Conto, Flor Annima, 1897

Flor
annima

Texto Fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis.

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.
II, 1994.

Publicado originalmente em Almanaque da Gazeta, 1897.

Manh clara. A alma de Martinha 
que acordou escura. Tinha ido na vspera a um casamento; e, ao tornar para
casa, com a tia que mora com ela, no podia encobrir a tristeza que lhe dera a
alegria dos outros e particularmente dos noivos.

Martinha ia nos seus... Nascera h
muitos anos. Toda a gente que estava em casa, quando ela nasceu, anunciou que
seria a felicidade da famlia. O pai no cabia em si de contente.

 H de ser linda!

 H de ser boa!

 H de ser condessa!

 H de ser rainha!

Essas e outras profecias iam
ocorrendo aos parentes e amigos da casa.

L vo... Aqui pega a alma escura
de Martinha. L vo quarenta e trs anos,  ou quarenta e cinco, segundo a tia;
Martinha, porm, afirma que so quarenta e trs. Adotemos este nmero. Para ti,
moa de vinte anos, a diferena  nada; mas deixa-te ir aos quarenta, nas
mesmas circunstncias que ela, e vers se no te cerceias uns dois anos. E
depois nada obsta que marches um pouco para trs. Quarenta e trs, quarenta e
dois, fazem to pouca diferena...

Naturalmente a leitora espera que
o marido de Martinha aparea, depois de ter lido os jornais ou enxugado do
banho. Mas  que no h marido, nem nada. Martinha  solteira, e da vem a alma
escura desta bela manh clara e fresca, posterior  noite de bodas.

S, to s, provavelmente s at a
morte; e Martinha morrer tarde, porque  robusta como um trabalhador e s como
um pero. No teve mais que a tia velha. Pai e me morreram, e cedo.

A culpa dessa solido a quem
pertence? ao destino ou a ela? Martinha cr, s vezes, que ao destino; s
vezes, acusa-se a si prpria. Ns podemos descobrir a verdade, indo com ela
abrir a gaveta, a caixa, e na caixa a bolsa de veludo verde e velha, em que
esto guardadas todas as suas lembranas amorosas. Agora que assistira ao
casamento da outra, teve idia de inventariar o passado. Contudo hesitou:

 No, para que ver isto?  pior:
deixemos recordaes aborrecidas.

Mas o gosto de remoar levou-a a
abrir a gaveta, a caixa, e a bolsa; pegou da bolsa, e foi sentar-se ao p da
cama.

H que anos no via aqueles
despojos da mocidade! Pegou-lhes comovida, e entrou a rev-los.

De quem  esta carta? pensou ela
ao ver a primeira. Teu Juca. Que Juca? Ah! o filho do Brito Brando. Cr que o
meu amor ser eterno!. E casou pouco depois com aquela moa da Lapa. Eu era
capaz de pr a mo no fogo por ele. Foi no baile do Club Fluminense que
o encontrei pela primeira vez. Que bonito moo! Alto, bigode fino, e uns olhos
como nunca mais achei outros. Danamos essa noite no sei quantas vezes. Depois
comeou a passar todas as tardes pela Rua dos Invlidos, at que nos foi
apresentado. Poucas visitas, a princpio, depois mais e mais. Que tempo durou?
No me lembra; seis meses, nem tanto. Um dia comeou a fugir, a fugir, at que
de todo desapareceu. No se demorou o casamento com a outra... Cr que o meu
amor ser eterno!

Martinha leu a carta toda e p-la
de lado.

 Qual!  impossvel que a outra
tenha sido feliz. Homens daqueles s fazem desgraadas...

Outra carta. Gonalves era o nome
deste. Um Gonalves louro, que chegou de S. Paulo, bacharelado de fresco, e fez
tontear muita moa. O papel estava encardido e feio, como provavelmente estaria
o autor. Outra carta, outras cartas. Martinha relia a maior parte delas. No
eram muitos os namorados; mas cada um deles deixara meia dzia pelo menos, de
lindas epstolas.

Tudo perdido, pensava ela.

E, uma palavra daqui, outra dali,
fazia recordar tantos episdios deslembrados... desde domingo (dizia um) que
no me esquece o caso da bengala. Que bengala? Martinha no atinou logo. Que
bengala podia ser que fizesse ao autor da carta (um moo que principiava a
negociar, e era agora abastado e comendador) no poder esquec-la desde
domingo?

Afinal deu com o que era; foi uma
noite, ao sair da casa dela, que indo procurar a bengala, no a achou, porque
uma criana de casa a levara para dentro; ela  que lha entregara  porta, e
ento trocaram um beijo...

Martinha ao lembr-lo estremeceu.
Mas refletindo que tudo agora estava esquecido, o domingo, a bengala e o beijo
(o comendador tem agora trs filhos), passou depressa a outras cartas.

Concluiu o inventrio. Depois,
acudindo-lhe que cada uma das cartas tivera resposta, perguntou a si mesma onde
andariam as suas letras.

Perdidas, todas perdidas; rasgadas
nas vsperas do casamento de cada um dos namorados, ou ento varridas com o
cisco, entre contas de alfaiates...

Abanou a cabea para sacudir to
tristes idias. Pobre Martinha! Teve mpetos de rasgar todas aquelas velhas
epstolas; mas sentia que era como se rasgasse uma parte da vida de si mesma, e
recolheu-as.

No haveria mais alguma na bolsa?

Meteu os olhos pela bolsa, no
havia carta; havia apenas uma flor seca.

 Que flor  esta?

Descolorida, ressequida, a flor
parecia trazer em si um bom par de dzias de anos. Martinha no distinguia que espcie
de flor era; mas fosse qual fosse, o principal era a histria. Quem lha deu?

Provavelmente alguns dos autores
das cartas, mas qual deles? e como? e quando?

A flor estava to velha que se
desfazia se no houvesse cuidado em lhe tocar.

Pobre flor annima! Vejam a
vantagem de escrever. O escrito traz a assinatura dos amores, dos cimes, das
esperanas e das lgrimas. A flor no trazia data nem nome. Era uma testemunha
que emudeceu. Os prprios sepulcros conservam o nome do p guardado. Pobre flor
annima!

 Mas que flor  esta? repetiu
Martinha.

Aos quarenta e cinco anos no
admira que a gente esquea uma flor. Martinha mirou-a, remirou-a, fechou os
olhos a ver se atinava com a origem daquele despojo mudo.

Na histria dos seus amores
escritos no achou semelhante prenda; mas quem podia afirmar que no fosse dada
de passagem, sem nenhum episdio importante a que se ligasse?

Martinha guardou as cartas para
colocar a flor por cima, e impedir que o peso a desfibrasse mais depressa,
quando uma recordao a assaltou:

 H de ser... ... parece que
...  isso mesmo.

Lembrara-se do primeiro namorado
que tivera, um bom rapaz de vinte e trs anos; contava ela ento dezenove. Era
primo de umas amigas. Julio nunca lhe escrevera cartas. Um dia, depois de muita
familiaridade com ela, por causa das primas, entrou a am-la, a no pensar em
outra coisa, e no o pde encobrir, ao menos da prpria Martinha. Esta dava-lhe
alguns olhares, mais ou menos longos e risonhos; mas em verdade, no parecia
aceit-lo. Julio teimava, esperava, suspirava. Fazia verdadeiros sacrifcios,
ia a toda parte onde presumia encontr-la, gastava horas, perdia sonos. Tinha
um emprego pblico e era hbil; com certeza subiria na escala administrativa,
se pudesse cuidar somente dos seus deveres; mas o demnio da moa interpunha-se
entre ele e os regulamentos. Esquecia-se, faltava  repartio, no tinha zelo
nem estmulo. Ela era tudo para ele, e ele nada para ela. Nada; uma distrao
quando muito.

Um dia falara-se em no sei que
flor bonita e rara no Rio de Janeiro. Algum sabia de uma chcara onde a flor
podia ser encontrada, quando a rvore a produzisse; mas, por enquanto, no
produzia nada. No havia outra, Martinha contava ento vinte e um anos, e ia no
dia seguinte ao baile do Club Fluminense; pediu a flor, queria a flor.

 Mas, se no h...

 Talvez haja, interveio Julio.

 Onde?

 Procurando-se.

 Cr que haja? perguntou
Martinha.

 Pode haver.

 Sabe de alguma?

 No, mas procurando-se... Deseja
a flor para o baile de amanh?

 Desejava.

Julio acordou no dia seguinte
muito cedo; no foi  repartio e deitou-se a andar pelas chcaras dos
arrabaldes. Da flor tinha apenas o nome e uma leve descrio. Percorreu mais de
um arrabalde; ao meio-dia, urgido pela fome, almoou rapidamente em uma casa de
pasto. Tornou a andar, a andar, a andar. Em algumas chcaras era mal recebido,
em outras gastava tempo antes que viesse algum, em outras os ces latiam-lhe
s pernas. Mas o pobre namorado no perdia a esperana de achar a flor. Duas,
trs, quatro horas da tarde. Eram cinco horas quando em uma chcara do Andara
Grande

pde achar a flor to rara. Quis
pagar dez, vinte ou trinta mil-ris por ela; mas a dona da casa, uma boa velha,
que adivinhava amores a muitas lguas de distncia, disse-lhe, rindo, que no
custava nada.

 V, v, leve o presente  moa,
e seja feliz.

Martinha estava ainda a pentear-se
quando Julio lhe levou a flor. No lhe contou nada do que fizera, embora ela
lho perguntasse. Martinha porm compreendeu que ele teria feito algum esforo,
apertou-lhe muito a mo, e,  noite, danou com ele uma valsa. No dia seguinte,
guardou a flor, menos pelas circunstncias do achado que pela raridade e beleza
dela; e como era uma prenda de amor, meteu-a entre as cartas.

O rapaz, dentro de duas semanas,
tornou a perder algumas esperanas que lhe haviam renascido. Martinha
principiava o namoro do futuro comendador. Desesperado, Julio meteu-se para a
roa, da roa para o serto, e nunca mais houve notcia dele.

 Foi o nico que deveras gostou
de mim, suspirou agora Martinha, olhando para a pobre flor mirrada e annima.

E, lembrando-se que podia estar
casada com ele, feliz, considerada, com filhos,  talvez av  (foi a primeira
ocasio em que admitiu esta graduao sem pejo) Martinha concluiu que a culpa
era sua, toda sua; queimou todas as cartas e guardou a flor.

Quis pedir  tia que lhe pusesse a
flor no caixo, sobre o seu cadver; mas era romntico demais. A negrinha
chegara  porta:

 Nhanh, o almoo est na mesa!
