CRTICA, Revista dos Teatros, 1859

  Revista dos Teatros

  Texto-Fonte:

  Crtica Teatral, Machado de
    Assis.

  Rio de Janeiro: Edies W.M. Jackson, 1938.

  Publicado originalmente de 11/09/1859 a 10/01/1860.

  Sumrio; -- Ginsio Dramtico; reflexes filosficas a
    propsito de Um asno morto; sbado passado; um drama a vo de pssaro; aplicacion del cuento; romantismo e realismo; traduo e
    representao. Teatro de S. Pedro: Cob, -- Duas palavras. -- Uma
    promessa. -- Opinio do cronista sobre as cabeas loiras.

  A vida, li no sei
    onde,  uma ponte lanada entre duas margens de um rio; de um lado e do outro a
    eternidade.

  Se essa
    eternidade  de vida real e contemplativa, ou do nada obscuro, no reza a
    crnica, nem me quero eu aprofundar nisso. Mas uma ponte lanada entre duas margens
    no se pode negar,  uma figura perfeita.

   doloroso o
    atravessar dessa ponte. Velha e a desabar, h seis mil anos tem por ela passado
    reis e povos numa procisso de fantasmas brios, na qual uns vo colhendo as
    flores aquticas que reverdecem  altura da ponte, e
    outros afastados das bordas vo tropeando a cada passo nessa via dolorosa.
    Afinal tudo isso desaparece como fumo que o vento leva em seus caprichos, e o
    homem,  semelhana de um charuto, desfaz a sua ultima cinza, quia pulvis
      est.

  Este resultado,
    por pouco doce que parea,  contudo evidente e
    inevitvel, como um parasita; e a minha amvel leitora no pode duvidar que no fim da vida est sempre a morte. squilo j
    no seu tempo perguntava se o que chamamos morte no seria antes a vida.  provvel
    que a esta hora tenha tido resposta.

  So reflexes
    filosficas de muito peso e que me fervem c no crebro a propsito de um asno... morto, minhas leitoras. Foi sbado passado, no
    querido Ginsio, onde  provvel que estivessem as cabeas galtes que me cumprimentam agora nestas pginas.

  Asno morto  um drama em
    cinco atos, um prlogo e um eplogo, tirado do romance de Jules Janin, do mesmo
    ttulo.

  Como me ocorrem
    reflexes filosficas a propsito de um asno, em vez de divagaes
    amorosas, a propsito dos olhos que estrelavam a sala por l, no sei. Do que
    posso informar  minha interessante leitora,  que o drama de Barrire, alm de
    ser um drama completo, at nos defeitos da escola,  uma demonstrao daquela
    ponte de que falei ao abrir esta revista.

  Mais tarde
    aplicaremos el cuento.

  Por agora encoste-se a leitora no fofo da sua poltrona com toda a
    indolncia daquela baigneuse de Victor Hugo, e procure grupar comigo as
    diversas circunstncias que formam o pensamento do asno morto.  um
    trabalho doce para mim, e se o for para a minha leitora, nada teremos a invejar
    de Goya. Mos  obra.

  Henriqueta
    Bernard  urna rapariga alde que vivia no regao da paz em casa de seus pais,
    um honrado vendedor de trigos, e uma matrona respeitvel, a Sra. Martha. Um
    campnio da vizinhana est apaixonado pela menina Henriqueta, e vem pedi-la
    aos bons e velhos aldeos. Estes do o seu consentimento. A menina, porm, est apaixonada por sua vez por um Roberto que lhe soube
    captar o corao, e que nada tem de campnio. Entretanto acode  vontade dos
    pais.

  Um pacto oculto
    prende este Roberto a um tal Picheric, cavalheiro de
    fortuna, espadachim consumado, alma de pedra, carter repugnante, maneiras de
    tartufo, e um sangue frio digno de melhor organizao. No tendo nada a perder,
    mas tudo a ganhar, este homem arrisca tudo, e no se lhe d dos meios, visando
    o fim; acompanha a Roberto por toda a parte, como o seu Mefistfeles, e, tendo
    descoberto os amores do seu companheiro, trata de afast-lo. Roberto porm no tem vontade de pr um ponto final ao seu idlio --
    e como que lhe luz um pouco de ouro no meio da terra grosseira que lhe enche a
    mbula vital.

  Levado pelo amor
    escreve um bilhete que faz passar por baixo da porta de Henriqueta.

   ocasio de falar
    do estrangeiro.

  O estrangeiro 
    uma figura grave e circunspecta que negcios polticos trouxeram pela estrada
    fora, e que um temporal repentino levou  cabana do vendedor de trigos. Um
    olhar profundamente magntico faz deste homem um ente superior. A primeira vez
    que se encontrou s com Henriqueta na sala da cabana, exerceu ele a sua ao
    simptica sobre ela por intermdio do qual ps-se em
    contato com ocorrncias absolutamente estranhas ao drama. Senhor agora da
    inteno de Roberto, por v-lo colocar o bilhete debaixo da porta de
    Henriqueta, ele impede que essa menina v  entrevista que se lhe pede, fazendo
    cair sobre ela o peso de seu olhar atraente.

  O prlogo acaba
    aqui. -- 'Vais ver em sonhos, diz o estrangeiro, o que te sucederia se fosses a essa fatal entrevista. Entretanto vou escrever a
    meus amigos'.

  Os cinco atos so uma srie de acontecimentos terrveis, de atribulaes amargas por que a pobre menina teria de passar. Primeiro a desonra, mais tarde quase
    uma maldio; estes sucumbem, aqueles suicidam-se; 
    uma procisso de terrores que tem a infelicidade de no ser nova no mundo real.
    No meio disto tudo, dois meliantes que vo  cata de fortuna e posio, que
    procuram pelo jogo e pelo assassinato, o punhal e o baralho, a cuja inveno
    deu causa um rei maluco, como a bela leitora sabe. Esses dois vares sem
    probidade so Picheric e Roberto; Warner e Julio.

  O eplogo comea
    pela derradeira situao do prlogo; o estrangeiro lacra a sua ltima carta,
    defronte de Henriqueta que se debate em um pesadelo, o final do ato 5. -- Ele levanta-se e acorda-a.  uma bela cena. Henriqueta
    reconhece a realidade, que seus pais esto vivos, e livre de
      seu sonho terrvel abraa-os. Roberto aparece ento a dizer a Henriqueta
    que debalde esperara no lugar por ele indicado; mas ela, a quem no seu pesadelo
    se revelara um futuro terrvel, -- aceita com toda a vontade a mo de Maturino,
    o campnio que a pedira no prlogo. Repelido por ela, e descoberto na aldeia,
    ele procura fugir a instncias de Picheric, mas cai nas mos da polcia, que
    apareceu to a horas, to oportuna, como no acontece
    c pelas nossas bandas.

  Tudo se regozija,
    e o drama romntico em todo o seu correr -- acaba numa atmosfera profunda de
    romantismo.

  Descontado o
    acanhamento do artista, a leitora tem nesses traos vagos e trmulos uma idia
    aproximada do drama. Passamos ento  aplicacion del cuento.

  O que  esse
    prlogo de uma vida plcida e tranqila, e esse eplogo de idntico aspecto
    seno as duas margens desse rio de que falei? Os cinco atos que medeiam, esse
    pesadelo terrvel de Henriqueta, so uma imagem da
    vida, sonho terrvel que se esvai na morte, como disse o mulo de Ovdio. Creio
    que  fcil a demonstrao.

  Eis ali pois o que eu acho ainda de bom nesse drama, e se no foi a
    inteno de seus autores foi um acaso feliz. Desculpem as leitoras esta relao
    stil que encontro aqui, mas  que eu tenho a bossa do filosofismo.

  O Asno morto pertence
     escola romntica e foi ousado pisando a cena em que tem reinado a escola
    realista. Perteno a esta ltima por mais sensata, mais natural, e de mais
    iniciativa moralizadora e civilizadora. Contudo no posso deixar de reconhecer
    no drama de sbado passado um belo trabalho em relao  escola a que pertence. Os dois renegados  sempre um belo drama, mas que entretanto  todo banhado de romantismo. O seu a cujo , dizem os
    legistas.

  A traduo  boa
    e s encontrei um engage que me fez mau efeito;
    mas so coisas que passam e nem e de supor outra coisa tendo-se ocupado desse
    trabalho importante a Sra. Velluti.

  A representao
    foi bem, mas primaram os Srs. Furtado Coelho, Moutinho, Joaquim Augusto, Jeller
    e Graa. O Sr. Moutinho foi perfeito, sobre tudo no quarto ato, apesar de seu
    papel to pequeno. O Sr. Furtado Coelho na morte do
    5. ato esteve sublime e mostrou inda uma vez os seus talentos dramticos. O Graa  sempre o Graa, um grande artista. Num mesquinho
    papel mostrou-se artista, e, como leiloeiro, no esteve abaixo de Cannoll ou
    outro qualquer do ofcio.

  A Sra. Velluti,
    no papel difcil e trabalhoso de Henriqueta, esteve verdadeiramente inspirada e
    mostrou, como tantas vezes, que possui o fogo sagrado da arte.

  H talvez
    observaes a fazer, mas o longo desta mo impede, e eu tenho pressa de passar
    ao teatro de S. Pedro.

  D-me a leitora o
    brao e desprendendo-se... mas agora me lembro: no asno
      morto que descrevi viu a leitora tudo menos o asno.  culpa minha. O
    asno  um quadrpede (h-os bpedes) que pertence ao vendedor de trigos, e que
    morre no correr do drama, revivendo porm no eplogo,
    por isso que morreu nos sonhos de Henriqueta.

  Como se prende
    aquele asno morto ao drama, no o sei eu, 
    segredo do Sr. Barrire e seu colega.

  D-me a leitora o
    brao e vamos ao teatro de S. Pedro.

  Deste teatro
    pouco tenho a dizer.

  Estou ainda
    debaixo da impresso do excelente drama do nosso autor dramtico o Dr. Joaquim
    Manoel de Macedo, -- Cob. -- Foi ali representado,
    no dia 7 de Setembro, grande pgina da nossa primeira independncia.

   um belo drama
    como verso, como ao, como desenvolvimento. Todos j sabem que o autor da Moreninha faz lindssimos versos. Os do drama so de mestre. Um pincel adequado
    traou com talento os caracteres, desenhou a situao, e no meio de grandes
    belezas chegou a um desfecho sanguinolento, nada conforme com o gosto dramtico
    moderno, mas de certo o nico, que reclamava a situao.  um escravo que ama  senhora, e que se sacrifica por ela -- matando o noivo que
    lhe estava destinado, mas a quem ela no amava de certo. Essa moa, Branca, ama entretanto a um outro, e Cob, o pobre escravo -- a quem uma
    sociedade de demnios tirara o direito de amar, quando reconhecia (ainda hoje)
    o direito de torcer a conscincia e as faculdades de um homem, Cob sabe morrer
    por ela.

  Como v a minha
    leitora, respira um grande princpio democrtico o drama do Sr. Macedo; -- e se
    a minha leitora  do mesmo credo, estamos ambos de acordo.

  Mais
    de espao falarei minuciosamente do drama do Sr. Macedo. Esta semana foi toda
      de festejos e eu andei, desculpe a comparao, numa dobadoira.

  Por agora vou dar
    o meu ponto final. Descanse os seus lindos olhos; e se gostou da minha prosa
    espere no domingo.

  No  bom cansar
    as cabeas loiras.

  11 de setembro de 1859.

  Sumrio: -- S. Janurio. Arthur ou dezesseis anos
    depois. Uma companhia de esperanas. -- S. Pedro de Alcntara. Duas
    comdias. -- Defeitos de desempenho. Anomalias de cenrio. -- Traduo. -- Lrico: Os Mrtires. -- Um imperador em risco de constipar-se.

  Dia de muito 
    vspera de nada.  um rifo velho e acertado que vem muito a propsito nesta
    situao.

  Domingo passado a
    minha revista foi larga e volumosa; a leitora, desculpe, esta ser magra e
    minguada. Eterna lei das compensaes!

  J tem ido ao
    velho teatrinho de S. Janurio?  uma pequena companhia de aspiraes modestas
    que se vai desenvolvendo, bem arredada de seus companheiros.

  Na tarde do
    domingo h l a sua pequena sesso artstica da qual os espectadores saem plenamente satisfeitos. No estranhe a leitora; os poucos
    elementos da companhia, postos em ao e desenvolvimento pelo talento
    reconhecido do empresrio, e pela boa vontade de todos, caminham perfeitamente,
    e aquelas tendncias balbuciantes no saem imprudentes e inoportunas da esfera
    das primeiras prticas.

  Representou-se l
    domingo passado Arthur ou dezesseis anos depois. Pequeno drama e
    acomodado ao teatro, nada deixou a desejar no desempenho; todos disseram o seu
    papel com talento e expresso, e o carter sentimental e travesso de Artur foi
    bem desenhado em cenas cheias pela Sra. D. Jesuina Montani.
    A leitora, como toda a populao, conhece essa atriz de mrito, que com aplauso
    tem pisado todos os teatros da Corte. Eu, que no falo com as loucas pretenses
    de partido em arte, o mais tolo dos partidos, posso dizer aqui em segredo 
    minha leitora: com o Sr. De Giovanni e D. Jesuina a
    nossa companhia promete. Trate o talentoso empresrio da boa escolha do
    repertrio, da aquisio de vocaes encobertas e conduza os espritos de sua
    platia gradual e suavemente a uma nova esfera de arte mais larga e mais
    filosfica, e eu asseguro, do estofo desta
    conversadeira, um futuro de proveito para a arte.

  No teatro de S.
    Pedro houve, domingo passado, duas comdias novas, cuja representao deixou a
    desejar em parte.

  Mostrar os
    defeitos, em matria de arte, e aperfeioar, e estou certo que os olhos que me
    lem agora aprofundaro toda a profundeza de minha alma, e toda a castidade das
    minhas intenes.

  O teatro de S.
    Pedro  o grande teatro nacional, por cujo engrandecimento fao eu votos. Todas
    as observaes, pois, feitas aqui levam em mira o bem do teatro e o bem
    pblico. Deve-se entender assim.

  No fao anlise
    profunda; nem pretendo especializar defeitos. Os Srs. Martinho, Barbosa e Pedro
    Joaquim, disseram bem o seu papel; e o Sr. Montani, nos Cabelos de minha
      mulher, foi tambm sofrvel. -- Mas o que foi mau e fica abaixo da anlise
    no  preciso referir aqui. Com efeito, pde a Sra. Ricardini representar como
    a mulher do inspetor das bagagens?

  A platia ficou
    completamente incomodada, e eu, na minha imparcialidade de cronista, devo
    relat-lo por amor da verdade.

  A Sra. D. Tereza
    Soares, moa de talento para o teatro, tem tambm muito que aprender, e em
    certas entradas e algumas situaes fez cair completamente a pea. Faa a mesma Sra. um estudo mais profundo da
    arte a que se dedica e -- o futuro e a reputao viro enlaados procur-la no
    tablado.

   preciso
    compreender que no h rosas sem espinhos, e que a rosa da arte  a primeira
    das rosas compreendidas no adgio.

  As decoraes merecem
    tambm duas palavras. Em vez de acomodar o cenrio s situaes e
    circunstncias, a pessoa encarregada disso confunde totalmente -- e comete
    anacronismos de tirar o chapu.

  Os olhos da
    platia j esto fatigados de oscilarem entre decoraes gastas, e importunas.
     preciso notar, vm muito ao caso esses acessrios de
    disposio para o bom xito de uma pea; e no h quem se ria de ver, por
    exemplo, Luiz XIV ou Molire, sentado em uma cadeira de Francisco I, e em um
    gabinete do tempo da revoluo.

  A primeira regra
    em arte dramtica  a harmonia; o deslocamento  sempre uma decadncia, uma
    destruio.

  Minha sobrinha e
    meu urso, a primeira comdia do espetculo,  uma dessas produes
      sem idia nem tese, que s tem o mrito de fazer rir. E esta cumpre totalmente
      o seu fim; -- o esprito francs est ali fino e brilhante e o equvoco move
      toda a ao at ao desfecho que a platia j esperava de alcatia.

  A traduo 
    tima; o Sr. Gonalves Braga, moo de talento e bom senso, sobretudo, que  o
    que falta a muitos talentos -- merece por certo aplausos por esse trabalho.

  Peo s minhas
    leitoras que vo verific-lo com os seus prprios
    ouvidos. Mas antes disso, passemos ao Lrico que nos reclama duas penadas.

  Foi
    a no dia 15, em benefcio do Sr. Mirate, os Mrtires, grande
      partitura de Donizetti. Os camarotes estavam cheios de lindas toilettes e
      perfis mais ou menos belos. Os binculos moviam-se em todos os sentidos como a
      bssola que procura o norte. Mas por muita influncia que tivessem os camarotes
      sobre a platia -- sentia-se que o grande foco de atrao estava no fundo da
      sala.

  Com efeito, os
    intervalos passavam no meio da ansiedade pblica que respirava quando via
    erguer o pano. A pera correu bem. O Sr. Mirate e a Sra. Medori foram
    freneticamente aplaudidos. O Sr. Mirate sobretudo mostrou os seus grandes talentos artsticos e, o que dele se esperava no Ernani,
    realizou-se tambm nos Mrtires. E, com efeito, esteve arrebatador. No Credo do 3. ato, foi magnficamente bem, e se no teve
    a elevao majestosa e pica de Tamberlick, teve expresso e f intima, o que
    quanto a mim est com a msica. No duetto final no se podia ir alm do
    que foram Mirate e Medori. Foi uma bela noite; oxal que sempre tenhamos dessas no meio da monotonia em que vegetamos neste pas
    sensaboro.

  No passarei porm sem uma observao: Porque o imperador, depois de
    atravessar a praa no meio de seu triunfo, tira o chapu para arengar ao povo?
    Duas razes se opem a isso. A primeira  que um imperador
      daquele tempo, e um imperador severo no tinha essa dose de polidez para
    com o povo que o levasse a descobrir-se diante da canalha, e da canalha de
    Roma; a segunda  que o ar constipa, e o sol faz sezes. Ora, o imperador
    Severo sempre teria bom senso para no se pr ali na rua de calva  mostra.

   talvez uma
    inovao do Sr. Reina que ento reinava em Roma e seus
    aderentes; ou ento um pretexto para mostrar o seu ar garboso; porque, aqui
    para ns, minha leitora, o Sr. Reina quando deu o seu barrete a um dos aclitos
    deu um passo de verdadeira tragdia. Melpomene no o faria melhor.

  Mas deixemos o Sr. Reina, e concluamos esta revista, que mais longe
    chegamos do que espervamos.

  18 de setembro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio Dramtico: A honra de uma
    famlia. -- O ator. -- Um lobo no mar. -- Benefcio do Sr. Furtado. -- Um paginador com pressa.

  A semana que
    terminou deu-nos trs noites amveis no querido Ginsio.
    O pequeno teatro, o primeiro da capital, esteve efetivamente arraiado de novas
    galas e custosas louanias.

   um livro para
    escrever, e eu o lembro aqui a qualquer pena em disponibilidade, as noites
      do Ginsio.

  Em sua vida
    laboriosa ele nos tem dado horas aprazveis, acontecimentos notveis para a
    arte. Iniciou ao pblico da capital, ento sufocado na poeira do romantismo, a
    nova transformao da arte -- que invadia ento a esfera social.

  No faltaram
    desejos de levar  fogueira da expiao esse novo Huss. Mas ele venceu, porque
    levantava acima das vistas especulativas o dogma das
    concepes modernas.

  Efetivamente
    marcou uma nova era na arte.

  As criaes
    fastidiosas de uma escola de transio caram ento para uma pequena parte do
    pblico. O resto que no se quis converter s mximas dos novos huguenotes, l
    caminha embalado nas emoes fulminantes de uma peripcia de punhal...

  Deus os tenha por
    l.

  Vamos porm ver -- A honra de uma famlia.

  O teatro estava
    cheio na primeira noite, domingo. Os camarotes irradiavam com as belezas que
    molemente se reclinavam l --  espera da ansiada representao. Como era intenso
    o calor, andavam os leques em contnua agitao.

   uma bela
    inveno o leque.

   uma qualidade
    de mais que a arte consagrou  mulher. Meu Deus! o que
    tem feito o leque no mundo! muitos romances nesta vida
    comeam pelo leque, a intranqilidade de um esposo ou de um pai tem nascido
    muitas vezes no manejo calculado de um leque.

  Mas tambm  uma
    arte o estudo de abrir e fechar este semicrculo dos sales e dos teatros. Um
    bom fisiologista conhece o carter mais impenetrvel pelo modo de agitar o leque.

  Esta opinio  de
    quem sabe; a interessante predileta do rei Luiz, a estrela mais formosa das
    constelaes de Versailles -- lia de cadeira na matria em questo; para mim e
    ento um orculo.

  Eram pois leques que se agitavam em todos os sentidos, na
    pequena sala do Ginsio.

  Afinal ergue-se o
    pano.

  Que drama, amvel
    leitora! Pelas primeiras cenas de exposio conhece-se o dedo de mestre que
    delineava o quadro. Depois os cinco atos que decorrem so uma srie continuada
    de cenas, importantes todas, de um acabado completo, como ao, como dilogo,
    como estilo, como sentimento. Os caracteres do primeiro plano esto desenhados
    com maestria e fineza de traos. So quatro figuras importantes que se movem no
    quadro largo daquela composio arrojada. A luta dos sentimentos e das
    convenincias sociais, tudo se encontra to bem, to perfeitamente se chocam,
    que a ao caminha sempre interessante desde a primeira cena at a ltima que 
    uma verdadeira chave de ouro.

  As honras da
    noite couberam aos quatro artistas que se encarregaram desses papis.

  O Sr. Joaquim
    Augusto, no desempenho do cavalheiro de Maubreuil, tocou por vezes o
    sublime da arte. No quarto ato na cena com Paulo (o Sr. Furtado Coelho) maravilhou a platia. Imagine a leitora uma situao espinhosa:
    -- Paulo que vem bater-se com o cavalheiro que ignora que  seu pai. Este
    homem de campo e de honra, desafiado publicamente, v-se em torturas entre a
    voz das convenincias sociais e a voz do sangue que corre nas veias de Paulo.
    Pede-lhe uma desculpa. Paulo espanta-se de um ato aparentemente covarde. Que
    luta de paixes! O cavalheiro, como um ltimo favor, estende a mo a Paulo;
    como ele a aperta enlevado por essa emoo de pai, por
    esse sentimento revolucionrio que agita ainda as mais secretas fibras! Deve
    ser bem doce; -- deve ser, porque o autor desta revista est a esse respeito na
    esfera das hipteses.

  O Sr. Heller, no papel de Chennevieres, revelou muito
    talento que andava encoberto quando errava l pelas constelaes do romntico.
    Este moo tem-se desenvolvido muito depois que se uniu ao Ginsio; foi a pedra de toque de uma vocao larga. No drama de domingo,
    sobretudo, teve momentos belos, cenas perfeitas.

  H talvez ainda
    uns laivos de uma educao artstica viciosa; a fala ressente-se de uma gravidade
    prpria do romantismo. Mas esse derradeiro crepsculo de uma aurora mal
    despontada vai desmaiando: e o Sr. Heller tem-se
    mostrado um digno companheiro de seus novos colegas.

  No terceiro e
    quarto atos tem cenas to belas, to bem desempenhadas; h tanto sentimento no
    dizer do papel de que se incumbiu, que o Sr. Heller
    conquistou um lugar de ora avante distinto na cena. Uma fisionomia mbil 
    ainda um mrito que ele pe em execuo com um resultado feliz. No imitou,
    reproduziu a figura que lhe estava confiada.

  A Sra. Gabriela 
    a mesma Sra. Gabriela -- desse passado glorioso -- que a cinge como uma aureola
    histrica. Do lugar resplandecente que ocupa na arte nem a inveja, nem a
    estupidez de um povo de zoilos a faro descer.  que o pedestal  slido; so palmas
    e loureiros.

  Elisa de
    Chennevieres  uma pgina para a odissia da artista;  uma das suas mais
      belas estrofes. Nos lances, nas situaes mais dramticas da pea, o talento da
      grande artista elevou-se eloqentemente. Foi o seu e pur si muove.

  No terceiro ato --
     apario sbita. de seu marido, esteve completamente
    sublime. -- Foi um recuar brio, um abalo to completo, que arrebatou
    completamente as turbas. Toda a cena que se seguiu depois com o Sr. Heller foi cheia e altamente dramtica. Ningum iria
    melhor do que aqueles dois artistas, eu vos asseguro, leitoras.

  O Sr. Furtado Coelho, Paulo de Chennevieres, pintou o
    carter de que estava encarregado com expresso e verdade. Teve cenas de
    verdadeira expanso, no segundo ato sobretudo. O que
    se nota neste artista, e mais que em qualquer outro,  a naturalidade, o estudo
    mais completo da verdade artstica. Ora, isto importa uma revoluo; e eu estou
    sempre ao lado das reformas. Acabar de uma vez essas modulaes e posies
    estudadas, que faz do ator um manequim hirto e empenado,  uma misso de
    verdadeiro sentimento da arte. A poca  de reformas, e a arte caminha par a
    par com as sociedades.

  A figura ingnua,
    fresca e delicada da menina de Chennevieres foi posta em ao com muito
    talento pela Sra. Ludovina.  um papel pequeno, est no segundo plano do
    quadro, mas a luz que lhe deu uma inteligncia fina agradou completamente.

  No falei ainda
    do Sr. Martins, no desempenho de um carter muito conhecido por esses sales. 
    um falador, um curioso -- que em tudo se mete, que de tudo fala, e que d sem
    dificuldade as honras de uma verdade lquida  hiptese mais inconsistente.

  Efetivamente  ele a causa do desafio entre Paulo e Maubreuil --
    com as suas exclamaes indiscretas de cicerone de mau gosto. Mas, morto
    Maubreuil, terminada a pea com a definitiva paz na famlia Chennevienes,
    a pea  to moral, to bem acabada que o leviano intrigados, que afinal no
    tinha mau corao, vai entregar-se  justia como
    autor da morte de Maubreuil. Belo trao realmente!

  O drama 
    excelente por todas as faces, e um dos melhores do repertrio. A empresa
    d-lo- muitas vezes ao pblico e eu peo aquelas de minhas leitoras que o no viram que se apressem a isso.

  A comdia Um
    lobo no mar faz rir,  cheia de chiste e gosto, e constitui um belo
    passatempo depois de uma concepo como  A honra da famlia. O Sr. Graa, sobre tudo, fez rir as pedras e esteve artista. 
    que pertence sob outra forma  vasta galeria dos
    Homeros bufes de que fala o poeta das Contemplaes.

  Houve tambm na
    tera-feira uma poesia do Sr. Novaes, O ator, recitada pelo Sr.
    Moutinho, que o fez com graa e inteligncia.

   foroso
    concluir aqui, diz o paginador, entidade estranha s minhas leitoras, que eu
    descreverei mais tarde se tiver tempo. Entretanto, tinha que falar do
    espetculo -- concerto de quinta-feira, em benefcio do Sr. Furtado Coelho, do Ginsio.

  Duas linhas
    descritivas, porm, no viriam perturbar os trabalhos
    tipogrficos.

  O teatro estava cheio, camarotes e platia. Na segunda ordem havia em cada
    camarote uma chapa circundada em grinalda de louros, em cujo
      fundo azul estavam gravadas em letras douradas os personagens da criao
    do beneficiado. Os intervalos eram preenchidos de apanhados de folhas verdes
    caindo em lindos festes.

  Foi um espetculo
    magnfico. O Sr. Furtado foi coberto de aplausos, de
    flores e de coroas.

  O desempenho do
    drama Luiz nada deixou a desejar. O autor do drama, Sr. Ernesto Cibro
    foi chamado  cena, e vitoriado, plenamente.  que entrou no teatro com o p
    direito e uma chave de ouro.

  No posso dizer
    mais; falta-me espao. At domingo.

  25 de setembro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio. -- Luiz; uma vocao nascente Um
    Bernardo em dois volumes. -- Lrico. -- Lombardos.
    -- S. Pedro. -- Jocelin, o marinheiro da Martinica.
    -- Um anncio e um idlio.

  Luiz  um drama em trs atos do Sr. Ernesto
    Cibro; deu-nos o Ginsio essa estria dramtica de uma vocao larga ainda nas
    primeiras revelaes.

   um belo drama;
    uma dupla profisso de f: a artstica e a social. Como arte, o Sr. E. Cibro
    lanou-se com alma e corpo ao drama moderno, assim pelo lado da idia, como
    pelo lado da forma. Como social, o drama respira um grande sentimento
    democrtico; a luta do peo e do nobre; o antagonismo do corao e da
    sociedade. No so idias novas, mas so sempre idias bem
      queridas das massas.

  As leitoras
    conhecem de certo o drama; no concordam comigo? H ali cenas de uma tocante
    originalidade, de um sentimento to profundo, caracteres desenhados com
    firmeza, lances to dramticos, que me levam a crer e
    esperar no Sr. Cibro um dramaturgo de futuro e nomeada. Elisa  a prola pendente do lodo daquela casa nobre de morgados:
    bela e delicada criao dos sonhos do poeta. Balthazar  ainda um tipo original: o lavrador; homem de maneiras
    rudes e respeitosas, um fundo de sentimento e um pundonor agreste e aldeo.
    Todos os outros caracteres que movem a ao esto bem
    reproduzidos. Reproduzidos  a palavra: h no drama do
    Sr. Cibro a verdade, a reproduo.

  Concepes como
    estas no morrem; o Sr. Cibro poder escrever outras de mais largo horizonte,
    de mais subido preo; Luiz  sempre a
    sua chave de ouro com que abriu as portas do templo da arte. Esta  a minha
    opinio, isto , a opinio do pblico que aplaudiu freneticamente o jovem poeta.

  Como desempenho
    no podia ir melhor: o Sr. Furtado, o Sr. Moutinho e a
    Sra. Gabriela vo perfeitamente -- e a eles couberam as honras do desempenho. O
    fim do primeiro ato sobretudo foi representado com o
    talento e a rapidez que requeria a situao.

  O Sr. Moutinho,
    no papel de Balthazar, o lavrador,
    revelou-nos ainda a grande extenso do seu belo e eminente talento. A
    naturalidade, as maneiras rudes e respeitosas, ao mesmo tempo, do homem do
    campo, foi tudo bem desempenhado pelo Sr. Moutinho. No primeiro e segundo atos,
    sobretudo, desenvolveu esses dotes de artista que o pblico da capital j tem
    aplaudido tantas vezes. No riso como no pranto encontra-se sempre o lavrador.
    Ajunte-se a isto um todo perfeitamente caracterizado em que nada escapa, nem
    mesmo as meias por fora das calas, uso das aldeias daquela terra.

  Escusado 
    especificar os outros artistas; o que dizer do Sr. Furtado e da Sra. Gabriela? As leitoras sabem, como a
    platia do Ginsio, que ambos preencheram completamente os desejos do autor. O sentimento
    que ele imprimira nos caracteres de Luiz e de Elisa achou dois intrpretes
    talentosos que nada deixaram a desejar.

  Tudo esteve bom;
    decoraes, aparato, desempenho, tudo contribuiu para completar o triunfo do
    jovem autor que acabamos de saudar. O Sr. E. Cibro  portugus; ter um lugar
    distinto entre os escritores de sua terra; mas no meio dessas palmas que o
    esperam, no se esquecer da sua estria no pequeno teatro do Ginsio.

  Seria uma
    ingratido; mas quem escreve estas linhas sabe por tradio que no  esse o
    fundo da alma do jovem autor.

  Um Bernardo em dois volumes  uma comdia do
    Sr. Novaes, feita para rir, cujo fim preenche completamente.

  O autor no teve
    de certo inteno de uma obra literria -- e o povo assim o compreendeu e assim o
    recebeu. Riu, gostou,  o aplauso da comdia, por isso que ela no visa outro
    alvo. h chiste, novidade, ao, movimento, enfim o
    poeta das elegantes stiras est ali reproduzido.

  O benefcio do Sr. Furtado foi de certo uma bela noite. Havia platia ilustrada
    e fina que soube aplaudir bem e a horas, qualidade
    rara nas nossas platias. Oxal que nos volte em breve outra estria e outra
    noite como aquela.

  Houve Lombardos no Lrico. Cantou a Sra. De Lagrange como sempre, isto , bem. Mas a pera, como
    as leitoras sabem, no agrada.

  Lombardos! em domingo! com o Sr. Didot!  chamar o deserto
     platia! Pobre Sra. De Lagrange! sustentar o teatro enquanto no havia Medori e ver-se agora obrigada a aparecer em uma
    pea do desagrado pblico!

  Coisas do mundo!

  Mas, no meio
    dessas maquinaes mesquinhas, resta  Sra. De
    Lagrange a conscincia do prprio talento, e os aplausos dedicados daqueles que
    sabem ver, atravs das serpentes da sombra, a luz do verdadeiro mrito.

  Se eu tiver tempo
    um dia, minhas leitoras, hei-de escrever um livro curioso -- Os fastos do teatro Lrico. No  m
    lembrana, e eu peo que me no antecipem.

  Deu-se no teatro
    de S. Pedro o Jocelin.  um drama
    conhecido, nada h a dizer de novo. Todavia, se as leitoras me permitem uma
    observao, direi que o Sr. Florindo no foi como nas
    representaes anteriores, quando era empresrio
    em S. Janurio. A
    Sra. Ludovina e o Sr. Amoedo estiveram na altura dos
    papis e o desempenharam com arte. Foram a salvao da
    pea, porque os outros papis importantes naufragaram. A Sra. Tereza Soares nem
    correspondeu ao menos pelo vesturio ao papel que lhe estava confiado. Esta
    moa, que pode adiantar-se, creio que no tem muito
    amor  arte. Nas emoes ento parece que pede um copo d'gua;
    no se lhe contrai nem uma fibra. Se chegar aos seus olhos estas pginas,
    peo-lhe que medite e estude seriamente para alcanar alguma coisa na carreira
    que tomou. Se arrancar aplausos na linha em que est, poder ser uma homenagem
    aos seus dotes naturais, mas um culto  sua feio artstica, nunca.

  Nada mais de
    novidades no mundo dos espetculos. Eu no desejo fatigar as minhas leitoras
    com a narrao de peas conhecidas e cujo desempenho  sempre o mesmo com pouca
    diferena.

  Podemos conversar
    em outra coisa.

  Em qu?

  Ah! Anuncio-lhes
    o renascimento da pera Nacional. Voltam, creio eu, as belas noites que nos deu
    essa associao interessante. A companhia porm que se
    anuncia  a reunio de alguns artistas da companhia antiga sob a direo do Sr.
    D. Jos Amat. No  a associao do governo.

  Soa que teremos
    sesses artsticas de muito gozo, zelo e talento.

  Tanto melhor! creio que posso esperar das minhas amveis leitoras a sua
    companhia na sala de S. Pedro de Alcntara.

  Talvez no me conheam,
    mas  fcil; um cronista  reconhecido entre um povo de cabeas. Eu ento
    cheiro a folhetim a duas lguas de distncia.

  No  modstia...

  A rosa, ao
    contrrio da violeta, desdenha os rochedos para ostentar-se nos campos ao ar
    livre, ao sopro de todas as brisas, ao fogo de todos os raios. Exala os
    perfumes de seu seio, como a orao da natureza ao Criador, embala-se ao agitar
    dos ventos, e nunca fecha as suas ptalas  ao do sol da madrugada.

  Nem eu.

  O sol neste caso
     o olhar da minha leitora complacente que eu sinto atravs destas nuvens de
    papel e letras.

   um idlio isto,
    creio eu.

  Tytire tu patulae...

  At domingo.

  2 de outubro de 1859.

  Sumrio: -- Um pedido  leitora. -- Uma carta. --
    Ginsio. -- Uma bela comdia. -- S. Pedro.
    -- Observaes.

  Digenes, queria
    um homem, o lazzaroni procura uma garrafa, eu s peo, s trabalho para alcanar -- um olhar.

  Uma diferena
    apenas; o vaidoso filsofo no alcanou nada, o lazzaroni alcana dificilmente;
    eu, desculpe a fatuidade, tenho alcanado com facilidade o que procuro.

  No o negue, leitora, no o pode negar. Demais, que monta isso?
    Depois de um sono agradvel, um folhetim. Mas para esse folhetim um olhar
    complacente, penetrante, curioso; a tem!

  Ora, esse olhar,
    que agradeo aqui do meu tonel literrio,  o que eu peo com mais instncia
    hoje; um olhar complacente; mais nada.

  A leitora
    far-me- esse favor; ter um olhar benvolo para estas linhas magras, como um
    poeta de lbuns. Eis ao que vem este prembulo.

  Acho-me na
    verdade ligado, optando entre a ausncia de matria e necessidade de escrever;
    os dons rochedos da Odissia. Em linguagem mais terra-a-terra chama-se isto uma
    entalao, o que  expressivo em toda a extenso do vocbulo.

   uma perfeita
    entalao. Falar de que?

  Tudo  velho, e
    eu temo cair em uma repetio.

  Mas como 
    necessrio comear por alguma coisa, vou transcrever um bilhete de um amigo. 
    um simples bilhete; reporto-me  sua opinio, -- e sanciono de bom grado as suas
    palavras.

  Ei-lo na ntegra:

  'My dear.

  'Parto
    hoje para fora; o cavalo est pronto. No posso l ir: por isso fao-te daqui
      as minhas despedidas.

  'Julguei
    encontrar-te, tera-feira, no Lrico, mas intil. Nem sombras
      tuas! Procurei-te por toda a parte, saguo, corredores, nada! S me faltava uma
      lanterna para ser Digenes.

  'Depois
    de muito procurar encontrei-me com Jorge que me disse estares no Ginsio. Quis ir l, mas
      uma cabea loira como a estrela da tarde mo impediu. Fiquei.

  'Entretanto
    quero pagar-te um logro com um obsquio: escrevo-te esta carta com duas linhas
    sobre o espetculo.

  'Correu a
    pea como sempre. Os Mrtires foi
    sempre uma bela partitura.  verdade que o Mirate no vale o Tamberlik, apesar
    do que se diz por a, -- mas contudo eu sou sempre dos
    primeiros a aplaud-lo.

  'A
    Medori foi aplaudida estrondosamente; e merecia-o! No sou
      medorista, e j vs que sou insuspeito. No sou tambm dos que levam, de
      relgio na mo, a marcar o tempo de uma nota daquela garganta; mas dei com
      muito gosto as minhas palmas.

  'J
    vs que a minha linguagem no pode ser taxada de oficial, confio no teu bom
    senso.

  'Gostei
    muito e muito do credo que o Mirate
    canta com expresso e sentimento; o dueto final fez furor; o pblico chamou os
    artistas no fim, e fez-lhes uma ovao completa.

  'De
    volta da minha viagem, l voltarei aos Mrtires;
    gosto daqueles rasgos de harmonia, que revelam ao longe a alma revolucionria
    do Verdi;  um dos mais belos livros da literatura musical.

  'Bate a hora.  preciso partir. Adeus. D lembranas minhas ao El.
    e ao Ramalho; e deseja-me uma boa viagem.

  Teu B.'

  Exigir mais do
    que isto de um amigo que tem o p no estribo,  ser cruel, e a leitora deve
    necessariamente contentar-se com isto -- assim como eu.

  Que quer que lhe
    diga do Ginsio? J lhe falei no Luiz;
    e a comdia Meu nariz, meus olhos, minha
      boca, j a leitora conhece de certo.  uma das mais chistosas produes do
    gosto francs -- e que o Teatro deve dar-nos uma vez por outra, como uma bela
    distrao. Uma observao, porm. O Sr. Milito no papel de Baltimore  mais caracterstico, mais
    original que o Sr. Heler no Van-Truffel, o holands. Este agrada menos.
    E tem razo. O Sr. Heler fica deslocado na comdia: o drama  a sua esfera.
    Desde o S. Pedro que os papis graciosos repugnam ao jovem autor.

  O
    Graa, o inimitvel Graa, vai aqui como sempre, altamente
      perfeito.

  O Luiz foi ainda e ser aplaudido. No me
    farto de ir ver aquele excelente drama; e aconselho o mesmo  leitora. No?

    Em S. Pedro
     houve uma das
      antigas tragdias, Nova Castro. No
      entro na apreciao dessa produo, porque  demais conhecida. Eu s admito a Nova Castro como uma pgina de belos
      versos. Entretanto, uma observao no vem fora de tempo.

  Aprecio o Sr.
    Joo Caetano, conheo a sua posio brilhante na galeria dramtica de nossa
    terra. Artista dotado de um raro talento, escreveu muitas das mais belas pginas da arte. Havia nele vigorosa iniciativa a
    esperar. Desejo, como desejam os que protestaram
    contra a velha religio da arte, que debaixo de sua mo poderosa a platia de
    seu teatro se eduque e tome uma outra face, uma nova direo; ela se
    converteria de certo s suas idias e no oscilaria entre as composies-mmias
    que desfilam simultneas em procisso pelo seu tablado.

  Seria a cpula do
    seu Capitlio. As bnos da reforma lhes cobririam a cabea; e as maldies
    dos fsseis, se os houvessem, no lhes faria mal
    nenhum.

  A leitora
    concorda de certo comigo,  a minha primeira vitria.

  Minha sobrinha e meu urso, comdia de que
    j falei em uma revista, repetiu-se ainda
    em S. Pedro. Falando
    com franqueza, o Sr. Martinho, no papel que desempenhou, e que lhe estava no
    carter, no foi acompanhado pelos seus colegas. O Sr. Barbosa seria bom que
    no exagerasse tanto a voz, nem o gesto, o que o torna desagradvel.

  A arte tem raias;
     preciso no exerc-la na clave da hilaridade publica.

  O Sr. Jos Luiz,
    no limitadssimo papel de criado, agradou-me; caracterizou-se bem.

  No tenho mais
    espao.  fora acabar.

  Agora esse olhar complacente que lhe pedi, leitora; porque, depois
    desta revista to sem sabor, to ao correr da pena, careo de uma benevolncia
    e uma esperana de melhores pginas.

  9 de outubro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio. -- Uma estria; boa viagem. -- As mulheres terrveis; -- A Probidade. -- S. Pedro. -- Suzana. -- Anncios.

  Decididamente,
    leitora, a poca  de estrias; um dramaturgo o ms passado, um ator no dia 10;
    duas artistas brevemente; tudo no Ginsio.

  O jovem teatro tem
    crescido em pessoal e em mrito, e incontestavelmente em estima no esprito de
    sua platia ilustrada.

  Quando digo
    platia ilustrada, note a leitora que fao a devida exceo do folhetinista.

  A ltima estria
    que nos deu o Ginsio, foi o Sr. Alfredo Tremoulet,
    jovem artista chegado de Portugal, discpulo de Taborda, o Ravel daquelas
    bandas.

  Se
     possvel fazer um juzo sobre uma vocao manifestada apenas em uma cena
      cmica, terei para o Sr. Alfredo palavras favorveis. A Guerra da Itlia  um quadro estreito para uma revelao, e depois
      to localizado, to especial  platia de Lisboa, que o artista devia lutar com
      embaraos srios. Todavia o talento triunfou destas contrariedades; e a platia
      chamando-o  cena deu-lhe uma prova de entusiasmo e animao.

  De feito,
    talento, compreenso, movimento, no faltam ao Sr. Alfredo. A cena cmica, que
     uma stira chistosa sobre a ltima guerra da Itlia, foi desempenhada com
    graa e inteligncia no vulgares entre ns. O jovem ator no desmentiu o nome
    clebre que, a par do seu, apresentou aqui;  um discpulo de esperanas. Por
    mim, bigrafo sem sabor das fases da arte, acastelado na fortaleza de meu
    folhetim, sado este novo capito que se vai mar em fora, caminho de um futuro:
    Boa viagem! boa viagem!

  E agora que ele
    comea a ensaiar as suas velas ao vento, passemos ns, leitora, a outras
    novidades.

  Temos algumas.

  A mais notvel 
    a comdia em trs atos do teatro moderno francs, As mulheres terrveis.  uma das mais delicadas e espirituosas
    composies que conheo; chistosa sem ser burlesca, frisante sem ser imoral. Um desenho completo de caracteres, uma reproduo graciosa de
    fatos que se do na vida social; mo de mestre no desenvolvimento do dilogo e
    da ao, sem cenas de luxo, sem lances suprfluos e trincados, eis o que se deu
    sexta-feira no Ginsio.

  As mulheres terrveis esto encarnadas
    e representadas por uma mulher, a mulher do tabelio Rios. H ainda uma outra
    reproduo do tipo, a Sra. Chatelard, mas pode ainda dizer-se que  uma mulher
    terrvel en herbe, em embrio.

  A Sra. de Rios  o verbo encarnado nas formas elegantes de uma
    mulher de salo, o moto contnuo da lngua. Curiosa e indiscreta, pergunta para
    saber, e fala para dar pasto a uma irresistvel vocao da tribuna. No lhe
    escapa o menor movimento, o fato mais insignificante; quer saber tudo; tudo indaga, tudo perscruta, de tudo se informa. Depois, como se
    tanto conhecimento a afrontasse, no espera o trabalho digestivo da reflexo,
    deita o que sabe  primeira ateno em disponibilidade, ou sem ela.

  Como se acaba de
    ver, um discurso vivo desta ordem  um escolho iminente, pode
      causar cenas desagradveis, lutas internas, escndalos pblicos.

   exatamente isso
    o que move toda a ao.

  A ao da comdia
    nasce de uma indiscrio. A Sra. de Rios falia de uma
    entrevista  sombra de alamedas; trata-se da mulher de um espanhol que tambm a
    escuta na sala, e cujo nome todos ignoram. Deve ao ser mulher no morrer de uma
    bala, mas em compensao v-se em uma situao desagradvel. O conde espanhol
    segue-a por toda a parte como a sombra, como um Mefistfeles; s quer saber o
    nome do homem que servia de interlocutor nas alamedas. H aqui mais a
    pertincia do alemo, que a raiva violenta do espanhol -- o conde  um
    verdadeiro mtodo no acompanhar frio e resoluto os passos daquele pobre
    almanaque arrependido.

  Nem me alargo em
    narrar o entrecho desta primorosa comdia.  bom que a vejam com a prpria vista, os olhos que me esto lendo.

  As honras da
    noite cabem a Sra. Velluti, que desempenhou talentosamente o papel da Sra. de Rios, compreendeu bem a larga face que tinha a pr
    em prtica, e de uma observao acurada nasceu a criao de um papel.  na
    comdia que o seu talento se manifesta; nessa esfera  que a desejo ver; na
    comdia os seus esforos no naufragam nunca. O seu papel de sexta-feira
    bastava para lhe dar um nome, se no tivesse j um, conferido pela opinio
    pblica.

  O Sr. Furtado revelou-nos uma nova direo de suas tendncias.
    Depois de percorrer uma parte da escala artstica, na interpretao de diversos
    e encontrados sentimentos dramticos, inclinou-se anteontem para a comdia e
    entrou no salo com o riso e a chufa nos lbios. No  um estranho na tenda em
    que se acaba de sentar; a inspirao deu-lhe antecipado conhecimento.

  O Sr. Furtado, como ensaiador, merece ainda os aplausos do
    folhetim. Revela-se antes o cavalheiro do salo, que o ator do tablado.

  O Sr. Joaquim
    Augusto merece tambm particular meno. No desempenho do papel a que se
    obrigou, interpretou com graa a pachorra de um marido piscicultor e botnico,
    adepto da doutrina do poeta persa, e cuidadoso conservador de seus pulmes.

  H um papel
    pequeno, limitadssimo, que fez efeito. O Sr. Bonacieux, interpretado pelo Sr. Graa. Imagine a leitora um homem que faz cumprimentos
    em uma frmula de final de carta.  inteiramente novo.

   destas
    produes que o pblico precisa; o esprito das massas no as rejeita,
    abraa-as.

  Deu-se Probidade no Ginsio. Ainda uma
    enchente! Aquele drama caiu no gosto do pblico que o aplaude sempre. Todavia
    falemos franco, depois do Luiz do
    Cibro, no sei que acho na Probidade.

   contudo um belo drama, menos o monlogo do judeu Jacob. Creio que  a primeira coisa que
    me faz abrir a boca no Ginsio (os monlogos).

  O Sr. Martins
    caracterizou-se mal, ou antes no se caracterizou,
    como lhe acontece quase sempre. Mas, sobre a minha probidade de folhetinista, disse o seu papel sofrvelmente.

  Os
    mais como sempre, Manuel Esota e Henrique Soares so duas criaes
      soberbas. Os Srs. Moutinho e Furtado Coelho trabalharam nessa noite com muito
      talento e muito gosto. Estavam inspirados.

  Uma observao.

  J est um pouco
    velho aquele retrato da sala de D. Guilhermina no 2.
    ato; e o mesmo acontece com aquela cadeira de braos da mesma sala.
    Aconselhamos uma reforma sobre estes dois acessrios. So duas coisas que no
    esto na altura da importncia do Ginsio, como pessoal, como repertrio e como
    pblico.

  Se tivesse tempo
    aconselhava alguma coisa  Direo acerca do pano de boca, mas... ficar para outra vez.

  Os Ovos de ouro  um espirituoso disparate
    que tem agradado muito e que agradar ainda bastante. Foi bem desempenhado, a parte alguns senes. Aconselho aqui ao Sr. Milito, em quem
    acho aptido e vontade, menos enleamento na cena. Desejava que se mostrasse mais
    negligente e como que se esquecesse do pblico que tem diante de si. Haver
    assim naturalidade. O Graa, no papel de Bertholdo,
    revelou ainda seus grandes dotes artsticos; foi magnificamente bem no
    caracterstico e no dizer do papel. No duelo, quando  tocado pelo florete, no
    conheo nada melhor.

  Duas passadas e
    vamos a S. Pedro de Alcntara.

  Fez l benefcio
    a Sra. Ludovina Soares da Costa. Esta respeitvel senhora, atriz de um passado
    de palmas, apesar da escola vciosa de seu gnero, recorreu ainda uma vez ao
    pblico. No era uma glria atual que falava, era uma tradio que se levantava
    com os louros nas mos. O pblico l foi ao convite da artista. O drama era uma
    traduo de francs, Suzana. M escolha fez a Sra. Ludovina, se  que a fez, o
    que podia deixar de acontecer, graas  oficiosidade e mau gosto dos nossos
    tradutores.  verdade que foi aplaudido por diversas vezes, mas pode crer-se
    que havia ali uma homenagem antes  grande intrprete de Mariana.

  So oito quadros
    de um amontoado de disparates, e lugares comuns. O tema  velho e conhecido: --
    Uma alde feliz, que entra no mundo, e que depois volta aos caros penates onde
    um desfecho moral absolve o autor e a platia.

  Todavia aqui no
    procede completamente a tese. Suzana, a alde, deixa a sua terra, no por um
    desejo criminoso de abandonar seu pai, mas por uma traio que lhe armam. Foi
    um fato independente de sua vontade.

  Por todo o correr
    da pea, Suzana pretende vingar-se de
    seu sedutor. Este morre no 7 quadro; pensais que essa moa vai encontrar na
    aldeia uma felicidade em paga de um longo infortnio? Nada. Maurcio, o seu
    noivo, no a quer mais, perda-a, mas vai casar com outra; Suzana recolhe-se ao convento.

  No me ocuparei
    com a anlise dessa composio. Unicamente aconselho a quem competir, melhor
    escolha de peas, quando se tratar de dar, ao menos, um passatempo ao pblico.

  Continuo a pedir
    ao Sr. Barbosa menos exagerao. No seu papel de Lagouacha, foi perfeitamente mal.
    Trouxe o carter de um cavalheiro de fortuna,  altura de um papel de lacaio.
    Agradou  platia,  verdade, mas eu peo aqui licena para no concordar com a
    platia, concordando entretanto com os preceitos da
    arte.

  Anunciam-se
    grandes novidades.
    Em S.
      Pedro
    -- O sineiro de S.
      Paulo -- velha pgina de glria do Sr. Joo Caetano. No Ginsio -- Raphael -- para a estria da nossa
    patrcia D. Isabel, do Rio Grande; Feio
      de corpo, bonito n'alma, para a segunda prova do
    Sr. Alfredo Tremoulet; e Abel e Caim para a estria da jovem atriz portuguesa, a Sra. D. Eugenia Cmara.

  O drama Abel e Caim  oferecido ao que consta,
    pelo autor, ao Sr. Moutinho. Por um esquecimento no veio consignado isto nos
    impressos. Sabe-se, entretanto, que o autor escreveu uma dedicatria ao Sr.
    Moutinho to digna de um como de outro.

  Creio que a
    leitora no faltar a estas estrias.

  Nem eu.

  O Espelho, 16 de outubro,
    1859.

  Sumrio: Lrico: Academia Vocal e Instrumental. --
    Ginsio: Benefcio do Sr. Milito, S. Pedro. -- Simo ou o velho cabo de
    esquadra.

  A sala do Lrico
    deu ao pblico, na quinta-feira, um magnfico sero artstico. Foi a Academia Vocal e Instrumental, em
    benefcio de Paulo Julien.

  L estive no
    posto oficial que me confere o cargo de cronista; e pude embeber-me, como
    todos, em um mare magnum de emoes
    novas.

  Nos camarotes se
    debruavam cabeas mais ou menos elegantes; colos mais ou menos sedutores.
    Podia ficar  porta da sada, afim de apreciar mais de
    perto essas coisas, mas eu tenho pouco jeito para escudeiro de corredor,
    confesso.

  No havia
    enchente, mas, disse-me um latinista, amigo meu, que l estava tambm, no se
    podia aplicar o -- rari vantes in gurgite
      vasto.

  Ao som do apito
    ergueu-se o pano.

  Paulo Julien  um
    prodgio.

  As cordas do
    violino perderam a sua qualidade fsica; uma mo prodigiosa dava-lhes
    espiritualidade; no tocavam, falavam!...

  Execuo fcil,
    valente, expressiva; prodigioso nas ligaduras, miraculoso nos stacatos, o arco de Paulo Julien  uma
    das mais belas eloqncias musicais ouvidas no mundo da arte.

  Nunca pensei que
    a lngua musical se prestasse a essas combinaes admirveis, a essa execuo
    magnfica na expresso mais legtima do vocbulo.

  Paulo Julien
    prende, fascina, arrasta; levanta as almas em um turbilho de harmonias lnguidas
    ou enrgicas; conversa com elas nesse estado enrgico que se no define, mas
    que se sente, que se abraa voluntariamente.

   um prodgio,
    repito.

  As dificuldades
    em suas mos tornaram-se de vidro; aniquilou-as com a ao
    daquela vara de condo que vimos manejar to hbil. Ensurdecer o instrumento,
    fazer o pizzicato com a mo esquerda,
    tocar em trs cordas ao mesmo tempo, esses manejos de mo delicada, f-los com
    maestria e preciso.

  As variaes de
    Mayseder em uma s corda, assim como a fantasia sobre a Filha do Regimento, foram aplaudidas com furor. A  que o seu
    talento se desenvolveu mais largo.

  No entro em mais
    consideraes, profano como sou! De simples animador so as
      que expendi.

  O que digo, como
    um fecho,  que dessas noites no temos tido muitas. O charlatanismo nos tem
    muitas vezes embado, e ns, pobres cidados inexperientes, camos como
    patinhos.

  O concerto no
    foi to completo como o anncio. J o esperava. Depois do violinista foram
    aplaudidas as Sras. Medori e De Lagrange.

  No farei aqui
    paralelo sobre os talentos to diversos dessas duas senhoras. No sou Vieirinha de Camarin, para insensar
    vaidades e sancionar na imprensa caprichos de entidades parasitas. Aprecio a
    virilidade enrgica, mas seca do talento da Sra. Medori; assim como a
    facilidade melodiosa e esplndida da Sra. De Lagrange.
    Para aquilatar, porm, a largura desses dois talentos, ser loucura negar a
    reputao europia desta ltima, reputao que to alto no tem formada a Sra.
    Medori.

  Contra esta
    enunciao manifestou-se o pblico na noite de quinta-feira, que a aplaudiu
    freneticamente, chamando-a por vezes  cena a despeito da platia que parecia
    ter sermo encomendado. Os lenos que se agitavam e as palmas que soavam
    estrepitosamente denunciam bem alto uma adeso franca da nossa sociedade 
    talentosa artista.

  A Sra. Medori
    cantou bem a ria de Nabucodonosor. A msica  de Verdi e por
      conseguinte entrava a Sra. Medori no seu gnero. Todos conhecem esse
    pedao magnfico em que uma mistura de ternura e energia, de paixo e denodo,
    parece fazer falar todas as fibras da alma. Scudo pronuncia-se contra a
    revoluo de Verdi, eu no; aceito e aplaudo-a.

  A Sra. De Lagrange em sua ria foi admirvel, no so notas
    que aquela garganta solta, so ondas de melodia, doidas e lnguidas, que
    estremecem, que saltam, que se curvam, e que se embebem afinal nas almas
    absortas e prostradas.

  Desculpem o
    lirismo.

  Sa deveras
    satisfeito do concerto.

  No Ginsio tem-se
    dado as Mulheres terrveis, linda comdia
    de que j falei. Foi expendido o meu juzo acerca, e nada tenho a acrescentar.
    A Sra. Velluti continua na mesma altura a que se elevou no seu dificultoso
    papel.

  A Sra. de Rios e a Sra. Chatelar, so dois escolhos de salo;
     difcil no tropear neles.

  Foi esta comdia
    em benefcio do Sr. Milito. Estive no concerto do Lrico, e no Ginsio s
    cheguei a ver Os ovos de ouro.

   aqui que o Sr.
    Milito tem um papel do seu gnero, o excntrico.  moo de aptido, como disse
    em outra parte, e com estudo e a vontade que tem, no ficar estranho aos
    segredos da arte. Caminhando pouco a pouco  que eu o quero ver: custe a dar o
    passo embora, mas veja que o terreno esteja slido. As vocaes que se educam assim
    so mais maduras e mais iguais. Os saltos mortais no tablado so perigosos, e
    quase sempre fazem quebrar a cabea e o futuro. So muito raras as reputaes
    da vspera, e s se do em uma certa ordem de
    tendncias.

  O Sr. Milito
    sempre me achar pronto, para observar-lhe os defeitos, assim como aplaudir-lhe
    as belezas;  esta a crtica que se exerce com os grmens legtimos, com as
    tendncias reais.

  Caminhe assim,
    que caminha bem.

  Houve
    em S. Pedro
    um drama em
    cinco atos, Simo ou o velho cabo de esquadra.
    Simo  um dos papis do Sr. Joo Caetano, que o montou h pouco tempo, tirando
    grandes enchentes e grandes aplausos. Todos conhecem o entrecho daquela
    composio, no me cansarei em repeti-lo aqui.

  O Sr. Joo
    Caetano esteve eminente nos ltimos quatro atos. No primeiro notei-lhe maneiras
    e gestos menos rudes para um soldado, queria mais
    exatido na pintura da individualidade; e um cabo de esquadra, ainda que
    tivesse sado de um salo, sempre  um soldado; o campo de batalha transforma o
    indivduo.

  Todavia o artista
    remontou-se no segundo ato. Aqui o contraste  de um belo efeito. A alegria e a
    chufa do campo de batalha tornou-se em abatimento e
    tristeza. O mudo  perfeito; h expresses, emoes bem desenhadas; e a frase
    acional  precisa, simples e eloqente.

  O Sr. Barbosa
    continua nas suas exageraes; toma gestos e inflexes de voz
      hiperblicos, alonga as palavras, carregando sobre elas, tortura a
    lngua, a arte, e a pacincia dos pensadores que l vo.

  A Sra. Adelaide
    disse o seu papel com sentimento e inteligncia.  uma artista de merecimento
    que eu desejara ver em papis mais largos como em outro tempo.

  Agora uma
    pergunta.

  Todos conhecem o Asno sempre  asno. Ora, em que pas e
    em que poca, um pai usa de calo, cabeleira de rabicho, e chapu a trs pancadas, ao passo que o filho
    traja com um garbo de lion,
    fraque moderno, e botina francesa? ao passo que um
    velho mestre de escola de culos verdes apresenta o caracterstico mais
    hbrido, mais bastardo, mais furta-cor deste mundo?

  Desejaria a
    soluo deste enigma.

  Ao Sr. Murtinho,
    artista de estro cmico bem pronunciado, acontece uma
    coisa.  sempre o mesmo; o mesmo semblante toma diversas formas, de maneira que
    o ator no entra na individualidade que representa, mas esta  que se encarna no
    ator.  uma grande qualidade a do caracterstico, e na expresso do povo meio
    caminho andado.

   porque conheo
    o seu merecimento que lhe fao esta observao. S se lavra a terra produtiva;
    nas estreis deixa-se crescer o mato.

  E com isto, demos
    fim  revista. Devia estrear no Ginsio hoje (22) a Sra. Isabel Maria Cndida,
    artista recentemente chegada do Rio Grande.  hora em que me lerem esses lindos
    olhos, leitora, j ela ter dado o seu primeiro passo no tablado fluminense.

   assim que o
    Ginsio desempenha a sua alta misso de aperfeioamento artstico.

  At domingo.

  O Espelho, 23 de outubro
    de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio. -- Rafael, e Quero e no quero. Duas estrias. -- pera Nacional. Abertura. Um ssia do cronista. -- Notcias
    importantes.

  Hoje venho
    apressado, e de pouco tempo posso dispor para a minha crnica. No procuro
    induzir a razo do fato; peo  leitora que se limite apenas a saber que venho apressado.

  Imaginem contudo que corro para um rendez-vous, um sero em frase mais lata: falo de Abel e Caim que se d hoje no Ginsio
    como estria da Sra. Eugnia Infanta da Cmara, mandada contatar a Portugal,
    pela empresa daquele teatro.

  To
    desencontradas coisas se dizem desta artista, tanto se fala no drama, que eu
    sinto-me incerto e vacilante e levado por esta ansiedade natural que precede a
    todas as estrias. Anunciada para hoje, sbado, vamos enfim aquilatar a atriz
    que atravessou duas mil lguas para vir unir-se  companhia do Ginsio.

   hora em que a
    leitora vir estas pginas j o pblico ter, ou sancionado ou desmentido o nome
    de artista  Sra. Eugnia da Cmara. Nada avano,
    porque nada sei a respeito, exceto uma reputao ultramar que a mesma senhora traz, como senha de entrada.

  Esperemos.

  Sobre estrias tem
    andado o Ginsio bem adiantado. Algumas apreenses levantadas h algum tempo
    acerca da decadncia daquele pequeno teatro, creio que esto completamente
    destrudas com as freqentes aquisies, de que se enriquece aquela jovem e
    inteligente corporao.

  Sbado passado
    houve uma estria tambm, a da Sra. Isabel, do Rio Grande. Subiram  cena nesse
    dia o drama Rafael e a comdia Quero no quero.

  Ernesto Biester 
    o autor de Rafael. Sinto acanhada a
    esfera em que me revolvo para poder fazer uma anlise seria e profunda daquele
    drama. Tudo que posso dizer no passar de ligeiras observaes tomadas  vol d'oiseau;
    mais nada.

  Depois, assisti
    apenas a uma rcita, e no conheo o drama
    em livro. So
    inconsistentes, portanto, as impresses que o meu esprito, sempre fiel ao
    compasso do dever, pode apontar. A leitora deve contentar-se com elas.

  O drama foi
    freneticamente aplaudido pela platia que estava em um dos seus melhores
    dias... melhores noites, quero dizer. Aplaudir, com o
    aplauso da crtica, isto  um assentimento ntimo. Todavia, discrepo um pouco
    da opinio geral, e ouso achar que dizer sobre o Rafael.

  O drama  com
    efeito bonito, assim pelo lado da concepo como pelo lado do desenvolvimento,
    mas tem ainda defeitos entre essas belezas.

  Como estilo, 
    lrico de mais; mesmo a suar lirismo por todos os poros; uma sucesso de odes,
    coruscante de figuras. H trechos, em que a situao pede mais conciso, mais
    lisura, mais nettet, na frase, mas
    onde a firmeza da ao se perde em chuva superabundante de imagens. Revela-se
    aqui o autor pouco cuidadoso, que s procura o efeito, arredando-se assim da
    inteno primitiva, que no lhe negarei, de uma pintura mais verossmil de
    caracteres.

  Entrando na ao
    aquela D. Maria e o Comendador, no me parecem perfeitamente unidos ao drama.
    Esto mesmo afastados dele, e no sei como entram ali. Se o autor quis contrair  platia a fibra da hilaridade, no o conseguiu
    sensatamente pela maneira por que o fez. Se intentou o
    desenho de dois caracteres, malogrou esse desejo, porque, alm de carregar de
    mais no crayon, colocou os dois tipos
    to mal ao p da ao cardeal, que eles desaparecem completamente.

  Estas observaes
    so, de certo, justas. D. Maria e o Comendador formam um drama  parte, ou antes uma comdia isolada.

  Nenhum elo os
    prende. Assim, pretendendo chegar  fuso da tragdia e da comdia, operada por
    Shakespeare, enganou-se completamente. No fundiu as duas formas, uniu-as, no
    as encarnou, enlaou-as.

  Fora desta
    pequena queda, o drama  em geral bem escrito, e digno
    do nome de seu autor.

  A platia aplaudiu, como disse acima, o drama de sbado passado. 
    para estas pginas que eu guardei os meus.

  O pblico,
    chamando  cena a Sra. Gabriela e os Srs. Furtado e Augusto, mostrou que sabe
    compreender a arte nas suas diversas expresses. Admira, porm, que no
    chamasse tambm o Sr. Heler, que trabalhou com talento e teve pedaos realmente
    lindos.

  A Sra. Gabriela
    levantou o papel que lhe estava confiado acima da altura em que o colocara seu
    autor. A platia o patenteou, e a crtica do folhetim vem sancion-lo.
    Sancion-lo e mais nada; o que diria eu? Ficaria descorado de verdade em face
    da criao de sbado.

  Os Srs. Furtado e
    Augusto estiveram tambm dignos companheiros da eminente artista. Nas cenas capitais
    mediram-se, mas no perdeu nenhum deles; foi uma luta nobre em que no houve
    derrota, mas um recproco triunfo.

  Quanto 
    estreante o pblico no a chamou  cena como fez aos outros artistas, o que a
    alguns parece uma manifestao do seu desagrado. No se deve julgar, porm,
    isso.

  No que a Sra.
    Isabel fez mal foi representar ao lado da Sra. Gabriela. Ficou assim absorvida
    pelo eminente vulto.

  Todavia, se posso
    deslig-la da massa de seus companheiros, acho que esse desagrado, que se quis
    atribuir  platia, se existisse seria infundado. A Sra. Isabel  uma dama de
    talento; no tem voz sonora bastante,  verdade;  montona s vezes, concedo;
    mas  preciso levar em conta as emoes de uma estria, a altura de seu papel,
    o difcil de suas situaes, e os vultos que trabalhavam nessa noite. Uma
    segunda prova regularizaria melhor a opinio pblica.

  Quero e no quero  uma linda comdia em que a Sra.
    Isabel tambm entrou; agradou nessa outra face de seu talento. Todos os mais
    nada deixaram a desejar, tanto a Sra. Jlia Heler,
    como os Srs. Martins e Paiva. A Sra. Julia representou mesmo com graa e
    inteligncia.

  Abre-se
    segunda-feira a pera Nacional com o Pipelet,
    opera em 3 atos, musica de Ferrari, e poesia do Sr. Machado de Assis, meu ntimo amigo, meu alter
      ego, a quem tenho muito afeto, mas sobre quem no posso dar opinio
    nenhuma.

  A msica 
    lindssima e original; cmica e sentimental conforme as situaes. Ferrari
    mostra a que sabe a fundo o vocabulrio musical; a leitora pode ir verific-lo
    com os prprios ouvidos.

  Desejo as maiores
    felicidades  companhia que se levanta agora.

  O Sr. Amat,
    diretor e empresrio, fez, alm dos artistas
    conhecidos que tinha, a aquisio de dois artistas estrangeiros: o Sr. Csar
    Gianelli e a Sra. Paulina Gianelli. O pblico ir aplaudi-los; certo estou eu
    disso. A Sra. Paulina  uma perfeita segunda dama, e o
    Sr. Csar um excelente baixo, de uma voz volumosa e cheia.

  Se tivesse mais
    tempo estendia-me ainda em consideraes sobre esta til associao. Tenho de
    passar a outras coisas, e para ocasio mais oportuna me guardo.

  Todavia cumpre
    lembrar o infundado de certo preconceito que por a passa como sentena. Falo
    do concurso de artistas estrangeiros que para algumas suscetibilidades
  patriticas tira a cor nacional  idia da nova instituio. Os que assim pensam parece ignorar que o talento no tem localidade, fato reconhecido na Europa. A pera, a Grande pera de Paris, a capital das civilizaes modernas, como comeou? Com esse concurso do estrangeiro. Depois mesmo no admitiu em seu seio, a Cruvelli, por exemplo, que  to francesa quanto eu sou turco?

  Ora, em Paris,
    onde se do essas coisas, h um Conservatrio de msica, em um alto p de
    desenvolvimento, h iniciativa do governo, e teatro regularizado. Se l se d
    isso, por que motivo, entre ns, onde h falta de tudo, havemos de afastar os
    talentos estrangeiros?

  O talento 
    cosmopolita, pertence a toda a parte, A pera  nacional, porque  cantada na
    lngua do pas. No se trata aqui da arte dramtica, que  outra tese. A forma,
    aqui, no descora nem de leve a patritica.

  Neg-lo seria
    querer mal  instituio que to verde de esperanas se levanta do ocaso de uma
    tentativa malograda; no  isso de esperar do pblico sensato.

  Deve reentrar, hoje,
    sbado, no teatro de S. Janurio, o Sr. Germano, com a
    sua companhia, de volta de Pernambuco. Leva o Vinte e nove.

  Domingo (30) sobe
    afinal o Sineiro de S. Paulo, to
    ansiosamente esperado. O Sr. Joo Caetano faz o papel de John.

  O Sr. Ballestra
    Gali vai dar representaes lricas no teatro de S. Janurio que o Sr. Germano generosamente lhe abriu.

  Tenho tambm
    notcia de que o pianista Pfeifer vai dar um concerto no salo do Club. Tanto ele como o Sr. Ballestra,
    so duas vtimas da direo do teatro lrico, que o pblico apreciar com
    imparcialidade.

  Fecho esta
    notcia com a transcrio da dedicatria que o Sr. Mendes Leal (Antonio) fez ao
    Sr. Moutinho, do drama Abel e Caim.

  'Meu
    Moutinho. No te enfades comigo se te ofereo o meu Abel e Caim, to injustamente condenado
      pelos inimigos virtuosos da Capital; sei que tens direito pela tua inteligncia
      a oferecimento de maior valia; dou-te, porm, o que tenho;  a minha primeira
      produo dramtica, a mais querida, e com ela os aplausos com que o pblico se
      dignou saud-la em vinte representaes consecutivas; no t'o lembro por
      vaidade, lembro-t'o para que me desculpes o arrojo.

  'Vais
    ausentar-te da ptria, em mundo novo desprender o vo  irresistvel vocao
    que to poderosamente te impele para o templo da arte, to cheia de
    preconceitos entre ns, e j to habilitada nas mais cultas naes da Europa;
    ao artista, pois, recomendo o meu pobre Abel
      e Caim, e se acaso te merecer alguma considerao, incumbo-te o papel de
    Joo de Mello; sei em que mos o deposito, e contando
    com a tua artstica colaborao, posso desde j contar com mais um triunfo, e
    se porventura o pblico brasileiro se dignar realizar-me as esperanas, guarda
    para ti a glria do bom xito, porque te pertence de direito; ao amigo resta-me
    agora aqui agradecer-lhe as provas de deferncia e estima com que sempre tratou
    o pobre autor de to modesta produo.

  'Adeus, meu
    Moutinho, desculpa o prosaico da dedicatria e no repares na forma, v s a
    inteno'.

  29 de outubro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio: -- Abel e Caim; -- uma estria. -- Rafael,
    um concerto e um triunfo.

  A opresso de um
    irmo, e o martrio lento de outro, com uma reao da vtima por cupola, eis
    sobre que repousa o drama Abel e Caim representado no Ginsio.

  No entro aqui na
    investigao da realidade dos fatos daquela pea. No est isso nas atribuies
    da crtica-folhetim. Estou mesmo certo que, em geral, h alguma coisa do
    escritor nas suas obras capitais: muitas vezes as faces da criao so coradas
    com o prprio sentimento. Mas que vale isso aqui? Do alto destas pginas s
    conheo a obra e o escritor; o homem desaparece.

  Tomo pois a obra.

  H defeitos no
    drama de Mendes Leal (Antonio), mas no to capitais que lhe mareiem o todo. O
    desfecho, por exemplo,  prolongado de mais. O autor quis fugir de precipit-lo
    e caiu no extremo oposto, abrindo assim uma espcie de tortura ao esprito da
    platia. Deveria ser mais preciso para ser mais completo.

  Este fato, porm,
    como outros senes daquele drama, no depem contra a massa da obra. H cenas
    tocantes, bem conduzidas e bem desempenhadas, preciso no dilogo, verdade nos
    caracteres. O monlogo de Joo de Mello no segundo ato, a cena entre o galego e
    o senhorio do mesmo, a cena final desse mesmo ato, e duas cenas ainda do terceiro
    so de efeito e constituem os membros capitais do drama do Sr. Mendes Leal.

  Se, com efeito, Abel e Caim  a
    narrao de um fato, o autor com o instinto da arte, criando Francisco de
    Mello, Caim, fez mais que assinalar
    um indivduo, encarnou nele a sociedade. A sociedade tem sido efetivamente o Caim do talento. H martrios ignorados;
    -- os que a histria recolhe na sua piedade severa -- so Cames, so Cervantes,
    porque os outros, to dolorosos talvez, foram obscuros demais para o olhar da
    posteridade. Desgraadamente para Caim,
    o martrio de Abel traz sempre a
    interrogao pungente do Senhor. Para a humanidade o Senhor  a histria; no
    drama  o Dr. Manoel da Cunha.

  O doutor  uma
    figura severa e simptica, mas estendida ao talento espezinhado, rara dedicao
    no meio do egosmo social.  um papel alto de mais para o Sr. Paiva, um moo de
    estudo e habilidade, mas cujo talento sente-se estreito para aquela criao.
    Teve, de certo, pedaos em que no comprometeu a inteno do autor; mas, na
    apreciao sinttica do papel, traiu a virilidade e a altura do tipo.

  O Sr. Augusto, compreendeu o seu papel, ainda nas dificuldades mais
    insuperveis. Efetivamente, por uma exatido cruel do tipo, o poeta pe o
    intrprete de Francisco de Mello em uma situao deplorvel, que demanda
    grandes recursos artsticos. Assim, ps sobre os ombros do opressor o manto
    ridculo, de modo que o ator tem de ver-se em uma tortura cruel para afastar de
    si essa tnica, que lhe pode servir de sudrio. A figura sria de Francisco de
    Mello tem de lutar com as humilhaes que o acompanham por toda a parte e que
    se sucedem no terceiro ato; e assim, s grandes recursos artsticos e um talento legtimo podem vencer essas dificuldades. O Sr.
    Augusto soube conservar a dignidade no meio dos apupos; se discrepasse uma
    linha da altura em que estava, promoveria a hilaridade pblica em vez dos
    aplausos srios; conservou-se no Capitlio sem cair na rocha Tarpia -- to
    perto como estava.

  O Sr. Furtado Coelho tinha a seu cargo o desempenho de Joo de
    Mello -- o Abel. As dificuldades do
    outro papel no existiam aqui, era apenas a resignao altiva que se
    concentrava no martrio. O artista compreendeu a situao, e entreviu a alma do
    poeta atravs da criao dramtica. Encarnou-se nela e apresentou-se como um
    documento contra o egosmo social. Teve cenas cheias, e no monlogo do segundo
    ato obteve merecidos aplausos.

  Entretanto,
    em uma Vnus
    de
    Medicis a brancura do mrmore pode ser mareada por uma ndoa, e a
    perfeitabilidade sofre assim em sua acepo ampla. Essas ndoas, ainda
    microscpicas, tornam-se mais salientes quanto mais bela for a obra do escopro, como, na ordem moral, as ofensas pequenas so grandes na
    razo direta da Providncia ofendida. No Sr. Furtado
    Coelho h algumas dessas ndoas do mrmore; algumas incorrees naturais em uma
    vocao que a prtica no amadureceu ainda, e essas no lhe assentam no vulto.

  Noto-lhe, assim,
    uma indolncia na posio s vezes e uma conservao de mos fechadas, que
    ofendem a elegncia do palco. Depois, outras vezes um certo avanamento de cabea, posio forada, que produz os mesmos resultados. Estas
    pequenas negligncias que no constituem, nem de leve, um demrito, podem
    servir entretanto  crtica insensata dos Cains da
    arte que por a vestem prpura de rei. Noto aqui essas negligncias para
    evit-las e para atingir assim ao complemento do belo.

  O galego,
    desempenhado pelo Sr. Alfredo,  o Jau do poeta, o aguadeiro amigo de Joo de
    Melo.  tocante a cena com o senhorio deste, que vem pedir o preo mensal
    vencido, e a quem ele paga de suas economias. O Sr. Alfredo merece os aplausos
    que lhe deu a platia naquele estreito papel: no desmentiu ainda as minhas
    previses. Hoje, que deve estrear na comdia Feio de corpo, bonito n'alma, vir talvez
    confirmar a opinio que dele tinha feito.

  O papel da Sra.
    Ludovina  tambm de pouco desenvolvimento; mas foi desempenhado com
    inteligncia por uma vocao nascente ainda. H frases ditas com talento e
    inspirao, mas outras em que talvez falta a uno do
    sentimento, relativo  situao.

  Releva, porm,
    notar os poucos dias de sua existncia artstica, por quanto na Sra. Ludovina
    no ho de certo mentir, merc do estudo, as tradies de uma famlia de
    artistas.

  O Sr. Graa, no papel de Jos Evaristo, mostrou, como sempre, aqueles
    dotes artsticos que possui em larga escala.  o usurrio especulador e
    estpido nas maneiras e nas palavras. Desdm para o que  pouco,
      adulao com o que  muito.

  Na cena do
    terceiro ato com a baronesa vai muito bem; sobretudo no gesto e na expresso
    fisionmica que apresenta quando a baronesa lhe diz entre risadas: -- Nunca
    pensei que fosse to... parvo!

  Chegamos
    agora, leitora,  baronesa de Almourol.

  Deixo de parte
    papel em si:  uma transformao desses anjos que, no meio da sociedade, sentem
    alguma coisa acima do lodo, como que um instinto humano que no polura o
    contato social. Difere do anjo apenas em ser um pouco Maquivel -- ou ser ambas as coisas, se se pode casar a pureza ignorante do
    serafim com as finas teorias do diplomata.

  Falemos da
    estreante.

  Como disse na
    minha revista passada, encontravam-se as opinies. Fui, por conseguinte,
    prevenido contra afetos e desafetos; e disposto mais que nunca a propor o X
    desconhecido na pedra da minha conscincia.

  Efetivamente o
    fiz; no fim do espetculo tinha o meu juzo feito.

  H talentos
    especiais, vocaes tendentes a uma certa ordem de
    aplicao, na qual, como em atmosfera prpria, se desenvolvem e se legitimam. A
    natureza no abre todas as inteligncias. Marca-lhes rbitas, como a planetas.
    Se esta teoria nem sempre procede,  para trazer a exceo  regra e
    consolid-la; no h muitos Humbolds na histria.

  Regem estas
    mximas na arte como em toda a humanidade. Em teatro, reproduo da vida real,
    os talentos so chamados a especialidades; e se muitas vezes as tendncias
    parecem invadir novos caminhos, no passa isso como mxima, porque no tablado,
    como fora dele, os Humbolds so raros.

  So generalidades
    estes juzos; mas no vm aqui fora de propsito.

  A Sra. Eugnia
    Cmara  um talento que no contesto, de certo. Tem disposies pronunciadas
    para a cena, onde um estudo acurado pode dar-lhe uma posio regular.  um
    trabalho de Ssifo; a rocha cai muitas vezes tendo atingido ao fim; conserv-la
    no cume da montanha  a pedra de toque dos talentos legtimos, das aptides
    reveladas.

   talvez estranha
    e obscura esta linguagem; serei mais claro e mais franco; e fique certa a
    artista que no virei sussurrar-lhe um entusiasmo de conscincia postia. Sei o
    que sinto e digo-o bem alto.

  A Sra. Eugnia
    Cmara tem uma esfera prpria, a comdia, a comdia Djazet. Em sua estria
    teve a felicidade de mostrar-se de perfil, com toda a distribuio de luz e de
    sombras; de maneira que a platia apanhou-lhe os traos mais vivos e
    reconhece-lhe as proeminncias.

  O drama no
    chama, no parece chamar a Sra. Eugnia  sua esfera. Abel e Caim pareceu de propsito
    ter a incumbncia dessa demonstrao. O segundo ato , relativamente  baronesa
    de Almourol, a parte dramtica, como o primeiro e o terceiro so a comdia do
    mesmo papel.  a comdia; esse tipo no  sentimental;  risonho, leviano,
    espirituoso, como nos sales. Para a suas tendncias a impelem;  esse o seu
    cunho, a sua rota martima no oceano turbado da arte.

   perfeita a? A imparcialidade
    da crtica d uma negativa. h que estudar ainda, como
    talento jovem que ; e dizer-se o contrrio, seria cortar as esperanas pela
    raiz, e fazer nascer-lhe no esprito algum sentimento pouco legtimo.

  Assim, no
    terceiro ato, a par de um belo dito que tem, na cena
    em que Francisco Mello
    lhe est ajoelhado aos ps, assim como algumas frases mais, lia a cena anterior
    com Jos Evaristo, em cujo desempenho parece-me no conservar a majestade
    aristocrtica que lhe pedia o tipo. Depois, uma outra coisa concorre ainda: a
    modulao habitual da voz, proveniente de um vcio nacional, a que no est
    afeta a nossa platia delicadamente suscetvel.

  Estas ligeiras
    observaes so o apanhado de uma s noite, e ressentem-se de indeciso. O
    esprito pblico est talvez mais adiantado do que o meu; mas a crtica tem por
    fim analisar, e para analisar completamente lia mister de conhecimentos mais
    latos e documentos mais verdadeiros.

  Mas, do que digo
    aqui, resultam axiomas que me parecem justificados j. So eles: no  o
    espaldar do drama, mas a poltrona da comdia que a Sra. Eugnia deve ocupar.
    No est ainda acomodada nela, e como que mais se ressente das sinuosidades
    daquele estofado: o estudo e a vontade, e mo aberta aos verdadeiros amigos da
    arte, olhos cerrados aos dorsos flexveis do clculo e das afeies pautadas,
    eis os primeiros meios de que lanar mo, para fazer desaparecer este
    acanhamento de hspede que lhe no faculta a ocupao ampla dessa poltrona de
    que falo.

  Consideraes so
    estas, feitas com cuidado, revelam acanhamento na frase e na observao.  que
    nas estrias a crtica deve colocar-se terra-a-terra, para apanhar assim
    impresses mais vivas e mais de perto; se se levantar s eminncias da arte,
    como Anteu na torre, pode ouvir mal a nova palavra da arte. No pratiquei
    assim; arredei-me de fazer paralelos; pus de parte os
    verbos revelados do tablado; esqueci-me da bela prpura de Csar, para avaliar
    o manto modesto que novos ombros vinham cingir.

  Fora talvez
    severo se no praticasse assim; mas eu no sou destrudor, e reparo apenas e
    como posso aquilo que posso aplaudir como devo.  a norma de meu carter.

  E basta por hoje estas coisas.

  No Ginsio deu-se Rafael, na sexta-feira.

  Houve tambm
    concerto instrumental. Sobre todos distinguiu-se o Sr.
    Cavalli na trompa. Nunca vi tirar notas semelhantes de um instrumento to
    ingrato; o Sr. Cavalli merece de certo o nome de que goza como trompista. O Sr.
    Richet na flauta, o Sr. Domingos Alves no oficleide, e o Sr. Martiniano no
    fagote receberam tambm merecidos aplausos.

  Terminou o
    concerto pelo quinteto do Trovador,
    sendo substitudo o Sr. Gusmo pelo regente da orquestra, o Sr. Demtrio.

  J fiz uma
    ligeira anlise sobre essa produo de E. Biester, e s notarei ainda uma
    inverosimilhana palpvel do segundo ato, creio eu. Que prostrao  essa de
    esprito em que esto todas as personagens que no atendem ao comendador, que alis tem excelentes pulmes? Confesso que no atino com
    justificao razovel.

  A Sra. Isabel,
    como previ, foi j melhor; estava passada a crise de
    uma estria, e o esprito mais sossegado, comea a alentar-se e ganhar novas
    foras. Ainda bem!  mais uma boa aquisio para o
    Ginsio.

  Nada direi sobre
    os mais atores -- j falei sobre eles em outra revista, onde avaliei o desempenho
    do drama em geral.

  No fim do drama o
    pblico chamou  cena a Sra. Gabriela, e com palmas lhe coroou o trabalho.
    Depois dois ramalhetes e uma poesia terminaram o captulo do triunfo. O pblico
     assim; vem de tempos a tempos deitar os seus louros  artista que tantas
    pginas tem escrito no livro da arte, e onde a crtica
    em sua conscincia de imparcialidade no lhe pode negar uma realeza legtima e
    absoluta.

  A poesia
    distribuda  do Sr. Ernesto Cibro, que me permite de a
      inserir aqui, e eu dou como um specimen de seu talento potico:

  Se
    vs um povo a teus ps ansioso,

  Prendendo o gozo
    num sorriso teu;

  Se o vs chorando, se mudaste em pranto

  O doce encanto
    que o levava ao cu;

  Se o vs ardendo por pagar-te o prmio,

  Que deve ao
    Gnio, que te deve, a ti;

   porque o povo
    entrelaou as almas

  No louro e
    palmas, que colheste aqui.

  Rasga os espaos,
    poesia altiva,

  No vs cativa
    por saudar a flor!

  Rasga os espaos,
    que  misso pequena

  Chorar a pena e
    decantar o amor!

  Rasga os espaos,
    e no vo imenso

  Dize o que penso, quanto sinto aqui!

  -- Sinto que um
    povo entrelaou as almas

  No louro e
    palmas, que te deu, a ti.

  Sinto que voas, --
    e o voar da glria

  Marca da histria
    o fulgido arrebol!

  Basta! no venas os celestes lumes,

  Temos cimes do
    amor do sol.

  Basta! que eu canso de voar contigo,

  E mal te sigo no
    desejo, a ti;

  Mas cr-me, Artista, que entrelao est'alma

  Na pobre palma,
    que deponho aqui.

  Tenho excedido os
    limites com esta j enfadonha e longa revista. Tinha ainda de falar do Sineiro de S. Paulo, o que importa
    duplicado folhetim. Reservo pois para a minha prxima
    apario, e farei ento consideraes aplicveis ao drama e ao teatro.

  Leitora, at
    domingo.

  5 de novembro de 1859.

  Sumrio: -- S. Pedro. -- Sineiro de S. Paulo. -- Ginsio. -- Feio de corpo e bonito n'alma. -- Os amores de um marinheiro. Luiz.

  Prometi na minha
    revista passada algumas consideraes sobre o Sineiro de S. Paulo. Fiz mal; contava com mais algumas representaes
    do drama, e enganado em minha esperana, acho-me agora com apreenses muito
    fugitivas para uma crtica precisa e imparcial.

  Desta vez
    realizei um provrbio... oriental creio eu: ningum
    deve contar com as suas esperanas; verdade to simples que no precisava as
    honras de um provrbio.

  As apreenses
    fugitivas de que falo, tocam apenas na parte minuciosa
    do drama e do desempenho. Sobre o todo talvez podes dizer alguma coisa.

  Estranhei o
    anncio do Sineiro de S. Paulo. No me
    pareceu coerente arrancar do p do arquivo aquele drama, velho na forma e no
    fundo, pautado sobre os preceitos de uma escola decada, limpo totalmente de
    mrito literrio.

  Estamos no
    meio-dia do sculo. A arte, como todos os elementos sociais, tem se apurado, e
    o termo em que tocou,  to avanado j, que nenhuma fora conservadora, poder
    faz-la retroceder.

  Assim, reprovei
    inteiramente aquela exumao. O Sineiro
      de S. Paulo no podia satisfazer s necessidades do povo, nem justificava
    um longo estudo de desempenho.

  So fceis de
    conceber estas asseres; e eu que as escrevo, conto com os espritos que vem
    na arte, no uma carreira pblica, mas uma aspirao nobre, uma iniciativa
    civilizadora e um culto nacional.

  Tenho ainda
    iluses. Creio ainda que a conscincia do dever  alguma coisa; e que a fortuna pblica no est s em um farto errio, mas
    tambm na acumulao e circulao de uma riqueza moral.

  Talvez seja
    iluso; mas estou com o meu sculo. Consola-me isto.

  No fao aqui uma
    diatribe. Estou no meio termo. No nego, no poderei negar o talento do Sr.
    Joo Caetano; seria desmentido cruelmente pelos fatos.

  Mas tambm no
    lhe calo os defeitos. Ele os tem, e devia desprender-se deles. No Sineiro de S. Paulo, esses defeitos se
    revelaram mais uma vez. H frases bonitas, cenas tocantes, mas h em
    compensao verdadeiras ndoas que mal assentam na arte e no artista.

  Espero segunda
    representao para entrar detalhadamente no exame desse drama. O que deploro
    desde j  a tendncia arqueolgica de pr  luz da atualidade essas
    composies-mmias, regalo de antepassados infantes que mediam o mrito
    dramtico de uma pea pelo nmero dos abalos nervosos.

  No entro agora
    em consideraes sobre o teatro de S. Pedro; pouco espao me
      do. As que devia fazer, creio que deixo
    entrever nestas poucas palavras que expendi.

  Amor ao trabalho
    e coragem de dedicao. Se no for essa uma norma de vida, aquele tablado
    histrico, em vez de colher louros capitolinos,
    ver-se- exposto  classificao pouco decente de hospital de invlidos. No
    lhe desejo essa posio.

  Agora vamos ter
    ao Ginsio, onde se deu, como segunda prova do Sr. Alfredo Silva, a comdia Feio de corpo, bonito n'alma.

  Conhece esta
    composio, minha leitora?  do Sr. Jos Romano, autor do drama Vinte e nove.

  Escrita debaixo
    de um sentimento liberal, e com inteno filosfica, nem assim o Sr. Jos
    Romano conseguiu fazer uma obra completa. Adivinha-se a substncia, mas a forma
     mesquinha de mais para satisfazer a crtica.

  A idia capital da
    comdia  revelar a beleza da alma na deformidade do corpo; Antonio  o
    Quasmodo, menos a figura pica; entre o ferreiro e o sineiro de Notre Dame h um largo espao; aquele
    tem a verdade; este tem mais ainda, tem a grandeza.

  Estas observaes
    no servem de crtica. Jos Romano no pretendeu fazer um Quasmodo do seu
    Antonio, e por conseqncia o seu valor est a par da sua composio.

  H uma coisa
    ainda que separa Antonio do sineiro de V. Hugo, mas
    que o separa realando-o, mas que o separa levantando-o, na apreciao moral.
    Antonio  bonito n'alma por um sentimento de amizade, por uma confraternizao de operrio. Se a
    gratido embeleza Quasmodo  um pagamento de servio, uma dvida de dedicao.
    Antonio  pelo desinteresse que se eleva, pela fraternidade da bigorna.
    Avantaja-se mais.

  O Sr. Alfredo foi bem no papel, apesar de to limitadas propores. Tinha
    a vencer a dificuldade de comover depois de fazer rir: venceu-a. Moo de
    aspiraes e de talento no desmentiu a idia que sonhou e faz nascer no
    pblico. J lhe dirigi a minha saudao, e sancionando-a agora, protesto-lhe
    aqui imparcialidade severa, para laurear-lhe o merecimento ou castigar-lhe os
    defeitos, cronista como sou.

  O Sr. Augusto foi
    artista no seu desempenho; devia ser operrio, foi. As maneiras rudes do
    ferreiro no so de certo os modos elegantes do cavaleiro de Maubreuil. Soube marcar as distncias.

  A Sra. Eugnia
    Cmara, colocada na comdia, sua especialidade, fez a alde, segundo os
    conhecedores do tipo, perfeitamente. No sou do nmero desses conhecedores, mas
    posso, pela tradio que tenho, sancionar a opinio
    geral.

  O Sr. Martins, no
    desempenho de um literato parasita, no satisfez plenamente nem; a crtica nem
    o pblico. Aconselho ao artista mais ainda; e lembro-lhe as luvas de pelica, de
    que o dilogo fala a cada passo, e de que ele se esqueceu, creio. Da mesma, maneira lhe lembro que o exterior com que se apresenta no
    est de acordo com a individualidade que reproduz.

  Houve tera-feira Os amores de um marinheiro, cena desempenhada
    pelo Sr. Moutinho.

  O criador de Manuel Escota desempenhou-a como sempre.
    Deu vida quela pgina sentimental, com um estudo completo do carter. Na
    descrio da tempestade, no lugar em que, narrando com o gesto parece que
    segura realmente o leme, e nos derradeiros pedaos da cena, que pronuncia
    chorando, mereceu bem os aplausos que lhe deram, poucos talvez na opinio da
    revista.

   um artista de
    inspirao e estudo; tem sem dvida uma especialidade, mas eu j fiz sentir que
    as especialidades so comuns na arte. E depois, que especialidade a do Sr.
    Moutinho! Vejam o Torneiro, vejam Manuel Escota!

  E Balthazar, ento! Ainda ontem (12) o
    lavrador do Luiz deu ao pblico mais
    uma ocasio de ser apreciado.  ainda o lavrador de que falei, com o estudo dos
    menores gestos, de todas as inflexes. Tanto melhor! Confirma a opinio da
    crtica e do pblico.

  O Sr. Furtado foi ontem um digno companheiro de Balthazar. Teve frases ditas com
    expresso, sobretudo aquele trecho em que faz a Elisa uma vista retrospectiva
    da sociedade; e o outro em que desenha a Joaquim a misso do sacerdote. O
    monlogo do 2. ato vale bem o monlogo do Abel e Caim; h como que uma identidade
    de situao.

  O Sr. Graa e o Sr. Augusto estiveram como sempre na altura da
    sua misso.

  Elisa, a figura arqutipa do amor e do sacrifcio, no preciso dizer que achou uma inteligente intrprete na Sra. Gabriela; j o fiz sentir em outra
    parte, onde dei parte minuciosa do seu desempenho, e onde no sei se fiz notar
    os finais do primeiro e segundo atos em que a criadora de Marco se transfigura em frases eloqentes de amor e de paixo.

  No farei anlise
    mais funda. A minha probidade de cronista est satisfeita; mas dela no precisa
    a conscincia pblica para avaliar o desempenho da Elisa de Vallindo. No se
    comenta Shakespeare, admira-se.

  Termino aqui,
    minha leitora. Vou amanh (domingo) a S. Janurio, e do que houver lhe darei
    conta na minha prxima revista.

  Anuncia-se tambm no
    Ginsio as Mulheres terrveis.  a
    Odissia da Sra. Velluti, e se a leitora ainda no viu essa linda comdia, no
    deve faltar a ela.

  12 de novembro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio -- Concerto de Elena Conran; Valentina, em benefcio do Sr. Graa. -- S. Pedro. -- Erro
    e amor.

  Trs fatos
    importantes constituem um relevo da semana teatral: o concerto de Elena Conran,
    o benefcio do Sr. Graa, e o concerto de Luiz
    Anglais.

  Comecemos pelo
    primeiro.

  Estava anunciado
    e todos esperavam esse sero lrico de que a Sra. De
    Lagrange faria parte. O alto merecimento da ilustre cantora devia necessariamente
    atrair uma concorrncia real.

  No foi iludida a
    expectativa. A sala do Ginsio regurgitava de povo vido de ouvir ainda uma vez
    a distinta e ilustrada artista.

  O concerto, na
    verdade, foi brilhante.

  J falei de Paulo
    Julien em outro lugar. O jovem artista fez parte do concerto, e de arco na mo,
    sancionou a opinio que dele manifestei em uma das revistas passadas.

  Mas, apesar de
    tudo, apesar da voz simptica da Sra. Conran, e dos dedos maravilhosos da Sra.
    Rmond, e do pequeno alemo, as honras da noite couberam de certo  Sra. De Lagrange.

  O dueto da Norma foi freneticamente aplaudido; mas
    onde se manifestou o furore foi na celebre polca que a Sra. De Lagrange tem como sua,
    talvez, a mais querida flor artstica.

  Se h mos que
    valem reinos, h gargantas que valem mundos. A Sra. De
    Lagrange revela efetivamente, naquela frase de melodias, mais que um direito de
    realeza, um direito de adorao.

  As impresses
    produzidas pela execuo da polca so realmente indefinveis. As almas, como um
    caro coletivo, prendem-se nas asas do hino e procuram seguir-lhe as harmonias
    para alm dos planetas. Tarefa escabrosa! A ltima nota cai cheia de vida e
    inspirao; as almas despenham-se;  a terra. Foram-se as nuvens; resta a
    implacabilidade das cadeiras.

  No ser esta a
    linguagem da anlise, mas eu no sei que se fale outra depois de ouvir o que
    ouvi. Seria vestir uma casaca ao ideal, ou calar botas ao infinito.  rude a
    comparao mas  exata. No acho outra  mo.

  A platia fez
    justia ao alto merecimento da Sra. De Lagrange. Em
    conscincia, devia-o. Era necessrio que o pblico sancionasse a reputao que
    se lhe no contesta de ilustrado; era mister que a Sra. De Lagrange, entre as recordaes amargas que porventura tenha de levar da nossa
    terra, no guardasse uma idia pouco generosa deste pblico tantas vezes
    caluniado, mas justiceiro no fundo.

  Com efeito,
    chamada  cena muitas vezes, teve de repetir a sua polca; e o pblico, no
    entusiasmo espontneo que o dominava, aplaudiu-a freneticamente.

  Entretanto, uma
    parte capital do concerto que no estava anunciada no programa -- esperava a
    artista e o pblico.

  Era um grupo de
    artista, a companhia do Ginsio, que vinha oferecer  artista uma prova do alto
    apreo em que tem o seu merecimento.

  A Sra. D.
    Gabriela,  frente de seus companheiros, era encarregada de reproduzir os
    sentimentos de que todos estavam animados. -- Trazia uma coroa de beija-flores,
    e ao oferec-la  cantora pronunciou com voz comovida as seguintes palavras:

  'A
    companhia do Ginsio Dramtico oferece a ti, artista de no vulgar talento, a
    ti, mulher de corao, boa, benvola, beneficente, um pequeno testemunho do
    apreo em que tem as tuas eminentes qualidades como artista e como senhora.

  Agora,
    permite a tua irm de arte, no rica de talentos como tu, que imprima em tua
    mo um beijo, em sinal de admirao, de respeito e de saudade'.

  Dada a coroa,
    pronunciadas as palavras, a Sra. De Lagrange abraou
    com efuso e reconhecimento a sua irm de arte. As palmas romperam ento mais
    entusisticas, ao ver aquelas duas cabeas altamente talentosas que se uniam
    pelo abrao do afeto e pelo sculo da fraternidade.

  No esprito do
    pblico havia alguma coisa acima das sensaes normais; o ato que a companhia do
    Ginsio acabava de praticar falava bem alto e produzia uma nova ordem de
    impresses. As simpatias de que goza o Ginsio cresceram depois daquela noite
    memorvel. Compreendeu que a arte  uma cruzada onde o sculo recproco alenta
    a coragem comum.

  Acertou.

  Um ramalhete foi
    ainda oferecido  Sra. De Lagrange por cada um dos
    artistas.

  Eu gosto de ver
    estes sentimentos de fraternidade em uma poca que levantou o egosmo por
    dogma. Aprecio essa comunho de espritos, que  por ventura a religio da
    arte.

  A Sra. De Lagrange, penhorada pelas maneiras e pelas palavras
    da Sra. D. Gabriela, e compenetrada do seu eminente talento, enviou  mesma
    senhora uma carta, onde a bondade da mulher se casa ao entusiasmo da artista. 
    ao mesmo tempo um aplauso e um afeto.

  Daquela noite
    para a cantora e para os artistas do Ginsio restar eterna uma saudade.

  Passemos ao
    segundo fato cardeal da semana: o benefcio do Sr. Graa.

  Valentina, drama em quatro atos, foi a pea que o distinto artista deu como espetculo aos seus convidados.
    No  completo,  apenas um grupo de belezas atadas como que a esmo. Conhece-se
    atravs das cenas uma pintura carregada de caracteres, um descarnado de
    sentimentos, talvez pungente de mais. O poeta, na apreciao moral da ao
    tornada, esqueceu-se das exigncias da forma, e a face plstica no satisfaz
    plenamente o pblico.

  Toda a ao de
    uma luta de sentimentos, um martrio aqui, uma opresso l. Drama ntimo, se perde na incorreo da forma ganha no contraste
    palpitante dos caracteres. H cenas, h lances
      verdadeiramente dramticos. A apario do menino afogado, quando os dois
    esposos estavam em luta ntima de paixo,  de mestre: o filho vem reconciliar
    duas almas que se desprendiam. O sangue de ambos vinha dizer: -- no se podem
    separar, eu sou o elo que os prende.

  A Sra. Gabriela,
    no papel de Valentina, interpretou
    cabalmente o carter da protagonista. A uno de sentimento,
      deu-a ela  frase e ao gesto; e nas cenas capitais da pea, reproduz
    tanta verdade, que o esprito como que se incomoda;  doloroso de mais.

  Foi um desempenho
    magistral, apesar de incomodada como estava nessa noite. A. platia, chamando-a  cena depois do drama, traduziu-lhe a satisfao em
    que estava, com palmas entusisticas. Tocante apoteose!

  O Sr. Graa tinha um papel trabalhoso, e que no era
    absolutamente cmico. Alm de um belo caracterstico, reproduziu plenamente o
    meio carter do boticrio... qumico, se me faz
      favor!

  Artista de
    merecimento e de largo gnio cmico, o Sr. Graa no precisava
    desta nova criao para constituir no den da arte a sua pgina de futuro. O
    preenchimento da sala e as palmas que o saudaram, so provas no equvocas de
    uma admirao justa. Mereceu-as: artista eminente e homem honesto, ocupa, como deve, um lugar distinto na conscincia
    pblica.

  A dureza e a
    ingratido de Henrique foram postas em ao com felicidade pelo Sr. Furtado; o amor e o cime de Valentina tecem por fora oposta uma dura leviandade de seu marido,
    e nesse contraste que faz o drama revelou o Sr. Furtado bastante estudo.

    Em S. Pedro
     o benefcio do
      contrabasso L. Anglais nos deu o Erro e Amor, como parte dramtica; e como
      parte lrica as notas derradeiras de Mme. De Lagrange no Rio de Janeiro.

  Foi mais um
    triunfo para a eminente cantora. O teatro estrugia em um trovo de palmas;
    palmas eloqentes que provam  Sra. De Lagrange
    entusiasmos no pautados por interesses da sombra. Foi repetidas vezes chamada  cena, e vitoriada de uma maneira estrondosa. Coroas,
    ramalhetes, flores, caram a seus ps, como as derradeiras das palmas
    capitolinas colhidas entre ns.

  O tablado, como o
    Jano da fbula, tem duas faces distintas: o Glgota de um lado; de outro o
    Capitlio. A distinta cantora, que vai mar em fora em busca de novos climas,
    encontrou talvez, sem o esperar, os espinhos do primeiro; acaba de colher as mais viosas palmas do segundo;  uma sublime desforra!!

  Os dois ltimos
    triunfos so as bnos que ho de acompanh-la na sua rota do mar. Seja essa a
    redeno do pblico fluminense.

  De uma coisa fico
    eu convicto, assim como uma grande parte da populao: no ser fcil
    substitu-la to cedo.

  O dilogo de
    contrabaixos foi merecidamente aplaudido. O Sr. Anglais fez, na verdade,
    maravilhas em seu pesado e prosaico instrumento. A noite de ontem provou mais
    uma vez a reputao de que goza, assim como deu a conhecer um patrcio nosso,
    que em nada parece desmentir o talentoso professor.

  Passemos ao Erro e Amor.

  A sala dos dois
    primeiros atos  apropriada  poca; e so de gosto os mveis. A decorao da
    herdade no 3 ato, se merece elogios pelo lado da
    pintura, no o merece na concepo.  uma fantasia, um capricho, um grupo de
    objetos, acessoriais, sem definio, nem cabimentos. Revela na profuso uma
    herdade de lavrador opulento, e no a casa de dois esposos que comeam a vida
    apenas.

  Erro e amor no  um drama,  uma galeria de cenas
    desconchavadas, que provam evidentemente a incapacidade do Sr. Jos Romano,
    como dramaturgo. Tanto a concepo, como a forma, so um parto laborioso e
    exguo de mal pensadas noites e lucubraes.

  Escrevo apressado
    porque a hora se esgota. Contudo passarei em resenha
    os mais notveis defeitos, pelo menos os que me ficaram de memria, fraca como
    a tenho.

  Eis os capitais:

  O marqus de Vila
    Velha encontra a mulher no quarto, e ouve uma voz de homem, que, por ateno ao
    Sr. Jos Romano, acredito que estivesse na rua. Volta
    para a sala com ela e, no alcanando saber quem era essa pessoa misteriosa,
    tira um papel que faz a marquesa assinar. A marquesa, esquecendo-se de sua
    posio espinhosa, comea a discutir com o marido a sua assinatura. De maneira
    que o erro, o fato capital do drama, cede a uma discusso de papel de venda.

  Nem se diga que o
    fogo reagia sobre a honra na alma do marqus; tanto no  isso, que no fim do
    2 ato o bom homem cai sobre a sua cadeira ao ver um seu amigo que procura
    conter a marquesa na sala por meio de duas pistolas que traz. Caindo sobre a
    cadeira, o marqus exclama com dor: -- Faltava-me a desonra!

  Um moo, apaixonado
    pela marquesa e que a marquesa ama tambm, figura que a ao procura fazer
    simptica, rapaz abrasado por um amor puro, desenrola no segundo ato menos
    teorias sobre a marquesa, prprias para um desmoronamento social. O amor, diz
    ele pouco mais ou menos, o amor  Deus, criou-o Deus; o dever  dos homens, o
    dever  da sociedade.

  -- Escute o amor,
    esquea o dever, Excelncia!

   verdade que a
    marquesa em compensao tem uma tirada de moralidade, escrita de propsito para
    fazer pendant s teorias do outro. Mas
    justifica isto alguma coisa? As simples palavras do amante no lhe tiram a luz
    simptica que devia iluminar-lhe o carter? Creio que no h duvida.

  E a morte do
    marqus! Diante de seu inimigo, diz-lhe que vai mat-lo. No o mata. Faz lhe um
    discurso em estilo guindado, e depois d-lhe uma das
    pistolas que traz.  um duelo pelo que vemos.

  Que faz o marqus
    depois de lhe dar as pistolas? Pe-se em guardar? Nada, vira-lhe as costas. O outro, mais fino que o Sr. Jos Romano,
    dispara!

  Sinto parar aqui;
    nem mais uma linha de espao. Domingo prometo fazer uma larga anlise.

  Nem me  dado
    falar
    em S.
      Janurio
    , onde fui ver o Anjo
      Maria. -- Exceo feita de alguns defeitos de desempenho, o drama
    satisfez-me. O cuidado da mise
      en scne e o estudo dos diversos papis prova por ventura vontade e
    trabalho por l! Ainda bem! o trabalho  sempre
    fecundo -- a arte pede sempre sacrifcios!

  19 de novembro, 1859.

  Sumrio: -- Ginsio. -- Miguel, o Torneiro. -- Teatro de S. Pedro: Duas palavras sobre o Erro e Amor. -- pera Nacional: Abertura.
    -- Teatro Lrico: Trovador. -- Um
    convite.

  J viu o Miguel, o Torneiro, minha leitora?

   uma imitao do
    francs, escrita pelo Sr. Jos Romano. No era preciso a explicao; alguns
    galicismos de vocbulo e de frase, indicam  primeira vista
    que ali no h originalidade.

  -- Fui v-lo na
    semana passada.

  So os atores que
    levantam aquela pea, cujo entrecho, alis,  bonito. O Sr. Furtado disse o seu papel bem, apesar da escassez do quadro; e a Sra. D.
    Ludovina acompanhou o artista na expresso da frase e do movimento cnico. Mas
    sobre o papel de um e de outro se levanta o papel do Sr. Moutinho.  o
    torneiro, a primeira figura da comdia.

  O criador de Manoel Escota e de Balthazar est ali com o talento vioso de uma vocao decidida. No
    estudo do torneiro, o Sr. Moutinho emprega, como fizera em outras criaes,
    estudo de detalhe, e harmonia de todo. As duas cenas, a da bebedeira e a da
    preparao da mala, assim como a ltima da pea, so desempenhadas com talento
    e nada deixam a desejar.

  J dei a minha
    opinio em outra parte.

  O Sr. Moutinho 
    moo de uma tendncia vigorosa para a arte; saibam aplicar-lhe o talento.

  Assisti a urna
    segunda representao do Erro e amor,
    no teatro de S. Pedro. Repito o que disse; o drama no justifica o cuidado da
    decorao. A crtica sria no pode encontrar naquela produo o cumprimento
    dos preceitos da plstica; as cenas seguem-se, mas no se encadeiam; no se
    prepara a ao; no fim de cada dilogo o espectador
    repete aquela frase: Qu'est-ce que cela
      prouve?   quoi
      bon cela?

  Sobre o
    desempenho sou talvez menos severo do que a opinio pblica. Se um ator bom faz
    um drama bom, tambm um drama mau faz s vezes um ator
    mau.  a minha opinio. No posso ouvir com seriedade a clebre fala do marqus
    no 3 ato; mas como recitar semelhante pedao? A inteno do autor escrevendo
    roscas pestferas, e baba asquerosa, no foi outra seno modular a declamao
    no ponto mximo da clave fnica.

  Assim, se o
    desempenho do Erro e amor foi
    inferior, estava na altura do... drama.

   a teoria das
    relaes.

  No autorizo
    assim mau trabalho cnico, justifico apenas.

  Duas linhas de
    observao.

  O autor de Erro e amor, alm de no atar as cenas
    da sua pea, cai trs ou quatro vezes em situaes difceis de que se tira
    desastradamente. Assim, reclamando a ao em certos lugares a
      ausncia dos principais vultos, o autor faz entrar em soma dois criados,
    Firmino e Ritinha, que s falam no seu prprio casamento, assunto palpitante
    para ambos, acredito, mas que no vem nada ao caso nas situaes srias.

   a farsa que se
    entrelaa com o drama.

  No primeiro ato,
    um criado medroso, de quarenta anos ou mais, acha-se em uma sala escura e esconde-se
    a um rumor de passos que ouve.

  Segue-se um
    dilogo que o criado ouve ipsis verbis.
    Para qu? Vem aqui a pergunta. Para que essa situao frvola, sem interesse,
    sem causa, sem fim?

  Nas salas do
    marqus da Vila Velha no h um criado, de maneira que os indivduos entram,
    metem-se por gabinetes sem encontrar viva alma.

  J falei na cena
    do primeiro ato, em que o marqus exige de sua mulher uma assinatura, tendo
    ouvido que ela conversava com um homem fora; assim como na morte do marqus no
    terceiro ato; morte ocasionada pela parvoce do fidalgo, que d uma pistola ao
    adversrio e volta-lhe as costas.

  Disse acima que
    as cenas no se prendiam entre si.  verdade; ningum espera um lance, ningum
    supe uma cena. Acabou-se um ato, o que sero os outros? As conjecturas se
    perdem. Os dois primeiros atos por ventura deixam entrever o terceiro? No, de
    certo. Entre os dois primeiros e o ltimo, lia um vcuo que os monlogos
    preenchem, com toda a sua aridez e prosasmo.

  Podia ser mais,
    longo, se no tivesse de passar a outras coisas. A minha concluso  simples. A
    crtica no se satisfaz como o Erro e
      amor; fora das linhas da arte, como est, no
    pertence a nenhuma forma dramtica;  uma esfinge. No serei eu o dipo
    moderno.

  Estreou a nova
    companhia da pera Nacional no teatro de S. Pedro. A representao ressentia-se
    do longo tempo de adormecimento, em que estavam os artistas at agora; mas,
    apesar disso, a vontade unnime, o capricho comum da
      companhia venceram grandes dificuldades. A pera Pipelet  msica de Ferrari, e uma das partituras mais cmicas e
    mais iguais do repertrio moderno.

  Foi estria
    animadora; haja nesta vontade o estudo na spera obra que empreenderam. Vontade
    e estudo para plantarem vivamente no pas a idia do canto nacional; vontade e
    estudo como o que empregaram no espetculo da quinta-feira; sobretudo o Sr. Ribas, que tomou a parte de Pipelet havia dias, e que a desempenhou cabalmente.

  Agora, que o
    governo estenda a mo ao punhado de artistas que em to larga empresa se
    deitam.  o estudo pratico que far nascer a emulao;
    por ele  que os preconceitos levantados contra o tablado iro caindo;  assim
    que a idia da pera Nacional tomar razes em cho nosso.

  ltima hora. Fui
    ao Trovador no Lrico; o Sr. Mirate
    cantou como sempre; a fazer erguer sobretudo a
    sonoridade esplndida de sua voz. A Sra. Medori, indo bem na valentia da nota,
    no satisfaz plenamente nas expresses suaves da musica. Houve no desempenho da
    partitura de Verdi lugares dignos de aplausos, mas o todo era desigual.

  Convido  minha
    leitora a ir hoje ao Ginsio ver a comdia -- Duas primas. Dizem que  uma linda composio.

  27 de novembro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio. -- Duas primas. -- Concerto de Scram. -- S. Pedro. -- As mes arrependidas.

  H na moderna literatura
    dramtica uma cabea onde a faculdade produtiva levantou-se at Calderon o
    poeta, e at Dumas o romancista:  Scribe.

  Scribe  uma
    figura esplndida na galeria da arte moderna; e parodiando a frase de um
    escritor distinto, no  um dramaturgo,  um teatro. No  como frmula
    habitual que se diz teatro Scribe:
    ele vale um repertrio. Medi a distncia desde Os contos da Rainha da Navarra at aos Primeiros amores, e vede que
    literatura copiosa! que veia abundante! que teatro esplndido!

  La comtesse du Toneau  uma das
    composies do distinto escritor.  um quadro ligeiro, uma aventura da corte
    dissoluta e intrigante de Luiz XV. De um lado, vemos a elegante Du Barry,
    rainha do corao e do esprito do rei, caminhar no alto de seu orgulho de
    amante real. Do outro, vemos o Conde de Lauzun, namorado derrotado da condessa,
    que procura vingar-se dela com o auxilio... de quem? de uma palmilhadeira, menina do povo, e que a voz pblica
    apresenta corno prima da Du Barry. Com estes dados, a pena do distinto escritor
    grupou cenas, talhou dilogos, e enfeitou uma comdia espirituosa.

  Duas primas, chama-a em portugus a
    Sra. Eugnia Cmara, que fez uma traduo em geral boa.

  As Sras. Velluti,
    Eugnia e Jlia, com os Srs. Furtado, Moutinho e Heller, foram os intrpretes
    da composio de Scribe.

  Foi muito igual o
    desempenho. Alm da altiva Du Barry e do elegante Lauzun, que a Sra. Velluti e
    o Sr. Furtado interpretaram com talento e preciso, h
    a palmilhadeira Julieta e Esperana, papis da Sra. Eugnia e do Sr. Moutinho.

  Tanto um como
    outro estiveram na altura das figuras que tinham a desempenhar. A primeira,
    porm, tinha um quadro mais largo, era o primeiro papel; e pde por conseguinte pr em relevo um talento que a comdia
    parece chamar e quase absorver.

  Alm do
    desempenho igual da comdia, foi ainda montada com esmero e preciso histrica.

  A comdia no
    est absolutamente no esprito do Ginsio, mas constitui um doce amvel nessa
    ceia da arte, em que, como diz um crtico moderno, Shakespeare d a comer e a beber
    a sua carne e o seu sangue.

  O jovem pianista
    Carlos Schram deu um concerto no Ginsio.

  J falei sobre a
    Sra. Elena Conran, que fez parte do concerto. Falemos de C. Schram.

   uma cabea adolescente
    chegada h pouco a esta corte onde j se tem feito ouvir. Filho da loira e
    profunda Alemanha traz em si a ndole vigorosa de seu pas;  um verdadeiro
    talento alemo.

  A platia
    brasileira teve oportunidade de apreciar os dedos do inteligente menino. No o aplaudiu, como mestre j, mas como uma palavra que o futuro
    pode fazer valer no livro da arte.

  Nas variaes de Talberg ps em prtica uma execuo
    fcil e rara. Todos sabem como so difceis as variaes sobre o Elisir d'amore;
    pois bem, o pequeno Schram, lutando com a dificuldade e com o conhecimento que
    todos tm daquele lindo pedao, satisfez e arrancou palmas  platia.

  Passar
    despercebido o compatriota de Mozart? No creio. Talento definido, ainda que na
    aurora da sua voz artstica, tem um direito de apoio.

  Entretanto, to
    jovem ainda, por que deixa a ptria, s, errando de nao em nao, comprando
    as comodidades de vida com os princpios de talento que uma prtica severa tem
    ainda que vigorar?  o destino dos artistas? Tambm Mozart, isolado e sem
    recursos, foi obrigado a tomar o caminho do exlio.

  Foi aplaudido,
    coberto de palmas, flores; teve nas faces e nos lbios, ardentes e belas
    duquesas parisienses; era criana; quando veio a idade, vieram as privaes, teve de lutar. No lhe deram o apoio que
    conserva o homem, para conservar o artista; e uma tardia proteo de prncipe
    no lhe valeu contra as invejas e contra as necessidades mais exigentes.

  Este destino ter
    de cunhar a fronte do adolescente artista? Longe v o agouro; desejo-lhe um cu
    mais cor de rosa.

  Quem, como esse
    interessante menino, tem nas mos o poder de dar uma harmonia s teclas mudas
    de um piano, deve ter direito de aspirar; e a ptria  obrigada a assegurar-lhe
    um futuro.

  No  um
    professor, repito; mas quem sabe a que poder vir a ser?

  Deixo Carlos
    Schram.

  Passo a falar das Mes arrependidas, drama em 4 atos,
    representado no Teatro de S. Pedro, em festejo do aniversrio do Chefe de
    Estado.

  Comeo por dar os meus emboras  traduo, que me parece boa,  parte um ou
    outro defeito de construo de frase. Depois tenho ainda a notar e louvar a mise en scne, e o que em linguagem
    tcnica se chama marcao; os atores, pela maneira por que se cruzavam e
    moviam, revelavam o esforo de mo mais ou menos cuidadosa.

  Eis um esboo do
    entrecho.

  Dois indivduos
    pretendem a mo de uma menina, rica herdeira, filha do conde e da condessa de
    Rovenkine. Um deles, fidalgo de alta e velha linhagem; o
      outro, simples filho de uma modista, que se faz passar por marquei de
    Loverdac.

   um capricho? uma ambio?

   um resultado da
    educao. Arthur Marquis, filho de uma simples costureira, foi educado nas
    academias; sabe e tem talento. Fadado para altos destinos, deixou-se desvairar
    por uma vontade de subir, e tomou um nome suposto. Nesse delrio at foge de
    sua prpria me.

  A condessa de
    Rovenkine, fidalga ento com todas as vaidades aristocrticas, no passa tambm
    de uma antiga modista, companheira de Rosa Marquis, me de Arthur.

  O conde de
    Plonzastee, um dos que aspiram  mo da menina Rovenkine,  o preferido pelo
    corao da rica herdeira; tem j o consentimento da condessa, e est quase a
    coroar os seus desejos.

  Entretanto,
    Arthur, para quem s resta um ltimo recurso, um casamento rico, deseja tambm
    a mo da menina, e encontrando-se com sua me em casa da condessa,
    manifesta-lhe esse desejo. A me faz-lhe sentir a dificuldade de obt-la, mas
    ele ameaa-a com um suicdio. Era para desesperar: Rosa Marquis promete a seu filho a mo de Elisa, e vai pedi-la  condessa. A
    condessa recusa; mas, ameaada de ser declarado publicamente o seu nascimento
    nfimo, cede, finge ceder s instncias de Rosa.

   uma luta entre
    o amor maternal e o orgulho da fidalga alinhavada, e neste contraste a ao
    dramtica sobressai rigorosa.

  No cede, porm,
    Regis, conde de Plonzastee. Um dia, em casa da condessa, perante toda a famlia
    e convidados, faz aluses ferinas a Artur e acaba por insultar Rosa Marquis.
    Arthur no se pode conter e declara perante todos que ela  sua me. Falava a
    voz da natureza, um longo desdm acabava-se com as palavras de um instante; o
    arrependimento lavava a culpa; Arthur retomava o seu carter simptico de homem
    de bem.

  No podiam as coisas ficar assim; desafiam-se os dois rivais e
    vo bater-se. Quem morre? Arthur. -- A condessa e Rosa vo tomar o hbito das
    irms de caridade; Regis e Ceclia vo coroar seus votos.

  O drama  bom,
    bem escrito, bem dialogado; mas estar isento de defeitos? No.

  Arthur, figura
    sobre quem se derrama uma meia-luz; condenado no desprezo de sua me, mas
    vtima da sociedade, pretendendo uma posio, que s podia alcanar com
    dinheiro e com ttulos; levado afinal pelo reconhecimento pblico de sua me,
    podia bem escapar da espada do conde. A morte ali nem moraliza, nem  uma
    necessidade palpitante. A provao podia rem-lo e faze-lo voltar a uma vida
    regular.

  Depois, a
    vantagem era dupla; o conde Regis no tinha necessidade de matar Arthur, cujo
    nico crime era pretender a mo de Ceclia, como ele. Onde assistiam mais
    direitos?

   verdade que
    Arthur  apresentado como um jogador. Jogava porque aspirava uma posio; o
    casamento, que era o seu ltimo recurso, mataria aquele vcio, aquele meio de
    enriquecimento.

  No terceiro ato,
    uma longa fala do conde Regis acabrunha o pobre Arthur Marquis. A nobreza argue
    ao plebeu um ttulo falso, uma posio ambgua e uma vida de escritor manchada
    de baixezas.

  Louvo a inteno
    do autor nesses belos perodos. So verdades aplicveis a todas as situaes, a
    todos os pases. No meio das frontes srias, das probidades literrias ou
    sociais, h sempre desses leiloeiros da inteligncia, mercadores do esprito,
    que vendem o escndalo e a calunia.  um pedao lindo, um dos melhores da pea.

  Mas, ocorre-me
    uma coisa: Arthur Marquis  um carter definido? J o disse, sobre essa
    individualidade apenas se derrama uma meia-luz. Na maneira por que fala, no
    parece ser essa criatura do terceiro ato pintada pelo conde Regis.

  Se o Sr.
    Mallefille reconheceu, como eu, a inconvenincia ou pelo menos a desnecessidade
    de fazer sucumbir Arthur, no sei qual o motivo por que d esse remate a sua
    pea; no quero crer que pretendesse manifestar assim a superioridade do baro
    sobre a casaca do filho de modista. Deve conhecer a ndole do sculo.

   este o esboo
    ligeiro do drama, tal como o pude apanhar na sucesso rpida das cenas.

  Agora o
    desempenho.

  O Sr. Amodo
    interpretou sofrivelmente o esprito do seu papel, -- Arthur. Vestiu-se com
    gosto, e tinha maneiras de salo. Tem uma fala no segundo ato que disse com a
    inflexo devida e com essa voz simptica que soube interpretar outros papis
    conhecidos do pblico. O pedao em questo  a autpsia prpria, em que ele se
    descreve todo, falando de sua ambio, e de suas tentativas malogradas na
    literatura, soube dar o tom pungente e doloroso que prepara a sua
    individualidade para repelir mais tarde as aluses importunas do conde Regis.

  Entretanto, um s
    movimento de mos torna-o talvez montono. Podia ser mais correto.

  As Sras. Ludovina
    e Adelaide esforaram por acompanhar o seu companheiro. Tiveram cenas mais ou
    menos bem jogadas,  exceo de algumas frases e trechos que se ressentiam da
    atmosfera romntica, na inflexo cantada e no gesto clssico demais.

  A primeira
    interpretou a condessa de Rovenkine; e a Sra. Adelaide tinha a seu cargo a modista
    Rosa Marquis.

  O extravagante
    conde Plato de Rovenkine, com a sua impassibilidade de cossaco, no foi mal;
    estava incumbido desse papel o Sr. Pedro Joaquim, que no se parecia em nada
    com o fidalgo arruinado do Sineiro de S.
      Paulo.

  O Sr. Florindo, no desempenho do conde Plonzastee, no me
    pareceu completo. Tinha uma voz modulada; nada de inflexo natural, nada da
    maneira prpria de falar. Forcejava por pronunciar letra por letra, mas traa
    ainda assim as regras da arte; fazendo parecer uma galeria de palavras sem
    expresso, como corpos sem almas.

  A sua longa fala
    do terceiro ato em que, lanando aluses a Arthur, assinala verdades cruis,
    foi aplaudido com entusiasmo pela platia. Mas o conde, fidalgo de velha raa,
    homem de galo, conhecedor da sociedade polida; e colocado na situao de
    fingir calma, fazendo aluses ao falso marqus, fala daquela maneira no salo
    da condessa? Sabe o artista o que  a Rua Rivoli? Sabe o que  um salo de
    fidalga elegante? Deve sab-lo; devia compenetrar-se do lugar em que estava e
    da situao que o prendia.

  Quer o Sr. Florindo um exemplo? Fale com o Sr. Pedro Joaquim a
    respeito do conde de Riba-Coas, na Escala
      Social, papel que esse mesmo artista desempenhou; j podia modelar a sua
    declamao nessa fala pela declamao da fala idntica do conde, em um salo,
    toda ela aluses a um indivduo que a est.

  Desejava mais
    elegncia no Conde de Plonzastee, e assim como menor trivialidade no porte, no
    gesto e na maneira de ter o chapu na mo. Ora o coloca sobre a perna, dando
    alguns passos dessa maneira, o que no  bonito em uma sala; ora o muda de
    posio, mas dando-lhe uma volta para o ar exatamente como se faz na rua ou nas
    salas plebias. Se estas linhas merecerem do artista alguma ateno, pode
    acreditar que so sinceras.

  O Sr. Jos Luiz
    fez consistir o baro de Smoloff em apresentar-se hirto, sem maneiras, sem
    gestos, que denunciassem a qualidade do seu papel.

  Noto ainda uma
    coisa e ser a ltima. No terceiro ato, apresentam-se dois indivduos, dois
    fidalgos, no salo da condessa, se bem me lembro. Chegam sem dar f de ningum,
    passando mesmo pela incivilidade de nem falarem aos donos da casa. No  essa a
    prtica de todas as sociedades, sobretudo da alta.

  O Espelho, 4 de dezembro,
    1859.

  Sumrio: -- S. Pedro. -- O cativo de Fez, e Dez contos
    de papelotes. -- pera Nacional. -- Pipelet.
    -- S. Janurio. Duas palavras.

  Augusto compensa
    Calgula, os Grachos fazem amar essa Roma do circo, de Nero, e das proscries.
    H sempre no passado uma idia, uma lembrana que o representa no esprito pela
    melhor face.

  A leitora sabe
    que o clssico no  o meu forte; aplaudo-lhes os traos bons, mas no o aceito
    como forma til ao sculo. Digo forma til, porque eu tenho a arte pela arte,
    mas a arte como a toma Hugo, misso social, misso nacional e misso humana.

  Assim no foi por
    simples gosto que fui assistir ao Cativo
      de Fez, fantasia romntica representada
    em S. Pedro. Duas
    foram as razes que l me levaram: o meu dever de
    cronista, e a curiosidade de ver a Sra. Ludovina da Costa.

  O primeiro motivo
    est provado com estas pginas: o segundo  fcil de justificar. A Sra.
    Ludovina est no caso de Augusto, compensa os desvarios da velha escola;  a
    trgica eminente, na majestade do porte, da voz e do gesto, figura talhada para
    um quinto ato de Corneille, trgica, pelo gnio e pela arte, com as virtudes da
    escola e poucos dos seus vcios.

  Eis o segundo
    motivo que me levou ao teatro de S. Pedro para ver o Cativo de Fez. Se assim no fosse, o que iria eu l ver? O Cativo? Um drama inconsistente,
    inverossimilhante, com todos os defeitos da escola e sem uma s das suas
    belezas?

  O desempenho no
    me chamaria tambm ao salo de S. Pedro. A Sra. Ludovina  todo o drama; todo o
    mais pessoal,  fora dizer, nem lhe apanha os vos.

  Abstenho-me pois de anlise; todos conhecem o Cativo de Fez, como drama e como desempenho; fora intil.

  A noite no foi
    s o Cativo de Fez; tivemos tambm
    uma ria pelo Sr. Martinho e a comdia Dez
      contos de papelotes.

  A ria  um
    trecho lrico sem importncia, nem valor dramtico; no me ocuparei com ela.
    Fora tomar tempo s minhas leitoras com uma futilidade, futilmente
    desempenhada. A idia do Sr. Martinho, etc., de se matar pelo p  homrica de
    trivialidade.

  Admira-se da
    minha franqueza, querida leitora? Pois eu no. Estou acostumado com os crticos
    de alm-mar -- penas de ferro, de ferro, que no torcem, estilo tranchant que no orna de
    rodeios o pensamento, como os selvagens ornavam de flores a vtima que
    conduziam ao suplcio.

  Sou ousado assim?
     uma argio injusta, e que eu no creio nas minhas leitoras; como mulheres,
    sabem que a ousadia  a primeira virtude masculina. Desculpem a franqueza.

  Mas eu erro
    talvez com toda esta franqueza.  a o ponto da questo. Estou pronto a
    discutir com os lbios de rosa que me lem agora; provem eles que as minhas
    apreenses em arte so erradas, eu tratarei de emendar-me, ou retirar-me da
    posio em que estou, se no for capaz de emenda.

  Mas, por agora
    no; estou cnscio do dever.

  Folhetinista
    pobre mas honesto, prometo no dar um motivo de
    descontentamento aos belos espritos encastoados em cachemira e seda, que tm a
    complacncia de perder algumas horas comigo, antes de ir para o toucador; em
    compensao, estou certo que me no tomam por escritor fofo, alarve que coma
    po, com perda do estmago social e do senso comum.

  Adiante.

  A comdia Dez contos de papelotes  original
    brasileiro por... trs estrelas. Foi uma feliz idia o
    incgnito; o autor que no conheo pode fazer alguma coisa de jeito: sem dvida
    a comdia representada  uma primeira produo e no seria til perder assim
    alguns loiros futuros.

  No  digna de um
    pblico ilustrado a comdia Dez contos de
      papelotes; sinto dizei-o, mas a minha probidade est antes de tudo. Dois
    sujeitos, um belchior, e outro, no me lembro de que
    profisso, entram em casa de uma menina solteira que mora com sua tia, e que
    vai casar com um primo. A tia no aparece nunca e ningum d f da entrada dos
    dois gamenhos apesar da alta e estirada voz do belchior.

  Estes dois sujeitos
    tm entrevista com a referida menina sem que ningum ainda d por isso.

  Entretanto chega
    o noivo e  necessrio esconde-los... por que? no sei, mas  preciso esconde-los. Um deles toma saia,
    chale, touca e vai sentar-se na poltrona, como se fora a clebre tia; o outro
    fica por ali algures.

  E assim por
    diante.

  No continuo;
    temo ser franco de mais, e, desta vez, antes quero faltar ao meu dever de
    historiar o teatro.

  O Sr. Barbosa (o belchior) no esteve na altura da pea e do papel: fez de
    uma criao grosseira uma entidade banal. Locuo laboriosa, arrastada, com os r r de carrinho, e as frases
    pronunciadas gota a gota; gesto grotesco, contores de corpo e de fisionomia,
    eis pouco mais ou menos o belchior dos Dez contos de papelotes.

  Por que  que o
    Sr. Barbosa no atende aos verdadeiros conselhos dos que prezam a arte?

  No presumo que
    s reconhea por ttulos  crtica uma prtica de longos anos; deve reconhecer
    e compenetrar-se de uma coisa: h uma qualidade que vale a prtica,  o gosto;
    e esse no o do longos anos de tarefa,  faculdade do
    esprito, atributo da inteligncia.

  Eu disse em uma
    das revistas passadas que o Sr. Martinho, dotado de um largo estro cmico, no
    devia deix-lo ir sem cultura profunda e apurada. Repito a frase desta vez.
    Sabe o artista o que est perdendo  ouro, ouro de lei; uma vocao que poderia
    muito aproveitar para a arte.

  Alguns negam ao
    artista uma redeno; eu no; creio, apraz-me crer, no sei se peco neste
    desejo de f, que o Sr. Martinho no tem apagado todos os raios de sua estrela
    de inspirao. Se lhe restam alguns, poupe-os: valem ouro, valem futuro.

  So palavras
    sinceras, de quem lamenta de corao um suicdio lento, suicdio laureado de
    flores e coberto de palmas.

  Quem tem um
    capital de talento, tem necessariamente o dever de faz-lo produtivo,
    acumular-lhe os juros pelos meios lcitos, e os meios lcitos so o estudo prtico dos caracteres e dos sentimentos.

  A no ser assim 
    intil esperar pelo futuro, que o futuro quer sempre encontrar uma fortuna
    moral.

  Estas reflexes,
    f-las eu assistindo aos Dez contos de
      papelotes.

  Quem o viu nessa
    comdia, assim como na ria antecedente, lamentou de certo a arte, e a
    pacincia pblica. No havia ali, bom senso artstico, mas um delrio da arte
    nas suas noites mais brias; em vez da tnica aristofnica, foi um vestido de
    arlequim que o artista tomou aos ombros; ningum se lembrava da arte em suas
    manifestaes srias; mas das noites suadas de delrio desses clssicos
    pavilhes dramticos levantados em honra de uma das nossas pscoas.

  Tive pena,
    confesso, senti-me confrangido de lastima; e  com sincera vontade de uma
    redeno que escrevo estas linhas.

  A pera Nacional
    deu a sua segunda recita
    em S. Pedro. Cantou-se
    o Pipelet, partitura de Ferrari. J falei a respeito, e disse o que
    julgava conveniente  nascente companhia. O desempenho, da mesma maneira que o
    primeiro, fez nutrir esperana de uma boa companhia de canto.

  Finalizo com uma splica.
    Tenho deixado no esquecimento o pequeno teatro de S. Janurio, onde o Sr. Germano tem dado espetculos com a sua modesta
    companhia.

  J falei uma vez,
    mas uma s vez. Pelo que em uma ligeira apreciao pude colher,  que com os
    elementos que possui, fazendo uma boa escolha de peas, o teatro de S. Janurio
    tem direito a um apoio pblico. O Anjo
      Maria foi representado com gosto e estudo; falam tambm do Anjo e demnio onde tem um papel
    importante a Sra. D. Manoela.

  Ultimamente foi
    levado  cena o drama A Torre de Londres,
    de grande espetculo, e que pelo que me consta, foi montado com esmero e
    cuidado. No conheo a pea, mas dizem que  uma das melhores do repertrio
    clssico. Irei v-la o mais breve possvel, e procurarei freqentar mais esse
    teatro que, apesar de afastado, tem por garantia o trabalho e a dedicao.

  O Espelho, 10 de dezembro,
    1859.

  Sumrio: -- Ginsio Dramtico. -- A vendedora de perus. -- Dois
    Mundos. -- S. Janurio. -- Anjo Maria.
    -- Os filhos de Ado e Eva.

  O elemento
    democrtico  uma proeminncia em algumas das composies de Csar de Lacerda;
    o primeiro ato da Probidade, e os
    trs atos dos dois mundos parecem atestar a favor da assero. Na Probidade  uma criatura ideal, Henrique
    Soares, protestando contra as superioridades obrigadas, e o talento honesto
    menoscabado em proveito da parvoce; nos dois mundos  um paralelo frisante
    entre a aristocracia e a classe nfima, entre o salo e a oficina; entre a
    casaca e a blouse, entre a luva e o
    martelo. Toda a vantagem fica ao mundo das pobrezas honestas.

  Ultimamente um
    novo drama: Os filhos do trabalho,
    dizem trazer ainda um cunho democrtico; se no mente a tradio informante, o
    Sr. Csar Lacerda, com o seu novo drama, constitui-se um dos protestos vivos da
    gerao literria contra as frmulas safadas que levantavam  incompetncia dos
    ttulos um culto de guebros ilegtimo e parvo.

  Todos conhecem os Dois Mundos;  intil narrar as cenas que levam esse poeta operrio ao p de uma beleza
    altiva que s abandona com o ridculo na cara e a dor no corao.

  Foi levado ainda
    uma vez no Ginsio, e ainda uma vez alcanou da
    platia os aplausos significativos de um duplo instinto moral e social. Pelo
    seu lado o pessoal do desempenho conseguiu com felicidade pr em relevo o
    pensamento do autor; e mereceu evidentemente meno notvel.

  O serralheiro
    Francisco, Fernando, o poeta operrio, so as duas figuras proeminentes do
    quadro, e encontraram compreenso nos artistas encarregados desses papis, o Sr. Heller e as Sras. Gabriela, Eugnia, Ludovina e Jlia,
    contriburam para mais um bom efeito da composio do Sr. Lacerda.

   uma novidade
    velha, mas as novas no so comuns nesta poca.

  Engano-me talvez.
    Uma das comdias encostadas ao arquivo vestiu-se de novo e reapareceu para nos dar
    o reaparecimento do ator Mendes e da atriz Leonor Orsat. Todos conhecem essa
    composio, A Vendedora de perus. 
    rima intriga de corte como as Duas primas;
    peca, porm, por ter os vcios desta sem lhe ter as virtudes; tem o aparato,
    mas como merecimento cnico a diferena  em seu desfavor.

  O Sr. Mendes,
    ator conhecido bastante nesta corte, soube dar vida ao carter esquisito que
    desempenhava, apesar do papel que parece no ser dos melhores que o artista tem
    em seu repertrio.

  O Sr. Mendes
    pretende continuar a tomar parte em alguns espetculos no Ginsio; ento nos
    dar ocasio de apreciarmos uma vocao e uma prtica que continuadas excurses
    pelas provncias no tm conseguido despir de legitimidade e inspirao. Com a
    sua senhora, a Sra. D. Leonor Orsat, poder contribuir com proveito para as
    noites divertidas do Ginsio. A Sra. Orsat tem, alm de tudo, as tradies de
    uma poca de entusiasmo, cuja evocao pode dar-lhe foras e seivas.

  Vamos a S.
    Janurio.

  Sem recursos, mal
    localizado, e por conseqncia fora do centro da atividade Pblica, o Sr. Germano troca cada esforo por um obstculo, cada xito
    por uma privao. Est no caso do Ixion da fbula, no meio do seu isolamento,
    isolamento devido a um orgulho muito legtimo de dignidade.

  No tem uma
    companhia completa e perfeita, sou o primeiro a diz-lo; mas, por outro lado,
    posso discriminar o trabalho da incria, e sempre que uma soma de talento se
    casa ao labor e ao estudo h uma probabilidade de futuro.

  O movimento
    destes ltimos dias no teatro de S. Janurio,  um
    evidente pretexto do trabalho, e todo o trabalho carece de uma recompensa. 
    montando peas novas, ensaiando-as com acurado esforo e tino, que o Sr. Germano procura compensar a localidade e as prevenes
    gratuitas.

  O Anjo Maria, comdia-drama do repertrio
    moderno, tem sido levado  cena neste ltimos tempos,
    com um desempenho que, pondo de parte algumas figuras, agrada
    em geral. O Sr.
    Germano e a Sra. D. Manoela so dois papis capitais da pea, aquele na
    interpretao de Simo da Cruz e esta na de D. Maria de Castro; o Sr. Tomaz,
    inferior s vezes em outros papis, no desempenho de Manoel de Castro, pe em
    ao disposies que atestam com evidncia ter ombros talhados mais para a
    casaca moderna que para o gibo clssico. Se pudesse modificar esse papel, todo
    de nova escola, uma declamao que  o apangio da escola antiga, estaria mais
    no esprito do seu papel.

   digna de nota a
    maneira por que a Sra. D. Manoela diz esta frase do fim do primeiro ato em
    resposta ao Dr. Jlio da Cruz:

  -- Diga antes,
    doutor, raa de homem de bem; morrem mas no se
    aviltam!

  Tem outra frase
    ainda entre outras que diz muito bem, mas onde eu desejava menos energia,
    porquanto  na frieza da expresso que ela se faz mais frisante.  esta: -- As
    filhas de Sandomil do-se, no se vendem!

  O baro de S.
    Benedicto  de um ridculo frisante, de um disfaramento prprio de velhaco, e
    no foi mal compreendido pelo Sr. Valle, moo de disposio para o gal cmico.

  Disponho desta
    vez de pouco espao; mas tocarei ainda em uma comdia ultimamente representada
    nesse teatro: Os filhos de Ado e Eva.

   uma composio
    alegrica sobre o fato bblico do primeiro pecado, feita com preciso no
    esprito e na forma da tradio. No tenho tempo para traar nem mesmo um
    ligeiro esboo do enredo.

  As duas figuras
    salientes so o Sr. Vasques e a Sra. D. Manoela. O Sr. Vasques caracterizou-se
    com preciso e gosto, e sustentou o seu papel de corcunda. Tem futuro, no o
    deixe perder como alguns outros, nas doidices do tablado. De passagem lhe
    aconselho menos movimentos nas duas cenas mudas do segundo ato; atenua assim o
    efeito que devem produzir as outras personagens em seus dilogos.

  A Sra. D. Manoela
    transfigurou-se; fez de Marietta o
    vulto concebido pelo autor: um silfo pela viveza, pelos movimentos graciosos,
    pela volubilidade da conversa, pela reflexo pueril de uma criana. Entre
    outras coisas noto aqui o seu olhar e o seu movimento ao ouvir a proibio do
    pomo da rvore misteriosa. Na primeira ruga de reflexo que se lhe desenhava na
    fronte, revelou Eva, a Eva da Bblia, todas as Evas da
    humanidade.  por todos estes pequenos pontos que o belo est repartido.

  E adeus,
    leitoras.

  17 de dezembro de 1859.

  Sumrio: -- Ginsio. -- O romance de um moo pobre (benefcio da Sra. D. Gabriela). -- Casamento a marche-marche (estria da
    Sra. D. Teresa Martins). -- Teatro S. Pedro. -- Escravo fiel (drama).

  A odissia de um
    deserdado, o sofrimento ntimo do pergaminho enfronhado numa casaca de mordomo,
     o objeto de um dos mais notveis dramas do moderno teatro francs,
    representado ultimamente com sucesso no Ginsio dramtico: O romance de um moo pobre.

   difcil, muito
    difcil esboar nestas ligeiras linhas o entrecho dessa bela produo de Octave
    Feuillet. A ao  larga e intrincada, j pela abundncia dos fatos, j pela
    heterogeneidade dos caracteres que se embatem no movimento dramtico.

  O osso principal
    do esqueleto , entretanto, simples. Maximo Odiot, forado pelas privaes,
    aceita um lugar de mordomo do castelo de Laroque, que mais tarde vem a
    descobrir que lhe pertence, sendo ento um antigo mordomo de seu pai (o marqus
    de Champcey) o proprietrio fraudulento do castelo com o nome de Laroque.

  Sobre estas
    primcias desenvolveu a hbil pena de Octave Feuillet um lindo drama, que pode
    ser considerado um chefe da escola moralista. Fechou no largo espao de sete
    atos uma concepo e um desenvolvimento, onde o interesse da ao se casa
    perfeitamente ao desenho puro e correto dos perfis dramticos.

  Aplaudido
    freneticamente em Paris nas 15O representaes consecutivas que teve, O romance de um moo pobre parece
    produzir no Rio de Janeiro um efeito igual ao seu merecimento. Foi trasladado
    para a nossa lngua por uma das penas mais elegantes e corretas da imprensa
    diria, e, com desempenho e estudos felizes, arrancar mais aplausos.

  A decorao do
    terceiro, quarto e sexto atos  obra do hbil cengrafo, o Sr. Joo Caetano
    Ribeiro. Prima sobretudo a do terceiro e quarto atos.
    A primeira, uma tapada com leas,  notvel pela perspectiva area, pelo
    ambiente que separa e isola os troncos e as ramagens; a segunda, as runas de
    uma sala na velha torre de Elven, vista entre dois crepsculos, o ocaso e o
    luar,  notvel tambm pelo resultado feliz dos toques da luz sobre a
    fisionomia grave e majestosa de um monto de destroos; a passagem do dia para
    a noite  de um efeito mgico. O Sr. Joo Caetano Ribeiro prima sempre naquele
    gnero de pintura.

  Em geral o
    desempenho foi bom. Tanto as caracteres do fundo, como
    as individualidades salientes, foram interpretados com inteligncia e firmeza
    de esprito.

  A Sra. D.
    Gabriela que, com os Srs. Furtado e Augusto, ocupou o primeiro plano do quadro,
    trabalhou com essa alma, e com essa conscincia que formam um todo de artista; dois elementos, duas faculdades, que revelam o sentimento e
    a compreenso, o corao e a cabea. A cena entre ela e o Sr. Furtado, nas minas, foi um duelo de arte.

  O Sr. J. Augusto,
    no limitadssimo papel de Laroque, elevou-se a uma altura a que s chega um
    talento superior; na cena da morte, no sexto ato, levantou-se ao que de melhor
    se tem visto aqui, nesse gnero. Desmentiu, como o tem
    feito sempre, as expectativas malvolas que presidiram a sua entrada para o
    Ginsio.

  Estes trs papis
    que, como disse, ocupam o primeiro plano no desempenho do drama, assentam sobre
    um fundo luminoso onde  notvel o efeito da luz, mesmo nos longes.

  Distinguiu-se
    muito tambm o Sr. Paiva no papel de Bvallan, esprito frvolo e guebro das
    fortunas como ambicioso, e das belezas como sensual.

  Como complemento,
    noto a parte da camponesa Cristina, desempenhada com muita graa e ingenuidade
    pela Sra. D. Ludovina. O papel do Sr. Almeida  que me parece estar mais nas
    foras do Sr. Graa, que tiraria deste grande partido.
    O Sr. Almeida no o comprometeu.

  Satisfar o
    pblico os aplausos que merece esta linda composio? A platia que aceitou
    sessenta e tantas vezes a Probidade,
    furtar-se- ao Romance de um moo pobre?

  Toda a resposta
    deve ser em favor do drama e do pblico. Como pea literria e como mrito
    dramtico, o Romance de um moo pobre merece todo o apoio da platia; posto que
    me no sente  mesma meta de princpios, em cuja cabeceira parece levantar-se o
    romance de Octave Feuillet.

  Com este drama
    fez benefcio a Sra. D. Gabriela. Artista reconhecida e legitimada por uma
    longa srie de criaes e triunfos, a Sra. D. Gabriela encontrou nos
    entusiasmos espontneos de uma platia ilustrada uma dessas ovaes que honram
    o pblico honrando ao artista. Eram reverncias conscienciosas que enfeitavam
    mais uma vez de flores e de cantos o nome ilustre da primeira atriz do Ginsio.

  No  s com
    estas estrias que o Ginsio se levanta gradualmente no esprito do pblico.
    Com um pessoal j numeroso, no se recusa a aument-lo em proveito de seu
    futuro.

  Estreou no Casamento a marche-marche a Sra. D.
    Teresa Martins.

  A comdia  linda e pequena, cheia de esprito e movimento. O papel da
    Sra. D. Teresa estava nas propores de uma estria modesta.

  J tratei desta
    senhora quando se achava no teatro de S. Pedro. Fiz-lhe ento notar uma falta
    de alma, e ausncia de estudo, dois obstculos para um artista. Depois a escola
    viciosa em que estava; obrigada a representar em composies de segunda ordem,
    tudo era fatal ao futuro da Sra. Teresa Martins.

  Desses defeitos
    no se desquitou j;  preciso tempo e vontade, e a vontade vir com o tempo. O
    que ele lhe no negava, e nem lhe nego agora, so tendncias. Tem disposies,
    uma figura simptica, boa voz; pode ter futuro.

  Vamos a S. Pedro.

  Houve o Escravo fiel, drama original; e mais
    duas comdias do mesmo autor: Pedro
      Hespanhol e Chins conspiradores.

  O drama foi
    coberto de aplausos e seu autor chamado freneticamente  cena.  quanto basta para
    satisfazer o trabalho de longas noites e laboriosos dias.

  Todavia a
    espontaneidade destes aplausos s a justifica o instinto pblico que repele a
    escravido; e aquela ltima cena, em que o escravo aparece com os foros de
    homem, tocou deveras nas fibras mais ntimas de alguns espectadores srios.

  Cronista como sou
    dos fatos teatrais, moo e crente, com este sentimento do gosto, com este
    entusiasmo do belo, no posso deixar de protestar no ltimo ato dramtico do
    teatro normal.

  No se enxergue
    nestas minhas palavras guerra acintosa e sistemtica; sou o primeiro a
    reconhecer no autor do Escravo fiel inteligncia e esprito; mas, os Humbolds no se encontram facilmente; e o
    autor do Pedro Hespanhol pode no ser
    perfeito dramaturgo, sem perder por isso os dotes intelectuais que lhe
    reconheo.

  O Escravo fiel no parece ter um direito 
    estima do corpo literrio. Fundado com a idia de fazer relevar uma beleza d'alma em corpo negro, no tem desenvolvimento a par do
    pensamento capital.

  A cena final do
    primeiro ato, por muita cor de verdade que tenha,  em parte inverossmil.
    Imagine a leitora a morte de um velho opulento no meio de seus parentes que lhe
    desejam a fortuna; apenas expira, saem todos furiosamente a esquadrinhar a casa
    em busca de alguma nota testamentria para aniquilar.

  Em primeiro lugar
    a cena  inverossmil, ou pelo menos inconseqente. Os parentes que estavam h dias nessa casa no teriam ocasio para essas
    pesquisas? Com um homem j velho e doente, impossibilitado de intervir em coisa
    nenhuma, a busca seria menos ruidosa e mais segura. Depois Firmino, rapazinho
    de 22 anos, no parece to cnico que nem respeitasse um morto, para pesquisar
    os bolsos e camisas de Lemos, morto de cinco ou dez minutos.

  Pouco antes de
    morrer, Lemos ordena a Loureno (o escravo) que tire do oratrio ou armrio uma
    caixinha onde esto as suas ltimas disposies. Ora, como disse acima, a
    famlia estava instalada na casa, e tendo procurado
    tudo, como  natural, no se lembraria nunca de ir ao oratrio onde est essa
    caixinha?

  Depois da luta
    entre o Padre Pedro e Salgado (ambos irmos de Lemos)
    o Padre retira-se e engana-se no chapu, levando um pelo comum. Que a verdade
    do carter levasse um sacerdote a jogar o pugilato com seu irmo, est nos
    princpios da escola dramtica. Mas que o autor interviesse na luta fazendo
    retirar-se o padre com um chapu secular, isto , apresentar uma dignidade da
    Igreja, revestida com as suas vestes sacerdotais,  gargalhada pblica,  pouco
    de acordo com os princpios da moral que devem assistir em um povo. No  assim
    que a arte civiliza; em uma poca de marasmo religioso e indiferena pblica
    para os dogmas cristos,  matar a alma, cavar o cu, derrubar o altar.

  Em todo o drama o
    autor procurou dar ao negro uma linguagem adequada; entrecaiu em um erro
    visvel. Muitas pessoas que falam com o escravo usam sempre de um fraseado de
    salo a que o negro responde com conhecimento e preciso.

  H uma frase
    lindssima, entretanto, desse mesmo negro.

  -- Eu sou negro mas as minhas intenes so brancas!

  Em todo o drama o
    autor procurou dar uma cor local. Sinto que a decorao no o acompanhasse
    nesse desejo.

  Concluo repetindo
    o que disse ao princpio. O Escravo fiel no pode ter aspiraes a ser considerado um drama de absoluto mrito; pelo
    menos, na minha opinio.

  Todavia, as
    tendncias liberais do autor, alguma coisa de nacional que h, intenes de moralizar, salvaram o pensamento que tanto peca pela manifestao.

  25 de dezembro de 1859.

  Sumrio: -- S. Janurio. -- Pedro (estria do Sr. Furtado). -- Ginsio.
    -- Uma carta do Sr. Bitencourt da Silva.

  Estamos em festas
    e como que os teatros se apostaram para no nos darem novidade alguma.

  No h situao
    aptica no sentido absoluto da palavra; h mesmo movimento, mas no h notcia
    importante ou fato notvel.

   verdade que no
    curto espao de uma semana, uma exigncia assim  pouco justificvel; mas
    nestes ltimos tempos os teatros acostumaram-nos a isto; e o costume, conforme
    o provrbio, faz lei.

  Entretanto
    confesso que um egosmo puramente fsico, ou por outra, um instinto de
    conservao faz-me ver um cu de coisas velhas. A estao tem sido violenta, e
    um calor tropical d aos membros certa tendncia ao repouso, e transforma com
    facilidade um simples cronista em turco de bom gosto com visos de papa
    Alexandre VI.

  Esta tirada
    equivale a dizer que me canso horrivelmente no escrever destas pginas em um
    tempo como este. Evidentemente se o meu folhetim nunca teve um prstimo srio,
    goza da qualidade notvel de suadouro.

  Mas aceitam por
    acaso esta desculpa?

  Acima dos furores
    da estao e das minhas tendncias orientais est o dever, o implacvel dever
    de relatar os fatos do teatro.

  Vamos l.

  Atado a esta rocha
    fatal chamada folhetim, inerte, Prometeu como sou, nem tenho ao menos um coro
    de Ocenidas para consolar-me no infortnio.

  Tenho o teatro
    que me chama.

  Vamos ao teatro.

  No Ginsio nada
    de novo se tem dado. Repetiu-se ainda o Romance
      de um moo pobre que continua a ser bem recebido.

  Houve em um dos
    dias da semana, no Ginsio, um concerto instrumental dado pelos irmos
    Growenstein.

  Ouvi ainda uma
    vez o jovem Carlos Schram fazer brilhanturas nas suas teclas, e, mais ainda, um
    duo admirvel de harpa e contrabaixo. Este instrumento foi executado pelo Sr.
    Anglais.

  O Sr. Anglais 
    um artista de mrito. Entregou-se com afinco exclusivo ao estudo do seu
    contrabaixo, e faz verdadeiros milagres de msica com o arco. Confesso que 
    uma das coisas mais admirveis que tenho visto nesse
    gnero.

  Acabo e assistir,
    h meia hora,  estria do Sr. Furtado Coelho no
    teatro de S. Janurio. O drama escolhido foi o Pedro de Mendes Leal Junior.

   muito conhecido
    esse drama para que me ocupe em uma narrao estril do entrecho. Casa-se
    perfeitamente ao meu esprito a idia vigorosa dessa bela composio. Separo-me
    talvez em alguns pontos na maneira de vestir o pensamento.

  O que se nota sobretudo no Pedro  a tendncia liberal que tm tornado recentemente os vultos da literatura.

  O nome ilustre de
    um conde que cai para dar lugar ao nome do talento obscuro que se levanta,  o
    pensamento do drama e constitui para mim um smbolo.  a democracia do talento
    que reage sobre a nobreza do braso, um elemento poderoso que procura suplantar
    uma fora gasta.

  Com esta
    combinao os choques dramticos so de completo efeito.  assim que o ilustre
    poeta preenche os dois fins do drama: o fim puramente da arte e o efeito
    filosfico.

  Os artistas encarregados
    do desempenho como que se sentiam vacilantes e incertos. Na segunda
    representao  de supor que estejam mais seguros de seus respectivos papis.

  O Sr. Furtado Coelho j  conhecido nesse papel, que eu
    considero um dos seus melhores fatos no teatro. Tem a sua fibra artista mais
    desenvolvida nos tipos de altivez, nos caracteres frisantes do orgulho
    intelectual, Pedro e Henrique Soares, alm de outros, so por
    isso dois papis felizes nas mos do artista.

  Consta-me que a
    Sra. Eugnia Cmara est contratada nesse teatro onde deve estrear brevemente. So duas novidades que eu no contava dar aos leitores, to
    pouco esperava eu por elas.

  Uma novidade
    ainda.

  Acabo de ver uma
    carta dirigida pelo colaborador deste jornal, o Sr. Bitencourt da Silva, ao
    ator Joaquim Augusto, do Ginsio.

   uma bela pea,
    escrita com preciso e clareza, e verdadeiramente inspirada pelo raro trabalho
    do artista que nos mostrou o octogenrio Laroque do Romance de um moo pobre.

  Na minha revista passada falei j desse inteligente artista e da sua
    admirvel criao, e como todos os que o viram no me canso de v-lo nem de
    falar nele.

  Com a sua entrada
    para o Ginsio, o Sr. Joaquim Augusto veio mostrar-nos a transfigurao de uma
    vocao erradia outrora em um clima que te no convinha, o que forosamente lhe
    nulificava a aptido e a inteligncia.

  Artista
    consciencioso, aperfeioado pelo estudo e pela observao, no podia viver na
    luz melanclica que um quadro envelhecido te podia dar; o romantismo no se
    acordava com a sua fibra dramtica; chamava-o uma outra escola; uma outra
    platia.

  Eu, que to
    crente sou nos efeitos benficos da rampa, regozijo-me sempre que uma garantia
    de futuro vem assentar assim sobre o tablado.

  A carta do Sr.
    Bitencourt da Silva  a reunio calma dos pensamentos que se
      agitam perdidos, cada noite, em uma platia inteira.

  10 de janeiro de 1860.
