Conto, O ltimo dia de um poeta, 1867

O ltimo dia de um poeta

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1867.

I

So nove horas da manh.

Entra-me o sol vivo e ardente
pelas frestas das venezianas. Parece que me convida a deixar o leito, e como
que a reviver. Reviver!  esta a palavra: reviver quando estou certo de que
poucos dias ou apenas horas me separam da sepultura. No parece um escrnio da
morte? No parece que para melhor sentir o que vou perder, deixando a vida,
quer a morte que eu toque pela ltima vez os tesouros da felicidade que me
ficam na terra?

Melhor fora, decerto, para minha
perfeita contrio, que a natureza me surgisse nos ltimos dias com o seu
aspecto mais sombrio e aflitivo. Ento cuidaria, ao sair do mundo, que deixava
um pesadelo e uma angstia, e que ia respirar os ares puros de uma vida sem
igual.

Depois...

II

Abramos a janela.

Oh! como est bonito o dia! O cu
azul, o sol afogueado, a folhagem palpitando de alegria agita-se ao sopro de um
vento plcido e suave. Estas trepadeiras enchem-me o quarto de perfume; l vejo
o tanque calmo e lmpido em que eu me banhava em pequeno.  o mesmo ainda. As
paredes de pedra tm um aspecto mais venervel, mas tudo isso, aquela murta que
o rodeia, aquelas roseiras que ali brotam e enfloram sem cuidado de ningum,
tudo isso me lembra o tempo de minha meninice.

Mais longe vejo a mangueira
grande, onde eu passava as tardes, abraado ao balano rstico que meus irmos
impeliam no meio da gritaria geral.

A verdura, a gua, a rvore, a
flor, tudo me lembra a dita do tempo em que sem cuidados nem remorsos eu s
cuidava em ser feliz e amar os meus.

Aonde foi agora esse tempo? Passou
como passaram as folhas de todos estes arbustos; mas os arbustos, se perderam
umas ganharam outras, e nem houve, neste abenoado clima, espao algum entre a
queda das primeiras e o abrir das ltimas. S em mim, iluses e esperanas que
me caram uma vez, no me renasceram mais, e eu fiquei, como tronco rido e
seco, chorando o que fui, chorando o que sou, chorando o que hei de ser.

Mas o que di  esta alegria
universal, esta placidez com que a natureza vem assistir  minha morte, garrida
e alegre como se fora um espetculo.  me cruel, que no honras a morte de
teus filhos com uma lgrima de dor e um suspiro de mgoa... Parece que te apraz
cri-los para mat-los, produzi-los com uma iluso, absorv-los com um
desengano, verdadeira condenao dos que no aguardavam esse desengano e
acreditaram nessa iluso...

Tambm eu te mereci esta ironia?
tambm. Que outro absorveu mais essa iluso do que eu? Que outro sorriu mais 
idia do desengano do que eu? Tens direito,  natureza, a vestires hoje as tuas
melhores galas para assistir, no a morte da alma, essa j morreu, mas a do
corpo, que se vai finar miseravelmente como um inseto pisado pela dama
distrada!

III

Sinto-me fraco.

Vou sentar-me.

Esta cadeira alta, forrada de
couro, molde antigo, foi de meu finado av. Feliz homem que pde chegar  mais
avanada idade e s morrer quando o mundo lhe comeava a ser pesado. Todas as
glrias da vida, gozou-as na plena liberdade de um esprito que se no
acovardava e de um corao que no sentia o espinho da desiluso. Essa
impavidez serviu-lhe de amparo; com essa segurana inteira  que atravessou os
anos, sem nada deixar do que levava, porque tambm levava muito pouca coisa.

Tenho defronte de mim um espelho.
Vejo ali refletida metade do corpo; tenho vontade de ir ver o resto. Que
feies apresentarei hoje? Sero as mesmas quebradas e mortais de ontem? Sero
as mesmas animadas e vivas de h trs dias? Uma ou outra coisa, que importa
isso? O espinho da morte sinto eu dentro de mim agudo, dilacerante, mortal...
Que valem as feies? Esperanas ou terrores para o moribundo, sintomas ou
provas para a cincia. Nada mais.

Sinto passos. Abre-se a porta. 
minha me!

IV

 Ah! minha me!

 Que tens? Ests melhor?

 No sei. Talvez que sim.

 Deixa dar-te um beijo; ests
muito melhor... Olha-te ao espelho.

O espelho responde-me como minha
me. Estou muito melhor; minhas feies so outras. Como que renaso.
Principalmente esta visita de minha me  que me d vida... Oh! se eu morresse
longe dela! tudo se altera, tudo se corrompe, tudo se desnatura, mas o amor
daqueles que nos deram o ser, esse nunca;  o amor por excelncia: o amor que
preside ao bero, vela na infncia, ama na mocidade e consola nas desiluses
como estas em que me vou do mundo.

Tudo se alegrou  entrada de minha
me. Coitada! tem os olhos vermelhos de chorar: foi por mim. Lgrimas sinceras
as que ela derramou! Nestas creio. Saltam espontneas dos olhos quando o
corao j se acha demasiado cheio; e s coraes tais se podem encher desse
modo.

Como ela me olha! Parece que
procura adivinhar nas minhas feies a hora da nossa eterna separao! No, no
nos abandonemos  dor; a mesma separao pede agora toda a efuso dos
sentimentos, toda a expanso das almas...

 Meu filho, no sentes vontade de
passear?

 No, minha me. Quero passar
hoje o dia inteiro no meu quarto.  dia de descanso. No  hoje Natal? Quero
hoje viver no pleno repouso do esprito. Demais, esta janela pe-me em
comunicao com a natureza. Como est bonito o dia!  em honra do nascimento do
Salvador, no? E vir o desejado de todas as gentes.  do profeta.

Minha me sentou-se e fez-me
sentar ao p de si.

 Meu filho, disse-me ela, sers
capaz de viver? Deixars de ajudar com o teu desnimo a ao da molstia que te
consome? Ah! por mim te peo, por teu pai...

 Em que ajudo eu a minha
molstia, minha me? No estou alegre? Olhe, j fiz a minha saudao ao sol. 
bom sinal o sol. Eu sempre o adorei como o olhar profundo de Deus. Ele basta
para me dar vida. No morrerei hoje, decerto. Hei de morrer no dia em que
alguma nuvem cobrir o astro do dia. Ento as sombras me levaro s sombras.
Acredite...

 Oh! no fales em morrer.

  mau?

  triste, meu filho.

 No . Quero ser filsofo o meu
tanto. Olhemos a morte como ela deve ser olhada: livramento e no
aniquilamento. Ah!  que realmente sofro...

Minha me abraou-me. Senti que
duas lgrimas me corriam pelas faces. Essas lgrimas eram j resultados de uma
recordao que me acabava de atravessar o esprito. Minha me leu em minha
alma.

 No te esquecers disso?

Minha resposta foi muda.
Levantei-me, fui a uma mesa e beijei um ramo de flores secas, o ramo dela, o
ramo fatdico, o ramo destruidor.  ali que est a minha morte, ali e no na
molstia. Sinto que  assim.

Depois de alguns instantes de
silncio, minha me levantou-se e veio a mim.

 Meu filho, disse ela, deixa que
eu arrede por algum tempo estas flores. Quando estiveres bom dar-te-ei de novo.
Mas agora de que te servem?

 No, disse eu, as flores ficam.
No fazem mal a ningum.

 Fazem-te mal.

 A mim? Pobres flores!...

Minha me insiste, mas eu recuso.
As flores ficam no meu quarto...

V

Meio-dia...

Acabo de ler duas pginas dos
Salmos de Davi. O rei-poeta consolou minha alma.  destas consolaes que eu
preciso, destas que preparam o esprito para a eternidade...

Hoje de manh acusava a natureza
por vir garrida e alegre assistir talvez ao meu ltimo dia. Como estava o meu
corao! A dor desvaira e eu no sei o que penso nem o que digo. Mas a verdade
 uma; a verdade  esta grande verdade.  infinito,  enfim para ti que eu vou,
como gota de gua desviada que se recolhe ao oceano! Disse h pouco para
consolar minha me, mas disse o que realmente : a morte  livramento, no 
aniquilamento. Sinto que h dentro de mim uma coisa que anseia por livrar-se
desta priso para lanar-se na eternidade e no infinito. Grande, suave,
consoladora esperana! Sem ti, que fora o passamento seno a maior dor e o
maior suplcio? Mas, deixar o mundo com a esperana de que aos olhos mortais se
abre mundo novo, to outro que no este, mundo em que a virtude resplandecer e
a paz eterna compensar as atribulaes da vida!

Alegra-me, comove-me, alvoroa-me
a idia de que no vou todo  sepultura; e que ali,  porta do cemitrio s
ficar de mim o que h de pior em mim mas que o esprito, a luz desta lmpada a
que to cedo vai escasseando o leo, h de remontar ao foco da grande luz.

Deixarei saudades? Deixo; mas o
tempo as consolar, e a esperana de que dia surgir em que o consrcio moral
das criaturas se realizar ante o trono de Deus, deve ser a grande esperana
dos que ficam e dos que vo.

Assim que,  minha me, se em
nossa passagem no mundo nos separamos um pouco, no ser mais do que para
costear uma montanha, at que, rasgando-se aos nossos olhos nova fonte de luz,
possamos entrar para sempre unidos no seio do absoluto.

VI

Uma hora da tarde.

Creio que adormeci um pouco.

Tive um sonho.

Sonhei que assistia  minha
coroao na posteridade. Foi sonho! Que fiz eu para merecer os aplausos dos
homens? Gastei a minha mocidade... em qu? Aqui entra a parte sombria do meu
sonho. Gastei a minha mocidade em amar, com as foras vivas do meu corao, a
quem provou que me no merecia.

Embalde procuro desviar de meu
esprito esta lembrana que me acabrunha e me leva  sepultura.

Pobres flores aquelas! Lembra-me o
lado feliz da histria da minha mocidade. So as relquias do tempo da f pura
e da paz do esprito. Naquele tempo eu a julgava um anjo. E era-o. No sei que
demnio a perseguiu depois e fez-se-lhe introduzir no esprito. Desde a perdi
o ideal para ganhar a morte. Nem podia ser de outro modo.

Ah! Carlota!...

Tenho uma idia. Vou fazer uma
coisa que chamarei o meu testamento.  a revista dos meus papis. Queimarei o
que for intil; deixarei o que puder dar de mim alguma idia, no 
posteridade, mas aos meus amigos. Eles no sabem talvez nada do amigo que lhes
morre.

Cerremos um pouco estas cortinas.
O sol queima demais. Assim  melhor. Meu Deus, como esto estas gavetas!
Dissera-se que h aqui a matria de vinte poemas... Talvez. Que sou eu prprio
seno um poema trgico?

Deitemos isto fora, que no
presta: cartas de alguns indivduos que se diziam amigos meus, no princpio, no
meio e no fim. No  amigo aquele que alardeia a amizade:  traficante; a
amizade sente-se, no se diz... Mas a que vem esta filosofia? Deitemos fora,
simplesmente, estas cartas.

Aqui esto uns versos: As
margaridas. Ah! foram versos que eu escrevi quando ela me deu aquelas flores...
So versos do bom tempo. Devo guard-los? Para qu? No, no servem; eram
talvez bonitos; mas cantavam a mentira, endeusavam a falsidade... No prestam.

Mais versos... So fragmentos de
um poema humorstico: Os solidus.  do tempo da Academia. Diziam todos que era
esta a minha veia. Talvez fosse. Mas as circunstncias mudam tudo, o gnio, o
carter e as tendncias; e o homem de ontem nem sempre  o de hoje, como o de
hoje nem sempre  o de amanh. Foi o que me sucedeu. Se eu tivesse direito a
uma biografia ou a um elogio histrico dava este ponto ao escritor para estudar
e desenvolver.

Este poema, se eu tivesse acabado,
havia de agradar, talvez. Tem por assunto o aparecimento do solidu e o
aodamento com que toda a gente deitou-se a imit-lo para cobrir, mesmo aos
seculares, as coroas que tivessem. O padre Simo era o meu heri em cuja boca
punha eu muitas coisas boas de serem lidas... Devia t-lo acabado. Infelizmente
ficou no primeiro canto. De que serve mais? No presta...

Uma carta de Carlota. Foi das
primeiras.  apaixonada. Ainda me lembra do jbilo em que fiquei quando a
recebi. Parecia doido. Minha me no compreendia a alegria de que eu estava
possudo e receava pela minha razo. Tranqilizei-a contando-lhe tudo, as
minhas esperanas, os meus projetos...

Cuidas,
escrevia-me Carlota, que h frieza em mim? Oh! no creias! Amo-te como nunca
amei a ningum; sinto que encontrei em ti o corpo vivo dos meus sonhos de moa
infeliz. Como te no hei de amar? Fria eu? Sou reservada, porque  preciso
s-lo. Meu tio destinou-me a um homem que eu aborreo; mas teima nisso e eu no
tenho querido romper de uma vez. Tenho esperana de convert-lo  razo. Mas se
julgas que por prova do meu amor devo deixar e acompanhar-te, fala, eu sou tua
escrava. Acredita, meu poeta, que eu te amo como ainda no amou mulher alguma.
 Tua escrava!

Esta expresso matou-me. Escrava!
isto , dependia de mim, vivia de mim, por mim, para mim. Era o amor como eu o
compreendia, como a minha alma ardente o desejava: o amor escravido, o amor
que no faz valer direitos, nem vontades, nem caprichos. Viver assim um do
outro, pelo outro, para o outro, tal era o modo do amor que pode resgatar a
pequenez moral dos homens, em que o interesse e o clculo frio substituram
todos os sentimentos generosos e magnnimos. Este ideal encontrara eu em
Carlota; como no ficaria contente? Mas depressa...

Guardemos esta carta. H de ficar
ao lado desta outra, to diversa, contraste tamanho que assusta e repugna,
irrita e admira; reverso da medalha; face sombria depois da face brilhante;
ponto corrompido depois do ponto so. Ou no: a primeira era a rede do engano:
o fundo moral daquela mulher est na ltima, negro, repulsivo, mas verdadeiro.
Era toda m.

Que me respondia ela s minhas
exprobraes?

... O que deve
fazer  fugir de mim. Se  real esse amor que me diz ter, dou-lhe de conselho
que mude de terra, de modo que longe dos olhos fique-lhe eu longe do corao, o
que ser uma fortuna para ns ambos. Isto  fcil e proveitoso. Quanto aos
juramentos que me recordou, respondo que eu mereceria censura se fizesse de mim
to infalvel que nunca errasse. Ora, eu erro, errei. Salvo-me do erro,
reconhecendo que foi erro e dizendo francamente que a leviandade  que teve
parte nessas promessas to puerilmente solenes. Pense nisto, e ver se no 
assim. Console-se e anime-se,  o que lhe tenho a dizer...

A carta continua;  toda no mesmo
sentido; a impudncia e a crueldade. Ah! se tu soubesses, Carlota, o que me
fizeste e fazes ainda sofrer! ...

Sinto passos.  o mdico. Fechemos
a gaveta.

VII

 Bom dia, doutor.

 Viva, meu doente.

 Como me acha?

 A julgar pelas feies, melhor.
Como passou a noite?

 Assim, assim.

 Mas por que no est deitado?

 No posso. E nem quero. Seria
incivilidade esperar a minha grande visita deitado numa cama.

 Que visita?

 A morte.

 Ora!

 Com certeza. H de dizer-me que
no.  o que se diz a todos os doentes. Parece que isto os anima. Mas se os
anima, descuida-os; e  exatamente o que no me acontece. Estava eu agora
cuidando de arranjar uns papis, a fim de que nada me fique por arranjar quando
eu mudar de domiclio...

 Deixe essas idias.

 Entristece-se? Que faria quando
eu lhe contasse a idia que eu tive ontem?

 Que idia foi?

 Foi a de mandar aprontar e medir
eu mesmo o meu caixo...

 Faz um favor?

 Qual? doutor.

 No fale assim.

  fcil.

 No fale, porque no s isso
atrasa-lhe a cura, como ainda h de entristecer sua me.

 Mas eu no lhe digo nada...

 No basta no dizer.  preciso
mesmo nem falar. As mes so zelosas dos filhos, porque so mes. Muitas vezes
andam a ouvir s portas, para ter certeza do estado dos filhos. Querem
surpreend-los na plena confiana que lhes d a ausncia delas...

Tive uma suspeita: cuidei que
minha me estivesse  porta.

Levantei-me e fui  porta. No
estava.

O doutor esperou-me sorrindo:

 No est, mas podia estar,
disse.

Voltei a sentar-me ao lado do
doutor.

 Oua bem, continuou ele, esta
cisma constante de que h de morrer, estes trabalhos que tem e as suas foras
atuais no comportam, tudo isso torna-o pior. No v como est ansiado...

  a comoo.

 J estava quando eu entrei. Ora
pois, no pense mais em coisas to lgubres, e sobretudo no se ocupe de coisa
alguma. Vamos l: tomou os remdios?

 Tomei.

 E ento?

 Ontem no senti melhoras
algumas; agora estou melhor um pouco, apesar da nsia.

 nsia  por culpa sua... Aposto
que esteve a escrever versos.

 No.

 Nem deve ocupar-se com isso. H
de ser bonito se escreve alguma poesia em que fale da morte e do que vai
deixar, e depois de trs meses fica-me a so como um pero...

Minha resposta foi sorrir-me.

 Ande deitar-se um pouco.

 Para qu?

 Porque a minha visita  mais
longa hoje que de costume, e eu no quero que se canse. V deitar-se, deite-se
e conte-me uma histria.

 Obedeo. Que histria quer?

 Uma histria de meninos. As trs
cidras, O prncipe formoso...

Refleti um pouco e respondi:

 Contar-lhe-ei uma histria
interessante! um pouco velha, mas instrutiva.

VIII

Conheci um rapaz, poeta como eu, e
como eu crente, a mais no poder ser, nas melhores iluses desta vida.

No era rico, devia viver por si;
todavia, pde alcanar meio de preparar-se para uma profisso literria. Foi
estudar. Tinha ao lado das iluses grande bom senso, e a ele deveu correr os
primeiros anos de seus estudos sem cair nos laos do amor. Teve algumas
fantasias, mas fantasias simplesmente, que comeavam e acabavam na mesma noite.
A sorte preparara-lhe... Abre a boca, doutor? A histria o adormece?

 No; pode continuar.

 A sorte preparara-lhe um golpe
profundo, para castig-lo do critrio com que soube fugir s tentaes que
encontrou. Depois de muitas circunstncias que no vm ao caso, achou-se diante
de uma mulher. Imagine o doutor que essa mulher era bela. Imagine mais, que
estava em circunstncias especialmente romanescas. Acabava de perder o marido
que na idade de dezesseis anos seus pais lhe tinham obrigado a tomar. Contava
ento vinte e dois, e a morte daquele homem, se no lhe matou a alma, porque a alma
no se achava ligada a ele, deu-lhe certa tristeza e arrancou-lhe algumas
lgrimas, o que era nela um fundo de honestidade e pureza.

O que  porm certo  que, 
semelhana de uma criatura que deixa a priso em que estivera detida por longos
anos, ela reapareceu ao mundo, assombrada e abatida.

Era uma viva que se achava ainda
solteira. Buscava uma alma para casar. Apareceu-lhe o poeta. Fora da
fatalidade os impeliu um para o outro. Parece que mesmo um para o outro se
tinham conservado, ela na priso que lhe armaram os pais, ele na torre de
marfim de sua sossegada iseno. Mas viram-se e amaram-se. Naturalmente,
pergunta-me, com que amor se amaram? Foi com o verdadeiro amor, o amor que
consorcia desde a primeira hora as almas, as vontades e os pensamentos para
nunca mais se separarem. Nunca mais! Logo mais ver que no foi assim! Vai-se
embora, doutor?

 Tenho que fazer.

 Fique, eu lhe peo.

 Com uma condio.

 Qual?

 No continue essa histria.

 Incomoda-se em ouvi-la?

 Um pouco.

 Deixe disso. No me v calmo? 
verdade que como os fatos j se passaram h longo tempo, e o meu anjo... j
morreu, estou hoje mais a frio e posso cont-la sem enternecer... E demais,
assim ao menos no pensarei na minha visita, a morte.

 Oh! no, no pense nisso! Vamos
l, conte. Mas antes disso tome o remdio, sim?

 Sim.

IX

Tomei o remdio e continuei:

 Amaram-se pois.  preciso
observar que o poeta tinha sede de amor. Atravessara um deserto, onde as
miragens sucediam-se de hora em hora, e chegava enfim ao osis da vida, uma
fonte, uma relva, uma palmeira. Determinou no ir adiante e descansou, com a
longa caravana das suas iluses, sobre a relva,  sombra da palmeira,  beira
da fonte... Desculpe esta linguagem romanesca e oriental:  prpria da
imaginao exaltada.

No existiam j os pais da viva.
Existia um tio que no era nem peixe nem carne; indiferente ao futuro da sua
sobrinha como ao seu prprio. Tinha alguns bens da fortuna, poucos, e que ainda
mais exguos se tornavam em virtude do jogo largo e desesperado que fazia com
eles nas bancas mais concorridas. A sobrinha tinha ainda menos.

O amor do poeta e da viva
prosseguiu cada vez com mais fora e mais intensidade. Mil projetos, mil planos
formavam ambos na doce intimidade dos seus coraes. Eram duas almas
sinceramente poticas. Viam o resto do mundo pelo prisma do seu amor e da sua
fantasia. O lado feio, real, positivo, da existncia aparecia-lhes assim, como
se fora tudo dourado pela luz do cu. Durou esta vida seis meses.

Perguntar-me- por que se no
casaram.  simples. No meio das suas imaginaes no os abandonava certo
critrio frio e necessrio. O casamento era uma obrigao para que ambos se
deviam preparar. O poeta foi o primeiro a adiantar esta considerao a que a
viva se curvou convencida. Mas de novo juraram entre si fidelidade sem quebra,
e o cu que os ouviu pareceu neste momento registrar aquele juramento.

Sucedeu, porm, que se apresentou
diante do poeta um rival ao corao da moa. Era um homem de 37 anos, seco de corpo
e de esprito, inteligncia acanhada, corao mesquinho, vivendo dos sentidos,
e no dos sentimentos, perfeita reproduo, dizia a moa, do primeiro marido
que ela teve. Chamava-se Venncio.

Dizia ter fortuna e tinha, razo
poderosa do arrojo com que entrou em lia competindo com o poeta. A moa
recebeu-o, no com frieza, mas com desdm. Valeu-lhe isto uma repreenso do
tio, que era amigo do pretendente e que o achava merecedor de todos os
respeitos.

 Mas, meu tio, perguntou ela,
sabe que o sr. Barroso quer?

 O que ?

 Quer... amar-me.

 Quem te disse isso?

 Desconfio.

 Ora, desconfianas...

 Oh! no me engano; pode ficar
certo de que  assim.

 Sabes que mais? disse o tio. No
te previnas contra esse homem, respeitvel a todos os respeitos.  um carter
srio, fora dos homens do mundo, capaz de compreender as convenincias, e alm
disso possuidor de uma fortuna. No te rias assim, que  indecente. Eu sei que
as tuas preferncias poticas acham nesta considerao da fortuna uma
considerao sem valor. Isso  criancice. A fortuna  uma das coisas mais
respeitveis.

 Meu tio, observou ela, no
parece estar muito convencido disso. O tio riu-se e, batendo-lhe na face,
acrescentou:

 J sei por que dizes isso... Mas
que queres? so coisas... Enfim, o que desejo  que no maltrates o sr.
Barroso.

Tudo isso foi referido pela moa
ao poeta. Riram ambos da pretenso e da proteo, e descansaram por esse lado.

No quero, doutor, entrar nas mil
particularidades do amor entre o poeta e a viva. Cartas, versos, flores,
sculos sinceros e castos, tudo isso que se troca entre namorados, todos esses
episdios romanescos e to velhos como o mundo, tudo isso se deu entre os meus
dois heris.

Estavam prximos de pedirem o necessrio
consentimento para que a unio legal confirmasse a unio moral em que eles
existiam. Marcaram dia, e o poeta disps-se a usar das palavras mais brandas e
persuasivas que conhecesse da lngua portuguesa para convencer ao tio da sua
amada de que podia fazer a felicidade dela.

Era desnecessrio dizer nada 
prpria me, que desde os primeiros dias do amor do poeta ficou ciente por
confisso dele.

Na vspera do dia aprazado, o
poeta foi ver a viva. Achou-a muito triste. Indagou o motivo dessa tristeza a
que no estava afeito, mas no conseguiu arrancar uma palavra  moa. Respondeu
que tinha dores de cabea, mas depois de muitas instncias e com ar de quem no
dizia a verdade.

Passando a falar do pedido em
casamento, a viva disse ao amante que o adiasse, e quando este lhe perguntou
que razes havia para isso, ela respondeu que lhas comunicaria depois.
Aconteceu logo o que era natural, um pequeno arrufo. E s arrufo, porque ela
deu aquela resposta entre tantos suspiros, com um olhar to convencido, to
sincero, que o poeta no pde, o que lhe seria natural, experimentar maior
desgosto.

O doutor sabe o que so arrufos
dos namorados,  chuva mida da primavera que to depressa vem como vai. No fim
de alguns minutos tinham voltado s boas, e o poeta despedia-se da viva com a
convico de que s uma grande razo faria com que ela adiasse o pedido do
casamento.

Era com efeito uma grande razo,
como vai ver.

Desde aquele dia em diante a viva
mudou. Mais e mais fria, mais e mais reservada, trazia o esprito do poeta
entre a dvida e o desespero, entre a mgoa e a esperana. Que se teria
passado? Em vo o rapaz indagava todos os motivos provveis e possveis; no
podia atinar com a causa de semelhante transformao.

Enfim, uma noite em que se achavam
na casa de uma terceira pessoa, o poeta pde falar a ss  viva. Exps-lhe
francamente o que sentia e fez um franco interrogatrio sobre a tristeza que a
moa apresentava.

As respostas da moa foram
ambguas. O poeta desesperou.

 Por que me no falars com
franqueza, Carlota?

 Quer mais franqueza?

 Oh! no zombes! Tu no calculas
o que sofro, nesta incerteza em que me pes. S franca, prefiro isso.

 No sei que te hei de dizer.

 Dize o que quiseres, inventa, se
te parece, mas dize alguma coisa. Estas respostas ambguas, estas evasivas
transparentes no me consolam, antes me deitam em pior estado. No me amas?

 Amo-te.

 Ento?...

Esta conversa foi interrompida.
Nessa noite no puderam falar mais a ss.

O poeta saiu desesperado. Sentia
que algum segredo existia no fundo daquela tristeza da moa... A suspeita
curvou-se-lhe  cabeceira e introduziu-lhe no esprito mil idias negras que
foram outros tantos demnios que fizeram daquela noite uma noite infernal...

O poeta no dormiu. Depois de vos
esforos levantou-se e foi... escrever versos! triste consolao dos que a
natureza dotou com o gnio da poesia. No fim de uma hora de trabalho em que as
estrofes lhe caam do bico da pena como lgrimas de dor e de saudade, o poeta
tinha transferido parte de sua alma para o papel. Estava mais calmo, sem estar
menos triste.

Dois dias conservou-se em casa sem
falar a pessoa alguma. De hora a hora esperava uma carta de Carlota. Nada. Ao
terceiro dia, desesperado com o silncio da viva, resolveu ir, houvesse o que
houvesse, pedi-la ao tio. J estava em caminho quando lhe ocorreu a idia de
que sem completa averiguao dos motivos da tristeza da moa podia expor-se no
s ao desgosto, mas ainda ao desar. Voltou para casa e escreveu uma carta 
viva pedindo-lhe explicaes.

Veio a resposta. Era um desengano.
Carlota respondia que no podia am-lo, e que se esquecesse dela.

Dizer-lhe o que o poeta sofreu 
contar-lhe muita coisa que deve saber de longa data. Sofreu... o que estou sofrendo.
Caiu enfermo com uma febre violenta. S da a um ms se levantou, mas ento j
tinha em si o germe de uma enfermidade mais grave que depois o tomou de todo...
e h de lev-lo  sepultura.

Durante a molstia fez loucuras
incrveis. Tudo o que podia agravar-lhe o estado e encaminhar-lhe a morte,
f-lo com uma alegria selvagem, mas sincera.

Enfim, restabelecido da febre,
mas, como disse, doente de outra doena, o poeta levantou-se e no teve mo em si. Resolveu ir procurar a viva. Queria a todo o transe conhecer as causas da recusa de
Carlota, e sobretudo queria lanar-lhe em rosto a sua perfdia, de modo a no
parecer covarde.

Carlota recebeu-o com um gesto de
surpresa. Foi a ele e perguntou-lhe se j estava bom. Ele descobriu logo o
fingimento daquela solicitude e quis mostrar que no se enganava. Suas
exprobraes foram enrgicas e veementes. Carlota ouviu-o com uma espcie de
torpor.

Depois, quando a alma do poeta
derramou em palavras amargas a dor de que estava possudo, veio uma prostrao
moral, e o poeta, j mais brando, pediu a Carlota uma explicao da carta que
esta lhe mandara.

Ento, a viva, fingindo um grande
esforo, deu em pleno rosto ao namorado poeta uma resposta que equivalia a um
tiro. Disse-lhe que se ia casar, e com Venncio.

Afigurava-se ao poeta esta unio
como to monstruosa, que ao princpio no quis acreditar nas palavras de
Carlota. Olhou surpreso para ela, mas surpreso como o homem que no d crdito,
e intimou-lhe que falasse seriamente.

 Mais seriamente do que falo? perguntou
Carlota.

 Sim, seriamente.

  isto.

 Pois deveras...

  verdade.

O rapaz sentiu que lhe faltava o
cho debaixo dos ps. Pareceu-lhe que ia cair em um abismo.  assim que deve
ser a vertigem do nufrago. Como o nufrago, o poeta agarrou-se ao primeiro
objeto que encontrou. Era um sof. Encostou-se ao sof e olhou fixo para
Carlota.

 Sei que isto lhe h de doer, mas
 necessrio...

 Mas ama-o?

 Amo.

 Ah! no diga isso!

 Por que no?

E fazendo esta pergunta a moa
mostrou um ar de desdm que o poeta humilhado, abatido, indignado, no pde
dizer mais palavra. Foi, com passo incerto e vacilante, buscar o chapu que se
achava sobre o piano, e cumprimentando a viva friamente, encaminhou-se para a
porta.

A moa deu alguns passos para ele
e murmurou:

 S uma coisa lhe peo.

O poeta deteve-se. Era ainda uma
esperana que lhe surgia no meio daquela amargura e desespero de que enchera
sua alma. Interrogou-a com o olhar. A moa, pregando os olhos no cho, disse:

 No me queira mal.

 Que no lhe queira mal? Mas isto
 zombaria... No lhe queira mal!... Acha que me faz um benefcio... No v que
me matou?

 Ah! perdo... mas...

 Ama a outro, no? perguntou o
moo com ironia.

 Amo, respondeu ela, mas de modo
que o poeta antes adivinhou do que ouviu.

X

O moo saiu desesperado da casa de
Carlota.

Passaram-se os dias. O mal que o
minava foi tomando propores maiores, e dentro de pouco tempo declararam-se os
tubrculos pulmonares.  a minha molstia, como sabe, doutor.

Aos primeiros cuidados que tiveram
amigos e parentes para que se curasse, o poeta recusou peremptoriamente.
Ofereceu-se ocasio de ir a Buenos Aires; no quis; e para no dar a verdadeira
razo desta recusa, disse que tinha esperana de curar-se na terra natal, e que
alm disso tinha averso s viagens martimas.

Queria morrer? perguntar o
doutor. Queria e quer. Odiava a mulher? No, amava-a, ainda a ama, tudo que
possa dizer e sentir contra ela, no  seno amor disfarado. Se no fosse
assim, decerto que teria aceitado a vida que lhe ofereciam s mos cheias. Mas
recusou tudo; aceitou a molstia como um bem da Providncia.

Pedir-me- a explicao deste amor
por um monstro, e eu no saberei o que lhe hei de dizer.

Todavia, h um fato que me parece
explicar tudo, e vem a ser: se o amor do poeta fora um desses amores fceis ou
simplesmente uma dessas afeies que tomam base na vaidade pueril, creio que a
perfdia de Carlota teria ofendido a suscetibilidade, deixando intacto o
corao, porque realmente o corao no se interessa em afeies tais.

Mas o amor do poeta no era esse:
era o amor verdadeiro, o amor nico; a traio no podia deixar de aniquil-lo.
Foi o que sucedeu. No sou filsofo, doutor; mas afigura-se-me que as coisas se
passaram assim.

Durante os primeiros tempos de sua
molstia, o poeta procurou sempre todas as ocasies em que podia ver Carlota. A
custo puderam cont-lo no dia do casamento da viva. Ele queria,  fora, ir
assistir a esta cena e confundir com a sua presena os desposados.

Onde quer, porm, que pudesse
encontr-la, e em poucos lugares era, o rapaz ia e no deixava de fixar nessa
mulher os olhos de dor e desespero. Depois, voltava mais doente e mais amante
para casa. Houve uma ocasio em que podia falar-lhe; no quis; entendia poder
v-la; falar-lhe afigurava-se ao moo que seria condenvel.

A molstia progredia at que se
declarou perigosa. A cincia foi impotente diante do princpio do mal que
lavrava, at que um dia, no dia em que a Igreja celebra o nascimento do
Salvador, poucas horas antes de morrer, o moo contou esta histria ao sbio
doutor que tratava dele.

XI

Que me diz a esta histria?

 Digo que o ouvi a custo. Eu j
sabia alguma coisa, mas no sabia to completamente. Mas que necessidade tinha
de me referir essas coisas. Olhe, est pior, a tosse est mais forte, vejo-o
mais plido e abatido. Foi imprudncia...

 No foi. Eu desejava que o doutor
ficasse sabendo de mais uma histria destas que de to vulgares so algumas
vezes to funestas.

 Mas diga-me...

 O qu, doutor?

 Se as coisas todas que me contou
tivessem uma explicao, explicao razovel, honesta; se em vez de monstro,
Carlota fosse um anjo, viveria?

 Um anjo? do mal!

 Mas enfim...

 No sei.

 H de viver. Se alguma coisa
houver que o possa fazer, visto que nem a cincia, nem os conselhos dos amigos
podem faz-lo sair desse abatimento em que est, acredite que empregarei os
meus esforos para lhe dar esse remdio supremo.

 Veja sempre...

 Eu lhe prometo. Entretanto,
ainda uma vez lhe peo, no se deixe perder nessas recordaes angustiosas do
passado; seja homem, e principalmente seja filho!...

 Minha me!...

 Seja filho. Lembre-se que ela
no poder resistir...

 Sinto passos, doutor...

  ela!

 Oh! minha me!

Minha me est mais plida que eu.
Interroga o doutor com o olhar, e este abaixa os olhos. Que haver entre ambos?

 Onde vai, doutor?

 Vou sair. At j.

 Volta?

 Volto. Mas espere, tome j este
remdio.

 Ento, doutor, como acha meu
filho?

 Vou consultar alguns colegas e
c virei com eles. Talvez se possa fazer alguma coisa. At j. Coragem, meu
doente!

XII

So cinco horas da tarde.

Minha me foi descansar um pouco.
Coitada! passou a noite em claro, e durante todo o dia de hoje no parou um
instante.

O doutor ficou de voltar e voltou
com mais dois mdicos. Examinaram-me e resolveram que eu no estava to perigoso
como parecia. Depois assentaram no medicamento que se devia empregar. Uma das
clusulas que me impem  ir tomar ares. No sei se o faa. Eu creio que eles
todos se enganaram acerca do meu estado.

Daqui a pouco estar findo o dia e
com ele a minha vida, talvez. Estou pior. Sinto uma opresso que me incomoda;
minha me aconselhou-me que me deitasse, mas eu no posso; quero morrer como
homem.

Tenho necessidade de escrever.
Quero derramar a minha ltima gota de poesia no papel, e deixar ao mundo ao menos
uma lembrana de que fui mrtir e poeta. Ser este o canto do cisne.

Que direi?

Sinto a cabea pesada; e o meu
esprito mal pode aplicar-se ao que a minha vontade o solicita. Ah! j nem sou
poeta! Musa ardente dos tempos da felicidade e do sossego, onde paras agora que
no vens reclinar-te, como outrora,  cadeira do teu poeta infeliz?

Algum chega... Guardemos estes
papis... Quem ? Minha me!...

 Eu e mais algum, meu filho.

 Quem?

 Tens coragem?

 Por qu, minha me?

 Para o que vais ver?

  a morte?

  a vida.

 Mande entrar a vida, minha me.

XIII

Olhei, era... era Carlota.

 Carlota!

Recuei at  cama. Vi entrar uma
mulher magra, abatida, doente; com os olhos fundos e ardentes de febre. V-se
que o remorso dilacera aquela alma. V-se que ela pena os pecados em que caiu.

Parou  porta, e com as mos
magras, mas ainda belas, comprime o seio ofegante. Tem os olhos baixos como de
vergonha. Parece pregada ao lugar em que ficou.

Nem eu nem ela podemos falar.
Minha me toma-lhe a mo e tr-la para junto da janela.

 No  uma criminosa que vem
implorar perdo, disse-me Carlota.

 Pois quem ?

 Ah! eu no quero perder tempo em
longas explicaes... Venho dizer-lhe que se a sua vida depende da declarao
de que eu o amo, pode morrer; porque eu no posso fazer essa declarao. Mas se
 razo para viver a certeza de que, no dia em que o repeli, ainda o amava, e
que casando com aquele que  hoje meu marido eu ainda o tinha na memria, viva;
porque isto  verdade.

 Carlota!

  verdade. Depois, a conscincia
do dever prevaleceu, e eu pude apesar da lembrana, ver que me podia fazer
feliz, mas que, casada com outro, s podia fazer a desgraa de mim mesma.

Dizendo estas palavras Carlota
parece animada por um fogo interior. Ser sincera? A franqueza com que falou
parece nascer de uma conscincia sincera. Agora, o que me parecia remorso 
vergonha,  j outra coisa; reparo mais,  como que vejo na fronte desta mulher
o sinal do martrio e da dor.

Minha me f-la retirar-se. Eu no
sei o que fao nem onde estou; parece-me que sonho; abro os olhos mais e mais,
e corro um olhar por todos os ngulos do quarto para ver se com efeito estou na
realidade.

V-la! v-la ainda, aqui, junto de
mim, sincera, regenerada na minha conscincia de um crime que lhe atribu, oh!
meu Deus! isto  quase a felicidade!

Mas, se o que ela diz  verdade,
qual a explicao de todos estes fatos que tiveram to funestas conseqncias?

Carlota adivinha esta interrogao
ntima. Minha me f-la sentar. Depois, tomando um ar de recato e modstia,
Carlota procura referir todas as circunstncias do seu casamento.

XIV

O que ela contou resume-se assim:

Quando, nos seus sonhos de
felicidade e de amor, ela contava unir-se a mim e viver uma vida nova e nica,
veio transtornar os seus projetos o tio de quem j falei, e cuja neutralidade
nos parecia a ambos sem contestao.

Neutral seria, decerto, o bom tio,
se uma circunstncia no o impelisse ao passo que deu. Tenho certeza de que ele
gostava de mim e de Carlota, mas a paixo e o vcio decidiram as coisas de modo
diferente.

Venncio era um dos seus parceiros
habituais do jogo. Era rico, e por essa circunstncia, talvez, tinha uma
felicidade rara. A gua corre para o mar, diz o provrbio. O dinheiro dos
parceiros corria para a algibeira farta de Venncio.

At ento, isto , at a hora em
que o tio de Carlota conheceu Venncio, a boa sorte tinha protegido aquele. Mas
Venncio apareceu com a sua felicidade inaudita e bem depressa os ltimos
recursos do velho se esgotaram.  sabido como o jogo d certa embriaguez que
mais se exalta com a m fortuna. O tio de Carlota atirou-se s ltimas
operaes. Jogou a crdito e perdeu. Insistiu e perdeu ainda. Insistiu,
insistiu e perdeu sempre. Recuou a conselho de alguns amigos.

As quantias perdidas ao jogo com
Venncio perfaziam uma soma avultada. O tio de Carlota achou-se repentinamente
em uma posio difcil. Como pagar-lhe? Escasseados os recursos, nem tinha onde
buscar, ainda por emprstimo, a grossa quantia de que era devedor. Em tal
situao s havia um meio. Pr termo ao vcio que o arruinara e procurar no
trabalho, se fosse possvel, o saldo de to enorme dvida.

Este era o meio razovel, se
porventura a lei do jogo, que  uma lei arbitrria como o prprio vcio em que
se funda, no o obrigasse a um prazo breve e fatal.

O tio de Carlota pensou nisto e
desanimou. Era um abismo que tinha diante de si. Os recursos de Carlota, que eram
escassos, no podiam, no caso de generosidade da moa, servir para uma quinta
parte da dvida. Era despoj-la do patrimnio sem proveito.

O desgraado, sem saber que fazia,
sem meios reais, nem recursos da imaginao, saiu um dia de manh em direo  casa
de Venncio.

Devo dizer que, j antes do
desastre que fez de Venncio um pesadelo para o tio de Carlota, o credor
freqentava a casa deste.

O tio de Carlota entrando em casa
de Venncio no tinha uma idia a apresentar; ia conversar e apanhar a primeira
idia que lhe sugerisse a conversa, ou aceitar o projeto razovel que o credor
lhe indicasse.

Venncio recebeu o devedor com o
mais amvel dos sorrisos nos lbios. Isto animou o desgraado devedor.

 A que devo a sua visita?

 No adivinha?

  dvida?

  verdade.

 Vem pag-la? No havia pressa.

 No, no venho pag-la.

 Ah!

V-se que este intrito no era
dos mais animadores. O tio de Carlota calou-se e mudou de conversa, sendo
acompanhado no novo assunto por Venncio, que se porfiava em ser o mais amvel
deste mundo.

Depois de meia hora de conversa
sobre coisas diferentes, Venncio voltou bruscamente ao assunto da dvida.

O devedor empalideceu.

Que responder?

Os olhos de Venncio estavam
pregados nele, e quanto mais corriam os minutos, mais vazio se achava o
esprito do tio de Carlota.

Enfim, como era preciso responder
alguma coisa, o pobre homem disse francamente que no podia pagar, e que nem
lhe ocorria o meio para isso.

Venncio sorriu e respondeu:

 Pois  simples. H trs dias que
a fortuna me desampara, e como velho jogador que , deve saber que ela tem seus
caprichos e muitas vezes abandona os antigos aliados para acompanhar outros
novos. Talvez que ela hoje esteja do seu lado.

O tio de Carlota estremeceu a esta
proposta. A alma do jogador despertou e sentiu-se arrastada para a banca.
Ganhar em dois minutos tudo o que perdera, ver-se de um s lance aliviado de
uma obrigao e de um peso no esprito, era para o devedor a suprema
felicidade.

No hesitou, seno o tempo
necessrio ao espanto que lhe causava a proposta, e levantando-se, com as mos
estendidas para Venncio, declarou-lhe alvoroado que aceitava.

Tudo se preparou para o duelo
fatal.

Diante da mesa em que se ia
decidir a sua sorte, o tio de Carlota cobrou novo nimo.

Venncio estava frio e tranqilo.
Parecia que no jogava dinheiro, e dinheiro avultado.

O tio de Carlota acompanhou a
partida ansioso e atordoado. No respirava, com a mo oprimia o corao e com
os olhos parecia querer arrancar do baralho a carta feliz...

Infeliz! a carta que saiu dava
ganho a Venncio.

O tio de Carlota soltou um grito.

 Quer mais? perguntou friamente
Venncio.

 No! no!

 Deve-me o dobro.

 Como lhe poderei pagar? Oh! meu
Deus!

 No se aflija, disse o credor.
Isto no  sangria desatada; no lhe exijo agora o pagamento; pode pagar
amanh, depois, daqui a um ms... e at...

 E at?

 At nunca.

 Nunca!

 Nunca.

A estranheza das palavras de
Venncio e o ar frio que ele apresentava fizeram impresso no tio de Carlota.

 Explique-se, disse ele.

  simples. H de crer que por
muito exigente que eu fosse nunca poria em srias dificuldades um tio. A um
estranho  possvel,  at certo, mas a um tio... Ora, nada impede que eu seja
seu sobrinho.

O tio de Carlota no compreendeu e
no respondeu.

 No compreendeu? perguntou
Venncio.

 Meu sobrinho, como?

 No tem uma sobrinha? perguntou
Venncio.

 Ah!

Venncio exps demoradamente a sua
pretenso. Pediu formalmente a mo de Carlota. O tio hesitou ainda, disse-o ao
menos depois  sobrinha, mas este casamento era a sua salvao. Depois,
Venncio tivera o cuidado de convenc-lo de que ele no era indiferente 
viva. Enfim, quando saiu da casa de Venncio, o tio de Carlota deixou-lhe
prometida a mo de sua sobrinha.

Quando esta ouviu de seu tio a
proposta de Venncio, repeliu-a peremptoriamente. Mas o tio, entre as lgrimas
da sua convenincia, chegou a convencer a pobre moa de que casar com Venncio
era salv-lo da desonra. Carlota pediu dilao para refletir. A reflexo foi
contrria ao corao. Carlota aceitou a proposta, no sem exprobrar a seu tio a
funesta paixo que o seduzira a cometer um ato de aviltamento.

Quanto a Venncio, ela teve o
cuidado de declarar-lhe que impunha uma condio.

 Aceito todas, respondeu
Venncio.

 Fao o sacrifcio da minha
pessoa, mas exijo ao menos eu no seja mulher de um jogador.

 Juro-lhe que no ser.

E no foi. Uma paixo neutralizou
outra. Venncio era dessas naturezas escravas da sensualidade, que estimam as
esttuas, no pelo cunho de beleza ideal que elas possam ter, mas pela vista e
exuberncia das formas exteriores.

XV

Tal foi a histria que Carlota me
contou.

Quando ela acabou tinha eu o rosto
escondido nas mos; palpitava-me o corao com uma fora desusada. Minha
conscincia restitua  infeliz moa os crditos de elevao moral em que a
tinha anteriormente aos tristes acontecimentos de que ela foi vtima. Em vez de
um monstro tinha eu diante de mim uma mrtir.

 Se esta simples exposio dos
fatos, disse-me ela, pode torn-lo  vida, viva; eu lhe peo. Viva por sua me
e para sua me. Se eu ainda o amasse, ou pudesse am-lo, dir-lhe-ia que vivesse
por mim.

 Tem razo, respondi eu.

E tomando a mo de Carlota,
beijei-lhe respeitosamente. No era um beijo de amor, era um beijo de gratido.
Depois do que ela me disse eu sentia que voltava  vida.

 Agora, disse ela, adeus.

E saiu.

Minha me no a deixou sair sem
cobri-la de beijos verdadeiramente maternais.

XVI

26 de Dezembro

So dez horas da manh.

Passei uma noite tranqila. Tive
sonhos felizes. Sonhei que estava bom e vivia com minha me em uma casa
retirada do bulcio e da agitao. Voltavam os meus dias de poeta, e eu cantava
em estrofes inspiradas a ventura que me dava a paz do corao e da conscincia.

No sei por qu, esta perspectiva
de felicidade j me no desgosta, e nem j me causa ressentimento a alegria
expansiva e radiante da natureza.

Ao mesmo tempo, a idia to
potica dessa vida sossegada e feliz  contrariada pela idia de que perdi
Carlota em virtude de um contrato fundado sobre o vcio. Esta idia traz-me 
vida real, e eu olho j os sonhos do passado e o desta noite como iluses sem
realidade prtica.

A prtica  outra coisa. No
transigir com os desvios dos homens, mas viver preparado para eles, tal  a
norma regular que se me afigura devem ter todas as conscincias honestas e
previdentes.

Deixar-me seduzir por novas iluses
e expor-me a novos desenganos e torturas?

 o que farei... se ficar bom.

Ficarei?

O doutor me dir.

O doutor!  seguramente a ele que
eu devo esta transformao na minha vida. Foi, sem dvida, ele quem encaminhou
aquela explicao que to benfica foi para mim.

Farei tudo o que puder para ficar
bom.

Oh! minha me! minha me!

* * *

XVII

EPLOGO

Um ano depois, encontravam-se ao
p da estao do Campo, para tomar o caminho de ferro, dois homens, um moo, o
outro velho. Olham-se e reconhecem-se. Depois entram, compram bilhetes e tomam
lugar em um carro de 1 classe.

 Para onde vai? pergunta o velho.

 Vou para o Rodeio.

 Tambm eu.

Acomodaram-se, e, enquanto
esperavam a hora, e no vinha mais ningum para o mesmo compartimento, trataram
de conversar sobre coisas de sua vida.

 Que faz agora? perguntou o moo
ao velho.

 Sou um ex-mdico. Vivo do que
ajuntei.

 Eu sou um ex-poeta. Vivo do que
aprendi.

 Fortuna por fortuna. Mas h uns
bons seis meses que o no vejo. Ora, quem diria que aquele rapaz magro e quase
morto se converteria neste rapago corado, ndio, robusto... Bem lhe dizia eu.

 Devo-lhe tudo.

 A mim, no.

 Devo-lhe, sim.

  ento ex-poeta?

 Sou. Sou hoje o homem-prosa,
vivo terra-a-terra, livre das quimeras que me atordoaram e nas quais no
encontrei seno dissabores. Quis forar a ordem das coisas e opor aos
sentimentos comuns a idealidade dos meus sentimentos. Sofri as conseqncias
desta temeridade. Hoje, se no reneguei o culto da poesia, no fao praa dele,
de modo que aquele dia em que me viu to desanimado foi, por assim dizer, o
ltimo dia de um poeta.

O doutor olhou para o moo com ar
incrdulo.

 Isso  verdade? perguntou.

 Mais que verdade.

 No pensei que a mudana fosse
radical. E D. Carlota?

 Essa vive, coitada, no sei se
como eu. Nunca mais a vi. Bem sabe que uma barreira nos separava. Mas eu
conservo-a comigo. Perdo, doutor...  a minha iluso de namorado, de poeta e
de rapaz... mas como v,  inofensiva.

E o moo tirou um medalho em que
estavam as margaridas que durante a febre beijava e adorava.

 E sua me?

 Oh! essa  feliz! Vive comigo no
Rodeio, onde nada nos perturba a felicidade santa de que gozamos. Pela
felicidade que ela sente vendo-me vivo e so  que avalio a dor suprema que
sentiria se eu morresse. Fiz bem em no morrer.

 Pois, meu amigo, continue a
contar com a minha amizade, que agora  ainda maior. Ame e respeite sua me;
procure esquecer os sucessos que motivaram a catstrofe de sua vida, e, sem
repudiar a misso normal que Deus lhe deu, no confie de um mundo frio e
egosta as santas aspiraes da sua jovem inteligncia.

 Obrigado, doutor.

Neste momento entrou no carro um
casal; o marido, homem de trinta e oito anos, a mulher... no se podia ver
atravs de um vu preto que lhe cobria o rosto.

Pouco depois o carro partiu.

A moa, que at ento no voltara
o rosto, teve necessidade de faz-lo para responder a uma pergunta do marido. O
marido achava-se entre ela e o ex-poeta. A moa deu um pequeno grito.
Interrogada por seu marido, respondeu que fora uma dor aguda no corao.

 H de ser de cansao,
acrescentou ela.

Era Carlota, como j se adivinha.

Durante o resto da viagem nenhum
incidente mais ocorreu. A mulher e o marido conversavam sossegadamente; o
ex-poeta e o ex-mdico conversavam do mesmo modo.

Chegando  ltima estao
separaram-se todos. O doutor prometeu ir jantar  casa do rapaz.

Viram-se ainda muitas vezes, mas o
encontro do vago foi o ltimo que houve entre o rapaz e Carlota.
