Conto, Um Almoo, 1877

Um almoo

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado
originalmente em Jornal das Famlias, 1877.

I

A manh era das mais puras,
frescas e transparentes manhs do nosso inverno. No havia sequer um retalho de
neblina; o cu estava azul e nu, o sol pacato, a temperatura deliciosa. O
Passeio Pblico convidava a ir gozar ali um pouco de ar e meia hora de
silncio; por isso mesmo estava deserto. Deserto, no. Havia ali um passeador
matinal, um s, mas justamente o nico de que precisamos para este caso
vulgarssimo.

Chamava-se este passeador Germano
Seixas, homem de quarenta e dois anos, mal trajado, plido e abatido. A passo
lento ia ele, cabisbaixo e triste, por uma das alamedas fora, desandando o
caminho logo que chegava ao fim, parando a espaos, fitando uma coisa no ar,
uma coisa invisvel que podia ser um problema ou um consoante, e era nada menos
que este dilema nu e cru: comer ou morrer.

Sim, leitor amigo, Germano Seixas
no come h vinte e quatro horas, e acha-se atualmente entre um almoo
problemtico e um suicdio certo. O estmago e a eternidade o solicitam com
igual persistncia. Ele cogita, indaga, esmerilha a possibilidade de acudir s
urgncias do estmago; mas nada v, nada sequer o ilude.

Numa das vezes que voltava a
andar, viu surgir-lhe em frente um sujeito conhecido; quis esconder o rosto,
mas no pde. Era tarde.

 Oh! Germano! disse o novo
passeante, que fazes aqui a esta hora?

 Eu?... eu...

 Eu qu?

 Ando tomando fresco...

 Pois est calor?

 Talvez... creio que sim...

 Ora essa! Eu ia agora passando
pela rua, vi-te a filosofar e entrei. H quantos meses no nos vemos?

 Uns oito, talvez...

 Upa! H mais. Mas, enfim, oito
ou dez, no importa.

O novo personagem era um sujeito
cheio, trajado com limpeza ainda que sem gosto, corado, satisfeito, em paz com
a natureza. Apesar de ser ainda muito cedo, trazia um palito na boca, sinal de
que almoara.

Seu nome era Jos Marques.

Germano olhava para o palito, com
que Jos Marques brincava  olhar de inveja e desespero. Mas o dono do palito
no dava por isso; extraa a boceta do bolso e tomava uma pitada.

 Queres?

Uma pitada a um que deseja um bife
 certamente a mais pungente ironia do mundo. Germano nem teve nimo de falar;
recusou com um gesto.

 Que tens, homem? disse Jos
Marques; acho-te assim um pouco...

Parou.

Seixas olhou para ele, para o
cho, para as grades, para os bambus, e s depois destes crculos e retas
murmurou a medo:

 Marques, eu estou... estou...

 Ests? Acaba.

 Adeus!

E deu alguns passos.

 Onde vais? clamou Jos Marques
acompanhando-o.

 Para a eternidade!

Jos Marques alcanou o infeliz
deitando-lhe a mo  aba da sobrecasaca. Germano no resistiu, mas no pde
encar-lo.

 Que  isso, homem? disse Jos
Marques com ar de amigvel repreenso. Morrer! Pois s to fraco, to
covarde...

 No  covardia,  misria, 
fome. Ouve-me. Desde ontem no como nada. Sou chegado a uma terrvel situao,
desesperada e morta. Minha vida tem sido uma luta impossvel com a fatalidade;
j no posso lutar; sucumbo. Voc pode impedir que hoje me atire  morte, mas
amanh, mas depois, um dia h de vir em que o meu destino tem de cumprir-se.

Jos Marques ouviu enfiado a
narrativa de Germano. Olhou para ele, e leu no rosto o comentrio das palavras.
A fome e o suicdio davam-se as mos naqueles olhos encovados e desvairados. Jos
Marques achou em si um bom sentimento, que exprimiu em tom rude:

 Ora vamos! No sejas tolo! Um
homem deve ser superior  fortuna, sem o que no pode ser homem.  preciso
contar com a Providncia...

 A Providncia! interrompeu
Germano.

 Sim, porque foi ela que me
mandou aqui. Um almoo! Pois a gente mata-se por um almoo! Anda comigo; eu
lutarei com a tua sorte, e venc-la-emos.

Seixas sentiu-se enternecido ao
ouvir aquelas palavras de Jos Marques. Aceitou a mo que este lhe estendeu e
apertou-a entre as suas. Na plpebra fatigada fulgiu uma lgrima de gratido.

 Marques! exclamou ele com a voz
trmula. Ainda tenho um amigo.

 Um amigo que vale por dez
homens. Anda da!

Marques puxou-o pelo brao e os
dois saram do Passeio Pblico. Em caminho, Germano referiu a Jos Marques
todos os seus infortnios daqueles dez ou doze meses. Era um fio interminvel
de desgraas e contratempos; tentara todos os meios de vida ao alcance de suas
habilitaes, havendo-se em todos com mais fervor que fortuna; ultimamente
servira de guarda-livros em uma loja de S. Cristvo, que faliu quinze dias
depois de l entrar. Vivia afinal de emprstimos e fiados. Mas isso mesmo
cessou; a ponto de achar-se entre a vida e a morte naquela funesta manh.

Jos Marques ouviu a narrao do
amigo sinceramente comovido. Interrompia-o para lhe dar nimo e confiana.

 Agora as coisas mudam, dizia
ele; eu vou corrigir tudo isso.

Entraram num hotel, onde Germano
almoou razoavelmente, combinando quanto possvel a discrio com as exigncias
do estmago. Os empregados notaram a intimidade de Marques com o maltrapilho, e
acharam singular que se tuteassem dois homens, um dos quais parecia no ter o
preconceito do leno de assoar. Mas, ao cabo de tudo, como o almoo era farto e
a paga certa, serviram a Germano com a mesma solicitude com que o fariam a
outro fregus mais apurado.

No corredor do hotel, Germano
disse a Jos Marques:

 Deste-me a vida; sinto agora que
era uma loucura o que ia fazer. Com que expresses te agradecerei tamanho
benefcio?

 Ora, adeus! redargiu Jos
Marques. Vou daqui  praa. Aparece daqui a duas horas no armazm.

 Sim.

 Onde moras?

 No Beco do Cotovelo.

 Bem; vai ao armazm daqui a duas
horas.

II

Duas horas depois Germano entrava
no armazm de Jos Marques. A esperana iluminava os olhos, at pouco antes
sombreados de suicdio. No obstante, entrou constrangido e envergonhado.

Jos Marques manteve a palavra e
desempenhou o papel que a Providncia lhe confiara naquela manh. Chamou
Germano ao escritrio, e a lhe ofereceu um lugar de guarda-livros em casa de
um seu amigo.

 Aceitas?

 Se aceito!

 Pois ests arranjado.

 Mas... como...

 No digas nada! No quero ouvir
observaes nem dar explicaes. Achei-te hoje  beira da morte por falta de um
almoo; dei-te o almoo. Mas como a situao pode repetir-se amanh ou depois,
ou em outro qualquer dia, ofereo-te, dou-te agora uma coleo de almoos, que
te ho de livrar da morte!

Jos Marques disse isto
batendo-lhe com a mo no ombro, e rindo do ar acanhado de Germano, que no
sabia se havia de olhar para ele, se para o cho.

 Sou amigo, no? perguntou
Marques rindo.

 Imenso!

 Um bom amigo, no ?

 Excelente.

 Amigo para as ocasies, porque
isto de fazer obsquios em circunstncias ordinrias no  grande mrito. O
mrito  faz-los nas ocasies graves e solenes.

 Justamente.

 Por exemplo, esta. Vi-te de
longe triste e cabisbaixo; entrei; soube que a causa da tua tristeza era no
teres comido ontem. Imediatamente acudi s duas precises que tinhas; comer
logo alguma coisa, e obter um emprego...

  verdade, meu bom Marques,
disse Germano; vejo que ainda te lembras de mim, que apesar da minha misria...

 Qual, misria!

 Vejo que, embora maltrapilho...

 Maltrapilho! exclamou Jos
Marques inspecionando a roupa do amigo. No ests finamente vestido, mas... mas
precisas de mudar isso...  verdade, precisas...

 Irei ganhar o meu primeiro ms.

 Oh! no te apresentes assim em
casa do Madureira. Chama-se Madureira o dono da casa para onde vais. No te
apresentes assim que no te h de acreditar.

 Entretanto...

 Arranjaremos roupa; no se h de
perder a viagem por falta de uma vela latina...

Jos Marques riu-se da graa que
achou em si prprio, empregando aquela imagem nutica, e levou o amigo a uma
casa de roupa,  Rua do Hospcio, onde lhe abriu um razovel crdito. No se
sabe o quantum; mas o novo guarda-livros no ousou ir alm de uma andaina
de roupa, no s porque tinha vergonha de abusar dos obsquios de Jos Marques,
como porque, examinando casualmente um segundo palet, viu o dono da casa menos
solcito do que quando ele escolheu o primeiro. Que importa? Um palet bastava
para trinta dias; rigorosamente sobrava.

Despedidos os dois, encaminhou-se
Seixas para o Beco do Cotovelo, com a roupa debaixo do brao, e a alma nadando
em gratido.

 Oh! dizia ele consigo, h ainda
almas generosas neste mundo! A caridade, a afeio, os bons sentimentos no
fugiram dele. Nobre Marques! No se envergonhou de apertar a mo e ajudar a um
antigo companheiro de balco, menos feliz que ele! Menos feliz, muito menos!
Ele est bem, pode liquidar, se quiser, ao passo que eu no tenho para comer. O
que so destinos! Deus queira que isto agora no seja simples aragem de
fortuna. Farei o que puder, e  a ltima experincia; se falhar...

O pensamento no ousou concluir a
frase.

No dia seguinte apresentou-se
Seixas em casa de Madureira e tomou posse do cargo. O patro simpatizou desde
logo com o guarda-livros, ou foi talvez prevenido pela narrao que Jos
Marques lhe fizera de seus infortnios. O certo  que o tratou com excepcional
benevolncia, correspondendo Seixas desde logo e estabelecendo-se entre ambos
uma amizade, que devia aproveitar mais tarde ao ex-suicida do Passeio Pblico.

 Ento, que tal parece o Seixas?
Perguntava Jos Marques trs dias depois a Madureira.

 Um excelente homem!

 No  verdade?

 Excelente; ao menos por ora a impresso
 esta.

 E continuar a s-lo.

 Zeloso, corts, inteligente...

 Vers;  uma prola. Se no
fosse eu, talvez a esta hora...

 Pobre rapaz!

 J te contei que o salvei da
morte?

 J, j.

 Pois  verdade, se passo ali
meia hora depois, era homem morto.

 Praticaste uma boa ao,
Marques.

 Oh!... No falemos nisso.

 E podes crer que ele te  grato.
Ainda hoje, perguntando-lhe eu,  mesa do almoo, se te conhecia h muitos
anos, falou de ti com um entusiasmo! um ardor!...

 Sim?

 No imaginas.

Jos Marques no escondeu, nem
procurou faz-lo, a boa impresso que lhe causara a notcia de Madureira.
Afagou as barbas, abotoou e desabotoou o palet, enfim expectorou este
aforismo:

 A verdadeira paga do benefcio 
a gratido do beneficiado.

 No h outra, opinou Madureira.
Infelizmente, so raros os agradecidos.

 Rarssimos, confirmou Jos
Marques. Eu, pela minha parte, tenho visto poucos. Mas no me engano com
aquele. O Seixas nunca se h de esquecer de mim. Nem  fcil. Tu eras capaz de
esquecer um homem que te desse a vida e o po?

 Nunca.

 Pois!

No fim do ms Seixas foi ter com
Jos Marques para lhe dizer que amortizara parte da dvida contrada na loja de
roupa. Havendo algumas pessoas presentes, no quis ele dizer logo ao que vinha;
Jos Marques apressou-se a cham-lo de parte, onde lhe ouviu a boa notcia.

 No havia pressa, observou ele.

 Convm pagar quanto antes. Todas
as dvidas devem ser pagas; esta mais depressa que as outras, porque  preciso
desempenhar a tua honrada palavra, e ao mesmo tempo mostrar que no lanaste a
semente do benefcio em terra estril...

 Quem te diz isso, homem? Ests
contente com o Madureira?

 Estou.

 Tambm ele contigo.

 Sim? Tanto melhor.

 Agora,  fazeres por ser bom
cavalheiro. Eu digo de ti o que devo e mereces, porque no entendo que a prova
de amizade consista somente em certos benefcios. Nem s de po vive o homem.
Vive de po e de crdito. O Madureira sabe o que s e o que vales.

 Obrigado, Marques! disse Seixas
estendendo-lhe a mo.

 Onde vais?

 Vou a casa.

 Espera um pouco...

 Se puderes dispensar-me era
favor.

 Tens algum negcio urgente?

 Urgentssimo.

Seixas saiu e dirigiu-se para o
Beco do Cotovelo, entrou em casa e l ficou at o dia seguinte. Era noite;
ocupou-se em apurar um assunto de que trataremos no captulo seguinte.

III

Seixas no fora sempre combatido
da fortuna. Tempo houve em que a cidade o viu brilhar entre os elegantes de
calas cor de flor de alecrim. Dotado de aceitvel figura, de uns olhos
insinuantes e vivos, feriu alguns coraes ingnuos, que em vo esperaram o
blsamo matrimonial. Muitos deles recorreram a outros; alguns ainda esperam
boticrio prprio. Um desses, em despeito das posturas cannicas e civis,
aceitou os conselhos de Seixas, curandeiro de m morte, que transviou o
irrefletido corao, de que tudo resultou uma menina gentil como os amores. A
menina e a me viviam em casa de uma velha parenta, casa que Seixas freqentou
algum tempo, mas de onde o arredaram os lances da fortuna.

Na vspera do dia em que Jos Marques o encontrou no Passeio Pblico, Seixas fora ver a sua Elvirinha, criana de
quinze anos, de quem se despediu com lgrimas, no meio de grande espanto da mais
famlia, que no atinou logo com a causa daquela aflio. Era a despedida
da morte. Arrancado a tempo do fatal abismo em que ia cair, Seixas lembrava-se
agora da filha, e sonhava uma famlia e uma casa. O sonho no combinava muito
com a realidade. Seixas compreendia perfeitamente que a sua sorte era ainda
mais precria que os recursos. Mas ao mesmo tempo uma esperana vaga lhe falava
no corao, voz consoladora ou prfida, a ltima felicidade dos desamparados.
Era esta voz que lhe contava antecipadamente as alegrias do futuro, dizendo-lhe
 guisa das feiticeiras de Macbeth:  Tu sers scio do Madureira!

A predio no era extravagante.
Madureira tratava-o com tamanha benevolncia e distino, que a idia de o
fazer seu scio podia nascer-lhe um dia de manh, sem pasmo para ningum.

Seixas no falou nisso a Jos
Marques. Ia v-lo todas as semanas, falavam de vrias coisas, mas nunca daquela
esperana acariciada no peito do guarda-livros.

As visitas de Seixas a Jos
Marques, hebdomadrias durante os primeiros trs meses, passaram a ser
quinzenais, depois mensais, depois casuais. Seixas melhorara a olhos vistos,
nas cores e no vesturio. Logo que pde contraiu de novo o vcio do charuto,
deixado algum tempo antes do projeto do suicdio. Jos Marques folgava em
contempl-lo... Nunca houve joalheiro que olhasse com mais amor e
desvanecimento para uma obra sua. Dir-se-ia que ele o inventara.

 Agora, sim! ests outro!
exclamava ele. Olhem-me estas bochechas! Quem diria que so as mesmas faces
encovadas e amarelas daquele pobre Seixas do ano passado? No te vexes de ser
gordo, homem!

 Pois eu havia de vexar-me?
murmurava o guarda-livros.

 Parece! ests assim no sei
como...

 So os teus olhos!

E logo que se separavam:

  insuportvel este Marques,
dizia Seixas consigo;  um verdadeiro lngua-de-trapos!

Um dia Jos Marques foi ter com
Seixas, a pedir-lhe para entrar de irmo em uma Ordem Terceira.

 No sei se posso agora faz-lo,
disse este; meus recursos...

 No so muitos, mas espero que
me no recuses isso;  um benefcio para ti...

Seixas cedeu; Jos Marques contou
mais um argumento para o caso das vantagens dadas pelo compromisso da Ordem em
favor dos que l metessem certo nmero de irmos. No mesmo dia em que Seixas foi proposto e admitido, Jos Marques procurou-o em casa, que j no era no Beco
do Cotovelo, mas na Rua dos Barbonos.

 Com que ento, tens pouco
recursos? disse ele logo que entrou.

 Bem o sabes.

 Magano!

 Que queres dizer com isso?

 Velhaco!

 Mas...

 Pelintra!

 Acaba!

 Ainda em cima dissimulado! J
no tens em mim um amigo na vida e na morte; esquivas-me; desprezas-me...

 Explica-te.

 No sabes nada? No sabes que o
Madureira...

 Que tem?

 Vejo que ignoras tudo. Pois fica
sabendo que ele quer dar-te interesse na casa...

 O Madureira?

 Disse-mo hoje. Escuso
acrescentar que o aprovei em tudo e por tudo... Ests contente? D c esses
ossos.

Jos Marques abriu os braos a
Seixas, que o chegou ao peito com a mesma ternura com que abraaria um jacar.
Mas, alegrando-o a notcia, havia em seu rosto uma expresso de bem-aventurana
que o amigo saboreou deliciosamente.

 Quando eu dizia que havamos de
vencer a sorte! exclamou Jos Marques.

Seixas no se deu por achado, a
primeira vez que esteve com Madureira; nem perdeu com isso. Da a dias,
Madureira comunicou-lhe o projeto, que o outro ouviu com o reconhecimento
prprio da ocasio.

Afigurando-se-lhe mais propcia a
estrela, Seixas resolveu definitivamente trazer para sua companhia a filha
Elvira e sua me. Antes de o fazer, exps todo o seu passado a Madureira, e
comunicou a inteno que tinha de consagrar pelas bnos da Igreja as relaes
que o corao atara entre ele e a senhora D. Lcia do Carmo. Aprovou-o o
negociante. Assim se fez, e um ms depois recebiam-se os dois na igreja da
Candelria, sendo padrinhos Marques e Madureira. A princpio Seixas s se
lembrara do segundo; mas este fez-lhe ver que era conveniente convidar
igualmente Jos Marques. O guarda-livros cedeu, e o casamento celebrou-se, no
sabendo os convidados qual dos dois era o noivo, se Germano Seixas, se Jos
Marques, to alegre andava este naquela noite.

A noiva tinha um ar de sogra; mas
a alegria no a podia haver mais juvenil. Aps longos anos de desamparo e
aflies, via-se enfim constituda em famlia.  certo que o devia menos ao
prprio mrito do que ao amor que Seixas tinha  filha e ao desejo de lhe
deixar um nome, e, se pudesse ser, algum peclio. Qualquer que fosse, porm, a
causa eficiente, era feliz e isso lhe bastava.

Assim postas as coisas e as
pessoas, vejamos agora os sucessos, que pem termo a esta curta, mas
substancial narrativa.

IV

Os meses correram com a velocidade
que s se sente de certa idade em diante, quando a velhice nos acena de mais
perto e as cs comeam a povoar a cabea e a barba.

Correram os meses, e mais depressa
correu Madureira para a sepultura, aonde baixou em certa manh de setembro,
depois de trs dias de molstias. J ento Seixas era seu scio. Aberto o
testamento, viu-se que o defunto, no tendo parentes, dispunha alguns legados e
institua seu herdeiro universal o feliz pai de Elvira. Este e Jos Marques
eram nomeados testamenteiros.

Seixas sentiu a morte do scio e
protetor; mas  fora confessar que a herana lhe suavizou grandemente a mgoa.
 esse um dos bons efeitos das heranas. Seixas conheceu pela ltima vez a
grande alma de Madureira.

V o leitor que estamos longe do
dia em que Seixas, cansado de esperar o almoo, resolvera ir com-lo na
eternidade. Agora era um comerciante apacatado e conceituado. Tinha famlia.
Quando ele pensava nisso sentia um tremor nervoso como de quem recorda o
terremoto de que escapou; mas ao mesmo tempo comprazia-se em recordar que de
baixo subira tanto. Um s ponto negro havia: era Jos Marques, que (na opinio
de Seixas) se constitura seu eterno perseguidor. Seixas rememorava a cena do
Passeio Pblico, at a chegada de Jos Marques; logo que Jos Marques entrava,
ele desviava dali o pensamento como de um crime. Agora no podia v-lo; padecia
s com encar-lo.

Jos Marques, entretanto, era-lhe
cada vez mais afeioado, e fazia-o sentir com franqueza. Nunca lhe pedia favores;
exigia-os, e era justo, porque o salvara da morte. Nem por isso Seixas o
convidara um dia de anos da filha. Quando Jos Marques soube disso ficou
consternado. No se deteve; foi dizer-lho. Seixas recorreu ao meio mais vulgar
e usado entre todos.

 No te convidei? disse ele.
Admira-me que o digas, porque eu prprio escrevi uma carta... No importa! Vai
l logo.

 Decerto que vou; mas sempre quis
dizer-te...

 Fizeste bem.

 Sim, era realmente de espantar
que tu me tratasses por esse modo. Podes ter defeitos; cada um de ns tem os
seus; mas ingrato, no! tu no s ingrato.

 Pois!

 No s. A que horas?

 Vai jantar.

 Vou, vou.

E foi.

Durante o jantar fez uma sade
nica, ao dono da casa, felicitando-se pela parte que o seu corao tinha
naquela festa de famlia. No foi adiante, mas disse o suficiente para fazer
empalidecer o pai de Elvira.

Logo que ele se despediu, 
meia-noite, Seixas disse  mulher:

  o homem mais aborrecido que
tenho visto em minha vida!

 Por qu? No me pareceu.

 No o conheces.

 Parece at amvel comigo e com
Elvira.

 Isso pode ser; mas sempre te
digo que nunca vi nada pior!

Jos Marques quase no convivia
com outras pessoas, alm da famlia Seixas. Era casado; mas s ia  casa jantar
e dormir. Alguns meses depois do jantar de anos de Elvira adoeceu-lhe a mulher;
Seixas no a foi visitar logo. Sabendo, porm, que a doente estava  morte, no
teve remdio seno ir l uma noite.

 Creio que est perdida, disse
Jos Marques ao amigo.

 Pobre senhora!

 Obrigado, Seixas  disse Jos
Marques com um suspiro. Vejo que s o mesmo amigo de outro tempo. Queria
pedir-te uma coisa; tua senhora podia ficar estas ltimas noites com minha
mulher?

Seixas ficou gelado.

 Eu sei! Ela anda tambm to
achacada!

 No parece.

 Anda.

 Mas, enfim, no est de cama.
Vou pedir-lhe.

Seixas no teve tempo de exprimir
a segunda objeo que j lhe danava nos lbios. Sua mulher no pde negar o
que lhe pedia Jos Marques, alegando razoavelmente que no tinha mais pessoa da
famlia.

Seixas foi obrigado a l deixar a
mulher e a filha, e a voltar s para casa.

 Os diabos o levem! exclamava ele
descendo as escadas de Jos Marques. Isto  um suplcio! Isto ... um inferno!
E tudo porque me fez um dia... o que faria qualquer outro que ali passasse e
soubesse da minha posio. O mundo no  um covil de tigres: a filantropia no
veio s de encomenda para ele. J no o posso tolerar.

A mulher de Jos Marques faleceu
no fim de trs dias. Como essa morte restitua a Seixas a mulher e a filha,
pode-se dizer que o antigo scio de Madureira gastou sem grande pena os doze
mil-ris do carro em que foi acompanhar a defunta ao cemitrio.

Entretanto, a morte da esposa de
Jos Marques veio apertar mais os laos que uniam os dois amigos, porque Jos
Marques, no tendo mais nenhum pretexto para estar em casa algumas vezes,
habitava mais a de Seixas que a sua.

Um dia liquidou o negcio,
despediu-se da praa, e foi o mais triste dia da vida de Seixas.

Jos Marques no vivia em outra
parte: era sempre na loja ou em casa do pai de Elvira. Esta e a me achavam-no
agradvel, e ele fazia o mais que podia para no contrariar essa impresso.
Seixas, porm, padecia (dizia ele) as dores cruciantes de um inferno. No lhe
falava horas e horas; s vezes nem olhava para ele. Se ria, e Jos Marques se
aproximava, fechava logo o rosto, com o mesmo ar como se lhe dissesse:  Meu
caro, no me rio para ti; tu aborreces-me; deves t-lo compreendido; salvo, se
s tolo, e o s na verdade.

Nada viu, porm, Jos Marques. Ele
estava to certo da amizade do outro, que o proclamava em toda a parte:

 O Seixas?  o meu maior amigo;
conhecemo-nos h longos anos; sempre o mesmo. Verdade  que de certo tempo em
diante deve-me tudo.

 Sim? perguntava o interlocutor,
qualquer que fosse.

 Tudo...

 Protegeste-o?

 Mais do que isso!

 Mas... ento?...

E se o interlocutor no insistia:

 Aqui em reserva; o Seixas esteve
um dia para matar-se.

 Que me diz?

 A pura verdade. Fui eu que o
salvei; dando-lhe algum dinheiro e o lugar em casa de Madureira.

 Estou pasmado!

 Mas, tambm honra lhe seja
feita. Nunca se esqueceu de meus benefcios; nunca!

s vezes acontecia, no meio deste
dilogo, surgir ao longe a figura de Seixas, a qual, ou desaparecia na primeira
esquina, quando era possvel faz-lo, ou apressava o passo ao acercar-se do
grupo, de maneira que passasse por ele, sem outra interrupo mais que um
cumprimento de chapu.

 Vem c, Seixas! dizia Jos
Marques neste ltimo caso.

 Vou com pressa; at logo!

Jos Marques ficava a olhar para
ele, e dizia ao outro:

 Sempre na labutao!  um homem
de truz.

 Oh! l isso !

 Bom pai de famlia... No,
senhor, no me arrependo do benefcio que lhe fiz.

Seixas, entretanto, andava
cogitando nos meios de fazer uma viagem  Europa. No se pode dizer que Jos
Marques fosse a causa disso; mas nas vantagens da viagem, entrava a da ausncia
deste. Uma s dificuldade havia; era o casamento de Elvira.

Elvira, a filha de Seixas, era na
verdade uma herdeira graciosssima, que ainda no sabia haver-se com as cassas
e as sedas de que a vestiam, ela, que passara os primeiros anos envolvida em
chita, algumas vezes rota. Mas era mulher, bonita e vaidosa; depressa se acostumou
s exigncias da nova posio. Tinha uns olhos e uns cabelos, negros como a
noite escura, uns olhos que traziam desvairados outros da mesma e de outras
cores. Mas s dois olhos eram felizes; eram os olhos do novo guarda-livros da
casa do pai. Este empregado amava tanto a filha do patro, como o leitor ama a
rainha Pomar; a faculdade mestra de sua organizao era a do negcio. Viu em
Elvira uma herdeira bonita, e atirou-se a ela; nada mais.

Seixas percebeu o namoro e
aprovou-o mentalmente; esperava que o rapaz a pedisse para consentir logo; mas
este hesitava ainda, ou receoso do resultado, ou desejoso de fortalecer mais a
sua posio. No foi ele, porm, o nico ferido pela seta do amor. Jos Marques
sentiu-se igualmente tocado da misteriosa arma. Velhote ainda fresco e bem
disposto, no pde nem quis resistir ao ferimento, nem levou a autora 
polcia; rendeu-se-lhe aos ps. Elvira deu pela vtima antes mesmo que esta
desse por si.  privilgio comum a todas as mulheres. Um homem, quando acontece
ser amado por uma senhora, sem iniciativa dele, quase precisa que lhe vo levar
a notcia  casa; a mulher  a primeira que v incndio na casa do vizinho.

Viu Elvira o incndio e deixou-o
arder. Jos Marques, porm, foi pedir  moa um pouco da aguada da sua
benevolncia para atalhar o mal. V a leitora que estamos em pleno pays du
tendre. No lhe pediu ele com a boca, mas com os olhos; Elvira entendeu e
riu. Ele pensou que o riso era afirmao e levantou as mos ao cu.

 Quem diria que aquela santa
seria to cedo substituda! exclamou Jos Marques dentro de si.

Depois cogitou. Cogitou e hesitou.
Hesitou, mas venceu, isto , disps-se a casar.

 Diro muita coisa de mim, pensou
ele; mas ho de levar em conta as verduras de uma mocidade prolongada.

Verduras!

Assim disposto, convencido e
resoluto, foi Jos Marques ter com o Seixas.

 Tenho uma coisa para te pedir,
disse ele.

 Fala.

 Uma coisa sria.

 Pois fala!

 Muito sria. Que pensas de mim?

 O que penso?

 Sim; que te parece a minha
idade?

 Respeitvel.

 Justamente: uma idade
respeitvel, isto , no caio de maduro.

 Oh! nem eu!

 Nem tu. De maneira que se te
dissessem que eu me ia casar, no te admiravas?

 Casar!

 Responde.

Seixas hesitou um instante.

 No me parece, disse ele, que a
coisa fosse de todo desarrazoada. Devo, contudo, dizer-te que no posso ser
padrinho... Ando agora muito ocupado.

Jos Marques sorriu  socapa.

 Nem  para isso que te convido.

 Ah!

 Convido-te para coisa melhor;
convido-te para pai.

 Pai!

 Pai da noiva.

 Pai da noiva!

Jos Marques abriu os braos.

 D c esses ossos! exclamou. Eu
restitu-te a vida um dia; tu vais restituir-me a felicidade domstica.

Seixas comeava a ter umas
suspeitas da realidade.

 Explica-te! disse ele.

 Peo-te a Elvira.

Seixas no caiu das nuvens, porque
j vinha a meio caminho; mas ficou consternado. A consternao era uma prova de
simpatia, a ltima que ele lhe podia dar. A idia de Jos Marques parecia-lhe
que frisava a demncia. Depois da consternao teve vontade de rir; mas
conteve-se. Conteve-se, levantou os ombros, e no respondeu ao pretendente; nem
o poderia fazer se quisesse, porque este entregara-se todo a uma descrio
vivssima do afeto que a moa lhe inspirava, e da ambio que tinha de a fazer
feliz.

 Meu caro Marques, disse enfim o
pai de Elvira, serei franco. No te posso dar minha filha.

 No?

 No posso.

 Mas por qu?

 Tenho outras idias.

 Ser possvel? Parece-me contudo
que... Ests brincando, decerto.

 No estou; destino-a a outro.

 Quem quer que seja, meus
direitos so anteriores aos dele, porque esse com certeza no te deu nunca
provas de amizade, pelo menos do quilate das que te dei.

Seixas, levantou os ombros segunda
vez, com tal expresso, que no havia duvidar. Jos Marques ficou abatido.
Murmurou um queixume, que o outro ouviu assobiando, e despediu-se.

 Um homem a quem dei o po! dizia
ele ao entrar em sua casa.

No dia seguinte recebeu uma carta
atenciosa e quase amigvel de Seixas, pedindo-lhe desculpa de no poder
consentir no que ele pedira, pelo motivo j exposto, acrescendo que Elvira no
aceitara o casamento com ele; protestavam, no entanto, a sua eterna amizade,
esperando que o incidente no romperia as relaes que entre ambos existiam. A
carta era inspirada pela mulher de Seixas que no desejava magoar o pobre
velho. Jos Marques leu-a e enterneceu-se. Escreveu logo uma resposta longa e
amistosa; mas resolveu afastar-se da casa de Seixas durante algum tempo.

Sabendo, dois meses depois, que
Elvira ia casar, sentiu-se picado de despeito, e abriu-se com alguns amigos
censurando o casamento, e dizendo que algum podia haver com direitos mais
slidos e antigos que os do guarda-livros.

Logo que Elvira casou, volveu ele
a freqentar a casa de Seixas, onde jantava freqentemente e passava a maior
parte do dia. Seixas j mal podia toler-lo. Os meses passaram, depois os anos;
a velhice foi tornando Jos Marques pouco andarilho. A casa de Seixas era j a
sua habitao usual. Ningum o via comer em outra parte.

 No tenho filhos nem mulher,
dizia ele; vocs sero a minha famlia.

Seixas no respondia nada.

 Sabes que mais? disse Jos
Marques um dia; estou com minhas ccegas de vir morar para aqui.

 A casa  pequena.

 Qual! Eu acomodo-me bem num
canto. Podia ir morar com outro; mas, confesso, ningum me merece tanto como
tu, nem h amigo com quem eu possa falar com esta liberdade que uso contigo...
Eu considero-te, por assim dizer, uma obra minha; e estou certo de que no s
mais amigo de outro. Sei que s grato, que no te esqueces nunca um benefcio.

Foi morar com a famlia de Seixas.
O que este sentia no era j aborrecimento, era dio. Deu-lhe um quarto escuro,
em um recanto da casa, onde Jos Marques se acomodou. Seixas recebia em casa
alguns amigos, que ali iam jogar o voltarete ou palestrar. Se faltava um
parceiro, Jos Marques era convidado a supri-lo, mas nada mais. Nem por isso
lhe dava o melhor lugar  mesa do ch, onde ningum fazia caso dele. Jos
Marques, entretanto, no se fartava de elogi-lo como homem grato, a quem ele
matara a fome e salvara da morte.

  um benefcio de que nunca me
hei de esquecer, acrescentava ele.

Um dia adoeceu, mas to
infelizmente que j no tinha nada do que possura, em conseqncia do incndio
de duas casas, da morte de alguns escravos e da falncia da companhia de que
ele tinha duzentas aes. Acrescentou a esta desgraa, estar Seixas preparado
para uma viagem  Europa. Jos Marques foi para o hospital de sua Ordem, onde
faleceu. Seixas, que ainda no havia embarcado, mandou dizer uma missa, no sei
se pelo repouso do defunto, se em ao de graas. O corao no falou, mas
pensou isto:

 Morreu um dos homens mais
insuportveis que tenho conhecido. A terra lhe seja leve!
