CRNICA, Comentrios da Semana, 1861

Comentrios da semana

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio
  de Janeiro: Edies W. M. Jackson,1938.

Publicado originalmente
  o Dirio do Rio de Janeiro, Rio de
  Janeiro, de 01/11/1861 a 05/05/1862.

1 DE NOVEMBRO DE 1861.

Prefcio
  poltico - Exposio - Ensino Praxedes -

Coroa
  ao Dr. Pinheiro Guimares - O mgico Felipe -

Regata
  - Comemorao de defuntos.

O que h de poltica?  a pergunta que naturalmente ocorre a
  todos, e a que me far o meu leitor, se no  ministro. O silncio  a
  resposta. No h nada, absolutamente nada. A tela da atualidade poltica  uma
  paisagem uniforme; nada a perturba, nada a modifica.
  Dissera-se um pas onde o povo s sabe que existe politicamente quando ouve o
  fisco bater-lhe  porta.

O que d razo a
  este marasmo? Causas gerais e causas especiais. Foi sempre princpio nosso do
  governo aquele fatalismo que entrega os povos orientais de mos atadas s
  eventualidades do destino. O que h de vir, h de vir, dizem os ministros, que,
  alm de acharem o sistema, cmodo, por amor da indolncia prpria, querem
  tambm pr a culpa dos maus acontecimentos nas  costas da entidade
  invisvel e misteriosa, a que atribuem tudo.

Dizem,  verdade,
  que h tal ministro que, adotando politicamente aquele princpio, descr da sua
  legitimidade quando se trata da sua pessoa, e que,
  longe de esperar que a chuva lhe traga gua, vai  prpria fonte buscar com que
  estancar a sede. O leitor v bem o que h de profundamente injurioso em
  semelhante proposio, e facilmente compreender o sentimento que me leva no
  insistir neste ponto.

Mas, seja ou no
  assim, o que nos importa saber  que os nossos governos so, salvas as devidas
  excees, mais fatalistas que um turco de velha raa. Seria este ministrio uma
  exceo? No; tudo nele indica a filiao que o liga intimamente aos da boa
  escola.  um ministrio-modelo; vive do expediente e do aviso; pouco se lhe d
  do contedo do ofcio, contanto que tenha observado na confeco dele as
  frmulas tabelioas; dorme  noite com a paz na conscincia, uma vez que de
  manh tenha assinado o ponto na secretaria.

Est dada a razo
  por que subiu no meio das antfonas e das oraes dos amigos, apesar dos travos
  de fel com que alguns quiseram fazer-lhe amargar a taa do poder. Diziam estes:
  " um ministrio medocre". Mas, por Deus, por isso mesmo  que  sublime!Em
  nosso pas a vulgaridade  um ttulo, a mediocridade um braso
    ; para os que tm a fortuna de no se alarem alm de uma esfera comum 
  que nos fornos do Estado se coze e tosta o apetitoso po-de-l, que  depois
  repartido por eles, para glria de Deus e da ptria. Vai nisto um sentimento de
  caridade, ou, direi mesmo, um princpio de equidade e de justia. Por toda a
  parte cabem as regalias s inteligncias que se aferem por um padro superior;
   bem que os que se no acham neste caso tenham o seu quinho em qualquer ponto
  da terra. E do-lhe grosso e suculento, a bem de se lhes pagar as injrias
  recebidas da civilizao.

No se admire,
  portanto, o leitor se no lhe dou notcias polticas. Poltica, como eu e o meu
  leitor entendemos, no h. E devia agora exigir-se de um melro o alcance do
  olhar da guia e o rasgado de seu vo? Alm de ilgico fora crueldade. Estamos
  muito bem assim; demais, no precisa o imprio de capricrnio.

 sob a gerncia
  deste ministrio que vai efetuar-se em nossa capital uma festa industrial, a
  exposio de 1 de dezembro.

Se o leitor
  acompanhou as discusses do senado este ano, deve lembrar-se que quase no fim
  da sesso o Sr. senador Penna, que ali ejaculou alguns
  discursos "notveis", entre eles o dos pesos e medidas do Sr. Manoel Felizardo,
  levantou-se e pediu a opinio do Sr. ministro do fomento acerca da convenincia
  de representar o Brasil na prxima exposio de Londres.O Sr. ministro, que por
  uma coincidncia, que no passou despercebida, havia previsto os sentimentos do
  honrado senador, levantou-se e declarou que j havia pensado nisso, e que
  dentro de quatro dias tinham de aparecer as instrues regulamentares das
  exposies parciais no Brasil, para delas extrair-se o melhor, e enviar-se 
  exposio de Londres.Portanto, os dois heris da exposio so os Srs. Penna e
  ministro do fomento, a quem, em minha opinio, devem ser conferidas as
  primeiras medalhas, a no ser que se olhe como prmio comemorativo a
  presidncia de Mato-Grosso e as ajudas de custo, que, por eleio do sagrado
  conclio, couberam ao Sr. Herculano Penna. Em todo o caso h uma dvida
  contrada com o Sr. ministro do fomento.

As instrues
  apareceram um pouco sibilinas e indigestas, como
  salada mal preparada, mas dignas do ministro e do ministrio. E imediatamente
  as ordens se expediram, com uma presteza cuja raridade no posso deixar de
  comemorar, e em toda a parte se preparam a esta hora
  as exposies parciais.

A da corte tem
  lugar no dia 2 de dezembro, no edifcio da escola central. A decorao est a
  cargo do Sr. Dr. Lagos, que  um dos mais importantes expositores. Disse-me
  algum que quele nosso distinto patrcio se entregou uma soma fabulosa. . .
  (mente) mesquinha, o que  realmente digno de censura,
  se no atendermos  divisa do ministrio, e a que  impossvel fazer uma
  exposio e ao mesmo tempo mandar uma jovem comisso estudar  Europa os
  sistemas postais. A exposio  uma coisa bonita; mas h muito moo que ainda
  no foi a Paris, e  preciso no deixar que esses belos espritos morram
  abafados pela nossa atmosfera brasileira. Ora, a economia. . .

A Exposio
  corresponder aos esforos dos seus diretores, se a ateno pblica no for
  desviada pela nova obra "Ensino Praxedes", de
  que d notcia a folha oficial.  um novo mtodo de ensino, fundado sobre a filosofia
  do A B C. Ouo j o meu sfrego leitor perguntar-me o que  a filosofia do A B
  C. Eu ainda no li o precioso livro; mas diz-me um boticrio, que o folheou
  entre duas receitas, que essa filosofia cifra-se em demonstrar que no h entre
  as letras do alfabeto a diferena que geralmente se supe, e que o A e o G se
  parecem como duas gotas de gua. Talvez o meu leitor no ache muito clara a identidade; mas  a que est a sutileza do novo
  mtodo.

Ocorre-me lembrar
  uma coisa. Este livro deve figurar na exposio de Londres. Ali se reserva uma
  sala para a exposio de planos, livros e mtodos pedaggicos de ensino
  primrio. V-se que o novo "Ensino" est correndo para l como um rio
  para o mar.

A matria do ensino
   grave e profunda; no se deve perder material algum que possa servir 
  organizao da instruo pblica, como ela deve ser feita. Ora, compreendesse
  bem que o sistema do "Ensino Praxedes" vem dar
  um grande avano, porque, se pela analogia, ou antes, identidade dos
  caracteres, chegamos a converter o alfabeto em uma s
  letra,  evidente que teremos feito mais que todos o que tm estudado e
  desenvolvido a matria e, se  dado crismar o novo mtodo, proponho que se
  desdenhe o ttulo de "Mtodo-vapor", e que se lhe de o que lhe compete, "Mtodo-eltrico."

A obrigao de
  comentar leva-me a fazer transies bruscas; por isso passo sem prembulo do
  novo livro a oferta que por parte de alguns amigos e admiradores acaba de ser
  feita ao Sr. Dr. Pinheiro Guimares, autor do drama "Histria de uma moa
  rica".

Afirmo que o
  leitor, se no  beato, est to convencido como eu da justia daquela oferta.
  Ela significa, alm disso, um desmentido solene s censuras que, em mal da
  composio do novo dramaturgo, haviam levantado os que sentem em si  alma daquele
  heri de Molire, que pecava em silncio e se acomodava com o cu.

As palmas que acompanhavam a entrega da coroa ao Sr.Dr.Pinheiro
  Guimares confirmaram ainda uma vez a boa opinio que ns espritos
  desprevenidos, sinceramente amante das letras, tem criado o poeta. Estou certo
  de que elas valem mais que a alma devota dos censores.

Tem outro alcance a
  coroa do autor da "Histria de uma moa rica";  um incentivo 
  mocidade laboriosa, que, vendo assim aplaudidas e festejadas as composies
  nacionais, no se deixar ficar no escuro, e vir a
  cada operrio por sua vez enriquecer com um relevo o monumento da arte e da
  literatura.

A nossa capital tem
  sido visitada por mais de um mgico, e sem dvida est ainda fresca a impresso
  que produziu o distinto Hermann, que fazia coisas com aquelas bentas
  mos de pr a gente a olhar o sinal. No tempo
  em que Hermann
   divertia a curiosidade infantil do nosso povo, chegou aqui um colega, que,
  reconhecendo no poder competir com to distinto mestre, resolveu esperar
  melhores dias, e foi exercer a sua arte pelo interior.

Agora apareceu ele,
  o Sr. Philippe, filho de um mgico clebre de Paris. Trabalha com destreza e
  habilidade, e faz passar o espectador algumas horas de verdadeira satisfao.
  Se o meu leitor quiser verific-lo deve ir ao Ginsio sempre que o Sr. Philippe
  trabalhar.

Efetua-se hoje 
  tarde a grande regata de que falei em um dos meus "Comentrios" passados, e
  cujo programa as folhas publicaram ontem.

Ao que parece, o
  divertimento ser em regra, e amadores e espectadores tero uma tarde deliciosa
  a passar. Compreende-se bem que os Ingleses se distraiam das suas graves
  preocupaes para tomar parte ou presenciar uma regata, hoje que o
  divertidssimo soco ingls  punido pelas leis da Gr-Bretanha. Vejam se no
  excita a fibra ver quatro escaleres rasgando com as quilhas cortadoras o seio
  de um mar calmo e azul, e os remeiros, com o estmulo e o entusiasmo nos olhos,
  empregando toda a percia, a ver quem primeiro chega ao termo da carreira, que
   a terra da promisso!

Diga-se o que
  quiser dos Ingleses, mas confesse-se que nesta predileo pela regata e outros
  divertimentos do mesmo gnero mostram eles que Deus tambm os dotou da bossa do
  bom gosto. Honra queles graves insulares!

Os moos que hoje
  tomam parte na regata so pela maior parte, oficiais da nossa jovem marinha,
  mas entram no divertimento franceses e ingleses que no
    deviam faltar a ele. A festa , portanto, completa, e desta vez 
  deveras uma regata, pois que os escaleres devem correr prximos  praia, para
  que todos possam ver.

Depois da festa do
  mar, vem a festa dos cemitrios, a comemorao dos
  mortos, piedosa romagem que a populao faz s pequenas e solitrias necrpoles,
  onde repousam os restos do irmo, do pai, do consorte, da me e do amigo.

  uma
  peregrinao imponente. Os romeiros vo de luto orar pelos que repousam no
  ltimo jazigo, e derramar  vista de todos, as lgrimas da saudade e da tristeza.  esta uma das prticas dos povos cristos
  que mais impressionam a alma do homem verdadeiramente religioso, embora a
  vaidade humana macule, como acontece em todas as
  coisas da vida, a grave e melanclica cerimnia, com as suas suntuosas
  distines.

Dizem os que tm
  visitado a antiga cidade de Constantino que h uma grande diferena entre um
  cemitrio turco e um cemitrio cristo. Aquele no inspira o sentimento que se
  experimenta quando se entra neste. O turco entrelaa a morte  vida, de modo
  que no se passeia com terror ou melancolia entre duas alas de tmulos. A razo
  desta diferena parece estar na prpria religio. O que quereis que seja a
  morte para um povo a quem se promete na eternidade, a eternidade dos gozos mais
  voluptuosos que a imaginao mais viva pode imaginar? Esse povo, que vive no
  requinte dos prazeres materiais, s entende o que fala aos sentidos, e
  considera bem aventurados os que morreram que j gozam ou esto perto de gozar
  os prazeres prometidos pelo profeta.

Mas
  filosoficamente, tero razo eles ou ns, filhos da igreja crist? H razo
  para ambas as partes, e cumpre acatar os sentimentos alheios para que no
  desrespeitem os nossos.

Gil

10 de novembro de
  1861.

Vaga
  senatorial - Agncias do correio - Companhia italiana: Norma - Compositores
  nacionais - Condecoraes - Batuta - Associao de caridade - Aventura inglesa
  - Uma volta de artistas.

Vagou uma cadeira
  no senado.  a que pertenceu ao eleito por Mato-Grosso, Joo Antonio de
  Miranda, que acaba de falecer, levando consigo a experincia e o conhecimento
  do egosmo de um partido poltico. To gordo posto fez arregalar o olho a mais de um; e eis que todos
    quanto gozam da inefvel ventura de andarem entradetes no outono da
      vida comeam a fazer valer os seus direitos e os seus servios.

 Fala-se de
  muitos, e chega-se at a indicar todas as probabilidades. A folha oficial, que
  toma o seu papel a srio, sem reparar que encanta mais "par son plumage que par son ramage", no se arreceou de
  comprometer no futuro o queijo do experiente, e abriu o largo bico para dizer
  que entre muitos candidatos um havia que merecia exclusivamente os sufrgios
  dos eleitores.

Deve supor-se que 
  esse o escolhido do partido do governo, que  sempre o legtimo partido. Um outro candidato, ministro como o que foi apresentado por
  " Matre Corbeau",
  no far concorrncia, porquanto, depois de ter naufragado em dois diques, no
  do Maranho e no Rio de Janeiro, no quer arriscar-se a fazer uma figura triste
  neste pas, que  o da lindas figuras. Alm destes dois, havia um que, se o
  governo quisesse, podia faz-lo triunfar, o Sr. Sergio de Macedo, homem que,
  afora a misso diplomtica, o cargo de ministro e o exerccio de deputado, tem dado conta da mo saindo-se brilhantemente de toda a
  empresa que comete.

Tais e outros so
  os ovos que esto incubando, agasalhados pelas asas protetoras daquela remota e
  passiva provncia de Mato-Grosso; esto sim, mas a ansiedade da surpresa no se
  dar no fim do termo legal da incubao; j se conhece o ovo que h de gerar, e
  a mim at me parecer ver j o pinto no poleiro. A tal ponto chega  cincia
  poltica!

 to bom ter uma
  cadeira no senado! A gente faz o seu testamento, e ocupa o resto do tempo
  em precaues higinicas, a bem de dilatar a vida e gozar por mais tempo das
  honrarias inerentes ao posto de prncipe do imprio. Alguns no observam to salutar  preceito, e esfalfam-se em
  oraes polticas contra os abusos do poder; por isso vo mais depressa 
  sepultura, onde ningum  senador nem tem honrarias de prncipe.

 Com a questo
  da vaga senatorial veio naturalmente a questo da
  presidncia da provncia, que h de ser a presidncia da eleio. Estava
  nomeado antes da vaga o Sr. Conselheiro Penna; mas S. Excia., que  exmio em ordenar um expediente e em fazer o
  seu discursozinho sobre questes de ordem, no se abalanar a presidir uma
  eleio em provncia que no conhece, e to longe do governo central.

 Trata-se,
  portanto, segundo ouvi dizer a mais de um, de substituir o nomeado, o que eu
  acho que  uma coisa muito justa. Pois falta com que distrair os tdios do Sr. Conselheiro Penna no intervalo da sesso legislativa?
  No haver outro ponto do imprio onde S. Excia. v tomar ares? Por fora que h de haver.

Tais so as
  notcias importantes do mundo poltico que chegaram ao meu conhecimento. Quanto
  ao Sr. Ministro da agricultura, que  o meu predileto,
  est fazendo " amende honorable"
  de um erro administrativo: restabelece as agncias postais do interior, que um
  dia de sestro econmico lembrou-se de suprimir. Deus o conserve em to boas
  disposies!

 Apesar da
  importncia dos fatos que muito singela e rapidamente acabo de referir, o que
  mais deu que falar nestes ltimos dias foi a companhia
  italiana, que aqui est de passagem para Buenos Aires.

Falou-se muito
  antecipadamente na primeira-dama, a Sra. Parodi, que trazia consigo um diploma de reputao europia. Tinha ela de cantar a Norma diante de um pblico que ainda conservava as impresses de Mme. Lagrange. Por isso todo mundo diletante se agitou,
  e na noite da representao da Norma l estavam os antigos entusiastas
  do canto italiano a esperar pela novidade.

A Sra. Parodi confirmou o que dela se tinha dito: tem muito
  talento e profundos conhecimentos da arte a que se dedicou;  ao mesmo tempo
  uma eminente cantora e uma trgica eminente. O seu gesto  nobre, os seus
  movimentos largos e desembaraados, as suas posies belas, como as das
  esttuas antigas. Aquilo  que era a sacerdotisa gaulesa. Depois Lagrange ningum viu melhor. Quando experimentava um
  sentimento, exprimia-o com a voz, com o gesto, com a fisionomia, sem procurar
  agradar aos basbaques com os recursos das mediocridades. Ah!  que possui a
  flama sagrada e consumiu o tempo em uma escola europia, que eu peo licena
  para considerar melhor que nossas, se me  dado falar dos ausentes.

O tenor Mazzis conhece a arte e canta bem; acrescentai a isto uma
  bela figura, e compreendereis, leitor, que Norma se
  apaixonasse por Pelion.

Bela e fresca  a
  voz do baixo Rossi, que foi aplaudido com justia, e que muito mais o deve ser
  no Ernani, que sobe hoje  cena.

 Coube o papel
  de Adalgiza a uma moa, quase diria menina, tanto o
  seu ar ingnuo e tmido me pareceu aquele da criatura que passa a infncia 
  adolescncia. A sua voz, fresca e melodiosa, corresponde perfeitamente ao seu
  todo virginal; comea agora, mas tem condies para ocupar uma bela posio no
  teatro.

 Tal  a
  companhia que se destina a Buenos Aires. S tenho palavras de inveja para os
  nossos vizinhos, que bem podiam ceder-nos a sua companhia por alguns meses.

 Assim no h
  de acontecer, entretanto; e, ao que ouo, a "voluptuosa coqueta del Plata"
  tem em breve de ouvir  e ver esses artistas, a quem os dilettanti bonaerenses animaro e pagaro com
  entusisticos aplausos.

O perodo 
  musical; trs companhias de canto, a italiana, a francesa e a nacional alternam
  as suas representaes no mesmo teatro. Os compositores nacionais aparecem.
  Acha-se nesta corte, vindo de So Paulo, o Sr. Elias lvares Lobo, autor da "Noite
    de So Joo"; retirado  sua provncia natal, o Sr. lvares Lobo escreveu
  uma nova pera, cujo livreto  devido  pena de um dos nossos jovens escritores
  dramticos; o Sr. Gurjo est no Par, e deve voltar
  brevemente, para fazer cantar uma das quatro peras, compostas na Itlia, terra
  da msica e dos mestres; um jovem professor, o Sr. J. Teodoro de Aguiar, est a concluir uma
  pera, cujo livreto tem por assunto um episdio da nossa histria indgena,
  coisa que para alguns espritos rabugentos  enormemente ridcula. No sou
  dessas suscetibilidades que fazem caretas ao ver um indgena em cena; no quero
  saber a que nao e a que civilizao pertencem os
  personagens; exijo simplesmente que eles sejam verdadeiros, porque
  invariavelmente ho de ser belos; " rien n'est beau que le vrai", disse Boileau, que, se me concedem, era uma pessoa de muito critrio e siso e pensava nestas
  coisas um pouco melhor que os censuristas.

Por ltimo, est a
  vir da Europa o Sr. Henrique Alves de Mesquita, talento de uma grande esfera,
  que mais se ampliou e fortaleceu com a aquisio de srios estudos, condio
  essencial do bom compositor, sem a qual se fica em risco de no passar da
  antecmara da glria, que esquiva e exigente como ningum.

O Sr. Mesquita j ligou o seu nome  nossa histria musical,
  compondo algumas daquelas peas
  em que Jos Maurcio
  se mostrou mestre. As suas
  missas trazem o cunho da verdadeira msica religiosa. Como compositor de outro
  gnero, todos conhecem at que ponto chega a sua caprichosa imaginao e a sua
  instruo musical. Ser o digno chefe de to distinta pliade.

Creio que podemos
  dizer: - temos msica. E mais - temos animao para os principiantes. No acaba
  o chefe do Estado de ornar o peito do Sr. A. C. Gomes, para quem lhe foi pedida
  pela Academia das Belas-Artes uma condecorao? Este ato, olhado como estmulo,
  deve garantir os operrios da idia de que sero sempre acolhidos, no s pelas
  graas do pblico, como pelos favores dos poderes do Estado.

Devo dizer, falando
  de condecoraes, que um artista de outro ramo, o Sr. Victor Meirelles, autor
  do belo quadro " A primeira missa no Brasil",
  obteve da prpria inspirao imperial uma condecorao honrosa, em prova de
  apreo pelo seu trabalho. O favor honorfico caiu para a pintura como para a
  msica.

O autor da "Noite
  do Castelo" recebeu, finalmente, das mos de uma senhora, em pleno teatro,
  por ocasio de se executar a sua pera, a batuta de ouro com que o brindaram
  vrias representantes do sexo amvel. O trabalho artstico  de um perfeito
  acabado e honra bem as ofertantes.

Na apoteose dos
  talentos, bem como no conforto dos que padecem, a
  mulher exerce sempre a sua alta misso; tanto galardoa como consola. Renem-se
  muitas, associam- se para fazer caridade, e por meio de uma noite de folgares e
  risos tiram o bolo, que vo depois depositar no regao da indigncia.

 o que deve
  efetuar-se na noite de 12 deste ms. A Associao de Caridade das Senhoras
  anuncia para essa noite um concerto vocal e instrumental no salo do Casino Fluminense, cujo produto deve ser empregado no
  desempenho dos fins da sociedade. Honra e glria para essas almas evanglicas!

 Algum
  filsofo esquisito poder dizer que um egosmo que infecciona os homens faz com
  que estes s abram a bolsa em troco de um prazer, e que o dinheiro que compra o
  po dos pobres comprou antes o divertimento dos abastados. Guarde esse as suas
  moedas de Pompia, que no tem valor na circulao; se no quer parecer
  egosta, no v l; a humanidade  assim; as abstraes quimricas no  que a
  ho de modificar, responderemos eu e o meu sculo.

Muita gente fala em
  egosmo, sem definir propriamente o que ele . Em minha opinio, que no dou
  como infalvel, ele vale tanto como instinto de conservao, que reside nas
  organizaes animais; , por assim dizer, o instinto moral, que procura para o esprito o que o instinto
  animal procura para os sentidos. Vo l pregar contra o egosmo aos ingleses;
  vero como eles os escovam. O egosmo  a divisa dos sditos de Sua Majestade a
  Rainha, recentemente Imperatriz das ndias; e tanto a observam que fazem muitas
  vezes profundas modificaes no direito das gentes e no cdigo social das
  naes, parecendo que os respeitam.

Para prova do que
  digo, deu-se ultimamente em nosso porto, um fato que  nada menos que uma grave
  ofensa  soberania nacional. Mal saa a visita da polcia de um vaso
  brasileiro, apresentou-se um oficial ingls no escaler de sua nao, exigindo a
  sua introduo a bordo! Est me parecendo este caso igual ao  Charles
    Georges
  em Portugal. Naes
  fracas devem sofrer tudo, dizem
  as potncias de primeira ordem; e, sem atender que, como dizia o conceituado
  Cames  "franqueza ser leo entre ovelhas", fazem alarde de sua
  importncia e fora material. Benza-os Deus, antes querem um aleijo no moral
  que uma quebra desse poder que atemoriza os fracos, indignando a conscincia.
  Vamos ver o que far o nosso governo. Dizem que somos colnia da Inglaterra;
  no sei se somos, mas  preciso provar que no.

Esta questo de
  visita martima tolhe-me a palavra e irrita-me a pena. Creio que no poderei
  continuar naquele estilo descuidoso e calmo com que comento as coisas. Tenho
  uma ltima notcia a dar. Vi nas mos de um amigo uma carta da Bahia, em que se
  anuncia a prxima vinda de alguns artistas, muito conhecidos do nosso pblico,
  que ali faziam parte da companhia dramtica, que, na frase do vice-presidente
  daquela provncia em seu relatrio, satisfazia perfeitamente as necessidades da
  civilizao baiana.

Declinando-lhes os
  nomes, faz-lhes a apologia; falo de Gabriela da Cunha e Moutinho de Souza, a criadora de Marco e Margarida Gauthier, e
  o intrprete feliz do marinheiro da "Probidade".

Colocada na
  primeira plana dos nossos artistas (e poucos so), a Sra. Gabriela tem sempre
  um lugar na capital, em que seus triunfos foram mais celebrados, e onde criou a
  sua carreira. Alm dela e do Sr. Moutinho, diz-se que
  deve tambm chegar um novo ator, gal de muita aptido, e, ao que ouo, o
  primeiro depois de Furtado Coelho.

Uma no vem talento
  em flor, que amanhecia cheio de esperana, e que l fica debaixo do cho, livre
  dos amargores da vida, mas tambm sem os louros que a esperavam. Aos que a
  viram ensaiar aqui os seus primeiros passos sem dvida se confranger o corao
  quando no lerem entre os nomes de sua famlia o nome da Ludovina Moutinho.

Gil.

21 DE NOVEMBRO DE
  1861.

Cavaco
  -- Caridade -- Thereza Parodi -- Coros do teatro lrico
  -- A "Resignao".

 pachorra ! Tu s a Circe mais feiticeira que conheo contra quem
  no valem todas as advertncias de duas Minervas juntas! Adormeci em teu seio,
  amiga velha, como te chamava aquele dom Filinto,
  que, alm desse, tinha outro ponto de contato comigo, na predileo pelas
  trouxas de ovos; adormeci, digo eu, em teu seio, deixei passar a semana sem vir
  dizer em letra redonda o que pensava das ocorrncias delas.

No faltou, porm,
  quem se encarregasse de comentar, como eu, e com um brilho de que no  capaz
  um escritor novel, ou j por crnica, ou j a propsito de msica e de
  caridade.

E de msica foram
  ltimos dias. De tudo o mais, porm, passou estril a semana. Msica nos
  teatros, msica nos concertos, por caridade e por prazer.

Pretende Eugnio Pelletan que a mulher, com o andar dos tempos, h de vir a
  exercer no mundo um papel poltico. Sem entrar na investigao filosfica da
  profecia, a que d uma tal ou qual razo a existncia
  de certas mulheres da sociedade grega e da sociedade francesa, eu direi que 
  esse um fato que eu desejava ver realizado, em maior plenitude do que pensa o
  autor da "Profession de foi". Eu
  quisera uma nao, onde a organizao poltica e administrativa parasse nas
  mos do sexo amvel, onde, desde a chave dos poderes at o ltimo lugar de
  amanuense, tudo fosse ocupado por essa formosa metade da humanidade. O sistema
  poltico seria eletivo. A beleza e o esprito seriam as qualidades requeridas
  para os altos cargos do Estado, e aos homens competiria exclusivamente o
  direito de votar.

Que fantasia! Mas,
  enquanto esperamos a realizao dessa linda quimera,  mulher cabem outros
  papis, que, se no satisfazem  inspirao de um humorista, podem contentar
  plenamente o esprito de um filsofo e de um cristo. , por exemplo, o da me
  de famlia e o do anjo da caridade; adoar os infortnios da indigncia e
  preparar cidados para a ptria, que misso!

 Cresce o
  nmero das associaes de caridade, e as principais organizadas so compostas
  de senhoras, que, no meio da abastana, no se esquecem de que h mes de
  famlia, a quem a fortuna no favorece com esses dons que permitem as primeiras os gozos e os cmodos da vida. Essas fazem
  grossa coleta de donativos, e, sem temer empoeirar o sapato de cetim no lar do
  pobre, vo repartir aos famintos o po da subsistncia que a indigncia lhes
  negou.

A "Associao de
  Caridade das Senhoras" e a "Congregao de Santa Thereza de Jesus" merecem os
  mais sinceros encmios pelos fins santos a que se propem. Se h glria
  verdadeiramente real e verdadeiramente crist,  essa.

 Ao lado do
  concerto que deu no Cassino a "Associao das Senhoras", chamaram a ateno dos
  "dilettanti",
  nestes ltimos dias, os espetculos lricos da companhia italiana, que nos deu Ernani e Favorita.

Tive ocasio, nos
  meus ltimos comentrios, de falar
  em Thereza Parodi
  e seus
  companheiros. Acabava de ouvir a Norma, e trazia no esprito as
  impresses recebidas pela execuo da famosa partitura de Bellini. A
  representao de Ernani confirmou-me na primeira opinio, ou mais,
  deu-me melhor opinio.

 Nessa pea
  Thereza Parodi ostentou os mesmos esplendores de seu
  talento, que j haviam dado ao papel de sacerdotisa gaulesa o cunho das belas
  criaes, na "cavatina" do primeiro ato, e no
  "terceto" do terceiro, sobretudo, seus belos dotes de canto e de arte forma
  empregados de um modo, no a satisfazer, mas entusiasmar a platia.

 Dizem que
  Thereza Parodi ouviu cantar a Norma  Pasta,
  de quem recebeu proveitosas lies. O fato  que o mesmo juzo feito pelos
  crticos eminentes  clebre cantarina podem ser aplicados a Thereza Parodi, guardadas as respectivas
  distncias. Nesta, como naquela, a cantora descora diante da trgica; ambas
  deram  sua arte esse tom dramtico que  o carter da escola clssica, em
  ambas se encontra esse culto inteligente da plasticidade, de que fala Blaze de Bury a respeito
  da primeira.

Vendo e ouvindo
  Thereza Parodi, ns, que tivemos duas brilhantes
  amostras da grande escola em Stolz e De-Lagrange, apreciamos e dispensamos quela artista
  os aplausos com que, honra de um pblico inteligente, a arte, a grande arte, a
  verdadeira arte, costuma ser festejada.

Depois de Ernani e de Norma foi anunciada a Favorita. As palmas com que ao
  terminar a execuo da pera de Donizetti foi Thereza Parodi chamada  cena, foram  manifestao de um pblico
  que, sem cuidar de comparaes, mostrou apreciar o talento, que, sem prego nem
  motim, veio receber no fundo da Amrica uma confirmao ao batismo que recebera
  na Europa.

Os outros artistas,
   parte alguns senes, satisfizeram o pblico, com especialidade o Sr.
  Walter.

Dizem que a gente
  experimenta uma certa mudana moral de sete em sete
  anos. Consultando a minha idade, vejo que se confirma em mim a crena popular,
  e que eu entrei ultimamente no perodo lrico.  isso o que explica hoje a minha
  preferncia pelas representaes deste gnero, e que me fazem adepto fervente
  da msica. Como se v, no me devo em parte lastimar,
  porque com esta mudana coincidiu o movimento lrico, que se vai observando na
  atualidade.

 Oxal que, a
  par do bom que se me d no velho Provisrio, figurassem sempre os coros. Diz
  Alexandre Dumas que para os ouvidos se fizeram "Guilherme Tell",
  os pianos de Erard e as trompas de Sax;
  evidentemente no se fizeram tambm os coros do teatro lrico, pelo menos se
  tratando de ouvidos bem educados. H ocasies em que  preciso muito boa
  vontade para ouvi-los  sangue frio.

 Uma novidade
  dramtica aguarda o pblico: um novo drama do Dr.Achilles Varejo, autor da poca. Como estas coisas no so secretas, e mais ou
  menos transparecem, pela louvvel indiscrio dos que, conhecendo uma pea, no
  se eximem de antecipar a opinio, fazendo o seu juzo, direi que no tenho
  ouvido a respeito da "Resignao" seno palavras de louvor e de ardente
  aplauso.  uma composio escrita nesse tom familiar, que tornam notveis muita das composies modernas. Deve subir a cena
  esta semana; nos meus prximos "Comentrios" farei detalhada anlise.

Gil.

 25 DE NOVEMBRO DE 1861.

Itlia
  -- Por que no foi um embaixador a Koenigsberg? -- Uma
  heresia cientfica -- Dois livros -- A companhia italiana -- Uma carta.

Comeo por uma
  raridade, no uma dessas raridades vulgares de que fala uma personagem de
  teatro, mas uma raridade vulgarmente rara: -- o governo de acordo com a opinio.

Os complacentes e os
  otimistas ho de rir; no assim os julgadores severos; esses diro consigo: -- 
  verdade! -- A opinio havia acolhido com entusiasmo a unificao da Itlia; o
  governo acaba de reconhecer "com prazer" e sem delongas acintosas o novo reino
  Italiano. No  caso de milagre, mas tambm no  comum.

Afez-se o pas por
  tal modo a ver no governo o seu primeiro contraditor, que no pde reprimir uma
  exclamao quando o viu pressuroso concluir o ato diplomtico a que aludo. E
  por que no havia de faz-lo? perguntar o otimista.
  Eu sei! Por descuido, por cortesania, por qualquer outro motivo, mas a regra 
  invarivel: o governo sempre contrariou a opinio.

 Mas a Itlia, ouo eu dizer, assenta hoje a sua existncia poltica
  nas mesmas bases da nossa: uniu-se para ser a Itlia, e escolheu o governo que
  achou melhor, como o imprio se unira para ser o imprio, e como escolheu por
  uma revoluo o governo que achou mais compatvel consigo e com os tempos.
  Quereria o governo brasileiro ser ilgico ou ridculo? No alcanaria ele a
  clareza e a firmeza destes princpios?

 Tudo isso 
  verdade, mas no menos verdade,  que este absurdo que por tamanho no parece
  entrar na cabea de ningum, existe na de muita gente. No h ainda quem espere
  pela volta do absolutismo a Npoles? Quem conte, para confuso dos maus, com a
  destituio de Victor Manoel, e do heri de Marsala?

 Podem, 
  verdade, todas essas coisas acontecer; as vicissitudes humanas concluem muitas
  vezes pelo absurdo, e pelo aniquilamento dos mais sos princpios, mas as
  idias ficam de p, e o esprito, abatido, embora, no abdica de si.

 No creio, ningum pode crer, para honra nossa, que no esprito
  do governo imperial existisse nunca uma convico contrria ao ato do
  reconhecimento. Mas nem por isso se pode contestar, que, por motivos fteis
  embora, o governo poderia, como em outras vezes, comprometer a opinio do pas
  com uma nao estrangeira.

 E que nao,
  a Itlia! Uma das que a providncia das naes destina para ser um guia da raa
  latina, e conduzi-la atravs dos sculos ao aperfeioamento moral e intelectual
  de que ela  capaz. Seria lamentvel, mas seria possvel, e daqui vem que a
  imprensa e o pas louvam todos os atos do governo.

 Existir
  nesse elogio contra as intenes do pas, que o fez de corao, um amargo epigrama? De quem a culpa? Do governo e s do
  governo. Avezado a remar contra a opinio, este mau
  timoneiro, se alguma vez volta o batel  feio da corrente dos espritos, 
  logo objeto de mil cumprimentos, que lhe devem doer mais do que dobradas
  chufas.

 E ele anda
  agora em mar de epigramas; alguns bem bons nos lanaram os alemes, a
  propsito de no haver na coroao do rei Guilherme um embaixador brasileiro,
  bem que aquele soberano no ficasse nem meio minuto  espera de
    que o Brasil tomasse parte na funo.

 Ora, o
  imprio foi realmente descorts e no praticou um ato de boa poltica.
  Abstraindo da importncia da farsa de Koenigsberg, tratava-se de uma potncia de primeira ordem, de um soberano amigo, e de uma
  fonte onde vamos procurar colonos quando precisamos lavrar nossas terras. Se
  no bastavam as duas primeiras consideraes, a ltima devia de ser digna de
  reparo do governo. Por que no atendeu a ela?

J ouvi, por
  suposio, que o governo no quis sem dvida fazer gastos enormes, a bem de
  manter convenientemente um embaixador nosso, naquela estrondosa cerimnia. Mas,
  se  preciso atender a essa tristssima contingncia, se o bom senso do governo imperial chega a descobrir estas
  dificuldades, porque no o ilumina a providncia, detendo-lhe a mo quando, com
  largueza, envia certas comisses a Europa, e do ajudas de custo a presidncias
  de provncias, despesas improdutivas, e diametralmente opostas ao programa do
  gabinete? Essas migalhas fariam um peclio para dar que gastar ao nosso
  embaixador, que demais, no precisava dar saraus estrondosos nem ostentar a
  suntuosidade com que a Frana se representou na pessoa do duque de Magenta.

 A concluso
  forada de tudo isto  que o governo foi descorts.

 Vale-lhe,
  porm, a inspirao com que se apressou a respeito da Itlia, a negao que fez
  das regras comezinhas de polidez internacional.

Outro tanto pudesse
  eu opor  negao da cincia em favor do empirismo, que no meio de uma
  corporao fez o diretor da Academia de Medicina. Ouvi bem,  vindouros, o
  diretor de uma Academia de Medicina!"O la direction d'une acadmie va-t-elle se nicher!"

Mas no pasmemos,
  leitor amigo. Negar a cincia  negar a esposa, com que se contraiu, depois de longo
  estudo, o consrcio ntimo do esprito e dos princpios. Mas negar a
  publicidade, negar a discusso, que so a alma do sistema representativo,
  equivale a negar a liberdade, a negar a prpria me.

 Ora, se o
  leitor recorrer aos "Anais" da sesso legislativa deste ou do ano
  passado, h de ler no discurso de um membro da cmara vitalcia a mais
  extravagante proposta, onde se suprimiam ou restringiam profundamente aquelas
  duas condies de um sistema livre. Depois disto h que admirar? Lembra-me
  aquele quimrico de Jules Sandeau, que vendo a
  causa da queda dos governos nos prprios governos, suprimia-os, para acabar com
  este inconveniente, bem como suprimia as leis, afim de se no atentar mais
  contra elas . . .

Felizmente o senso
  comum faz ouvidos de mercador, e o senador diretor prega debalde aos peixinhos.

Os tipos deste
  gnero so mais vulgares do que muita gente pensa: -- espritos medocres, no
  podendo abraar a amplido do espao em que a civilizao os lanou, olham
  saudosos para os tempos e as coisas que j forma, e caluniam, menos por m
  vontade que por inpcia, os princpios em nome dos quais se elevaram.

Deixando de parte
  esses entes passivos que no podem servir de tropeo  marcha das coisas, acho
  melhor voltarmos  folha nas ocorrncias da semana.

Representou-se, h
  tempos, um drama no teatro Ginsio intitulado "Sete de Setembro", em que
  o Sr. Dr. Valentim Lopes apareceu no nosso mundo das letras. Esse drama acaba
  de ser publicado agora
  em
    volume. Postos
  de parte certos pontos de composio, contra
  os quais se oferecem muito boas razes, mas que no constituem defeitos
  capitais, contm essa pea beleza de estilo e de arte
  digna de meno. Mas fora intil repetir agora e discutir a composio de que a
  maioria de meus leitores sem dvida ter velho conhecimento pela exibio
  cnica.

Tambm um outro trabalho, que s  novo na forma por que acaba de
  ser publicado,  o "Pequeno Panorama" do Sr. Dr. Moreira de Azevedo,
  coleo de pequenos artigos que viram  luz pela primeira vez nas colunas do "Arquivo
    Municipal".  um volume precioso, onde a histria de muitas cidades e
  monumentos nossos se acha escrita, sem pretenso, mais com visos de
  apontamentos que de brilhantes monografias.

No  o primeiro
  servio deste gnero que o Sr. Dr. Moreira de Azevedo presta as letras
  ptrias.

Nisto cifra-se o
  movimento da literatura propriamente dita da semana anterior.

 Tivemos no
  sbado a "Norma" pela companhia italiana. Foi noite da despedida. J se
  havia dado o "Ernani" por ltima rcita, mas como verdadeiras moas em
  visita, o pblico e a companhia quiseram trocar os ltimos amplexos no topo da
  escada. Tambm foram os mais ardentes e entusisticos. Posso dizer em minha
  conscincia de comentarista sincero, que foi essa a melhor representao da companhia
  italiana. Em nenhuma das vezes anteriores a Sra. Parodi se elevou a tanta altura no papel da sacerdotisa gaulesa.

O paquete do Prata levou ontem esses artistas que de passagem nos
  fizeram gozar algumas noites de verdadeiro e completo prazer. Ouo dizer que
  devem voltar em maio e passar aqui o inverno: Deus o queira.

Tenho em mo uma
  carta de um amigo a propsito dos meus penltimos "comentrios". Em dico
  castigada, e com aquela energia dos observadores severos, fez o meu
  correspondente algumas consideraes, que, se devo penetrar no vago da carta,
  so aplicados  situao em que se acha a nossa arte
  dramtica.

Bem que a
  magnanimidade do mestre o levasse a dizer que de minhas migalhas se sustenta,
  declaro aqui, que no migalhas, mas sim escolhida e boa iguaria traz ele  mesa
  do pobre operrio, sem prestgio, sem saber, e talvez sem talento.Agradeo-lhe
  a carta e as atenes.

Termino anunciando
  a prxima publicao de uma revista semanal - A "Grinalda" - onde cada um pode levar
  a sua flor e a sua folha a entrelaar.

Redige-a o Sr. Dr.
  Constantino Gomes de Souza, cujas aptides se acham j reconhecidas pelo
  pblico, e que deve cumprir o programa a que se prope.

Gil.

1 de dezembro de 1861.

O que
  ficou provado a respeito da Itlia - Exposio nacional - Morte de um general - A Resignao - "La Dame Blanche" - Comisso para teatro - Ainda o Sr. Senador Jobim.

Est acabada a
  questo do reconhecimento da Itlia. Evidenciou-se pela discusso da imprensa
  que o governo quis atenuar um pouco a coragem com que reconheceu a Itlia,
  trazendo  imprensa consideraes que no respiravam a dignidade nem estavam
  revestidas da lgica que deve assistir aos atos de um governo livre.

Em bom e leal
  portugus chama-se a isto - acender uma vela a Deus e outra ao diabo. Ou, se
  quiser ainda recorrer  filosofia popular - desmanchar com os ps o que se fez
  com as mos.

 Supunha-se
  que o gabinete tivesse olhado as coisas polticas da Europa de um ponto de
  vista justo, e, portanto elevado. Era caluni-lo; e para no haver dvida veio
  ele prprio declarar que faz a sua apreciao do movimento do esprito humano
  do alto da varanda do palcio imperial.

 Qualquer que
  seja o respeito que merece aquele ponto de vista, palpita-me que o mundo  alguma coisa mais larga, e que as idias pairam um pouco mais
  acima dos augustos telhados da monarquia.

Se o governo  dos
  que, como rei Guilherme I, ainda andam embebidos pela
  idia de que Deus se ocupa em fazer coroas para constituir direitos que tm
  outra fonte real, bem pode renunciar a querer fazer do imprio uma coisa que
  preste, e desde j fica habilitado a tirar diploma de imbecilidade ou de
  especulao.

Para isso tem amplo
  e indisputvel direito.

 Ser mais um
  episdio da sua biografia, j opulenta destes e quejandos.

 A festa
  industrial que se vai inaugurar amanh  uma das coisas boas que ho de tirar a
  triste monotonia da histria do gabinete de 2 de
  maro.

Bem que ao governo no
  caiba o primeiro vio de originalidade desta idia, que, como se devem lembrar
  todos, foi iniciada na assemblia provincial, h anos, pelo Sr. Dr. Macedo,
  todavia o mrito da execuo  tambm um mrito, e eu, nos meus princpios de
  inteira justia, no lhe negarei.

A exposio no se
  abre completa, por falta de tempo; muitos objetos chegados e por chegar esperam
  ainda um lugar nessa primeira e grande talage das nossas foras agrcolas, industriais e artsticas.

 Do Par temos
  ainda as belas madeiras e os magnficos produtos naturais, que fazem daquela
  provncia uma das primeiras do imprio. De Minas h ainda que expor e, como desta, de outras.

 O exemplo do
  governo, ao que parece, ser fecundo. J
  em Minas Gerais
    se
  havia feito em setembro uma exposio industrial, que apresentou os melhores
  resultados. O paquete do norte nos trouxe a notcia de que na Bahia se
  organizara uma sociedade, com os fins de promover a cada ano uma exposio
  provincial.

Ainda bem que por
  toda parte vai ganhando terreno esta bela usana, que  uma verdadeira fora de
  progresso e de civilizao.

Merc de Deus, no
   capacidade que nos falta; talvez alguma indolncia e certamente a mania de
  preferir o estrangeiro, eis o que at hoje tem servido de obstculo ao
  desenvolvimento do nosso gnio industrial. E pode-se diz-lo, no  uma simples
  falta,  um pecado ter um pas to opulento e desperdiar os dons que ele nos
  oferece, sem nos prepararmos para essa existncia pacfica de trabalho que o
  futuro prepara s naes.

Poupo ao leitor uma
  dissertao que tinha muito lugar agora sobre essa existncia, que  o sonho
  dourado dos filsofos verdadeiramente amigos da humanidade.

Quero antes voltar
  folha, e convidar o leitor a acompanhar-me na dor que,  sua classe
  particularmente, e ao pas em geral, acaba de causar a morte de um distinto
  militar - o general Pereira Pinto.

H uma coisa de
  particular e de tocante nos passamentos como este; quando um companheiro de
  perigos, com quem se correram os azares da fortuna da guerra, deixa o campo
  para refugiar-se na morte, a dor dos membros dessa classe tem alguma coisa de
  mais profundo, e infunde maior emoo nos nimos.  simples: a comunho do
  perigo, a partilha dos revezes, ligam mais
  profundamente os homens, e afluem mais intimamente as almas.

A classe militar
  perdeu um membro valente; chora-o por isso; e, com ela, o pas de quem foi um
  honrado servidor.

................................................................................................................................................................................

Esta linha de
  pontinhos indica que vou passar a assuntos de outro gnero, para os quais no
  achei uma transio capaz.

A franqueza no
  ser das minhas menores virtudes.

Fui ao Ginsio ver o
  drama do Dr. Varejo, A Resignao. Bem escrito, contendo lances
  dramticos de efeito, esta composio est no caso de merecer o aplauso dos que
  sinceramente apreciam o desenvolvimento literrio do pas, naquela
  especialidade.

H incerteza e
  incorreo nos traos das suas personagens, pode-se mesmo dizer que elas pela
  maior parte esto apenas esboadas; mas este  o resultado legtimo das
  propores acanhadas que o autor deu ao seu drama, e descorado das partes
  ressente-se do campo estreito em que aprove ao poeta fechar-se.

Aconteceu com a Resignao o contrrio do que se deu com a poca. Nesta, a ao est rarefeita,
  diluda nos cinco atos em que o autor a dividiu; na Resignao, a ao
  aperta-se, acanha-se, concentra-se.

Mas, se h pontos
  vulnerveis na pea, h tambm belezas dignas de apreo. Do autor da poca e da Resignao podemos, portanto, esperar composies, em que,
  desaparecidos os senes dos seus primeiros ensaios, se reproduzam e porventura
  centupliquem as qualidades superiores que lhe serviram de valioso diploma ao
  entrar na literatura dramtica.

A companhia
  francesa deu-nos no Lrico a pera de Boieldieu
  La Dame Blanche
  , com uma
  execuo que excedeu a expectativa dos diletantes. Mme Marti e Mr. Emon foram os primeiros entre todos os artistas. Mme Marti  sempre a artista elegante e gentil cuja
  presena enche a cena de vida e de animao. Ainda desta vez obteve aplausos
  merecidos. Mr. Emon conseguiu, por seu talento
  reconhecido, dar-nos um tipo completo no rendeiro Dikson. Na assinatura que vai comear daquela companhia temos de apreciar mais outras
  belas partituras do melhor repertrio.

Estou no captulo
  dos teatros; cabe mencionar aqui a nomeao de uma comisso que o governo acaba
  de fazer para examinar o contrato com o teatro subvencionado, e dar a sua
  opinio sobre a celebrao de um que encaminhe o teatro a melhoramentos mais
  reais.

 Essa
  comisso, composta dos Srs. conselheiros Jos de Alencar e Drs. Macedo e Joo
  Cardoso de Menezes e Souza, acham-se com a iniciativa de uma verdadeira
  organizao teatral. Os seus membros dispem de talento e conhecimentos
  prprios  bem de completar um trabalho desta ordem.

 Fora intil
  apontar aqui os ttulos do Dr. Macedo, a pena j vigorosa, j faceta, que tanto
  tem enriquecido o teatro, e o escritor dos mais populares da literatura
  nacional; os do Sr. Conselheiro Jos de Alencar,
  romancista e dramaturgo elegante; e os do Sr. Dr. Joo Cardoso, poeta mavioso e
  prosador correto. O teatro  uma coisa sria, carece de muito trabalho e de
  muita constncia. Em uma terra onde tudo est por fazer, no seria teatro,
  cpia continuada da sociedade, que estaria mais adiantado. A este respeito, no
  nos iludamos,  preciso trabalhar inteligente e conscientemente.

 Aproveitem os
  esforos j tentados e construa-se um edifcio slido e duradouro.

 Antes de
  pingar o ponto final, permita-me o leitor que eu retifique um erro que me
  escapou nos comentrios ltimos. Quando falei de um personagem que preferia a
  cincia dos selvagens  cincia das academias, o que prova bem que lhe assiste
  o direito de ser colocado entre os primeiros, disse - diretor da Academia de
  Medicina - em vez de - diretor da Faculdade.

 E, j que
  falo no diretor, lembra-me esse trecho de um discurso de S.Excia., em que a palavra cloaca era repetida, sem embargo
  da presena das augustas personagens, em sesso pblica e solene. Nem ao menos,
  o sexo delicado, que ali tinha um rgio representante, mereceu de S. Excia. uma considerao de
  deferncia e ateno.

 Se o bom do
  homem  retrgrado em cincia, em cortesia mostra uma simplicidade rstica,
  digna dos primeiros tempos da humanidade.

 E  senador,
  e  diretor de uma Faculdade!

O la science et la pairie vont-elles se nicher !

Gil.

16 DE DEZEMBRO DE
  1861.

A lei
  das condecoraes - O sr. Ministro
  do Imprio - O fim do decreto - Escola-normal de teatro - Nada de concorrncia
  - Os fins do teatro - Sufrgios pelo rei de Portugal.

Dizia um filsofo
  antigo que as leis eram as coroas das cidades.

 Para
  caracteriz-las assim deve supor-se que leis sejam boas e srias. As leis ms
  ou burlescas no podem ser contadas no nmero das que to pitorescamente
  designa o pensador a que me refiro.

 A folha
  oficial deu a pblico um decreto que rene as duas condies: de abusivo e de
  ridculo;  o decreto que regula a concesso de condecoraes. A imprensa
  impugnou o ato governamental, e  folha oficial foram ter algumas respostas,
  com que se procurou tornar a coisa sria.

 Mas se a
  coisa era burlesca e m, m e burlesca ficou; as interpretaes dos sacerdotes
  no trouxeram outra convico ao esprito do vulgo. Devo todavia notar que a m impresso produzida pelo regulamento das
  condecoraes diminuiria se tivesse atendido para o nome do ministro que firmou
  o decreto.

Benza-o Deus, o Sr. Ministro do Imprio no , nunca foi, e muito menos
  espera ser uma guia. Adeja na sua esfera comum, tem por horizonte a beira dos
  telhados da sua secretria, e deixa as nuvens e os espaos largos a quem
  envergar asas de maiores dimenses que as suas.

Isto no gabinete,
  isto na tribuna; o homem da palavra luta de mediocridade com o homem da pena,
  e, fora  dizer, quando este parece que suplanta aquele, aquele vence a este,
  para de novo ser vencido.

Por isso h de dar
  gua pela barba a quem descobrir qual dos dois  mais vulgar.

Se tivesse atendido
  a esta circunstncia, o pasmo no teria sido to grande, porque est escrito
  que o fruto participa das qualidades da rvore, e o tal decreto devia doer mais
  ao Sr. Ministro do que se pensa. S. Excia. levou seu tempo a trabalhar
  naquela obra, no comunicou a ningum a novidade que ia dar, pelo menos no
  houve esse zum-zum que precede, as mais das vezes,
  aos atos do poder, e um belo dia disse consigo: - "Vou causar uma surpresa a
  estes queridos fluminenses: amanh pensam ler na folha oficial uma cataplasma
  rida do expediente dos meus colegas, e eu dou-lhes este acepipe preparado por
  minhas bentas mos". E publicou-se o regulamento.

 Ora, cuidar que
  depois da sua obra a musa da histria o receberia nos braos, e ver que ele
  teve o mais triste dos acolhimentos, o do ridculo,  um transe duro de sofrer,
  e maior do que se houvesse ligado pouca importncia ao resultado das suas
  lucubraes.

Cada ministro gosta
  de deixar entre outros trabalhos, um que especifique o seu nome no catlogo dos
  administradores.

A matria das
  condecoraes seduziu o Sr. Ministro do Imprio ;
  datavam de longe os decretos que a regulavam, o Sr. Ministro quis reunir esses retalhos
  para fazer o seu manto de glria, e organizou um regulamento geral.

O primeiro artigo
  desse regulamento espantou a todos, porque exigiu 20 anos de servios no
  remunerados, para concesso de uma condecorao, era murar a grande porta das
  graas, e fazia admirar que o governo com as prprias mos quebrasse uma das
  suas boas armas eleitorais.

 O art. 9.
  restabeleceu os nimos; muravam a grande porta,  verdade, mas abriam um largo
  corredor, ou antes, reconheciam e legalizavam essa via de comunicao aberta
  pelo abuso.

O governo quis ser
  esperto, mas o pblico no se deixou cair no lao armado  sua boa f.

No v agora o
  leitor pensar que me pronuncio assim porque considero a concesso de graas o
  sumo bem que pode desejar toda a ambio do corao humano!Deus me absolva se
  peco, mas eu no penso assim. O que, porm, cumpre dizer em honra da verdade, 
  que o decreto de 7 de dezembro  uma lei manca e
  burlesca.

Entre os atos de
  nulo valor do governo ocupa esse um lugar distinto.

 Oxal que ande
  ele melhor avisado na organizao de uma escola normal de teatro, sobre o que
  est uma comisso encarregada de dar o seu parecer.

Espera-se com
  nsia, e pela minha parte, com f, o resultado do estudo da comisso, porque a
  matria apesar de importante no foi at aqui estudada.

Entretanto, antes
  que tenha aparecido o trabalho oficial, j uma opinio se manifestou nas
  colunas do "Correio Mercantil".

Essa
  opinio sinto diz-la, devia ser a ltima lembrada, se merecesse ser lembrada.

A doutrina liberal
  de concorrncia aplicada  espcie prejudica o ponto essencial da questo, e
  que se tem em vista atingir.

Criar no teatro uma
  escola de arte, de lngua e de civilizao, no  obra de concorrncia, no pode
  estar sujeita a essa mil eventualidades que tm tornado, entre ns, o teatro
  uma coisa difcil e a arte uma profisso incerta.

 na ao
  governamental, nas garantias oferecidas pelo poder, na sua investigao
  imediata, que existem as probabilidades de uma criao verdadeiramente sria e
  seriamente verdadeira.

 Uma
  legislao emanada da autoridade, a reunio dos melhores artistas, a escolha
  dos mestres de ensino, a criao de escolas elementares de ensino, onde se
  aprenda arte e lngua, duas coisas muitas vezes ausentes de nossas cenas, a boa
  remunerao ao trabalho dos compositores, um jri de julgamento de peas, em
  boas bases, ficando extinto o conservatrio, tudo isto sem descuidar-se na
  flutuao das receitas, tais so os fundamentos, no de um teatro-escola, mas
  do teatro, na sua acepo mais abstrata.

 Vir o
  estmulo, os outros aprendero no primeiro, e arte torna-se um fato, uma coisa
  real.

Mas deixar  luta
  individual a criao de uma escola nas condies exigidas,
    equivale a no criar coisa nenhuma. E se alguma coisa se fizer h de ser
  em demasia lento.

No, o teatro no 
  uma indstria, como diz a opinio a que me refiro; no nivelemos assim as
  idias e as mercadorias.

O teatro no  um
  bazar, e se , que estranhas mercadorias so estas,
  chamadas Othelo, Athalia,
    Tartufo, Marion Delorme e Frei Luiz de Souza, e
  como devem soar mal, nos centros comerciais, os nomes de Shakespeare,
    Racine, Molire, Victor Hugo e Almeida Garrett.

No  o teatro uma
  escola de moral? No  o palco um plpito?

 Diz Victor
  Hugo no prefcio da Lucrecia Borgia: "O
  teatro  uma tribuna, o teatro  um plpito. O drama, sem sair dos limites
  imparciais da arte, tem uma misso nacional, uma misso social e uma misso
  humana. Tambm o poeta tem cargo de almas. Cumpre que o povo no saia do teatro
  sem levar consigo alguma moralidade austera e profunda. A arte s, a arte pura,
  a arte propriamente dita, no exige tudo isso do poeta; mas no teatro no basta preencher as condies da arte."

Estou certo de que
  a comisso e o governo no entregaro  concorrncia a criao de uma escola
  normal de teatro. Isto no pressuposto de que a nomeao da comisso no foi uma
  fantasia do autor do decreto das graas.

 Dito isto,
  passemos a outras coisas. Mas o qu?Depois da minha ltima revista, nada se deu
  que merea uma meno ou um comentrio.

O que de mais
  notvel sei,  que se continua a celebrar missas e ofcios fnebres pelo rei D.
  Pedro V; na sexta-feira foi o do cnsul de Portugal, hoje  o da sociedade
  Portuguesa de Beneficncia Dezesseis de Setembro, o da Dezoito de
    Julho, o da Igualdade e Beneficncia, e de uma comisso da Prainha.

Folgo por ver que
  nestas homenagens prestadas  majestade morta, fala menos o nimo dos vassalos
  que o corao dos amigos e admiradores das virtudes daquele ilustre soberano

24 DE DEZEMBRO DE
  1861.

Paula Brito -
  Questo diplomtica - Palindia do ministrio
    -O Sr.Ministro do Imprio e a "Gazeta da Tarde" - Os homens srios; reentrada da
  artista Gabriela - Partida da companhia francesa - o Sr. Macedo Soares -
  Colgio da Imaculada Conceio.

Mais um! Este ano
  h de ser contado como um obiturio ilustre, onde todos, o amigo e o cidado, podem ver inscritos mais de um nome caro ao corao e ao
  esprito.

Longa  a lista dos
  que no espao desses doze meses que esto a expirar, tem cado ao abrao
  tremendo daquela leviana, que no distingue os amantes, como diz o poeta.

Agora  um homem
  que, pelas suas virtudes sociais e polticas, por sua inteligncia e amor ao
  trabalho, havia conseguido a estima geral.

 Comeou como
  impressor, como impressor morreu. Nesta modesta posio tinha em roda de si
  todas as simpatias.

Paula Brito foi um
  exemplo raro e bom. Tinha f nas suas crenas polticas, acreditava
  sinceramente nos resultados da aplicao delas; tolerante, no fazia injustia
  aos seus adversrios; sincero, nunca transigiu com eles.

 Era tambm amigo, era, sobretudo, amigo.

Amava a mocidade,
  porque sabia que ela  a esperana da ptria, e, porque a amava estendia-lhe
  quanto podia a sua proteo.

Em vez de morrer,
  deixando uma fortuna, que o podia, morreu pobre como vivera graas ao largo
  emprego que dava s suas rendas e ao sentimento generoso que o levava na
  diviso do que auferia do seu trabalho.

 Nestes tempos
  de egosmo e clculo, deve-se chorar a perda de homens que, como Paula Brito,
  sobressaem na massa comum dos homens.

........................................................

Nas colunas do "Jornal
  do Comrcio" continuam a aparecer os contendores da questo diplomtica. "Scoevola", depois de ter feito sacrifcio da mo
  direita diante de Porsena, anda mostrando que  capaz
  ainda de outras coisas muito mais asseadas.

O que  divertido  ver perturbados o remanso e a paz da igreja de Elvas. No dize tu, direi eu, declaraes de alta
  importncia vieram  tona do debate, o que prova desconfianas, e eis que um
  novo personagem, com o seu prprio nome, aparece na
  discusso, a tomar contas aos indiscretos.

No entra nas
  condies exguas deste escrito, nem que entrasse, faria uma mais larga
  apreciao do debate a que aludo. Menciono apenas como obrigao, e para
  prevenir o leitor menos perspicaz de que a coisa vai tomar um aspecto mais
  importante do que at agora.

De poltica  isso
  o que oferece algum interesse; no mais, mar morto e calmaria podre.

No deixarei de
  consignar mais uma palindia do ministrio, que pode
  chamar-se bem o ministrio das palindias. J o Sr.
  Manuel Felizardo cantou uma na questo dos correios. Suprimiu umas tantas agncias, e depois foi restabelecendo-as, j se sabe, com o aplauso
  dos beneficiados.

Dizia no sei que
  homem de Estado que  de boa poltica fazer o mal, porque depois toda a
  concesso  considerada um bem de valor real. Este preceito no foi mal compreendido
  pelo atual chefe da nao francesa, que depois de arrecadar todas as liberdades
  pblicas, vai agora concedendo, hoje uma largueza  imprensa, amanh, outra ao
  parlamento, e depois outra no sentido da autonomia provincial, e a cada pedao
  que larga  nao faminta, esta aceita agradecida e tece louvores ao seu
  protetor.

Tambm por c se d
  o mesmo. Preceito to salutar no podia deixar de ser observado neste pas.
  Semelhante  dos correios, houve ultimamente uma do Sr. Ministro da Justia, que acaba de restabelecer por um aviso as prises que
  competem aos oficiais da guarda nacional.

Como sempre
  acontece, a reparao foi considerada um benefcio
  extremo; a guarda nacional agradeceu ao ministrio o seu ato, e choveram os
  louvores.

 Isto provaria
  contra o pas, se no fosse fato observado em outros pases. Por conhecerem da
  eficcia do sistema,  que os polticos o empregam; lembremo-nos de que, j na
  Antigidade, Scrates sentia prazer em comear a perna depois do arrocho.

A este respeito, os
  nossos ministros so de boa massa.

O Sr. Ministro do Imprio, esse, depois do longo e laborioso
  trabalho da parturio moral, relativamente ao regulamento das condecoraes,
  ficou abatido; a crise foi tremenda; as conseqncias no podiam ser
  menos.Acha-se em convalescena; o pequeno est bom.

 A propsito, lembro-me de uma gazeta que se publica
  nesta corte, ao bater das trindades, e que teve a bondade de ocupar-se de
  passagem com a minha humildade pessoa foi a propsito da apreciao dos meus
  ltimos Comentrios acerca do Sr. Ministro do
  Imprio.

Acha ela que o Sr. Ministro do Imprio, longe de ser vulgar na tribuna e no
  gabinete,  uma figura eminentssima tanto neste como naquela ; acredite quem
  quiser na sinceridade da gazeta de lusco-fusco, eu no; sei bem que ela..ia
  escrevendo um verbo que ainda no adquiriu direito de cidade ; direi por outro
  modo : sei que ela faz a corte ao Sr. ministro. Est no seu direito; mas agora,
  querer encaracolar os cabelos de S. Excia.  minha custa, isto  que  um pouco duro.

Passemos leitor, ao
  teatro.

O Ginsio
  representou domingo um drama do repertrio portugus, Os homens srios, de
  Ernesto Biester, para reentrada da Sra. Gabriela da
  Cunha.

A reentrada de uma artista
  como a Sra. Gabriela no  um fato comum e sem valor; ocorre-me, portanto, o
  dever de mencion-lo nesta revista.

O drama de Ernesto Biester  para mim uma composio de bom quilate. Bem
  travado e bem deduzido, interessa, comove, oferece lances bem preparados e
  cenas traadas por mo hbil. Dos dramas que conheo deste autor  este o que
  se me afigura mais completo.

Desapareceram nos Homens
  srios os defeitos que eu sempre achei no Rafael. H na pea de que
  trato mais movimento que nesta ltima, e menos expanso da fibra lrica, que
  tornava o Rafael uma elegia, bem escrita  verdade, mas uma elegia, que
  no pode ser um drama.

No menos pelo
  escritor se recomendam Os homens srios; o estilo brilhante e conciso, o
  dilogo travado sem esforo, o epigrama fino, a frase sentimental, a expresso
  sentenciosa, cada coisa no seu lugar tudo a propsito, tais e outras belezas
  so atestadas que Ernesto Biester d de seu talento,
  e que no podem ser recusados por falta de reconhecimento legal.

 O papel de Amlia,
  a protagonista,  um belo, mas difcil papel: a Sra. Gabriela deu-lhe esse tom
  dramtico que caracteriza as suas melhores criaes.

Os que confiavam no
  seu talento (e no h duas opinies a respeito) no se admiraram; aplaudiram e
  sabiam que haviam de aplaudir.

 No esqueceu
  o menor toque exigido pelo original do poeta; no 2. e 4. atos,
  principalmente, esteve brilhante.

Um poeta dizia que
  eram flores que a artista deitava  sua antiga platia. Flores por flores,
  tambm o pblico as teve, e muitas para pagar as que lhe deu.

Se eu fizesse
  crtica de teatros, entraria em apreciao mais detida do desempenho. Mas no 
  assim. S me cabe apontar muito de leve os fatos. O Sr. Joaquim Augusto
  acompanhou bem a Sra. Gabriela, no papel de Luiz Travassos, marido brutal no
  interior, e delicado e solcito
  em pblico. Estas
  duas figuras foram as principais. No papel da condessa a Sra. M. Fernanda fez
  progressos.

Devia responder
  agora aos dois artigos que, a respeito do Teatro, a concorrncia e o governo,
  publicaram no Correio Mercantil o Sr. Macedo Soares  o verdadeiro nome
  das iniciais M. . S. , com
  que saiu o primeiro artigo.

Permitir o meu
  ilustrado e talentoso contendor que eu fuja ao debate; por convico de erro,
  no; por medo, fora possvel, se eu atendesse s a minha inferioridade pessoal,
  e no  considerao de que estou no terreno da verdade.

Mas a que
  chegaremos ns? O Sr. Macedo Soares, nos seus dois ltimos artigos, no pde,
  apesar do seu talento e da sua ilustrao, demonstrar que o teatro no escapa 
  lei econmica, que rege as corporaes industriais; eu continuo convencido do
  contrrio. E pelas condies deste escrito no me  dado estabelecer uma
  discusso sobre a matria; com as minhas espaadas aparies o debate seria
  fastidioso.

Tenho uma
  observao a fazer: quando eu disse que a opinio do Sr. Macedo Soares devia
    ser a ltima lembrada, se merecesse ser lembrada, no quis de modo algum
  exprimir um desdm, que tomaria as propores do ridculo, partindo de mim para
  com o Sr. Macedo Soares.

 Termino
  mencionando os belos resultados obtidos no colgio da Imaculada Conceio, do
  sexo feminino,
  em
    Botafogo. As
  meninas mostraram, perante o numeroso concurso
  que assistiu aos exames, um grande adiantamento mesmo raro, entre ns.

Folgo sempre de
  mencionar destas conquistas pacficas da inteligncia; so elas,
  hoje, os nicos proveitos para o presente e para futuro.

Fazer mes de
  famlia  encargo difcil; por isso tambm, quando h sucesso, compensam-se os
  espritos.

29 DE DEZEMBRO DE
  1861.

Crditos
  extraordinrios - Scoevola - O Sr. Penna em misso - Cinna - O
  ano novo.

Houve ontem muito
  quem se admirasse ao ler, na folha oficial, o decreto abrindo um crdito
  suplementar de setecentos e tantos contos ao Ministrio da Fazenda.

Isso prova que a
  boa f patriarcal ainda conta neste mundo, raros e preciosos exemplos.

Admirar-se de que,
  faam favor?  coisa de admirar que o governo brasileiro abra crditos
  extraordinrios?

Deu-se,  verdade,
  um fato. Fould, o ministro das finanas de Luiz
  Napoleo, acabava de condenar esse sistema de crditos suplementares, achando
  neles a origem da crise por que passa atualmente a Frana.

Este fato fez com
  que o imperador Napoleo declinasse de si a prerrogativa que lhe havia
  concedido o ato de 1851.

A imprensa
  fluminense, apreciando essas coisas, estranhou com razo que um pas
  constitucional, como o nosso, andasse inteiramente ao avesso do que se acabava
  de praticar em um pas onde a liberdade no existe.

O tom moderno da
  apreciando da imprensa no pde disfarar o contraste que resultava do
  paralelo.

O governo devia
  sentir-se tocado, pelo acleo da conscincia, e ver que, de fato, a situao
  desgraada a que chegamos procedia tambm das despesas inteis a que havia ocorrido
  com os crditos suplementares.

Se a causa da
  doena era a mesma, idntico devia ser o remdio.

 Contava-se,
  portanto, que o governo ia estudar mais profundamente a situao e as
  necessidades, e que no apelaria para os crditos suplementares, to de fresco
  condenados, por um governo que nada tem de simptico s constituies, e que
  procedeu como no procedem aos governos constitucionais.

Contava-se mal. E a
  prova  que, ou por convico da necessidade do crdito ou por pirraa (expresso novissimamente introduzida no vocabulrio poltico
  pelo Sr.Sergio), apareceu ontem, na folha oficial, um
  decreto abrindo um crdito extraordinrio de setecentos contos.

Quereria o governo
  com o seu ato contrariar o memorial Fould,
  fazendo crer que nos crditos suplementares  que est o ideal financeiro, e
  que s neles repousam a paz pblica e a felicidade nacional?

Aqui ho de me
  perdoar. De um ato do nosso governo s a China poder tirar lio. No 
  desprezo pelo que  nosso no  desdm pelo meu pas. O pas real, esse  bom,
  revela os melhores instintos; mas o pas oficial, esse  caricato e burlesco. A
  stira de Swift nas suas engenhosas
  viagens cabe-nos perfeitamente. No que diz respeito  poltica, nada temos a
  invejar ao reino de Liliput.

Scoevola, que  hoje o
  compadre indiscreto, anda fazendo revelaes dignas de toda a considerao do
  pas.

 preciso notar que
  este valente romano mora modestamente nos "A pedidos" j sem aquela gala
  do entrelinhado, que lhe dava ares de filho direto do Olimpo.

Com esta aparncia
  continua ele a protestar que as suas opinies no partem de origem oficial.

A revelao de
  ontem  de peso.

Trata-se de uma
  misso diplomtica, confiada em segredo, entre outras incumbncias, ao Sr. conselheiro Penna, que partiu para Mato-Grosso,
  provncia que vai presidir.

A misso  conversar com o presidente Lopez, e tambm tocar em Montevidu, Buenos Aires e Rosrio, para
  refrescar e ver terra.

O Scoevola pergunta se  verdade isso. A
  filiao ntima que o heri romano tem com os pter-famlias d o direito de responder afirmativamente.

Aqui temos,
  portanto, o Sr. Conselheiro Penna estreado na
  diplomacia, bossa que at aqui no se lhe havia descoberto, e que o governo, que
   capaz de descobrir palpitaes em um defunto, acaba de apresentar aos olhos
  do pas.

H certas fortunas
  polticas de nossa terra que no tm explicao. A do Sr. Conselheiro Penna  uma delas.

S. Excia. pertence a parte medocre
  do senado, onde tem mostrado que  um dos poucos capazes de desbancar o Sr.
  Ministro do Imprio, e tirar-lhe as honras de vulgaridade, a que alis tem um
  ttulo incontestvel, e incontestado, exceo feita do Correio da Tarde e
  da conscincia de S. Excia.

Homem de mincias e
  observaes limitadas sobre um ou outro ponto nfimo, S. Ex. estar to bem em
  uma secretaria quanto se acha mal na grave curul de
  pai de ptria.

No senado, sempre
  esteve alistado na milcia que tem por ofcio esmerilhar a convenincia da
  expresso, o cabimento da vrgula, a necessidade do perodo. As naturalizaes
  de estrangeiros, a criao de parquias, a concesso de loterias, eram o seu
  forte. A apreciao moral das leis, o exame filosfico dos atos do parlamento,
  a avaliao poltica dos atos do governo, nada disso existiu nunca para S. Excia.

Entretanto, a fada
  poltica do Sr. Penna tem sido constante em proteg-lo , e como que vive da mediocridade do afilhado.

Conta Hoffmann de um ano que, protegido por uma fada que se compadecera dele, elevou-se s
  mais altas posies do Estado.

Cinabre, era seu nome,
  recebeu de sua madrinha a faculdade de fazer passar as suas inconvenincias e
  defeitos fsicos e morais para os outros, recebendo dos outros, todas as boas
  qualidades, j do corpo, j do esprito. Graas a esta troca obtinha tudo e no
  havia concorrncia com ele.

No creio que a
  fortuna do presidente de Mato Grosso provenha deste milagre; mas, a julgar
  pelas aparncias, faz crer que  assim.

Seja como seja, as
  palavras de Scoevola merecem toda a
  confiana, e  certo que temos um diplomata de mais.

Este incidente da
  conversa com o presidente Lopez tira-me o prazer de ocupar-me um pouco com o Scoevola, a respeito do interesse que S. S.
  est tomando pela sorte das repblicas vizinhas, tornando-se at procurador das
  Altezas em disponibilidade.

Outros trataro
  melhor do que eu.

Passemos a outra
  coisa.

Representou-se
  quinta-feira, no teatro de So Pedro, a tragdia Cinna,
  de Corneille.

A traduo  do Sr.
  Dr. Antonio Jos de Arajo. Pareceu-me, tanto quanto pude ouvir na primeira
  representao, um trabalho cuidado e feliz. E, bem que o emprego de versos
  agudos traga algumas vezes a desarmonia e o enfraquecimento  poesia, h
  trechos de um completo acabado, j na harmonia potica, j na fidelidade da
  traduo.

 O Sr. Joo
  Caetano, no desempenho do papel de Augusto, deu mostra dos melhores dias
  do seu talento. O seu gesto foi sbrio e adequado, a sua declamao justa e
  grave.

Esta justeza da
  declamao no teve a Sra. Ludovina no papel de Emlia. Se acompanhasse com a declamao o seu gesto, sempre nobre e acadmico, teria
  satisfeito s exigncias do papel.

Os outros papis
  couberam a diversos artistas; ao sair do teatro, depois da representao,
  trouxe um pesar na alma: lamentei que Corneille no se tivesse conservado a advogar na sua provncia, sem se lembrar de
  escrever tragdias.

O porqu, direi
  depois.

No mesmo teatro
  representa-se hoje um drama novo de autor nacional, intitulado Os grandes da
  poca ou A febre eleitoral.

Devo despedir-me
  dos leitores at para o ano. O de 1861 est a retirar-se, e o de 1862 bate 
  porta.

Como todo ano novo, este antolha-se rico de
  esperanas, com uma cornucpia inesgotvel de felicidades.

Como todo o ano
  velho, o de 1861 desaparece coberto de maldies.

Poupo a humanidade
  umas apreciaes satricas que vinham muitas a propsito nesta ocasio.

Quero antes
  acompanhar os desejos gerais, e crer que o ano novo h de ser melhor que o de
  1861, e a f que acharei razo para diz-lo.

Em sinal de
  regozijo pela chegada do ano novo, aconselho aos pais, aos maridos, e. . . aos namorados, um passeio pela rua do Ouvidor, onde
  encontraro nos mostradores dos armazns com que presentear as respectivas
  metades de suas almas.

No incorram
  naquele crime, crime sim, do avarento, de que reza este epitfio:

Ci-gist, sous ce marbre blanc

Le plus avare homme de Rennes

Que trpassa le jour de l'an

De peur de donner des trennes.

Comprar por um presente,
  neste dia especial, o silncio dos satirizadores deste mundo, creia-me,  pais de famlia,  a mais barata das permutas deste
  mundo.

Entretanto, a uns e
  a outros, presenteados e presenteadores, desejo de corao felicssimas
  estrias e vida, para nos vermos no fim do que vai entrar, eu aqui, a comentar a semana, e vs, leitores, a dar-me um pouco da
  vossa ateno.

7 DE JANEIRO DE 1862.

O que
   o pblico -- Guerra da Inglaterra e Estados Unidos -- O publicista dos comunicados -- A pedra fundamental e o "Correio da Tarde" -- O Sr. Candido
  Borges.

Bem se podia
  comparar o pblico quela serpente -- deus dos antigos mexicanos -- que, depois
  de devorar um alentado mamfero, prostra-se at que a ao digestiva lhe tenha
  esvaziado o estmago; ento o flagelo das matas corre em busca de novo repasto,
  emborca novo animal pela garganta abaixo e cai em nova e profunda modorra de
  digesto.

Esquisita que
  parea a comparao, o pblico  assim. Precisa de uma novidade e de uma grande
  novidade; quando lhe aparece alguma, digere-a com placidez e calma, at que
  desfeita ela, outra lhe fica ao alcance e lhe satisfaz a necessidade imperiosa.

Como o rptil
  monstro de que falei, o pblico no se contenta com os
  manjares simples e as quantidades exguas; -lhe preciso bom e farto
  mantimento. Nada de notvel havia ocorrido ultimamente que satisfizesse esta boa coletiva que tudo devora. Os comunicantes do Jornal do Comrcio  que faziam as despesas da curiosidade pblica; mas facilmente se compreende
  quanto isso era mesquinho para ocorrer s necessidades daquele estmago voraz.

O paquete trouxe
  com que dar que fazer ao esprito pblico: a notcia de uma guerra iminente,
  entre duas grandes potncias, caiu como uma bomba no
  meio das nossas inocentes e ligeiras preocupaes.

Era uma notcia
  cheia, como se quer: uma guerra homrica que far acordar os trites adormecidos nas suas cavernas seculares, desde os
  ltimos poetas das Arcdias. Nem mais nem menos. Dois
  rivais em face; dois drages marinhos, que, depois de haverem refeito as
  foras, cada um na sua regio, se encontram afinal, no meio do oceano, para uma
  luta de morte. H assunto para inspirar as liras dos Homeros.

Compreende-se bem
  que, com uma nova destas, o pblico deixaria de parte
  os ligeiros entremets que a nossa
  poltica lhe oferecia. Haver guerra? No haver guerra? Eis a preocupao
  geral; as conseqncias da luta, a gravidade dos fatos, o exame do direito,
  tudo isso d que fazer ao esprito pblico.

Parece que os arautos
  polticos da parte no oficial do Jornal do Comrcio compreenderam bem a
  situao, porque, desde ento, nenhum mais apareceu no posto do costume.

Um dia antes Scoevola havia comeado uma srie de artigos
  sobre o casamento da princesa imperial, prometendo discorrer para diante,
  acerca da convenincia de diversos partidos de casamento, que possam oferecer 
  herdeira da coroa brasileira. At agora, nada.

Pois  pena! Estava
  divertido com os seus protestos de queimar a mo, e com as mesuras repetidas
  que fazia diante do augusto assunto de que tratava. A mim, se me afigurou ver o
  cabealho de um Manual de civilidade cortes.

Valha-os Deus!
  Nisto primam eles, e a f que no  mrito pequeno. J no  pouco saber um
  homem como se h de haver nestas contingncias e cortesias obrigadas. Pelo
  menos no se corre o risco daquele fidalgo da sociedade beata de D. Joo V, de
  que fala um romance biogrfico, o qual perdera muito conceito dos seus, por ter
  dado a toalha, em vez das galhetas, ao oficiante a quem servia de
  aclito.

Esperemos,
  entretanto, pelo final do discurso de Scoevola,
  que, como o de Tarqunio, na comdia portuguesa, - Roma exige e tem de ser litografado.

Efetuou-se no dia 1.
  o lanamento da pedra fundamental no baseamento da esttua do primeiro
  imperador. O Rocio nesse dia esteve de gala. A cerimnia correu como estava no
  programa.

As folhas desse dia
  tinham feito uma apreciao retrospectiva dos acontecimentos polticos do ano,
  cujas concluses eram muito desfavorveis ao partido poltico que mantm, h
  alguns anos, uma ordem de coisas contrria  essncia do sistema que nos
  rege.

No convinha que
  esse juzo rude, mas sincero, fosse para a caixa de cedro do pedestal, sem um
  conveniente tempero. Encarregou-se o Correio da Tarde da obra.

Apareceu como nota
  festiva no meio do coro lgubre da imprensa. Como as vtimas indianas, queria
  ser inhumado radiante de plumas e miangas. Estava
  realmente vistoso. Nada esqueceu; biografou os ministros, fez rpida
  estatstica do que h hoje de mais notvel, sem esquecer os principais
  advogados do foro.

O Correio da Tarde embalou-se na idia
  de que h de ser aquela arca santa do arcediago de Notre-Dame, capaz de revelar, depois de um cataclisma universal, a idia do mundo velho,  humanidade
  que sobre as runas deste aparecer.

Para o Correio
  da Tarde tudo neste pas vai bem, menos a oposio. Os ministros so feitos
  por um s molde que se perdeu, sendo de notar que possuem as mesmas virtudes
  que naturalmente o Correio da Tarde h de encontrar-nos que ho de
  vir.

 um paladar como
  h poucos. A posteridade o apreciar.

Cai-me agora
  debaixo dos olhos o expediente do ministrio do Imprio, publicado ontem na
  folha oficial.

Vejo ali que o
  respectivo ministro oficia ao seu colega da Fazenda, declarando que o
    conselheiro Candido Borges Monteiro, jubilado em uma das cadeiras da faculdade
    de medicina desta cidade, tem direito ao ordenado por inteiro, por ter mais de
    25 anos de servio efetivo.

Parece estranho
  isto. A que vem esta declarao? Deve-se supor que se ps dvida em fazer
  efetiva a determinao dos respectivos estatutos. No consta, porm, que o
  tesouro casse em equvoco aritmtico.

Onde est a chave
  deste enigma?

Uma declarao mais
  franca e mais sincera teria obstado a propagao de certos boatos que no fazem
  a apologia do governo.

Deus ponha longe de
  meu esprito a idia de crer em tais coisas, mas o vulgo quer os pontos nos
  ii.

No falta quem d 
  lngua e diga que o lente, a que se refere o ofcio do Sr. Ministro do Imprio, tendo sido aposentado antes da abertura das cmaras, no
  completou os 25 anos, que s se terminaram depois de fechado o parlamento.

Como no podia
  acumular os dois lugares, lente e senador,  ainda o boato que fala, julgou-se que se satisfazia o direito e a convenincia
  antecipando-se a jubilao.

V o governo quanto
  isto tem de grave? Em resumo o lente acumulou.

O boato  um ente
  invisvel e impalpvel, que fala como um homem est em toda a parte e em
  nenhuma, que ningum v onde surge, nem onde se esconde, que traz consigo a clebre lanterna dos contos arbicos, a favor da qual se
  avantaja em poder e prestgio, a tudo o que  prestigioso e poderoso.

Trate o governo de
  desfazer as suspeitas do boato, restabelecendo a verdade.

14 DE JANEIRO DE
  1862.

DIGENES
  E O CRONISTA - FALTA DE NOTCIAS -

PUBLICISTA
  CASAMENTEIRO - AINDA O SR. CANDIDO BORGES

Os atenienses riram-se
  muito um dia ao ver Digenes, um doido que vivia em um tonel, sara com uma
  lanterna na mo,  cata de um homem. Era para rir. E aquele povo no deu o
  cavaco, porque via no ato do velho filsofo com visos de desdm pelos
  contemporneos.

Rir-se-o os
  Fluminenses se me virem atravessar (perdoa-me,  Digenes!), no as ruas da
  cidade, mas os dias da semana, com uma lanterna na mo  cata de notcia?

Aqui a coisa 
  inteiramente diversa.

Acreditando que o
  leitor me procura por desfastio, no ousando pensar
  que inspiro avidez ou curiosidade, acho-me sinceramente vexado quando apareo
  de alforge vazio, e mais vazia a alma, de com que entreter os cios do leitor.

Creio que fao o
  meu efeito de um touriste ao voltar do Oriente, sem uma nota,sem um desenho, na
  sua caderneta de viagem. To impossvel parece voltar das regies do bero do
  sol, sem uma impresso, com o atravessar sete dias sem haver colhido uma
  notcia para comentar.

 Pois a ltima hiptese no  nenhuma coisa de
  admitir.

Um elegante folhetinista
  dos nossos, achando-se nas mesmas circunstncias que eu, encabeou o seu escrito hebdomadrio com esta expresso do gordo Sancho: "Diz-me o que
  semeaste, dir-te-ei o que colhers". Aproveito a lembrana , e pergunto se alguma coisa se pode colher deste terreno que se chamou - a
  semana passada, - onde nada foi semeado?

Eu podia ,  verdade, entreter o leitor com o imortal Romano da
  mo queimada, que jurou aos deuses fundir as repblicas confinantes ao sul do
  imprio em uma monarquia e d-la em presente a um prncipe da famlia imperial,
  no esquecendo de cas-lo com a Sra. D. Leopoldina.

O publicista casamenteiro no  das coisas que menos riso excitam; pelo contrrio,  divertido a mais no poder.

J declarou que no
  quer ser mordomo do novo rei, nem aspira a ser senador no Estado criado por ele
  prprio; mas j me parece generosidade de mais, isto de fazer monarquias pelo
  simples e honestssimo prazer de ver a realeza aliada  liberdade.

Sou um pouco audaz
  nas minhas investigaes , e no poucas vezes tenho
  visto que a audcia acaba muitas vezes por dar na cabea, bem que em alguns
  casos seja uma virtude preciosa.

Assim, cheguei a
  pensar que Scoevola queria tirar desta solicitude pelas augustas princesas e pelos Estados do Prata as vantagens a que visam todos aqueles que s vem
  este mundo pelo ponto de vista das armarias herldicas.

A declarao em
  contrrio de Scoevola em seu ltimo escrito avulta tanto como um caracol. Scoevola, pelos modos, pertence a
  certo partido poltico que no tem sacrificado muito  sinceridade, e tem como
  regra de diplomata que a palavra foi dada ao homem para esconder os conceitos e
  as convices.

Ter ele lido no
  futuro que a forma monrquica h de vir a estabelecer-se no Rio da Prata, e
  querer desde j mostrar-se o propugnador extremoso dessa idia, que considera
  a nica salvadora daquelas repblicas? A sua vaidade far-lhe- ver-se desde j
  vazado em bronze a figurar no meio de uma praa do novo reino?

Este meio de
  perpetuidade alcana longe e alto demais para sup-lo no esprito de Scoevola.

Opto pela primeira
  impresso.

J o governo fez
  ver, em comunicado, ao publicista oficioso quanto tm
  de inconvenientes os seus escritos a respeito das repblicas do sul. Realmente
  no me parece patriotismo de boa ndole a enunciao de projetos que significam
  apenas desejos muito individuais, e que no respondem  opinio feita do pas.

Por no poucas
  vezes, o imprio tem encontrado da parte daqueles povos agresses relativamente
   poltica usada com eles, e  verdade inconcussa nos Estados do Sul que o
  imprio tem pretenso de conquist-los;

Ora a conquista
  digna deste sculo de mtuo respeito entre os povos  aquela que resulta de
  certas identidades e afinidades to flagrantes que a diviso se torna uma
  anomalia e a unio uma necessidade de vida. Em tal caso no  conquista, 
  reparao.

Se fosse este o
  caso do imprio e das repblicas do sul, ao tempo caberia o trabalho da
  realizao.

No  de um
  patriota sincero, como se apregoa aquele, caluniar as intenes de seu pas
  como estrangeiro, deixando entrever, ou antes, falando resolutamente em uma
  fundao dinstica que a ningum passou ainda pela cabea, suponho eu.

Por outro lado, no
  me parece muito bonito tomar por pretexto de invases pela terra alheia as
  augustas princesas, cujos cuidados versam ainda entre os estudos prprios de
  sua educao e as distraes prprias da sua idade.

Scoevola tem a boca doce.
  Pertence a um partido que no cochila quando quer fazer triunfar (sabe o pas
  por que meios) uma convenincia; mas ilude-se quando
  supe que a opinio argentina h de fazer sacrifcio da sua independncia. Os Vera-Cruzes so raros.

O Sr. Candido
  Borges reclama agora a minha ateno.

Veio o governo em
  respostas ao dizer do boato, que eu denunciei nos ltimos Comentrios, e
  declarou o Dirio em completa ignorncia dos fatos a que aludi.

Devo observar que
  apenas fui eco de um boato, e que foi com uma franqueza e uma singeleza talvez
  proverbiais que transferi para letra redonda o que andava na praa pblica,
  pedindo ao governo uma explicao que restabelecesse a verdade.

O comunicante oficial
  declarou desconhecer a importncia da censura que corria pela boca pequena em detrimento
  do crdito do governo. Sem dvida que no  problema social ou poltico, no se
  trata da questo da escravido ou de qualquer outra de mximo alcance; mas
  presumo que a acusao surda ao governo de uma infrao da lei no  l to
  nfima assim que merea escrnio e o pouco caso da imprensa.

Dizia-se isto; a
  imprensa pergunta ao governo se isto  verdade. Creio que  a coisa mais curial
  do mundo.

Explicou-se o
  governo, ainda bem. Da explicao se conclui que o boato no era to
  inteiramente infundado como se quis fazer supor; houve de fato uma pequena
  acumulao, ou antes, pretendeu-se realiz-la.

O ato do Sr. Ministro do Imprio no merece louvor, como bem diz o comunicante,
  porquanto, proporcionar a gratificao aos dois anos e meio que servira o lente
  alm dos vinte e cinco da jubilao com ordenado somente, quando a lei diz que
  o que se jubilar aos trinta anos  que tem direito  metade da gratificao,
  seria um sofisma flagrante e de fazer arrepiar ao mais desiludido deste
  mundo.

Felizmente, segundo
  diz o comunicante, a deciso do governo, sendo contrria ao Sr. Candido Borges,
  no fez com que este senhor conselheiro lhe retirasse a sua amizade.

Suponho que h
  nisto motivo para alegrarem-se os nimos e expandirem-se os coraes. Este fato
  no perturbou o remanso e a paz da igreja d'Elvas.
  Ambos conformes, o bispo e o deo, continuaro a
    dar e a receber o santo hyssope.

Para alguma coisa
  h de servir a amizade poltica, e ningum se lembraria de pensar que, por uma
  questo de vintns, o partido conservador sofresse amputao em um de seus
  membros; e que membro! Eloqente quando fala, e eloqente quando no fala!

26 DE JANEIRO DE
  1862.

Retificao
  do ttulo - Encerramento da exposio - Poetas e utopias - Morte do Prncipe
  Alberto - Morte do duque de Beja - O badalo da igreja
  - Petio do sacristo - De Ladro a
    Baro, drama.

Comeo retificando:
  devia dizer comentrios da quinzena e no da semana. Com efeito, pela primeira
  vez em minha vida de cronista deixei passar uma semana sem vir dar aos leitores
  a minha opinio acerca das ocorrncias dela.

Razes
  que no podem ser devassadas, e que me tocam particularmente, ocasionaram esta
    falta de dever. Como na pea potica de Elmano, se o
    canto no vale, valha pelo menos a desculpa.

A sinalefa no deixou de trazer um lado conveniente, e foi
  que, se, como costumo, tivesse vindo no prazo competente comentar e apreciar a
  semana que findou, com bem pouco teria de me haver.

A semana passada
  foi das mais fartas
  em notcias. Encerrou-se
  a exposio nacional, mas
  este fato passou to despercebido, to em famlia, que nada deixava a dizer a
  respeito. O que havia dizer, nos limites estreitos da crnica, j o disse em
  outra ocasio.

Caberia aqui
  exortar o tribunal julgador dos objetos apresentados  bem cumprir o seu dever,
  tendo principalmente em vista os interesses e o crdito do pas? Seria isto
  antepor uma dvida, que o conhecimento pessoal de alguns jurados no me
  consente, e que o crdito da totalidade deles tornaria intempestiva.

Tenho para mim que
  esta primeira participao sria que o Brasil toma na festa industrial de
  Londres  de alcance elevado, e suponho que, como eu, estaro todos convictos disso.

Tambm estou certo
  que, se tempo houvesse, se faria uma exposio da escolha dos objetos enviados
  a Londres, de forma a dar a conhecer ao pblico, e de um modo patente, os
  servios do jri.

Infelizmente. To
  apressada foi esta primeira exposio, to tarde se lembrou o Sr. Penna de
  propor aquilo que j o Sr. Ministro da Agricultura
  trazia no interior, que no se podia exigir mais do que foi feito.

Sem dvida, nas
  exposies posteriores, das quais uma deve efetuar-se, ao que me parece, antes
  da universal de Paris em 1865, o governo por mais cuidado em que nada seja
  esquecido, para que melhor se alcance o fim destas reunies anuais de produtos
  e foras do pas.

Uma coisa ficou
  patente com esta primeira exposio,  que as idias mudam de natureza com as
  pessoas e com os tempos. A mesma idia que agora se realizou, proposta pelo Sr.
  Dr. Macedo na assemblia provincial, h anos, foi tida por utopia, e granjeou
  ao digno deputado o nome de poeta. Com o Sr. Penna mudaram as coisas; a
  utilidade prtica da proposta foi reconhecida, e ningum se lembrou de castigar
  aquele senador com chascos afrontosos.

Tambm o que
  faltava era admitir a hiptese de um consrcio entre poesia e o Sr. Penna,
  coisas que, na ordem moral, representam aqueles dois pontos que, na cincia
  humana, so chamados - eixos do
  mundo.

Ainda bem que a idia
  enunciada por um patriota sincero, e s poeta daquela poesia que no pode ser
  compreendida pelas mediocridades prosaicas que o cercavam, acaba de ser posta
  em prtica de um modo que mostrou bem a sua realidade.

Alm deste fato,
  outro se deu, de que me ocuparei mais adiante, e que pertence especialmente 
  ordem literria.

O paquete da
  Europa, que aqui chegou  semana passada, trouxe a notcia da morte de dois
  prncipes: o prncipe Alberto, de Inglaterra e o infante D. Joo, de Portugal.

Tinham ambos a estima sincera do seu pas. O primeiro, na posio
  difcil em que se achava, e que Edmond Texier no
  hesita em chamar quase ridcula, soube conquistar essa estima pela iniciativa
  tomada nos progressos materiais e morais do Reino Unido, e pela solicitude e
  vigilncia com que sempre se houve ao p da rainha, sua esposa, a bem de
  amparar o sistema constitucional que faz a primeira fora do povo ingls.

Dava arras do seu
  amor pelo pas at este ponto: "Se os povos, diz Edmond Texier,
  gostam do licor aucarado da lisonja, tambm os reis no deixam de d-lo a
  beber. Uma manh de inverno, com um frio de doze graus, um capito que acabava
  de jogar e perder a capa, foi encontrado em Newski pelo czar Nicolau: -- Por que no trazes a tua capa? -- Senhor, porque no faz
  frio nos Estados de Vossa Majestade. -- O imperador lisonjeado passou sem
  insistir. Tinha encontrado um homem que no acreditava no inverno russo. Tambm
  o prncipe Alberto respondia com as suas calas brancas  calnia propagada
  pelos estrangeiros contra o clima da velha Inglaterra".

A morte do prncipe
  consorte foi sentida e chorada com sinceridade. A Inglaterra compreendeu que
  havia perdido um amigo, e como tal o pranteou.

No menos sentida
  foi a morte do duque de Beja.
  Somente, a nao portuguesa acabava de prantear a morte de dois prncipes, um
  deles seu chefe poltico, e a sucesso dos casos tristes, trazendo ao esprito
  suspeito do povo umas desconfianas infundadas, posto que sinceras,
    de tal sorte o havia abatido, que a dor foi mais automtica que
  estrepitosa, mais ntima do que pblica.

Tais foram os fatos
  de que mais se ocupou o esprito pblico durante a semana finda.

Transtornarei a
  ordem cronolgica dos fatos e tomarei agora um que, de fresco, acaba de ser comunicado
   curiosidade pblica.

Quero falar da
  portaria do Sr. Presidente da provncia do Rio de
  Janeiro a certo vigrio, resolvendo umas dvidas suscitadas por um sino sem
  badalo.

Na dvida de quem havia de tanger o sino a recolher, S. Excia. tomou o partido de incumbir
  isso ao sacristo ou a outro qualquer empregado da igreja.

Para os que no
  leram o aviso a que aludo, poder parecer isto inveno minha, com o intuito de
  criar um novo plano de Hyssope, e assim
  inspirar as liras cmicas dos Boileaus e dos Dinizes. Protesto contra uma tal suspeita. O fato  real. Parece questo idntica a que trouxe
    muito tempo separados o bispo e o deo da
  igreja d'Elvas,  verdade; mas com isso o que tenho
  eu, e o que tem a imprensa?

Algum observador
  aparentado com Demcrito poder achar razo nestas bernardices administrativas, invocando o princpio dos contrapesos e das compensaes, e
  assim dizer que em pas to grande, territorialmente falando, como este,  bem
  que a direo das coisas pblicas apresente este aspecto de ninharias e ridiculidades, a fim de estabelecer o alto e malo das
  coisas humanas . . .

Deixo aos filsofos
  a discusso deste dito.

E pondo de parte a
  apreciao do aviso inserirei aqui a petio que me foi comunicada, e que,
  segundo me afirmam, foi ou vai ser dirigida pelo sacristo da parquia ao Sr. Ministro do Imprio.

Vejam os leitores
  as razes dadas pelo peticionrio:

Consinta Vossa
  Excelncia

Que a boca de um
  sacristo,

Com aquela
  reverncia

Devida  alta
  funo

De uma sagrada eminncia,

Exponha um
  arrazoado

Contra o aviso
  recente

Da inteligncia emanado

Do mais srio
  presidente

Que ainda foi
  nomeado.

Senhor, este caso 
  novo;

Faz dar voltas ao
  juzo;

Nem h memria
  entre o povo;

De modo que  este
  aviso

Menos aviso que um
  ovo.

Presume Sua
  Excelncia

Que, por dar bem ao
  badalo

No sino da
  presidncia,

Hei de eu agora
  imit-lo

Ermo da mesma
  cincia?

E quer, ajudando o
  fado

Na minha
  tribulao,

Tornar-me mais
  onerado

Fazendo de um
  sacristo

Um sineiro
  despachado?

E hei de eu, deixando
  o leito,

O leite doce e
  macio,

A que me acho to
  afeito,

Ir apanhar ao ar
  frio

Uma doena de
  peito?

E se um dia, ainda
  tonto,

Deixando o fofo
  colcho,

As horas erradas
  conto,

E vou bater o arago,

J  meio-noite em
  ponto?

Ah! Se ao menos um
  badalo

Tivesse o citado
  sino,

Ento cantara outro
  galo!

O fado, menos
  mofino,

No me dera tanto  abalo!

Por certos meios
  arteiros,

De maior ou menor
  fama,

Satisfaria os parceiros;

E sem tirar-me da
  cama,

Fora o melhor dos
  sineiros.

Uma cordinha
  bastava,

Presa ao badalo em
  questo,

E a ponta que lhe
  ficava

T-la-ia em minha
  mo,

E tudo se
  conciliava.

E um dia, se Deus
  clemente

Permitisse 
  freguesia,

 vista do
  presidente,

Como um pouco de
  gua fria

A
  sequioso doente;

Unido ao prazer
  geral,

Livre j do antigo
  abalo,

 entrada triunfal

Iria dar ao badalo

Um repique
  original.

Seria prmio mofino

Do mais pobre dos
  bedis

Ao funcionrio
  ladino

Que no cdigo das
  leis

Abriu captulo ao
  sino!

Nem seria a mo da
  inveja

Que havia de
  despoj-lo

Da glria que t-lo
  almeja,

E que h de enfim
  proclam-lo

Slon de torre de
  igreja.

Mas para isso,
  Excelncia,

Para tal apoteose,

Carecia a
  presidncia

Gastar uma nova
  dose

De estudo e de
  pacincia.

Ento, deixando aos
  vulgares

Os sedios monumentos,

Cortando por novos mares,

Teriam os seus
  portentos

Novos, melhores
  altares.

Coisa seria
  imponente,

Capaz de matar a
  inveja,

Poder contemplar a
  gente

Em cada sino da
  igreja

A efgie do
  presidente.

E, se a mente no
  erra,

Mostraria a
  presidncia,

(Que tanta beleza
  encerra)

Que, alm de Vossa
  Excelncia,

Ainda h mais gente
  na terra

***

Passarei agora a
  coisas srias.

Um novo drama
  nacional foi levado  cena no teatro Ginsio. O autor, o Sr. lvares de Arajo,
   um estreante, cuja inteligncia se dirigiu sempre a outra ordem de aplicao,
  e que acaba de entrar no teatro aos aplausos dos amigos da arte e da literatura
  dramtica.

A crtica com os
  estreantes deve empregar uma solicitude materna, mostrar-lhe o mau e o bom
  caminho, ensinar-lhe a evitar os precipcios e a alcanar o alvo a que todas as
  inteligncias se dirigem; isto para com o poeta. Para com o pblico, serve ela
  de intrprete da idia do poeta, defensora mesmo da sua composio, a fim de
  anim-lo a tomar vo mais seguro. Deve ser amiga e, segundo diz Chateaubriand,
  empregar mais o louvor que a censura.

Se este ltimo
  conceito se d para a crtica destinada a construir com o poeta o edifcio da
  sua reputao, at poder um dia, desligando-se dele, ir tomar lugar entre os
  espectadores e pedir-lhe conta das suas lies,  ainda o dever da crnica,
  cujas atribuies se estreitam na meno das obras, e na manifestao da
  impresso recebida.

Ora, s deixam
  impresso, mais ou menos viva, aquelas obras, que, encerrando alguma coisa,
  recomendam-se por no esprias, seno legtimas filhas do talento.

De Ladro a Baro, repousando sobre
  uma tese, usada j, qual a de origem criminosa de muita fidalguia empavesada,
  revela primeiro que tudo a indignao expansiva de uma conscincia diante da
  corrupo social. Antes do poeta mostra-se o homem, antes do talento o carter.

A tese no  nova,
  disse eu. Assim . No  novo no teatro remontar  origem das fortunas e dos
  pergaminhos para encontrar os meios reprovados das dilapidaes foradas e
  escandalosas. Mas a insistncia dos poetas em tratarem do assunto  tanto mais
  necessria quanto  sociedade precisa mais e mais dessas correes vivas e
  constantes.

Todavia, escolhendo
  tal assunto, o Sr.lvares de Arajo criou-se uma
  dificuldade. Como haver-se com ela, logo da primeira vez que entrava em terra
  nova? Mediu o esforo pelo dever do combate e atirou-se ao campo.

Venceu a
  dificuldade? Venceu e no venceu. Saiu-se bem no plano geral da pea, mas nos
  detalhes a sua mo acusa a inexperincia de primeiro trabalho; as suas figuras,
  exceto a do protagonista, que acho vigorosa, todas as mais revelam frouxido e
  incerteza.

A energia mscula
  de Elvira d-se mais a conhecer por tradio que por exibio. E, entretanto,
  que belo pensamento no foi o do poeta, dando  mulher o exemplo do castigo dos
  maus, e que bela criao, toda ideal embora, no ficaria, com mais algum
  cuidado, aquela figura imponente de mulher.

Gustavo Pereira foi
  o papel mais cuidado da pea, e era natural que assim fosse.  comum a todos os
  que estriam, tendo personificado a sua idia em uma personagem, concentrar
  todo o esforo e trabalho nessa figura principal, de modo a empalidecer as
  outras que vo entrelaadas na ao.

O Sr. lvares de Arajo
  estreou bem. Os aplausos que o receberam devem servir-lhe de animao. Se lhe
  faltam as qualidades prprias da experincia e do tempo, sobram-lhe outras, as
  principais, as que nascem da intuio, e que so, por assim dizer, o bulo e a beno que a musa d ao poeta, para comear a sua
  romaria.

Deu este drama
  lugar a que aparece um ator que, at aqui, alm do papel de escrivo na Torre
    em concurso, no se havia podido revelar.

Falo do Sr. Flvio,
  a quem coube o papel de Andr, uma das vtimas do ladro-baro.
  Representou de modo a receber merecidos aplausos.

O Sr. Joaquim
  Augusto tem desempenhado com relevo o papel de Gustavo Pereira, hipcrita
  brutal.

O papel de Elvira
  coube a Sra. Gabriela, cujo elevado e vigoroso talento sabe dar-lhe brilho e realce;
  no quarto ato, principalmente, tem merecido vivos aplausos.

O papel do nobre e
  sincero Emilio da Veiga deve ao Sr. Amoedo apropriada
  interpretao.

8 DE FEVEREIRO DE 1862.

Ao
  redator dos "Ecos Martimos"

Meu caro, -- Praz-me
  acreditar que, nos longos anos da nossa intima e nunca estremecida amizade,
  tenho-te dado sobejas provas de que no costumo subordinar as minhas opinies
  ao interesse ou convenincias, e que, errneas ou verdadeiras, so-me elas
  sempre ditadas pela conscincia.

Sabes que no
  perteno ao nmero desses otimistas que tem sempre nos lbios um elogio e nos
  bicos da pena uma justificao para todo ato de poder, somente porque  do
  poder.

E, pois, tentando
  defender o atual ministro da Marinha de acusao que julgaste dever dirigir-lhe,
  fao-o constrangido,  verdade, por achar-me em divergncia com um amigo a quem muito prezo, mas sem temor de que me classifiques
  entre os turiferarios e amigos
    interesseiros de que falaste no teu primeiro artigo.

Nesta contenda
  ficaremos colocados em campos opostos, tomaremos mesmo caminhos diversos, mas
  como ambos temos o mesmo fim, como ambos visamos ao mesmo norte -- a elucidao
  da verdade, -- espero que nos encontremos, e ento, como agora, ns poderemos
  apertar as mos, porque nem tu nem eu teremos de corar.

No tratando por
  enquanto do teu primeiro artigo, porque nele te limitas a formular captulos de
  acusao, que prometes desenvolver mais tarde, ocupar-me-ei com as censuras, que
  no segundo fazes ao sistema que se est seguindo no fabrico do vapor Amazonas.

Pensas que
  semelhante obra seria mais pronta e economicamente realizada, prorrogando-se as
  horas de trabalho, mediante abono de gratificaes de sesta aos operrios?

 "Por este modo, dizes tu, lucraria o governo
  que mais cedo teria  sua disposio o Amazonas; lucrariam os operrios
  que com esse acrscimo de salrio proporcionariam s suas
    famlias maior soma de bem estar; lucrariam os cofres
  pblicos,aumentando suas receitas com o aluguel do dique".

Para admitir estas
  concluses, seria mister conceder-te que a produo do
  trabalho durante as  2 horas da sesta  equivalente ao salrio de meio
  dia, em tais casos abonado como gratificao, o que contesto.

O trabalho ordinrio
  comea nos nossos arsenais ao nascer do sol e termina s 4 horas da tarde,
  apenas com interrupo de  hora concedida para o almoo; o extraordinrio ou
  sesta prolonga-se dessa hora ao anoitecer.

Assim o sistema que
  preconizas exige do operrio um esforo continuado de 13 horas!

E acreditas que um
  homem possa, no nosso clima, e durante a estao calmosa, trabalhar com a mesma
  atividade e perfeio por to dilatado espao de tempo, exposto aos raios de
  sol, que os gigantescos refletores de granito formados pelas paredes do dique,
  tornam ainda mais abrasador?

O bom senso te dir
  que no.

Um ou outro
  indivduo, dotado de constituio mais robusta, realizar este supremo esforo
  no primeiro ou segundo dia, porm, certamente sucumbir tentando ultrapassar esse
  limite.

Mas me dir, o meio
  que indico tem por si a sano de inveterada prtica!

Nem tudo o que 
  velho  bom; e no ignoras que mais de um abuso existe enraizado na nossa
  administrao pelo emperrado esprito de rotina.

Vs, portanto, que
  a adoo do alvitre por ti sugerido, longe de produzir as vantagens que
  apontas, prejudicaria os cofres pblicos, que teriam de pagar pela obra feita
  quantia superior ao seu merecimento; prejudicaria ao servio naval dando como
  pronto um vapor que, pelo mal acabado do seu fabrico, teria mais tarde de
  voltar  posio de disponibilidade.

Isto  intuitivo; e
  seguramente escapou, porque apenas examinaste a questo por uma face.

O
  dique, como bem dizes, no foi construdo para cevar os cofres do Tesouro,
    porm, para prestar o seu valioso auxlio ao material da nossa armada;
    conseguintemente, que importa que os navios neles se demorem mais ou menos
    dias, se por este modo executam-se radicalmente os concertos de que carecem?

Precipitao 
  antpoda de perfeio.

Se isto no fora um
  axioma, citar-te-ia, como exemplo, o vapor Oyapock que, segundo  voz geral, saiu do dique fazendo gua.

Passemos ao outro
  ponto.

O ministro da
  Marinha no se intrometeu em atribuies privativas de outrem nem procurou
  exercer presso sobre o esprito dos peritos do arsenal, no intuito de
  arrancar-lhes opinio favorvel ao vapor Princesa de Joinville; sua
  interveno neste negcio foi estritamente legal e ditada pelos preceitos da
  prudncia e de justia.

A companhia dos
  paquetes, como  de praxe, requereu que esse navio fosse vistoriado; mas,
  empregando as restries mentais em que  vezeira,
  no falou do casco, porm simplesmente da mquina; e os peritos, que sabem ser
  aquele o ponto vulnervel, lavraram o seu parecer em termos genricos
  declarando que haveria imprudncia em arriscar o vapor em uma viagem no oceano.

Frustrada a
  estratgia, voltou  companhia requerendo que se discriminassem os quesitos que
  tinham servido de base ao juzo da comisso; ao que, como era de seu dever,
  deferiu o ministro. Eis quanto pela marinha se fez negcio; o mais pertence ao
  ministrio das Obras Pblicas.

A meu ver, fora
  melhor ter-se negado  companhia permisso para fazer seguir semelhante vapor
  aos portos do norte; porm, como foi ela limitada pela proibio de conduzir
  passageiros, acautelando-se por essa forma a segurana do pblico, qualquer
  desastre superveniente apenas alcanar a tripulao e companhias de seguro,
  que s tero o direito de queixar-se de sua imprudncia, visto que perfeitamente
  conhecem os riscos que vo correr.

No posso, todavia
  deixar de notar que a companhia, anunciando a sada do Joinville, calasse to importante circunstncia!

Dadas estas
  explicaes, consentirs que te faa um pedido.

Acredita-me, amigo,
  abre mo de pequenas polmicas de que no poders tirar glria, no malbarates
  em pouquidades o talento que Deus te concedeu;
  volta-te para os grandes interesses do pas, disseca as profundas chagas que
  corroem o nosso corpo social, pe a descoberto a
  podrido desses cancros que, sob o nome de companhias, absorvem o melhor dos
  nossos recursos; e protesto-te que nesse terreno, no tendo foras para
  acompanhar-te, pelo menos te aplaudir o sincero amigo.

Machado
  de Assis.

2 DE MARO DE 1862.

Haabs, drama do Sr. R.
  A. de Oliveira Menezes. - Ensaios
    literrios, do Sr. Igncio de Azevedo. - Almanaque administrativo, mercantil e industrial, do Maranho. - O terreno de Mendoza. Drama lrico do
  major Taunay. - O carnaval.

Tenho  vista dois
  livros oriundos da academia de So Paulo. A sua publicao no data da semana
  que findou ontem, mas data de poucos dias o conhecimento que tenho deles. No
  me foi preciso demorada leitura para avali-los; de relance se lhes pde ver a
  importncia e o alcance, ainda mesmo quando no h fundo de erudio que d a
  uma apoucada inteligncia foral do juiz.

O Sr. Rodrigo
  Antonio de Oliveira Menezes escreveu um drama em um prlogo e dois atos que
  intitulou Haabs.  um livro tosco pela forma
  e brilhante pelo fundo;  uma bela idia mal afeioada e mal
    enunciada, o que no tira ao livro certo mrito que  foroso
  reconhecer!

Haabs  um escravo que
  mata o feitor em um desforo de honra por haver-lhe aquele seduzido a mulher. 
  perseguido por este motivo. Seu senhor  implacvel. Haabs consegue escapar. Entretanto, apanha uma criana, fruto de amor criminoso de
  sua senhora moa, leva-a consigo f-la educar, at
  entreg-la a seus pais vinte anos depois.

Tal , em poucas
  palavras, a trama de Haabs. O autor
  fundou o seu drama sobre duas idias, ou antes, sobre dois fatos: primeiro, a
  condio precria dos cativos; depois, a generosidade que pde existir nessas
  almas, que Herculano diria atadas a cadveres.

O intento foi
  nobre, e no lhe diminui o alcance moral a rusticidade da forma; mais cuidado e
  mais conhecimento das regras dramticas, Haabs seria ento uma bela realidade, no passando, como est, de uma generosa inteno.

A ao no se acha
  desenvolvida; a travao das cenas  irregular; estas parecem antes os trechos
  restantes de uma tradio, acumulados para base de uma obra que no foi
  escrita, e que a outro caber desenvolver.

Por mim, quisera
  antes que o autor a desenvolvesse; que importa existir j esta tentativa? Tome
  o seu pensamento e trate de ampli-lo; escreva um drama, ou mesmo um romance,
  sobre a larga base que desaproveitou com aquela frgil e acanhada construo.

O que lhe faltaria
  para isto? Linguagem, no; a de Haabs, se
  no  de pureza exemplar acusa raras qualidades que a prtica desenvolver.

E nessa nova
  composio apareceria de certo aquela 2. cena do 2.
  ato, delicioso idlio, escrito com arte e espontnea suavidade. Nem faltariam
  expresses felizes, como muitas das que ornam as pginas desta tentativa.

No creio que, no
  que levo dito, me parea com o empertigado crtico que visitou o autor em
  sonhos, como ele conta espirituosamente no prlogo.

Uma coisa que ele
  no lhe reconheceu, e que eu julgo dever mencionar, tanto mais quanto se eu o
  no fizesse, Haabs encarregar-se-ia de
  faz-lo,  que possui um belo talento e que poder com vantagem aplicar-se ao
  teatro para honra da literatura nacional.

***

Passo agora aos Ensaios
  literrios do Sr. Igncio de Azevedo. O Sr. Igncio de Azevedo  irmo
  daquele autor dos Bomios e de Pedro Ivo, cuja perda choramos ainda hoje.

 talvez a esta
  consanginidade, alm da assistncia na academia, onde lvares de Azevedo
  deixou imitadores, que se deve a cor sombria e fantstica que o autor procurou
  dar a quase todas as pginas deste livro.

O Sr. Igncio de
  Azevedo  uma inteligncia a formar-se; participa dos defeitos do que se chamou escola azevediana, sem todavia empregar nos seus escritos os toques superiores que o estudo
  mais tarde lhe h de dar. As almas na eternidade  uma revista de
  espritos, uma imprecao minuciosa de alcance secundrio.

Os contos revelam
  imaginao, mas esto em alguns pontos descarnados de mais, e se o autor me
  permite individuar, lembro-lhe, entre outros exemplos, aquela pgina 98.

***

Com a imaginao e
  a inteligncia que tem, o Sr. Igncio de Azevedo deve procurar no estudo e na
  reflexo as qualidades indispensveis de escritor, e estou certo que da vontade
  e do cabedal que possui nascero obras de mais significao literria que os Ensaios.

No riam as
  imaginaes poticas e as almas serficas se passo a falar de um almanaque, e menos me acusem de lisonjear os utilitrios. Em geral, um
  almanaque  um livro importante, mas este de que vou falar tem ainda outro
  valor; por isso descansem que no me ocuparei com a exatido e diviso da
  estatstica, nem com outras matrias prprias destas obras.

O almanaque
  administrativo, mercantil e industrial para 1862, do Maranho, entra agora
  no seu 5. ano.

Como  natural em
  obras de utilidade geral, a publicao vai tomando maiores e mais srias
  propores. Fecha-se o deste ano com alguns artigos relativos  lavoura e uma
  das brasilianas do Sr. Porto-alegre.

O primeiro daqueles
  artigos  uma pgina bem lanada, escrita com reflexo e proficincia, na qual
  se demonstra a necessidade de pr termo  rotina que impede o desenvolvimento
  da agricultura. Aconselha o escritor aos lavradores que, em bem de tornar a
  lavoura outra coisa que no , faam dar a seus filhos uma educao agrcola
  nas escolas europias. Enunciando este conselho, o escritor passa a examinar a
  convenincia oferecida por cada um dos pases onde se podem ir buscar esses
  estudos, e decide-se pela escola de Grignon,
  na Frana, cujas condies oferecem mais vantagens e melhores esperanas de
  resultado.

Acompanham este artigo
  diversas transcries relativas ao mesmo assunto, e por fim a brasiliana, do
  Sr. Porto-alegre, Destruio das matas. A raridade da edio das Brasilianas, e o grande mrito da composio do nosso pico, tornam mais importante a insero destes versos no Almanaque do Maranho.

***

Est ainda fresca
  na memria, pela proximidade do acontecimento, a terrvel catstrofe que
  destruiu a cidade de Mendoza. Entre os que foram
  salvos do terremoto notam-se Mr. Teisseire e sua filha de quatro anos que se acham nesta capital. Mr. Teisseire era um antigo tenor de Paris que se havia
  estabelecido naquela cidade. A catstrofe sucedeu quando ele comeava a
  construir uma pequena fortuna.

Veio esta meno
  para anunciar a publicao de um drama lrico fundado sobre o episdio da
  catstrofe relativo quelas duas ressurreies e que traz o nome do major
  Taunay.

Esta composio 
  destinada a favorecer a Mr. Teisseire e sua
  filha, restos de uma famlia numerosa que pereceu na destruio de Mendoza.

Esse  o seu
  principal mrito; a obra no  notvel, mas o autor aproveitou nela o que podia
  aproveitar do fato a que aludiu.

E com isto deixo o
  leitor, que arder por ir tomar parte na folgana destes trs dias, a no ser
  que, como eu, olhe para estas coisas de mascarados como uma distrao muito
  vulgar. Em verdade, ser preciso esperar o carnaval para ver mascarados? H
  muita gente que, apenas o Sr. Laemmert publica as
  suas folhinhas, corre a ver em que poca  o carnaval. Essa gente  de
  patriarcal simplicidade. O carnaval desta terra  constante, e  a poltica que
  nos oferece o espetculo de um continuo disfarce e dansatriz farofia, como dizia Filinto.

Se pensas como eu,
   serio leitor, limita-te a ver passar os que se divertem, e vai depois
  entreter o resto da noite com a leitura do livro que imortalizou Erasmo.

24 DE MARO DE
  1862.

O dia
  25 de Maro. -- A revoluo. -- Toleima ou esperteza? --
  Os gansos. -- S de Miranda. -- A
  plvora. -- Publicaes literrias. Biblioteca
    Brasileira e o Futuro. -- Publicao
  poltica, o Jornal do Povo.

 amanh a
  inaugurao da memria do Rocio.  tambm amanh o aniversrio da proclamao
  da nossa carta poltica. Por ultimo, na opinio do ministrio,  amanh a realizao
  de uma revolta popular, preparada pelos chefes liberais  bem de se apossarem
  do governo.

Nada direi do
  aniversrio que festejamos, mesmo por no entrar na apreciao dos atos
  pecaminosos que ho desvirtuado o nosso cdigo poltico. No me autorizarei
  mesmo de uma circunstncia que algum notou, a de
  estar a figura do primeiro imperador, que hoje se h de descobrir, com a
  constituio estendida para o lado do teatro, querendo da concluir o malvolo
  que o pacto fundamental  uma comdia.

To pouco me
  ocuparei com a esttua que se vai inaugurar.

Fora preciso
  recorrer aos fastos da histria e cotejar atos e apreciaes, talvez em
  detrimento de opinio aceita, e por mal das constituies pblicas e solenes,
  que o sol da manh vai presenciar.

J no pratico
  assim com o boato da revoluo. Devo investigar se o ministrio com estas
  precaues que toma, e com estes boatos que assoalha, tende  parvoce ou 
  esperteza.  difcil o problema. Existem ambos os elementos no gabinete, e
  decidir qual deles prepondera na questo,  um trabalho de minuciosa anlise.

Por onde
  descobriria o ministrio que o dia 25 seria ensangentado pelos dentes do tigre
  popular? Onde encontrou sintomas denunciantes? Na imprensa? No. Nunca ela foi
  mais moderada, nem mais sbria no apontar os erros administrativos.

Nenhuma doutrina
  que cheire a subverso tem sido alardeada e proclamada nas folhas liberais. Nos
  clubes? Onde existem eles? Onde se renem? Ningum os conhece. O ministrio
  compreende bem que uma revoluo, no sentido literal da palavra, pede o
  concurso da maioria, e que esse concurso no deve ser eventual e filho do
  momento.

Pouco depois das
  eleies o ministro do imprio do gabinete Ferraz exigiu mudana de poltica de
  reao, em vista da situao que, na opinio dele, tendia  anarquia. Esta
  exigncia, que era simplesmente uma pose do ministro novato, tinha uma razo de
  ser; acabava-se de uma eleio altamente pleiteada, e o nobre ministro, depois
  do que havia presenciado, concluiu que o pas estava fora dos eixos. Aproveitou
  a circunstncia e quis fazer figura. E fez.

Hoje, porm, que a
  situao est calma, ou para me servir do vocabulrio do Sr. Ministro da Marinha est em calmaria podre, ser admissvel, sem querer passar
  por tolo, a suspeita de uma revoluo?

No suponho que o
  ministrio ande de boa f nestes sustos e temores de revoluo; creio em outros
  motivos menos inocentes, mas por ventura menos humilhantes.

Reza a histria de
  uns gansos que salvaram por seus grasnos a integridade da cidade eterna. Tambm vigiam gansos o nosso Capitlio? Mas estes, cansados
  h tanto de espreitar, sem nada verem chegar, e querendo a todo custo dar
  testemunho de sua vigilncia, gritam um belo dia por socorro e clamam pela
  salvao de Roma. Mas Roma est tranqila, nenhum inimigo lhe assoma s portas;
  Csar dorme tranqilo no afeto e na dedicao da cidade-rainha. Nada
  acontecer, mas a suspeita pde ficar para o futuro, e os gansos tero feito
  uns bonitos papis.

Que tal? O meio 
  seguro para ganhar conceito em nimos augustos.  assim que estes piolhos se
  metem pelas costuras. Mas os prncipes devem ser versados e sabedores das
  coisas passadas. Foi a respeito desses tais enliadores que S de Miranda escreveu estes versos na sua carta a D. Joo III:

Senhor, hei-vos de falar

(Vossa
  mansido me esfora)

Claro
  o que posso alcanar;

Andam
  para vos tomar

Por
  manhas, que no por fora.

Alguns fatos
  poderiam demover-me da opinio em que estou de que o ministrio quer provar amores
  assoalhando calculadas fantasias. Tal , por exemplo, o da apreenso de alguns
  barris de plvora em vrias casas.

Mas a Atualidade explica a origem desta apreenso que tanto alarma causou, e com as quais
  quer o ministrio afetar que descobriu os conspiradores. Foi apenas uma
  denncia de proprietrio incomodado pela vizinhana de fabricantes de fsforos.

Demais, fazem-se
  durante o ano tantas apreenses de plvora, que estas no devem por modo
  merecer o mais leve reparo.

Insisto na minha
  apreciao; o ministrio estril, tacanho, ramerraneiro,
  como , busca a confiana imperial na preveno de
  revoltas imaginrias.

E o jogo  bonito e
  fino. Passando, como h de passar, o dia 25 sem demonstrao alguma,  ao
  terror das medidas anteriormente tomadas que se atribuir a tranqilidade da
  festa.

Voltemos, porm, de
  rumo.

Deixemos de vez
  essas demncias polticas que, por justo ttulo, fazem do nosso pas a fbula
  dos folhetinistas do resto do mundo.

Outra parte nos
  chama, amigo leitor, a da mocidade estudiosa, trabalhadeira, esperana de
  melhor futuro.

Pode dizer-se que o
  nosso movimento literrio  dos mais insignificantes possveis. Poucos livros
  se publicam e ainda menos se lem. Aprecia-se muito a leitura superficial e palhenta, do mal travado e bem acidentado romance, mas no
  passa da o peclio literrio do povo.

 no meio desta
  situao que se anunciam duas publicaes literrias: Biblioteca Brasileira,
  publicao mensal de um volume de literatura ou de cincia, de autores
  nacionais, e o Futuro, revista quinzenal e redigida por brasileiros e
  portugueses.

Vamos por partes. A Biblioteca  dirigida por uma associao de homens de letras. Tem por
  fim dar publicidade a todas as obras inditas de autores nacionais e difundir
  por este modo a instruo literria que falta  mxima parte dos leitores.

Como se v, serve
  ela a dois interesses: ao dos autores, a quem d a mo, garantindo como base da
  publicao de suas obras uma circulao forada; e ao do pblico, a quem d,
  por mdica retribuio, a posse de um bom livro cada ms.

Com tais bases, no
  h negar que entra nesta instituio de envolta com o sentimento literrio
  muito sentimento patritico. Em que pese aos que fazem limitar a ptria pelo
  horizonte das suas aspiraes pessoais,  assim. E so destes servios ao pas
  que mais fecundam no futuro.

Esclarecer o
  esprito do povo de modo a fazer idias e convices disso que ainda lhe no
  passa de instintos, , por assim dizer, formar o povo.

Do esforo individual
  e coletivo dos que se do ao cultivo das letras  que nascero esses resultados
  necessrios. O piano da Biblioteca Brasileira, cmodo e simples, oferece
  um bom caminho para ir ter aos desejados fins, e  j um auxiliar valente de
  idias que se pe em campo.

O Futuro,
  revista que aparecer cada quinzena,  mais um lao de unio entre a nao
  brasileira e a nao portuguesa. Muitas razes pedem esta intimidade entre dois
  povos, que, esquecendo passadas e fatais divergncias, s podem, s devem ter um desejo, o de engrandecer a lngua que falam, e
  que muitos engenhos tm honrado.

O Futuro, concebido
  sobre uma larga base,  uma publicao sria e porventura ser duradoura. Tem
  elementos para isso. A natureza dos escritos que requer um folheto de trinta
  pginas, publicado cada quinzena, muitos dos nomes que se me diz faro parte da
  redao, entre os quais figura o do velho mestre Herculano, e a inteligncia
  diretora e proprietria da publicao, o filho direto do autor do Bilhar, F.
  X. de Novaes, do ao Futuro um carter de
  viabilidade e durao.

Este abrao
  literrio vir confirmar o abrao poltico das duas naes. No  por certo no
  campo da inteligncia que se devem consagrar essas divises que so repelidas
  hoje.

Os destinos da
  lngua portuguesa figuram-se brilhantes; no individuemos os esforos; o
  princpio social de que a unio faz a fora  tambm uma verdade nos domnios
  intelectuais e deve ser a divisa das duas literaturas.

Para 7 de abril anuncia-se a publicao de um jornal poltico que
  ter por titulo Jornal do Povo.

 redigido por dois
  talentos jovens, mas que j fizeram as suas primeiras armas nesta lia da
  imprensa. O Jornal do Povo no representa escola alguma, no acompanha
  princpios estatudos de nenhuma parcialidade poltica.  simplesmente um
  jornal consagrado a doutrinar o povo e a pugnar pelos interesses dele.

Sendo assim o Jornal
  do Povo ser logicamente conduzido a pr-se ao lado liberal que corresponde
  imediatamente s aspiraes populares.

E o concurso dele
  ser tanto mais valioso quanto que no pode haver dvida sobre as opinies
  liberais de seus redatores.

1 DE ABRIL DE 1862.

Inaugurao
  da estatua. -- O adjetivo e a imprensa oficial. -- Substantivos sem adjetivos. --
  Tranqilidade pblica. -- Jantar em honra da esttua.

Est inaugurada a
  estatua eqestre do primeiro imperador.

Os que a consideram
  como saldo de uma dvida nacional nadam hoje em jbilo e satisfao.

Os
  que, inquirindo a histria, negam a esse bronze o carter de uma legitima memria, filha da
    vontade nacional e do dever da posteridade, esses se reconhecem vencidos, e,
    como o filsofo antigo, querem apanhar, mas serem ouvidos.

J  de mau agouro,
  se  ereo de um monumento que se diz derivar dos desejos unnimes do pas
  precedeu uma discusso renhida, acompanhada de adeses e aplausos. O
  historiador futuro que quiser tirar dos debates da imprensa os elementos do seu
  estudo da histria do imprio, h de vacilar sobre a expresso da memria que
  hoje domina a praa do Rocio.

A imprensa oficial,
  que parece haver arrematado para si toda a honestidade poltica, e que no
  consente aos cidados a discusso de uma obra que se levanta em nome da nao,
  caluniou a seu modo as intenes da imprensa oposicionista.

Mas o pas sabe o
  que valem as arengas pagas das colunas annimas do Jornal do Comrcio.

O que  fato,  que
  a esttua se inaugurou e o bronze l se acha no Rocio, com uma pirmide de
  poca civilizada, desafiando a ira dos tempos.

O Rocio vestia
  anteontem galas e louanias desusadas.

As ruas por onde
  passou o prstito estavam ornadas de bandeiras e colchas, e juncadas de folhas
  odorferas, segundo as exigncias oficiais.

Mas sabe o leitor
  quem teve grande influncia nas festas de anteontem? O adjetivo. No ria, leitor, o adjetivo  uma grande fora e um grande
  elemento! E ningum melhor que os publicistas do Jornal
    do Comrcio compreendem o valor que ele tem, e nem o emprega melhor.

Foi o adjetivo quem
  fez as despesas das arengas escritas anteriormente em defesa da esttua. Na
  apoteose, o adjetivo serviu de leo cheiroso com que se incensou todas as virtudes duvidosas. Na censura, o adjetivo foi, por assim dizer, o
  suco venenoso com que aqueles bugres ungiram a ponta das suas flechas.

Bem empregado, com
  jeito e a tempo, como do ferro aconselha o poeta para tornar mezinha, o
  adjetivo fez nos artigos ministeriais um grande papel. Veja o leitor como esta
  palavra - imortal - veio sempre em auxlio de um substantivo desamparado de
  importncia intrnseca. Se, por cansado, no podia ele aparecer mais vezes, l
  vinha um nclito, l vinha um magnnimo, l vinha um substantivo augusto.
  E outros e outros da mesma valia e peso.

Os artigos
  ministeriais reduzidos a verso podiam figurar entre as produes da Arcdia, do
  Caldas, sem quebra nem descor.

No ria o leitor
  demasiado srio da importncia destas consideraes. Desconhecer o adjetivo
  monta o mesmo que desconhecer a luz.

O adjetivo foi
  introduzido nas lnguas como uma imagem antecipada dos ttulos honorficos com que
  a civilizao devia envergonhar os peitos nus e os nomes singelos dos heris
  antigos.

Exemplo: um homem
  que usa do nome recebido na pia,  um substantivo. Se
  esse homem passa a ter uma adio honorfica fica sendo um substantivo e um
  adjetivo.

A festa de
  anteontem deixou muitos substantivos de boca aberta. Contava-se que muitos
  adjetivos chovessem. Mas houve s um.

E os substantivos
  desconsolados tiveram de ver-se desajetivados, com a
  esperana de uma adjetivao para mais tarde.

Oh! Dor!

 o mesmo que
  acontece s moas, que so substantivos, e andam  procura de maridos que so adjetivos. Para algumas passam os dias, os meses, os
  anos, sem que Himeneu, o grande escritor, venha ligar aquelas duas partes distanciadas.

E assim em muitas
  outras coisas da vida humana.

A festa no foi
  perturbada por nenhum movimento ainda o mais individual e alheio aos motivos
  propalados. Os sustos do ministrio tiveram bem positivo desmentido diante da
  placidez com que este povo assistiu  inaugurao da esttua.

Diante de algumas
  coragens, levantadas nestes dias de abatimento, fizeram crer que se tramava
  contra a ordem social. No sei bem se isto  ridculo ou imoral. Em todo caso 
  uma dessas calnias com que se vo servindo para os seus acatamentos e
  bajulaes.

Diante da festa
  inaugural que outro fato poder vir tomar parte nestes comentrios? No sei de
  nenhum. A festa encheu todo o tempo e todos os espritos.

Continuou ela ontem
  e termina hoje. Tem o povo com que regalar-se. E bom  quando lhe concedem 
  farta a segunda parte da exigncia do povo romano.

 verdade que
  tambm no se lhes nega a primeira. Anuncia-se para hoje um grande jantar no
  salo do teatro lrico, para o qual so convidadas as pessoas de todas as
  classes que concordam com as arengas da folha oficial, a bem de concluir a
  festa pelos prazeres da boca.

Mas nem isto
  defender melhor a idia.

Os jantares
  pertencem ao nmero das coisas mais transitrias que  dado ao homem encontrar.

Ao meu leitor, se l
  for, peo um brinde em desconto do desalinho destes comentrios.

5 DE MAIO DE 1862.

Cavaco
  - o que vai a cmara fazer? - Uns versos.

Era um dia ...

No vou bem. Este
  exrdio d ares de histria de criana, dessas que eu ouvia  ama, nos tempos
  que l vo, quando no me lembrava de fazer comentrios, e nem de ser lido
  pelos leitores do Dirio, no pressuposto de que sou lido.

O que queria dizer,
  e que to mal encabecei, era que havia h tempos uma revista semanal que eu
  publicava mais ou menos regularmente, comentando inocentemente as ocorrncias
  notveis de cada semana.

Motivo que no
  entram no domnio do pblico interromperam por longas semanas a publicao dos Comentrios que de novo tomo e por cuja regularidade respondo.

No ser por falta
  de matria que eu deixe de comunicar todas as segundas-feiras ao meu leitor a
  opinio que formar acerca das ocorrncias da semana anterior.

Abrangendo o
  escrito, por sua natureza, muitos fatos e muitas esferas, 
    poltica cabe a parte principal, atenta  gravidade da situao e das
  questes a ventilar.

Em um pas onde as
  censuras da imprensa oposicionista se respondem com a personalidade, no  por
  certo fora das cmaras que a vida poltica se pode manifestar. Mas as cmaras
  se abriram. O pas por meio de seus rgos vai perguntar ao governo o que h
  feito na ausncia do corpo legislativo, de que questes
    tratou, que problema resolveu, se tem planos financeiros estudados e
  formulados; at onde lana as suas vistas polticas e administrativas.

Por sua vez o corpo
  legislativo  chamado a contribuir por si para que se defina esta situao
  confusa, marasmtica, sem cor, nem alcance.

Este trabalho 
  longo e pede o concurso do patriotismo.  questo de ser ou no ser. Cabe s
  cmaras provar que o gabinete por inepto no pde continuar na gerncia do
  pas, e que no  para fazer um regulamento de condecoraes e outras ridicularidades que se pem sete homens a testa da
  governana de um imprio.

No  assim de um assalto
  que se tomam graves e importantes funes. A glria tem seus percalos e 
  preciso ganh-la  custa de viglias e estudos, e no (passem-me pela frase que
   de boa laia e adequada) e no  barba longa.

Se o exame do corpo
  legislativo no for profundo e patritico, renunciemos  esperana de termos um
  pas e um governo, porque com ministrios tais, no h pas que prospere, nem
  situao que resista.

 diante de tais
  deveres, mais urgentes agora, que o corpo legislativo se abriu.

Isto quanto  parte
  poltica, e como v o meu leitor,  vasto e farto o campo, se for olhado do seu
  verdadeiro ponto de vista.

No falta onde se
  v buscar matria para comentrio, e alm das ocorrncias acidentais e
  imprevistas, h muito onde ceifar  larga, se me permitem esta expresso roda
  pelo uso.

Estas linhas que a
  deixo no deviam vir encabeadas pelo ttulo que lhes pus, porque na realidade
  de nada da semana me ocupo. Isto  uma espcie de prefcio, uma como orao de
  romeiro que se dispe a atravessar o deserto depois de uma estao.

Al me seja
  propcio e arrede da minha cabea e da minha caravana os flagelos do tempo e o
  encontro dos bedunos.

Ponho fecho a estas
  linhas com a transcrio de uma carta e de uma poesia que me enviou um cultor
  das musas:

"Meu amigo, --
  Abandonado no caminho da vida com o corao vazio das louras crenas que nos
  povoam a alma, quando o cu  para ns todo de um azul sem nuvens e o horizonte
  dessa cor de rosa de que vestimos todas as aspiraes do esprito, apraz-me s
  vezes em trazer  memria os dias do meu passado, desse passado que vi cair na
  imensido do nada, como essas centelhas de luz que morrem na escurido das trevas.

"E' triste este
  viver assim, quando ainda em meia vida, o esprito cansado se volve ao passado
  procurando embeber-se dele, porque o futuro est morto, ou pelo menos despido
  de todas as iluses da juventude!"

 Em um desses
  momentos atirei sobre o papel estas linhas que te envio . . .

Ei-las

Amei na aurora da
  vida,

E morro da vida em
  flor,

 sempre assim a
  existncia:

Ao riso sucede a
  dor.

Desfolhei rosas sem
  conta,

Perfumes
  mil respirei;

E nessa luta de
  afetos

Nem um sincero encontrei

Minha alma descreu
  de tudo,

Dos sonhos de que
  viveu,

Centelha de luz
  perdida,

Suspiro que alm
  morreu!

Bethencout da Silva.
