar, a olharem uns para os outros, num estado de
  indeciso desagradvel; mas a chegada de duas moas, que j haviam aparecido
  quando Oliver ali estava, fez com que se continuasse a conversa.

-- Est a coisa
  arranjada -- disse o judeu. -- Betty ir; no , querida?

-- Aonde? -- perguntou
  a moa.

--  polcia,
  queridinha -- disse o judeu com voz macia.

Cumpre fazer justia 
  moa; ela no recusou positivamente ir  polcia; limitou-se a declarar que
  preferia ir ao diabo; maneira polida e delicada de iludir a questo e que
  mostra aquele sentimento delicado das convenincias que faz com que evitemos
  contrariar o nosso prximo com uma recusa direta e formal.

O judeu franziu a
  cara; no se dirigiu mais a Betty, que trazia um esplndido vesturio, vestido
  encarnado, botinas verdes e papelotes amarelos, mas  sua companheira.

-- E voc, Nancy? --
  disse ele. -- Que diz voc?

-- No me cheira --
  respondeu ela. -- No insista, que  intil.

-- Que quer dizer
  isso? -- disse o Sr. Sikes, olhando para ela com ar sombrio.

-- Isto mesmo,
  Guilherme -- respondeu tranqilamente a moa.

-- E tu s justamente
  a pessoa que desejamos -- disse Sikes. -- Ningum te conhece no bairro.

-- E como eu no me
  preocupo que me conheam ou no -- disse Nancy com a mesma calma --, recuso.

-- Ela h de ir, Fagin
  -- disse Sikes.

-- No -- disse Nancy.

-- Sim, h de ir --
  repetiu Sikes.

O Sr. Sikes tinha
  razo.

 fora de ameaas,
  promessas, carcias, Nancy consentiu em se encarregar da comisso.

Demais, ela no tinha
  as mesmas consideraes da companheira, porque, tendo deixado pouco antes o
  arrabalde afastado mas elegante de Retclife, para vir habitar os arredores de
  Fieldlane, no tinha como Betty receio de ser encontrada por alguns dos seus
  numerosos conhecidos.

Em conseqncia,
  depois de atar  cintura um avental branco, e metidos os papelotes debaixo de
  um chapu de palha, artigos de toalete do inesgotvel armazm do judeu,
  declarou-se pronta Nancy para desempenhar sua misso.

-- Espera -- disse o
  judeu, dando-lhe um cestinho. -- Leva isto na mo;  para teres um ar mais
  respeitvel.

-- D-lhe tambm uma
  chave, Fagin -- disse Sikes. -- E mais natural.

-- Sim, sim, tem razo
  -- disse o judeu pondo no dedo da moa uma grande chave. -- Est perfeita. 
  soberbo!

-- Oh! Meu irmo! Meu
  querido irmo! -- exclamou Nancy, fingindo lgrimas e desespero --, que  feito
  dele? Oh! Meus senhores, por favor, tenham pena de mim! Digam-me onde pra o
  meu irmo! Eu lhes suplico meus senhores.

Depois de proferir
  estas palavras com voz lamentosa e dilacerante a grande aprazimento dos
  assistentes, Nancy calou-se, piscou o olho, cumprimentou os outros e saiu.

-- Boa rapariga --
  disse o judeu, falando aos rapazes e sacudindo gravemente a cabea como para os
  animar a seguir o exemplo.

-- Faz honra ao seu
  sexo -- disse Sikes, enchendo o copo e dando um murro na mesa. -- A sade de
  Nancy!

Enquanto todos
  elogiam Nancy, a prola das mulheres, chegou esta  estao da polcia s e
  salva, no sem sentir aquele sentimento de timidez natural de uma mulher que se
  acha nas ruas s e sem proteo.

Entrou por trs,
  bateu levemente em uma das clulas e escutou. Nada ouviu; tossiu; nada.

-- Oliver -- disse ela.

Na clula havia um
  miservel vagabundo que fora preso por ter cometido o crime de tocar flauta sem
  licena e que, provado o seu atentado, fora condenado pelo Sr. Fang a um ms de
  priso; o Sr. Fang fez esta observao jocosa e apropriada: disse que se ele
  tinha bons pulmes seria mais justo empreg-los em trabalhar no moinho da
  priso que em tocar flauta.

O preso no ouviu.

Nancy passou a outra
  clula.

-- Quem ? -- disse uma
  voz trmula e fraca.

Est ai um menino?

-- No -- disse a voz.

Aquele que falava
  assim era um vagabundo de 65 anos que fora preso por no ter tocado flauta,
  isto , por andar esmolando em vez de ganhar a vida. Na terceira clula havia outro
  indivduo, condenado por ter vendido caarolas sem licena e por conseqncia
  em detrimento do fisco.

Como nenhum, dos
  indivduos respondia ao nome de Oliver, nem podia dar notcias dele, Nancy foi
  direito ao agente de polcia do colete riscado de que j falamos e, entre
  soluos e lamentaes, reclamou o seu querido irmo.

-- No est aqui --
  disse o agente.

-- Onde est?

-- O sujeito levou-o.

-- Que sujeito? Oh!
  Meu Deus! Meu Deus! Que sujeito?

Para responder a
  estas perguntas incoerentes, o agente explicou que Oliver desmaiara na polcia,
  fora absolvido, por se ter provado que outrem cometera o roubo, graas a uma
  testemunha, e que fora levado sem sentidos pelo queixoso para a casa deste, que
  devia ser do lado de Pentonville.

A moa, em um estado
  horrvel de ansiedade, saiu cambaleando. Apenas se achou na rua, apressou o
  passo e voltou  casa do judeu pelo caminho mais desviado.

O Sr. Guilherme Sikes
  apenas soube o resultado da comisso de Nancy, chamou o co, ps o chapu e
  saiu precipitadamente sem perder tempo em se despedir dos demais.

--  mister saber onde
  ele est, meus amigos -- disse Fagin comovido. -- Carlinhos, vai ver se descobres
  alguma coisa e traze-me notcias. Nancy,  preciso achar Oliver; entrego-me a
  voc e ao Matreiro. Esperem -- disse ele, abrindo uma gaveta com as mos
  trmulas. -- Aqui tem dinheiro. Hoje de noite fecho a porta; j sabem onde me
  ho de encontrar; no percam um instante, meus amigos.

Falando assim,
  conduziu-os o judeu at a escada; depois fechou a porta e tirou do esconderijo
  o cofre que involuntariamente descobrira a Oliver e escondeu precipitadamente
  na roupa os relgios e as jias.

No meio desta
  ocupao ouviu bater  porta.

-- Quem ? -- disse ele
  com medo.

-- Sou eu -- respondeu o
  Matreiro pelo buraco da fechadura.

-- Que h? -- disse o
  judeu.

-- Nancy pergunta se o
  deve levar a outra casa -- perguntou o Matreiro.

-- Sim -- respondeu o
  judeu --, descubram-no!  importante. Eu saberei depois o que devo fazer.

O Matreiro murmurou algumas
  palavras mais e desceu da escada para ir ter com os seus companheiros.

-- At agora ainda ele
  no falou -- disse consigo o judeu. -- Se tiver inteno de nos descobrir, h
  tempo de lhe cortar a lngua.

CAPTULO XIV
PROFECIA DE UM CERTO SR. GRIMWIG A RESPEITO DE OLIVER NA OCASIO EM
  QUE ELE FOI DAR UM RECADO.

Oliver voltou a si do
  desmaio que lhe causara a sbita exclamao do Sr. Brownlow; este e a Sra.
  Bedwin entraram cuidadosamente a falar do retrato, e a conversa no versou mais
  da histria e do futuro de Oliver, mas de coisas prprias para o distrarem.

Ele estava fraco; no se
  podia levantar para o almoo; mas quando desceu no dia seguinte ao quarto da
  criada gorda deitou um rpido olhar para a parede com a esperana de l ver o
  retrato da bela moa.

O retrato desaparecera.

-- Ah! -- disse a Sra.
  Bedwin, notando o olhar de Oliver. -- O retrato j no est aqui.

--Bem vejo -- respondeu
  Oliver suspirando. --Por que razo o tiraram?

-- O Sr. Brownlow disse que a
  vista deste retrato parecia incomod-lo e demoraria a sua cura.

-- Oh! No, no me
  incomodava. Eu gostava tanto dele!

-- Ora! -- disse a velha. --
  Fique bom e o retrato vir para o seu lugar; falemos agora de outra coisa.

No se falou do retrato. A
  velha contou a Oliver uma longa srie de histrias a respeito de um filho e uma
  irm que tinha, e depois do marido, at que veio o ch. Depois do ch ela lhe
  ensinou o cribbage (espcie de jogo de cartas),
  jogaram ambos, at que o doente tomou um pouco de vinho quente e foi dormir.

Felizes dias foram os da
  convalescena de Oliver; tudo  roda dele era tranqilo; e tais eram a afeio
  e bondade que lhe manifestavam, depois da vida agitada e ruidosa que ele at
  ento tivera, que Oliver supunha estar num paraso.

Apenas teve foras para se
  vestir deu-lhe o Sr. Brownlow roupa nova, bon e sapatos. Disseram-lhe que
  podia dispor da sua roupa velha; ele a deu a uma criada, que tratara dele com
  muita solicitude, dizendo que a vendesse a algum judeu e guardasse o dinheiro.
  Ela no esperou que dissesse outra vez, e Oliver, vendo da janela da sala o
  judeu enrolar as roupas, met-las no saco e ir-se embora, sentiu uma grande
  alegria pensando em que nunca mais as veria. Na verdade, eram uns pobres
  molambos, e Oliver nunca tinha vestido roupa nova.

Oito dias depois do
  incidente do retrato, estava ele conversando com a Sra. Bedwin quando o Sr.
  Brownlow mandou dizer que, se Oliver Twist estava bom, fosse conversar com ele
  no gabinete.

-- Meu Deus! Lave as mos e
  deixe-me pentear-lhe os cabelos -- disse a Sra. Bedwin. -- Se eu soubesse que ele
  o mandaria chamar tinha-lhe posto um colarinho novo; tinha-o posto belo como um
  astro.

Oliver obedeceu  velha, e
  esta achou-o to galante contemplando-o da cabea aos ps que chegou a dizer
  que ele no precisava de nenhum enfeite mais.

Oliver foi bater  porta do
  gabinete e, quando o Sr. Brownlow disse que entrasse, achou-se em uma pequena
  saleta cheia de livros, dando uma janela para o jardim. Perto da janela havia
  uma mesa, ao p da qual se achava o Sr. Brownlow assentado e lendo.

Vendo Oliver deixou ele o
  livro e disse  criana que se sentasse perto da mesa. Oliver obedeceu
  admirando-se que pudesse haver quem lesse tantos volumes, escritos, segundo
  parecia, para tornar o mundo mais sbio; objeto de espanto continuado para
  pessoas mais experimentadas que Oliver Twist.

-- So
  muitos livros, no? -- perguntou o Sr. Brownlow, observando a curiosidade de
  Oliver a olhar para as estantes.

-- Sim, senhor, muitos --
  disse Oliver -- , nunca vi tantos livros
  assim.

-- H de l-los -- disse o
  Sr. Brownlow com bondade -- e h de achar mais gosto do que em ver a
  encadernao; nem sempre, porque h livros cujo valor est todo na capa.

-- So talvez aqueles livros
  grossos -- disse Oliver apontando para uns in quarto de
  encadernao dourada.

-- Nem sempre -- disse o
  velho sorrindo. -- H alguns que so muito pesados posto sejam de pequeno
  formato. Voc quer escrever livros?

-- Creio que os prefiro
  ler -- disse Oliver.

-- Como! -- disse o Sr.
  Brownlow. -- No queria ser autor?

Oliver refletiu um pouco
  e acabou dizendo que achava melhor ser livreiro. O velho riu muito e disse que
  a resposta era excelente; o que alegrou Oliver, que se no supunha to
  engraado.

-- Descanse -- disse o Sr.
  Brownlow, voltando ao tom srio. -- Voc no ser autor enquanto puder aprender
  outro oficio, ainda que seja o mais nfimo.

-- Obrigado -- disse
  Oliver.

E a resposta viva de
  Oliver fez com que o velho se risse muito e dissesse entre os dentes alguma
  coisa a respeito do instinto; Oliver no deu grande ateno, porque no
  compreendeu nada.

-- Agora -- disse o Sr.
  Brownlow com um tom mais benvolo que nunca, mas ao mesmo tempo mais srio. --
  Agora peo que preste ateno ao que lhe vou dizer. Vou falar com franqueza,
  porque me parece que voc pode compreender-me como outras pessoas de mais
  idade.

-- Oh! Senhor eu lhe peo,
  no me diga que me vai mandar embora -- exclamou Oliver, assustado com o tom
  srio de seu protetor. -- No me ponha outra vez na rua. Deixe-me ficar aqui
  para o servir. No me mande ao infame covil donde sa. No me mande ao infame
  covil! Tenha piedade de uma pobre criana.

-- Meu caro filho -- disse
  o Sr. Brownlow --, no receie que eu mande embora salvo se me obrigar a isso.

-- Nunca, nunca.

-- Espero-o -- disse o
  velho. -- Estou persuadido de que nunca me obrigar a isso. Posto que eu tenha
  experimentado decepes da parte das pessoas a quem tenho feito bem, estou contudo
  disposto a ter confiana em voc e interesso-me mais do que posso exprimir. As
  pessoas a quem eu mais estimei esto longe, mortas; mas, posto que elas
  levassem consigo o encanto e a ventura de minha vida, no fiz de meu corao um
  fretro e no o fechei para sempre s comoes suaves e boas; uma aflio
  profunda fez com que eu as tivesse mais fortes; e assim devia ser sempre,
  porque a desgraa purifica o nosso corao.

O velho, depois de
  proferir outras palavras em voz baixa, como se falasse a si mesmo, calou-se
  alguns instantes, enquanto Oliver, imvel em sua cadeira, mal ousava respirar.

-- Se lhe falo assim --
  disse o Sr. Brownlow com um tom mais alegre -- 
  porque o seu corao  jovem e, sabendo que eu sofri grandes amargores talvez
  voc evite renov-los. Diz que  rfo e no tem um amigo no mundo. As
  informaes que obtive confirmam esta assero. Conte-me a sua histria;
  diga-me de onde veio, quem o criou e como se achava com as pessoas com quem o
  achei. Esteja certo de que enquanto eu viver no deixar de ter um amigo.

Durante alguns instantes
  os soluos impediram a fala de Oliver; ia ele contar como havia sido criado e
  levado ao depsito de mendicidade pelo Sr. Bumble, quando duas grandes
  pancadas, dadas por mo impaciente, soaram na porta da rua. Entrou um criado e
  anunciou o Sr. Grimwig.

-- Vem subindo? --
  perguntou o Sr. Brownlow.

-- Sim, senhor -- disse o
  criado. -- Perguntou se havia muffins (doces para
  tomar com ch) e como eu lhe disse que sim, disse que vinha tomar ch.

O Sr. Brownlow sorriu e,
  voltando-se para Oliver, disse-lhe que o Sr. Grimwig era um de seus velhos
  amigos e que no reparasse nas maneiras dele, porque era um homem digno.

-- Devo ir embora? --
  perguntou Oliver.

-- No -- respondeu o Sr.
  Brownlow. -- Prefiro que fique aqui.

Neste momento entrou um
  velho, de bela corpulncia, apoiando-se em uma grossa bengala; coxeava de uma
  perna, trazia casaca azul, colete riscado, calas e polainas e um chapu de
  abas largas. Uma larga cadeia de ao, na ponta da qual s havia uma chave,
  pendia da algibeira do colete. As duas pontas da gravata branca estavam atadas
  em um lao do tamanho de uma laranja; tinha o aspecto nobre. Quando falava,
  voltava a cabea ao lado e olhava com o rabo do olho, o que lhe dava certos
  ares de papagaio. Foi nesta atitude que ele entrou na sala; e tendo na mo um
  pedacinho de casca de laranja exclamou com mau humor:

-- Olha; no  estranho e
  prodigioso que eu no possa entrar em casa de algum sem achar um pedao de
  casca de laranja, que faz a fortuna dos cirurgies? Foi uma casca de laranja
  que me fez coxo e estou certo de que h de ser um pedao de casca de laranja a
  causa da minha morte. Sim, hei-de morrer de uma casca de laranja; comerei eu a minha cabea se no for assim!

Esta ltima expresso era
  peculiar na boca do Sr. Grimwig quando queria dar peso s suas asseres; e o
  que havia de extravagante e singular nessa expresso na boca dele  que,
  admitindo que a cincia se aperfeioe a ponto de fazer com que um indivduo
  coma a sua prpria cabea, a do Sr. Grimwig era de tamanho tal que no era
  possvel com-la de uma vez.

-- Sim, senhor -- repetiu o
  Sr. Grimwig, batendo com a bengala no assoalho. -- Coma eu a minha cabea! Que 
  isto? -- acrescentou ele vendo Oliver e recuando dois passos.

--  o jovem Oliver Twist,
  de quem lhe falei -- disse o Sr. Brownlow. Oliver fez uma cortesia.

-- Espero que no seja o
  rapaz que esteve com febre -- disse o Sr. Grimwig recuando mais. -- Aposto --
  continuou ele --, aposto que foi este pequeno quem comeu a laranja e deixou a
  casca na escada. Coma eu a minha cabea e a dele ao mesmo tempo!

-- No, no foi ele --
  disse o Sr. Brownlow, rindo. -- Ande, descanse o chapu e fale ao meu jovem
  amigo.

O Sr. Grimwig deixou a
  bengala, descalou as luvas, assentou-se, ps a luneta e contemplou Oliver.

-- Este  o rapaz de quem
  voc me falou? -- disse ele.

-- -- respondeu o Sr. Brownlow, fazendo a Oliver
  um sinal de cabea.

-- Como vai, pequeno? -- disse
  o Sr. Grimwig.

-- Vou melhor, obrigado --
  respondeu Oliver.

O Sr. Brownlow, receando
  provavelmente que o seu fantstico amigo acrescentasse alguma palavra
  desagradvel, disse a Oliver que fosse abaixo dizer  Sra. Bedwin que mandasse
  o ch. Oliver, que no estava muito namorado das maneiras do Sr. Grimwig,
  aproveitou a ocasio e desceu.

--  um bonito menino, no lhe parece? -- disse o
  Sr. Brownlow.

-- No sei -- disse o Sr. Grimwig em tom zangado.

-- Que  isso?

-- No sei; para mim todas
  as crianas se parecem; s conheo duas espcies de meninos: os gorduchos e os
  magricelas.

-- E em que classe pe
  Oliver?

-- Na dos magricelas. Um
  amigo meu tinha um filho gorducho; chamam aquilo um menino bonito. Bonito! Uma
  cabea redonda, faces vermelhas e olhos de fogo.  antes horrvel; parece que est
  a rasgar a roupa pelas costuras. Tem uma voz de piloto e uma fome de lobo; eu
  bem o conheo!

-- Bem -- disse o Sr.
  Brownlow --, no  esse o tipo do jovem Oliver Twist; por isso no h de que se
  zangar.

--  verdade, mas este c
  no vale mais que o outro.

O Sr. Brownlow sorriu com
  ar de zanga, o que alegrou sumamente o Sr. Grimwig.

-- Sim --
  dizia este --, no vale mais que o outro. Quem  ele? De onde veio?... Teve
  febre e que tem isso?... S a gente honesta  que tem febre? Os ratoneiros
  tambm tm essa febre... Eu conheci um indivduo que foi enforcado na Jamaica
  por ter assassinado o patro, que teve febre durante seis meses; pensa voc que
  lhe perdoaram o crime por isso? Histrias da carochinha!

O Sr. Grimwig estava
  perfeitamente convencido de que a presena de Oliver falava em seu favor; mas
  ele tinha a mania de contradizer os outros, e agora mais que nunca, pois tinha
  achado uma casca de laranja na escada. Resolvido a no se deixar influir por
  ningum para julgar se uma criana tinha ar de velhaco ou no, estava disposto
  a contradizer o amigo. Quando o Sr. Brownlow lhe disse que nada sabia da vida
  de Oliver, pois este devia cont-la apenas estivesse restabelecido, o Sr.
  Grimwig fingiu um ar sonso e maligno e perguntou com ironia se a governanta tinha
  o costume de contar a prata  noite, porque se um belo dia ela achasse uma ou
  duas colheres de menos ele era capaz de comer a sua... etc.

O Sr. Brownlow, posto
  fosse de um carter ardente, suportou tudo a rir, pois conhecia as
  extravagncias do amigo.

De sua parte, o Sr.
  Grimwig teve a complacncia de achar os muffins excelentes, e tudo correu bem. Oliver que tomara ch com eles, comeou a
  achar-se mais a gosto em presena do terrvel sujeito.

-- E quando teremos a narrao
  completa, minuciosa e verdica da vida e das aventuras de Oliver Twist? --
  perguntou o Sr. Grimwig depois do ch.

E ao mesmo tempo lanava
  a Oliver um olhar de esguelha.

-- Amanh de manh --
  respondeu o Sr. Brownlow. -- Eu prefiro que isto se passe entre mim e ele.
  Oliver, voc h de vir amanh de manh s dez horas ao meu gabinete.

-- Sim, senhor -- disse
  Oliver.

Oliver deu esta resposta
  com certa hesitao, porque ficou intimidado vendo o Sr. Grimwig olhar para ele
  fixamente.

-- Quer ouvir uma coisa? --
  disse baixinho o Sr. Grimwig ao Sr. Brownlow. -- Ele no h de vir amanh de manh; eu vi que ele hesitou,
  meu amigo, voc est enganado.

-- Juro que no -- disse o
  Sr. Brownlow com calor.

-- Est! -- disse o Sr.
  Grimwig. -- Coma eu a...

E bateu com a bengala no
  cho.

-- Juro pela minha vida em
  como este menino  sincero -- disse o Sr. Brownlow, dando um soco na mesa.

-- E eu, pela minha
  cabea, eu como...  um tratante!

-- Veremos!

-- Veremos!

Ambos estavam colricos.

Quis o acaso que a Sra.
  Bedwin entrasse nesse momento com um mao de livros que o Sr. Brownlow comprara
  nessa manh na casa daquele mesmo livreiro que j figurou nesta histria; p-lo
  em cima da mesa e ia sair.

-- Mande esperar o
  caixeiro -- disse o Sr. Brownlow  Sra. Bedwin. -- Tenho de lhe dar uma coisa.

-- O caixeiro j se foi
  embora -- disse ela.

-- Chame-o -- disse o Sr.
  Brownlow. -- O livreiro no  rico eu quero pagar os livros. Demais tem de levar
  outros.

Correram  porta; Oliver
  foi at uma esquina, a criada a outra, mas nada conseguiram. O caixeiro
  desapareceu.

-- Sinto isto muito --
  disse o Sr. Brownlow. -- Eu queria que os livros fossem entregues esta noite.

-- Mande-os por Oliver -- disse o Sr. Grimwig em tom de mofa. -- Estou certo
  de que os entregar conscienciosamente.

-- Sim, senhor, eu os
  levarei -- disse Oliver.

O Sr. Brownlow ia dizer
  que Oliver no devia sair por nenhum motivo; mas o Sr. Grimwig tossiu com um ar
  to malicioso que o dono da casa resolveu encarregar Oliver do recado e provar
  assim ao seu velho amigo quo infundadas eram as suas suspeitas.

Deu ordem a Oliver, que
  foi buscar os livros e veio com eles ao gabinete esperar as ordens.

Diga-lhe que vai levar os
  livros da minha parte e pagar os quatro guinus e meio que lhe devo. Aqui tem
  um bilhete de cinco guinus; h de trazer dez xelins de troco.

-- Bastam dez minutos --
  disse Oliver.

Ps o bilhete no bolso,
  abotoou o palet, meteu os livros debaixo do brao, cumprimentou e saiu. A Sra.
  Bedwin foi lev-lo at a porta da rua para lhe indicar exatamente o caminho
  mais curto, o nome do livreiro, o nome da rua, coisas que Oliver declarou
  entender perfeitamente.

Oliver saiu, fez um sinal
  de adeus da esquina  velha, esta cumprimentou o sorrindo, fechou a porta e
  entrou.

-- Vejamos -- disse o Sr.
  Brownlow, tirando o relgio e pondo-o em Cima da mesa. -- Ele estar c dentro
  de vinte minutos; daqui at l  noite.

-- Pois voc pensa
  seriamente que ele volta? -- perguntou o Sr.
  Grimwig.

-- Duvida disso? -- perguntou, ou melhor,
  replicou o Sr. Brownlow sorrindo.

O sorriso deste irritou a
  contradio do amigo.

-- Sim, duvido -- disse ele.
  -- O pequeno est de roupa nova, leva alguns livros de preo, um bilhete de
  cinco libras no bolso; ir ter com os seus amigos camaradas, larpios como ele,
  e prega-lhe a pea na menina do olho. Se ele puser os ps nesta casa, consinto
  eu comer a minha cabea.

Falando assim aproximou a
  cadeira da mesa, e os dois amigos ali ficaram silenciosos com os olhos no
  ponteiro do relgio.

Cumpre notar que o Sr.
  Grimwig, posto no fosse mau e sentisse ver o amigo vtima de um furto,
  desejava todavia (tal amor tinha s suas opinies!) que Oliver no voltasse.

Caiu a noite pouco a
  pouco e mal se podia ver o ponteiro do relgio. Os dois amigos l ficaram
  imveis e silenciosos com os olhos no ponteiro.

CAPTULO
  XV
V-SE O AMOR QUE O JOCOSO JUDEU E MISS NANCY TINHAM A OLIVER.

Na escura sala de uma
  miservel taverna, situada na parte mais imunda de Little
    Saffron Hill, covil tenebroso onde durante o inverno um bico de gs ardia
  todo o dia, e onde jamais, no vero, entrou um raio de sol, estava um homem
  assentado diante de uma caneca de estanho e um copo, absorvido em pensamentos e
  impregnado de um forte cheiro de licor.

Pela roupa de veludo grosso
  e pelos sapatos rasos, um agente experimentado reconheceria logo, apesar da
  pouca luz, que era o Sr. Guilherme Sikes. Aos ps dele estava um co branco, de
  olhos vermelhos, ocupando em piscar o olho para o amo e em lamber o focinho
  onde se via uma ferida larga e sangrenta, indcio de luta recente.

-- Fica sossegado! -- disse
  de repente o Sr. Sikes.

Naturalmente estava to
  absorvido em suas reflexes que o simples movimento dos olhos do co bastava
  para lhe perturbar; ou ento a irritao produzida nele por essas reflexes
  precisava traduzir-se em maus-tratos at com um animal inofensivo. Seja como
  for Sikes entrou a praguejar contra o co e ao mesmo tempo lhe deu um pontap.

Geralmente, o co no
  procura vingar-se das pancadas que lhe d o senhor; mas o do Sr. Sikes tinha,
  como o seu proprietrio, um pssimo carter e, levado da convico de sua
  inocncia, atirou-se sem cerimnia ao sapato do Sr. Sikes, sacudiu-o vivamente
  e fugiu roncando para debaixo do banco, justamente a tempo de evitar a caneca
  que o Sr. Sikes lhe atirou  cara:

-- Querias morder-me, hein? --
  disse Sikes abrindo uma longa faca que tirou do bolso. -- Vem c, patife!

O co ouviu perfeitamente,
  porque o Sr. Sikes gritava como um surdo; mas no parecia disposto a se deixar
  esfaquear; ficou onde estava, rugindo cada vez mais.

A resistncia aumentou a
  clera do Sr. Sikes. Ajoelhou-se e comeou a atacar o co com furor. O animal
  pulava de um lado para outro, ganindo, ladrando, rugindo; o homem praguejava,
  batia, blasfemava; a luta ia ser crtica para ambos, quando a porta se abriu de
  repente e o co deu um pulo para fora, deixando o Sr. Sikes com a faca na mo.

Para brigar diz um rifo
  que so precisos dois. O Sr. Sikes, desapontado com a fuga do co, fez cair a
  sua clera sobre o recm-chegado.

-- Por que razo veio voc
  meter-se entre mim e o co? -- disse ele com um gesto ameaador.

-- Eu no sabia, meu amigo,
  eu no sabia disso -- respondeu Fagin com voz humilde.

Era efetivamente o judeu
  que acabava de entrar.

-- No sabia, tratante! --
  disse Sikes. -- No ouviu o barulho?

-- No ouvi nada; juro-lhe
  pela minha vida! -- respondeu o judeu.

--  verdade, no me ouviu -- disse Sikes com um riso ameaador. --
  Voc mete o nariz em toda a parte sem que ningum o veja sair ou entrar. Eu
  quisera que estivesse, h um minuto, no lugar do co.

-- Por qu? -- disse o
  judeu com um riso forado.

-- Porque o governo que
  protege a vida de criaturas como voc deixa um homem matar um co  sua vontade
  -- respondeu Sikes fechando a faca. -- A est por qu.

O judeu esfregou as mos,
  sentou-se ao p da mesa e simulou achar graa ao dito do amigo; no obstante,
  via-se que no estava sossegado.

-- V rir  outra parte --
  disse Sikes, olhando com desdm para o judeu. -- No se atreva a rir diante de
  mim! Olhe que voc est nas minhas mos, e se me perder voc tambm se perder.

--Bem, bem, meu caro --
  disse o judeu--, eu sei tudo isso. Ns... ns temos um interesse recproco...

-- Hein? -- disse Sikes,
  como se achasse que o judeu era mais interessado que ele. -- Que temos?

-- Tudo correu perfeitamente
  -- respondeu Fagin. -- Aqui est o seu quinho;  maior do que devia ser; mas
  como eu sei que voc me levar em conta isso em outra ocasio...

-- Cale-se -- interrompeu o
  ladro. -- D c.

-- Sim, sim, Guilherme,
  deixe-me ter tempo de tirar os cobres sos e salvos.

Dizendo isto, o judeu
  tirou da algibeira um leno velho, desfez um n de uma das pontas e deixou ver
  um rolo de papel pardo, que Sikes lhe arrancou das mos. Eram soberanos de
  ouro; o ladro contou.

-- No h mais?

-- No -- respondeu o
  judeu.

-- Voc no abriu o
  embrulho no caminho para tirar duas ou trs moedas? -- perguntou Sikes com ar
  desconfiado. -- No se ponha com essa cara indignada; no seria a primeira vez
  que me bifaste alguma moeda. Agite o guiso.

Isto queria dizer por
  outras palavras: toque a campainha. Apareceu outro judeu, mais moo que Fagin,
  mas quase to ignbil e repulsivo como ele.

Sikes apontou para a
  caneca vazia e o judeu, compreendendo perfeitamente o gesto, saiu para ir
  ench-la, depois de trocar um sinal de olhos com Fagin, que levantou a cabea
  como se esperasse por isso, e respondeu com um sinal de cabea, quase
  imperceptvel. Sikes no reparou nisso, ocupado como estava em apertar o cordo
  do sapato que o co desarranjara.  provvel que, se houvesse percebido o
  sinal, no houvesse nada bom.

-- Haver aqui algum,
  Barney? -- perguntou Fagin sem levantar os olhos, agora que Sikes olhava para
  ele.

-- Ningum -- respondeu o
  outro judeu, cujas palavras, viessem ou no do corao, saam invariavelmente pelo
  nariz.

-- Ningum? -- perguntou
  Fagin em tom de surpresa, que significava talvez que Barney podia dizer a
  verdade sem medo.

-- Est apenas Miss Nancy
  -- respondeu Barney.

-- Nancy! -- exclamou
  Sikes. -- Onde est ela?

-- Est comendo um pouco de
  carne cozida sobre o balco -- disse Barney.

-- Mande-a vir -- disse
  Sikes, pondo licor no copo --, mande-a vir.

Barney olhou timidamente
  para Fagin, como para lhe pedir autorizao.

Vendo que o judeu no
  dizia palavra e tinha os olhos pregados no cho, saiu e voltou logo depois
  introduzindo Nancy, vestida de cozinheira, com uma touca, um avental, um
  cestinho e uma chave na mo.

-- Descobriste alguma
  coisa, Nancy? -- perguntou Sikes oferecendo-lhe um copo.

-- Sim, Guilherme --
  respondeu a moa bebendo o contedo, descobri alguma coisa e estou bem cansada
  por isso; o peralta estava doente e de cama...

-- Ah! Nancy! -- disse o
  judeu erguendo os olhos.

Talvez o judeu,
  contraindo as sobrancelhas vermelhas e fechando urn pouco os olhos, avisasse a
  Miss Nancy de que ela j tinha falado demais; isto pouco importa. O certo  que
  ela no continuou em suas explicaes e, depois de alguns sorrisos a Sikes,
  mudou de conversa.

Dez minutos depois, o Sr.
  Fagin foi acometido de sua grande tosse; Miss Nancy ps o xale e declarou que
  eram horas de ir embora. O Sr. Sikes observou que tinha de ir para o mesmo lado
  e manifestou o desejo de a acompanhar. Foram juntos, acompanhados pelo co, que
  estava fora.

O judeu meteu a cabea
  fora da porta depois que Sikes saiu; acompanhou-o com os olhos, ameaou-o com a
  mo fechada e murmurou horrveis imprecaes; depois, com um sorriso horrvel,
  foi sentar-se outra vez  mesa, onde se entregou  interessante leitura da Gazeta
    dos Tribunais.

Enquanto se passava a
  cena anterior Oliver Twist, que no suspeitava estar to perto do jocoso
  ancio, caminhava para a livraria.

Chegando a Clerkenvell,
  entrou distraidamente por uma rua que no estava compreendida em seu
  itinerrio, j ia em meio dela quando reparou no engano; mas, sabendo que essa
  rua ia ter ao ponto a que ele se dirigia, julgou intil voltar atrs e
  continuou a andar com os livros debaixo do brao.

Ia pensando na felicidade
  da sua atual posio, no prazer que teria em ver, um instante que fosse, o pequeno
  Ricardo, que talvez a essa hora espancado e faminto chorava amargamente, quando
  foi arrancado aos seus devaneios por uma mulher que exclamou em voz alta:

-- Oh! Maninho!

E apenas Oliver ergueu os olhos para ver o que
  era, sentiu-se preso por dois braos  roda do pescoo.

-- Deixe-me -- disse o
  menino --, deixe-me ir embora. Que  isto? Por que me prende assim?

A resposta da moa que o tinha preso, e trazia
  na mo uma carta e uma chave, foi desatar em choro e gritos.

-- Oh! Meu Deus -- dizia
  ela. -- Achei-te outra vez; Oliver! Oliver! Mau! Assustar-me tanto! Anda para
  casa; Deus seja louvado; achei-te enfim!

Depois destas exclamaes
  incoerentes, a moa continuou a gemer e soluar, com to violento acesso
  nervoso, que muitas mulheres que ali estavam perguntaram a um carniceiro de
  cabelo luzidio se no seria bom chamar um mdico. O carniceiro, que parecia
  lento, para no ser indolente, respondeu que no era preciso.

-- Oh! No! No! -- disse a moa apertando a mo de Oliver. -- Estou melhor.
  Vamos para casa, pequeno!

-- O que ? -- perguntou
  uma das mulheres.

-- Oh! -- respondeu a moa. -- Ele fugiu h perto de um ms de casa de
  seus pais, que so uns bons operrios, com o fim de acompanhar uns ladres de
  boa laia, e a me quase morreu de pesar.

-- Miservel! -- disse a
  mulher.

-- V, v para casa,
  brutinho!

-- No sou eu -- respondeu
  Oliver assustado. -- No conheo esta moa; eu no tenho pai, nem me, nem irm;
  sou rfo; moro em Pentonville.

-- Vejam que descarado! --
  disse a moa.

-- Ah!  Nancy! -- disse
  Oliver vendo a cara da rapariga, o que at ento no conseguira.

Recuou espantado.

-- Vejam como me conheceu!
  -- disse Nancy, dirigindo-se s outras pessoas. -- No podia deixar de ser assim.
  Haver algum que me queira ajudar a lev-lo para a casa? Se o no levo o pai e
  a me morrem de desgosto!

-- Que diabo  isto? --
  disse um homem saindo de uma taverna, com um co branco atrs de si. -- Ah!  o
  Oliver! Anda, salta para casa de tua me, peralta! Depressa!

-- No os conheo! Socorro!
  Socorro! -- gritou Oliver, debatendo-se entre os braos do homem.

A estas palavras, o homem
  arrancou os volumes que a criana trazia e lhe deu com eles na cabea.

-- Bem-feito! -- disse do
  alto de um sto um espectador desta cena. -- 
  assim que estes patifes devem ser ensinados!

-- Tem razo -- disse um
  carpinteiro, olhando com ar de aprovao para o outro que falara.

-- H de fazer-lhe bem --
  disseram as duas mulheres.

-- Est claro! -- replicou
  o homem batendo outra vez com os livros na cabea de Oliver, -- Anda, peralta!
  Turco! Aqui! Ateno!

Enfraquecido pela recente
  molstia, aturdido pelas pancadas, assustado com o rugido do co e com a
  brutalidade do homem, abatido pela convico em que os espectadores estavam de
  que ele era realmente um vagabundo que podia fazer o pobre menino?

Era j noite fechada; o
  bairro estava deserto; no se podia esperar nenhum socorro.

Num fechar de olhos, foi
  Oliver arrastado por um labirinto de ruas sombrias e estreitas, com rapidez tal
  que tornava ininteligveis os poucos gritos que ele ousava soltar. E que valia
  serem inteligveis, se ningum os podia ouvir?

...............................................................................................................................................................................

Os bicos de gs estavam
  acesos em toda a cidade; a Sra. Bedwin esperava com ansiedade  porta da casa;
  vinte vezes a criada correu at a esquina a ver se vinha Oliver, e os dois
  velhos amigos l estavam obstinadamente no gabinete, no meio do escuro, e os
  olhos no relgio.

CAPTULO
  XVI
O QUE FOI FEITO DE OLIVER DEPOIS DE SER LEVADO POR NANCY.

Depois de haverem passado
  por muitas ruas estreitas, becos e passagens, Sikes, Nancy e Oliver chegaram a
  um vasto espao descoberto que tinha sinais de ser um mercado de gado.

A Sikes afrouxou o passo,
  porque a moa j no podia correr como corria; voltou-se para Oliver e deu-lhe
  ordem de que desse a mo a Nancy.

-- Ouves? -- disse ele, vendo
  Oliver hesitar e olhar para todos os lados.

Estavam num lugar sombrio,
  longe de todos, e Oliver viu claramente que no havia resistncia possvel;
  estendeu a mo a Nancy, que a apertou com fora.

-- D c a outra -- disse
  Sikes. -- Aqui, Turco!

O co levantou a
  cabea roncando.

-- Olha -- disse Sikes, pondo
  a mo no pescoo de Oliver e proferindo uma praga horrvel --, se ele disser
  palavra, atira-te a ele! Entendes?

O co roncou de novo,
  lambeu o focinho e olhou para Oliver como se tivesse vontade de lhe saltar em
  cima sem demora.

-- Agora, j sabes o que te espera,
  meu rapaz, grita, se quiseres; o co se encarrega de te fazer calar; anda,
  depressa!

Turco agitou a cauda para
  agradecer ao amo essas palavras de afago, a que ele estava habituado; depois
  soltou um novo grunhido e ps-se a andar na frente dos trs.

Atravessaram Smithfield; se
  fosse Grosvenor-Square era a mesma coisa para Oliver, que no conhecia um nem
  outro. A noite era sombria, os bicos de gs das lojas mal se percebiam atravs
  do nevoeiro, que ia aumentando e envolvendo de trevas as ruas e as casas; o
  aspecto desses lugares era ainda mais estranho para Oliver e a sua ansiedade,
  maior.

Caminhavam apressadamente
  quando o relgio de uma igreja vizinha bateu horas.  primeira badalada Sikes e
  Nancy pararam e prestaram ouvidos.

-- Oito horas, Guilherme --
  disse Nancy.

-- Por que me dizes isso? --
  respondeu Sikes. -- Eu bem ouvi as horas.

-- E eles? Podero eles
  ouvi-las? -- disse Nancy.

-- Sem dvida que sim -- respondeu Sikes. --
  Quando me prenderam, foi no tempo de feira de S. Bartolomeu, e no havia em
  toda a feira uma trombeta que eu no ouvisse; quando eu estava fechado de
  noite, o tumulto de fora tornava to horrvel o silncio da priso que eu
  tentava espedaar a cabea contra a fechadura da porta.

-- Pobres rapazes! -- disse
  Nancy com os olhos voltados para o ponto donde se ouvira o relgio. -- Que pena!
  Eram to bonitos!-- A est o que so mulheres!

Sikes parecia, ao mesmo
  tempo que dizia isto, reprimir um movimento de cime.

-- Espera -- disse a
  rapariga. -- Eu no passaria to depressa neste lugar se tu tivesses de morrer
  amanh enforcado, s oito horas; no me importaria a neve e, ainda que eu no
  tivesse xale, demorar-me-ia na praa at tarde.

-- E que me fazia isso? --
  perguntou o brutal Sikes. -- Salvo se me pudesses passar uma lima e vinte varas
  de boa corda; sem isso, quer andasses cinqenta milhas, quer no andasses nada,
  era para mim a mesma coisa. Vamos, no fiquemos aqui a dizer palavras sem
  sentido.

A rapariga deu uma
  gargalhada, puxou o xale e continuaram a andar; mas Oliver sentia a mo de
  Nancy tremer; olhou para ela, quando passaram por um bico de gs. Estava plida
  como uma defunta.

Caminharam durante meia
  hora, por umas ruas imundas e pouco freqentadas, e os raros indivduos que encontravam
  tinham ares de ocupar na sociedade posio idntica  do Sr. Sikes. Finalmente
  entraram em uma viela mais imunda que as outras e cheia de lojas de belchiores.
  O co correu  frente, como se compreendesse que a vigilncia era agora intil,
  e parou diante de uma loja fechada e aparentemente desocupada, porque a casa
  caa em runas e um escrito pregado na porta anunciava que estava para alugar.

-- Tudo vai bem -- disse
  Sikes, depois de lanar  roda de si um olhar indagador.

Nancy puxou por um cordo
  e Oliver ouviu o som de uma campainha.

Atravessaram a rua e
  esperaram alguns instantes debaixo de um lampio; ouviu-se da a pouco abrir a
  porta vagarosamente.

Sem mais cerimnia, o Sr.
  Sikes segurou na gola da criana aterrada, e todos os trs entraram na casa.

A alameda estava
  completamente escura. Os trs esperaram que a pessoa que os havia introduzido
  pusesse no seu lugar a barra de ferro que prendia a porta.

-- No h ningum? --
  perguntou Sikes.

-- No -- respondeu uma voz
  que Oliver pareceu conhecer.

-- O velho est c?

--Est e parecia triste
  enquanto esperava. Agora vai ficar contentssimo.

O estilo de resposta e a
  voz no eram desconhecidos a Oliver; mas no escuro era impossvel ver o
  interlocutor.

-- Alumia -- disse Sikes --,
  quando no quebramos o nariz ou pisamos o co, o que  pior.

-- Espera um instante que
  eu j arranjo luz.

Ouviram-se passos de
  algum que se afastava, e no cabo de um minuto apareceu o Sr. Jack Dawkins, por
  alcunha o Matreiro, com uma vela metida na ponta rachada de um pau.

O jovem ratoneiro fez uma
  careta a Oliver e disse aos outros que o acompanhasse; atravessaram a casinha,
  onde s havia as quatro paredes, e, abrindo a porta de uma sala baixa e mida, que
  dava para um ptio lamacento, foram recebidos com grandes gargalhadas.

-- Oh! Que boa cara! --
  exclamou mestre Carlinhos Bates rindo. -- C
  vem ele! Olhem! Fagin, veja aquilo; que cara! J no posso! No posso! A
  alegria do mestre Bates j no tinha limites; deixou-se ele cair no cho,
  agitando convulsivamente as pernas, e durante cinco minutos no pde moderar os
  seus transportes.

Afinal levantou-se, pegou
  na vela e, aproximando-a de Oliver, examinou o dos ps at a cabea, enquanto o
  judeu, tirando o bon, cumprimentava repetidas vezes e com todo o respeito a
  pobre criana espantada.

Quanto ao Matreiro, sonso
  como era e pouco dado a riso quando podia exercer os seus talentos, examinou as
  algibeiras de Oliver com apurada minuciosidade.

-- Veja, Fagin, como ele
  vem no trinque! -- disse Carlinhos, aproximando a luz do vesturio novo de
  Oliver. -- Olha para isto.

-- Fazenda nmero um; e
  que belo corte! E livros! Olha, Fagin,  um fidalguinho perfeito!

-- Tenho muito gosto em
  v-lo assim -- disse o judeu cumprimentando ironicamente Oliver. -- O Matreiro
  dar-lhe- outra roupa, meu caro, para que voc no emporcalhe a roupa nova. Por
  que no escreveu para avisar-nos da sua chegada? Poderamos oferecer-lhe uma
  ceia.

A estas palavras mestre
  Bates foi acometido de novo riso, que se comunicou a Fagin e fez sorrir o
  Matreiro. Mas como este ltimo tirava ao mesmo tempo do bolso de Oliver o
  bilhete de cinco guinus, no se pode saber se o sorriso teve origem na
  exploso de mestre Bates ou no achado do bilhete.

-- Oh! Oh! Que  isso? --
  perguntou Sikes indo ao judeu, que metia no bolso o bilhete. -- Isso me
  pertence, Fagin.

-- No, meu amigo, no --
  disse o judeu. --  meu; fique voc com os livros.

-- Se ousas dizer que isso
  no  meu -- disse Sikes, pondo o chapu com resoluo -- isto , a mim e a
  Nancy, levo o pequeno outra vez.

O judeu estremeceu, e
  Oliver tambm, posto fosse por diferente motivo; esperava que a briga lhe desse
  a liberdade.

-- Vejamos -- disse Sikes
  --, quer dar-me isso?

-- No  justo, Guilherme --
  disse o judeu. -- No acha, Nancy? No lhe parece que isto no  justo?

-- Seja ou no justo --
  respondeu Sikes --, d-me c isso. Ento voc pensa que eu e Nancy no temos
  mais nada que fazer do que perder o nosso tempo a procurar um pequeno preso por
  sua causa? D c isso, ladro! Anda!

Fazendo estas amigveis
  observaes, Sikes segurou o bilhete que o judeu tinha na mo, depois olhou
  fixamente para Fagin, dobrou o bilhete e meteu-o em um n que deu na gravata.

-- Isto  a paga do nosso
  trabalho -- disse Sikes -- e no paga metade dele; fique voc com os livros se
  gosta de ler ou ento venda-os.

--  muito interessante --
  disse Carlinhos Bates, fingindo ler um dos volumes e fazendo mil caretas. --
  Belo estilo, no , Oliver?

E vendo o ar triste de
  Oliver, mestre Bates, que tinha o dom de achar o lado cmico de todas as
  coisas, entregou-se outra vez a um transporte de alegria mais ruidoso que o
  primeiro.

-- Os livros so do meu
  velho amigo -- disse Oliver, torcendo as mos. -- So do bom e generoso homem que
  me levou para casa e tratou de mim quando eu estava doente; mande-os que lhe
  peo, mande os livros e o dinheiro; eu fico aqui por toda a minha vida. Se no
  forem os livros ele pensa que eu os roubei. A velha e todos os que l me tratam
  to bem pensaro que sou um ladro. Tenham pena de mim!

Falando assim com a
  energia de uma dor pungente, Oliver caiu de joelhos aos ps do judeu, juntando
  as mos com ar suplicante e desesperado.

-- Tem razo o rapaz --
  observou Fagin, olhando a roda de si com ar sonso. -- Tens razo, Oliver, tens
  razo. Ho de pensar que s um ladro; Ah! Ah! Tanto melhor!

E dizendo isto o judeu
  esfregou as mos.

-- Sem dvida -- respondeu
  Sikes. -- Eu pensei nisso desde que o vi entrar em Clerkenwell com os livros
  debaixo do brao. Era simples; aquela gente por fora que h de estar vestida e
  calada no reino do cu; se no fosse isso, no teriam recebido o rapaz em
  casa. No o viro procurar acredite, por medo de serem obrigados a um processo
  para darem o pequeno  priso; o pequeno est seguro.

Durante este dilogo,
  Oliver olhava ora para Fagin ora para Sikes, como se nem tivesse conscincia do
  que se passava  roda dele; ouvindo as ltimas palavras de Guilherme, Oliver
  levantou-se subitamente e, assustado, correu para fora da sala, pedindo
  socorro, de maneira que despertava todos os ecos da velha casa arruinada.

-- No deixes sair o teu
  co, Guilherme! -- exclamou Nancy precipitando-se para a porta e fechando-a.

O judeu e os dois
  discpulos j haviam sado  cata de Oliver.

-- No deixes sair o teu
  co -- repetiu a moa. -- Olha que ele vai dilacerar o pequeno.

-- Pois ser bem feito! --
  disse Sikes lutando para se desvencilhar dos braos da moa. -- Deixa-me ou eu
  te esmago a cabea contra a porta.

--  o mesmo, Guilherme, 
  o mesmo -- gritava a rapariga, lutando energicamente com Sikes. -- A criana no
  ser mordida pelo co ou tu me matars primeiro.

-- Vais ver! -- respondeu
  Sikes rangendo os dentes. -- Sai da ou morres!

O ladro atirou a
  rapariga para o fundo do quarto... justamente quando o judeu e os seus dois
  discpulos entraram trazendo Oliver.

-- Ento, o que h? --
  perguntou o judeu.

-- Creio que esta rapariga
  enlouqueceu -- disse Sikes com ar feroz.

-- No, no estou louca -- respondeu Nancy plida e ofegante. -- Afirmo-lhe,
  Fagin, que no estou louca.

-- Pois ento cale-se! --
  disse o judeu com ar ameaador.

-- No, no me calarei --
  respondeu Nancy. -- Tem alguma coisa com isto?

O Sr. Fagin conhecia perfeitamente
  o carter das mulheres e sabia que no era prudente prolongar conversa.

Dirigiu-se a Oliver:

-- Ento o amiguinho
  queria esquivar-se?

E dizendo isto lanou mo de um cacete.

Oliver no respondeu, mas
  observou os movimentos do judeu, e o seu corao batia com fora.

-- Pedia socorro, queria
  chamar a polcia, no? -- prosseguiu Fagin com um riso zombeteiro e segurando no
  brao do menino. -- H de passar-lhe esse desejo.

O judeu pespegou uma
  vigorosa cacetada nas espduas de Oliver e levantou o brao para repetir a
  dose, quando a moa correu a ele, tirou-lhe o cacete das mos e atirou-o ao
  fogo com fora tal que algumas brasas vieram rolar at o meio do quarto.

-- No tolero semelhante
  coisa -- disse Nancy. -- Apanhei a criana em caminho e trouxe-a outra vez para
  c; que lhe quer mais? Deixe-a sossegada ou eu farei com que me enforquem antes
  do tempo.

Proferindo estas ameaas,
  a moa batia com o p no assoalho; plida de clera, lbios cerrados, punhos cerrados,
  ela olhava ora para o judeu, ora para Sikes.

-- Ora, vamos, Nancy --
  disse o judeu com voz mais doce depois de algum silncio, durante o qual
  trocara com Sikes olhares espantados. -- Voc est hoje... mais admirvel que
  nunca; est representando perfeitamente.

-- Deveras? -- disse a
  rapariga. -- Pea a Deus que eu me no exceda a mim mesma; ser tanto pior para
  voc. Ande, saia da.

Quando uma mulher se
  irrita, principalmente quando  infeliz; pode chegar a um ponto tal que poucos
  homens se atrevam a provoc-la.

O judeu compreendeu que
  perderia tempo fingindo crer que a clera de Nancy era brincadeira e, recuando
  involuntariamente alguns passos, deitou a Sikes um olhar meio receoso, meio
  suplicante, como para lhe dizer que devia continuar o dilogo.

Ouviu o Sr. Sikes aquele
  mudo apelo e, sentindo talvez que o seu orgulho pessoal e a sua influncia
  tinham interesse em que Nancy fosse imediatamente obrigada a ceder, proferiu
  duas ou trs dzias de maldies e ameaas cuja rapidez e variedade muito
  honravam a fertilidade do seu esprito inventivo.

Como isso no produzisse
  efeito, recorreu a outros argumentos.

-- Que queres dizer com
  isto? -- disse ele. -- No sabes quem s e o que s?

-- Oh! Bem sei -- replicou
  a rapariga com um riso nervoso, abanando a cabea e afetando um ar de
  indiferena.

-- Pois ento, deixa-te
  ficar em paz -- acrescentou Sikes rosnando como quando falava ao co. -- Ou eu te
  obrigarei a isso e por muito tempo.

A moa entrou a rir e com
  mais despejo que dantes; depois, deitando um olhar furtivo a Sikes, desviou a
  cabea e mordeu os lbios at deitar sangue.

-- Ficam-te muito bem --
  disse Sikes -- estes ares de generosidade! Deste ocasio para este menino ficar
  sendo teu amigo.

-- Sim, eu sou amiga dele
  -- disse a rapariga com raiva -- e agora digo que preferia morrer na rua ou
  ocupar o lugar daqueles ao p de quem passamos hoje a ter trazido esta criana
  para aqui. De hoje em diante fica sendo um larpio, um ladro, um malvado. E
  ainda em cima h de aquele velho dar-lhe pancadas?

-- Est bom, Sikes -- disse
  o judeu com ar de censura e mostrando-lhe os ratoneiros, que ouviam aquele
  dilogo com a maior ateno --, acalma-te, Guilherme! Faze as pazes.

-- Fazer as pazes! --
  exclamou Nancy exasperada! -- Malvado! Eu ainda no tinha metade da idade desta
  criana e j roubava para voc, e h doze anos estou neste ofcio; roubo para
  voc. No  verdade?

-- Est bom -- respondeu o
  judeu, procurando acalmar Nancy. -- Mas este ofcio  o que te d de comer.

-- Tem razo -- respondeu
  ela, com volubilidade. --  essa a minha vida, como as ruas so a minha casa,
  apesar do frio, da chuva e da lama. E foi voc, miservel, que me deitou a
  perder e me conserva nestes crimes at que eu morra.

-- Acontecer-te- pior que
  isso -- interrompeu o judeu. -- Pior que isso se continuas a falar.

Ela calou-se; mas em sua
  clera arrancava os cabelos e rasgava os vestidos. Precipitou se para o judeu e
  provavelmente lhe deixaria sinais de vingana se Guilherme Sikes no
  interviesse a tempo segurando-lhe as mos; ela fez alguns esforos para se
  desvencilhar e desmaiou.

-- Prefiro isso -- disse
  Sikes, deitando-a a um canto do quarto. -- Ela tem imensa fora nos braos
  quando se irrita.

O judeu enxugou a testa e
  sorriu; sentia-se aliviado vendo enfim esta cena terminada; mas nem ele, nem
  Sikes, nem o co, nem os discpulos pareciam ver naquilo mais que um incidente
  ordinrio do oficio.

--  o diabo ter-se de
  tratar com mulheres -- disse o judeu. -- Mas elas so muito espertas, e nada se
  consegue sem elas. Carlinhos, leva Oliver para a cama.

-- Suponho que ele no
  vestir amanh a roupa nova -- disse Carlinhos Bates rindo.

-- No tenhas medo disso --
  respondeu o judeu, rindo tambm.

Mestre Bates levou Oliver
  para uma cozinha ao p de onde havia duas ou trs camas semelhantes quela em
  que Oliver dormira outrora.

A o Sr. Bates, depois de
  rir muito, deu a Oliver a mesma roupa que ele to contente despira em casa do
  Sr. Brownlow. Quis o acaso que Fagin a reconhecesse na mo do judeu que a
  comprara, e essa circunstncia fez com que se descobrisse a casa em que Oliver
  estava.

-- Tira a roupa nova --
  disse Carlinhos --, eu a darei a Fagin. Ah! que boa caoada!

O pobre Oliver obedeceu
  contra a vontade; mestre Bates enrolou a roupa nova, p-la embaixo do brao e
  saiu; fechou a porta  chave e deixou Oliver em trevas.

As gargalhadas de
  Carlinhos e a voz de Miss Betty, que chegou a propsito para borrifar com gua
  a cara da amiga desmaiada, bastariam para impedir o sono a pessoas mais felizes
  que Oliver; mas ele sofria e estava cansado e no tardou que dormisse
  profundamente.

CAPTULO
  XVII
A M ESTRELA DE OLIVER TRAZ A LONDRES UM GRANDE PERSONAGEM
  EXPRESSAMENTE PARA LHE MAREAR A REPUTAO.

 uso, em melodramas que
  cheirem a sangue, alternar as cenas trgicas e as cenas cmicas. Ora, aparece
  jazendo em cama ruim o heri acabrunhado pelas desgraas e pelos grilhes que
  lhe roxeam os pulsos; na cena seguinte, o seu fiel escudeiro, ignorando tamanha
  desgraa, vem alegrar o pblico com uma cantiga de escangalhar as pedras.

Vemos a herona  merc de
  um baro cruel e soberbo, exposta a perder a honra ou a vida e arrancando um
  punhal para salvar uma  custa da outra; e, no momento em que o interesse est
  vivamente excitado, ouve-se o apito do contra-regra, que nos transporta a uma
  grande sala de um castelo, onde um sujeito, de empoada cabeleira, canta uma
  cano alegre. Os vassalos fazem coro com ele; e saem todos cantando.

Parecem ridculas estas
  mudanas de cena; contudo no so to inverossmeis como nos parecem  primeira
  vista. A vida apresenta destes contrastes, festa e morte, luto e alegria,
  tristeza e folga.

Mas ento ns  que somos
  os atores, e isso faz grande diferena.

As transies sbitas, os acessos
  de dor, que na cena da vida no nos espantam, parecem ridculos desde que nos
  convertemos em simples espectadores.

Parecer intil este curto
  prembulo. A inteno do autor  prevenir delicadamente o leitor de que vai
  agora  cidade natal de Oliver, para o que tem boas razes.

Um dia de manh, logo
  cedinho, saiu o Sr. Bumble, com a cabea levantada, do asilo da mendicidade, e
  subiu a rua com passo majestoso. Estava com todo o esplendor da sua dignidade
  de bedel.

Os raios do sol nascente brincavam
  no seu chapu de trs bicos e na casaca, e ele empunhava a bengala com o ar
  resoluto que se adquire com a sade e o poder.

O Sr. Bumble sempre andara
  de cabea alta, mas naquele dia levava mais alta que nunca.

Havia no seu olhar uma tal
  ou qual profundidade, e no seu passo uma altivez que anunciava grandes
  reflexes.

O Sr. Bumble no parava na
  rua para conversar com os lojistas ou outras pessoas que lhe dirigiam
  respeitosamente a palavra; mal respondia aos seus cumprimentos, com um gesto
  rpido. Conservou este ar imponente at chegar  casa da Sra. Mann, aquela que
  criou Oliver.

-- Leve o diabo o bedel --
  disse a Sra. Mann ouvindo o Sr. Bumble sacudir com impacincia a porta do
  jardim. -- Naturalmente  ele... Ah! Sr. Bumble, eu bem sabia que era o senhor!
  Que prazer me d com a sua visita! Entre, faa favor.

As primeiras palavras eram
  dirigidas a Suzanna e as exclamaes de alegria, ao Sr. Bumble, ao passo que a
  criada abria a porta do jardim e fazia entrar o bedel com todo o respeito.

-- Sra. Mann -- disse o Sr.
  Bumble, deixando-se cair lentamente em uma poltrona. -- Deus lhe d muitos bons
  dias.

-- Bom dia, Sr. Bumble --
  respondeu a Sra. Mann sorrindo. -- Est bom, no?

-- Assim, assim --
  respondeu o Sr. Bumble. -- A vida paroquial no  cama de
  rosas.

-- A quem o diz o senhor!

Se as crianas do asilo
  os ouvissem fariam coro ambos.

-- A vida paroquial --
  continuou o Sr. Bumble, dando com a bengala na mesa --  uma vida fatigante e agitada;
  mas todos sabem que o destino dos funcionrios pblicos  estarem expostos a
  perseguies.

A Sra. Mann, sem
  compreender muito o que queria dizer o bedel, levantou as mos ao cu com ar de
  compaixo e suspirou.

-- Tem razo para suspirar
  -- disse o bedel.

Vendo que tinha razo, a
  Sra. Mann soltou outro suspiro, com grande satisfao do funcionrio, que,
  reprimindo um gracioso sorriso, olhou gravemente para o chapu de trs bicos e
  disse:

-- Parto amanh para
  Londres.

-- Como? --disse a Sra. Mann,
  recuando dois passos.

-- Sim, para Londres --
  respondeu o inflexvel bedel. -- Vou na diligncia e levo dois pobres do asilo.
  Querem p-los fora de l; e o conselho encarregou-me de ir acompanhar o
  processo perante o tribunal de Clerkenwell. E eu quero ver se o tribunal de
  Clerkenwell pode comigo.

-- No seja severo com os
  pobres -- disse a Sra. Mann em tom adocicado.

-- Ser por culpa do
  tribunal.

-- E vai de diligncia; eu
  cuidava que os pobres iam em carroa.

-- Sim, quando esto
  doentes -- disse o bedel. -- Vo em carroa descoberta quando chove;  para os
  no constipar.

-- Oh!

-- Quanto a estes, vo em
  diligncia, por preo mdico. Esto num triste estado e ns calculamos que as despesas
  de transporte custariam duas libras esterlinas menos que as do enterro... com a
  condio de que os coloquemos em outra parquia. Espero que o conseguiremos,
  salvo se morrerem em caminho para fazer-nos pirraa.

O Sr. Bumble entrou a
  rir; mas os seus olhos encontraram o chapu de trs bicos, e imediatamente
  ficou srio.

-- No esqueamos os
  negcios -- disse ele. -- Aqui est o ordenado mensal que a parquia lhe d.

O Sr. Bumble tirou da
  carteira algumas moedas de prata enroladas em papel e pediu recibo, ao que a
  Sra. Mann obedeceu logo.

-- So garatujas -- disse
  ela --, mas est em regra; obrigada, Sr. Bumble.

Este respondeu com um
  leve aceno de cabea aos cumprimentos da Sra. Mann e pediu notcias das
  crianas.

-- Coitadinhos! Os meus
  anjinhos! -- respondeu ela. -- Gozam de perfeita sade, exceto dois que morreram
  na semana passada e o pequeno Ricardo, que est doente.

-- No vai melhor? --
  perguntou o bedel.

A Sra. Mann abanou a
  cabea.

-- Tem
  ms disposies aquela criana, carter rebelde, natureza viciosa -- acrescentou
  o bedel com ar irritado. -- Onde est ele?

-- Vou busc-lo -- disse a Sra. Mann. --
  Ricardo! Vem c!

Saiu a buscar o pequeno,
  encontrou-o, lavou-lhe a cara com gua fria e enxugou o com o seu vestido;
  depois compareceu o pequeno diante do imponente Bumble.

Estava plido e magro;
  tinha as faces cavadas e grandes olhos brilhantes. O miservel uniforme da
  parquia, essa libr da misria, flutuava naquele
  corpo dbil, e o pequeno parecia um velho.

Tal era o pobre menino
  que tremia em frente do Sr. Bumble, sem ousar erguer os olhos e receando ouvir
  a voz dele.

-- Olhe para este senhor,
  meu cabeudo -- disse a Sra. Mann.

A criana levantou
  timidamente a cabea, e os seus olhos encontraram os do Sr. Bumble.

-- Filho da parquia, que
  manda V.S.? -- perguntou o Sr. Bumble com ar de caoada.

-- Nada, senhor --
  respondeu o pequeno com voz trmula.

--Bem sei que nada -- disse
  a Sra. Mann, depois de se rir da graa do bedel. -- Tu no precisas de nada.

-- Eu queria... --
  balbuciou a criana.

-- O qu, miservel? --
  interrompeu a mulher. -- Vs dizer que precisas alguma coisa?

-- Espere! -- disse o Sr.
  Bumble, levantando a mo com autoridade. -- Que
  quer o senhor?

-- Eu queria -- balbuciou a
  criana -- que algum me escrevesse algumas palavras em um pedao de papel,
  fechasse, colasse e guardasse para quando eu estiver enterrado.

-- Que quer dizer com
  isso? -- perguntou o Sr. Bumble, algum tanto impressionado com o ar da criana.
  -- Que quer dizer?

-- Eu queria -- disse a
  criana -- deixar algumas palavras de amizade ao pobre Oliver Twist e dizer-lhe
  quanto chorei pensando que andava  toa, sem ningum que lhe desse a mo... E
  quisera dizer-lhe tambm que estou contente por morrer criana, porque se eu
  vivesse muito, minha irm que est no cu talvez me no conhecesse mais ou me
  esquecesse;  melhor que nos encontremos l em cima.

O Sr. Bumble,
  admiradssimo contemplou o pequeno orador dos ps at a cabea e disse  Sra.
  Mann:

-- So todos talhados pelo
  mesmo modelo; o descarado do Oliver os desmoralizou a todos.

-- Quem tal suporia! --
  disse a Sra. Mann, erguendo as mos ao cu. -- Nunca vi miservel mais
  pervertido do que este!

-- Leve-o, senhora! -- disse
  o Sr. Bumble com autoridade. -- Serei obrigado a dar conta ao conselho de
  administrao.

-- Espero que esses
  senhores me faro a justia de crer que eu no tenho culpa nisto -- disse a Sra.
  Mann choramingando.

-- Fique tranqila, eles
  sero informados de tudo -- disse com nfase Sr. Bumble. -- Leve este pequeno,
  que me est causando asco. Que carter!

Ricardo foi levado e
  fechado no depsito de carvo; alguns instantes depois saiu o Sr. Bumble para
  fazer os preparativos de viagem.

No dia seguinte, s seis
  horas, o Sr. Bumble, depois de trocar o chapu de trs bicos por um chapu
  redondo e vestir um palet azul, subiu  almofada da diligncia, em companhia
  de dois criminosos que a administrao queria mandar embora.

Chegou a Londres sem
  outro incmodo mais que o procedimento dos dois pobres, que teimavam em tiritar
  e dizer que sentiam frio, e isto fez com que o Sr. Bumble dissesse que
  semelhante confisso da parte deles  que lhe causava frio, apesar de vir com
  um grosso palet no corpo.

Depois de se ter livrado,
  por toda a noite, daquelas maantes criaturas, o bedel alugou um quarto no
  hotel onde parara a diligncia e jantou modestamente algumas talhadas de carne
  assada, com molho de ostras, acompanhado de uma garrafa de Porter.

Acabado o jantar aproximou
  a cadeira do fogo, ps sobre a chamin um copo de grog e, depois de algumas reflexes morais acerca da tendncia que os homens tm
  para se queixarem sempre, disps-se a ler um jornal.

O primeiro artigo que lhe
  caiu debaixo dos olhos foi o seguinte anncio:

Cinco Guinus de
  Alvssaras

Desapareceu
  de casa, em Pentonville, quinta-feira,  noite, um rapaz chamado Oliver Twist,
  e da para c no se sabe o que  feito dele: dar-se-o os cinco guinus de
  alvssaras a quem ministrar informaes tendentes a fazer encontrar o dito
  Oliver Twist, ou esclarecer a sua histria, que o autor do presente anncio tem
  grande interesse em saber.

Vinham depois os sinais
  de Oliver, com todos pormenores do vesturio, e afinal o nome e o nmero da
  casa do Sr. Brownlow.

O bedel arregalou os
  olhos, leu e releu trs vezes este anncio; cinco minutos depois, dirigia-se a
  Pentonville sem engolir sequer o grog.

-- O Sr. Brownlow est em
  casa? -- perguntou ele  criada que viera abrir a porta.

 esta pergunta, deu a criada
  a resposta evasiva de costume:

-- No sei; da parte de
  quem vem?

O Sr. Bumble ainda no
  tinha acabado de proferir o nome de Oliver e j a Sra. Bedwin, que escutava da
  porta da sala, correu e veio falar ao bedel.

-- Entre, entre -- disse
  ela. -- Eu bem sabia que teramos notcias dele; coitadinho! Eu estava certa
  disso! Eu bem o disse!

Falando assim, a boa
  velha entrou para a sala com precipitao, atirou-se a um sof e entrou a chorar;
  enquanto a criada, que no era to dada a sentimentos, foi prevenir o Sr.
  Brownlow e voltou para dizer ao Sr. Bumble que a seguisse.

Levou-o a um pequeno
  gabinete onde se achavam o Sr. Brownlow e seu amigo, o Sr. Grimwig, assentados
  a uma mesa, tendo alguns copos diante de si.

-- Um bedel! -- exclamou o
  Sr. Grimwig vendo o Sr. Bumble. --  um bedel de parquia! Coma eu a minha
  cabea...

-- Tenha a bondade de nos
  no interromper agora -- disse o Sr. Brownlow. E dirigindo-se ao bedel:

-- Queira assentar-se.

O Sr. Bumble obedeceu,
  no pouco admirado das maneiras do Sr. Grimwig; o Sr. Brownlow ps o lampio de
  maneira que a luz batesse em cheio na cara do bedel e disse com alguma
  impacincia:

-- O senhor leu naturalmente o meu anncio?

-- Sim, senhor.

-- O senhor  bedel? --
  perguntou o Sr. Grimwig.

-- Sou bedel de parquia--respondeu o Sr. Bumble com certo orgulho.

--  isso -- disse o Sr.
  Grimwig ao ouvido do seu amigo. -- Eu estava certo; aquele palet cheira 
  parquia;  um bedel escrito e escarrado.

O Sr. Brownlow fez um
  pequeno sinal de cabea para impor silncio e continuou:

-- Sabe alguma coisa
  daquele pobre menino?

-- Sei tanto como o senhor
  -- respondeu o Sr. Bumble.

-- Mas diga sempre o que
  sabe. Que sabe a respeito dele?

-- Naturalmente no vem
  contar nada que seja bom -- observou o Sr. Grimwig em ar de chalaa.

O Sr. Bumble abanou a
  cabea com ar profundo.

-- Que lhe dizia eu? --
  exclamou o Sr. Grimwig, olhando para o amigo com ar triunfante.

O Sr. Brownlow pediu que
  o bedel se explicasse.

O Sr. Bumble ps o chapu
  no cho, desabotoou o palet, cruzou os braos, deitou a cabea para trs e,
  depois de alguns momentos de reflexo, comeou a falar.

Seria suprfluo
  transcrever aqui as prprias palavras do bedel, que levou vinte minutos a
  discorrer. Em resumo, disse que Oliver era um enjeitado, nascido de pais
  obscuros e perversos; que desde o seu nascimento revelava hipocrisia,
  ingratido e maldade; que terminara a sua curta estada na cidade natal tentando
  assassinar covardemente um rapaz inofensivo e fugindo de casa de seu amo. Em
  apoio destas asseres, o Sr. Bumble apresentou uns papis; cruzou os braos e
  esperou.

-- Receio que tudo isso
  seja verdade -- disse o Sr. Brownlow com tristeza, depois de examinar os papis.
  -- Aqui esto cinco guinus pelas suas informaes; mas eu dava o triplo desta
  quantia se as informaes fossem favorveis ao pequeno.

 provvel que, se o Sr.
  Bumble soubesse disso mais cedo, teria dado a sua histria uma cor inteiramente
  diversa. Mas agora era tarde; cumprimentou os dois velhos, meteu no bolso os
  cinco guinus e saiu.

Durante alguns minutos o
  Sr. Brownlow passeou com um ar to triste que o Sr. Grimwig desistiu de o
  contrariar. Afinal parou e tocou violentamente a campainha.

-- Sra. Bedwin -- disse
  ele, quando a velha apareceu --, Oliver  um impostor!

-- Impossvel -- disse a
  velha energicamente.

-- Repito que  um
  impostor. Acabamos de saber toda a sua histria. Oliver  um peralta.

-- Nunca acreditarei semelhante
  coisa -- disse a velha.

O Sr. Grimwig interveio
  dizendo que desde o princpio os avisara dizendo quem era o menino. A velha
  defendeu Oliver, mas o Sr. Brownlow imps-lhe silncio e mandou-a embora.

Houve nessa noite muitos
  coraes tristes em casa do Sr. Brownlow. Quanto a Oliver, estava desesperado
  pensando nos seus amigos de Pentonville; felizmente, para ele, ignorava o que
  lhes contara o bedel; porque, se o soubesse, morreria de desespero.

CAPTULO
  XVIII
COMO OLIVER PASSAVA O TEMPO NA SOCIEDADE DE SEUS RESPEITVEIS
  AMIGOS.

No dia seguinte ao
  meio-dia, depois de sarem o Matreiro e o mestre Bates para as suas ocupaes
  ordinrias, o Sr. Fagin aproveitou o ensejo e fez a Oliver um longo sermo a
  respeito do horrendo pecado da ingratido, no qual pecado Oliver cara,
  primeiramente deixando a sociedade dos seus amigos, depois tentando fugir
  quando eles haviam gasto tanto tempo e dinheiro para o reaver.

O judeu insistiu principalmente
  na hospitalidade que dera a Oliver e na amizade que lhe manifestara; fez-lhe
  sentir que, se no fora sua assistncia, estaria provavelmente morto de fome.

Depois contou-lhe a
  histria horrvel de um rapaz a quem socorrera por caridade, em circunstncias
  iguais, mas que se mostrara indigno da sua confiana, manifestara o desejo de
  entreter relaes com a polcia e acabara na forca.

No dissimulou a Oliver a
  parte que tivera nessa catstrofe; mas deplorou com lgrimas nos olhos a cruel
  necessidade a que o rapaz o reduzira.

O judeu acabou a arenga
  descrevendo os inconvenientes de morrer enforcado e, com um tom plido e
  afvel, declarou que esperava no ser obrigado a sujeitar Oliver Twist a esta
  operao.

Ouvindo o discurso do
  judeu, tremia Oliver da cabea aos ps, ainda que mal compreendesse o sentido
  daquelas ameaas.

Sabia por experincia
  prpria que a justia podia confundir o inocente com o culpado, quando por
  acaso os acha juntos; lembrando-se das altercaes de Fagin com Sikes, acreditou
  que o judeu mais de uma vez executara aquele meio para reprimir as indiscries
  e fazer desaparecer as pessoas muito comunicativas.

Levantou timidamente os
  olhos e encontrou o olhar penetrante do judeu; compreendeu que o seu medo no
  havia escapado ao velho ladro que at parecia regozijar-se com isso.

Passou nos lbios de Fagin um medonho sorriso; bateu ele com a mo
  na cabea de Oliver e disse-lhe que, se trabalhasse tranqilamente, viriam a
  ser bons amigos; depois pegou no chapu, vestiu um palet remendado e saiu,
  fechando a porta com a chave.

Durante esse dia, e nos
  dias seguintes, Oliver ficou s, desde a manh at a meia-noite.

Abandonado durante longas
  horas aos seus pensamentos, ele os dirigia sempre para os seus amigos de
  Pentonville e pensava com tristeza na m opinio que deviam ter dele.

Ao cabo de uma semana, o
  judeu deixou de fechar a porta do quarto, e Oliver teve liberdade para andar na
  casa toda.

Era um triste prdio. As
  salas de cima tinham muitas obras de talha, grandes portas e cornijas, que,
  apesar de enegrecidas pelo tempo e cobertas de p, mostravam ter esculturas
  variadas.

Oliver concluiu que
  outrora, muito antes do nascimento do judeu, aquela casa devia ter pertencido a
  pessoas de classe elevada e que, talvez por mais triste e estragada que agora
  estivesse, fosse em outro tempo morada alegre e elegante.

As aranhas tinham
  estendido as suas teias em todos os ngulos das paredes e ao longo dos tetos; s
  vezes, quando Oliver andava devagar pelo quarto, um camundongo entrava a
  passear pelo cho e fugia assustado para o seu buraco. Eram os nicos entes
  vivos que ele podia ter ou ver.

Muitas vezes, quando a noite
  caa, e estava cansado de andar de quarto em quarto, ia acocorar-se em um canto
  da alameda que dava para a porta da rua, a fim de estar mais perto da sociedade
  dos vivos, e a ficava, com o ouvido alerta, a contar as horas at que voltasse
  o judeu com os seus discpulos.

Todos os quartos tinham
  as janelas trancadas; a luz penetrava por alguns buracos apenas, o que dava aos
  quartos um aspecto ainda mais sinistro e o povoava de sombras singulares.

Havia,  verdade, uma
  espcie de sto ao fundo da casa, com uma janela gradeada; muitas vezes Oliver
  ia passar ali horas inteiras e olhava para longe, com ar pensativo; mas apenas
  via uma massa confusa de tetos e chamins negras; s vezes alguma cabea branca
  lhe aparecia em uma ou outra casa afastada; mas logo desaparecia. Demais, como
  a janela estava tapada por gradil de ferro e tinha os vidros sujos, ele mal
  podia perceber os objetos externos.

Um dia, que o Matreiro e
  mestre Bates deviam passar a noite fora, o primeiro destes jovens ratoneiros
  teve idia de cuidar mais da toalete do que costumava fazer; cumpre dizer que
  ele no era dado a estas fraquezas; chamou Oliver em seu auxlio.

Oliver tinha grande
  prazer em ser til; alegrava-se de ver caras humanas, por piores que elas
  fossem.

No hesitou em servir o
  Matreiro.

Assentou-si este em cima
  da mesa, e Oliver, com um joelho em terra, entrou a escovar as botas do Sr.
  Dawkins, o que este chamava: lustrar as andarilhas.

Ou porque o Matreiro
  experimentasse o sentimento de liberdade e independncia prpria de todo animal
  racional quando est assentado em cima de uma mesa, fumando cachimbo,
  balanando uma perna, enquanto se lhe escovam as botas que nem teve o trabalho
  de tirar; ou porque a bondade do tabaco lhe despertasse a sensibilidade, ou
  porque a boa qualidade da cerveja influsse em seu esprito, o certo  que o
  Matreiro revelou um movimento de entusiasmo contrrio ao seu habitual carter;
  com ar pensativo abaixou os olhos para Oliver, depois levantou a cabea e disse
  com um suspiro, metade a si, metade a mestre Bates:

--  pena que ele no seja
  do ofcio!

-- Ah!  verdade -- disse
  Carlinhos --, ele recusa a sua felicidade.

O Matreiro soltou outro
  suspiro e pegou outra vez no cachimbo. Fez o mesmo Carlinhos e ambos fumaram em
  silncio durante alguns instantes.

-- Aposto que tu nem sabes
  o que  o nosso ofcio. -- disse o Matreiro com ar de compaixo.

-- Creio que sei --
  respondeu Oliver levantando a cabea. -- Quer dizer roub... Em suma,  o ofcio
  dos senhores...

-- Sim -- respondeu o Matreiro
  --, e eu teria asco de mim se tivesse outro ofcio.

Ao mesmo tempo ps o
  chapu na cabea e convidou mestre Bates a dizer o contrrio, se ousasse.

-- Sim,  o meu ofcio; e
   tambm o de Carlinhos, o de Fagin, o de Sikes -- e Nancy e o de Betty, e o
  ofcio de ns todos, comeando no velho e acabando no co.

-- O qual  o menos
  disposto a trair os companheiros. -- acrescentou Carlinhos Bates.

-- No seria ele que nos
  comprometesse ladrando no banco das testemunhas; podia prend-lo l, quinze
  dias sem comer, que ele se no mexeria.

-- No tenhas medo disso --
  observou Carlinhos.

--  um co esquisito! --
  continuou o Matreiro. -- No gosta de ouvir cantar ou rir e gosta de ouvir
  rabeca. Dos outros ces no parece fazer caso.

--  um perfeito cristo --
  disse Carlinhos.

Mestre Bates queria dizer
  com isto que era um co dotado de todas as qualidades e no reparava que a sua
  frase tinha outro sentido igualmente justo; porque h homens e mulheres que se
  tm por verdadeiros cristos e no se parecem com o co do Sr. Sikes.

-- Deste pateta nunca se
  h de fazer nada -- disse o Matreiro.

--  verdade -- respondeu
  Bates. -- Oliver, por que no te pes ao servio do Sr. Fagin?

-- Tinhas a fortuna feita
  -- disse o Matreiro.

-- Viverias das tuas rendas
  como eu hei de viver das minhas.

-- No me agrada isso --
  respondeu timidamente Oliver. -- Prefiro ir-me embora.

-- E Fagin prefere que
  fiques -- replicou Carlinhos.

-- Mas tu no tens amor prprio?
  -- disse o Matreiro. -- Queres viver  custa dos teus amigos?

-- Oh! -- disse o Sr.
  Bates, tirando dois ou trs lenos do bolso e pondo-os no armrio. -- Seria
  infame viver assim!

-- Isso no impede que os
  senhores abandonem os seus amigos e os deixem ir  polcia -- disse Oliver.

-- Foi simples
  considerao para com Fagin -- respondeu o Matreiro --, porque os policiais sabem
  que ns trabalhamos com ele e, se no fugssemos, ele estaria perdido. No foi
  assim, Carlinhos?

Carlinhos fez um gesto
  afirmativo; mas lembrando-se da fuga de Oliver, deitou a rir, engoliu a fumaa
  e durante cinco minutos levou a tossir e a bater com o p.

-- Olha para isto -- disse
  o Matreiro, tirando do bolso um punhado de xelins e pence --, isto  que se
  chama uma bela vida! E como se ganha isto? Hs de aprend-lo, se quiseres. A
  fonte donde tirei esta melgueira ainda no est seca. E tu no queres fazer o
  mesmo, idiota?

--  feio, no te parece,
  Oliver? -- disse o Carlinhos. -- Ele acaba esperneando do alto.

--No entendo -- disse
  Oliver.

-- Aqui est o que  --
  respondeu Carlinhos.

E ao mesmo tempo
  segurando uma das pontas da gravata e puxando-a para cima, inclinou a cabea
  sobre o ombro e rangeu os dentes de um modo significativo, como para exprimir
  que espernear do alto e morrer na forca era a mesma coisa.

-- Compreendes agora o que
   -- disse Carlinhos. -- Olha, Matreiro, como ele me olha espantado. Nunca vi
  inocncia semelhante! H de matar-me este rapaz  fora de me fazer rir.

E mestre Bates, depois de
  rir s gargalhadas, continuou a cachimbar.

-- Fagin h de fazer de ti
  alguma coisa -- disse o Matreiro a Oliver.

Mestre Bates apoiou esta
  opinio com muitas reflexes morais; depois, ele e o Matreiro travaram um dilogo
  a respeito da vida que levavam; insinuaram a Oliver que procurasse quanto antes
  cair nas boas graas de Fagin.

Pouco depois entrou o
  judeu em companhia de Miss Betty e de um rapaz que Oliver no conhecia, e a
  quem o Matreiro cumprimentou pelo nome de Tom Chitling.

O Sr. Chitling era trs
  anos mais velho que o Matreiro; mas tratava o seu jovem companheiro com uma
  deferncia que parecia indicar o reconhecimento de que se dava por inferior em
  gnio e habilidade no exerccio da comum profisso.

Tinha olhos pequenos;
  piscava-os de contnuo; o rosto estava lavrado de bexigas. Trazia na cabea um
  bon de lontra, uma jaqueta grossa, calas da mesma qualidade e um avental.
  Desculpou-se dizendo que acabara o tempo uma hora antes e que, tendo usado seis
  semanas a roupa do regulamento celular, no lhe sobrara tempo para cuidar de
  melhores adornos.

Acrescentou o Sr.
  Chitling, e com ar irritado, que l haviam adotado um sistema de fumigao para
  a roupa, sistema infernal e inconstitucional, que queimava a roupa sem nenhum
  recurso; protestou contra o uso de se cortar o cabelo  gente e declarou que
  era ilegal; concluiu dizendo que durante quarenta e duas horas de trabalhos
  forados no engolira uma gota d'gua e tinha a goela to seca como um forno.

-- Oliver
  -- perguntou o judeu, enquanto os jovens ratoneiros punham na mesa uma garrafa
  de aguardente --, donde pensas tu que vem este senhor?

-- No... No sei --
  respondeu o menino.

-- Quem  este? --
  perguntou Tom Chitling, deitando a Oliver um olhar de desdm.

-- Um dos meus jovens
  amigos -- replicou o judeu.

-- Tem boa cara -- disse o
  rapaz, olhando para Fagin com ar inteligente. -- No te importes donde eu venho,
  meu rapaz. Tu l irs ter.

Os jovens ratoneiros
  riram desta graola e, depois de algumas outras neste gosto, trocaram duas
  palavras em voz baixa com o judeu e saram do quarto.

O judeu, Chitling e
  Oliver foram sentar-se depois junto ao fogo, e ai conversou longamente o judeu
  a respeito da habilidade do Matreiro, das graas de Bates e da liberdade dele.

Depois cada um foi para
  sua cama.

Desse dia em diante,
  nunca Oliver ficou s; estava sempre em comunicao com os dois ratoneiros, que
  ensaiavam de manh a cena do costume. Seria para os fazer mais destros ou para educar
  pouco a pouco Oliver? S o judeu podia responder cabalmente. s vezes o malvado
  contava a Oliver histrias de seus furtos de rapaz, to originais e
  interessantes que Oliver no podia conter o riso.

Em uma palavra, o
  miservel judeu apanhara na rede a criana; depois de a levar pela solido e
  pela tristeza a preferir uma sociedade qualquer ia sentindo pouco a pouco em
  seu corao o veneno com que contava para o corromper e aviltar.

CAPTULO
  XIX
ADOO DE UM PLANO DE CAMPANHA.

Era noite escura, chuvosa e
  fria. O judeu, depois de abotoar at o pescoo o palet e levantar a gola de
  maneira que lhe tapasse parte da cara, saiu do seu covil. Parou um instante na
  soleira, enquanto por dentro fechavam cuidadosamente a porta com a chave; e
  deitou a andar apressadamente.

A casa onde Oliver estava
  ficava na vizinhana de Whitechapel. Chegando  esquina da rua, o judeu parou
  outra vez, olhou desconfiado para todos os lados, passou ao lado oposto e
  dirigiu-se para Spitafields.

Espessa lama cobria a calada;
  o nevoeiro enchia as ruas; a chuva caa lentamente; o ar estava frio; o cho,
  escorregadio. Numa palavra, era noite prpria para aquele judeu.

Enquanto caminhava
  mansamente, encostado s paredes, o velho parecia um hediondo rptil saindo da
  lama e das trevas, resvalando nas sombras,  busca de imundo alimento.

Percorreu grande nmero de
  ruas estreitas e tortuosas, at chegar a Bethnal Green. Depois, voltando de
  repente para a esquerda, meteu-se por um ddalo de ruas pequenas e sujas, como
  se encontravam muitas naquele bairro populoso de Londres.

O judeu parecia conhecer
  perfeitamente aquele lugar que ia atravessando; entrou por uma rua alumiada por
  um s lampio, colocado no fim. Bateu  porta de uma casa e, depois de trocar
  algumas palavras em voz baixa com a pessoa que a abriu, subiu a escada.

No momento em que punha a
  mo no ferrolho, rosnou um co e ouviu-se um homem dizer:

-- Quem ?

-- Sou eu, Guilherme, sou eu
  -- disse o judeu abrindo a porta.

-- Entre -- disse Sikes. -- Abaixo,
  co! No reconhecer o diabo com aquele grande palet?

Naturalmente o vesturio de
  Fagin tinha iludido o co; mas desde que o judeu desabotoou o palet, o animal
  voltou para seu antro.

-- Ento? -- disse Sikes.

-- Ento, meu amigo? -- disse
  o judeu. -- Ah! Boa noite, Nancy.

O judeu dirigiu-se 
  rapariga com certo enleio e como se duvidasse do recebimento que teria, porque
  era a primeira vez que a via depois que ela defendera Oliver. Mas as suas dvidas,
  se as tinha, foram logo dissipadas pela prpria Nancy; ela tirou os ps do
  fogo, recuou a cadeira e disse ao judeu que aproximasse a dele; a noite estava
  glacial.

-- D-lhe de beber, Nancy --
  disse Sikes.

Nancy correu a tirar do
  armrio uma garrafa. Sikes encheu um copo de aguardente e convidou o judeu a
  beber.

-- Basta -- disse o judeu,
  depois de torcer apenas os lbios.

-- Pois voc tem medo? --
  disse Sikes.

E com ar de desprezo
  deitou fora o lquido, encheu outra vez o copo e bebeu de um trago.

Durante esse tempo, Fagin
  olhava para todos os lados e recantos do quarto, no por curiosidade, pois que
  conhecia o lugar, mas com aquela expresso de desconfiana que lhe era natural.

-- Vamos -- disse Sikes, batendo com a lngua
  --, o que me quer?

-- Falemos de negcio, sim?

-- Sim -- respondeu Sikes.
  -- Diga o que me quer?

-- Venho falar daquela
  empresa  casa de Chertsey -- disse o judeu, aproximando a cadeira e falando em
  voz baixa.

-- Hein? O qu? --
  perguntou Sikes.

-- Voc bem sabe o que eu
  quero dizer, meu caro -- disse o judeu. -- No  verdade, Nancy, que ele sabe o
  que eu quero dizer?

-- No sabe, no senhor --
  disse Sikes ironicamente em terceira pessoa -- No sabe ou no quer saber, o que
   a mesma coisa; fale e chame as coisas pelo seu nome. No me esteja a a
  piscar o olho e a falar por enigma, como se no fosse voc o primeiro que teve
  a idia desse roubo. Explique-se!

-- Est bom, Guilherme --
  disse o judeu, que tentara inutilmente moderar a indignao do Sr. Sikes. --
  Podem ouvir-nos.

-- Pois que nos ouam! --
  disse Sikes. -- Importa-me pouco.

Sikes compreendia que o
  judeu tinha razo e proferiu as ltimas palavras em voz baixa.

-- Ora vamos -- disse o
  judeu com voz adocicada --, eu falava assim por prudncia... nada mais. Agora,
  meu caro, falemos da casa de Chertsey; quando daremos o bote? Que prataria,
  meus amigos, que prataria! -- acrescentou ele esfregando as mos e arregalando
  os olhos como se j possusse o tesouro.

-- No, por ora no se faz
  nada -- disse Sikes.

-- Ento  que andaram mal
  -- disse o judeu, plido de clera. -- Bem! No falemos mais.

-- Falemos sim -- respondeu
  Sikes. -- Quem  voc para me tapar a boca? Digo-lhe que h quinze dias Tobias
  Crackit anda rodeando a casa e no pode vencer um s criado.

-- Querer voc dizer --
  perguntou o judeu, que se ia amansando  proporo que Sikes se animava --,
  querer voc dizer que nenhum dos dois criados deu  lngua?

-- Justo -- disse Sikes. -- Servem a velha h
  vinte anos e nem por quinhentas libras esterlinas so capazes de se venderem.

-- Mas, meu caro --
  observou o judeu --, e as mulheres? Nada se fez por a?

-- Nada.

-- Nem por intermdio do
  sedutor Tobias Crackit? -- perguntou o judeu, com certo ar de incredulidade. --
  Voc bem sabe o que so mulheres.

-- Nada, meu caro, o sedutor Tobias perdeu o tempo -- respondeu Sikes.
  -- No lhe valeram as suas postias nem o colete de ganga.

-- Devia ter posto bigodes
  -- disse o judeu, depois de alguns instantes de reflexo.

-- Ps os bigodes, mas no
  arranjou nada.

Ouvindo isto, o judeu
  ficou desapontado e, depois de alguma reflexo, levantou a cabea e disse que,
  se a exposio de Tobias era exata, o negcio estava gorado.

-- E contudo -- acrescentou
  ele pondo as mos nos joelhos --  de lastimar perdermos tantas riquezas que j
  supnhamos em nossas mos.

-- verdade -- disse Sikes
  --, s por grande caiporismo.

Longo silncio houve,
  durante o qual o judeu ficou mergulhado em profunda meditao; as suas feies
  tinham uma expresso verdadeiramente diablica. De quando em quando, Sikes o
  observava com o rabo do olho e Nancy, receando irritar o bandido, ficava
  imvel, com os olhos pregados na chamin, como se no tivera ouvido uma palavra
  da conversa.

-- Fagin -- disse Sikes
  rompendo o silncio --, ganharei eu de quebra cinqenta soberanos, se pusermos a
  mo na melgueira?

-- Sim -- disse o judeu
  como se sasse de um sonho.

-- Est dito -- repetiu o
  judeu, apertando as mos de Sikes.

Os olhos dele fuzilavam, e
  todos os msculos da cara traam a comoo que semelhante proposta lhe causava.

-- Neste caso -- disse
  Sikes, repelindo a mo do judeu com desdm --, estar feito quando voc quiser.
  Anteontem de noite, eu e o Tobias escalamos o muro do jardim e sondamos as
  portas. A casa de noite est fechada como se fosse uma priso; mas h um lugar
  que podemos romper sem bulha.

-- Onde, Guilherme? --
  perguntou o judeu.

-- Apenas se atravessar...

-- Sim, sim -- disse o
  judeu arregalando os olhos.

-- Ol! -- disse Sikes parando
  de repente ao ver um sinal de cabea feito por Nancy que chamara a ateno dele
  para a cara do judeu. -- Que lhe importa saber onde ? Bem sei que voc nada
  pode fazer sem mim! Mas toda a cautela  pouca com um homem da sua laia.

-- Como quiser, meu caro --
  respondeu o judeu mordendo os beios. -- E no  preciso mais ningum alm de
  voc e Tobias?

-- No -- disse Sikes --,
  isto , precisamos de uma criana.

-- Uma criana! -- disse o
  judeu. -- Oh! ento  preciso entrar por algum buraco pequeno?

-- Que lhe importa isso? --
  replicou Sikes. -- Quero uma criana e no gorda. Ah! Se eu tivesse o pequeno do
  Ned... Ele costumava alug-lo para estes e outros servios; mas o pai deixou-se
  agravar e a sociedade dos jovens delinqentes levou o pequeno para lhe ensinar
  um ofcio. A est como eles procedem! Graas a Deus que eles no tm muito
  dinheiro; seno, nem teramos meia dzia de crianas por ano.

--  verdade -- observou o
  judeu. -- Guilherme?

-- Que ?

O judeu fez um gesto de cabea
  indicando Nancy, que estava imvel diante do fogo; queria que ele a mandasse
  embora; Sikes levantou os ombros, mas cedeu e disse a Nancy que fosse buscar
  uma garrafa de cerveja.

-- Tu no queres cerveja --
  disse a rapariga.

-- Quero -- disse Sikes.

-- Qual! -- replicou ela
  com sangue frio. -- Continue, Fagin. Eu sei o que ele vai dizer, Guilherme; no
  precisa mandar-me embora.

O judeu hesitava, e Sikes
  olhou para ambos com alguma surpresa.

-- Em que  que esta
  rapariga o pode incomodar, Fagin? -- perguntou ele. -- H muito que voc a
  conhece, pode fiar-se nela. Ela no  rapariga de dar  lngua.

-- Creio que no -- disse
  Nancy, aproximando a cadeira e fincando na mesa os cotovelos.

-- No, no, eu no
  desconfio -- disse o judeu. -- Mas...

E parou.

-- Mas o qu? -- perguntou
  Sikes.

-- Eu no sabia se ela
  estava zangada comigo pelo que outro dia aconteceu.

Nancy soltou uma
  gargalhada e, bebendo um clice de aguardente, sacudiu a cabea com ar de
  desafio e entrou a soltar exclamaes incoerentes, o que pareceu tranqilizar
  os dois homens.

O judeu abanou a cabea
  com satisfao e sentou-se. Sikes fez o mesmo.

-- Agora, Fagin -- disse
  Nancy rindo --, conte a Guilherme os seus projetos acerca de Oliver.

-- Ah! Tu s uma grande finria,
  s a rapariga mais esperta que eu conheo, disse o judeu, batendo-lhe no
  pescoo. -- Era justamente de Oliver que ia falar.

-- Para qu? -- perguntou
  Sikes.

--  a criana de quem
  voc precisa, meu caro -- respondeu o judeu em voz baixa, pondo o dedo no nariz
  e fazendo uma atroz careta.

-- Ele? -- disse Sikes.

-- Leva-o, Guilherme --
  disse Nancy. -- No teu lugar no hesitava; ele no est to adestrado como os
  outros, mas que importa isso, se s se trata de abrir uma porta? Podes contar
  com ele.

--  verdade -- respondeu o
  judeu. -- Ele precisa ganhar a vida. Alm disso, os outros so gordos demais
  para o caso.

-- Oliver tem justamente
  as dimenses que eu preciso -- disse Sikes.

-- E far tudo o que voc
  quiser, meu caro -- interrompeu o judeu -- Contanto
  que voc lhe meta medo.

-- Meter-lhe medo! -- disse
  Sikes. -- Ele h de ter medo naturalmente. Se der com a lngua nos dentes, no
  volta vivo. Fagin, reflita antes de mandar o pequeno. Olhe que se ele no
  portar bem, dou-lhe cabo do canastro.

-- J refleti em tudo isso
  -- respondeu o judeu com energia. -- Eu o tenho observado de perto; se ele se
  convencer de que  dos nossos, de que roubou... est conosco por toda a sua
  vida. Oh! No podia vir mais a propsito!

E o velho cruzou os
  braos, enterrou a cabea entre os ombros e estremeceu de alegria.

-- Nosso? -- perguntou
  Sikes. -- Diga seu. Oliver ficar sendo seu.

-- Pois seja isso -- disse
  o judeu.

-- Mas -- disse Sikes
  encarando o seu jovial amigo -- no me dirs por que razo se interessa tanto por
  aquele fedelho, quando sabe que todas as noites h cinqenta como ele nos
  arredores de Comon-Garden, entre os quais no h mais que escolher?

-- Porque esses no
  prestam para nada, meu caro -- respondeu o judeu um pouco atrapalhado. -- No
  vale a pena educ-los; quando a polcia os fila ficam logo com uma cara de
  confisso e l os perco todos. Oliver no  assim; quando estiver bem educado
  posso fazer mais com ele que com vinte. Depois, se ele nos fugir, estamos
  perdidos;  indispensvel conserv-lo conosco. Basta que ele entre num roubo
  para ficar eternamente conosco e  o que eu quero. Isto  melhor que
  desfazermos dele; perderamos com isso e correramos perigo.

-- Quando  a empresa? --
  perguntou Nancy, no momento em que o Sr. Sikes ia exprimir o profundo enojo que
  lhe inspirava a humanidade de Fagin.

-- Ah!  verdade, quando
  ? -- disse o judeu.

-- Depois de amanh --
  respondeu Sikes com voz sombria. -- Est tratado com Tobias, a menos de lhe dar
  contra-ordem.

-- Bom -- disse o judeu --,
  no h luar.

-- No -- disse Sikes.

-- E tudo est disposto
  para levar o pequeno? -- perguntou Fagin.

Sikes fez um sinal afirmativo.

-- E j se lembrou voc...

-- Oh! Tudo est previsto,
  basta de falar nisto. Traga o pequeno amanh de noite; eu saio de madrugada e o
  roubo  de noite.

Depois de uma discusso
  em que os trs personagens entraram, ficou assentado que no dia seguinte, de
  noite, Nancy iria  casa do judeu buscar Oliver. Fagin observou com finura que,
  se o pequeno mostrasse repugnncia, acompanharia mais depressa a Nancy que a
  qualquer outra pessoa, pois que ela se interessava em favor dele.

Ficou estipulado
  formalmente que Oliver seria abandonado, sem reserva, aos cuidados e guarda do
  Sr. Guilherme Sikes, e, alm disso, que o dito Sikes trat-lo-ia conforme lhe
  aprouvesse, sem se responsabilizar com o judeu do que acontecesse ao pequeno,
  nem do castigo que julgasse necessrio aplicar, com a condio porm de que as
  asseres de Sikes seriam confirmadas em todos os pontos pelo testemunho do
  galante Tobias Crackit.

Assentados todos estes
  pontos, Sikes entrou a beber aguardente, a cantar e a praguejar. Num acesso de
  entusiasmo, quis examinar a sua caixa de ferramentas;
  apenas a tinha aberto e ia explicar o uso dos vrios instrumentos, caiu no
  assoalho e dormiu imediatamente.

-- Boa noite, Nancy --
  disse o judeu, vestindo o sobretudo.

-- Boa noite.

Os olhos de ambos se
  encontraram, e Fagin lanou  rapariga um olhar penetrante e interrogativo. Ele
  afrontou o olhar. O judeu deu um pontap no bbado e desceu as escadas s
  apalpadelas.

-- Sempre a mesma coisa --
  dizia o judeu entre dentes quando se achou na rua. -- O que h de pior nas
  mulheres  que um nada lhes lembra um sentimento esquecido desde muito; mas o
  que vale  que isso no dura. Ah! Ah! O homem contra o menino, por um saco de
  ouro!

Distraindo-se com estas
  agradveis reflexes, o Sr. Fagin voltou para o covil, onde o Matreiro ainda
  estava a p, esperando com impacincia a volta do patro.

-- Oliver j est deitado?
  Preciso falar-lhe -- disse o judeu entrando.

-- H muito tempo --
  respondeu o Matreiro, abrindo uma porta. -- Est ali.

A criana dormia
  profundamente, deitada em um grosseiro colcho estendido no assoalho. A
  inquietao, a tristeza, o tdio do cativeiro, o tinham feito plido como a
  morte, no como ela se nos mostra com uma mortalha e num fretro, mas tal qual
  se nos depara logo que a vida se extingue, quando uma alma jovem e pura voa
  para o cu, sem que o ar grosseiro do mundo haja manchado o rosto que ela
  animava e santificava.

-- Hoje, no -- disse o
  judeu, afastando-se sem rumor. -- Amanh, amanh.

CAPTULO
XX
OLIVER  ENTREGUE AO SR. GUILHERME SIKES.

De manh quando acordou, teve
  Oliver a surpresa de achar ao p da cama, em vez dos sapatos velhos, um par de
  sapatos novos, com boas solas. A descoberta o alegrou na esperana de que era
  talvez o preldio de sua liberdade, mas essa esperana depressa desapareceu. Na
  ocasio do almoo, estando s com o judeu, este lhe disse, com um tom e um ar
  que lhe aumentaram os receios, que nessa mesma noite iriam busc-lo para o
  levar  casa de Guilherme Sikes.

--  para... para ficar l?
  -- perguntou Oliver com ansiedade.

-- No, no, meu amigo, no
   para ficar -- respondeu o judeu. -- No queremos perder-te. No tenhas medo,
  hs de voltar. Oh! No havemos de ser to cruis que te abandonemos. Oh! No!

O velho, zombando assim com
  o pequeno, estava sentado diante do fogo, ocupado em torrar uma fatia de po.
  Ps-se a rir para mostrar que sabia perfeitamente ser do gosto do pequeno
  ver-se livre dele.

-- Suponho -- disse ele
  olhando fixamente para Oliver --, suponho que desejes saber por que motivo vais
   casa de Guilherme.

-- Sim, senhor, desejava
  saber.

-- No desconfias para o que
  ser? -- disse Fagin.

-- No, senhor.

-- Bem -- disse o judeu,
  voltando-se com ar desapontado depois de ter examinado o rosto do pequeno --,
  Guilherme te dir o que .

O judeu pareceu zangar-se
  por no ver mais curiosidade em Oliver; mas a verdade  que o pequeno, posto
  estivesse devorado de inquietao, ficou to perturbado com o olhar do judeu
  que no ousou perguntar mais nada.

O judeu ficou silencioso
  at a noite.

Depois preparou se para
  sair.

-- Podes acender uma vela --
  disse o judeu -- e aqui tens um livro para te distrares at que eu venha
  buscar-te.

-- Boa noite -- disse Oliver.

O judeu dirigiu-se at a
  porta, olhando sempre para o pequeno s furtadelas; depois parou repentinamente
  e disse:

-- Oliver.

Oliver levantou a cabea;
  o judeu mostrou-lhe a vela, fez-lhe sinal para que o alumiasse. Ele obedeceu e,
  ao pr a vela na mesa, viu que o judeu olhava para ele com as sobrancelhas
  carregadas e o examinava atentamente.

-- Toma cautela, Oliver! --
  disse o velho com um gesto que dizia ainda mais que as palavras. -- Ele  um
  brutamontes capaz de tudo. Acontea o que acontecer, no digas nada e faze o
  que ele mandar. Reflete bem no que te digo!

Carregou nestas ltimas
  palavras; passou-lhe pelos lbios um terrvel sorriso; fez um sinal de cabea e
  saiu.

Apenas Oliver ficou s,
  ps a cabea nas mos e refletiu com angstia nas palavras que acabava de
  ouvir; quanto mais pensava na recomendao do judeu, mais se perdia em
  conjeturas acerca do alcance e do sentido daquele conselho. Se havia a seu
  respeito intenes criminosas, no as podiam executar em casa de Fagin como em
  casa de Sikes? Quando considerou largamente, concluiu que ele era mandado para
  desempenhar em casa de Sikes algumas funes domsticas, at que se encontrasse
  criado.

Sofrera tanto que no lhe
  doa uma mudana, qualquer que fosse. Ficou mergulhado nestes pensamentos,
  depois espevitou a vela suspirando e, abrindo o livro que Fagin deixara, entrou
  a folhe-lo. Folheou-o a princpio com ar distrado; mas para logo deu com um
  trecho que lhe chamou a ateno e acabou por ficar completamente absorvido na
  leitura.

Era a histria da vida e
  do processo dos grandes criminosos. O livro servira tanto que as pginas
  estavam sujas e enegrecidas. Leu a narrao de horrveis crimes, crimes de
  arrepiar os cabelos, assassinatos cometidos secretamente de emboscada,
  histrias de cadveres lanados dentro de poos, que apesar de profundos no os
  puderam guardar muito tempo; ao cabo de alguns anos foram achados, e os
  assassinos, ao v-los, confessaram tudo e por isso foram ter  forca.

Adiante havia a histria
  de homens que pouco a pouco se haviam familiarizado com a idia do crime e
  acabavam cometendo horrores.

Todos esses quadros eram
  traados com tal verdade que as pginas do livro aos olhos de Oliver pareciam
  ter uma cor de sangue.

A criana aterrada atirou
  o livro para longe; caiu de joelhos e pediu a Deus que o deixasse puro de
  semelhantes crimes e lhe mandasse antes a morte do que lhe permitisse ficar
  assassino.

Oliver foi se acalmando
  pouco a pouco e, com voz fraca, pediu ao cu que o socorresse no meio dos
  perigos que o ameaavam, que tivesse pena de uma criana enjeitada, que nunca
  conhecera a afeio de um parente nem de um amigo, e que lhe desse a mo no
  meio dos homens perversos que o rodeavam.

Acabada esta rogativa,
  ainda Oliver estava ajoelhado, com a cabea nas mos, quando um rumor o veio
  despertar.

-- Quem ? -- disse ele
  levantando-se e vendo algum ao p da porta.

-- Sou eu, eu s --
  respondeu uma voz trmula.

Oliver levantou a vela
  acima da cabea e olhou para o lado da porta.

Era Nancy.

-- Abaixa a vela que me
  faz mal aos olhos -- disse a moa, desviando a cabea.

Oliver viu que ela estava
  muito plida e perguntou afetuosamente se estava doente. Nancy deixou-se cair
  em uma cadeira, voltando-lhe as costas e torcendo as mos; mas no respondeu.

-- Deus me perdoe! -- disse
  ela depois de algum tempo -- Mas isto  incrvel.

-- Aconteceu-lhe alguma
  coisa? -- perguntou Oliver. -- Precisa de mim? Fale.

Nancy agitou-se na
  cadeira, levou a mo  garganta, soltou um surdo gemido e fez um esforo para
  respirar.

-- Nancy! -- disse Oliver
  inquieto. -- Que tem?

A rapariga bateu com as
  mos nos joelhos e com os ps no assoalho; depois envolveu se no xale e tiritou
  de frio.

Oliver atiou o fogo; ela
  aproximou-se do fogo e ficou alguns minutos sem dizer palavra; afinal levantou
  a cabea e olhou  roda de si.

-- No sei o que  isto
  que me d, de quando em quando -- disse ela, procurando tranqilizar-se. -- Creio
  que  efeito deste quarto mido. Ests pronto, Oliver?

-- Eu vou com a senhora? --
  perguntou o pequeno.

-- Sim -- respondeu ela. -- Venho
  da parte de Guilherme;  necessrio que venhas comigo.

-- Para qu? -- perguntou
  Oliver, recuando dois passos.

-- Para qu? -- repetiu
  Nancy, olhando para o menino, mas apenas deu com os olhos dele, abaixou os
  seus. -- Oh! No  para nada de mal!

-- Duvido -- disse Oliver, que a observava.

-- Como quiseres -- disse
  Nancy com um riso afetado. -- Ser ento para nada de bom.

Oliver percebeu que tinha
  alguma influncia na sensibilidade de Nancy e teve a idia de apelar para a sua
  comiserao; mas lembrou-se de repente que eram apenas onze horas e que na rua
  acharia algum que desse f s suas palavras. Desde que esta reflexo se lhe
  apresentou ao esprito, Oliver caminhou para a porta e disse que estava pronto.

Nem a reflexo, nem o
  projeto de Oliver deixaram de ser notados por Nancy. Enquanto ele falava, ela o
  observava atentamente e deitou-lhe um olhar que mostrava conhecer o que se
  passava dentro do pequeno.

-- Silncio! -- disse ela,
  inclinando-se para Oliver e apontando-lhe para a porta, enquanto olhava  roda
  de si com precauo. -- Tu no podes fugir. Eu fiz em teu favor tudo o que pude,
  mas no houve meio. Ests cercado por todos os lados e se alguma vez puderes
  fugir, no  agora.

Oliver olhou pasmado para
  a moa. Evidentemente ela falava srio. Estava plida e agitada; tremia.

-- J fiz com que
  cessassem os maus-tratos de que sofrias -- disse ela -- e o continuarei a fazer;
   por isso que eu estou aqui; porque, se os outros viessem buscar-te,
  tratar-te-iam com aspereza. Prometi que tu terias juzo; se assim no
  acontecer, padecers tu, e eu tambm, e tu sers causa talvez da minha morte.
  Olha o que eu j sofri por tua causa!

Ao mesmo tempo ela
  mostrava a Oliver o pescoo e os braos cobertos de arranhes e contuses.

Nancy continuou:

-- No esqueas isso e no
  faas com que eu tenha agora novos padecimentos; eu quisera ajudar-te nesta
  ocasio, mas est acima do meu poder. Ningum te quer fazer mal, e tu no s
  responsvel pelo que exigirem de ti. Cala-te! Cada palavra que proferires me
  far mal. D c a mo. Anda depressa!

Nancy pegou na mo que
  Oliver lhe estendeu maquinalmente, apagou a vela e levou o pequeno para o alto
  da escada. A porta foi aberta por uma pessoa escondida na escurido e fechada
  apenas eles saram. Esperava os um carro de aluguel; Nancy e Oliver entraram
  nele e fecharam as portinholas. O cocheiro no perguntou para onde iam, e em
  menos de um segundo o cavalo partiu como um raio.

Nancy apertava a mo de Oliver
  e lhe repetia em voz baixa as suas recomendaes.

Tudo isto foi objeto de
  um instante; e Oliver mal tinha tempo de pensar onde se achava, quando o carro
  parou  porta da casa onde o judeu fora na vspera.

Oliver lanou um olhar
  rpido para a rua deserta e esteve quase a gritar por socorro. Mas a rapariga
  falava ao ouvido dele e pedia que a no comprometesse, com tal modo que Oliver
  perdeu o nimo. Demais, passara o tempo; estavam dentro de casa; fechara-se a
  porta.

-- Por aqui! -- disse Nancy
  largando a mo de Oliver. -- Guilherme!

--L vou! -- respondeu
  Sikes, ajoelhando no alto da escada com uma vela na mo. -- Tudo vai bem! Sobe!

Para um indivduo da tmpera de Sikes aquelas
  palavras eram de satisfao e singularmente cordiais.

Nancy pareceu muito
  sensvel a isso e deu amigavelmente as boas-noites.

-- Mandei o co com o
  Toms -- observou Sikes, alumiando-os. -- Podiam
  atrapalhar o negcio.

-- Tens razo -- respondeu
  Nancy.

-- Onde est o pequeno? --
  perguntou Sikes, fechando a porta.

-- Aqui est -- disse Nancy.

-- Mostrou-se manso?

-- Como um cordeiro.

--  bom sab-lo -- disse
  Sikes, olhando para Oliver com ar feroz. -- Tanto melhor para ti; quando no,
  dava-te cabo do canastro. Vem c e ouve bem. Melhor  que te diga tudo de uma
  vez.

Falando assim ao seu novo
  protegido, o Sr. Sikes tirou-lhe o bon e o atirou para um canto; depois,
  puxando Oliver pelo ombro, sentou-se ao p da mesa e f-lo conservar-se direito
  diante de si.

-- Conheces isto? -- perguntou
  Sikes, tirando de cima da mesa uma pistola de algibeira.

Oliver respondeu
  afirmativamente.

-- Nesse
  caso, ateno! -- continuou Sikes. -- Aqui est plvora, aqui est uma bala e um
  pedao de chapu velho para servir de bucha.

Oliver murmurou em voz
  baixa que conhecia aqueles vrios objetos, e o Sr. Sikes comeou a carregar a
  pistola com muito cuidado.

-- Est carregada -- disse
  ele.

-- Sim, senhor, estou
  vendo -- disse Oliver, trmulo.

-- Pois bem -- disse o
  bandido, apertando o pulso de Oliver e aplicando-lhe o cano da pistola a uma
  das fontes e to perto que a criana no pde reter um grito. -- Se, depois que
  sairmos de casa, tiveres a desgraa de dizer uma s palavra sem que eu te fale
  antes, meto-te uma bala na cabea, sem mais prembulo. Ora, pois, se for de teu
  capricho falar sem licena minha, encomenda a alma a Deus.

Para dar mais fora s
  suas palavras, o Sr. Sikes proferiu uma horrvel praga e continuou:

-- Pelo que me consta, se
  eu te mandasse para o outro mundo, ningum viria saber notcias tuas; portanto,
  s em teu benefcio  que eu te dei estas explicaes. Entendes?

-- Isto significa
  simplesmente -- disse Nancy, carregando em cada palavra para despertar a ateno
  de Oliver -- que se ele te resistir no negcio que vais tratar, tu lhe tapars a
  boca para sempre metendo uma bala nos miolos e corres o risco de ser enforcado
  por isso, como te expes a cada instante no teu ofcio.

-- Justo! -- observou Sikes
  com ar de aprovao. -- As mulheres sabem sempre dizer as coisas em poucas palavras,
  exceto quando se enfurecem... porque ento no acabam mais. Agora que o fedelho
  est instrudo, vamos cear e dormir um pouco antes de partir.

Imediatamente, Nancy
  estendeu a toalha na mesa e, depois de sair alguns instantes, voltou com um
  canjiro de cerveja e um prato de cabea de carneiro, o qual inspirou ao Sr.
  Sikes alguns ditos picantes. Aquele honestssimo sujeito, estimulado talvez com
  a perspectiva de uma imediata expedio, mostrou-se alegre e folgazo. Por
  exemplo, achou que era muito engraado beber toda a cerveja de um trago e
  praguejou mais de cem vezes durante a ceia.

Acabada a ceia
  (compreende-se facilmente que Oliver no tivesse muita fome), o Sr. Sikes
  rebateu a comida com dois clices de aguardente e deitou-se na cama, ordenando a
  Nancy, com ameaa, que o acordasse s cinco horas em ponto. Intimou a Oliver
  que se deitasse vestido no colcho. A rapariga atiou o fogo e sentou-se diante
  da lareira para acordar o ladro  hora marcada.

Oliver esteve muito tempo
  acordado; pensava talvez que Nancy procuraria ensejo de lhe dar algum conselho
  em voz baixa; mas ela ficou imvel diante do fogo. Exausto de fadiga e de medo,
  o menino adormeceu profundamente.

Quando acordou, o bule do
  ch estava na mesa, e Sikes metia vrios objetos na algibeira de um grande
  palet, estendido nas costas de uma cadeira, enquanto Nancy arranjava o almoo
  apressadamente. Ainda no era dia; a vela estava acesa, e fora tudo parecia
  escuro. Violenta chuva batia nos vidros, e o cu estava alastrado de nuvens.

-- Vamos! Vamos! --
  resmungava Sikes enquanto Oliver se levantava -- So cinco horas e meia! Anda ou
  no tens tempo de almoar; precisamos sair quanto antes.

Oliver no gastou muito
  tempo em aperfeioar a toalete; comeu um bocadinho e disse que estava pronto.

Nancy, sem olhar para
  ele, atirou-lhe um leno para enrolar no pescoo por causa do frio; das mos de
  Sikes recebeu um grande colete de pano grosso para cobrir os ombros.

Assim arranjado, o menino
  deu a mo ao salteador, que parou um instante para lhe mostrar, com gesto de
  ameaa, a pistola que tinha na algibeira do palet; depois apertou a mo de
  Oliver, disse adeus a Nancy e saiu.

Quando transpunham a
  soleira da porta, Oliver voltou a cabea, na esperana de encontrar o olhar de
  Nancy; mas ela voltara ao seu lugar diante da lareira e parecia completamente
  imvel.

CAPTULO XXI
A EXPEDIO.

Era triste a madrugada em
  que eles saram; o vento soprava com fora e a chuva caa a cntaros; nuvens sombrias
  e espessas velavam o cu; a noite toda fora chuvosa, porque grandes correntes
  de gua sulcavam a rua. Tnue claro anunciava a proximidade do dia,
  entristecendo ainda mais a cena; a plida luz da aurora enfraquecia a luz dos
  lampies, sem clarear os tetos sombrios e as ruas solitrias; no havia sinal
  de vida no bairro; todas as janelas estavam cuidadosamente fechadas e as ruas
  que eles iam atravessando, desertas e silenciosas.

Quando atravessaram Bethnal
  Green, era j dia claro. Muitos lampies estavam apagados; algumas carroas se
  dirigiam lentamente para Londres; de quando em quando, passava uma diligncia
  coberta de lama, e o cocheiro, por divertimento, dava uma lambada no
  carroceiro, que, no tendo tomado a direita da rua, expunha a diligncia a
  chegar meio minuto mais tarde.

Os botequins, interiormente
  iluminados a gs, j estavam abertos. Pouco a pouco, se foram abrindo outras
  lojas, e algumas pessoas passavam na rua; grupos de operrios iam para o seu trabalho;
  homens e mulheres levavam  cabea cestos de peixe; carroas de legumes puxadas
  por burros; carrinhos  mo cheios de carne; mulheres leiteiras com as celhas
  nos braos; em suma, uma fila contnua de gente que se dirigia com a sua
  mercadoria para os arrabaldes a leste da capital.

 proporo que se
  aproximavam da City, o rumor e o movimento iam aumentando, e quando enfiaram
  pelas ruas situadas entre Sboreditch e Smithfield atiraram-se no meio de um
  verdadeiro tumulto de gente; era dia claro, tanto quanto pode ser claro em
  Londres um dia de inverno, e j metade da populao estava entregue aos seus
  negcios matutinos.

Depois de deixarem
  Sun-Street e Crown-Street e atravessarem Finsburg Square, o Sr. Sikes entrou em
  Christwellt-Square, Barbican e Long-Lane, e chegaram a Smithfield, donde saiu
  um sussurro tal que surpreendeu a Oliver.

Era dia de mercado; a lama
  dava pelos tornozelos; espesso vapor saa do corpo dos animais e se confundia
  com o nevoeiro em que desapareciam as chamins. Todos os parques no meio
  daquele vasto recinto estavam cheios de carneiros; havia at alguns parques
  provisrios, e uma multido de bois e animais de toda a espcie estavam presos,
  em filas interminveis, a umas estacas fincadas no cho; campnios,
  carniceiros, mercadores ambulantes, crianas, ladres, vadios, vagabundos de
  toda a espcie, misturados e confundidos, formavam uma massa confusa.

O latir dos ces, o balir
  dos carneiros, o grunhir dos porcos, os gritos dos mascates, as exclamaes, as
  pragas, as rusgas, os sinos e as conversas que se ouviam de todas as tavernas,
  o rumor da gente que ia e vinha, o movimento de tantos homens de aspecto
  repelente e barba inculta, andando de um lado para outro, acotovelando-se,
  esbarrando-se, tudo contribua para ensurdecer e tontear um espectador.

O Sr. Sikes, arrastando
  Oliver consigo, abria caminho por meio da chusma compacta e dava pouca ateno
  ao tumulto, que era para a criana coisa nova e surpreendente. Duas ou trs
  vezes fez um sinal de cabea a amigos que encontrava, mas de cada vez recusava
  matar o bicho e continuava a andar o mais depressa que podia, at que saiu do
  mercado e entrou em Hovier-Lane e Holburn.

-- Anda, pequeno! -- disse
  ele, olhando para o relgio da igreja de Santo Andr. -- So quase sete horas!
  D sebo nas canelas; no fiques atrs, preguioso!

Dizendo isto, o Sr. Sikes
  sacudiu rudemente o brao de Oliver, e este, apressando o passo, regulou como
  pde o seu andar pelas grandes pernadas do salteador.

Conservaram este passo
  rpido at alm de Hyde Park, no caminho de Kensington.

Sikes afrouxou o passo e
  esperou que uma carroa vazia que vinha atrs deles os alcanasse; vendo
  escrito na carroa: Hounslow, perguntou ao carroceiro, com toda a polidez de
  que era capaz, se os podia levar at Isleworth.

-- Suba -- disse o homem. --
  Este pequeno  seu?

--  -- respondeu Sikes,
  olhando para Oliver e pondo a mo no bolso onde tinha a pistola.

-- Teu pai anda muito
  depressa, no? -- perguntou o carroceiro, vendo Oliver ofegante.

-- Qual! -- respondeu Sikes.
  -- Ele j est acostumado. D c a mo, Eduardo, sobe depressa.

Ao mesmo tempo fez com
  que o pequeno subisse para a carroa; o carroceiro apontou para um monte de
  sacos e disse ao pequeno que se deitasse neles.

Vendo passar, uns aps
  outros, na estrada, os marcos que indicavam as milhas, Oliver perguntava a si
  mesmo, e com pasmo, onde  que o seu companheiro o ia levar. J eles haviam
  passado Kensington, Hammer-smith, Chiswick, Kew-Bripge, Brentford, e iam sempre
  para diante. Afinal chegaram a uma hospedaria cuja tabuleta dizia: "Diligncia
  de quatro cavalos"; um pouco adiante a estrada era cortada por um caminho
  transversal. A carroa parou.

Sikes desceu com
  precipitao, sem largar a mo de Oliver; depois ajudou-o a descer,
  lanando-lhe um olhar furioso e levando a mo  algibeira onde tinha a pistola.

-- At mais ver, meu
  menino -- disse o homem.

-- No repare -- disse
  Sikes --, meu filho  muito vexado.

-- Qual reparar! -- disse o
  homem. -- Olhe, vamos ter um bonito dia. O cu est limpando.

Chicoteou o cavalo e
  continuou viagem.

Sikes esperou que ele
  estivesse longe e continuaram os dois a andar.

A pouca distncia da
  hospedaria voltaram  esquerda, depois  direita, e andaram muito tempo. A
  estrada era orlada de bonitas casas e jardins elegantes. L pararam para tomar
  um pouco de cerveja e chegaram enfim a uma cidade onde Oliver leu em grandes
  letras pintadas em um muro: "Hampton". Andaram nos campos algumas horas; afinal
  voltaram  cidade, entraram em uma hospedaria e foram jantar  cozinha.

Era uma espcie de sala
  baixa, com uma grande trave no meio do teto, e diante da lareira bancos com
  costas altas, nos quais estavam assentados muitos homens vestidos de blusa,
  bebendo e fumando; olharam rapidamente para Sikes e nem deram f de Oliver.

Sikes nenhuma ateno
  lhes prestou e foi assentar-se num canto com o seu companheiro.

Foram servidos de carne
  fria. Depois do jantar o Sr. Sikes fumou trs ou quatro cachimbos e acreditou
  que no iriam mais longe.

Cansado de tamanha viagem
  e atordoado com o fumo, Oliver adormeceu profundamente.

Era noite fechada quando
  Sikes o acordou. Abrindo os olhos, Oliver viu o seu companheiro em conferncia
  ntima com um campnio.

-- Voc vai portanto ao
  Baixo Halliford, no? -- perguntou Sikes.

-- Sim -- respondeu o
  homem, que parecia um pouco aquecido pelo licor que bebia em companhia de
  Sikes. -- No  longe. O meu cavalo no leva tanta carga como trouxe e far a
  viagem rapidamente.  um soberbo animal.

-- Pode levar-me at l e
  bem assim o meu pequeno?

-- Sim -- se forem j; vo a Halliford?

-- Vou a Sheperton.

-- Ir comigo at onde eu
  for -- disse o homem. -- Tudo est pago, Rebecca?

-- Este senhor pagou tudo.

-- Ora vamos! -- disse ele.
  -- Isto no pode ser assim.

-- Por qu? -- disse Sikes.
  -- Voc faz-nos um obsquio; no vale isto um ou dois tragos?

O estrangeiro pesou
  maduramente o valor deste argumento, depois apertou a mo de Sikes, declarando
  que era um homem digno. Sikes respondeu modestamente que o elogio era
  brincadeira, o que seria fcil de crer, se o homem estivesse em seu juzo.

Depois de trocarem
  algumas cortesias, deram as boas noites e saram, enquanto a criada arranjava
  os canjires e os copos e, com as mos cheias, ia v-los passar pela porta.

O cavalo, a cuja sade
  haviam bebido, estava diante da porta, atrelado  carroa. Oliver e Sikes
  subiram sem mais cerimnia, o campnio, depois deter elogiado outra vez o
  cavalo, subiu tambm  carroa. O criado da hospedaria segurou na arreata do
  cavalo e o levou para o meio da estrada; mas apenas o animal se viu solto
  entrou a fazer um mau uso da liberdade, dando saltos mortais, at que disparou
  a galope.

A noite estava escura; do
  rio e das lagoas prximas subia um espesso nevoeiro que se espalhava pelos campos.
  O frio era intenso. Tudo era sinistro; os viajantes no trocaram uma palavra, o
  condutor adormeceu e Sikes no tinha vontade de comear nenhuma conversa;
  Oliver, encolhido em um canto, cuidava ver nas rvores, cujos galhos se
  balanavam tristemente, outros tantos fantasmas no meio daquela natureza
  triste.

Quando passaram pela
  igreja de Lumbury, o relgio bateu sete horas. Brilhava a alguma distncia uma
  casa, uma luzinha que se projetava na estrada, quanto bastava para alumiar uma
  rvore que cobrira uma sepultura. Ouvia-se perto o rumor monstruoso de uma
  cascata, e a folhagem da rvore balanava docemente ao vento da noite. Disse-se
  uma msica para descanso dos mortos.

Depois de atravessarem
  Sunburg, acharam-se na estrada solitria. Duas ou trs milhas adiante parou a
  carroa. Sikes desceu, levando Oliver pela mo, e comearam a andar.

Em Sheperton, no pararam
  em nenhuma parte, como desejava a criana, exausta de fadiga; mas continuaram a
  andar por maus caminhos, no meio da lama e das trevas, at que viu que o rio
  corria ao p deles e que eles se iam aproximando de uma ponte.

No momento em que iam
  atravessar a ponte, Sikes voltou repentinamente  esquerda e desceu para o rio.

-- O rio! -- pensou Oliver
  meio morto de medo. -- Trouxe-me aqui para me atirar ao rio!

Ia atirar-se ao cho e
  tentar um supremo esforo para salvar a vida,quando viu que paravam diante de
  uma casa isolada e arruinada. Havia uma janela de cada lado da porta e um s
  andar por cima; nenhuma aparncia de luz; a casa tinha ares de no ser habitada
  por ningum.

Sikes, segurando sempre a
  mo de Oliver, dirigiu-se lentamente para a porta e empurrou a tronqueira, a
  porta cedeu e entraram ambos.

CAPTULO
  XXII
ARROMBAR PARA ROUBAR.

-- Quem vem l? -- perguntou uma
  voz grossa apenas eles entraram na casa.

-- No
  faas bulha -- disse Sikes, correndo o
  ferrolho da porta. --Acende uma vela, Tobias.

-- Ah! s tu, camarada --
  disse a mesma voz. -- Traze luz, Barney. Mostra o caminho ao senhor; e trata de acordar,
  se te for possvel.

A pessoa que falava atirou
  provavelmente uma descaladeira, ou qualquer outro objeto semelhante, contra a
  pessoa a quem falava, para arranc-la do sono em que jazia. Ouviu-se o som de
  um pedao de pau com fora no cho e o resmungar de um sujeito meio acordado.

-- Ouves? -- disse a mesma
  voz. -- Guilherme Sikes est no corredor, sem ningum para o receber; e tu est
  a a dormir, como se houvesse bebido laudanum! Tens os olhos abertos, ou ser preciso que eu te deite aos olhos o castial de
  ferro?

Ouviu-se um rumor de
  tamancos no assoalho, depois uma vela acesa nesse momento apareceu numa porta
  da direita, e por fim apareceu um indivduo, que j apresentamos endefluxado e
  empregado como caixeiro na taverna de Saffron-Hill.

-- O Sr. Sikes! -- exclamou
  Barney com uma alegria real ou fingida. -- Entre,
  entre!

-- Passa para a frente --
  disse Sikes, empurrando Oliver --, vamos ligeiro!

Praguejando contra a
  lentido do menino, o Sr. Sikes empurrou-o para a porta, e entraram ambos numa
  sala baixa, sombria e enfumada, ornada com duas ou trs cadeiras quebradas, uma
  mesa e um velho canap, no qual um indivduo, com os ps muito mais altos que a
  cabea, estava fumando um comprido cachimbo.

Vestia o tal sujeito uma
  casaca cor de castanha, cortada  ltima moda, com grandes botes luzidios,
  gravata cor de laranja, colete de rebuo de cor muito vistosa e calas pardas.
  O Sr. Tobias Crackit (era ele) tinha poucos cabelos; mas os poucos que tinha
  eram ruivos e encaracolados  maneira de saca-rolhas, e ele metia-lhes muitas
  vezes as mos sujas e ornadas de grossos anis. Era acima de meo e parecia ter
  as pernas fracas; o que lhe no impedia de admirar as botas.

-- Muito estimo ver-te, meu
  Guilherme -- disse ele, voltando a cabea para a porta. -- Eu receava quase que
  renunciasses  expedio e nesse caso arriscar-me-ia s... Que  isto?

Fez esta pergunta de
  surpresa ao ver Oliver; sentou-se e esperou resposta.

--  o pequeno -- respondeu
  Sikes, aproximando a cadeira do fogo.

-- Um dos aprendizes do Sr.
  Fagin -- disse Barney rindo.

-- De Fagin? -- disse
  Tobias, contemplando Oliver. -- H de ser um rapago sem rival para limpar as
  algibeiras de velhos na igreja; tem pinta de ir longe.

-- Basta... Basta... -- interrompeu
  Sikes com impacincia. E inclinando-se para o seu amigo, disse-lhe algumas
  palavras que fizeram rir o Sr. Crackit, que ao mesmo tempo olhava admirado para
  Oliver.

-- Agora -- disse Sikes, sentando-se
  --, se puderes dar alguma coisa que se beba e coma, no ser mau; senta-te a
  perto do fogo, pequeno, e descansa; hoje sairs conosco, mas no para longe.

Oliver olhou timidamente
  para Sikes com ar de surpresa, mas no disse palavra. Aproximou a sua cadeira
  do fogo, ps a cabea nas mos e ficou imvel, sem reparar no que se passava 
  roda dele.

-- Vamos -- disse Tobias,
  enquanto o jovem judeu punha na mesa uma garrafa e alguma comida --, bebamos ao
  bom sucesso da empresa!

Levantou-se para fazer
  honra ao brinde, ps a um lado o cachimbo, aproximou-se da mesa, encheu um copo
  de aguardente e o esvaziou de um trago.

Sikes fez outro tanto.

-- Um trago para o pequeno
  -- disse Tobias, enchendo um copo at a metade. -- Engole isto, simplrio!

-- Na verdade, eu... --
  disse Oliver olhando para Tobias.

-- Bebe -- repetiu Tobias.
  -- Pensas que eu no sei o que te faz bem? dize-lhe que beba, Guilherme.

-- Melhor ser que ele no
  faa cerimnias -- disse Sikes, levando a mo  algibeira. -- Com os diabos, s este
  diabrete  mais difcil de governar que um grupo de Matreiros. Anda, bebe,
  pelintra!

Assustando com os gestos
  ameaadores dos dois homens, Oliver bebeu de um trago a aguardente contida no
  copo e entrou a tossir, o que divertiu muito a Tobias e Barney e fez sorrir o
  feroz Sikes.

Feito isto, e tendo o Sr.
  Sikes morto a fome (Oliver apenas comeu um pedao de po), os dois sujeitos
  trataram de dormir um pouco nas cadeiras. Oliver ficou ao p do fogo e Barney,
  envolvido em uma coberta, estendeu-se no cho.

Dormiram ou fingiram
  dormir; s Barney, se levantou duas vezes para pr carvo no fogo.

Oliver caiu em profundo
  abatimento e sono; imaginava que ainda percorria as ruas escuras, ou errava no
  cemitrio; foi acordado repentinamente pelo Sr. Tobias Crackit, que se levantou
  dizendo que era hora e meia.

Num instante, os outros
  dois estavam de p e todos trataram de fazer os preparativos.

Sikes e seu companheiro
  enrolaram no pescoo grossas gravatas e vestiram os sobretudos, enquanto Barney,
  abrindo um armrio, tirava vrios objetos que metia no bolso.

-- D c as berradeiras,
  Barney -- disse Tobias.

-- Aqui esto -- respondeu
  Barney, dando-lhe um par de pistolas. -- Carregou-as o senhor mesmo.

-- Bom! -- disse Tobias,
  pondo as pistolas no bolso. -- E as persuadeiras?

-- J as tenho -- disse
  Sikes.

-- E as gazuas, as
  lanternas surdas, nada se esqueceu? -- perguntou Tobias, metendo uma pina
  dentro do palet.

-- Tudo est em regra --
  respondeu o companheiro. -- S nos faltamos cacetes.

Dizendo isto tirou um
  cacete das mos de Barney; Tobias fez o mesmo.

-- Vamos! -- disse Sikes,
  estendendo a mo a Oliver.

Este, abatido pela fadiga
  da jornada, aturdido pelo ar livre e o licor que tomara, ps maquinalmente a
  mo na que Sikes lhe estendera.

-- Segura-lhe a outra mo,
  Tobias -- disse Sikes. -- D uma olhadela a fora, Barney.

Barney foi  porta e veio
  anunciar que tudo estava quieto.

Os dois ladres saram
  com Oliver; e Barney, depois de fechar cuidadosamente a porta, enrolou-se no
  cobertor e continuou a dormir.

A obscuridade era
  profunda, o nevoeiro muito mais espesso que no comeo da noite, e a atmosfera
  to mida que, posto no chovesse, os cabelos de Oliver ficaram cheios de gua
  dentro de pouco tempo.

Galgaram a ponte e dirigiram-se
  na direo das luzes que precedentemente tinham visto; no estavam longe e,
  como andavam depressa, chegaram a Chertsey.

-- Atravessemos a aldeia --
  disse Sikes em voz baixa --, no haver viva alma que nos veja passar.

Tobias no fez objeo nenhuma
  e os trs enfiaram precipitadamente pela grande rua da aldeia, completamente
  deserta quela hora da noite.

De quando em quando
  aparecia uma fraca luz na janela de um quarto de dormir, e s vezes o ladrar
  dos ces vinha perturbar o silncio da noite; mas no havia ningum fora.

Ao sarem da aldeia,
  bateram duas horas na igreja.

Apressaram o passo e
  entraram por um atalho  esquerda.

Depois de terem andado
  mais ou menos um quarto de milha, pararam diante de uma casa isolada, cujo
  jardim era cercado de muros.

Sem tomar flego, Tobias
  Crackit escalou o muro em um abrir e fechar de olhos.

-- D c o pequeno -- disse
  ele a Sikes.

Antes que Oliver tivesse
  tempo de fazer um movimento qualquer, sentiu-se agarrado pelos braos.

Dentro de um segundo,
  estava ele com Tobias sobre a relva, do outro lado do muro.

Sikes pulou e foi ter com
  eles imediatamente.

Dirigiram-se devagarinho para a casa.

Foi ento que, pela
  primeira vez, Oliver, desvairado de dor e de medo,compreendeu que o arrombamento,
  o roubo e talvez o assassinato eram o fim da expedio.

Torceu as mos e deixou
  escapar involuntariamente um grito de dor.

Passou-lhe pelos olhos
  uma nuvem, um suor frio lhe cobriu o rosto, as pernas lhe enfraqueceram e ele
  caiu de joelhos.

-- De p! Levanta-te! --
  murmurou Sikes, tremendo de clera e puxando a pistola da algibeira. --
  Levanta-te ou eu te fao saltar os miolos fora.

-- Oh! Pelo amor de Deus!
  Deixe-me ir embora! -- disse Oliver. -- Deixe-me ir para bem longe, morrer no
  meio dos campos; no voltarei para Londres; nunca! Nunca! Tenham piedade de
  mim! No faam de mim ladro; por todos os anjos do cu, tenham pena de mim!

O homem a quem estas
  palavras eram ditas proferiu uma horrvel praga e j havia engatilhado a
  pistola, quando Tobias lhe arrancou a arma da mo, tapou a boca da criana e
  arrastou-a para a casa.

-- Silncio! -- disse ele.
  -- Isto  nada. Dize ainda uma palavra e eu quebro-te a cabea com este cacete;
  no faz bulha e o efeito  o mesmo.

-- Basta, basta, Guilherme
  -- disse Tobias. -- J vi outros mais velhos que ele terem medo em uma noite
  destas.

Praguejando contra o
  judeu que tivera a idia de mandar Oliver com ele, Sikes ps o pau por baixo da
  porta de uma janela, carregou vigorosamente sobre ele, mas sem fazer bulha; foi
  ajudado por Tobias na operao, a porta cedeu.

Era uma pequena janela
  colocada atrs da casa, a cinco ps acima do solo e dando pra um celeiro no fim
  da alameda.

A abertura era to
  estreita que os donos da casa tinham julgado intil pr-lhe traves de ferro;
  no obstante, um menino do tamanho de Oliver podia passar por ela.

Sikes fez saltar o
  ferrolho que prendia a janela.

-- Agora, meu peralta,
  atende bem ao que te vou dizer -- murmurou ele em voz baixa, tirando da algibeira
  uma lanterna surda, cuja luz dirigiu para a cara de Oliver. -- Vou fazer-te
  passar por esta janela; tu pegas na lanterna, sobes devagarinho os degraus que
  ali esto, atravessas o vestbulo e vais abrir-nos a porta de entrada.

-- H l um ferrolho onde
  no podes chegar -- observou Tobias. Subirs a uma cadeira; h trs cadeiras no
  vestbulo, com os brases da velha.

-- Cala-te -- disse Sikes
  com ar ameaador. -- A porta do quarto est aberta, no?

-- Escancarada -- respondeu
  Tobias, depois de lanar um olhar pela janela para verificar. -- O que h de bom
   que essa porta sempre fica aberta para que o co possa andar a seu gosto
  quando no durma. Ah! Ah! Barney j nos livrou do co!

Posto que o Sr. Crackit
  risse baixinho e pronunciasse estas palavras em tom quase ininteligvel, Sikes
  ordenou-lhe imperiosamente que se calasse e trabalhasse.

Tobias obedeceu.

Ps a lanterna no cho;
  depois, encostou-se  parede, debaixo da janela, com as mos apoiadas nos
  joelhos, de maneira que as suas costas lhe servissem de escada.

Imediatamente Sikes
  trepou em cima dele, fez passar Oliver pela janela e s o largou quando ele
  tomou p no inferior.

-- Toma esta lanterna --
  disse-lhe, lanando um olhar para o quarto. -- Vs a escada na frente?

Sikes designou-lhe a
  porta de entrada com o cano da pistola e advertiu-o de que pensasse em que
  ficava ao alcance da arma e poderia cair morto.

--  negcio de um minuto
  -- disse Sikes, sempre em voz baixa -- e vou largar-te; vai direito; ateno!

-- O que ? -- perguntou
  Tobias.

Escutaram atentamente.

-- No  nada -- disse
  Sikes. -- Vamos!  obra!

No pouco tempo que tivera
  para reunir as suas idias, o menino tomara a resoluo. Sim, ainda que lhe custasse
  a vida, iria subir a escada e dar alarma  gente da casa.

Com esta idia,
  dirigiu-se para os degraus, mas devagarinho.

-- Aqui! -- disse de repente Sikes. -- Vem c!

Esta sbita exclamao e
  um grito agudo que se lhe seguiu, assustaram Oliver a ponto de deixar cair a
  lanterna e no saber se devia continuar ou recuar.

Ouviu-se outro grito.

Apareceu uma luz no alto
  da escada.

Dois homens aterrados
  apareceram em cima meio vestidos.

A criana viu uma luz... fumo...
  uma detonao... depois vacilou e caiu para trs.

Sikes tinha desaparecido
  um instante; mas tinha se levantado e antes que o fumo se houvesse dissipado
  segurou Oliver pela gola.

Descarregou a pistola nos
  dois homens, que j batiam em retirada, e carregou Oliver.

-- Aperta-me -- disse Sikes
  passando pela janela. -- D c um xale, Tobias. Eles feriram o pequeno.
  Depressa! est deitando sangue!

O rudo de uma sineta
  veio juntar-se ao das armas de fogo e aos gritos da gente da casa. Oliver
  sentiu que o levavam rapidamente. Pouco a pouco o rudo esmoreceu; o pequeno
  desmaiou.

CAPTULO
  XXIII
DE COMO UM BEDEL PODE TER BOM SENTIMENTOS. CURIOSA CONVERSA DO SR.
  BUMBLE E UMA SENHORA.

A noite era glacial; cobria
  a terra uma espessa camada de neve; o vento que soprava de rijo ia arrojando os
  bocados da mesma neve acumulada nos cantos das ruas ou ao longo das casas.

Era uma dessas noites
  sombrias, em que a gente que tem de seu vai colocar-se  roda de um bom fogo e
  d graas a Deus no estar fora; em que os desgraados sem abrigo e sem po
  adormecem para nunca mais acordar; em que mais de um pria das nossas cidades,
  magros de fome, fecham os olhos na calada da rua para s os abrir em um mundo
  que no lhes pode ser pior, quaisquer que sejam os crimes que cometeram neste.

Tal era a situao da rua,
  quando a Sra. Corney, a matrona do asilo de mendicidade onde j levamos o
  leitor, foi sentar-se ao p de um bom fogo no seu quarto e entrou a contemplar
  uma bandeja com todos os objetos necessrios  mais agradvel colao que pode
  fazer uma matrona.

Efetivamente, a Sra. Corney
  estava prestes a confortar-se com uma xcara de ch; olhava para a mesa, depois
  para o fogo, onde a gua chiava em uma pequena chaleira, e tinha a cara cada
  vez mais satisfeita.

Em suma, a Sra. Barney
  chegou a sorrir com aquele espetculo.

-- Na verdade -- disse ela,
  pondo o cotovelo na mesa --, ningum neste mundo pode deixar de abenoar a
  providncia se refletir nos benefcios que ela faz. Ai! Ai!

A Sra. Corney abanou a
  cabea, e este gesto, como o suspiro que soltara, era prova de que ela
  deplorava a cegueira dos pobres que desconhecem os benefcios da providncia.

Depois, introduzindo uma
  colher de prata (que era dela) em uma latinha de ch, continuou os seus
  preparativos.

-- Bem pouco  necessrio
  para perturbar a serenidade da nossa alma!

A chaleira, que era muito
  pequena, entrou a ferver e transbordou, quando a Sra. Corney estava fazendo as
  suas reflexes morais, e algumas gotas de gua fervendo caram na mo da
  matrona.

-- Leve o diabo a chaleira!
  -- disse ela, pondo-a depois sobre a chamin. -- Que tola inveno foi esta das
  chaleiras pequenas para uma ou duas xcaras somente! A quem podem servir seno
  a uma desgraada como eu?

A estas palavras, a matrona
  deixou-se cair na cadeira, tornou a pr o cotovelo na mesa e pensou na sua
  existncia solitria.

A chaleira lhe despertou a
  lembrana do defunto Sr. Corney, que ela teria enterrado vinte e cinco anos
  atrs.

Caiu em profunda melancolia.

-- No hei de ter igual --
  dizia ela. -- No! Nunca mais hei de ter coisa semelhante.

No se pode dizer se a
  exclamao da Sra. Corney era feita ao marido ou  chaleira; talvez fosse 
  chaleira, porque, depois de a contemplar um instante, trouxe-a para a mesa.

Ao aproximar a xcara dos
  lbios, ouviu bater  porta.

-- Entre! -- disse ela
  zangada. -- H de ser alguma velha que est a expirar; morrem todos quando eu
  estou  mesa; entre e feche a porta para que no entre o ar frio. Ento?

-- No  nada -- disse uma voz de homem.

-- Santo Deus! -- disse a
  matrona, com voz muito mais doce. -- E o Sr. Bumble?

-- Um seu criado --
  respondeu o Sr. Bumble que ficara fora a enxugar os ps no capacho e a sacudir
  a neve que lhe cobria a casaca, mas que neste momento fazia a sua entrada,
  trazendo em uma mo o chapu de trs bicos e na outra um embrulho. -- Devo
  fechar a porta?

A dama hesitou
  modestamente em responder com o receio de que houvesse alguma inconvenincia em
  conversar fechada com o Sr. Bumble. Este aproveitou a hesitao e, como estava
  gelado, fechou a porta sem esperar a licena.

-- Que terrvel tempo, Sr.
  Bumble!

-- Horrvel, na verdade --
  respondeu o bedel. --  um tempo antiparoquial. Acredita que hoje, neste
  abenoado dia, distribumos vinte e cinco pes de quatro libras e um queijo e
  meio? E os mendigos no esto contentes.

-- Grande admirao! Os
  mendigos nunca esto contentes! -- disse a matrona, saboreando o ch.

--  verdade, minha senhora
  -- continuou Bumble. -- Olhe, h um indivduo a quem em considerao da sua
  numerosa famlia foi concedido um po de quatro libras e meia libra de queijo,
  bem pesado; acredita que esse homem  grato? Espere por isso! Sabe o que ele
  fez? Pediu um pouco de carvo, ainda que fosse um pouco dentro de um leno.
  Carvo! Para que quer ele carvo? Queria talvez assar o queijo para depois
  pedir mais. Estes mendigos so todos os mesmos; d-se-lhe hoje um avental de
  carvo; da a dois dias vem pedir outro tanto; so descarados como macacos!

A matrona aprovou esta
  bela comparao.

O bedel continuou:

-- No se pode calcular
  at onde chega a insolncia deles; ainda anteontem, um homem... a senhora foi
  casada, posso exprimir-me assim, um homem levemente vestido (a Sra. Corney
  abaixou os olhos) com alguns farrapos apresentou-se  porta de um de nossos
  funcionrios e pediu alguns socorros. Como recusasse ir-se embora, e estivesse
  num traje que ofendia a reunio, o funcionrio mandou que se lhe desse uma
  libra de batatas e um pouco de mingau.

"Meu Deus! (exclamou
  aquele monstro de ingratido) O que querem que eu faa com isso?" -- "Pois bem",
  disse o funcionrio, tirando-lhe as provises, "no ter nada". -- "Devo ento
  morrer na rua?", perguntou o vagabundo. -- "Oh! No, no h de morrer!", disse o
  funcionrio.

-- Ah! Ah! Soberbo! --
  interrompeu a matrona. -- Esse foi naturalmente com o Sr. Grannet. E depois?

-- Depois -- disse o bedel
  -- saiu e morreu na rua. Veja que teimoso!

-- Isto  incrvel --
  observou a matrona com dignidade. -- Mas no lhe parece, Sr. Bumble, que os
  auxlios dados fora do asilo dos mendigos no tm bom resultado? O senhor 
  homem de experincia e pode decidira este respeito.

-- Sra. Corney -- disse o
  bedel, sorrindo como um homem que tem conscincia da sua superioridade --, os
  socorros distribudos fora do asilo, quando so dados com discernimento, so a
  defesa natural da parquia. O princpio fundamental dos socorros dados fora do
  asilo  ministrar aos pobres unicamente aquilo que lhes no pode servir de
  nada, e ento, cansados com isso, cessam as importunaes.

-- Tens razo -- disse a
  Sra. Corney --, a idia  luminosa.

-- Sim. Seja dito entre
  ns,  esse o grande princpio da coisa -- continuou o Sr. Bumble, -- Em virtude
  desse princpio  que se socorrem as famlias doentes, fazendo-lhes uma
  distribuio de queijo, como dizem os imprudentes jornalistas que metem o
  bedelho onde no so chamados. Este princpio est agora em vigor no Reino.
  Entretanto -- acrescentou ele, abrindo o embrulho que trazia na mo --, h
  segredos administrativos, a cujo respeito no devemos piar, exceto entre
  colegas de parquia, como ns, por exemplo. Aqui est o Porto que a
  administrao destina  enfermaria;  excelente, puro, metido de fresco na
  garrafa.

Depois de ter aproximado
  uma das duas garrafas da luz e t-la agitado para mostrar a boa qualidade do
  vinho, o Sr. Bumble levou-as ambas para a cmoda, dobrou o leno que as
  envolvia, p-lo na algibeira e pegou no chapu como para se ir embora.

-- O senhor vai sentir frio
  -- disse a matrona.

-- Est um vento de cortar
  a cara -- respondeu o Sr. Bumble, levantando a gola da casaca.

A Sra. Corney olhou para
  a chaleira, depois para o bedel que se dirigia para a porta; e, como este tossisse
  e estivesse para dar-lhe as boas-noites, ela perguntou timidamente... se ele
  aceitaria uma xcara de ch.

Imediatamente o Sr.
  Bumble dobrou a gola, ps o chapu e a bengala em uma cadeira e aproximou outra
  cadeira da mesa, assentou se lenta-mente, contemplando a matrona, que abaixou
  os olhos.

O Sr. Bumble tossiu outra
  vez e sorriu.

A Sra. Corney levantou-se
  para tirar do armrio uma xcara e um pires. Ao sentar-se encontraram os seus
  olhos com os do bedel; corou e comeou a preparar o ch.

Sr. Bumble tossiu pela
  terceira vez e mais forte do que das outras.

-- Gosta de muito acar?
  -- disse a matrona, pegando no aucareiro.

-- Sim, muito acar
  respondeu o Sr. Bumble com os olhos sempre, cravados na Sra. Corney.

Se jamais houve bedel que
  parecesse terno, esse foi o Sr. Bumble naquele instante.

Fez-se o ch.

-- O Sr. Bumble ps um
  leno nos joelhos, para que as migalhas de po no lhe emporcalhassem as
  calas, e comeou a beber e a comer. No meio desse exerccio, soltava s vezes
  um profundo suspiro que no lhe impedia as dentadas que dava no po; pelo
  contrrio, parecia destinado a facilitar-lhe as funes digestivas.

-- A senhora tem uma gata,
  creio eu -- disse o Sr. Bumble, vendo uma gata rodeada de gatinhos diante do
  fogo --, e gatinhos tambm, seno me engano.

-- Gosto tanto desses
  animais -- respondeu a matrona --, no pode fazer idia. So to geis, to
  divertidos! E uma verdadeira sociedade para mim.

-- So excelentes animais
  -- disse o Sr. Bumble com um tom aprovador. Ficam muito amigos da casa.

-- Oh! Sim! -- disse a Sra.
  Corney com entusiasmo. -- Gostam do que  seu.

-- Sra. Corney -- disse o
  bedel, batendo o compasso com a colher --, ouso dizer que se um gato, ou qualquer
  outro animal que pudesse viver com a senhora, no tomasse amor  casa,
  necessariamente seria um burro.

-- Oh! Sr. Bumble! -- disse
  a Sra. Corney.

-- No ocultemos a verdade
  -- continuou o Sr. Bumble, balanando a colher, com um ar ao mesmo tempo digno e
  terno que dava mais peso s suas palavras. -- Um animal que se mostrasse to
  ingrato seria esmagado por mim.

-- O senhor  cruel --
  disse vivamente a matrona, estendendo o brao para pegar na xcara do bedel. --
  Deve ter um corao de pedra.

-- Corao de pedra, senhora, corao de pedra!

Estendeu a xcara  Sra.
  Corney e aproveitou o momento em que ela a recebia para apertar-lhe o dedo
  mnimo; depois pondo a mo no colete agaloado, soltou um profundo suspiro e
  afastou um pouco a cadeira do fogo.

A mesa era redonda, e
  como a Sra. Corney e o Sr. Bumble estavam sentados diante do fogo, em frente um
  do outro e assaz prximos, facilmente se compreende que o Sr. Bumble,
  afastando-se da lareira, separava-se mais da Sra. Corney.

Este ato do bedel excitar
  a admirao do leitor, que ver nele um ato de herosmo da parte do Sr. Bumble;
  a hora, o lugar, a ocasio poderiam lev-lo a conversar de amor, posto que as
  expresses namoradas, prprias na boca de um estouvado, esto acima da
  dignidade de um magistrado, de um membro do parlamento, de um ministro de
  estado, de um lord-mayor e, com maior razo, so
  indignas de um bedel, que (ningum o ignora) de todos os magistrados deve ser o
  mais severo e inflexvel.

Quaisquer que fossem as
  intenes do Sr. Bumble (e sem dvida eram excelentes), quis a desgraa que a
  mesa fosse redonda, como dissemos. Deste modo, aproximando pouco a pouco a
  cadeira, o Sr. Bumble diminuiu sensivelmente a distncia que o separava da
  matrona e,  fora de viajar  roda da mesa, chegou a ficar juntinho da cadeira
  da Sra. Corney.

A parou o Sr. Bumble.

Nesta situao, se a
  matrona recuasse a cadeira para a direita, caa no fogo; se fizesse um
  movimento para a esquerda, caa nos braos do Sr. Bumble.

No escapou esta alternativa
   sua perspiccia e, como mulher de juzo, no se mexeu e ofereceu ao Sr.
  Bumble outra xcara de ch.

-- Corao de pedra! --
  repetiu o bedel, olhando para a matrona. -- E a senhora ter corao de pedra?

-- Oh! Meu Deus! -- disse ela,
  que simples pergunta na boca de um celibatrio! -- Que lhe importa isso, Sr.
  Bumble?

Este, sem responder,
  bebeu o ch todo da xcara, engoliu uma torrada, enxugou a boca.., e deu um
  beijo na matrona.

-- Sr. Bumble -- disse
  baixinho a discreta dama, porque o medo lhe embargara a voz --, olhe que eu
  grito!

O bedel no respondeu e, com lentido e
  dignidade, passou o brao  roda da cintura da matrona.

Ia sem dvida a boa
  senhora executar a ameaa do grito, quando ouviu bater na porta; num fechar de
  olhos o Sr. Bumble correu s garrafas e comeou a sacuda-las enquanto a matrona
  perguntava secamente:

-- Quem est a?

 de notar que sua voz
  adquiriu subitamente a habitual aspereza.

Respondeu uma velha
  mendiga metendo a cabea pela porta:

--  a velha Sally que vai
  bater a bota.

-- Que quer que lhe faa?
  -- perguntou a matrona. -- Posso eu evitar que morra?

-- No -- respondeu a velha
  --, ningum o pode; j no h remdio. Tenho visto morrer muita gente e bem sei
  quando a morte  infalvel. Mas ela est agitada; quando os acessos lhe deixam
  algum descanso, diz que tem uma coisa para lhe contar. No morre tranqila
  enquanto a senhora no for l.

A digna Sra. Corney
  proferiu algumas invectivas contra as velhas que podem morrer sem incomodar as
  superioras, ps um xale aos ombros, pediu ao Sr. Bumble que a esperasse at a
  volta e, intimando a velha mensageira que andasse depressa, saiu de m vontade
  e foi ao quarto da moribunda.

Ficando s, teve o Sr.
  Bumble um procedimento singular. Abriu o armrio, contou as colheres do ch,
  sopesou a pina do acar, examinou uma grande colher de prata para ver a
  qualidade do metal; depois de satisfazer a sua curiosidade neste ponto, ps o
  chapu de trs bicos com a frente para trs e andou muitas vezes  roda da mesa,
  danando na ponta dos ps. Depois deste extravagante exerccio, tirou o chapu
  de trs bicos e sentou-se com as costas para a lareira, com ar de um homem que
  estivesse ocupado em inventariar a moblia.

CAPTULO
  XXIV
PORMENORES DOLOROSOS, MAS CURTOS, CUJO CONHECIMENTO  NECESSRIO
  PARA A INTELIGNCIA DESTA HISTRIA.

Era uma real mensageira da
  morte a que fora perturbar os amveis colquios da matrona. Estava curvada
  pelos anos; contnuo tremor lhe agitava os membros, e o rosto, contrado por
  movimentos convulsivos, parecia antes uma caricatura que um rosto humano.

Quo poucas fisionomias
  conservam o primeiro encanto! Os pesares, os cuidados, os sofrimentos laceram
  as feies ao mesmo tempo que mudam o corao; e s quando as paixes dormitam
  e perdem para sempre a sua fora  que a nuvem se dissipa e restitui  fronte a
  sua serenidade celeste. Tal  muita vez o conceito da morte: frio e gelado, o
  rosto encontra a expresso serena e plcida que tinha na manh da vida. O homem
  fica to calmo ento que aqueles que o conheceram na sua infncia se ajoelham
  ao p do tmulo, cheios de respeito pelo anjo que acreditam ver na terra.

A velha subiu a escada
  vacilando e, caminhando ao longo dos corredores, resmungava algumas palavras
  ininteligveis, em resposta s censuras que a sua companheira lhe fazia.
  Afinal, foi obrigada a parar para tomar flego e entregou a luz  matrona, que
  rapidamente se dirigiu para o quarto onde jazia a moribunda.

O quarto era iluminado por um
  pssimo candeeiro. Outra velha vigiava perto da cama, enquanto o aprendiz do
  boticrio da parquia, ao p da lareira, aparava um palito.

-- Que noite glacial! --
  disse o rapaz, vendo entrar a matrona.

-- Glacial, na verdade --
  respondeu a dama, com a sua voz mais benvola e fazendo uma cortesia.

-- A senhora devia exigir
  dos seus fornecedores melhor carvo -- disse o aprendiz, atiando o fogo. -- Este
  no convm ao frio que est fazendo.

-- A administrao  que o
  escolhe -- respondeu a matrona. -- Pois devia dar-nos melhor carvo; basta j o
  trabalho que temos.

Aqui foi a conversa
  interrompida por um gemido de moribundo.

-- Oh! -- disse o rapaz,
  olhando para a cama, como se o grito lhe lembrasse que ali havia uma doente. --
  Est a expirar.

-- Parece-lhe? -- perguntou a
  matrona.

-- Muito me admirar se isto
  durar algumas horas -- disse o rapaz,afinando a ponta do palito. Toda ela est
  por um triz. Ol, velha, a doente dorme?

A enfermeira inclinou-se
  para o leito e disse que sim.

-- Pois se no fizerem
  bulha, ela morre assim desse modo -- disse o rapaz. -- Ponham a luz no cho a fim
  de que ela no veja.

A velha obedeceu, sacudindo
  a cabea como para dizer que a doente no morreria to tranqilamente; depois
  foi sentar-se ao p da outra velha que acabava de entrar.

A matrona, com ar de
  impacincia, embrulhou-se no xale e sentou-se ao p da cama.

O aprendiz de boticrio,
  depois de aparar o palito, sentou-se diante do fogo; mas ao fim de dez minutos
  ficou aborrecido, deu boas noites  Sra. Corney e saiu na ponta dos ps.

As duas velhas, depois de
  ficarem algum tempo imveis, afastaram-se da cama e foram para o fogo, pondo
  as mos perto das brasas.

A chama projetava um
  claro sinistro nos seus rostos lvidos e parecia aumentar-lhes a hediondez;
  entraram a conversar em voz baixa.

-- Disse ela alguma
  palavra enquanto eu estava fora? -- perguntou a mensageira.

-- Nem palavra -- respondeu
  a outra. -- Torceu os braos, mas eu segurei-lhe as mos, e ela tranqilizou-se
  logo; no  difcil conserv-la sossegada; faltam-lhe foras. E eu, apesar de
  velha e do passadio c do asilo, ainda tenho pulsos.

-- Bebeu ela o vinho
  quente que o mdico mandou?

-- Tentei fazer com que o
  bebesse, mas ela tinha os dentes to cerrados que no consegui nada. De maneira
  que eu bebi o vinho, o que me fez bem.

Depois de olhar  roda de
  si com precauo para ver se no as ouviam,as duas velhas aproximaram-se ainda
  mais do fogo e continuaram a falar.

-- Lembra-me de um tempo --
  disse a primeira -- em que ela faria o mesmo e riria do caso.

-- Sem dvida -- disse a
  outra. -- Ela era muito alegre. Quantos cadveres ela amortalhou! E todos
  brancos como cera! Quantas vezes ajudei nesse trabalho!

Dizendo isto, a velha
  tirou da algibeira uma velha boceta de estanho, ofereceu uma pitada  outra e
  tomou outra.

Nesse momento, a matrona,
  que at ento esperava impacientemente que a moribunda sasse do letargo em que
  estava, aproximou-se do fogo e perguntou com voz spera se era preciso esperar.

-- No muito tempo --
  respondeu a segunda mulher, levantando os olhos. -- A morte nunca deixa esperar
  muito tempo uma de ns.

-- Cale-se, velha
  rabugenta-- disse a matrona com tom severo. -- Diga-me, Marta, ela j esteve
  neste estado?

-- Muitas vezes.

-- Mas esta  a ltima --
  disse a outra velha. -- Agora s acordar uma vez; e isto no tarda muito.

-- Muito ou pouco -- disse
  a matrona --, no me achar aqui quando acordar, e tomem cuidado, no me vo
  incomodar outra vez por coisas que no valem a pena. No  da minha obrigao
  ver morrer todas as velhas da casa; realmente,  demais. Lembrem-se bem do que
  lhes digo; se me fizerem outra, eu lhes darei o pago.

A Sra. Corney ia a sair
  quando um grito das duas velhas chamou a ateno dela.

A moribunda estava
  sentada na cama e estendia os braos para ela.

-- Que ? -- disse a
  matrona com voz sepulcral.

-- Deite-se, deite-se --
  disse uma das velhas inclinando-se sobre o leito.

-- S me deitarei quando expirar
  -- disse a doente. -- Preciso falar-lhe. Aproxime-se... mais perto, quero
  falar-lhe ao ouvido.

Separou o brao da
  matrona e f-la sentar na cadeira ao p da cama. Ia falar quando viu as duas
  velhas de p junto dela, com o corpo inclinado na atitude de mulheres que
  escutam com todos os ouvidos.

-- Mande-as sair -- disse a
  moribunda com voz fraca.

As duas velhas comearam
  a lamentar que a pobre doente j no conhecesse as suas melhores amigas e a
  protestar que no a abandonariam; mas a matrona f-las sair, fechou a porta e
  voltou para junto da cama.

Apenas se viram fora do
  quarto, as duas velhas mudaram o tom e gritaram pelo buraco da fechadura que a
  velha Sally estava bbada; o que na realidade no era impossvel; porque, alm
  de uma fraca dose de pio, receitado pelo boticrio, ela tinha de lutar contra
  os efeitos de um grog, que as velhas, por bondade
  d'alma, e de autoridade prpria, pespegaram-lhe no bucho.

-- Agora oua -- disse a
  moribunda.

A velha fez um grande
  esforo.

-- Neste mesmo quarto --
  disse ela --, nesta mesma cama... velei outrora por uma bela moa, que fora
  trazia ao asilo com os ps dilacerados pela fadiga de uma longa caminhada e
  toda manchada de sangue e coberta de poeira... Ela deu  luz uma criana e
  correu. Deixe-me ver se me lembro em que ano foi...

-- Pouco importa o ano --
  disse a impaciente matrona. -- Que me quer dizer?

-- Ah! Sim -- murmurou a
  doente caindo na sua sonolncia. -- Eu queria
  dizer... Ah! Lembra-me!

E levantou-se
  convulsivamente. Tinha o rosto animado e os olhos pareciam sair das rbitas.

-- Roubei-a! Sim!
  Roubei-a! Ela ainda no estava fria. No, no estava fria, quando eu a roubei.

-- Roubou o qu? Fale,
  pelo amor de Deus -- disse a matrona, fazendo um gesto como para chamar socorro.

-- A nica coisa -- disse a
  moribunda --, a nica coisa que ela possua. No tinha roupa contra o frio, nem
  po para comer; e conservava aquilo sobre o corao; era ouro, ouro verdadeiro,
  que podia ter-lhe salvado a vida dando-lhe com que comer.

-- Ouro! -- repetiu a matrona,
  inclinando-se vivamente para a moribunda que cara no leito... -- Continue...
  continue... E depois? Quem era essa moa? Quando foi isso?

-- Ela tinha pedido que eu
  lhe guardasse aquilo precisamente -- continuou a velha em tom lamentoso. --
  Confiara a mim porque no tinha mais ningum ao p de si. Mas eu j o tinha
  roubado na inteno, desde que o vi no pescoo dela. E da morte da criana,..
  Fui eu talvez a causa. Trat-lo-iam melhor se soubessem de tudo.

-- Soubessem o qu? Fala!

-- O menino era to
  parecido com a me -- continuou a moribunda sem fazer caso da pergunta -- que eu
  no podia olhar para ele sem pensar na pobre me! Pobre mulher! To meiga! To
  moa! Espere, ainda no acabei. No  verdade que eu ainda no acabei?

-- No -- disse a matrona,
  prestando ouvidos para apanhar todas as palavras da doente. -- Anda depressa ou
  no poders falar mais.

-- A me -- disse a mulher,
  fazendo um esforo mais violento que os outros --, a me, quando sentiu que ia
  morrer, me disse ao ouvido que, se o filho vivesse, se o pudessem educar, viria
  um dia, em que ele poderia ouvir sem corar o nome de sua pobre me. "Oh! meu
  Deus!" dizia ela pondo as mos, "dai-lhe alguns amigos neste mundo de misria e
  tende compaixo de uma criana que no tem ningum por si!"

-- O nome do menino? --
  perguntou a matrona.

-- O nome era Oliver... --
  respondeu a moribunda. -- O ouro que eu roubei era...

-- Sim, sim, o que era?

A matrona inclinou-se
  para a moribunda a fim de ouvir a resposta, mas recuou logo instintivamente
  vendo-a levantar-se ainda uma vez, lentamente, e apertar com as mos o
  cobertor, murmurar alguns sons inarticulados e cair morta na cama.

.................................................................................................................................................................................

-- Morta! -- disse uma das
  velhas precipitando-se no quarto desde que a porta foi aberta.

-- E tudo isto para no
  dizer nada -- disse a matrona, afastando-se.

As duas feiticeiras estavam
  provavelmente muito ocupadas com os seus deveres e ficaram ss ao p do
  cadver.

  CAPTULO XXV
  ENCONTRAMOS OUTRA VEZ FAGIN E A SUA TROA.

  Enquanto estes
    acontecimentos se passavam no asilo de mendicidade, o Sr. Fagin estava no seu
    covil (o mesmo onde Nancy fora buscar Oliver).

  Estava sentado diante da
    lareira e tinha nos joelhos um fole com o qual se servira naturalmente para
    ativar o fogo; mas cara em um profundo devaneio e parecia distrado.

  Atrs dele, o Matreiro, o
    mestre Carlinhos Bates e o Sr. Chitling, sentados diante de uma mesa, jogavam
    atentamente o whist; o Matreiro fazia o morto contra o
    Sr. Bates e o Sr. Chitling.

  A sua fisionomia, sempre
    inteligente, estava mais interessante que nunca, por causa da ateno que ele
    dava ao jogo e do cuidado de regular o seu jogo pelas observaes que fazia.

  Como estivesse frio, o
    Matreiro conservou o chapu na cabea, costume que, alis, era-lhe familiar;
    tinha na boca um cachimbo de barro, que tirava quando bebia um trago de gim
    misturado com gua, lquido posto num canjiro e no meio da mesa para refrescar
    a sociedade.

  Tambm o Carlinhos estava
    muito atento ao jogo, mas, como ele era mais agitado que o seu amigo, recorria mais
    vezes ao canjiro e soltava de quando em quando uma graola, indigna de um
    jogador de whist que se respeite.

  Prevalecendo-se da estreita
    amizade que os ligava, o Matreiro tomava a liberdade de repreender o amigo a
    este respeito; repreenso que mestre Bates ouvia com a melhor cara deste mundo,
    limitando-se a dizer que o seu amigo fosse bugiar ou pentear monos.

  O cabimento destas e outras
    respostas espirituosas excitava vivamente a admirao do Sr. Chitling.

  E de notar que este e seu
    parceiro perdiam invariavelmente; esta circunstncia, longe de fazer zangar o
    mestre Bates, parecia diverti-lo muito; no fim de cada partida ria mais forte
    que de costume e declarou que nunca jogara com tanto prazer.

  -- Perdemos a partida dupla --
    disse o Sr. Chitling um tanto enfiado e tirando do bolso do colete uma meia
    coroa. -- Nunca vi fortuna como atua de hoje, Jack: ganhas sempre; qualquer que
    sejam as minhas cartas e as de Carlinhos, ganhas sempre.

  Esta observao, ou talvez
    o tom em que foi feita, excitou o entusiasmo de Carlinhos Bates, que entrou a
    rir s gargalhadas, a ponto de despertar o judeu, que perguntou o que havia.

  -- Ah! Fagin! -- disse o
    Carlinhos. -- Se voc visse a partida! Tom Chitling no fez um ponto e eu era
    seu parceiro contra o Matreiro e o morto.

  -- Ah! Ah!
    -- disse o judeu, com um sorriso que mostrava conhecer a razo daquilo. --
    Meta-se com eles, Chitling, meta-se com eles!

  -- Basta -- respondeu Chitling. -- J perdi
    bastante. O Matreiro tem uma veia diablica.

  -- Ah! Ah! -- disse o judeu.
    --  preciso acordar muito cedo para ganhar ao Matreiro.

  -- Cedo! -- disse Carlinhos
    Bates. --  preciso calar as botas na vspera, pr um telescpio em cada olho,
    para ganhar ao Matreiro.

  O Matreiro recebeu estes
    cumprimentos com muita modstia e ofereceu-se para tirar do baralho de cartas a
    figura que se lhe pedisse, a um xelim por cada vez.

  Como ningum lhe
    aceitasse o desafio, e o cachimbo estava acabado, o Matreiro divertiu-se em
    desenhar na mesa um plano da priso de Newgate com um pedao de giz com que se
    servira para marcar os pontos; e, desenhando, assobiava como uma cobra.

  -- Tu s aborrecido como a
    chuva, Tom -- disse ele, dirigindo-se ao Sr. Chitling. -- Sabes em que pensa ele,
    Fagin?

  -- Como hei de sab-lo? --
    respondeu o judeu, pondo de lado o fole. -- Pensa no que perdeu, talvez, ou na
    chcara donde h pouco saiu. Ah! Ah! Ser isso?

  -- Qual! -- disse o
    Matreiro sem deixar que o Sr. Chitling respondesse. -- E tu, que dizes,
    Carlinhos?

  -- Eu digo -- respondeu mestre Bates rindo -- que ele and simplesmente
    terno com Betsy; olhem como ficou vermelho! Pois ser possvel! Tom Chitling
    apaixonado! Fagin! Fagin! Veja!

  Sufocado  fora de rir,
    o Sr. Carlinhos Bates caiu da cadeira abaixo sem que o acidente lhe
    interrompesse o riso. Quando se levantou ria como um doido.

  -- No faas caso do que
    eles dizem -- observou o judeu, deitando um olhar no Matreiro e batendo com o
    foles, no jovem Bates -- Betsy  uma rapariga bonita; namora, Tom, namora.

  -- S uma coisa direi, Fagin
    -- disse o Sr. Chitling, corando. --  que isso no  da conta de ningum.

  -- Est claro -- disse o
    judeu --, o Carlinhos  um tagarela, no te importes com o que ele diz; Betsy 
    uma rapariga bonita; faze o que ela te disser e sers feliz.

  -- A prova de que eu fao
    tudo o que ela quer -- respondeu o Sr.Chitling --  que foi por obedecer aos seus
    conselhos que eu me deixei filar; e bom negcio foi para voc, Fagin. E,
    demais, que so seis semanas na cadeia? L havemos de ir mais tarde ou mais
    cedo; melhor  que seja no inverno, quando voc tem menos ocasio de sair a
    passeio.

  -- Sem dvida -- disse o
    judeu.

  -- E no te importars se
    l fores outra vez, no  -- perguntou o Matreiro fazendo um sinal ao judeu e ao
    Carlinhos --, contanto que estejas s boas com Betsy?

  -- Sim, pouco me importar
    isso -- respondeu Tom encolerizado. -- Eu quisera saber quem  que pode dizer o
    mesmo.

  -- Ningum, meu caro --
    respondeu o judeu --, nenhum deles  capaz; tu s o nico.

  -- No  verdade que se eu
    quisesse falar dela sairia bem do negcio-- continuou o pobre joguete. -- Bastava
    dizer uma sua palavra, no , Fagin?

  -- , , meu caro -- disse
    o judeu.

  -- Mas eu no disse
    palavra, no , Fagin? -- perguntou Tom, acumulando pergunta sobre pergunta.

  -- No, no, tu tens alma
    para fazer essas coisas; tens alma demais.

  -- Talvez -- disse Tom olhando  roda de si -- e, se eu tenho alma para
    isso, no sei por que se h de rir de mim, no acha, Fagin?

  O judeu, reparando que o mostarda
    ia subindo ao nariz de Chitling, apressou-se a afirmar que ningum estava
    caoando com ele, e como prova disso apelava para o testemunho de mestre Bates,
    o principal agressor; mas desgraadamente, no momento em que Carlinhos abria a
    boca para declarar que nunca estivera disposto a rir de Chitling, foi acometido
    de um frouxo de riso, por modo que Chitling, julgando-se injuriado, abotoou sem cerimnia nenhuma o alegre rapaz e
    pespegou-lhe um soco, que este teve o talento de evitar, indo o soco parar em
    cheio no peito do velho judeu, que foi parar  parede, onde ficou algum tempo a
    tomar flego, enquanto Chitling aparentava a cara mais triste deste mundo.

  -- Ateno! -- disse de
    repente o Matreiro. -- Ouvi o guiso.

  Pegou na vela e subiu
    vagarosamente a escada. A campainha foi agitada outra vez por uma mo
    impaciente. Da a pouco o Matreiro entrou e, com ar misterioso, disse algumas
    palavras ao ouvido do judeu.

  -- Como! -- exclamou Fagin. -- Vem s?

  O Matreiro fez sinal que
    sim e, pondo a mo diante da vela, avisou a Carlinhos Bates que era tempo de
    pr termo s suas gargalhadas.

  Depois de executar este
    dever de amigo, cravou os olhos no judeu e esperou as suas ordens.

  O velho ficou alguns
    instantes a morder os dentes com ar pensativo. A agitao do rosto anunciava
    que ele temia alguma notcia m.

  Enfim, levantou a cabea.

  -- Onde est ele? --
    perguntou.

  O Matreiro levantou o
    dedo para o teto e tratou de afastar-se.

  -- Sim -- disse o judeu,
    como respondendo a uma pergunta subentendida. -- Manda-o c para baixo.
    Silncio! Carlinhos, Chitling, saiam devagarinho.

  O Carlinhos Bates e o seu
    recente antagonista obedeceram imediatamente  intimao. Tudo estava
    silencioso quando o Matreiro desceu a escada com uma vela na mo, acompanhado
    por um homem vestido de blusa, que, depois de lanar um olhar assustado  roda
    do quarto, tirou uma grande gravata que lhe escondia a parte superior da cara e
    mostrou as feies do flamejante Tobias Crackit, mas
    plido, desfigurado, barba comprida e cabelos em desordem.

  -- Como ests, Fagin? --
    disse o formoso Tobias, fazendo um sinal de cabea ao judeu. -- Olha, Matreiro,
    mete esta manta dentro do meu chapu, a fim de que eu saiba onde est quando me
    for embora. Bem! Tu hs de ser um mestre da arte, hs de meter num chinelo
    todos os mestres.

  Falando assim, levantou a
    blusa, meteu as mos na algibeira, aproximou uma cadeira do fogo e ps os ps
    na grade para aquecer-se.

  -- Veja l, Fagin -- disse ele, mostrando tristemente as botas --, nem
    uma gota de graxa desde... voc sabe quando... Mas no me olhe assim, tudo vir
    a seu tempo; no posso falar do negcio sem ter bebido e comido. D-me alguma
    coisa.

  O judeu fez sinal ao
    Matreiro para que pusesse alguns vveres na mesa; depois, sentando-se diante do
    ladro, esperou que este comeasse a conversa.

  Julgando pelas
    aparncias, Tobias no estava disposto a come-la. O judeu contentou-se com observar
    pacientemente a sua fisionomia, na esperana de descobrir nela alguma notcia;
    foi em vo.

  Tobias parecia estar
    fatigado, mas o rosto estava to calmo como era de costume e, apesar da
    desordem do vesturio, parecia estar contente. O judeu ardia por saber alguma
    coisa e passeava de um lado para outro; mas Tobias continuava a comer sem lhe
    prestar ateno.

  Quando acabou, fez sair o
    Matreiro, fechou a porta, deitou um pouco de grog e
    tratou de comear a narrao.

  -- Comeando pelo
    princpio -- disse ele.

  -- Sim, sim -- interrompeu
    o judeu, sentando-se perto dele.

  O Sr. Crackit fez uma
    pausa, bebeu o grog e declarou que o gin era
    excelente; depois, pondo os ps na chamin, de maneira que as botas ficassem ao
    nvel dos os olhos, disse tranqilamente:

  -- Comeando pelo
    princpio, como est Guilherme?

  -- O qu? -- disse o judeu,
    dando um pulo da cadeira.

  -- No tem ento notcias
    dele? -- disse Tobias, empalidecendo.

  -- Notcias! -- disse o
    judeu batendo o p no cho com furor... -- Onde
    esto eles? Sikes e o menino? Por que no vieram? Onde esto? Que  feito
    deles?

  -- O negcio falhou --
    disse timidamente Tobias.

  -- Bem sei -- respondeu o
    judeu, tirando um jornal do bolso. -- E depois?

  -- Fizeram fogo e feriram
    o pequeno; fugimos pelo campo afora, indo o pequeno conosco... vnhamos pulando
    cercas e valados. Corriam atrs de ns. Misericrdia! Toda a gente do lugar
    estava fora, e os ces ladravam em busca dos fugitivos.

  -- E o pequeno? -- disse o
    judeu com voz abafada.

  -- Guilherme p-lo s
    costas, e voava como o vento. Paramos para pr o pequeno entre ns; tinha a
    cabea pendente a um lado e estava gelado. Os nossos perseguidores estavam
    perto de ns. Cada qual por si, quando se trata da fora; fugimos e deixamos o
    pequeno num fosso; se morto ou vivo, no sei.

  O judeu no ouviu mais
    nem uma palavra; soltou urro tremendo, puxou pelos cabelos e de um salto estava
    na rua.

  CAPTULO
    XXVI
  ENTRA EM CENA UM PERSONAGEM MISTERIOSO IMPORTANTES PORMENORES
    ESTREITAMENTE LIGADOS COM ESTA HISTRIA.

  O amvel ancio chegou 
    esquina da rua antes que lhe houvesse passado a comoo produzida pelas
    notcias trazidas por Tobias Crackit.

  No s deixara de demorar o
    passo ordinrio, como at o apressara mais que de costume, com ar de homem
    assustado e dominado por violenta agitao; um carro que vinha a galope quase o
    derrubou, e os gritos da gente que passava,  vista do perigo que ele corria,
    fizeram com que ele passasse  calada.

  Depois de ter evitado
    quanto possvel as grandes ruas, e caminhando por vielas e passagens obscuras,
    chegou a Snow-Hill.

  A entrou a caminhar ainda
    mais depressa que dantes e no afrouxou o passo seno depois que entrou em uma
    passagem, onde, como se enfim estivesse no seu elemento, readquiriu o seu passo
    ordinrio e pareceu respirar mais livremente.

  No ponto de juno entre
    Snow-Hill e Holborn Hill,  mo direita saindo da City, h uma passagem
    estreita e suja que vai ter a Saffron Hill.

  Ali, em miserveis
    casinholas, pode-se ver enormes montes de lenos de todas as cores e tamanhos. Moram
    ali os sujeitos que os compram aos ratoneiros. Centenas desses lenos ali esto
    s janelas e portas; no interior esto em pilhas. Essa passagem, ou antes essa
    colnia comercial, tem uma existncia que lhe  prpria, o seu barbeiro, o seu
    botequim, a sua taverna. Para todos os larpios de baixa escala,  um
    verdadeiro mercado, visitado de manh, ou  noite, por mercadores silenciosos,
    que tratam os seus negcios em obscuros recantos e vo embora, como vieram, s
    escondidas.

  Nessa passagem entrara o judeu;
    ele era conhecido da imunda gente do lugar, porque todos os que estavam 
    porta, vendedores ou mercadores, o cumprimentaram familiarmente com um sinal de
    cabea quando ele passou. Respondeu ele do mesmo modo, mas no parou seno no
    fim, para dirigir a palavra a um sujeito de baixa estatura, que estava sentado
    como podia em uma cadeira de criana e fumava um cachimbo diante da sua loja.

  -- Na verdade, Sr. Fagin,
    basta v-lo para sarar da oftalmia -- respondeu o respeitvel negociante ao
    judeu, que lhe pedia notcias da sade.

  --A vizinhana estava um pouco quente -- disse Fagin, levantando as sobrancelhas e cruzando os
    braos.

  --  verdade! Tenho ouvido
    muita gente queixar-se -- respondeu o sujeito --, mas isto h de refrescar, no
    lhe parece?

  Fagin fez um sinal de
    cabea e, estendendo a mo na direo de Saffron Hill, disse:

  -- H algum l hoje?

  -- Nos Trs-Coxos?

  O judeu fez um sinal
    afirmativo.

  -- Ora, espere -- continuou
    o mercador procurando lembrar-se. -- Esto l
    uns seis, creio eu, e no penso que o seu amigo tambm esteja.

  -- Sikes estar? --
    perguntou o judeu.

  --Non
    est ventus, no veio, como dizem os homens da lei --
    respondeu o sujeito, sacudindo a cabea e com ar singularmente velhaco. -- Tem
    alguma hoje que me sirva?

  -- No -- respondeu o
    judeu, afastando-se.

  -- Vai aos Trs-Coxos? --
    disse o homem. -- Espere, tenho vontade de ir com o senhor.

  O judeu voltou a cara e
    fez um gesto de quem desejava ir s; e demais, como o sujeito no podia facilmente
    sair da cadeira, a tabuleta dos Trs-Coxos ficou dessa vez privada da presena
    do Sr. Lively; enquanto ele se levantou, o judeu havia desaparecido.

  O Sr. Lively, depois de
    se ter levantado inutilmente na ponta dos ps, tornou a sentar-se na cadeira e,
    aps trocar com uma dama que morava na loja fronteira um olhar de dvida e
    desconfiana, tornou a pr o cachimbo na boca.

  Os Trs-Coxos, ou antes
    os Coxos, tabuleta bem conhecida de todos os freqentadores do lugar, era
    aquela mesma taverna em que j figuraram o Sr. Sikes e o seu co. Fagin fez um
    sinal rpido a um homem sentado no balco, subiu a escada, abriu uma porta,
    entrou na sala e deitou um olhar inquieto  roda de si pondo a mo por cima dos
    olhos, como se procurasse algum.

  A sala era iluminada por
    dois bicos de gs, cuja luz no se podia ver de fora, graas s portas fechadas
    e cortinas cuidadosamente corridas s janelas.

  A sala estava cheia de
    uma nuvem de tabaco to espesso que, ao entrar, quase se no podia distinguir
    nada. Quando a porta se abria e saa um pouco de fumaa, podia ver-se uma
    extravagante reunio de cabeas, to confusa como o som que chegava aos
    ouvidos.

  Pouco a pouco, iam-se os
    olhos acostumando quele espetculo e acabavam distinguindo uma numerosa sociedade
    de homens e mulheres, aglomerados  roda de uma grande mesa, em cuja
    extremidade estava o presidente, com um martelo na mo, insgnia de suas
    funes.

  Num canto, defronte a um
    piano, estava uma espcie de artista, de nariz vermelho, com o rosto todo
    coberto por causa do defluxo.

  Na ocasio em que Fagin
    entrava na sala, o artista, passando os dedos pelo teclado a modo de preldio,
    deu lugar a um rumor geral. Todos pediam uma cano; quando o barulho cessou,
    uma rapariga veio divertir o pblico cantando uma balada em quatro coplas, entre as quais o acompanhador repetia o estribilho com toda a fora.

  Quando isto acabou, o
    presidente fez um sinal de aprovao; depois os artistas, colocados  direita e
     esquerda, comearam um dueto que foi aplaudido por toda a reunio.

  Era curioso observar
    algumas das caras daquele grupo.

  O presidente, que era o
    dono da locanda, era
    sujeito de formas atlticas, que acompanhava o canto com um movimento de
    tijolos em todos os sentidos, e, parecendo estar enlevado na msica, vigiava
    tudo o que se passava  roda dele e prestava ouvidos ao que se dizia. Tinha
    ouvido fino e olhar sagaz.

  Ao p dele estavam os
    cantores, recebendo com indiferena os elogios e bebendo uma dzia de grogs que os seus admiradores mais veementes lhes iam
    passando.

  As outras caras tinham o
    cunho dos mais abjetos vcios e chamavam a ateno  fora de serem repelentes.

  A astcia, a ferocidade,
    a embriaguez em todos os sentidos, ali se mostravam em seu mais hediondo aspecto.
    Mulheres, moas na flor da idade, mas j secas pelo vcio, manchadas de crimes
    e devassides, formavam a parte mais triste e sombria do quadro.

  Fagin, a quem nada disto
    admirava nem comovia, passava todas as caras em revista, sem achar a que procurava.
    Atraiu a ateno do sujeito que presidia, fez-lhe um sinal com a mo e saiu da
    sala devagar corno entrara.

  O homem foi atrs dele.

  -- Que quer, Sr. Fagin? --
    perguntou o homem. -- No quer ficar em nossa companhia?

  O judeu sacudiu a cabea
    com ar de impacincia e disse em voz baixa:

  -- Ele est c?

  -- No.

  -- E no h notcias de
    Barney?

  -- Nenhuma -- respondeu o
    dono da taverna dos Trs-Coxos. -- Ele no dar sinal de si, seno depois que
    tudo estiver calmo. Andam em busca dele, e se ele aparecesse seria logo
    engaiolado. Barney est livre; se assim no fosse, j eu teria ouvido falar
    dele; sou capaz de jur-lo.

  -- Vir ele esta noite? --
    perguntou o judeu, insistindo particularmente na palavra dele.

  -- Monks? -- perguntou o
    homem.

  -- Caluda! -- disse o judeu. -- Ele mesmo, sim.

  -- Sem dvida -- respondeu
    o homem, tirando do bolso um relgio de ouro. -- Eu at pensava que viria mais
    cedo; se quiser esperar dez minutos, ele c estar...

  -- No, no -- disse o judeu,
    como se, apesar do seu desejo de ver a pessoa em questo, sentisse algum alvio
    em no encontr-la. -- Diga-lhe que o vim ver e que ele v hoje  minha casa.
    No, amanh  melhor.

  -- Bem; isso s?

  -- S, por enquanto.

  E o judeu desceu a
    escada.

  --  verdade -- disse o
    outro em voz baixa e inclinando a cabea --, que boa ocasio para essa venda!
    Philipe Barker est c e to bbado que uma criana pode com ele...

  -- Ah! Ah! -- disse o
    judeu. Mas no  ocasio de acabar com ele agora, deve fazer ainda alguma coisa
    antes que lhe tiremos as contas a limpo; v ter com os seus amigos e diga-lhes
    que se alegrem enquanto esto neste mundo.

  O judeu soltou uma
    risada, e o dono da taverna o imitou, e foi ter com os seus amigos.

  Fagin apenas ficou s
    readquiriu a fisionomia inquieta e agitada. Depois de um instante de reflexo,
    meteu-se num cabriol  mandou tocar para o lado de Bethnal Green.

  Desceu a um quarto de
    milha da casa do Sr. Sikes e fez a p o resto do trajeto.

  -- Agora -- murmurou ele,
    batendo na porta --, agora ns, minha filha, e se c se trama alguma conspirao
    tenebrosa, saberei obrigar-te a falar.

  Disseram a Fagin que
    Nancy estava no seu quarto; o judeu subiu a escada e entrou sem falar; a
    rapariga estava s, com a cabea apoiada na mesa e os cabelos esparsos.

  -- Est bbada ou triste --
    disse o judeu.

  Fazendo esta reflexo,
    voltou-se o judeu para fechar a porta, e esse rumor despertou a moa. Esta
    olhou para ele, perguntou-lhe se havia novidade e ouviu a narrao que ele lhe
    fez das aventuras de Tobias Crackit; quando ele acabou, Nancy voltou  sua
    primeira posio e no deu palavra.

  Durante esse silncio, o
    judeu olhava  roda do quarto, como para assegurar-se de que Sikes no voltaria
    s escondidas.

  Satisfeito do exame, tossiu
    duas ou trs vezes e procurou comear a conversao; mas Nancy no lhe prestou
    ateno nenhuma.

  Era como se ele ali no
    estivesse.

  Fagin tentou um ltimo
    esforo.

  Esfregou as mos e disse
    em tom ameno:

  -- Onde crs tu que esteja
    o Guilherme a esta hora?

  A moa murmurou em voz
    lamentosa e quase ininteligvel que no sabia; parecia soluar.

  -- E o menino? -- Disse o
    judeu, fixando os olhos nela como para lhe ler no rosto. -- Coitadinho!
    Abandonado num fosso! Nancy, que dizes disto?

  -- O menino! -- disse ela,
    levantando vivamente a cabea. -- Esse est melhor onde est do que entre ns; e
    contanto que Guilherme escape  polcia, desejo que o menino l tenha morrido
    no fosso, e ali alvejem os seus pobres ossos.

  -- Que dizes?

  -- Digo isto mesmo -- repetiu
    a moa, olhando fixamente para o judeu. Estimo que o no veja mais -- e que as
    suas provanas neste mundo estejam acabadas. No posso v-lo entre ns; quando
    o vejo fico com dio de mim e de todos vocs.

  -- Ests bbada!

  -- Eu! -- disse ela com amargura.
    -- No  culpa sua, se o no estou; sua vontade  que eu sempre estivesse bria,
    exceto talvez agora. Parece que lhe no agrada muito este meu ar de hoje?

  -- No, nada.

  -- Pois que lhe hei de eu
    fazer? -- disse ela rindo.

  -- Que lhe h de fazer? --
    disse o judeu exasperado, com a obstinao da moa. -- Vais sab-lo. Ouve-me
    bem, a mim que em trs palavras posso fazer estrangular Sikes com tanta certeza
    como se tivesse agora entre as minhas mos o seu pescoo de touro. Se ele vier
    e no trouxer o pequeno, se o deixou escapar se o no trouxer morto ou vivo,
    assassina-o tu mesma, se queres que ele escape  forca, e isso apenas ele aqui
    entrar; do contrrio ser tarde!

  -- Que quer dizer isso?
    disse Nancy.

  -- O que quer dizer? -- continuou
    Fagin, encolerizado. -- Ouve. Quando essa
    criana pode valer-me centenas de libras esterlinas, devo eu perder uma ocasio
    de felicidade, um proveito seguro, por culpa de um punhado de bbados a quem
    podia cortar o gasnete, e pr-me  merc de um bandido a quem s falta a vontade.., mas que tem poder
    de... de...

  O velho estava ofegante e
    balbuciava.

  De repente cessou o
    acesso de clera; o seu aspecto mudou completamente.

  Pouco antes torcia as
    mos, respirava a custo, tinha os olhos desvairados, o rosto plido, e j agora
    se deixava cair em uma cadeira, tremendo com a idia de se haver trado.

  Depois de um curto
    silncio, arriscou-se a deitar um olhar sobre a sua companheira e pareceu um
    pouco mais tranqilo, quando a viu na posio em que a viera achar.

  -- Nancy, meu anjinho --
    disse ele. -- Deste ateno ao que eu disse?

  -- No me fatigue, Fagin --
    respondeu a rapariga levantando a cabea. -- Se Guilherme no obtiver nada desta
    vez, alcanar tudo em outra ocasio; tem feito bons servios, e ainda os far
    quando puder. Ningum  obrigado a fazer o impossvel; assim, pois, no fale
    mais.

  -- E aquele menino?

  -- O menino deve correr os
    mesmos riscos que os outros -- disse
    Nancy. -- Eu espero que esteja morto ou ao abrigo de todos os males... Contanto
    que nada acontea a Guilherme! Mas visto que Tobias est salvo, tambm ele h
    de estar. Ele vale por dois Tobias.

  -- E aquilo que eu dizia
    ainda agora? -- perguntou o judeu, cravando na rapariga o seu olhar penetrante.

  -- Se  alguma coisa que
    eu devo fazer -- disse ela -- ento repita; que eu no ouvi nada; e ainda assim,
    h de esperar at amanh, porque eu estou estpida.

  Fagin fez ainda outra
    pergunta para ter certeza de que ela no se ia aproveitar de suas imprudentes
    insinuaes.

  Mas Nancy respondeu com
    tanta naturalidade e suportou to impassivelmente os seus olhos que o judeu
    voltou  sua primeira opinio e disse consigo que Nancy estava embriagada.

  Nancy no era isenta
    desse defeito, assaz comum entre os discpulos de Fagin.

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  CAPTULO XXVII
  PARA REPARAR UMA DESCORTESIA DE OUTRO CAPTULO EM QUE SE ABANDONOU
    SEM MAIS CERIMNIA UMA SENHORA.

  No sendo por nenhum modo
    conveniente a um humilde autor fazer esperar um personagem to importante como
     um bedel, com as costas voltadas  lareira e as abas da casaca nos braos, e
    sendo assaz descorts e indigno da polidez de um escritor tratar com a mesma
    negligncia uma dama a quem o dito bedel deitou um olhar afetuoso e terno, e a
    cujos ouvidos murmurou doces expresses que, vindas de semelhante personagem,
    deviam comover agradavelmente o corao de uma senhora de qualquer condio que
    fosse, o historiador consciencioso que estas linhas escreve, fiel aos seus
    sentimentos de respeito e de venerao para com aqueles que exercem neste mundo
    uma grande e importante autoridade, vem fazer completa confisso do erro,
    prestar-lhes a homenagem que a posio dessas pessoas reclama e trat-las com
    todos os respeitos que a sua elevadssima posio e grandes qualidades pessoais
    esto a exigir.

  Para isto era inteno do
    autor fazer aqui uma dissertao a respeito do direito divino dos bedis e
    demonstrar que um bedel nunca pode fazer mal, tudo isto para recreio e
    utilidade do leitor consciencioso; mas infelizmente, por falta de tempo e de
    lugar, o autor  obrigado a adiar este projeto para melhor ocasio.

  Quando essa ocasio
    aparecer, o autor demonstrar que um bedel, na plenitude de suas funes, isto
     um bedel paroquial, empregado num asilo de mendicidade paroquial e numa
    igreja paroquial, possui todas as qualidades, ou antes todas as perfeies da
    natureza humana, e que os bedis empregados nas administraes, nos tribunais e
    outros esto a cem lguas dessas perfeies.

  O Sr. Bumble tinha contado
    e recontado as colheres de ch, pesado e repesado a pina de acar, examinado
    escrupulosamente a leiteira e procedido  inspeo minuciosa da moblia, ao a
    ponto de examinar de que eram estofadas as cadeiras.

  Renovara esse exame cinco
    ou seis vezes antes de pensar que a Sra. Corney devia voltar.

  Uma idia traz outra; e,
    como nenhum rumor indicava a volta da Sra. Corney, o Sr. Bumble imaginou que
    no podia melhor passar o tempo do que satisfazer completamente a sua
    curiosidade e lanar um olhar ao contedo da cmoda da Sra. Corney.

  Aproximou o ouvido do
    buraco da fechadura para ter a certeza de que ningum vinha e comeou a visita
    de trs grandes gavetas, cheias de roupa em bom estado, cuidadosamente cobertas
    de uma camada de jornais.

  Vendo isto, o Sr. Bumble
    pareceu contentssimo.

  No curso de suas
    indagaes, chegou  gaveta de cima,  mo direita, onde estava a chave, e viu
    uma caixinha fechada; sacudiu-a e ouviu um som metlico assaz agradvel; feito
    isto, o Sr. Bumble voltou para a lareira, sentou-se e disse com ar grave e
    resoluto:

  -- Minha resoluo est
    tomada!

  Depois desta notvel
    exclamao, entrou a balanar a cabea como um homem contente de si e a
    contemplar as pernas, de perfil, com ar extremamente alegre.

  Ainda ele se estava a
    admirar, quando a Sra. Corney entrou precipitadamente no quarto e caiu em uma
    cadeira perto da lareira, ps uma mo nos olhos e a outra no corao, como uma
    mulher que estava sufocada.

  -- Que tem? -- perguntou o
    Sr. Bumble, inclinando-se para a matrona. -- Aconteceu-lhe alguma coisa?
    Responda-me; veja que estou sobre... sobre... sobre...

  Na sua perturbao, o Sr.
    Bumble, no se lembrou da palavra "brasas" e disse:

  -- Estou sobre garrafas
    quebradas.

  -- Oh! Sr. Bumble -- disse
    a dama --, fiquei pasmada!

  -- Pasmada! -- exclamou o
    Sr. Bumble. -- Quem ousaria, quem teria a audcia... Compreendo! Foram essas
    endiabradas mendigas.

  -- Faz horror pensar
    nisso! -- disse a dama.

  -- Pois no pense mais.

  -- No posso deixar de
    pensar -- disse a dama choramingando.

  -- Nesse caso tome alguma coisa
    -- disse o Sr. Bumble com a sua voz mais doce. -- Um pouco de vinho?

  -- Isso nunca! Nunca! --
    respondeu a Sra. Corney. -- Impossvel... Oh! Na prateleira de cima.

  Ao mesmo tempo a boa
    senhora apontava para o armrio e caa em espasmos.

  O Sr. Bumble correu ao
    armrio, tirou uma garrafa verde da prateleira indicada, encheu uma xcara com
    o contedo da garrafa e levou-a aos lbios da matrona.

  -- Estou melhor -- disse a
    Sra. Corney, tornando a cair na cadeira, depois de ter bebido metade da xcara.

  O Sr. Bumble levantou os
    olhos para o teto em sinal de ao de graas, olhou depois para a xcara e
    cheirou o licor.

  -- Prove -- disse a Sra.
    Corney.

  O Sr. Bumble provou o
    licor com ar indeciso, deu um estalo com a lngua, tornou a provar e esgotou a
    xcara.

  -- Conforta muito -- disse
    a matrona.

  -- Muito, na verdade --
    disse o bedel --, aproximando a sua cadeira da cadeira da matrona.

  Depois perguntou com voz
    terna se alguma coisa lhe havia acontecido.

  -- Nada -- respondeu a Sra. Corney. --  que eu sou uma criatura to
    imprevisvel, to insensvel, to fraca!

  -- Oh! No, fraca no! --
    disse o Sr. Bumble, aproximando a sua cadeira. -- Pois a senhora ser fraca
    criatura, Sra. Corney?

  -- Todos ns somos fracas criaturas
    -- disse a Sra. Corney, emitindo um principio geral.

  -- Tens razo -- disse o
    bedel.

  Durante um ou dois
    minutos houve silncio de parte a parte, e ao cabo desse tempo o Sr. Bumble deu
    razo ao princpio mudando o brao esquerdo das costas da cadeira para a
    cintura da matrona.

  -- Somos todos fracas
    criaturas -- disse o Sr. Bumble.

  A Sra. Corney suspirou.

  -- No suspire -- disse o
    Sr. Bumble.

  -- No posso resistir --
    disse a Sra. Corney, e soltou novo suspiro.

  -- Este quarto  assaz
    confortvel -- disse o Sr. Bumble, olhando  roda de si. -- Se tivesse outro
    quarto ao p seria excelente.

  -- Seria demais para uma
    pessoa -- murmurou a dama.

  -- Sim, mas no para duas
    -- disse o Sr. Bumble com voz terna. -- Que diz?

  A estas palavras a Sra. Corney
    abaixou a cabea e o bedel abaixou tambm a sua para ver a da matrona. Esta,
    com muita presena de esprito desviou a cabea e tirou a mo para procurar o
    leno e depois tornou a p-la na do Sr. Bumble.

  -- A administrao d-lhe o carvo necessrio - disse o Sr. Bumble
    apertando afetuosamente a mo da Sra. Corney.

  -- E velas -- disse a Sra.
    Corney, respondendo levemente ao aperto de mo.

  -- Carvo, velas e casa --
    disse o Sr. Bumble. -- Oh! A senhora  um anjo!

  A dama no pde resistir. Caiu nos braos do bedel, e este deps um
    apaixonado beijo no nariz da matrona.

  -- Que perfeio
    paroquial! Exclamou o Sr. Bumble!

  O Sr. Bumble continuou:

  -- Sabe, minha querida,
    que o Sr, Slout est pior?

  -- Sei -- Respondeu tristemente
    a Sra. Corney.

  -- Pelo que diz o mdico --
    continuou o Sr. Bumble --, espicha a canela nesta semana. Ele est  testa desta
    casa; a sua morte produzir uma vaga e ser necessrio preench-la. Oh! Sra.
    Corney! Que perspectiva! Que ensejo para unir dois coraes e fazer uma s
    famlia!

  A Sra. Corney soluava.

  -- Diga essa doce palavra
    -- continuou o Sr. Bumble inclinando-se para aquela beleza tmida. -- Pronuncie
    essa doce palavrinha, minha bela Corney.

  -- S...i...m... -- suspirou
    a matrona.

  -- Outra vez -- disse o bedel.

  -- Sim...

  -- Outra pergunta -- disse o Sr. Bumble. --
    Vena a sua comoo e responda: quando sero as bodas?

  Duas vezes a Sra. Corney tentou falar e duas
    vezes lhe faltou a voz.

  Afinal, reunindo toda a sua coragem, lanou os
    braos  roda do pescoo do Sr. Bumble, dizendo-lhe:

  -- Quando quiser, porque  impossvel
    resistir-lhe.

  Regulados assim amigavelmente os negcios, e
    para satisfao de ambas as partes contratantes, ratificou-se solenemente a
    conveno esvaziando se uma nova taa de licor, que no podia vir mais a
    propsito no estado de agitao em que se achava a dama.

  A Sra. Corney informou o noivo da morte da
    velha.

  -- Muito bem -- disse o bedel, saboreando o
    lquido --, vou passar por casa de Sowerberry para encomendar o caixo. Foi isso
    que lhe meteu medo, meu amor?

  -- No foi bem isso -- respondeu evasivamente a
    matrona.

  -- Mas alguma foi decerto -- disse o Sr. Bumble
    insistindo. -- No o quer dizer ao seu Bumble?

  -- Agora no -- respondeu ela. -- Um destes
    dias; depois que nos casarmos.

  -- Quando nos casarmos! -- disse o Sr. Bumble.
    -- Dar-se- acaso que algum desses mendigos ousasse...

  -- No, no -- disse a matrona.

  -- Se eu pudesse acreditar nisso -- disse o Sr.
    Bumble --, se eu pudesse supor que um desses miserveis teve a audcia de lanar
    um olhar atrevido para este amvel rosto...

  -- No ousariam isso! -- disse a dama.

  -- E fazem bem -- disse o Sr. Bumble, mostrando
    o punho fechado. --Tomara eu que qualquer indivduo, paroquial ou
    extraparoquial, tivesse semelhante liberdade! Ouso dizer que o no faria
    segunda vez.

  Se estas palavras no fossem acompanhadas de
    gestos violentos, a dama poderia ach-las pouco lisonjeiras; mas, como o Sr. Bumble
    proferia esta ameaa com ar belicoso, ficou vivamente impressionada com tamanha
    prova de dedicao.

  O Sr. Bumble levantou a gola da casaca, ps o
    chapu de trs bicos, deu na sua futura metade um longo e terno beijo e saiu
    para ir afrontar segunda vez o vento glacial da noite. Apenas se demorou alguns instantes na sala dos
    indigentes para os maltratar um pouco, a fim de ver se tinha toda a rudeza
    necessria ao cargo de diretor de um asilo de mendicidade. Convencido de
    possuir essa aptido, o Sr. Bumble saiu do asilo com o corao leve e todo
    ocupado com a brilhante perspectiva de uma promoo prxima; outra idia no
    teve em todo o caminho que ia do asilo  casa do empresrio de enterros.

  O Sr. e a Sra. Sowerberry tinham ido tomar
    ch fora de casa e, como o Sr. No Claypole nunca se agitava mais do que era
    preciso para desempenhar as suas funes digestivas, a loja ainda no estava
    fechada, posto que a hora ordinria de se fechar j houvesse passado.

  O bedel bateu muitas vezes com a bengala no
    balco, mas ningum veio; descobriu uma pequena luz por trs da porta de vidro
    do fundo e resolveu ir ver o que l se passava.

  Quando o viu, ficou admiradssimo.

  A mesa tinha toalha, e sobre a toalha havia
    po, manteiga, pratos, copos, cerveja e vinho.

  Na cabeceira da mesa estava o Sr. No
    Claypole sentado molemente em uma cadeira de braos, com as pernas pendentes em
    um dos braos da cadeira, uma faca na mo e uma longa fatia na outra.

  Ao p dele estava Carlota, ocupada em abrir
    ostras que o Sr. Claypole lhe fazia o obsquio de engolir rapidamente.

  Tinha ele o nariz mais vermelho que de
    costume e um certo piscar dos olhos mostrava que ele estava um pouco alegrete.
    Engoliu as ostras com pressa tal que bem indicava conhecer as suas propriedades
    refrigerantes no caso de inflamao interna.

  -- Olhe, No -- disse Carlota --, esta  boa,
    est gorda. Coma esta; ande.

  -- Deliciosa coisa  a ostra! -- observou o Sr.
    Claypole depois de a ter engolido. --  pena que se no possam comer muitas sem
    fazer mal! No , Carlota?

  --  uma crueldade que no possa ser assim --
    disse Carlota.

  -- Tem razo! -- continuou o Sr. Claypole. --
    No gostas de ostras?

  -- No, muito -- disse Carlota. -- Prefiro
    v-las comer.

  --  singular!

  -- Mais esta -- disse Carlota. -- Olhe como  bonita!

  -- No, senhora -- disse No. --  impossvel e
    tenho pena Carlota, deixas dar-te um beijo!

  -- Que  isto? -- disse o Sr. Bumble entrando
    na saleta. -- Repita isso!

  Carlota soltou um grito e escondeu a cara no avental,
    enquanto o Sr. Claypole, tendo-se posto em p, contemplava o bedel com ar de
    bbado assustado.

  -- Repita isso, miservel, atrevido! -- disse o
    Sr. Bumble. -- Ousas tu dizer semelhante coisa! E tu atreves-te a anim-lo?
    Mulher! Dar-lhe um beijo! Que tal!

  -- Eu no tencionava faz-lo -- disse No, com
    lgrimas nos olhos. --  ela quem quer sempre dar-me um beijo.

  -- Oh! No! -- disse Carlota, em tom de exprobao.

  -- Voc bem sabe que  assim -- disse No --, 
    ela quem me faz sempre muitos afagos, Sr. Bumble.

  -- Silncio! -- disse severamente o bedel. -- V
    para a cozinha, Carlota. E voc, No, feche a loja e no me resmungue. Quando o
    patro entrar, diga lhe que veio c o Sr. Bumble preveni-lo de que amanh de
    manh, depois de almoar, deve mandar um caixo para uma velha, ouviu? Um
    beijo! -- acrescentou ele erguendo as mos. -- A perversidade, a imoralidade das
    classes baixas  horrvel neste distrito paroquial. Se o parlamento no tomar em considerao estes
    horrores, o pas est perdido e os antigos costumes desaparecem.

  Dizendo isto, saiu o bedel com ar sombrio e
    majestoso.

  E agora que o acompanhamos quase at a porta
    e fizemos os preparativos para o enterro da velha, vamos ver o que aconteceu ao
    jovem Oliver Twist e saber se ainda est no fosso onde Tobias Crackit o deixou.

  CAPTULO
    XXVIII
  PROSSEGUEM AS AVENTURAS DE OLIVER.

  -- Que o diabo os leve! -- murmurou Sikes,
    rangendo os dentes. -- Oxal que eu os pudesse ter, uns ou outros; f-los-ia
    gritar ainda mais.

  Proferindo estas imprecaes com todo o furor
    que comportava a sua natureza feroz, ps no joelho o menino ferido e voltou a
    cabea para ver se descobria as pessoas que iam em perseguio dele.

  No era possvel v-los no meio das trevas e
    do nevoeiro; mas de todos os lados soavam gritos de homens, latidos de ces,
    toques de rebate:

  -- Pra, medroso! -- disse o salteador
    apontando a arma contra Tobias Crackit, que, tirando vantagem das longas
    pernas, j estava adiante.

  Tobias parou; no estava fora do alcance da
    pistola, e Sikes no estava em mar de brincar.

  -- Anda dar a mo ao pequeno -- gritou Sikes,
    fazendo um gesto furioso ao seu cmplice --, anda depressa!

  Tobias obedeceu, mas resmungando e sem muita
    pressa.

  -- Mais depressa! -- disse Sikes, pondo o
    menino num fosso sem gua e apontando a pistola. -- No te faas de tolo comigo!

  Nesse momento o rumor era mais forte, e
    Sikes, deitando os olhos  roda de si, pode entrever que os que o perseguiam j
    haviam entrado no campo em que ele se achava, e deitaram dois ces contra ele.

  -- Salve-se quem puder -- disse Tobias. -- Deixa
    a o pequeno e mostra-lhe os calcanhares.

  Ao mesmo tempo o Sr. Crackit, preferindo a
    hiptese de ser morto pelo amigo  certeza de ser apanhado pelos inimigos, voltou
    as costas e disparou pelo campo afora.

  Sikes, rangendo os dentes, lanou um rpido
    olhar  roda de si, atirou sobre Oliver inanimado o pano em que o envolvera,
    correu ao longo da cerca, como para desviar a ateno daqueles que o perseguiam
    do lugar onde jazia a criana, parou um segundo diante de outra cerca, que
    prendia com a primeira em ngulo reto, descarregou a pistola no ar e fugiu.

  -- Ol, ol -- gritou ao longe
    uma voz trmula. -- Netuno! Aqui!

  Os ces, que no pareciam ter mais gosto do que
    os homens nesta cor-rida, obedeceram logo e trs homens pararam para deliberar.

  -- Minha opinio, ou antes a minha ordem --
    disse o mais gordo dos trs --,  que voltemos para casa imediatamente.

  -- Tudo o que convir ao
    Sr. Giles  o que me convm -- respondeu um sujeitinho repolhudo, muito plido e
    tambm muito corts, como so em geral as pessoas medrosas.

  -- No serei to grosseiro que me oponha aos
    senhores -- disse o terceiro, que tinha chamado os ces. -- O Sr. Giles sabe o
    que faz.

  -- Sem dvida -- disse o sujeitinho --, e no
    devemos contradizer o Sr. Giles; no, no; eu, graas a Deus, conheo a minha
    posio.

  A falar verdade, o sujeitinho parecia
    conhecer bem a sua posio e saber perfeitamente que no era invejvel, porque
    o medo fazia com que lhe rangessem os dentes.

  -- Voc est com medo, Brittles -- disse o Sr.
    Giles.

  -- No -- disse Brittles.

  -- Est -- disse Giles.

  -- E falso, Sr. Giles -- disse Brittles.

  -- Mente voc, Brittles -- disse o Sr. Giles.

  Foi a observao zombeteira do Sr. Giles que
    lhe atraiu estas respostas azedas, e, se o Sr. Giles zombou de Brittles, foi
    por ver que atiravam para cima dele, em forma de cumprimento, a
    responsabilidade da retirada.

  O terceiro indivduo ps termo  discusso
    com uma observao filosfica:

  -- Querem que lhes diga uma coisa? Todos ns
    estamos com medo.

  -- Fale por si -- disse o Sr. Giles, que era o
    mais plido dos trs.

  -- E o que eu fao -- disse ele. -- Nada mais
    simples do que ter medo em circunstncias tais; eu tenho medo.

  -- E eu tambm -- disse Brittles. -- Mas isso
    no se deve dizer na cara da gente.

  Estas confisses francas aplacaram a clera
    do Sr. Giles, que reconheceu estar com medo igual ao dos outros.

  Imediatamente todos os trs deram as costas e
    entraram a fugir, com a mais comovente unanimidade, at que o Sr. Giles, que
    tinha a respirao curta e que no podia correr bem por causa de um forcado que
    levava, pediu polidamente um momento de demora para pedir desculpa das palavras
    azedas que dissera.

  -- Faz admirar -- disse ele, depois que lhe
    aceitaram as explicaes --, faz admirar de quanto a gente  capaz quando lhe
    sobe a mostarda ao nariz; eu era capaz de matar um daqueles pelintras, se o
    apanhasse.

  Como os outros dois companheiros eram da
    mesma opinio e estavam como o Sr. Giles completamente acalmados, entraram a
    indagar qual a causa que to depressa lhes mudara o temperamento.

  -- Eu sei o que foi -- disse o Sr. Giles --, foi
    a cerca.

  -- No me admira -- disse Brittles, aceitando a
    idia.

  -- Fiquem certos -- disse Giles -- de que a
    barreira  que refreou o nosso ardor; eu sentia que perdia o meu quando
    transpus a cerca.

  Por uma coincidncia digna de nota, os outros
    dois tinham sentido uma impresso desagradvel na mesma ocasio. Para todos eles
    era pois evidente que a cerca foi a causa do esfriamento; tanto mais que nenhum
    deles tinha dvida acerca do instante preciso em que tal mudana se produziu;
    todos os trs se lembravam que fora ao saltarem a cerca que viram os ladres.

  Travava-se este dilogo entre os dois homens
    que tinham surpreendido os ladres e um caldeireiro que dormia debaixo de um
    telheiro e fora despertado para tomar parte na perseguio.

  O Sr. Giles era intendente na casa da velha
    proprietria onde o roubo se ia dar e Brittles no tinha funes definidas;
    como entrara muito criana para l, era tratado como um rapaz que prometia,
    posto j contasse trinta anos passados.

  Conversavam pois, como vimos, para criar coragem;
    mas caminhavam juntinhos uns dos outros e lanavam  roda de si um olhar
    inquieto, apenas o vento agitara as folhas; precipitaram-se para uma rvore ao
    p da qual haviam deixado a lanterna, a qual levaram consigo.

  Depois continuaram a andar, ou antes a correr
    na direo da casa, e, neste tempo, depois ainda a sua sombra mbil se agitava
    e danava ao longe, semelhante a um vapor que sobe do solo mido.

  O ar ficava mais frio  proporo que o dia
    se aproximava lentamente, e o nevoeiro cobriu a terra de uma espessa camada de
    fumo. A relva estava mida, os caminhos, lamacentos; soprava um vento frio de
    chuva.

  Oliver continuava imvel e privado da vida,
    no lugar em que Sikes o deixara.

  Levantava-se lentamente o dia; plido claro
    iluminava o cu, marcando antes o fim da noite que o comeo da manh. Os
    objetos que, na escurido, pareciam medonhos e terrveis tornavam-se cada vez
    mais distintos e reassumiam pouco a pouco o seu aspecto habitual. Um forte
    chuvisco banhava as rvores sem folhas; mas Oliver no o sentia e continuava a
    estar sem sentidos e longe de todo o auxlio na sua cama de argila.

  Afinal, um fraco grito de dor rompeu aquele
    longo silncio e, ao solt-lo acordou a criana.

  O seu brao esquerdo, grosseiramente
    envolvido em um xale, pendia sem fora e estava coberto de sangue. O menino
    estava to fraco que mal se pde sentar, e, quando o conseguiu fazer, olhou
    languidamente  volta de si como para procurar socorro.

  A dor f-lo gemer.

  Tremendo de frio e de fraqueza, fez um
    esforo para se levantar; mas entrou a tiritar da cabea at os ps e caiu no
    cho.

  Depois de ter voltado alguns instantes ao
    estado em que estivera tanto tempo, Oliver, sentindo uma horrvel impresso,
    pressgio de uma morte certa se ficasse onde estava, conseguiu erguer-se e
    procurou andar.

  Tinha a cabea abrasada e cambaleava como um
    homem brio; conseguiu no obstante ter-se em p e, com a cabea pendente sobre
    o peito, caminhou com passo incerto, sem saber aonde ia.

  Conservavam-se-lhe no esprito uma multido
    de idias singulares e confusas. Parecia-lhe que ainda estava entre Sikes e
    Crackit, que discutiam violentamente, e que as palavras deles lhes feriam aos
    ouvidos.

  Se no seu delrio fazia um violento esforo
    para no cair, achava-se de repente em conversa com eles; depois, estava s,
    com Sikes, caminhando como fizera na vspera, e parecia-lhe sentir o aperto do
    ladro quando algum passava por eles.

  De repente estremeceu ao rumor de uma
    detonao de arma de fogo e ouviu grandes gritos; viu luzes diante de si; tudo
    era rumor e tumulto; parecia-lhe estar preso por uma fora invisvel.

  A essas vises rpidas vinha juntar-se um
    sentimento vago e penoso do sofrimento que o atormentava sem cessar.

  Caminhou assim cambaleando, abrindo maquinalmente
    por entre as cercas que encontrava, at que chegou a uma estrada; a comeou a
    chuva a engrossar tanta que Oliver voltou a si.

  Olhou  roda e viu a pouca distncia uma
    casa, at a qual podia ir.

  Vendo o seu estado teriam pena dele e, no caso
    contrrio, mais valia (pensava Oliver) morrer ao p de um teto habitado por
    criaturas humanas que na solido dos campos.

  Reuniu as poucas foras que lhe restavam para
    esta ltima tentativa e caminhou para casa.

  Ao aproximar-se da casa, parecia-lhe vagamente
    que j a tinha visto; no se lembrava de nenhuma circunstncia, mas a forma e o
    aspecto da casa no lhe eram desconhecidos.

  Aquele muro do jardim! Na relva, do outro
    lado, cara ele de joelhos, na porta interior, e implorava a dois salteadores;
    era aquela a casa que eles tentaram roubar.

  Reconhecendo onde estava, Oliver sentiu um
    receio tal que esqueceu por alguns instantes as dores e s pensou em fugir.

  Fugir! Ele mal se podia ter em p; e quanto
    tivesse toda a agilidade da mocidade, para onde fugiria? Empurrou portanto a
    porta do jardim; no estava fechada  chave e abriu facilmente; caminhou, subiu
    os degraus, bateu devagar  porta e, faltando-lhe as foras, encostou-se a um
    dos pilares da entrada.

  Nessa ocasio, o Sr. Giles, Brittles e o
    caldeireiro estavam na cozinha, restaurando-se das fadigas e terrores da noite
    passada, com ch e doces; no que estivesse nos hbitos do Sr. Giles de entrar
    em grande familiaridade com os criados inferiores, para os quais ele mostrava
    antes uma benevolncia altiva, de maneira a no lhes deixar esquecer a
    superioridade da sua posio social; mas diante da morte, incndios e ataques 
    mo armada, todos os homens so iguais.

  Estava pois o Sr. Giles sentado na cozinha,
    com as pernas cruzadas diante do fogo, o brao esquerdo apoiado na mesa, ao
    passo que gesticulava com o brao direito e fazia do ataque noturno uma
    narrao minuciosa, que todos os seus auditores, e principalmente a cozinheira
    e a criada, ouviam com avidez.

  -- Eram pouco mais ou menos duas horas e meia
    -- disse o Sr. Giles --, e eu no juraria que fossem trs, quando eu acordei, e
    voltando-me na cama assim (o Sr. Giles voltou-se na cadeira puxando a ponta da
    toalha para simular os lenis), parecia-me que ouvia certo barulho.

  Neste ponto da narrao, a cozinheira
    empalideceu e pediu  criada que fosse fechar a porta; a criada dirigiu-se a
    Brittles, e este ao caldeireiro, que fingiu no ouvir.

  -- Pareceu-me que ouvia certo barulho --
    continuou o Sr. Giles, --  iluso, disse eu ao princpio. -- E ia continuar a
    dormir, quando ouvi outra vez o barulho, e de uma maneira distinta.

  -- Que rumor era? -- perguntou a cozinheira.

  -- Uma espcie de rumor surdo respondeu o Sr.
    Giles olhando para todo o auditrio.

  -- Ou antes o som de alguma coisa em uma barra
    de ferro -- disse Brittles.

  -- Talvez, no momento em que voc ouviu --
    disse o Sr. Giles. --Mas quando eu ouvi era um rumor surdo; lancei de mim os
    lenis (e o Sr. Giles empurrou a toalha), sentei-me na cama e prestei ouvidos.

  A cozinheira e a criada exclamaram ao mesmo
    tempo:

  -- Meu Deus!

  E aproximaram as suas cadeiras.

  -- Ento ouvi a ponto de no poder duvidar --
    continuou o Sr. Giles. -- Disse comigo que estavam forando alguma porta ou
    janela; que fazer? Fui prevenir aquele pobre Brittles para que ele no se
    deixasse assassinar na cama; e se no o avisar, disse eu comigo, podem
    cortar-lhe o pescoo sem que ele o perceba.

  Aqui todos os olhos se voltaram para
    Brittles, que tinha os seus pregados no narrador e o contemplava boquiaberto e
    espantado.

  -- Empurrei os lenis, disse Giles, olhando
    para a cozinheira e a criada, pulei da cama, calcei um par de...

  -- Aqui h senhoras -- murmurou o caldeireiro.

  -- Um par de sapatos, disse Giles voltando-se
    para o caldeireiro e apoiando na palavra. -- Lancei mo da pistola carregada que
    est sempre na escada perto da porta e dirigi-me para o quarto de Brittles. --
    "Brittles", disse-lhe eu, depois de o acordar, "no tenha medo."

  --  exato -- observou Brittles  meia-voz.

  -- Estamos todos mortos,
    pelo que me parece, Brittles, mas no tenha medo.

  -- Ele teve medo? -- perguntou a cozinheira.

  -- No -- disse o Sr. Giles -- mostrou-se
    firme... to firme como eu.

  -- Pois eu c morrerei imediatamente -- disse
    a criada.

  --  que voc  mulher -- replicou Brittles.

  -- Brittles tem razo --
    disse o Sr. Giles, aprovando com um gesto o que ele acabava de dizer. -- Da
    parte de uma mulher no se deve esperar outra coisa; mas ns, que somos homens,
    pegamos numa lanterna surda que estava na chamin de Brittles e descemos a escada
    s apalpadelas, no escuro, assim.

  O Sr. Giles levantou-se e comeou a dar
    alguns passos para juntar o gesto  palavra, quando de repente estremeceu, como
    todos, e voltou depressa para a cadeira. A cozinheira e a criada soltaram um
    grito.

  -- Bateram na porta -- disse o Sr. Giles
    afetando uma perfeita serenidade. -- V abrir algum.

  Ningum se mexeu.

  --  singular que
    venham bater  porta to cedo -- disse o Sr. Giles considerando as caras plidas
    das pessoas que o cercavam e empalidecendo tambm. -- Mas  preciso abrir a
    porta; algum deve ir abrir a porta.

  O Sr. Giles disse estas palavras com os
    olhos em Brittles; mas este mancebo, sendo naturalmente modesto, no pensava
    que fosse algum e persuadiu-se que a intimao no era com ele; em todo o caso
    no respondeu.

  O Sr. Giles fez sinal ao caldeireiro, mas
    este adormecera repentinamente.

  As mulheres.... nem pensar nisso.

  -- V ver quem est  porta, Brittles, disse
    o Sr. Giles aps um momento de silncio, que te acompanho. [2]

  FIM

  NOTAS

  1 A parte final deste captulo no foi traduzida por Machado.
  2 Fim da traduo
    de Machado de Assis. Segundo J. Galante de Sousa (Bibliografia de Machado de
      Assis. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1955, p.452), "Esta
    traduo figura annima no peridico. No h dvida, porm, de que pertence a
    Machado de Assis, em vista de uma carta sua, que se encontra em Correspondncia ( W.M. Jackson 1938, PP. 403-404) , a destinatrio ignorado e que passamos a
    transcrever:"
  14 de junho de 1870.
  Exmo. Sr. -- Era
    resoluo minha, de acordo com o recado que de V. Ex. recebi, por intermdio de
    nosso amigo comum o dr. Frana, esperar a chegada do sr. Oliveira para nos
    entendermos todos trs a respeito do trabalho que fao para o Jornal da Tarde
    como tradutor do folhetim. Nisto atendia eu  considerao devida para com os
    dignos proprietrios do Jornal da Tarde. -- Sobreveio, porm, uma circunstncia
    que me obriga a modificar aquela resoluo, e a dizer a V. ex. que no posso
    continuar a traduzir o folhetim, como at agora fazia. No querendo pr
    embaraos ao Jornal da Tarde, continuarei a traduo at sbado, 18. No me
    demorarei em dizer a V. ex. com que pesar sou obrigado a a interrromper este
    trabalho que eu fazia com maior vontade que aptido; temo que se possa
    confundir um sentimento verdadeiro com uma frmula de ocasio. -- Qualquer que
    seja porm este meu pesar, no pode influir nas circunstncias que me
    determinam. Considere-me V. Ex. como sempre -- Affo. am o. e obrg o. cro. --
  Machado
    de Assis

      * Alude a um costume das prises inglesas.
