Conto, O Caminho de Damasco, 1871

O caminho de Damasco

Texto Fonte:

Histrias Romnticas, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, novembro de 1871

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO - TRS AMIGOS

CAPTULO II - O PONTO NEGRO

CAPTULO III - CLARINHA

CAPTULO IV - UM CONSELHO

CAPTULO V - COMO SE PERDE UM RAPAZ

CAPTULO VI - O CASAMENTO

CAPTULO VII - BATALHA CAMPAL

CAPTULO VIII - DE MAL A PIOR

CAPTULO IX - IDA E REGRESSO

CAPTULO X - O CAMINHO DE DAMASCO

CAPTULO PRIMEIRO

TRS AMIGOS

Eram duas horas da tarde de um dia
de junho, dia de magnfico inverno, nem frio, nem chuva, nem sol. Nem sol, 
maneira de dizer; o astro-rei dominava o cu com todo o esplendor dos seus
raios; mas os raios eram temperados e brandos. No era certamente um sol para
aquecer lagartixas, mas no o podia haver melhor para quem atravessasse
pedestremente o Campo da Aclamao.

A Rua do Ouvidor tinha ento o
movimento do costume. Gente parada em frente ou sentada dentro das lojas, gente
que descia, que subia, homens, senhoras, de quando em quando uma vitria ou um
tlburi, tudo isso dava  principal rua do Rio de Janeiro um aspecto animado e
luzido. Viam-se aqui e ali alguns deputados, trocando notcias polticas ou
admirando as senhoras que passavam, coisa muito mais deliciosa que uma
discusso a respeito do oramento da guerra, assunto em que, nesse momento,
estava falando o respectivo Ministro na Cmara. Tambm ali estava uma grande
parte da urea juventude,  la jeunesse dore,  comentando o
acontecimento do dia ou encarecendo a beleza da moda. Estranharia aquela
designao quem reparasse que entre os rapazes havia tambm algumas suas
grisalhas e outras totalmente brancas. Mas essas suas podiam responder-lhe
que a mocidade no  um aspecto, mas um fato interior, e que o gelo pode cobrir
a cumeada da serra sem descer  plancie. Plancie, neste caso,  sinnimo de
corao.

Perto da Rua da Quitanda, entre a
livraria Garnier e o escritrio do Jornal do Commercio, trs moos
elegantemente vestidos trocavam algumas ltimas palavras. Um deles tinha de
seguir para baixo, outro para cima, e o terceiro ia entrar num tlburi, que o
estava esperando. O primeiro usava suas pretas; o segundo a barba toda; o
terceiro apenas tinha um bigode castanho esmeradamente encaracolado.

 Est assentado, disse o das
suas, s dez horas  porta do Alcazar.

 Quem chegar primeiro, espera,
observou o da barba toda.

 Sim, tornou o primeiro, mas no
 bom que, fiado nisso, algum de vocs se demore muito.

O do bigode aprovou esta emenda,
mas acrescentou que pedia alguma exceo para si.

 -me necessrio ter cuidado com
a velha, disse ele.

O das suas abanou a cabea com
impacincia.

 Realmente, Aguiar, no sei o que
quer dizer essa tua obedincia passiva. s um homem feito, e vives como uma
freira!

O da barba toda, que conhecia bem
o profundo abismo que mediava entre o amigo e uma freira, no pde deixar de
sorrir a este reparo do rapaz das suas, alis to informado como ele das
faanhas de Aguiar.

Aguiar explicou como pde a situao
em que se achava para com a velha, e de novo prometeram todos se acharem 
porta do Alcazar, s 10 horas da noite.

Justamente no momento em que ia
despedir-se, entrou na Rua do Ouvidor, vindo da Rua da Quitanda, uma vitria
puxada por um cavalo castanho e governada por cocheiro ainda rapaz, bianco
vestito. O desdm com que este indivduo ia olhando para os pees poderia
fazer crer que levava no carro a rainha Clepatra, pelo menos, ou o filho de
Peleu; tal iluso, porm, no podia durar desde que se lanasse um olhar para
dentro do carro e se visse molemente recostada uma mocinha loura e magra, cujas
feies pareciam vir do cu, mas cujo exterior e aparato estavam delatando o
mais delicioso purgatrio.

Naturalmente, as lgrimas dos
pecadores eram ali cristalizadas, porque a dama trazia nas orelhas, no colo e
nos dedos umas fulgentssimas pedras com que ia mui galante e concertada.
Olhava preguiosamente para as pessoas que passavam  esquerda do carro, mas
sem mover a cabea, e com um ar to friamente aristocrtico, que justificava
bem a arrogncia do cocheiro e a curiosidade dos passantes.

Quando ela viu os trs amigos de
que h pouco falamos, sorriu e inclinou levemente a cabea, enquanto o das
suas pretas parecia fazer um sinal convencionado. A dama respondeu com um
gesto; tudo isto sem que o carro parasse.

 Bem; a Candinha est avisada,
disse o das suas;  intil mandar l.

E depois de uma nova promessa,
cada um dos amigos tomou a direo em que ia.

Dos trs,  Aguiar o que mais nos
interessa acompanhar. Vai de tlburi, mas no importa; chegaremos a tempo de
entrar com ele em casa.

CAPTULO II

O PONTO NEGRO

Jorge Aguiar, no tempo em que se
passa esta narrativa, contava os seus vinte e trs anos de idade. No ano
anterior, voltara de S. Paulo com um diploma de bacharel na algibeira e uns
amores no corao. Poderia dizer que trazia tambm alguma cincia jurdica na
cabea, se o meu intento no fosse uma escrupulosa fidelidade histrica. Aguiar
aprendeu apenas o necessrio para de todo em todo no atar as mos aos lentes;
mas o pouco que aprendeu ficou na serra de Cubato, sem lhe deixar saudades. Os
amores ainda os trouxe at  barra do Rio de Janeiro, mas com certeza no
desembarcou com eles. Tambm, no valiam a pena; eram amores bem pouco srios
para virem acolher-se  sombra da famlia.

Bem desventurado seria ele se
tivesse de ganhar o po com o que aprendera na academia. Mas a fortuna, que uns
dizem ser cega, naquele caso teve uma vista de lince, adivinhando que era necessrio
afianar a vida a quem no era capaz de ganh-la. A famlia de Jorge tinha de
sobra com que lhe manter a existncia e satisfazer os caprichos. Desta maneira
podia ele dormir tranqilamente e acordar em paz.

Nem tudo, porm, eram rosas na
existncia de Aguiar. Havia um ponto negro na limpidez do cu azul. No era o
pai. O pai de Jorge tinha-lhe aquele amor cego que no v senes no objeto
querido e era a seu respeito um tanto doutor Pangloss: achava uma tal ou qual
necessidade nos desvarios do rapaz. Alm disso, acariciava o sonho, alis
plausvel, de o ver Ministro de Estado. Para isso, disse ele, era necessrio
dar alguns meses  vida livre; depois do que, cham-lo-ia  razo e buscaria
encart-lo na primeira Assemblia Provincial que lhe ficasse a jeito.

Tais eram os planos e sentimentos
do velho Silvestre Aguiar, cuja mocidade parecia no ter sido inteiramente
capuchinha.

O ponto negro era a me de Jorge.
D. Joaquina era uma senhora austera e respeitvel, mas impertinente, rusguenta
e desptica, alm de ser dotada de uma energia que no dizia muito com os seus
cinqenta e dois anos. No havia memria em casa de Aguiar de que a senhora D.
Joaquina estivesse algum dia calada durante uma hora inteira. Calava-se quando
dormia, mas como dormia pouco, e acordava s cinco horas da manh, dava apenas
uma escassa trgua  famlia.

No se precisava ter olhos muito
perspicazes para conhecer que a senhora Dona Joaquina era o verdadeiro dono da
casa. Silvestre pertencia quela raa de homens pacatos para quem este mundo 
uma ante-sala do cu. No se irritava nunca, no conhecia o que fosse
impacincia ou tdio. Amou a muitas mulheres, rezavam as crnicas, mas nenhuma
lhe captou tanto afeto como a sua gorda Pachorra.

 A natureza, dizia ele, tem rios
impetuosos e plcidos ribeiros. Se todos fssemos rios, no havia ribeiros na
espcie humana.  bom que haja uma e outra coisa. A Providncia quis que, ao p
de uma cachoeira despenhada como a Joaquina, houvesse um regato manso como eu.
Nisto  que est a harmonia.

Devo dizer que Silvestre, quando
casou com D. Joaquina, no lhe conhecia a facndia, nem a impetuosidade. E 
possvel que ainda nesse tempo a boa senhora no tivesse desenvolvida a
vocao. Foi um namoro comeado por ocasio das festas da coroao. Um parente de Silvestre deu um jantar, onde se encontraram
as duas famlias, a dele e a de Joaquina. Era fama que esta moa no casaria
nunca, porque andavam j por cinco ou seis os pretendentes que ela despedira
com uma rispidez anunciadora dos seus hbitos futuros. Grande foi, pois, a
admirao dos pais, quando trs meses depois, indo Silvestre pedir-lhes a mo
de D. Joaquina, receberam dela uma resposta afirmativa.

 Ho de ser felizes, dizia a me;
ela que at agora recusou todos os casamentos,  porque Deus lhe guardava este.

Efetivamente foram felizes.
Silvestre dava-se perfeitamente com o gnio da mulher. D. Joaquina irritava-se,
s vezes, com a impassibilidade do marido, e soltava contra ele os seus
discursos; mas, como Silvestre no articulava sequer uma queixa ou censura, a
senhora D. Joaquina acabava, como ele mesmo dizia consigo, por meter a viola
no saco.

Esta D. Joaquina, pois, era o
ponto negro da vida de Jorge. s dez horas, quando muito, devia o rapaz
recolher-se a casa. Silvestre advogava a causa do filho. Observava que o rapaz
no podia ter uma vida de freira; mas a palavra freira, to indiferente
na boca de outra pessoa, na de D. Joaquina dava um discurso de dez pginas in-flio.
O marido calava-se e a ordem da senhora D. Joaquina prevalecia.

Jorge obedeceu durante muito tempo
s ordens da me, mas os conselhos dos amigos foram pervertendo o seu esprito
reto e casto. Jorge entrou um dia s 11 horas da noite; a me, que at ento se
no deitara, veio em pessoa abrir-lhe a porta.

 Oh! mam! exclamou ele,
espantado.

D. Joaquina no disse palavra,
fechou a porta e subiu silenciosamente adiante dele. Foi o nico lance em que
deixou de falar, e realmente nunca fora mais sublime em sua vida.

Da em diante, no ousou Jorge
transgredir as ordens da me; mas como os passeios, teatros e festas no se
podiam combinar com esta obedincia, o jovem bacharel arranjou uma chave sua, e
por meio dela, batia a linda plumagem.

Alm disso, alcanava facilmente
convite para saraus e bailes, objeto em que a boa velha consentia na ausncia
do filho.

Com esses e outros pretextos, que
em circunstncias especiais lhe ocorriam, conseguira o nosso Jorge Aguiar
iludir a vigilncia e as ordens da velha. Quem se no enganava era o pai, que o
via sair muitas vezes, e enxergava a verdadeira razo dos seus numerosos
convites; mas o bom Silvestre aplaudia os escrpulos do filho e tirava deles um
bom agouro para a vida poltica do rapaz.

CAPTULO III

CLARINHA

Quando Jorge Aguiar chegou a casa,
D. Joaquina dava as suas ltimas ordens para uma grande poro de doce de coco,
e tomava conhecimento da tarefa que dera de manh a duas crias empregadas em costurar. Silvestre jogava o gamo com o padre Barroso, enquanto Clarinha tocava ao piano umas
variaes alems.

Esta Clarinha, que entra em cena
sem se fazer anunciar, era uma sobrinha de D. Joaquina, e portanto prima de
Jorge. Era ainda criana quando perdera a me; e o pai, que dois anos antes se
apaixonara por uma italiana que viera ao Rio de Janeiro, com o infundado
pretexto de que era cantora, acompanhou a dama dos seus pensamentos, e andava
agora pela Itlia em sua companhia. Tanto valia estar morto para a pobre rf.
D. Joaquina recebeu em casa a sobrinha e tratava-a como se fora filha sua.

Tinha esta moa uma no vulgar
formosura, a que dava realce um ar de profunda melancolia. A melancolia era
natural; nascida para viver em tal ou qual abastana, vira o pai esbanjar os
cabedais herdados, e perdera a me na idade em que mais precisava dela. Depois,
foi estouvadamente abandonada pelo pai e obrigada a receber os favores dos
tios. Isto, reunido  ndole da moa, fazia com que raras vezes lhe assomasse
aos lbios um riso prazenteiro.

Clarinha vingara-se dos golpes que
lhe dava o seu mau destino, instruindo-se e aprendendo a trabalhar com uma
docilidade que encantava a senhora D. Joaquina. Esta boa senhora dizia que a
sobrinha havia de ser a herdeira da sua competncia na arte de governar a casa.
Efetivamente, era difcil achar em to verdes anos,  18 contava ela,  tanta
seriedade, prudncia, atividade e ordem. Os momentos vagos, dava-os a moa ao
estudo da msica e da lngua francesa, porque o seu fim era poder lecionar
algum dia, e achar nessa profisso os meios de subsistncia de que viesse a
carecer.

D. Joaquina aprovava esta previso
da sobrinha, mas procurava dissipar-lhe tais receios, dizendo que enquanto ela
vivesse, e ainda depois que se finasse, a sobrinha no precisaria de nada. Alm
disso, estava moa, e um casamento viria p-la ao abrigo de toda a necessidade.

 Um casamento? dizia Clarinha,
com ar triste; isso no  para mim.

 Por qu?

 Quem querer casar comigo?

 Quem no for tolo, dizia a boa
velha. Vejam l se  fcil achar uma esposa como tu hs de ser!

Clarinha abanava a cabea e ficava
pensativa.

O procedimento da moa confirmava
as suas disposies celibatrias. Parecia indiferente a todos os homens, no se
enfeitava para ir aos bailes, quando ia a eles no danava, raras vezes chegava
 janela, e era de todo surda aos louvores que a sua beleza lhe granjeava.
Usava ordinariamente roupas escuras por lhe parecerem cores tristes; os modos
eram modestos e acanhados; falava pouco, e, como disse, raras vezes ria.

Estava ela a tocar piano na sala,
a pedido do padre Barroso, que era doido por msica, e dizia com aquele ar que
a natureza s concede aos gamonistas intrpidos, que era bom suavizar
musicalmente as derrotas do comendador Aguiar. O certo  que o dono da casa
ganhava poucas partidas ao padre.

 Dois e s, disse o comendador,
lanando os dados e batendo numa das tbulas do padre.

 Tire o cavalo da chuva!
respondeu o padre, chocalhando os dados no copo. Agora  que vai ver o que so
elas. Preciso de umas quadras.

 Homem, jogue e deixe-se de
conversa.

O padre lanou os dados.

 Quadras! disse ele.

Silvestre Aguiar coou o nariz,
enquanto o implacvel padre, depois de lhe bater em duas tbulas, empalmava o
leno encarnado na mo, e assoava-se com estrpito.

 Isto sem rap no vai, observou
ele.

 O moleque ainda no viria? disse
Aguiar. No sei que descuido foi este meu de no ter comprado ontem.

Clarinha cessou de tocar; ia a
levantar-se para saber se efetivamente o moleque no tinha voltado, mas o tio disse-lhe
que no era preciso.

Nesse momento, entrou Jorge na
sala; beijou a mo ao pai, apertou a do padre Barroso, e foi cumprimentar a
prima.

 Ento? disse o padre a Silvestre
em voz baixa; por que no casam estes dois?

 Se eles quiserem, no lhes ponho
dvidas, respondeu Silvestre; mas so coisas que se no obrigam. Creio que no
se namoram. Demais, o rapaz anda a desasnar-se.

 H de me perdoar, disse o padre,
cuido que anda a perder-se. Olhe, que estes hbitos de mocidade rara vez se
perdem. Coba os desvarios de Jorge; no lhe ho de dar bom proveito.

 Eu fui o que ele vai sendo,
respondeu Silvestre, e todavia ningum me vence em bom comportamento. Deixe
estar, padre, que ele h de seguir os exemplos do pai.

Jorge trocou algumas palavras com
a prima, e retirou-se para o seu aposento, enquanto a moa continuava a tocar e
os dois velhos decidiam a partida.

Entrou, ento, na sala um novo
personagem: o Dr. Marques, homem de seus quarenta e quatro anos, corado,
vigoroso, um tanto grisalho de barba e dos cabelos. Era o mdico da famlia;
conhecia o comendador quase desde a infncia, e entretinha laos de nunca
desmentida amizade. Ele e o padre eram os dois mais ntimos da casa.

 Chega a propsito, disse o
padre. Traz a caixa?

 Pois no, disse o recm-chegado
depois de ir apertar a mo a Clarinha.

 Graas a Deus; venha de l uma
pitada.

 Duas, duas! emendou Silvestre;
h de sofrer dois ataques, um por bombordo e outro por estibordo.

Ambos os gamonistas esfregaram os
dedos no leno, e sacaram da boceta do Dr. Marques duas grossas pitadas. O
padre inseria a sua em ambas as ventas, e com o leno sacudia o p que lhe
cara na camisa, enquanto o comendador, carregando com o dedo polegar na venta
direita, introduzia toda a pitada na venta esquerda.

Marques deixou os dois velhos
entregues ao gamo e dirigiu-se ao piano, na ocasio em que a moa se ia
levantar para deixar a sala.

 No quer tocar mais? perguntou
Marques.

 Tenho que fazer... murmurou
Clara em voz baixa e sem levantar os olhos.

Marques lanou um rpido olhar
para os dois gamonistas, e vendo que estavam entretidos com os dados, murmurou
ao ouvido da moa:

 E a resposta?

 Deixe-me sair... respondeu
Clarinha.

E caminhando rapidamente para a
porta, desapareceu da sala. Marques ficou ao p do piano com o ar embaado que
o leitor naturalmente imagina, enquanto o padre Barroso, deitando os dados,
exclamava alegremente:

 Coitadinho, comendador,
coitadinho!

CAPTULO IV

UM CONSELHO

Marques foi ter com Jorge.
Encontrou o filho do comendador a ler um romance de Feydeau. Fechou a porta do
gabinete, puxou uma cadeira e foi sentar-se junto de Jorge. Este marcou a
pgina com uma conta do alfaiate e sem mudar de posio, disse ao hspede:

 Temos novidade?

 Nenhuma, respondeu Marques, e 
justamente o pior.

 Que h?

 Perguntei-lhe agora pela
resposta, e ela no me disse nada; mas saiu da sala com um modo que me tira
toda a esperana. Creio que o seu conselho de escrever a carta foi mau.

 Mau! disse Jorge. Em nenhum caso
podia s-lo; uma carta no prova nada contra o senhor; podia, e pode dar um bom
resultado. Quer que lhe diga uma coisa?

 Que ?

 No desanime. A prima h de
ceder, porque no pode encontrar melhor marido que o senhor... O senhor  capaz
de a fazer feliz. Se ela no lhe respondeu  por excesso de reserva. Tem medo
de que lhe levem a mal. Olhe, por que no fala a minha me?

 A sua me?

 Sim, ela obedece-lhe muito;
estou que  um bom caminho. V, fale, e a coisa tomar bom caminho.

Marques levantou-se, tomou uma
pitada, deu alguns passos no gabinete, concertou as suas a um espelho e
voltou a assentar ao p do sof.

 Mas est certo, disse ele, de
que no h outro namoro?

 Certo, no lhe digo que esteja,
mas tudo faz crer que no. Clarinha  muito metida consigo, e passa a vida
ocupada nos arranjos da casa. Estas coisas mais ou menos se sabem ou
desconfiam. Nada me consta a respeito dela... Tome o meu conselho; fale com minha
me.

 Est dito! exclamou Marques;
tomo o seu conselho.

Trata-se, como se v, de um amor
que o mdico da casa dedicava  sobrinha de Silvestre Aguiar. Este amor, no o
quero dar como uma dessas paixes infrenes e fogosas da juventude, nem com um desses
amores tardios que nascem com a maturidade. Era uma afeio branda, temperada,
refletida. Marques nunca fora casado; o celibato fora o programa de toda a sua
vida, e s-lo-ia at ao dia da morte, se as qualidades de Clarinha, a sua
aplicao ao trabalho, os seus hbitos inocentes e graves, lhe no tivessem
infludo no nimo a ponto de lhe despertar a idia do matrimnio.

O espetculo de uma vida plcida
no meio da famlia comeou a seduzir-lhe o corao. A razo veio auxiliar este
impulso natural; comparou o que seria uma velhice solitria com uma velhice
cercada dos cuidados de uma esposa digna desse nome. Clarinha parecia reunir as
qualidades necessrias para o papel de sua companheira, e o mdico, que tinha
intimidade com Jorge, confiou-lhe tudo. Jorge aconselhou-lhe a arma epistolar e
Marques, com a docilidade de quem est disposto a tudo, arriscou logo a
primeira carta  moa.

A esta carta  que aludia. J
sabemos que a moa, no s no lhe respondera, mas at parecia fugir ao
pretendente. Isto podia ser algum namoro, como sugerira a Jorge, mas tambm
podia ser natural reserva de Clarinha, que observava rigorosamente as rgidas
doutrinas de D. Joaquina. Na opinio desta boa senhora, a noiva s devia
conhecer o noivo no dia do casamento.

 E j  conceder muito,
acrescentava ela.

Certamente, a esposa do velho
Aguiar j se no lembrava das festas da coroao, nem do namoro travado naquele
tempo com o futuro comendador. Era natural; cada qual tem as idias da sua
idade; aos cinqenta anos no se compreendem muito as loucuras dos vinte. Aos
vinte, parece esquisita a austeridade dos cinqenta.

Clarinha deixava-se guiar pelas
idias da tia; era provvel que a sua reserva fosse apenas o resultado desta
influncia.

O certo  que Marques nada havia
adiantado, quando Jorge lhe sugeriu a idia de ir falar  me, idia que o
mdico aceitou e resolveu pr em prtica no dia seguinte.

No se pense, entretanto, que o
conselho de Jorge de algum modo exprimisse interesse pela causa do pretendente.
Era-lhe de todo indiferente que a prima casasse com este ou com aquele. Daria o
mesmo conselho a qualquer pessoa que lho pedisse. O principal cuidado do filho
do comendador era gozar a vida ao ar livre, sem preocupaes de espcie alguma.
A dama que passara na Rua do Ouvidor, quando ele conversava com os dois amigos,
merecia-lhe mais ( duro de diz-lo) que a prima. Em duas palavras, Jorge
estava j adiantado na carreira da libertinagem.

Apenas o mdico saiu do gabinete,
Jorge continuou a leitura do romance. Da a pouco, vieram cham-lo para jantar;
jantou, dormiu um pouco,  noite simulou que tomava ch, recolheu-se ao quarto,
e s dez e meia, quando a me supunha que toda a casa repousava no regao das
suas boas doutrinas, abria o nosso Jorge a porta e corria afoitamente ao prazo
dado.

CAPTULO V

COMO SE PERDE UM RAPAZ

Eu creio que o leitor dispensa uma
descrio da festa em que Jorge figurou como um dos mais destacados. Foi uma
das primeiras ceias que se tm dado nos hotis desta cidade. Acabou quando a
aurora anunciava os primeiros albores, e os varredores das ruas concluam a sua
tarefa.

Jorge deixou-se entrar alguma
coisa pelo vinho, e foi para casa um tanto perturbado da razo. Felizmente,
ningum o viu entrar; dirigiu-se para a cama, onde dormiu at meio-dia, tendo
tido cuidado de ordenar ao criado, confidente das suas aventuras, que dissesse
 velha que ele havia passado mal a noite. A boa senhora ficou muito aflita
quando o criado lhe transmitiu esta notcia, mas ordenou que o no fossem
acordar; era esse justamente o desejo do filho.

Essas aventuras foram muitas e
muitas vezes repetidas. Jorge completou a sua educao com tal arte que
adquiriu logo um respeitvel nome entre os mais tresloucados da terra
fluminense. No havia banquete, passeio, loucura, em que Jorge de Aguiar no tivesse parte conspcua.

O pai dava-lhe algum dinheiro;
Jorge no se detinha em o gastar s mos largas. Nos primeiros dias, ainda o
dinheiro podia ocorrer s necessidades, mas no tardou que a receita ficasse
muito abaixo da despesa. Quando este fenmeno se d, quer nas finanas de um
indivduo, quer nas de um Estado, surge uma coisa que se chama dficit.
Jorge achou-se senhor de um dficit. Tinha dois recursos: o
trabalho, ou o crdito. O crdito tinha a grande vantagem de dispensar o
trabalho. Jorge consertou as suas finanas deixando algumas dvidas em aberto
ou recorrendo  bolsa de alguns usurrios.

Desta maneira, conseguiu no
perder a posio brilhante que adquirira nem os afagos desinteressados de
algumas damas do tempo. O processo destas damas era geralmente uniforme.
Manifestavam por ele uma louca e desenfreada paixo, e durante quinze ou vinte
dias falavam-lhe de uma vida celeste e romntica, de uns amores puros e
recatados. No hesitavam em sacrificar-lhe antigos adoradores e modernos
pretendentes. Jorge subia ao stimo cu. Em tese, no acreditava no amor, nem
delas nem de ningum; mas, na hiptese, lisonjeava-se de ter fixado uma
borboleta volvel e doida.

Essa crena, toda gratuita, sofria
algum abalo no vigsimo primeiro dia, quando a borboleta fisgada enviava ao
namorado uma conta da Notre Dame, uma letra vencida, ou um simples
pedido de aluguis atrasados. Jorge pagava largamente esta desiluso.

No pagava s estas. Na sociedade
em que ele ocupava um dos primeiros lugares, havia tambm uma casta de homens,
cujas doutrinas comunistas tinham o nico defeito de s se aplicarem s
algibeiras alheias. A de Jorge era uma algibeira fcil e pronta; alm disso, o
filho do comendador tinha certo amor-prprio, e por nenhum preo queria que lhe
chamassem pinga.

Esses e outros golpes, quem os
sofria era o pai, que pagava as contas, as letras e as leviandades do filho. No
fim de alguns meses, achou o comendador que a aprendizagem de Jorge j lhe ia
custando caro; em todo o caso, devia estar feita.

 Bem, disse ele consigo, agora j
ele h de estar enfadado da vida solta, e pode cuidar das coisas srias.  um
grande erro querer meter os rapazes em coisas srias antes de eles se terem
enfadado das coisas frvolas: quem no erra na mocidade, erra na velhice.
Tratemos de o arranjar.

Era tarde.

Jorge estava calejado no vcio;
tinha andado mais em poucos meses do que outros em muitos anos. Era impossvel
cham-lo  razo. Silvestre arranjou os meios brandos, mas nada fez; lanou mo
dos meios enrgicos, e a resistncia que encontrou fez-lhe conhecer todo o mal
da situao que ele mesmo criara.

D. Joaquina no deixou escapar a
ocasio de fazer ao marido speras e merecidas censuras. O rapaz j no lhe
obedecia; a boa senhora achou a causa desta resistncia na docilidade com que
Silvestre suportou os primeiros erros do filho. Eu poderia dar um extrato do
discurso com que D. Joaquina descreveu esta situao perante o marido abatido e
envergonhado; mas arriscava-me a no acabar o conto, do mesmo modo que ela no
acabou o discurso, porque s se calou quando lhe faltou o ar.

CAPTULO VI

O CASAMENTO

Durante estes meses de loucuras de
Jorge, a situao do Dr. Marques pouco tinha adiantado, mas adiantara alguma
coisa. O pretendente expusera  tia de Clarinha os seus desejos depois de dois
meses de hesitao, e a boa senhora, aprovando as intenes do mdico, s imps
a condio de que a sobrinha o amasse.

 Ah! minha senhora, disse
Marques, a este respeito no posso afianar nada. No sei se sou ou no amado:
D. Clarinha  to acanhada que no deixa campo a investigaes deste gnero.

 Pois bem, redargiu D. Joaquina,
eu tomo a mim a incumbncia de consultar-lhe o corao. Imponho esta condio,
porque conheo bem Clarinha; sei que  uma rapariga de muito juzo, e digna de
escolher o seu prprio esposo. Em circunstncias diversas, eu  que lhe havia
de dar o noivo.

D. Joaquina cumpriu a palavra.
Perguntou a Clarinha se ela nunca havia pensado em casar.

 Casar? eu? perguntou a sobrinha.

 Sim, tu.

 No, nunca pensei.

Clarinha disse estas palavras em
tom frio e indiferente; todavia, pareceu a D. Joaquina que esta idia a
entristecera.

 Dar-se- caso que j o ame?
disse a velha consigo mesma.

Correram alguns minutos de
silncio.

 Sabes que algum deseja casar
contigo? disse enfim a mulher de Aguiar.

 Casar comigo? perguntou a moa,
abrindo muito os olhos.

 Sim contigo.

 Titia est brincando.

 Brincando por qu? No mereces
ser pretendida por algum?

Clarinha no respondeu.

 E essa pessoa  muito nossa
conhecida.

 Ah!

 J reparaste?

Clarinha levou a mo ao corao.

 No, murmurou ela.

 No adivinhas quem seja?

 No posso adivinhar.

 O Dr. Marques.

Clarinha empalideceu. A boa velha
no tirava os olhos dela para ver se lhe lia no rosto os sentimentos do
corao. Mas verdade, verdade, D. Joaquina no sabia traduzir fisionomias. A
comoo de Clarinha, qualquer que fosse a causa, pareceu-lhe que era de bom
agouro para o mdico.

 Ama-o, no tem dvida, disse ela
consigo. Tudo est arranjado.

Clarinha recobrou a palavra no fim
de dez minutos.

 Titia, murmurou ela; a senhora
sabe o que me convm, e eu estou s suas ordens.

 Ordens, no, disse D. Joaquina;
isto no  uma ordem;  uma consulta.

 O Dr. Marques, disse Clarinha, 
um excelente homem...

 E um excelente marido? concluiu
D. Joaquina rindo.

Clarinha no respondeu.

O silncio da moa foi
interpretado como um assentimento, e a esposa do comendador imediatamente deu
parte ao mdico do resultado da sua misso.

Clarinha, apenas ficou s, correu
ao quarto e debulhou-se em lgrimas,  lgrimas silenciosas e sufocadas, para
que ningum lhas ouvisse nem suspeitasse sequer. Depois, tirou de uma gaveta um
retrato, contemplou-o longo tempo, e beijou-o repetidas vezes. Quando
reapareceu na sala tinham desaparecido os vestgios das lgrimas. Estava
triste; mas como esse era o natural estado da moa, ningum procurava saber-lhe
a causa.

Quando Marques soube do resultado
da misso de D. Joaquina no pde esconder o seu regozijo.

 Acho, porm, conveniente, disse
a mulher de Aguiar, que o senhor oua da prpria boca de Clarinha a confisso,
da qual eu s alcancei metade.

No hesitou Marques em sondar por
si prprio o corao de Clarinha. Era ele um homem honesto e de nenhum modo queria
casar com ela sem ter a certeza de que ela no o faria obrigada.

O resultado desta nova experincia
foi mais satisfatrio ainda que o da primeira. A moa no lhe confessou amor
com os termos de um corao apaixonado; mas teve palavras to afetuosas para o
mdico, que o casamento foi logo decidido por parte da senhora D. Joaquina.

Silvestre Aguiar teve participao
de que o casamento da sobrinha devia realizar-se dentro de um ms e meio.
Pediu-se-lhe o consentimento apenas como uma formalidade, porque a deciso de
D. Joaquina era bastante para o caso. Aguiar nada tinha que opor; aplaudiu,
pelo contrrio, a unio.

 Eu sempre dizia, observou ele,
que este doutor era um grande velhaco. Esta habilidade com que nos bifa a
pequena  prova de que voc nasceu com um sentido de mais.

No ouviu to alegremente o Padre
Barroso, que era considerado pessoa da famlia, esta notcia, que lhe foi dada
com o pedido de aprovao.

 Eu no tenho nada que
desaprovar, disse o padre, mas... a Clarinha gosta dele?

 Isso no se pergunta! exclamou
D. Joaquina.

O padre olhou para a sobrinha do
comendador; e no rosto dela leu uma satisfao to pronunciada, que no fez
mais do que encolher os ombros e dar os parabns  noiva e aos tios.

Mas nessa mesma tarde, achando-se
a ss com a moa, perguntou-lhe o padre:

 Que  isso, Clarinha? ento
aquele amor?...

 Aquele amor morreu, respondeu a
moa tristemente; era um amor sem esperana, e amores destes, ou morrem ou
matam. Era talvez melhor que me matasse; mas Deus quis que morresse. No me
queixo; obedeo ao meu destino.

O padre abanou a cabea.

 No, Clarinha, disse ele, esse
amor no morreu: tu ainda o sentes e isso  mau, minha filha;  mau que cases
com um homem, amando a outro...

 Oh! no! no! disse Clarinha.
Afirmo-lhe que morreu; e se no morreu, juro-lhe que h de morrer.

 Juras! pobre criana! sabes o
que ests jurando?

Duas lgrimas rebentaram dos olhos
da moa. Viu-lhas o padre; e cingiu-a ao peito.

 Clarinha, eu no consinto nisso.
Hs de casar com Jorge... Eu quero que cases com ele!

 Isso nunca! disse Clarinha. De
que me serviria ser mulher de um homem que no me ama, nem pode amar?

 Sim, Jorge est perdido,
murmurou o velho sacerdote com ar triste.

 Vou casar com um homem srio,
continuou a moa; no lhe tenho amor,  verdade; mas tenho-lhe certo afeto e
respeito; estou que seria feliz,  tanto quanto o pode ser uma pessoa
desgraada. Peo-lhe que nada diga a este respeito; far-nos-ia mal a todos.

Barroso abraou a moa.

 Clarinha, tu s uma boa alma.
Merecias ser feliz! A culpa disto  de teu pai. Se ele no te abandonasse,
talvez no viesses a amar teu primo, porque esse amor nasceu da convivncia.
Teu pai...

 Perdoe-lhe, disse a moa; meu
pai tem m cabea, mas  bom corao. Vamos; promete que no tentar desfazer
este casamento?

 Se o quer, prometo.

 Obrigada! disse a moa, beijando
a mo ao padre.

Foi este quem celebrou o
casamento. O bom velho tremia na ocasio de proferir as palavras sagradas.
Depois, quando a cerimnia acabou, disse ao noivo em voz baixa e procurando
reter uma lgrima que lhe tremia na plpebra:

 Faa-a feliz, que ela o merece.

Jorge assistiu ao casamento, fez
um cumprimento banal  noiva, disse quatro ou cinco graas chulas a alguns dos
rapazes que assistiam  cerimnia, e foi acabar a noite no Alcazar.

Saltemos agora uns onze meses.
Todos os personagens desta histria esto ainda vivos. O comendador continua a
jogar o gamo com o padre; a facndia de D. Joaquina tem perdido com os anos;
quanto a Jorge, desfruta a reputao de libertino criada  custa do pai.
Silvestre procurou todos os meios de arrancar o filho  carreira funesta em que
ele mesmo o lanara, mas era impossvel; a obra estava feita.

Alguma coisa havia conseguido
Aguiar; conseguira dar-lhe um emprego, a ver se ele contraa hbitos de
trabalhar. O rapaz viu no emprego mais uma fonte de renda e apenas lhe concedia
algumas horas vagas. Assinava o ponto s 9 horas (o que j era uma correo) e
retirava-se da repartio s onze. No faria isso sempre, para no acostumar
mal o Estado; deixava de l ir muitas vezes. No constava, porm, que nessas
folgas estivesse includo o dia primeiro do ms.

Marques era feliz; encontrara na
mulher o ideal que havia sonhado: uma boa caseira, afetuosa, cheia de desvelo e
respeito. Clarinha no era feliz; mas tambm no era desgraada. O marido era
um homem honesto, que vivia por ela e para ela, e procurava todos os meios de
lhe fazer uma vida de rosas. Doa-lhe,  verdade, uns longes de melancolia que
a moa nunca pudera apagar da fronte; mas isso, dizia ele, era natureza.

 Fui sempre assim;  meu modo.
Nunca me conheceu outra, creio eu.

  verdade que no, respondia o
mdico; mas se eu pudesse vencer esse modo...

 Eu sou feliz, dizia a moa com
um sorriso triste.

Uma noite, o comendador Aguiar,
que rarssimas vezes ia ao teatro, e tinha neste assunto as mesmas idias de
1840, resolveu ir ver uma pea no Ginsio. A mulher no foi; detestava o
teatro. Aguiar comprou o competente bilhete e entrou para a platia. No fim do
ato, saiu ao saguo e encontrou um amigo.

 Tu aqui? disse este.  coisa
rara.

  verdade, respondeu o velho.
Tambm sou gente; quis ver estas coisas novas. E tu?

 Eu ainda me no aposentei. Onde
ests?

 Nas cadeiras.

 Vem ao meu camarote.

Aguiar foi para o camarote do
amigo que era na segunda ordem. Levantou-se o pano e a pea continuou. No meio
do ato, abre-se a porta do camarote contguo quele em que estava o comendador,
e entra uma mulher. Pelo desgarre das maneiras e aparato do luxo, no era
difcil reconhecer nela uma das damas da moda. Voltaram-se para ela todos os
olhos, assestaram-se os binculos e lunetas, e durante uns cinco minutos o
espetculo no esteve no palco, mas na sala.  intil dizer que a dama annima
no tinha outro juzo, entrou no meio do ato para chamar a ateno de todos:
era uma vaidadezinha inocente, que seria ridcula, se no fosse um recurso de
ofcio.

Silvestre olhou para ela como toda
a gente. Logo atrs da dama entrou um rapaz elegante, com o rosto avermelhado,
e meio trpego.

Aguiar reteve um grito.

Era Jorge.

Trmulo e fulo de raiva, Silvestre
levantou-se e cravou os olhos no filho. Este, porm, no vira o movimento do
vizinho; correu os olhos pelos camarotes fronteiros e sentou-se ao lado da
dama, mas encoberto por ela.

Era o mais que ele podia conceder
ao decoro.

O comendador continuava de p, com
os olhos no filho, que ficou justamente em frente dele. Jorge, depois de
assestar o binculo  cena e alguns camarotes, assentou-se preguiosamente na
cadeira, e foi ento que viu o pai.

Estremeceu.

Silvestre no lhe tirava os olhos
de cima. Duas vezes Jorge afastou os seus, mas duas vezes os dirigiu de novo ao
pai, at que, levantando-se, pegou no chapu e saiu.

Aguiar no esperou que acabasse o
espetculo.

Voltou para casa, perguntou se o
filho j havia chegado; responderam-lhe que sim. Mandou-o chamar ao seu quarto,
e o rapaz no se deteve; foi ter com o pai e arrojou-se-lhe aos ps.

O comendador lanou-lhe em rosto o
seu procedimento, e declarou-lhe que, se no mudasse de vida, era obrigado a
p-lo fora de casa.

O rapaz retirou-se para o quarto
envergonhado, irritado, mas ainda no arrependido. No acusava a fatalidade que
o levou a encontrar o pai no teatro, onde nunca ia. Imaginou se seria denncia
de algum desafeto, fez mil planos e dormiu profundamente at  hora do almoo.

O velho Aguiar referiu ao padre a
cena do teatro, e pediu-lhe conselho para o caso em que o filho se no
emendasse.

O padre refletiu alguns instantes.

 No sei que conselho te d,
disse ele; o melhor  ver se o estrina se emenda. Queres que eu lhe fale?

 Sim, fala-lhe.

 A culpa  tua, comendador; tu
mesmo o perdeste com as tuas facilidades. No te disse muita vez, que essa
idia de o deixar viver  rdea solta era m? O resultado foi este.

O Padre Barroso mandou dizer a
Jorge que o esperava em casa. O recado causou algum espanto ao rapaz: Que lhe
teria de dizer o padre? Suspeitou logo a verdade.

Apesar da resoluo que tomou de
no aceder ao convite do padre, Jorge foi  casa dele. O padre j o esperava h
muito. A casa era modesta; os mveis singelos e encanecidos no servio.

O padre estava diante de uma
escrivaninha, sentado numa velha cadeira de couro, de alto espaldar; em frente,
tinha aberto um volume in-flio, que o bom velho lia com ateno e
recolhimento. No se moveu, quando entrou na sala o filho do comendador,
conduzido pelo criado. Fez um gesto a este, que se retirou, e continuou a ler
at o fim da pgina.

Depois fechou o livro, convidou o
rapaz a sentar-se ao p dele, e perguntou-lhe:

 Jorge, at quando quer continuar
esta vida?

Jorge no respondeu. O padre
contava com o silncio, e continuou:

 Seu pai fundava muitas
esperanas no senhor. Desvelou-se em lhe dar um meio de vida e uma posio na
sociedade. Tudo isto lhe desfez o senhor, entregando-se a uma vida libertina. Quando
seu pai conheceu o mal, este era quase irremedivel. Seu pai, entretanto, no
supunha que o senhor chegasse ao ponto de dar o espetculo de ontem  noite.
Imagine, se pode, a dor e a vergonha que lhe causou.

Calou-se o padre, por alguns
instantes, e continuou:

 Ainda  tempo; nem tudo est
perdido. Pode salvar-se; deve salvar-se.

 Sr. Padre Barroso, disse Jorge,
eu no nego que a minha vida tem sido um pouco livre; mas eu no fao nada do
outro mundo.

 Bem sei, bem sei, redargiu o
padre; tudo o que o senhor faz  deste mundo; e neste mundo  que se fazem as
piores coisas...

 Mas eu no fao nada que merea
emenda...

O padre fez um gesto de
impacincia.

 E o escndalo de ontem  noite?
disse ele.

 O que houve ontem  noite foi um
acaso.

 Um homem srio no se expe a
estes acasos.

Jorge franziu a testa.

 Oh! escusa de fazer gestos de
estranheza; eu sou velho, sou rude e sou sacerdote; tenho o direito de lhe
dizer a verdade. O senhor  um homem doido, e  o menos que lhe posso dizer.

O padre proferiu estas palavras em
voz alta e intimativa. Jorge sentiu, a seu pesar, a influncia da autoridade do
bom velho. No lhe respondeu. Barroso insistiu em obter dele a promessa de que
procuraria carreira e triunfaria dos maus hbitos contrados.

Jorge refletiu algum tempo e
respondeu:

 Pois bem, prometo emendar-me.

  de corao?

Jorge hesitou.

 , disse ele depois de algum
tempo.

No era de corao, mas o bom
padre era um homem sincero; acreditava firmemente na sinceridade dos outros.

 Tanto melhor, disse ele.
Emende-se, Jorge; ver que ganha com isso. Calcule a alegria que dar a seus
pais. Quando me lembra...

O velho suspirou.

 Quando se lembra? repetiu Jorge.

 Quando me lembra, continuou
Barroso, que voc podia ser hoje um homem feliz ao lado de uma mulher feliz...
de uma mulher que o amou...

 Uma mulher? perguntou Jorge.
Quem era?

O padre ia a dizer o nome de
Clarinha; mas lembrou-se repentinamente o perigo que podia haver nessa
declarao, em vista do atual estado da moa.

Calou-se.

 Quem  essa mulher, repetiu
Jorge?

O velho levantou-se sem responder.

Jorge olhava para ele e procurava
na memria algum vestgio que lhe indicasse a mulher a quem o padre aludia. No
se lembrou de ningum. Insistiu com o padre para que lho dissesse.

 De que serviria isso? respondeu
o velho sacerdote; o bem que ela lhe podia fazer  j impossvel...

 Impossvel?

 Sim, impossvel.

 Por qu?...

 Porque... morreu.

Jorge no acreditou que a pessoa
de quem se tratava houvesse morrido, segundo dizia o padre.

 Mas se morreu, objetou ele, que
mal h em dizer-me o nome dela? Espere... trata-se... querem ver... que essa
moa ... Clarinha?

O padre abanou a cabea.

 No, no me engano, disse
consigo o estrina,  ela!

 No importa saber quem seja,
disse Barroso; voltemos ao nosso ponto; o que l vai, l vai. Prometeu-me j
emendar-se; est disposto a emendar-se?

Jorge teve o pudor de no repetir
uma promessa que no estava disposto a cumprir; mas estendeu-lhe a mo com um
gesto que parecia corresponder  pergunta do padre.

 Deus o ilumine, disse este.
Vamos, faa que eu no morra sem o ver reabilitado. Fui eu que o batizei; no
me deixe morrer com a idia de que no pude salvar pela segunda vez uma alma
que me foi confiada.

O padre disse estas palavras com
paternal brandura, Jorge correspondeu a elas com uma aparncia de humildade.
Estava ansioso por sair. Despediu-se e saiu.

CAPTULO VII

BATALHA CAMPAL

No saiu convertido, como pensava
o austero velho; os conselhos e as promessas no lhe deixaram vestgios na
memria. Dentre tudo o que lhe havia dito o padre Barroso, uma coisa flutuava
no esprito de Jorge: era a idia de que a Clarinha o amara.

Se lho houvessem dito noutro
tempo,  provvel,  quase certo que Jorge levantaria os ombros e iria contar o
caso aos amigos mais ntimos. Ser amado por ela queria dizer um casamento, uma
vida menos solta, obrigaes srias, coisas que Jorge achava inconciliveis com
a sua razo. Mas agora mudava o caso de figura; a idia de que uma senhora
casada o havia amado em solteira, abria aos olhos de Jorge uma perspectiva de
esperanas e dava  sua vida um aspecto novo.

 Na verdade, dizia ele consigo,
esta vida j me enfada.  bom descansar um pouco; achar-lhe-ei depois mais
sabor. Um amor de romance tem toda a vantagem de ser uma coisa nova para mim. A
Clarinha amou-me; quem sabe se me no amar ainda?

Nestas e outras reflexes do mesmo
teor, gastou Jorge a noite inteira. Meter-se numa aventura de romance,
apaixonar-se pela prima, tinha at a vantagem de lhe dar aparncias de
reabilitao, pois forosamente havia de consagrar a isso o tempo que era agora
aplicado s loucuras da mocidade.

Com estas idias, acordou no dia
seguinte. Achou o pai ainda severo; e para comear a iluso que premeditava no
saiu de casa nesse dia. Recolheu-se ao gabinete, onde a me o foi encontrar a
ler. Desse dia em diante, adotou um programa de vida, que de todo ponto iludiu
a famlia e o padre. Silvestre recobrava a alegria que o sucesso do teatro lhe
fizera perder, enquanto o padre, cheio de sincero regozijo, perdoava de corao
as loucuras do rapaz. A felicidade ia renascendo naquela casa.

At ento, quando Clarinha ia
visitar os tios no encontrava o primo em casa, o que era para ela uma grande
felicidade. A primeira vez que l foi, depois dos acontecimentos que acabo de
referir, no s o achou em casa, mas at lhe pareceu mudado o tom das relaes
entre ele e os pais. Antes falavam dele com lstima, agora rejubilavam-se ao p
do filho prdigo. Marques no hesitou em manifestar o seu pasmo ao v-lo
restitudo ao lar domstico.

 Que quer? respondeu Jorge; estou
curado.

 Para sempre?

 Para sempre.

Marques alegrou-se com esta
alterao inesperada. No pensou assim Clarinha, que vira na presena de Jorge
um obstculo s suas relaes com os tios, no porque ainda o amasse, no
porque temesse por si, mas porque ele era uma recordao viva de um passado
ainda recente.

Jorge adquiriu hbitos de
dissimulao que no diziam com a sua idade ainda verde. Houve-se, em relao 
prima, apenas com a afabilidade ordinria; mas nem por gestos nem por palavras
manifestou o menor conhecimento ou suspeita do amor que ela lhe tivera.

No lhe escapou, entretanto, a
reserva de Clarinha, a comoo que a sua pessoa lhe causava, vagos indcios de
que realmente o amara antes de casar com o mdico.

 Muito bem, doutor, dizia Jorge
consigo; eis-te entrado em nova e melhor campanha. At aqui tudo foram
escaramuas e recontros. Ofereo-te a batalha campal:  necessrio vencer ou
morrer. Jorge comeou a freqentar a casa do mdico; Clarinha, ao princpio,
no lhe aparecia; mas o primo era sagaz e astucioso; deu-se um dia por
convidado a jantar. A moa no pde deixar de lhe aparecer. A reserva continuou
por parte dela, mas era difcil conserv-la diante das maneiras respeitosas, da
linguagem afetuosa do rapaz. O pecador parecia arrependido e glorificado no
cu.

De mais, Clarinha fez um
raciocnio singular e perigoso, conquanto nascesse da sua conscincia honrada e
pura. Imaginou que este fugir ao primo era uma prova de fraqueza, um receio
vergonhoso, e que mais servia os deveres conjugais afrontando a pessoa que
amara do que fugindo-lhe. Fugir-lhe era reconhecer um resto de poder que ela
vira estar j extinto.

No tardou, pois, que entre os
dois se estabelecesse a intimidade antiga, intimidade que alis fora sempre
aparente e superficial. Jorge iludiu-se a respeito do pensamento da moa;
julgou que o amor lhe havia renascido, e que ela dava o primeiro passo para
ele. Ainda assim, no julgou prudente arriscar um passo que podia ser fatal.

 Cansemos o inimigo, refletia
ele;  uma ttica boa, ttica de guerra.

E com este pensamento deixou
correr os dias sem romper o silncio que se impusera.

Jorge notava o desvelo da moa
pelo marido, o afeto que lhe manifestava, a paz que reinava entre ambos, e
invejava a sorte do primo. Pode-se dizer que s ento lhe comeou a raiar,
tenussimo embora, um raio de redeno. O espetculo da felicidade alheia
convidou-o a buscar a prpria felicidade, mas ele reconheceu que a nica
possvel era aquela, e aquela estava perdida para ele.

Um dia de manh, entre o charuto e
o caf, fez consigo a seguinte reflexo:

 Mas que estou eu a fazer? Isto
no pode continuar nesta situao;  preciso sair da inao. A rapariga j h
de fazer de mim uma tristssima idia.

Nesse mesmo dia, estando a
conversar com a prima, disparou-lhe  queima-roupa uma declarao de amor.

Clarinha levantou-se indignada, e
respondeu com um silncio de desprezo  declarao do primo; saiu da sala e
deixou-o s.

No desanimou o rapaz. Deixou de
l ir alguns dias; mas voltou com a famlia. Clarinha no pde deixar de vir 
sala. Jorge compreendeu que a prima no havia de referir ao mdico o que se
passara entre ambos.

 Bem, pensou ele, nem tudo est
perdido.

Com o tempo, foi renovando a
situao anterior. Um dia, escreveu uma carta  moa, e deixou-lha sobre o
piano na ocasio em que ela tocava. Clarinha debalde chamou por ele.

 H de abrir a carta, disse
Jorge.

No a abriu. Quando ele l foi
entregou-lha intacta:

 Primo, disse ela; reconhea na
minha bondade uma prova do afeto de parente que lhe tenho; porque  bondade ter
ouvido da sua boca palavras insultantes e de eu no ter, como devera,
comunicado a meu marido. Se alguma coisa, entretanto, pode reparar o seu erro 
esquecer-se de que eu existo e no voltar  minha casa.

 Mas por que razo  assim cruel
comigo? disse Jorge procurando dar  voz um tom de lstima e desespero.

Clarinha no respondeu.

 E todavia, continuou Jorge,
houve um tempo...

A moa levantou a cabea e cravou
nele um olhar de espanto.

 Houve um tempo em que o seu
corao palpitou por mim.

 Est dizendo uma loucura,
respondeu Clarinha empalidecendo; tratei-o sempre com estima; mas... A vem meu
marido; ouse repetir diante dele a afronta que me faz.

Marques vinha efetivamente no
corredor e entrou logo na sala. Clarinha levantara a voz nas ltimas palavras
para que ele as ouvisse; preferia uma soluo violenta; Marques, entretanto,
no ouvira as palavras da mulher; entrou alegremente na sala, e apertou com
efuso a mo de Jorge.

Jorge deixou de l ir trs dias;
no quarto dia entrou pela sala com a franqueza que a intimidade lhe dava, e que
Marques estabelecera como uma condio das relaes entre as famlias.

Marques estava no sof; Clarinha,
sentada em um banquinho a seus ps, olhava para ele com uma expresso to suave
de afeio e respeito, que o moo curvou insensivelmente a cabea. Mas foi
ento que, pela primeira vez, a serpente do cime lhe mordeu no corao.

 Entre, disse o mdico, vendo que
o primo parara  porta; no se assuste: so duas criaturas felizes, e felizes
um pouco por sua causa.

Clarinha olhou para o marido.

 Admiras-te? disse Marques 
mulher; foi ele quem me animou quando eu apenas ousava querer-te em silncio.

 A idia de escrever a primeira
carta,  qual no deste resposta, foi do nosso amigo Jorge.

 Ah! disse a moa.

E estendendo a mo ao primo,
acrescentou:

 Obrigada!

A expresso de felicidade com que
ela fez este gesto e disse esta palavra, encheu de jbilo o marido; enquanto
Jorge, despeitado e picado de cime, mal tocara os dedos da moa.

Esta, porm, ficara pensativa.

 No sabia ento nada naquele
tempo, dizia ela consigo; mas quem lhe confiara o meu segredo? O padre?...
Impossvel!... E contudo ningum mais o sabia; foi ele, foi. Com que fim?

CAPTULO VIII

DE MAL A PIOR

No  bom brincar com fogo. Jorge
conheceu dentro de pouco tempo esta verdade comezinha; ardeu na chama de que
to pouco caso fizera.

Mas esse fogo, bom  que se saiba,
no era o que purifica; o amor de Jorge no fora aceso no cu. Era fogo da
terra ou do inferno; paixo ardente, voluptuosa, insensata  mistura de
capricho, sensualidade e loucura.

A situao, porm, tinha mudado.
Jorge percebeu que o mdico o tratava com extrema frieza.

 Ela contou-lhe tudo, disse ele
consigo.

Procurou indagar a verdade, mas
como? Podia arranc-la  prpria moa, mas ela no lhe dava ocasio para isso.
No o recebia, quando estava s; falava-lhe em presena do marido.

Jorge indagava um meio de resolver
a crise em que se achava o seu esprito. A intolerncia das paixes criminosas
revelou-se nele com toda a fora; exprobrava a prima, odiava o primo; odiaria o
mundo inteiro, se o mundo inteiro lhe opusesse um veto  sua lastimvel
ambio.

Um domingo, estando no seu quarto
a revolver estas idias no esprito, apareceu-lhe  porta o padre Barroso.
Levantou-se para ir falar-lhe. O padre encaminhou-se para uma cadeira. Franziu
o rosto severo e os olhos torvos.

Jorge quis gracejar do aspecto do
padre; mas este o interrompeu dizendo:

 Jorge, no venho para rir, mas
para exortar, e, se preciso for, castigar. No se admire; eu posso castig-lo
referindo tudo a seu pai, que  um homem honesto. A mansido  apenas a crosta
do meu carter; no mago, est a justa indignao contra tudo o que ofende a
moral e a virtude.

 Mas eu j sou outro...

 No, disse o padre, est pior do
que estava. Antes nunca se emendasse.

Jorge compreendeu que o padre
aludia  sua atual paixo, e no fundo da conscincia confessou que realmente a
emenda, naquele caso, era pior que o soneto.

O padre esteve alguns instantes
silencioso.

 Sei tudo, disse ele.

 Tudo, o qu?

 Sei que o senhor ousou levantar
olhos para uma pessoa que devia merecer-lhe todo o respeito. Receio ter sido eu
a causa involuntria disto, mas o seu ato no se purifica ainda assim: fica
sempre infame! Ela contou-me tudo, e pediu-me conselho. Disse-lhe que referisse
tudo ao seu marido. No quis; era envergonh-lo sem necessidade, disse ela.
Curvei-me  sua opinio; mas eu tinha a minha, e ouvia a conscincia;
contei-lhe tudo.

 O senhor! exclamou Jorge,
levantando-se de sbito.

 Eu, sim; pois que tem? redargiu
o velho com placidez. Entendi que era o meu dever; escutei a minha conscincia.

Jorge mordia os beios, cheio de
clera.

O padre Barroso continuou:

 Ao mesmo tempo, pedi-lhe que no
fizesse escndalo; primeiramente, por si e por ela; depois, por seus pais que
so duas honradas criaturas. A sua pessoa no pesou nada neste pedido. Prometeu
e cumpriu; limitou-se a desprez-lo.

 Mas, enfim? disse Jorge com um
gesto de impacincia.

 Ela no aprovou o meu passo, a
princpio; receou que o conhecimento da verdade perturbasse a sua paz domstica
e a felicidade de seus tios. Mas quando eu lhe afiancei, e ela via, que nada
disso acontecia, agradeceu-me a iniciativa. Bem vejo que isso o mortifica; mas
tenha pacincia. Clarinha  uma pessoa digna de ser adorada como um anjo; rene
todas as virtudes de uma senhora. Perdeu o senhor aquele tesouro... sim, posso
diz-lo agora, j que o sabe; perdeu-o, porque ela o amava em silncio e o
senhor nada viu, to cego andava a por esse mundo de amores comprados, e
fteis prazeres.

Isto era revolver o punhal na
ferida. Jorge estava humilhado e irritado. Quis falar, mas o padre no lho
consentiu.

 Venho, pois, pedir-lhe, disse
ele, ou melhor, venho intim-lo para que no volte  casa de sua prima, e que a
esquea. H de fazer isto quer queira quer no queira. Afirmo-lhe que estou
disposto a tudo para defend-la.

Seguiu-se uma pequena pausa.

 Defend-la? disse afinal Jorge.
Mas ela no precisa de defesa: eu no lhe fao nenhum mal. Tenho eu culpa se a
amo?

O padre interrompeu-o.

 No falemos de amor, falemos de
dever. Est disposto a no voltar l, a no pensar mais nela?

 Pois bem, disse Jorge; estou
disposto a no ir l; quanto a pensar nela...

 Filho, tornou o padre, com
brandura; tambm se peca por pensamentos. Apague-a da sua memria, e ser
melhor que tudo. Quer um conselho?

 Qual?

 V para fora algum tempo.
Depois, estou certo de que vir abraar-me; porque saber ento de que abismo o
salvei.

CAPTULO IX

IDA E REGRESSO

A misso do padre irritou o jovem
namorado; mas algumas horas de reflexo bastaram para que ele visse realmente a
inutilidade dos seus esforos. Tinha tudo e todos contra si; era uma luta de
antemo condenada.

Ao mesmo tempo, a idia de que a
prima o amara, e o despeito de a no haver compreendido, vinham lanar no
esprito de Jorge um novo germe de desgosto.

O mais prudente era abandonar a
empresa.

A vaidade, porm, meteu-se no
meio, e este grande motor das aes humanas pode muita vez mais que todas as
razes de conscincia ou impulsos de corao. Jorge perguntou a si mesmo se
conviria abater as armas diante do perigo, s porque era grande, e confessar
uma dessas aberraes das sociedades polidas, julgava mais vergonhoso que tudo
mais. A vaidade respondeu que no. Mas como a vaidade pedia uma coisa, e a
realidade indicava outra, Jorge achou um meio-termo, e adotou justamente a
idia do padre.

 Em lhe constando que eu me
retiro por causa dela, pensou o moo, que vou para fora abafar a minha dor, h
de crer nela e a minha causa ganhar com isso, porque ela j me amou, e no h
de ter esquecido esse tempo.

Jorge saiu da corte no fim de
alguns dias, depois de ter obtido uma licena do emprego. Alegou ao pai que
estava sofrendo de fraqueza e precisava restaurar as foras. Aguiar no lhe deu
muito crdito ao pretexto; mas o padre teve meio de fazer que o comendador e a
mulher aceitassem as razes do filho.

 V, meu filho, disse o padre na
vspera da partida, vejo que me ouviu e que a voz da sua conscincia ainda no
estava extinta.

Pobre padre! Se ele soubesse que
isto era apenas uma arma! Um meio de tornar interessante o namorado repelido!

Jorge partiu.

 Diga-me c, padre; acredita que
meu filho esteja definitivamente curado?

A esta pergunta do comendador que
se preparava para jogar o gamo, na noite do dia em que Jorge partira, respondeu o velho Barroso:

 Creio que sim; estava muito mal;
mas o corao  bom; emendou-se; respondo por ele.

Clarinha, que naqueles ltimos
tempos parecia mais melanclica que de costume, quase ficou alegre com a
partida do primo. A sua afeio ao marido redobrou ento de intensidade, e a
causa disto era mais que tudo a inaltervel confiana que o mdico mostrara
durante os acontecimentos esboados acima.

A moa consultou o corao; nada
havia em relao ao primo.

Minto; havia alguma coisa; havia
uma sombra de desgosto, uma lembrana amarga, que o corao honesto da esposa
no poderia perdoar. A moa comparou a afeio respeitosa do marido, os
carinhos de que a cercava, com a fria e criminosa paixo do primo, e a
comparao foi toda em favor do mdico.

Nestes termos estavam as coisas,
quando o Dr. Marques adoeceu gravemente. Desde os primeiros dias a molstia
revelou logo o seu carter mortal. Longo foi o padecimento, talvez ainda maior
no esprito de Clarinha, a quem uma voz secreta dizia que ia perder o consorte.
A fim de a prepararem melhor para o golpe, foi necessrio dizer-lho. Clarinha
teve coragem para ouvir a verdade, mas era evidente a sua dor profunda. Aguiar
e a mulher foram para l; o padre acompanhou o enfermo com a assiduidade que
lhe permitiam a sua idade e os seus trabalhos.

Um dia, porm, quando menos se
esperava apareceu Jorge. Soubera da molstia do primo, e correra a toda a
pressa  corte. Foi a explicao que deu, mas no foi a verdadeira.

A verdadeira era que as saudades o
ralavam.

Quando chegou  cidade, soube da
molstia do mdico; foi a casa, onde no achou a famlia; mas soube ento que a
situao do enfermo era grave.

Correu para l.

O espetculo influiu no nimo do
estrina mais do que ele pensara. Junto da cama do enfermo estava a moa,
triste, mas resignada, indiferente ao que se passava em torno dela.

O doente olhou para Jorge e conheceu-o.

Estendendo-lhe a mo descarnada e
trmula, que o primo apertou, estendendo-a depois  sua prima, Clarinha no viu
o gesto do moo, ou no quis amargurar a alma do doente. Este abriu nos lbios
um ligeiro sorriso.

Jorge retirou-se.

A doena de Marques era mortal,
como disse; os mdicos davam-lhe apenas cinco ou seis dias de existncia. O
prprio doente conhecia o seu estado e preparava-se para morrer.

Este espetculo, porm, por mais
triste que fosse, no pde abafar no esprito de Jorge a influncia da moa.
Mas ento comeou para ele uma sensao nova. A presena da morte como que lhe
ia purificando a paixo. Ao ver a pobre esposa quase viva, toda entregue aos
cuidados de acompanhar at ao ltimo suspiro o companheiro de sua vida; ao contemplar
a dedicao e zelo com que o servia, as lgrimas silenciosas que derramava, as
viglias, as palavras de consolao, os afagos, tudo isso como que lhe acordou
uma fibra adormecida do corao, e o rapaz renasceu em si a casta flor dos
dezoito anos.

Algumas vezes, cabia-lhe fazer
quarto ao doente, e nessas condies achou-se muita vez a ss com a prima.
Ajudavam-se mutuamente nos cuidados que o enfermo exigia; mas quando este
fechava os olhos para dormir, ficavam ambos silenciosos, ela com os olhos pregados
no marido, ele com os olhos nela.

No foi sem custo, ainda assim,
que a moa consentiu na presena do primo; mas o tio insistiu e foi necessrio
ceder.

O pobre tambm no viu com bons
olhos a presena do rapaz; mas foi este mesmo quem lhe disse, logo no dia
seguinte quele em que chegara:

 H de reparar na minha estada
aqui.

 Sim, disse o padre.

 Juro-lhe que...

 No jure nada, tornou o padre;
respeite a morte;  s o que lhe peo.

A ltima hora chegou enfim.
Marques expirou nos braos da esposa. O desespero e as lgrimas da msera viva
faziam cortar o corao; todos tiveram fora para consol-la; Jorge no a teve;
saiu da casa e s voltou no dia seguinte.

CAPTULO X

O CAMINHO DE DAMASCO

Trs meses depois, estando o padre
Barroso em casa apareceu-lhe Jorge. Vinha alegre e respeitoso como nunca.

 Sr. padre, disse ele; venho
alegre, e posso ir daqui triste. Tudo depende do senhor.

 De mim?

 Do senhor.

 Vejamos.

Jorge sentou-se.

 Disse-lhe uma vez, comeou ele,
que estava curado das minhas loucuras.

  verdade.

 Mentia.

 Fez mal.

 Mentia, Sr. padre. Que quer? Eu
supunha ento que os conselhos da razo eram apenas ruins preconceitos, e que
eu s tinha razo contra todos. Agora, Sr. padre, afirmo-lhe que venho curado.

O padre sorriu.

 Bem v, disse ele, que o senhor
mesmo me d o direito de no acreditar.

 Sei, mas eu espero convenc-lo
desta vez.

E continuou:

 Quando eu adotei a resoluo de
ir para fora, levava ainda um pensamento mau no corao. Aparentemente cedia
aos seus conselhos; mas, no fundo da minha alma, era guiado por um interesse.
Voltei inopinadamente, porque a lembrana de... da pessoa que o senhor sabe, me
dominava o esprito.

 Adivinhei-o, observou o padre.

 Mas quando cheguei, continuou
Jorge, quando vi aquela divina criatura, aflita, melanclica, junto de seu
marido quase expirante, a prodigalizar-lhe todos os carinhos que a natureza,
que a religio lhe inspiravam, quando aquele solene espetculo me apareceu aos
olhos, posso jurar-lhe, Sr. padre, que nesse momento todo o meu passado se
desvaneceu e que um homem novo comea a palpitar em mim.

 Qu! disse consigo o velho; ser
este o mesmo Jorge!

Jorge continuou:

 No lho disse ento; quis ver se
me no enganava; se realmente amava aquela moa com o fervor da pureza que ela
merece. L vo trs meses; sinto ainda hoje o mesmo que ento sentia... Amo-a,
e peo-lhe que interceda por mim.

 Quer ento? perguntou o padre.

 Casar com ela.

 Deveras?

 Juro-lho!

O padre levantou-se e abriu os
braos ao moo.

 Muito bem! disse ele, muito bem.
Conte comigo, Jorge! Eu serei o advogado da sua causa. Bem dizia eu, ainda h
corao nesse peito. Nem tudo estava perdido...

Jorge correspondeu a esta efuso
do velho amigo, contando-lhe todas as suas esperanas e incertezas; disse-lhe
tambm que receava no ser atendido.

 Por qu?

 Eu sei! Ela talvez me no perdoe
o que lhe fiz...

 H de perdoar, disse o padre;
no o amar talvez; mas am-lo- mais tarde. Faa o senhor por si... deixe tudo
a Deus, que ama os arrependidos.

Jorge saiu da casa do padre
Barroso entre receoso e esperanado. Confiava, porm, no velho padre, e sabia a
influncia que ele tinha no nimo da moa. Demais, seu pai e sua me, quando
conhecessem a situao, influiriam em favor dele.

No queria Jorge um casamento sem
que o precedesse a aliana do corao; mas o que lhe parecia essencial era
convencer a prima de que ele desejava ser amado.

Am-lo-ia ela depois? There is the rub, como diz Hamlet.

Jorge foi direito para casa. Em
caminho, encontrou alguns amigos. Todos eles se espantaram da mudana do
companheiro.

 Adeus, anacoreta! dizia-lhe um.

 At que enfim! exclamava outro a
alguma distncia.

 Por qu?

 Ests plido. J sei; amores...

Alguns  os que lhe deviam algumas
somas  passavam de largo. Jorge nem os via; um s pensamento o levava: a moa.

No admira, pois, que a mesma
dama, j vista de relance no primeiro captulo desta histria, passasse por
ele, e o cumprimentasse sem que Jorge tirasse o chapu. A dama sentiu-se ferida
no seu amor-prprio, e  noite, entre dois conhecidos, no Alcazar, rezou uma
triste orao pelo estrina.

 Lembra-te, disse um dos
conhecidos, lembra-te que foi ele quem te deu a vitria em que andas.

 guas passadas no movem
moinhos, respondeu filosoficamente a dama. Desse o que desse,  um grosseiro.

O padre cumpriu a sua promessa;
foi ter com Clarinha. A bela viva recebeu o seu velho amigo com a efuso de
uma alma verdadeiramente afetuosa. Havia j uma semana que ele l no ia;
supondo que estaria doente, ia mandar l.

 Felizmente, apareceu, concluiu
ela.

 Doente no estou, disse o padre;
pelo contrrio, nunca estive to bom de sade. Sabe por qu?

 Por qu?

 Porque estive ontem com seu
primo Jorge.

Clarinha no respondeu.

 Est salvo, est curado, est
homem de bem. S lhe pesa uma coisa:  que voc lhe no perdoasse, Clarinha. H
de perdo-lo.

 Perdo-lhe tudo.

 No  assim; h de perdo-lo
sinceramente, com efuso, porque ele est verdadeiramente arrependido, e s
precisa do seu perdo para ser feliz como era, como devia ser ainda hoje se no
fora sua m cabea. Perdoa-lhe, sim?

 Bem sabe, disse Clarinha, que eu
no posso desobedecer-lhe. Dou-lhe o perdo que me pede.

 De corao?

 De corao.

 Trata-se, disse o padre, de
salvar uma alma. Qualquer recusaria intervir num assunto destes; eu sou
sacerdote; o meu dever  contribuir para a cessao do pecado. Jorge est
regenerado; mas qualquer coisa pode pervert-lo outra vez e para sempre.

Clarinha adivinhou o resto.

 H trs meses que morreu meu
marido, interrompeu a moa; d-me o tempo necessrio para chorar o melhor dos
homens. Quanto a Jorge,  uma alma que se no salva mais. Perdoei-lhe; eis
tudo,

A moa conservou-se inflexvel
nesta resoluo. Jorge no soube do resultado da conversa do velho sacerdote,
porque este no julgou acertado comunicar-lhe. Era talvez um resto de melindre.
Em todo caso, procurou consol-lo.

O velho Aguiar insistia para que a
sobrinha viesse morar com ele; ela no quis, seria estar perto do primo.

Jorge, entretanto, no perdeu
ocasio de a encontrar e ver. A presena, o respeito, as provas de dedicao, a
vida exemplar do moo, e alm do mais, certa reminiscncia que ficara no
corao da moa, tudo isso fez que se precipitasse o desenlace natural da situao.

Um ano depois da morte do Dr.
Marques, casavam-se os dois primos. A notcia no causou grande espanto na
sociedade equvoca, em que Jorge educara a sua mocidade.

 Meio perdido j estava ele,
disse galhofeiramente a dama a quem ele acompanhara no Ginsio na noite que l
o viu o comendador.

Quem o casou foi o padre Barroso.
No se pode imaginar a alegria do bom velho. Parecia aquilo obra sua. E era, na
verdade.

Um ms depois, estando ele em casa
de Jorge, contou este a impresso profunda que recebera nos cinco dias em que
assistira  agonia do mdico.

 Foi s ento, concluiu ele, que
eu comecei a amar.

O padre sorriu.

Nihil sub sole novum,
disse ele. H dezenove sculos aconteceu o mesmo a um homem ilustre que
perseguia os cristos. No caminho de Damasco, uma viso o converteu. Esse homem
era S. Paulo. Uniu-se  melhor das noivas, a Igreja, e oxal vocs se amem
tanto, como aqueles dois se amaram. Deus me perdoar a comparao, porque amar
 estar perto do cu.
