TEATRO, Quase ministro,1864

Quase ministro

Texto-fonte:

Teatro de Machado de Assis, org. de Joo Roberto Faria,

So Paulo:
  Martins Fontes, 2003.

Publicada
  originalmente na Semana Ilustrada,
  Rio de Janeiro, 1864.

NOTA PRELIMINAR

Esta comdia foi expressamente
  escrita para ser representada em um sarau literrio e artstico, dado a 22 de
  novembro do ano passado (1862), em casa de alguns amigos na rua da Quitanda.

Os cavalheiros que se encarregaram
  dos diversos papis foram Os Senhores Morais Tavares, Manuel de Melo, Ernesto Cibro, Bento Marques, Insley Pacheco, Artur Napoleo, Muniz Barreto e Carlos Schramm.
  O desempenho, como podem atestar os que l estiveram, foi muito acima do que se
  podia esperar de amadores.

Pela representao da comdia se
  abriu o sarau, continuando com a leitura de escritos poticos e a execuo de
  composies musicais.

Leram composies poticas os
  Senhores: conselheiro Jos Feliciano de Castilho, fragmentos de uma excelente
  traduo do Fausto; Bruno Seabra, fragmentos do seu poema Dom Fuas, do gnero humorstico, em que a sua musa se
  distingue sempre; Ernesto Cibro, uma graciosa e
  delicada poesia -- O Campo Santo; Doutor Pedro Lus -- Os voluntrios
    da morte, ode eloqente sobre a Polnia; Faustino de Novais, uns
  sentidos versos de despedida a Artur Napoleo; finalmente, o prprio autor da
  comdia.

Executaram excelentes pedaos de
  msica os Senhores: Artur Napoleo, A. Arnaud, Schramm e Wagner, pianistas; Muniz Barreto e Bernardelli, violinistas; Tronconi, harpista; Reichert, flautista; Bolgiani, Tootal, Wilmoth, Orlandini e Fernand, cantores.

A este grupo de artistas,  de
  rigor acrescentar o nome do Senhor Leopoldo Heck,
  cujos trabalhos de pintura so bem conhecidos, e que se encarregou de ilustrar o programa do sarau afixado na sala.

O sarau era o sexto ou stimo dado
  pelos mesmos amigos, reinando neste, como em todos, a franca alegria e convivncia cordial a que davam lugar o bom gosto da direo e
  a urbanidade dos diretores.

PERSONAGENS

LUCIANO MARTINS, deputado

DOUTOR SILVEIRA

JOS PACHECO

CARLOS BASTOS

MATEUS

LUS PEREIRA

MLLER

AGAPITO

Ao -- Rio de Janeiro.

(Sala em
  casa de Martins.)

Cena I

MARTINS, SILVEIRA

SILVEIRA

(entrando)

Primo Martins, abraa este
  ressuscitado!

MARTINS

Como assim?

SILVEIRA

No imaginas. Senta-te, senta-te.
  Como vai a prima?

MARTINS

Est boa. Mas que foi?

SILVEIRA

Foi um milagre. Conheces aquele
  meu alazo?

MARTINS

Ah! basta; histria de cavalos...
  que mania!

SILVEIRA

 um vcio, confesso. Para mim no
  h outros: nem fumo, nem mulheres, nem jogo, nem vinho; tudo isso que muitas
  vezes se encontra em um s homem, reuni-o eu na paixo dos cavalos; mas que no
  h nada acima de um cavalo soberbo, elegante, fogoso. Olha, eu compreendo
  Calgula.

MARTINS

Mas, enfim...

SILVEIRA

A histria?  simples. Conheces o
  meu Intrpido? E um lindo alazo! Pois ia eu h pouco, comodamente
  montado, costeando a praia de Botafogo; ia distrado, no sei em que pensava.
  De repente, um tlburi que vinha em frente esbarra e tomba. O Intrpido espanta-se;
  ergue as patas dianteiras, diante da massa que ficara defronte, donde saam
  gritos e lamentos. Procurei cont-lo, mas qual! Quando dei por mim rolava muito
  prosaicamente na poeira. Levantei-me a custo; todo o corpo me doa; mas enfim
  pude tomar um carro e ir mudar de roupa. Quanto ao alazo, ningum deu por ele;
  deitou a correr at agora.

MARTINS

Que maluco!

SILVEIRA

Ah! mas as comoes... E as folhas
  amanh contando o fato: 'DESASTRE. -- Ontem, o jovem e estimado
  Dr. Silveira Borges, primo do talentoso deputado Luciano Alberto Martins,
  escapou de morrer... etc.". S isto!

MARTINS

Acabaste a histria do teu
  desastre?

SILVEIRA

Acabei.

MARTINS

Ouve agora o meu.

SILVEIRA

Ests ministro, aposto!

MARTINS

Quase.

SILVEIRA

Conta-me isto. Eu j tinha ouvido filar
  na queda do ministrio.

MARTINS

Faleceu hoje de manh.

SILVEIRA

Deus lhe fale n'alma!

MARTINS

Pois creio que vou ser convidado
  para uma das pastas.

SILVEIRA

Ainda no foste?

MARTINS

Ainda no; mas a coisa j  to
  sabida na cidade, ouvi isto em tantas partes, que julguei dever voltar para
  casa  espera do que vier.

SILVEIRA

Muito bem! D c um abrao! No 
  um favor que te fazem; mereces, mereces...  primo, eu tambm posso servir em
  alguma pasta?

MARTINS

Quando houver uma pasta dos alazes...
  (batem palmas) Quem ser?

SILVEIRA

Ser a pasta?

MARTINS

V quem . (Silveira vai  porta. Entra Pacheco)

Cena II

OS MESMOS E JOS PACHECO

PACHECO

V. Exa. d-me licena?

MARTINS

Pode entrar.

PACHECO

No me conhece?

MARTINS

No tenho a honra...

PACHECO

Jos Pacheco.

MARTINS

Jos...

PACHECO

Estivemos h dois dias juntos em casa do Bernardo. Fui-lhe apresentado por um colega da
  cmara.

MARTINS

Ah! (a Silveira, baixo) Que
  me querer?

SILVEIRA

(baixo)

J cheiras a ministro.

PACHECO

(sentando-se)

D licena?

MARTINS

Pois no! (senta-se)

PACHECO

Ento que me diz  situao? Que
  me diz  situao? Eu j previa isto. No sei se teve a bondade de ler uns
  artigos meus assinados -- Armand Carrel. Tudo o que acontece hoje est l anunciado.
  Leia-os, e ver. No sei se os leu?

MARTINS

Tenho uma idia vaga.

PACHECO

Ah! pois ento h de lembrar-se de
  um deles, creio que  o IV, no,  o V. Pois nesse artigo est previsto o que
  aconteceu hoje, tim tim por tim tim.

SILVEIRA

Ento V.S.  profeta?

PACHECO

Em poltica ser lgico  ser
  profeta. Apliquem-se certos princpios a certos fatos, a conseqncia  sempre
  a mesma. Mas  mister que haja os fatos e os princpios...

SILVEIRA

V.S. aplicou-os?...

PACHECO

Apliquei, sim, senhor, e
  adivinhei. Leia o meu V artigo, e ver com que certeza matemtica pintei a
  situao atual. Ah! ia-me esquecendo (a
    Martins), receba V. Exa. os meus sinceros parabns.

MARTINS

Por qu?

PACHECO

No foi chamado para o ministrio?

MARTINS

No estou decidido.

PACHECO

Na cidade no se fala em outra
  coisa.  uma alegria geral. Mas, por que no est decidido? No quer aceitar?

MARTINS

No sei ainda.

PACHECO

Aceite, aceite!  digno; e digo mais,
  na atual situao, o seu concurso pode servir de muito.

MARTINS

Obrigado.

PACHECO

 o que lhe digo. Depois dos meus
  artigos, principalmente o V, no  lcito a ningum recusar uma pasta, s se
  absolutamente no quiser servir o pas. Mas nos meus artigos est tudo,  uma
  espcie de compndio. Demais, a situao  nossa; nossa, repito, porque eu sou
  do partido de V. Exa.

MARTINS

 muita honra.

PACHECO

Uma vez que se compenetre da
  situao, est tudo feito. Ora diga-me, que poltica pretende seguir?

MARTINS

A do nosso partido.

PACHECO

 muito vago isso. O que eu
  pergunto  se pretende governar com energia ou com moderao. Tudo depende do
  modo. A situao exige um, mas o outro tambm pode servir...

MARTINS

Ah!

SILVEIRA

( parte)

Que maante!

PACHECO

Sim, a energia ...  isso, a
  moderao, entretanto... (mudando o tom) Ora, sinto deveras que no
  tivesse lido os meus artigos, l vem tudo isso.

MARTINS

Vou l-los... Creio que j os li,
  mas lerei segunda vez. Estas coisas devem ser lidas muitas vezes.

PACHECO

No tem dvida, como os
  catecismos. Tenho escrito outros muitos; h doze anos que no fao outra coisa;
  presto religiosa ateno aos negcios do estado, e emprego-me em prever as
  situaes. O que nunca me aconteceu foi atacar ningum; no vejo as pessoas,
  vejo sempre as idias. Sou capaz de impugnar hoje os atos de um ministro e ir
  amanh almoar com ele.

SILVEIRA

V-se logo.

PACHECO

Est claro!

MARTINS

(baixo a Silveira)

Ser tolo ou velhaco?

SILVEIRA

Uma e outra coisa. (alto) Ora,
  no me dir, com tais disposies, por que no segue a carreira poltica? Por
  que no se prope a uma cadeira no parlamento?

PACHECO

Tenho meu amor prprio, espero que
  ma ofeream.

SILVEIRA

Talvez receiem ofend-lo.

PACHECO

Ofender-me?

SILVEIRA

Sim, a sua modstia...

PACHECO

Ah! modesto sou; mas no ficarei
  zangado.

SILVEIRA

Se lhe oferecerem uma cadeira...
  est bom. Eu tambm no; nem ningum. Mas eu acho que se devia propor; fazer um
  manifesto, juntar os seus artigos, sem faltar o V...

PACHECO

Esse principalmente. Cito a boa
  soma de autores. Eu, de ordinrio, cito muitos autores.

SILVEIRA

Pois  isso, escreva o manifesto e
  apresente-se.

PACHECO

Tenho medo da derrota.

SILVEIRA

Ora, com as suas habilitaes...

PACHECO

 verdade, mas o mrito  quase
  sempre desconhecido, e enquanto eu vegeto nos -- a
    pedidos dos jornais, vejo muita gente chegar a cumieira da fama. (a Martins) Ora diga-me, o que pensar V. Exa. quando eu lhe
  disser que redigi um folheto e que vou imprimi-lo?

MARTINS

Pensarei que...

PACHECO

(metendo a mo no bolso)

Aqui lho trago. (tira um rolo
  de papel) Tem muito que fazer?

MARTINS

Alguma coisa.

SILVEIRA

Muito, muito.

PACHECO

Ento no pode ouvir o meu
  folheto?

MARTINS

Se me dispensasse agora...

PACHECO

Pois sim, em outra ocasio. Mas em
  resumo  isso; trato dos meios de obter uma renda trs vezes maior do que a que
  temos sem lanar mo de emprstimos, e mais ainda, diminuindo os impostos.

SILVEIRA

Oh!

PACHECO

(guardando o rolo)

Custou-me muitos dias de trabalho,
  mas espero fazer barulho.

SILVEIRA

( parte)

Ora espera... (alto) Mas
  ento, primo...

PACHECO

Ah!  primo de V. Exa.?

SILVEIRA

Sim, senhor.

PACHECO

Logo vi, h traos de famlia;
  v-se que  um moo inteligente. A inteligncia  o principal trao da famlia
  de V. Exas. Mas dizia...

SILVEIRA

Dizia ao primo que vou decididamente
  comprar uns cavalos do Cabo magnficos. No sei se os viu j. Esto na cocheira
  do major...

PACHECO

No vi, no senhor.

SILVEIRA

Pois, senhor,
  so magnficos!  a melhor estampa que tenho visto, todos do mais puro
  castanho, elegantes, delgados, vivos. O major encomendou trinta; chegaram seis;
  fico com todos. Vamos ns v-los?

PACHECO

(aborrecido)

Eu no entendo de cavalos. (levanta-se) Ho de dar-me licena. (a Martins) V. Exa. janta s cinco?

MARTINS

Sim, senhor, quando quiser...

PACHECO

Ah! hoje mesmo, hoje mesmo. Quero saber se aceitar ou no. Mas se quer um conselho de
  amigo, aceite, aceite. A situao esta talhada para um homem como V. Exa. No a
  deixe passar. Recomendaes a toda a sua famlia. Meus senhores. (da porta) Se
  quer, trago-lhe uma coleo dos meus artigos?

MARTINS

Obrigado, c os tenho.

PACHECO

Bem, sem mais cerimnia.

Cena III

MARTINS, SILVEIRA

MARTINS

Que me dizes a isto?

SILVEIRA

 um parasita, est claro.

MARTINS

E vir jantar?

SILVEIRA

Com toda a certeza.

MARTINS

Ora esta!

SILVEIRA

 apenas o comeo; no passas
  ainda de um quase-ministro. Que acontecer quando o fores de todo?

MARTINS

Tal preo no vale o trono.

SILVEIRA

Ora, aprecia l a minha filosofia.
  S me ocupo dos meus alazes, mas quem se lembra de me vir oferecer artigos
  para ler e estmagos para alimentar? Ningum. Feliz obscuridade!

MARTINS

Mas a sem-cerimnia...

SILVEIRA

Ah! querias que fossem acanhados?
  So lestos, desembaraados, como em suas prprias casas. Sabem tocar a corda.

MARTINS

Mas enfim, no h muitos como
  este. Deus nos livre! Seria uma praga! Que maante! Se no lhe falas em
  cavalos, ainda aqui estava! (batem palmas)
  Ser outro?

SILVEIRA

Ser o mesmo?

Cena IV

OS MESMOS, CARLOS BASTOS

BASTOS

Meus senhores...

MARTINS

Queira sentar-se. (sentam-se) Que deseja?

BASTOS

Sou filho das musas.

SILVEIRA

Bem, com licena.

MARTINS

Onde vais?

SILVEIRA

Vou l dentro falar  prima.

MARTINS

(baixo)

Presta-me o auxlio dos teus
  cavalos.

SILVEIRA

(baixo)

No  possvel, este conhece o Pgaso. Com licena.

Cena V

MARTINS, BASTOS

BASTOS

Dizia eu que sou filho das
  musas... Com efeito, desde que me conheci, achei-me logo entre elas. Elas me influram
  a inspirao e o gosto da poesia, de modo que, desde os mais tenros anos, fui
  poeta.

MARTINS

Sim, senhor, mas...

BASTOS

Mal comecei a ter entendimento,
  achei-me logo entre a poesia e a prosa, como Cristo entre o bom e o mau ladro.
  Ou devia ser poeta, conforme me podia o gnio, ou lavrador, conforme meu pai
  queria. Segui os impulsos do gnio; aumentei a lista dos poetas e diminu a dos
  lavradores.

MARTINS

Porm...

BASTOS

E podia ser o contrrio? H algum
  que fuja a sua sina? V. Exa. no  um exemplo? No se acaba de dar s suas
  brilhantes qualidades polticas a mais honrosa sano? Corre ao menos por toda
  a cidade.

MARTINS

Ainda no  completamente exato.

BASTOS

Mas h de ser, deve ser. (depois
  de uma pausa) A poesia e a poltica acham-se ligadas por um lao
  estreitssimo. O que  a poltica? Eu a comparo a Minerva. Ora, Minerva  filha
  de Jpiter, como Apolo. Ficam sendo, portanto, irms. Deste estreito parentesco
  nasce que a minha musa, apenas soube do triunfo poltico de V. Exa., no pde
  deixar de dar alguma cpia de si. Introduziu-me na cabea a fasca divina,
  emprestou-me as suas asas, e arrojou-me at onde se arrojava Pndaro. H de me
  desculpar, mas agora mesmo parece-me que ainda por l ando.

MARTINS

( parte)

Ora d-se.

BASTOS

Longo tempo
  vacilei; no
    sabia se devia fazer uma ode ou um poema. Era melhor o poema, por oferecer um
    quadro mais largo, e poder assim conter mais comodamente todas as aes grandes
    da vida de V. Exa.; mas um poema s deve pegar do heri quando ele morre; e V.
    Exa., por fortuna nossa, ainda se acha entre os vivos. A ode prestava-se mais,
    era mais curta e mais prpria. Desta opinio foi a musa que me inspirou a melhor composio que at hoje tenho feito. V. Exa. vai
    ouvi-la. (mete a mo no bolso)

MARTINS

Perdo, mas agora no me 
  possvel.

BASTOS

Mas...

MARTINS

D c; lerei mais tarde.
  Entretanto, cumpre-me dizer que ainda no  cabida, porque ainda no sou
  ministro.

BASTOS

Mas h de ser, deve ser. Olhe, ocorre-me
  uma coisa. Naturalmente hoje  tarde j isso est decidido. Seus amigos e
  parentes viro provavelmente jantar com V. Exa.; ento no melhor da festa,
  entre a pra e o queijo, levanto-me eu, como Horcio a mesa de Augusto, e
  desfio a minha ode! Que acha?  muito melhor,  muito melhor.

MARTINS

Ser melhor no a ler; pareceria
  encomenda.

BASTOS

Oh! Modstia! Como assenta bem em
  um ministro!

MARTINS

No  modstia.

BASTOS

Mas quem poder supor que seja encomenda?
  O seu carter de homem pblico repele isso, tanto quanto repele o meu carter
  de poeta. H de se pensar o que realmente : homenagem de um filho das musas a
  um aluno de Minerva. Descanse, conte com a sobremesa potica.

MARTINS

Enfim...

BASTOS

Agora, diga-me, quais so as
  dvidas para aceitar esse cargo?

MARTINS

So secretas.

BASTOS

Deixe-se disso; aceite, que  o
  verdadeiro. V. Exa. deve servir o pas.  o que eu sempre digo a todos... Ah!
  no sei se sabe: de h cinco anos a esta parte tenho sido cantor de todos os
  ministrios.  que, na verdade, quando um ministrio sobe ao poder, h razes
  para acreditar que far a felicidade da nao. Mas nenhum a fez; este h de ser
  exceo: V. Exa. est nele e h de obrar de modo que merea as bnos do
  futuro. Ah! os poetas so um tanto profetas.

MARTINS

(levantando-se)

Muito obrigado. Mas h de me
  desculpar. (v o relgio) Devo sair.

BASTOS

Eu tambm saio e terei muita honra
  de ir  ilharga de V. Exa.

MARTINS

Sim... mas, devo sair daqui a
  pouco.

BASTOS

(sentando-se)

Bem, eu espero.

MARTINS

Mas  que eu tenho de ir para o
  interior de minha casa; escrever umas cartas.

BASTOS

Sem cerimnia. Sairemos depois e
  voltaremos... V. Exa. janta s cinco?

MARTINS

Ah! quer esperar?

BASTOS

Quero ser dos primeiros que o
  abracem, quando vier a confirmao da notcia; quero antes de todos estreitar
  nos braos o ministro que vai salvar a nao.

MARTINS

(meio zangado)

Pois fique, fique.

Cena VI

OS MESMOS, MATEUS

MATEUS

 um criado de V. Exa.

MARTINS

Pode entrar.

BASTOS

( parte)

Ser algum colega? Chega tarde!

MATEUS

No tenho a honra de ser conhecido
  por V. Exa., mas, em poucas palavras, direi quem sou...

MARTINS

Tenha a bondade de sentar-se.

MATEUS

(vendo Bastos)

Perdo; est com gente; voltarei
  em outra ocasio.

MARTINS

No, diga o que quer, este senhor
  vai j.

BASTOS

Pois no! ( parte) Que remdio! (alto)
  s ordens de V. Exa.; at logo... no me demoro muito.

Cena VII

MARTINS, MATEUS

MARTINS

Estou s suas ordens.

MATEUS

Primeiramente deixe-me dar-lhe os
  parabns; sei que vai ter a honra de sentar-se nas poltronas do Executivo, e eu acho que  do meu dever congratular-me com a nao.

MARTINS

Muito obrigado. ( parte)  sempre a mesma cantilena.

MATEUS

O pas tem acompanhado os passos
  brilhantes da carreira poltica de V. Exa. Todos contam que, subindo ao
  ministrio, V. Exa. vai dar  sociedade um novo tom. Eu penso do mesmo modo.
  Nenhum dos gabinetes anteriores compreendeu as verdadeiras necessidades da
  ptria. Uma delas  a idia que eu tive a honra de apresentar h cinco anos, e para cuja realizao ando pedindo um
  privilgio. Se V. Exa. no tem agora muito que fazer, vou explicar-lhe a minha
  idia.

MARTINS

Perdo; mas como eu posso no ser
  ministro, desejava no entrar por ora no conhecimento de uma coisa que s ao
  ministro deve ser comunicada.

MATEUS

No ser ministro! V. Exa. no sabe
  o que est dizendo... No ser ministro , por outros termos, deixar o pas 
  beira do abismo com as molas do maquinismo social emperradas... No ser
  ministro! Pois  possvel que um homem, com os talentos e os instintos de V.
  Exa. diga semelhante barbaridade?  uma barbaridade. Eu j no estou
  em mim... No
  ser
  ministro!

MARTINS

Basta, no se aflija desse modo.

MATEUS

Pois no me hei de afligir?

MARTINS

Mas ento a sua idia?

MATEUS

(depois de limpar a testa com o leno)

A minha idia  simples como gua.
  Inventei uma peca de artilharia; coisa inteiramente nova; deixa atrs de si
  tudo o que ate hoje tem sido descoberto.  um invento que pe na mo do pas,
  que o possuir, a soberania do mundo.

MARTINS

Ah! Vejamos.

MATEUS

No posso explicar o meu segredo,
  porque seria perd-lo. No  que eu duvide da discrio de V. Exa.; longe de
  mim semelhante idia; mas  que V. Exa. sabe que estas coisas tm mais virtude
  quando so inteiramente secretas.

MARTINS

 justo; mas diga-me l, quais so
  as propriedades da sua pea?

MATEUS

So espantosas. Primeiramente, eu
  pretendo denomin-la: o raio de Jpiter, para honrar com um nome majestoso a majestade do meu invento. A pea  montada
  sobre uma carreta, a que chamarei locomotiva, porque no  outra coisa. Quanto
  ao modo de operar  a que est o segredo. A pea tem sempre um depsito de
  plvora e bala para carregar, e vapor para mover a mquina. Coloca-se no meio
  do campo e deixa-se... No lhe bulam. Em comeando o fogo, entra a pea a
  mover-se em todos os sentidos, descarregando bala sobre bala, aproximando-se ou
  recuando, Segundo a necessidade. Basta uma para destroar um exrcito; calcule
  o que no ser umas doze, como esta.  ou no a soberania do mundo?

MARTINS

Realmente,  espantoso. So peas
  com juzo.

MATEUS

Exatamente.

MARTINS

Deseja ento um privilgio?

MATEUS

Por ora...  natural que a
  posteridade me faa alguma coisa... Mas tudo isso pertence ao futuro.

MARTINS

Merece, merece.

MATEUS

Contento-me com o privilgio... Devo
  acrescentar que alguns ingleses, alemes e americanos, que, no
  sei como, souberam deste invento, j me propuseram, ou a venda dele, ou uma
  carta de naturalizao nos respectivos pases; mas eu amo a minha ptria e os
  meus ministros.

MARTINS

Faz bem.

MATEUS

Est V. Exa. informado das
  virtudes da minha pea. Naturalmente daqui a pouco  ministro. Posso contar com
  a sua proteo?

MARTINS

Pode; mas eu no respondo pelos
  colegas.

MATEUS

Queira V. Exa., e os colegas cedero.
  Quando um homem tem as qualidades e a inteligncia superior de V. Exa., no
  consulta, domina. Olhe, eu fico descansado a este respeito.

Cena VIII

OS MESMOS, SILVEIRA

MARTINS

Fizeste bem
  em vir. Fica
  um momento
  conversando com este senhor.  um inventor e pede um privilgio. Eu vou sair;
  vou saber novidades. ( parte) Com efeito, a coisa tarda. (alto) At
  logo. Aqui estarei sempre s suas ordens. Adeus, Silveira.

BASTOS

(baixo a Martins)

Ento, deixas-me s?

MARTINS

(baixo)

Agenta-te. (alto) At sempre!

MATEUS

s ordens de V. Exa.

Cena IX

MATEUS, SILVEIRA

MATEUS

Eu tambm me vou embora.  parente
  do nosso ministro?

SILVEIRA

Sou primo.

MATEUS

Ah!

SILVEIRA

Ento V. S. inventou alguma coisa?
  No foi a plvora?

MATEUS

No foi, mas cheira a isso...
  Inventei uma pea.

SILVEIRA

Ah!

MATEUS

Um verdadeiro milagre... Mas no 
  o primeiro; tenho inventado outras coisas. Houve um tempo em que me zanguei; ningum
  fazia caso de mim; recolhi-me ao silncio, disposto a no inventar mais nada.
  Finalmente, a vocao sempre vence; comecei de novo a inventar, mas nada fiz
  ainda que chegasse  minha pea. Hei de dar nome ao sculo XIX.

Cena X

OS MESMOS, LUS PEREIRA

PEREIRA

S. Exa. est em casa?

SILVEIRA

No, senhor. Que desejava?

PEREIRA

Vinha dar-lhe os parabns.

SILVEIRA

Pode sentar-se.

PEREIRA

Saiu?

SILVEIRA

H pouco.

PEREIRA

Mas volta?

SILVEIRA

H de voltar.

PEREIRA

Vinha dar-lhe os parabns... e
  convid-lo.

SILVEIRA

Para qu, se no  curiosidade?

PEREIRA

Para um jantar.

SILVEIRA

Ah! ( parte) Est feito. Este oferece jantares.

PEREIRA

Est j
  encomendado. L se encontraro vrias notabilidades do pas. Quero fazer ao
  digno ministro, sob cujo teto tenho a honra de falar neste momento, aquelas honras que o talento e a virtude merecem.

SILVEIRA

Agradeo
  em nome dele esta prova...

PEREIRA

V.S. pode
  at fazer parte da nossa festa.

SILVEIRA

 muito
  honra.

PEREIRA

 meu
  costume, quando sobe um ministrio, escolher o ministro mais simptico, e
  oferecer-lhe um jantar. E h uma coisa singular: conto os meus filhos por
  ministrios. Casei-me em 50; da para c, tantos ministrios, tantos filhos.
  Ora, acontece que de cada pequeno meu  padrinho um ministro, e fico eu assim
  espiritualmente aparentado com todos os gabinetes. No ministrio que caiu,
  tinha eu dois compadres. Graas a Deus, posso faz-lo sem diminuir as minhas
  rendas.

SILVEIRA

(
  parte)

O que
  lhe come o jantar  quem batiza o filho.

PEREIRA

Mas o nosso ministro, demorar-se-
  muito?

SILVEIRA

No sei... ficou de voltar.

MATEUS

Eu peco licena para me retirar. (
  parte, a Silveira) No posso ouvir isto.

SILVEIRA

J se vai?

MATEUS

Tenho voltas que dar; mas logo c
  estou. No lhe ofereo para jantar, porque vejo que S. Exa. janta fora.

PEREIRA

Perdo, se me quer dar a honra.

MATEUS

Honra... sou eu que a recebo...
  aceito, aceito com muito gosto.

PEREIRA

 no Hotel Ingls, s cinco horas.

Cena XI

OS MESMOS, AGAPITO, MLLER

SILVEIRA

Oh! entra, Agapito!

AGAPITO

Como ests?

SILVEIRA

Trazes parabns?

AGAPITO

E pedidos.

SILVEIRA

O que ?

AGAPITO

Apresento-lhe o Sr. Mller,
  cidado hanoveriano.

SILVEIRA

(a Mller)

Queira sentar-se.

AGAPITO

O Sr. Mller chegou h quatro meses da Europa e deseja contratar o teatro
  lrico.

SILVEIRA

Ah!

MLLER

Tenho debalde perseguido os
  ministros, nenhum me tem atendido. Entretanto, o que eu proponho  um
  verdadeiro negcio da China.

AGAPITO

(a Mller)

Olhe que no  ao ministro que
  est falando,  ao primo dele.

MLLER

No faz mal. Veja se no  negcio
  da China. Proponho fazer cantar os melhores artistas da poca. Os senhores vo
  ouvir coisas nunca ouvidas. Vero o que  um teatro lrico.

SILVEIRA

Bem, no duvido.

AGAPITO

Somente, o Sr. Mller pede uma
  subveno.

SILVEIRA

 justo. Quanto?

MLLER

Vinte e cinco contos por ms.

MATEUS

No  m; e os talentos do pas?
  Os que tiverem  custa do seu trabalho produzido inventos altamente
  maravilhosos? O que tiver posto na mo da ptria a soberania do mundo?

AGAPITO

Ora, senhor! A soberania do mundo
   a msica que vence a ferocidade. No sabe a histria de Orfeu?

MLLER

Muito bem!

SILVEIRA

Eu acho a subveno muito
  avultada.

MLLER

E se eu lhe provar que no ?

SILVEIRA

 possvel, em relao ao esplendor
  dos espetculos; mas nas circunstncias do pas...

AGAPITO

No h circunstncias que procedam
  contra a msica... Deve ser aceita a proposta do Sr. Mller.

MLLER

Sem dvida.

AGAPITO

Eu acho que sim. H uma poro de
  razes para demonstrar a necessidade de um teatro lrico. Se o pas  feliz, 
  bom que oua cantar, porque a msica confirma as comoes da felicidade. Se o
  pas  infeliz,  tambm bom que oua cantar, porque a msica adoa as dores.
  Se o pas  dcil,  bom que oua msica, porque a msica adormece os furores,
  e produz a brandura. Em todos os casos, a msica  til. Deve ser at um meio
  de governo.

SILVEIRA

No contesto nenhuma dessas
  razes; mas meu primo, se for efetivamente ministro, no aceitar semelhante proposta.

AGAPITO

Deve aceitar; mais ainda, se s
  meu amigo, deves interceder pelo Sr. Mller.

SILVEIRA

Por qu?

AGAPITO

(baixo a Silveira)

Filho, eu namoro a prima-dona! (alto) Se me perguntarem quem  a prima-dona, no saberei responder;  um anjo e
  um diabo;  a mulher que resume as duas naturezas, mas a
  mulher perfeita, completa, nica. Que olhos! Que porte! Que donaire! Que p!
  Que voz!

SILVEIRA

Tambm a voz?

AGAPITO

Nela no h primeiros ou ltimos
  merecimentos. Tudo  igual; tem tanta formosura, quanta graa, quanto talento!
  Se a visses! Se a ouvisses!

MLLER

E as outras? Tenho uma andaluza... (levando os dedos  boca e beijando-os) divina!  a flor das andaluzas!

AGAPITO

Tu no conheces as andaluzas.

SILVEIRA

Tenho uma que me mandaram de
  presente.

MLLER

Pois, senhor, eu acho que o
  governo deve aceitar com ambas as mos a minha proposta.

AGAPITO

(baixo a Silveira)

E depois, eu acho que tenho direito
  a este obsquio; votei com vocs nas eleies.

SILVEIRA

Mas...

AGAPITO

No mates o meu amor ainda
  nascente.

SILVEIRA

Enfim, o primo resolver.

Cena XII

OS MESMOS, PACHECO, BASTOS

PACHECO

D licena?

SILVEIRA

( parte)

Oh! a est toda a procisso!

BASTOS

S. Exa.?

SILVEIRA

Saiu. Queiram sentar-se.

PACHECO

Foi naturalmente ter com os
  companheiros para assentar na poltica do gabinete. Eu acho que deve ser a
  poltica moderada.  a mais segura.

SILVEIRA

 a opinio de ns todos.

PACHECO

 a verdadeira opinio. Tudo o que
  no for isto  sofismar a situao.

BASTOS

Eu no sei se isso  o que a
  situao pede; o que sei  que S. Exa. deve colocar-se na altura que lhe
  compete, a altura de um Hrcules. O dficit  o leo de Nemia;
   preciso mat-lo. Agora se para aniquilar esse monstro,  preciso energia ou
  moderao, isso no sei; o que sei  que  preciso talento e muito talento, e
  nesse ponto ningum pode ombrear com S. Exa.

PACHECO

Nesta ltima parte concordamos
  todos.

BASTOS

Mas que moderao  essa? Pois faz-se jus aos cantos do poeta e ao cinzel do estaturio com
  um sistema de moderao? Recorramos aos heris... Aquiles foi moderado? Heitor
  foi moderado? Eu falo pela poesia, irm carnal da poltica, porque ambas so
  filhas de Jpiter.

PACHECO

Sinto no ter agora os meus
  artigos. No posso ser mais claro do que fui naquelas pginas, realmente as
  melhores que tenho escrito.

BASTOS

Ah! V. S. tambm escreve?

PACHECO

Tenho escrito vrios artigos de
  apreciao poltica.

BASTOS

Eu escrevo em verso; mas nem por
  isso deixo de sentir prazer, travando conhecimento com V.S.

PACHECO

Oh! Senhor.

BASTOS

Talvez... Eu j disse que sou da
  poltica de S. Exa.; e contudo ainda no sei (para falar sempre em Jpiter...)
  ainda no sei se ele  filho de Jpiter Libertador ou Jpiter Stator; mas j sou da poltica de S. Exa.; e isto porque
  sei que, filho de um ou de outro, h de sempre governar na forma indicada pela
  situao, que  a mesma j prevista nos meus artigos, principalmente o V...

Cena XIII

OS MESMOS, MARTINS

BASTOS

A chega S. Exa.

MARTINS

Meus senhores...

SILVEIRA

(apresentando Pereira)

Aqui o
  senhor vem convidar-te para jantar com ele.

MARTINS

Ah!

PEREIRA

 verdade; soube da sua nomeao e
  vim, conforme o corao me pediu, oferecer-lhe uma prova pequena da minha
  simpatia.

MARTINS

Agradeo a simpatia; mas o boato
  que correu hoje, desde manh,  falso... O ministrio est completo, sem mim.

TODOS

Ah!

MATEUS

Mas quem so os novos?

MARTINS

No sei.

PEREIRA

( parte)

Nada, eu no posso perder um
  jantar e um compadre.

BASTOS

( parte)

E a minha ode? (a Mateus) Fica?

MATEUS

Nada, eu vou. (aos outros) Vou saber quem  o novo ministro
  para oferecer-lhe o meu invento...

BASTOS

Sem incmodo, sem incmodo.

SILVEIRA

(a Bastos e Mateus)

Esperem um pouco.

PACHECO

E no sabe qual ser a poltica do
  novo ministrio?  preciso saber. Se no for a moderao, est perdido. Vou averiguar
  isso.

MARTINS

No janta conosco?

PACHECO

Um destes dias... obrigado... at
  depois...

SILVEIRA

Mas esperem: onde vo? Ouam ao menos uma histria.  pequena, mas conceituosa. Um dia anunciou-se
  um suplcio. Toda gente correu a ver o espetculo feroz. Ningum ficou em casa:
  velhos, moos, homens, mulheres, crianas, tudo invadiu a praa destinada 
  execuo. Mas, porque viesse o perdo  ltima hora, o espetculo no se deu e
  a forca ficou vazia. Mais ainda: o enforcado, isto , o condenado, foi em
  pessoa  praa pblica dizer que estava salvo e confundir com o povo as
  lgrimas de satisfao. Houve um rumor geral, depois um grito, mais dez, mais
  cem, mais mil romperam de todos os ngulos da praa, e uma chuva de pedras deu
  ao condenado a morte de que o salvara a real clemncia. -- Por favor,
  misericrdia para este. (apontando para Martins) No tem culpa nem da
  condenao, nem da absolvio.

PEREIRA

A que vem isto?

PACHECO

Eu no lhe acho graa alguma!

BASTOS

Histrias da carochinha!

MATEUS

Ora adeus! Boa tarde.

OS OUTROS

Boa Tarde.

Cena XIV

MARTINS e SILVEIRA

MARTINS

Que me dizes a isto?

SILVEIRA

Que hei de dizer! Estavas a
  surgir... dobraram o joelho: repararam que era uma
  aurora boreal, voltaram as costas e l se vo em busca do sol... So
  especuladores!

MARTINS

Deus te livre destes e de
  outros...

SILVEIRA

Ah! Livra... livra. Afora os
  incidentes como o Botafogo... ainda no me arrependi das minhas loucuras, como
  tu lhes chamas. Um alazo no leva ao poder, mas tambm no leva  desiluso.

MARTINS

Vamos jantar.

FIM
