Conto, Um Quarto de Sculo, 1893

Um quarto de sculo

Texto Fonte:

Relquias de Casa Velha, de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente
 em A Estao, 15 de agosto de 1893.

CAPTULO
PRIMEIRO

Eram quatro horas da tarde.
Oliveira e Toms conversavam  porta da casa do Desmarais, Rua do Ouvidor, ano
de 1868, quando passou do lado oposto uma senhora, vestida de preto. Oliveira
disse a Toms:

  a viva Sales; espera.

E atravessando a rua, foi falar 
viva Sales, cinco a seis minutos apenas. As ltimas palavras foram estas:

 Mas no posso contar com a
senhora?

 Mana Rita est constipada; se
ela ficar boa, vamos.

 Vou rezar para que fique boa.

 Os hereges no rezam, replicou a
viva sorrindo e despedindo-se.

Oliveira tornou  porta do
Desmarais. Toms seguiu com os olhos a viva, at que ela dobrou a primeira
esquina.

 No  possvel, disse ele.

 Que  que no possvel?

 Essa viva...  viva de um
mdico, um doutor Joo Sales?

 Isso.

 D. Raquel?

 Exatamente.

 Filha de um conselheiro de
guerra?

 Xavier de Matos. Conheces?

 Sim, conheo, isto , conheci.
Foi h muitos anos. Est mudada.

 Um pouco mais gorda.

 Conhecia-a magrinha.

 Mas no est mais velha. Queres
v-la, queres jantar com ela, l em casa, sbado?

 Ela vai?

 Prometeu que iria, se a mana
ficasse boa.

 Sim, Mariana, mais velha que
ela.

 No, Rita, mais moa. A mais
velha morreu h anos; era casada com um deputado do Norte. A mais moa no
casou. Vivem juntas.

 Vou.

 Seis em ponto.

 Em ponto.

 Bem, agora que a viste, que tens
algumas notcias, que vais jantar com ela e conosco, sbado, s seis horas em
ponto, quero que me digas tudo ou s metade, o que puder ser contado.

 Tudo  nada, respondeu Toms.
Que diabo de idia  essa?

 Meu caro, quando eu me despedi
dela, tu no me viste chegar ao p de ti; ias atrs dela com os olhos, com os
ouvidos, com tudo. O corao batia-te que se ouvia c fora como o meu relgio
de parede bate as horas, nos primeiros dias da semana, por estar de corda nova.
Relojoeiro, desfaz o teu relgio.

Toms sorriu, mas no sorriu bem;
parecia acanhado. Oliveira no soube ser discreto. ntimos desde a Faculdade de
Direito de S. Paulo, onde se formaram, foram confidentes um do outro, at o dia
em que a vida os separou; novamente ligados, Oliveira cuidava estar no mesmo
ponto em que a vida os deixara antes. Toms, pela sua parte, vacilava.
Evidentemente, havia alguma coisa que dizer.

 Tudo  pouco.

 Esse pouco.

 Gostei dela em solteira, mas foi
coisa que passou, como outras. Sabes que ns, por esse tempo, namorvamos a
todas.

 Mas nunca me falaste desta.

 Provavelmente, falei; mas eram
tantas! Bom tempo, Oliveira! Era melhor que isto de hoje com os nossos bigodes
grisalhos, tu pai de filhos, eu solteiro desamparado, quarenta e quatro anos
no lombo; tu tens mais trs.

 Mais dois.

 Creio que j foram quatro, mas o
tempo diminui tudo, comeando por si mesmo.

 Vai para o diabo. Quarenta e
seis, feitos em maro.

Trocaram ainda algumas palavras, e
despediram-se. Oliveira meteu-se no carro que estava no largo de S. Francisco
de Paulo e foi para Andara. Toms meteu-se na gndola e guiou para o Catete.

CAPTULO II

Toms de Castro Rodrigues tinha
realmente alguns fios de prata nos bigodes e nos cabelos; vieram-lhe cedo e
tendiam a multiplicar-se. Bonita figura, bem posta sobre uns ps pequenos,
elegante com certa graa do outono, dava ainda um noivo decente. No casara por
no achar noiva que o quisesse, dizia ele; mas, realmente, por causa de uma
paixo da mocidade, esta mesma viva Sales que passou agora na Rua do Ouvidor,
ento Raquel, simples Raquel.

No tomes isto ao p da letra,
para me no acusares de romantismo.  certo que ele prometeu no casar nunca,
depois da paixo de Raquel; mas, no foi precisamente a paixo que o deixou
solteiro. Esta doeu-lhe por muito tempo, f-lo empreender uma viagem  Europa,
onde se demorou quatro anos. Os quatro anos, porm, no foram gastos em suspirar. O tempo e a distncia depressa o fizeram sarar; a prpria vida  que o confinou na
solido. Solido fcil, alis, composta de prazeres, viagens, distraes
amorosas e outras. Quando se afastou da Europa, tornou para o Rio de Janeiro,
onde assistiu  morte do pai, que lhe deixou todos os seus bens. Toms era
filho nico. J ento Raquel, tendo casado com um negociante de Pelotas, havia
partido para o Sul. Toms comeou a advogar; parece que defendeu algumas
causas, perdeu-as todas, ou quase todas. No fechou a banca; mas achava meio de
no se meter em muito trabalho; este foi naturalmente fugindo, de maneira que,
em pouco tempo, acabaram os clientes. A banca era pretexto para ter um lugar de
descanso e conversao, e dar emprego a um servente.

Assim se passaram trs a quatro
anos. A Europa entrou a fazer ccegas ao advogado sem causas; mas o amigo
Oliveira, j ento casado, deu-lhe de conselho que entrasse na poltica. A
idia de ser ministro foi talvez o nico motivo de aceitao deste conselho por
um homem que no tinha partido nem inclinaes polticas. Na Faculdade
escrevera e falara nas liberdades pblicas, no futuro dos povos, nas
instituies democrticas, tudo isso, porm, sem convico profunda nem
superficial, um simples uso, uma espcie de orao necessria. Concluindo o
curso, no pensou em libertar nem oprimir os povos. Agora a perspectiva
ministerial fez alguma coisa; podia ser at que ele desse um bom orador, tendo
sido dos melhores de seu tempo em S. Paulo.

Oliveira arranjou-lhe a cadeira,
por intermdio de um parente ministro; aproveitou-se uma vaga, e Toms entrou
na Cmara. No distrito que o elegeu ficou o seu nome execrado; disseram-lhe
todas as coisas feias, ambicioso vulgar, intruso, lacaio de ministro, gatuno, e
besta. No  diploma que ele leva aqui;  uma gazua, escreveu um jornal.
Toms quis rejeitar o diploma; no tinha a ambio necessria, ou qualquer
sentimento equivalente, para suportar todo esse desejo de injrias; mas
Oliveira riu-lhe na cara, disse-lhe que no fosse tolo e ficasse; que os
autores da palavrada no sentiam nada do que diziam, era a irritao prpria da
pretenso de outro candidato. Toms obedeceu e entrou na Cmara.

No foi ministro, proferiu dois
discursos, aborreceu-se ao fim de algum tempo; cinco anos depois fazia outra
viagem  Europa. L esteve, tornou a ir e regressou agora, h quatro meses, sem
carreira, sem ambies, sem famlia. Conservava a riqueza, isso sim, no era
gastador, vivia das rendas.

Resta dizer da paixo que primeiro
o levou a andar por esse mundo. J notei que, indiretamente, foi ela que o
impediu de casar.  possvel que, se houvesse de fazer vida regular, casasse e
fundasse famlia. Raquel tinha vinte anos, quando ele a viu pela primeira vez,
em um baile do Cassino Fluminenses. Era linda entre as lindas. No lhe
parecendo que ela o rejeitasse, buscou relacionar-se com a famlia. Houve da parte
dele confiana demasiada; desde que comeou a ir  casa dela, Raquel
retraiu-se. Mas isto mesmo tornou mais forte a paixo do rapaz,  ou antes, foi
isso que verdadeiramente a gerou. At ento o sentimento no passava do tom
mdio e comum de tantos amores que acabam em nada ou em casamento. Que motivo tinha Raquel para aceit-lo a princpio e retrair-se depois? Talvez a
lua o explique, talvez o vento. No foi o mesmo que teve, mais tarde, para
aceit-lo novamente; aqui foi a piedade. Em verdade, a paixo do moo era tal
que ela entendeu de bom aviso dar-lhe novas esperanas, e acabar casando. Pode
ser que fosse assim, se ela no adoecesse da a algumas semanas, indo para
Minas, convalescer. Antes de concludo o prazo, Toms correu a visit-la. Esse
encontro, aps a ausncia e a molstia, devia desengan-lo. Raquel
desacostumara-se de o ver, no teve saudades, no lhe escrevera apesar das
cartas dele, e o acolhimento foi apenas polido, seno pior. A piedade gastara
as foras na tentativa de um amor que no queria nascer. Toms voltou
desesperado.

A verdade parece ser que Raquel
era, mais que tudo, desconfiada e tmida. Pelo mesmo tempo em que Toms a cortejava, era pretendida por mais dois homens, e essa competncia produziu
efeito contrrio ao que se devia supor. Em casa, Raquel era chamada esquisitona.
Acresce que um dos dois pretendentes, depois de desenganado, casou com outra
moa, amiga dela, sem intervalo de dois meses. Essa facilidade de passar de uma
a outra mulher f-la ainda mais tmida e desconfiada. Tinha medo de
entregar-se. De resto, foi a prpria violncia do amor de Toms que o perdeu.
Raquel achou a nota excessiva e teve medo. A separao fez-se com dor para ele,
naturalmente sem saudade para ela. Nenhum pretendente os separou. Foi s depois
que apareceu o negociante de Pelotas, sem paixo, apresentado pelo pai, como
moo de muito futuro, e srio. Sales tinha trinta anos. Raquel aceitou-o sem
combate nem entusiasmo; casou e partiu. J Toms estava na Europa.

Sales, negociante de Pelotas e
doutor em medicina, liquidou a casa no fim de poucos anos e veio para o Rio de
Janeiro. A idia dele era viver uma vida elegante, participar de todos os
prazeres da alta roda da capital. Contava com o papel eminente que caberia 
mulher, agora mais bela que nunca. Assim foi. Em poucas semanas, em trs meses,
o nome de Raquel andava em todas as bocas, e a pessoa em todos os bailes e
teatros. Toda a gente a conhecia na rua. Sales comprou uma carruagem e uma
parelha de cavalos ingleses. A primeira modista era dela. No eram dela as
primeiras modas porque vinham feitas da Europa; mas entre as primeiras
divulgadoras de um corte, de uma fazenda ou de um chapu, estava a bela Raquel,
 ou a bela Sales, como iam dizendo alguns, at que este nome se generalizou.

Pouco mais de um ano bastou a
cansar o marido. Os hbitos do comrcio ou da provncia,  os dele, ao menos, 
no se podiam casar com a vida agitada que ele mesmo quisera e escolhera. Os
bailes pareciam-lhes tristes, ao cabo de uma ou duas horas. Quando havia jogo,
Sales atirava-se s cartas, enquanto a mulher valsava ou polcava. Gostava mais
do teatro, e particularmente do teatro lrico; mas, se a primeira e segunda
estao o encantaram, a terceira entrou a aborrec-lo. Em casa, recebia bem e
estava mais a gosto; mas tudo somado, a realidade da vida elegante no
correspondia  expectao. Alm do mais, para um homem afeito s lidas do
comrcio, a vida ociosa era pesada e vazia. No sabendo que fazer do tempo,
Sales lembrou-se de exercer a medicina. Curava de graa; no lhe faltavam
doentes, e atrs deles a reputao. Assim passou alguns anos, at que ele
prprio adoeceu, e, mais infeliz que os seus enfermos, sucumbiu.

CAPTULO III

No sbado marcado, Toms acudiu a Andara,
onde j achou a viva. Oliveira tinha anunciado a vinda do amigo, mas nem
ento, nem quando este chegou, houve da parte de Raquel a menor emoo. Ela
falou ao namorado de outros dias, como se nada houvesse passado entre ambos, em
bem ou em mal. Oliveira f-los sentar,  mesa, ao p um do outro; mas a
vizinhana no alterou a disposio da viva.

Toms achou-a ainda bela, e, a
muitos respeitos, melhor. Trinta e sete ou trinta e oito anos  o que devia
ter. Era conversada, interessante, atenta, falando de tudo e bem, sem excesso,
sem impertinncia, calando a tempo, tudo isso com uma boca fresca e uns olhos
capazes de paixo e de mando. Assim pareceram eles a Toms, que estava comovido
e ia-se sentindo acanhado. Para um homem vivido, o estado era inexplicvel, se
no fora a situao especialssima. Ele sups, e qualquer pessoa o suporia, que
o longo celibato e a diferena dos tempos o teriam armado contra essa senhora,
e foi contrrio. J no falo dos termos da separao de outrora, que eram um
atrativo mais, no diminudo pela viuvez. A viuvez era antes um pico.

Raquel demorou-se pouco. A irm,
que estava presente, embora restabelecida, no podia apanhar sereno e a noite
esfriava. Foi a razo dada pela viva Sales para sair e no cantar, como lhe pedia
Oliveira.

 Uma s daquelas msicas
espanholas, que a senhora canta com tanta graa.

 Deixei a graa em casa; fica
para outra vez.

A mulher de Oliveira ofereceu-lhes
pousada por uma noite. Era impossvel que D. Rita sasse; podiam ficar; iria lev-las
no dia seguinte. Raquel no aceitou nada e despediram-se s nove horas. Toms
no ousou apertar fortemente a mo que ela lhe estendeu,  despedida, posto que
esse fosse o seu desejo; tocou-lhe apenas nos dedos. Entretanto, esperava que
ela lhe oferecesse a casa, e Raquel no lhe ofereceu coisa nenhuma.

Oliveira deu o brao a D. Rita,
at o carro, deixando ao amigo a fineza de ir com a viva. Toms aproveitou o
favor. Entre a casa, que ficava no centro de uma chcara, e a rua, havia cerca
de trinta passos; Toms f-los compridos como lguas, sem achar uma palavra que
dizer. Sentia o brao dela no seu, francamente pousado, sem cerimnia nem medo,
e a sensao que isto lhe dava ainda mais lhe atava a lngua. Enfim, chegaram
ao carro.

 Obrigada, disse-lhe Raquel
estendendo a mo.

Quando o carro partiu:

 Que tal a achaste? perguntou
Oliveira.

 Achei-a bem.

 Estavas plido.

 Eu?

 Deixa ver a tua mo; est fria.
Seriamente, tu sentiste alguma coisa.

 Coisa nenhuma; tive recordaes,
mas, aos quarenta e quatro anos, as recordaes so como brinquedos velhos e
quebrados. Achei-a elegante. Queres que te diga? Mais distinta que em solteira.

 Mais senhora, mais tranqila. O
que tu queres dizer  que, em solteira, dava-te as mos para que as beijasses.

 Nunca lhe beijei as mos.

 Nunca! Nem os olhos?

 Menos ainda os olhos. Era muito
arisca.

Tinham subido a escada de pedra, e
parado  porta da sala de visitas. Oliveira pegou na mo do amigo, e, depois de
alguns segundos:

 Se resolveres casar com ela,
fala-me, disse.

 Casar?

 Fala-me, repetiu Oliveira.

 Tu ests tonto...

 No  conselho que te estou
dando; digo-te s que, se resolveres, estou pronto a servir de terceiro. Faz-se
isto aos amigos velhos. Tu ests velho.

 Um pedido; no digas nada  tua
mulher.

 De qu?

 Do que houve entre mim e Raquel.

 J sabe. Contei-lhe tudo hoje de
manh; mas descansa,  discreta. Anda tomar uma xcara de ch; tens as mos
frias...

Toms foi acabar a noite em um teatro.
No perdeu o sono, e acordou  hora do costume. Entretanto, a segunda ou
terceira idia que lhe acudiu, depois de acordado, foi a formosa viva. Gostou
de pensar nela; reconhecia que ela fora apenas polida, nem sequer faceira, nada
que revelasse o desejo de lhe parecer bem. Durante uma semana pensou muitas
vezes em Raquel. Chegou a esper-la na Rua do Ouvidor. Sabendo onde morava,
passou por l duas vezes, sem a ver. Quinze dias depois do jantar, indo a
Niteri, achou-a na barca. Ia s, com um vu pelo rosto, e parece que o vira,
porque voltou a cara para o lado do mar. Toms hesitou um instante; afinal foi
cumpriment-la. Raquel falou-lhe com afabilidade; ele sentou-se no mesmo banco.

 H de crer que no vou  Praia
Grande h dez anos? disse ele.

 Eu h dois meses. Vou visitar
uma tia que est doente.

 Uma tia? No me lembra,
aventurou Toms.

 Uma tia do finado.

O finado era o marido. Raquel
referiu-lhe a molstia, a idade, os costumes da pessoa, como se fossem coisas
que o interessassem. Depois falou do mar. Depois falou do cu. Tudo como quem
mata a alfinetadas um tempo que no quer morrer. Toms pouco dizia; todo ele
era ouvidos para escut-la, olhos para v-la, com os seus ombros fortes, as
mos finamente enluvadas, e os olhos, que pareciam de esfinge, agora que o cu
os cobria. Pareciam ao nosso heri; ele  que o dizia consigo, romanticamente,
no eu, que apenas traduzo aqui o prprio sentir do solteiro. Esfinge era a
imagem velha; mas tinha para ele a mocidade de sua mocidade.

CAPTULO IV

Repetiram-se os encontros. Poucas
semanas depois, Toms fazia  viva a sua primeira visita. J ento se podia
dizer completamente enamorado, posto no ousasse confess-lo, antes buscasse encobri-lo.
Nada lhe dava certeza de poder ser aceito; mas tambm  verdade que no achava
aparncia de recusa. A viva era atraente, corts, interessante, ouvia-o com
muito prazer, chegava a falar de outros tempos sem hesitao.

O quarto de sculo de distncia
eliminou-se como um castelo em runas de um teatro d lugar a um campo
alastrado de verdura, ao aceno do contra-regra. Tudo se renovava inteiramente.
Casamento de um, ausncia, disperso de sentimentos, cansao, fastio,
desapareceram; e no foi s a moa que substituiu a viva, mas o prprio sonho
antigo que integralmente emergiu dos tempos. Toms achou em si a fora
necessria para restaurar as suas imaginaes perdidas. O que ele outrora pedia
ao casamento com a solteira, achou-o nas mos da viva, como se o ofcio delas
no fosse mais que esperar por ele, guardando-se intactas do mundo e seus
favores.

Seis meses no  pouco tempo entre
um solteiro e uma viva; mas tal foi o prazo decorrido sem que ele dissesse
nada. Oliveira, a princpio, quis precipitar as coisas; a mulher disse-lhe que
no; seria tomar a responsabilidade do que podia acontecer.

 No so duas crianas, observou
ela.

 Por isso mesmo, confirmou
Oliveira rindo.

Um dia, enfim, Toms resolveu
pedir a viva.

Escreveu-lhe uma carta, que
rasgou, por ach-la extensa; escreveu outra, mais extensa, e mandou-lha.

Raquel, logo que deu com as
primeiras palavras, interrompeu a leitura e deixou-se estar com os olhos no ar,
perdidos. Sabia o contedo do papel; talvez houvesse ajudado a escrev-lo.  o
que perguntava agora a si mesma, um pouco arrependida, um pouco satisfeita. No
vos admireis deste sentimento duplo, que parecer contraditrio, e na verdade o
; mas a contradio tambm  deste mundo. Raquel, j viva, rejeitara duas propostas
de casamento. Era a terceira, e podia rejeit-la, como as outras. Que  que a
impedia de o fazer? No chegava a explicar-se.

A idia de que ele ficara
solteiro, para no casar nunca, e rompia a promessa para acabar casando com
ela, foi a causa principal da animao que lhe dera agora. A animao tinha de
produzir os seus efeitos. Diante destes  que a viva parecia espantada. Os
olhos perderam-se cada vez mais, at que buscaram a carta e leram o que dizia.

O estilo era inflamado. Uma s vez
a carta aludia ao passado: Se achar que este meu modo de sentir  juvenil,
saiba que dia houve em que o meu corao parou, e que a minha idade  a dele.
Raquel releu a carta, naturalmente no lhe respondeu logo; f-lo-ia no dia
seguinte. Tinha de refletir primeiro.

 Sim ou no? perguntou a si
mesma.

E depois de alguns minutos:

 Amanh; tenho tempo.

Parecer esquisito que ainda agora
hesitasse; mas a esquisitice tambm  deste mundo. Gostava do antigo noivo; no
encarava at ento a idia de casar. Podia propor um adiamento. Verdade  que o
adiamento acabaria, e sempre chegaria a necessidade de dar resposta. No dia
seguinte, sentou-se, pegou na pena e comeou dez vezes um bilhete em que lhe
dizia que ia pensar; no atinava com o modo de concluir, e, por fim, achou que
o alvitre era mau. O melhor era recusar logo. Com que palavras escreveria a
negativa? Era melhor aceitar; mas, como?

Tudo isso parecer-vos-
insuportvel, leitora atenta, e a mim tambm, que o estou contando, no menos que
 prpria dama em cujo crebro todos esses pensamentos se esbarravam uns nos
outros, sem vitria de nenhum. Passaram-se trs dias. Ao quarto, Raquel
consultou a irm, que a animou a aceitar o marido.

 Ests certa que nenhum interesse
o atrai?

 Seguramente.

 Pois aceita.

Raquel respondeu enfim, com duas
linhas apenas, que pareceram a Toms muito mais compridas que a longa carta que
lhe escrevera: Dou-lhe a minha mo, e espero que sejamos felizes. Toms foi
agradecer-lhe a resposta. Estava trmulo, como se contasse vinte anos, e fosse
aquele o primeiro amor. A prpria Raquel, uma vez decidida, tinha a comoo da
adolescncia. Pouco mediou entre a aceitao e a realizao. Dois meses depois
estavam casados.

CAPTULO V

Aps um quarto de sculo, voltara
Toms ao ponto de onde partira. Tendo navegado mares longos e enfadonhos, ei-lo
que aporta  mesma terra vizinha, cujo acesso fora o sonho dos primeiros anos.

 Raquel, vinte e cinco anos de
separao e desesperana, disse ele na carruagem que o trazia da igreja.

A lua-de-mel foi passada em
Petrpolis, longe do universo, porque eles acharam uma casa separada do centro,
e no saram dela uns trs dias. O plano do marido era no sair nunca; uma
tarde, porm, transpondo o jardim, chegaram  rua, depois  outra rua. No dia
seguinte, foram  Rua do Imperador; antes do fim da semana seguiram em carro ao
alto da serra, a ver chegar o trem.

No se pense que lhes foi
indiferente a vista de coisas estranhas. Ao contrrio, acharam certo prazer em
mostrar aos outros a prpria felicidade, Raquel ainda mais que o marido. Duas
semanas depois de subidos a Petrpolis, recebeu Toms uma carta de Oliveira.
Era longa, banal, mas amiga; acabava perguntando quando esperavam descer do
cu.

 Podemos ir amanh, props a
mulher.

 J!

 Se voc quiser; eu estou bem.

Toms refletiu um instante.

 Sim, podemos ir amanh ou
depois.

A eternidade ficou reduzida de alguns
sculos de sculos; mas, como todas as eternidades deste mundo so assim, a
questo  saber em que proporo se reduzem. Ora, eles tiveram duas semanas de
lua-de-mel; havia-as muito menores.

Trs, quatro, cinco meses
passaram, sem acontecimento aprecivel. Mas h uma falta de acontecimentos, que
o estado moral supre, e um homem e uma mulher podem viver mais que Alexandre ou
Csar. Tal no era o estado do casal recente. Ao cabo de trs meses, Toms
sentia em Raquel uma placidez de esprito, que no era o alvoroo que esperava,
nem ainda o dos primeiros dias. Esse mesmo dos dias iniciais no correspondeu 
esperana, mas confundia-se com o dele, e ambos lhe pareceram no mesmo grau
infinito. Pouco a pouco, o estado normal vingou; ao fim de seis semanas, a
diferena apareceu, at que, dobrado o prazo, Raquel ficou sendo uma senhora
tranqila, sem assomos de nenhuma espcie, sem inquietaes nem saudades. Tudo
o que pode definir bem a ausncia de paixo parecia reunir-se nela. Quando a
convico desse estado entrou no nimo do marido, houve uma tal ou qual sombra
no cu conjugal. O pior  que ela no deu pelo fenmeno. Toms encerrava-se
longas horas no gabinete, a pretexto de trabalho, mas realmente para ler
romances parisienses, comprados s dzias. Raquel no iria arranc-lo ao
suposto trabalho, nem ralhava pelo excesso de esforo que devia atribuir-lhe.
Um dia, quando muito, perguntou-lhe o que estava fazendo.

 Estou compondo um livro, disse
ele, um estudo, uma obra poltica.

 Voc quer ser deputado?

 No.

E depois de um instante, sorrindo:

 Voc gostaria de ouvir os meus
discursos na cmara?

 Naturalmente.

H mil modos de dizer naturalmente;
Raquel escolheu um que no significava a co-participao da glria, e no o fez
por afligi-lo, mas por no saber de outro. Toms, que de comeo, lia os
romances com pouca ateno, acabou lendo-os por gosto e voltando assim a uma
das suas diverses antigas. As longas recluses eram menos aborrecidas que
antes. Outras vezes demorava-se fora, ia a reunies, ao teatro, a jantares, sem
que Raquel achasse que dizer uma palavra amarga. Tambm no o recebia triste
nem alegre. Uma ou outra vez bocejava este gracejo:

 Sim, senhor, bela vida para um
homem casado.

 Eu te explico...

Toms explicava-se, mas era
difcil saber se ela escutava a explicao. No tinha nos olhos sequer uma
sombra de desconfiana. Nem cimes, nem despeito, nem nada.

Ao fim de seis meses Raquel foi a
um baile. Havia anos que no pisava em nenhum, e j depois de casada, recusara
ir a dois. Aceitara aquele. No teve a folgana de outro tempo, mas achou
alguma coisa que podia traz-la. Da a aceitao do segundo em que danou, e de
mais dois. O marido, fez-se scio do Cassino Fluminense, a pedido dela.

 Com uma condio, disse Raquel;
 que uma quadrilha ser nossa.

 Justo.

Assim fizeram nos dois primeiros
bailes; no terceiro, j no danaram juntos.

 Raquel casou comigo, sem
entusiasmo, pensava ele; foi como quem aceita um vestido novo. No digo novo,
mas bonito, talhado  moda...

Um dia, chegou a insinuar-lhe isto
mesmo, no terrao da casa, antes do jantar. Ambos liam; ele, erguendo os olhos
da pgina, viu que ela estava com o livro no regao e as plpebras cadas.

  do livro ou do companheiro?
perguntou ele.

Raquel sorriu constrangida, mas
no disse nada.

Como ele insistisse:

  do companheiro, respondeu.

 Talvez.

 Que idia!

 Sim, a resposta  de gracejo, mas
pode ser exata, sem que voc d por isso. No me h de fazer crer que lhe dou a
felicidade esperada, se  que esperou alguma. No; voc casou para fugir 
importunao. A liberdade era melhor; podia ser at,  quem sabe?  podia ser
que a sorte... No falemos nisto!

Raquel olhava espantada. Toms
atirara o livro para um sof e erguera-se, metendo as mos nas algibeiras das
calas. Mordia o beio, e olhava para fora. Raquel fechou tranqilamente o
livro.

 Toms, que idias so essas?

 Que idias?

 Essas.

 Essas quais?

 Essas! No compreendo nada do
que voc me acaba de dizer. Principalmente, no compreendo que na nossa
idade... No somos crianas, Toms, esses arrufos so bons para os vinte anos.
Pois voc cr que eu viva aborrecida...?

 No vive de outra maneira,
interrompeu o marido. Eu sinto, eu vejo, eu percebo tudo. Peo-lhe que no me
obrigue a ir adiante. Olhe se os bailes a aborrecem, apesar de no ser criana?
Tudo que  ir divertir-se  excelente; a minha companhia  que  um aborrecimento
mortal.

Era a primeira vez que ele falava
assim, em tal maneira, e com tal despeito, que Raquel sentiu-se lisonjeada.
Vendo que era sincero, posto lhe parecesse esquisito, ela disse quatro ou cinco
palavras amigas e alegres; ergueu-se, arrancou-lhe as mos do bolso e fechou-as
nas suas.

 Criana! disse. Pois voc ento
pensa deveras que me aborrece? Tudo porque fechei os olhos, lendo um livro
aborrecido. Ora, Toms! Vamos, ria, ria um pouco.

 Deixa...

 H de rir. Vamos, ria!

Toms acabou rindo. O melhor era
terminar ali mesmo o debate, e, se no estivessem expostos, termin-lo com um
beijo. Mas o riso do marido foi to forado que a mulher entendeu desculpar-se
do que lhe parecia fastio ou indiferena. Era o modo dela. Nunca fora expansiva;
a prpria me a achava sempre assim; ia a falar do primeiro marido, mas recuou
a tempo.

Um tanto vexado da cena, Toms
depressa se reconciliou; ela por sua parte, buscou trocar de maneiras; troca difcil.
Toms no achara no casamento a realizao esperada de um sonho de longos anos.
Toda essa mulher, deixada em boto, achada em flor, parecia uma flor sem
cheiro. Raquel sacrificou os seus bailes; passou a fazer reunies em casa, dava
jantares, cercava-se de amigas. Conseguia prend-lo; lia at o fim, com os
olhos abertos, todos os livros que ele lhe dava. Entrou a censur-lo, quando
ele se demorava fora; e, em vez de ir dormir, como a princpio, deixava-se
estar at uma e duas horas, quando ele voltava do teatro, nas noites em que ia
s ou com algum amigo. A solicitude teve o mesmo efeito da indiferena; tudo
acabou no mesmo tdio.

 Talvez o mal esteja em mim,
pensou ele um dia.

E inclinando o esprito aos tempos
de solteiro, sentiu grande saudade. Para reaver um pouco da sensao antiga,
convidou a mulher a uma viagem  Europa; foram, gastaram dois anos, tornaram
mais conservados; mas a viagem no apertou os laos da afeio. Realmente, o
consrcio era para ele mesmo um ofcio novo, aprendido fora de tempo, quando a
pessoa s ama e conhece outro ofcio.

J se no queixava; deixava-se ir
com os anos. Vieram os cinqenta. A cunhada morreu. A casa fez-se mais deserta.
Toms, fora do voltarete, s achava prazer na Rua do Ouvidor. Era ainda e
sempre o mesmo homem elegante. Deleitava-se em ver passar as senhoras,
mir-las, acompanh-las com os olhos e as idias. Chamava a isto liberdade 
uma liberdade que perdeu, que entregou por seu gosto nas mos do casamento.

Mudando de casa por esse tempo,
mandou preparar ao rs-do-cho um gabinete para si, exclusivo, reproduo do
ltimo aposento de solteiro. Nada havia ali que cheirasse ao casamento, nem a
fotografia da mulher, nada. Era a casa do celibato, em que ele se metia duas e
trs horas diariamente, para viver outra vida no totalmente outra, mas algo
que a lembrasse.

Raquel no se ops  alterao nem
a sentiu. Viviam em boa paz, uma santa paz bocejada e ininterrupta. Os anos
vieram vindo. Um dia, Raquel caiu doente, uma febre perniciosa que a levou em
poucos dias. Toms foi dedicado, no poupou esforos de toda a espcie para
salv-la; ela morreu-lhe nos braos, ele quis acompanh-la ao enterro. Oliveira
foi ter com o amigo.

 Toms, disse-lhe, tu no podes
viver s aqui; anda c para casa. Arranjo-te um cmodo grande e livre; ficas a
teu gosto.

 Obrigado, Oliveira; deixa-me;
algum dia, pode ser.

Meteu-se no aposento de solteiro,
agora de vivo, sempre de solitrio. Nada alterou a casa, em cima, onde
almoava e jantava. Fez no ano seguinte outra viagem  Europa, muito mais
alegre, como um pssaro livre. Gostava da lufa-lufa de estradas de ferro, de
hotis, de teatros, de revistas militares, bulevares; foi  Frana, foi 
Inglaterra,  Alemanha, e voltou o mesmo velho petimetre. Vinte e quatro horas
depois de chegado, estava no cemitrio, visitando a sepultura da mulher.
Deu-lhe um mausolu rico e belo, obra de um escultor italiano, e continuou a
visit-la naquele palcio ltimo. Os empregados do cemitrio j o conheciam.

  o vivo da D. Raquel, diziam
eles pelo epitfio. Se todos fossem como este!

No podiam crer, nem eu digo isto,
que ele amasse mais a mulher morta que viva;  falso. O que se pode admitir 
que ele sentia antes a perda da mulher que do casamento.
