Conto, Uma guia sem Asas, 1872

Uma guia sem asas

Texto Fonte:

Histrias Romnticas, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies
W. M. Jackson, 1938.

.

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, setembro de 1872.

CAPTULO
PRIMEIRO

Era uma tarde de agosto. Caa o
sol, e soprava um vento fresco e brando, como para compensar o dia que estivera
extremamente calmoso. A noite prometia ser excelente.

Se a leitora quer ir comigo ao Rio
Comprido, entraremos juntos na chcara do Sr. James Hope, comerciante ingls
desta praa, como se diz em linguagem tcnica.

James Hope viera para o Brasil em
1830, com pouco mais de 20 anos, e comeou imediatamente uma brilhante carreira
comercial. Casou pouco depois com a filha de um compatriota, j nascida aqui, e
mais tarde fez-se cidado brasileiro, no s no papel, como no corao.Do seu
matrimnio, teve um filho e uma filha; o primeiro, chamado Carlos Hope, seguia
a carreira do pai, e contava 26 anos ao tempo em que comea este romance; a
filha recebeu o nome de Sara e tinha 22 anos.

Sara Hope era solteira. Por qu? A
sua beleza era incontestvel; reunia a graa brasileira  gravidade britnica,
e em tudo parecia destinada a dominar os homens; a voz, o olhar, as maneiras,
tudo possua um misterioso condo fascinador. Alm disto, era rica e ocupava
uma invejvel posio na sociedade. Dizia-se  boca pequena que algumas paixes
havia j inspirado a interessante moa; mas no constava que ela as houvesse
tido em sua vida.

Por qu?

Esta pergunta todos a faziam, at
o pai que, apesar de robusto e sadio, previa algum acontecimento que viesse a
deixar a famlia sem chefe, e desejava ver casada a sua querida Sara.

Na tarde em que comea esta
narrativa, estavam todos assentados no jardim, em companhia de mais trs
rapazes da cidade que tinham ido jantar em casa de James Hope. Dispensem-me de
lhes pintar as visitas do velho comerciante. Bastar dizer que um deles, o mais
alto, era advogado principiante, dispondo de algum dinheiro do pai; chamava-se
Jorge; o segundo, cujo nome era Mateus, era comerciante, scio de um tio que
dirigia uma grande casa; o mais baixo no era coisa nenhuma, tinha algum
peclio, e chamava-se Andrade. Estudara medicina, mas no tratava doentes, por
glria da cincia e sossego da humanidade.

James Hope estava extremamente
alegre e bem disposto, e todos os mais pareciam gozar o mesmo beatfico estado.
Quem entrasse subitamente no jardim, sem ser pressentido, podia descobrir que
os trs rapazes procuravam obter as boas graas de Sara, to visivelmente que,
no s os pais da moa o percebiam, mas at no podiam encobrir eles mesmos,
uns aos outros, as suas pretenses.

Se isto era assim, escusado 
dizer que a mesma Sara conhecia o jogo dos trs rapazes, porque em geral a
mulher sabe que  amada por um homem, antes mesmo que ele o perceba.

Longe de parecer incomodada com o
fogo dos trs exrcitos, Sara os tratava com tanta bondade e graa que parecia
indicar uma criatura coquete e frvola. Mas quem atentasse alguns largos
minutos, conheceria que ela era mais irnica que sincera, e, por isso mesmo que
os igualava, os desprezava a todos.

James Hope acabava de contar uma
anedota da sua mocidade, ocorrida em Inglaterra. A anedota era interessante, e o James sabia narrar, talento difcil e raro. Entusiasmado
com os vrios pormenores de costumes ingleses a que James Hope teve de aludir,
o advogado manifestou o grande desejo que nutria de ver a Inglaterra, e em
geral o desejo de viajar toda a Europa.

 H de gostar, disse Hope. As
viagens deleitam muito; e alm disso, nunca devemos desprezar as coisas
estranhas. Eu iria de boa vontade  Inglaterra, durante alguns meses, mas creio
que j no posso viver sem o nosso Brasil.

  o que me acontece, acudiu
Andrade; acredito que l fora haja muita coisa melhor do que c; mas ns c
temos coisas melhores do que l. Umas compensam as outras; e por isso no
valeria a pena de uma viagem.

Mateus e Jorge no foram
absolutamente desta idia. Ambos protestaram que dariam algum dia um pulo ao
velho mundo.

 Mas por que no faz isso que
diz, Sr. Hope? perguntou Mateus. Ningum melhor do que o senhor pode realizar
esse desejo.

 Sim, mas h um obstculo...

 No sou eu, acudiu rindo Carlos
Hope.

 No s tu, disse o pai,  Sara.

 Ah! disseram os rapazes.

 Eu, meu pai? perguntou a moa.

 Trs vezes tenho tentado a
viagem, mas Sara ope sempre algumas razes, e no vou. Creio que descobri a
causa da resistncia dela.

 E qual ? perguntou Sara, rindo.

 Sara tem medo do mar.

 Medo! exclamou a moa, franzindo
as sobrancelhas.

O tom com que ela proferiu esta
simples exclamao impressionou o auditrio. Bastava aquilo para pintar um carter.
Houve alguns segundos de silncio durante os quais contemplavam a bela Sara,
cujo rosto pouco a pouco readquiriu a calma habitual.

 Ofendi-te, Sara? perguntou
James.

 Ah! isso no se diz, meu pai!
exclamou a moa com todas as harmonias de sua voz. No podia haver ofensa;
houve apenas uma tal ou qual impresso de espanto, quando ouvi falar de medo.
Meu pai sabe que eu no tenho medo...

 Sei que no, e j me deste
provas disso; mas uma criatura pode ser valorosa e ter medo ao mar...

 Pois no  esse o meu caso,
interrompeu Sara; se lhe dei algumas razes,  porque me pareceram
aceitveis...

 Pela minha parte, interrompeu
Andrade, penso que foi um erro que o Sr. Hope aceitasse tais razes. Era
conveniente, e mais do que conveniente, era indispensvel, que a Inglaterra
visse que flores pode dar uma planta sua, quando transplantada s regies
americanas. Miss Hope seria l o mais brilhante smbolo desta aliana de duas
raas vivaces...

Miss Hope sorriu ouvindo este
cumprimento, e a conversa tomou diversos caminhos.

CAPTULO II

Nessa mesma noite, foram os trs
rapazes cear no Hotel Provenaux, depois de terem passado duas horas no
Ginsio. Havia j dois ou trs meses que andavam naquela campanha sem se comunicarem
uns aos outros as impresses ou as esperanas que tinham. Estas, porm, se
alguma vez as tiveram, comeavam a diminuir, pelo que no tardaria muito que os
trs pretendentes se abrissem francamente e dissessem todas as suas idias a
respeito de Sara.

Aquela noite foi tacitamente
escolhida pelos trs para as confidncias recprocas. Estavam numa sala
particular onde ningum os perturbaria. As revelaes comearam por aluses
vagas, mas no tardou que assumissem um ar de franqueza.

 Por que negaremos a verdade?
disse Mateus depois de alguns remoques recprocos; todos trs gostamos dela; 
clarssimo. E o que tambm me parece claro  que ela ainda no se manifestou
por nenhum.

 Nem se manifestar, respondeu
Jorge.

 Por qu?

 Porque  uma namoradeira e nada
mais; gosta que lhe faam a corte, e no passa disso.  uma mulher de gelo. Que
te parece, Andrade?

 No concordo contigo, acudiu
este. No me parece namoradeira. Pelo contrrio, cuido que  uma mulher
superior, e que...

Estacou. Entrou nesse momento um
criado trazendo umas costeletas pedidas. Quando o criado saiu, os outros dois
rapazes insistiram para que Andrade conclusse o pensamento.

 E qu? disseram eles.

Andrade no deu resposta.

 Conclui a tua idia, Andrade,
insistiu Mateus.

 Creio que ela ainda no
encontrou um homem como imagina, explicou Andrade.  romanesca, e s se casar
com algum que lhe realize um tipo ideal; toda a questo  saber que tipo 
esse; porque, desde que o soubssemos, tudo estava decidido. Cada um de ns
procuraria ser a reproduo material dessa idealidade desconhecida...

 Talvez tenhas razo, observou
Jorge; bem pode ser isso; mas, nesse caso, estamos ns em pleno romance.

 Sem nenhuma dvida.

Mateus discordou dos outros.

 Talvez no seja assim, disse
ele; o Andrade ter razo em parte. Creio que o meio de lhe vencer a esquivana  corresponder, no a um tipo ideal, mas a um sentimento prprio, a um trao
de carter, a uma expresso de temperamento. Neste caso, o vencedor ser aquele
que melhor disser com o gnio dela. Por outras palavras, cumpre saber se ela
quer ser amada por um poeta, se por um homem de cincia, etc.

 Isso ainda pior, observou
Andrade.

 Pior ser, creio, mas grande vantagem
 sab-lo. Que lhes parece a minha opinio?

Concordaram os dois com esta
opinio.

 Ora bem, continuou Mateus, pois
que assentamos nisto, sejamos francos. Se algum de ns sente uma paixo
exclusiva por ela, deve diz-lo; a verdade antes de tudo...

 Paixes, respondeu Jorge, eu j
as conheci; amei aos 16 anos. Hoje, tenho o corao frio como uma lauda das
Ordenaes. Desejo casar-me para descansar, e se h de ser com uma mulher
vulgar, melhor  que seja com uma formosa e inteligente criatura... Isto quer
dizer que nenhum dio votarei quele que for mais feliz do que eu.

 Minha idia  outra, disse
Andrade; caso por curiosidade. Uns dizem que o casamento  delicioso, outros
que aborrecido; e todavia os casamentos no acabam nunca. Tenho curiosidade de
saber se  mau ou bom. O Mateus  que me parece verdadeiramente apaixonado.

 Eu? disse Mateus deitando vinho
no clice; nem por sombras. Confesso, porm, que lhe tenho alguma simpatia e
certa coisa a que chamamos adorao...

 Nesse caso... disseram os dois.

 Oh! continuou Mateus. Nada disto
 amor, pelo menos amor como eu imagino...

Dizendo isto, bebeu de um trago o
clice de vinho.

 Estamos pois concordes, disse
ele. Cada um de ns deve estudar o carter de Sara Hope, e aquele que atinar
com as suas preferncias ser o feliz...

 Fazemos um steeple-chase,
disse Andrade.

 No fazemos s isto, observou
Mateus; ganhamos tempo e no nos prejudicamos uns aos outros. Aquele que se
julgar vencedor, declare-o logo; e os outros deixaro o campo livre. Assim
entendidos, conservaremos a nossa recproca estima.

Concordes neste plano, os nossos
rapazes gastaram o resto da noite em assuntos diferentes, at que cada um se
foi para casa, disposto a morrer ou vencer.

CAPTULO III

Algum leitor achar este pacto
romanesco demais, e um pouco fora dos nossos costumes. Todavia, o fato 
verdadeiro. No direi quem mo referiu, porque no quero fazer mal a um cidado
honrado.

Celebrado o pacto, cada um dos
nossos heris procurou descobrir o ponto vulnervel de Sara.

Jorge foi o primeiro que sups
t-lo descoberto. Miss Hope lia muito e era entusiasta dos grandes nomes
literrios da poca. Quase se pode dizer que nenhum livro, mais ou menos
falado, lhe era desconhecido. E no s lia, discutia, criticava, analisava,
exceto as obras poticas.

 A poesia, dizia ela, no se
analisa, sente-se ou esquece-se.

Seria esse o ponto vulnervel da
moa?

Jorge procurou sab-lo e no esqueceu
nenhum meio necessrio para isso. Conversaram de literatura longas horas, e
Jorge dava largas a um entusiasmo potico mais ou menos real. Notou Sara esse
prurido literrio do rapaz, mas sem indagar as causas dele, tratou de o
aproveitar no sentido das suas preferncias.

Sem nenhuma ofensa  pessoa de
Jorge, posso dizer que ele no era grande conhecedor em matria literria, pelo
que no poucas vezes lhe acontecia tropear desastradamente. Por outro lado,
sentia necessidade de alguma frmula mais elevada para o seu entusiasmo e andou
catando na memria aforismos deste jaez:

 A poesia  a linguagem dos
anjos.

 O amor e as musas nasceram no
mesmo dia.

 A poesia e o amor so os dois
olhos de Deus.

E outras coisas mais que a moa
ouvia sem admirar muito o esprito inventivo do jovem advogado.

Aconteceu que um domingo de tarde,
andando os dois passeando no jardim, um pouco separados do resto da famlia,
Sara pregou os olhos no cu tingido com as rubras cores do ocaso.

Esteve assim calada durante longo
tempo.

 Contempla a sua ptria?
perguntou-lhe com meiguice Jorge.

 A minha ptria? disse a moa sem
perceber a idia do rapaz.

  a bela hora do poente,
continuou este, a hora melanclica da saudade e do amor. O dia  mais alegre, a
noite mais terrvel; s a tarde  a verdadeira hora das almas melanclicas...
Ah! tarde! Oh! poesia! oh! amor!

Sara conteve o riso que esteve a
ponto de lhe rebentar dos lbios ao ouvir o tom e ao ver a atitude com que
Jorge proferiu aquelas palavras.

 Gosta ento muito da tarde?
perguntou ela com um tom irnico que no escaparia a outro.

 Ah! muito! respondeu Jorge. A
tarde  a hora em que a natureza parece convidar os homens ao amor, 
meditao,  saudade, ao arroubo, aos suspiros, a cantar com os anjos, a
conversar com Deus. Posso dizer com o grande poeta, mas variando um pouco a sua
frmula: tirai a tarde ao mundo, e o mundo ser um ermo.

 Isto  sublime! exclamou a moa,
batendo palmas.

Jorge parecia contente de si. Deitou
 moa um olhar lnguido e amoroso e foi o nico agradecimento que deu ao
elogio de Sara.

A moa compreendeu que a conversa
podia seguir um caminho menos agradvel. Parecia-lhe ver j danando nos lbios
do rapaz uma confisso intempestiva.

 Creio que meu pai me chama,
disse ela; vamos.

Jorge foi obrigado a acompanhar a
moa, que se aproximou da famlia.

Os outros dois pretendentes viram
o ar alegre de Jorge, e concluram que ele estava no caminho da felicidade. Sara,
entretanto, no mostrava a confuso prpria de uma moa que acaba de ouvir uma
confisso de amor. Olhava muitas vezes para Jorge, mas era com uns longes de
ironia, e em todo caso perfeitamente tranqila.

 No tem que ver, dizia Jorge
consigo, acertei-lhe com a corda; a rapariga  romanesca; tem vocao
literria; gosta de exaltaes poticas...

No se deteve o jovem advogado; a
essa descoberta seguiu-se logo uma carta ardente, potica, nebulosa, carta que
nem um filsofo alemo chegaria a entender.

Poupo aos leitores a ntegra desse
documento; mas no resisto  inteno de lhes transcrever aqui um perodo, que
bem o merece:

... Sim, minha loura estrela da
noite, a vida  uma aspirao constante para a regio serena dos espritos, um
desejo, uma ambio, uma sede de poesia! Quando duas almas da mesma ndole se
encontram, como as nossas, j isto no  terra,  cu, cu purssimo e difano,
cu que os serafins povoam de encantadas estrofes!... Vem, meu anjo, passemos
uma vida assim! Inspira-me, e eu serei maior que Petrarca e Dante, porque tu
vales mais que Laura e Beatriz!...

E cinco ou seis pginas neste
gosto.

Esta carta foi entregue, num
domingo,  sada do Rio Comprido, sem que a moa tivesse ocasio de perguntar o
que aquilo era.

Digamos a verdade toda.

Jorge passou a noite
sobressaltado.

Sonhou que entrava com Miss Hope
em um riqussimo castelo de ouro e esmeraldas, cuja porta era guardada por dois
arcanjos de longas asas abertas; depois sonhou que o mundo inteiro, por meio de
uma comisso, o coroava poeta, rival de Homero. Sonhou muitas coisas neste
sentido, at que veio a sonhar com um chafariz, que deitava, em vez de gua,
espingardas de agulha, verdadeiro disparate que s Morfeu sabe criar.

Trs dias depois foi procurado
pelo irmo de Sara.

 Minha demora  pequena, disse o
rapaz; venho por parte de minha mana.

 Ah!

 E peo-lhe que no veja nisto
nada de ofensivo.

 Nisto qu?

 Minha mana quis por fora que eu
viesse restituir-lhe esta carta; e que lhe dissesse... Em suma, isto 
bastante; aqui tem a carta. Ainda uma vez, no h ofensa, e a coisa fica entre
ns...

Jorge no achava palavra para
responder. Estava plido e vexado. Carlos no poupou expresses nem carcias
para provar ao rapaz que no desejava a menor alterao na amizade que se
votavam um ao outro.

 Minha mana  caprichosa, dizia
ele,  por isso...

 Concordo que foi um ato de
loucura, disse enfim Jorge, animado pelas maneiras do irmo de Sara; mas o
senhor compreender que um amor...

 Compreendo tudo, disse Carlos; e
 por isso que lhe peo esquea isto, e ao mesmo tempo posso afirmar-lhe que
Sara no tem nenhum ressentimento disto... Portanto, amigos como dantes.

E saiu.

Jorge ficou s.

Estava acabrunhado, envergonhado,
desesperado.

No lamentava tanto a derrota como
as circunstncias dela. Entretanto, era preciso mostrar boa cara  sua fortuna,
e o rapaz no hesitou em confessar a derrota aos dois adversrios.

 Safa! disse Andrade, essa agora
 pior! Se ela est disposta a devolver todas as cartas pelo irmo,  provvel
que o rapaz se no empregue em outra coisa.

 No sei disto, respondeu Jorge;
confesso-me vencido, eis tudo.

Durante esta curta batalha, dada pelo
jovem advogado, os outros pretendentes no estavam ociosos, e cada qual por si
procurava descobrir o ponto fraco na couraa de Sara.

Qual deles acertaria?

Vamos sab-lo nas pginas que nos
restam.

CAPTULO IV

Mais curta foi a campanha de
Mateus; imaginara ele que a moa amaria loucamente a quem lhe desse sinais de
bravura. Conclua isto da exclamao que lhe ouvira, quando James Hope disse
que ela tinha medo do mar.

Tudo empregou Mateus para seduzir
Miss Hope por esse lado. Em vo! a moa parecia cada vez mais recalcitrante.

No houve proeza que o candidato
no referisse como glria sua, e algumas f-las ele mesmo com sobrescrito para
ela.

Sara era uma rocha.

A nada cedia.

Arriscar uma carta seria loucura,
depois do fiasco de Jorge; Mateus julgou prudente abater as armas.

Restava Andrade.

Teria ele descoberto alguma coisa?
Parecia que no. Todavia, era dos trs o mais atilado, e se a causa de iseno
da moa fosse a que eles apontavam no havia dvida de que Andrade atinaria com
ela.

Durante esse tempo, ocorreu uma
circunstncia que vinha transtornar os planos do rapaz. Sara, acusada pelo pai
de ter medo do mar, o induzira a uma viagem  Europa.

James Hope participou alegre esta
notcia aos trs moos.

 Mas vo j? perguntou Andrade
quando o pai de Sara lhe disse isto na rua.

 Daqui a dois meses, respondeu o
velho.

 Valha-nos isso! pensou Andrade.

Dois meses! Devia vencer ou morrer
dentro daquele prazo.

Andrade auscultava o esprito da
moa com perseverana e solicitude; nada lhe era indiferente; um livro, uma
frase, um gesto, uma opinio, tudo Andrade ouvia com ateno religiosa, tudo
examinava cuidadosamente.

Um domingo em que l se achavam na
chcara todos, em companhia de algumas moas da vizinhana, falava-se de modas
e cada uma dava a sua opinio.

Andrade conversava alegremente e
tambm discutia o assunto da conversa, mas o seu olhar, a sua ateno estavam
voltados para a bela Sara.

A distrao da moa era evidente.

Em que pensaria ela?

De repente, entra pelo jardim o
filho de James, que ficara na cidade para aviar uns negcios do paquete.

 Sabem a novidade? disse ele.

 Que ? perguntaram todos.

 Caiu o ministrio.

 Deveras? disse James.

 Que temos ns com o ministrio?
perguntou uma das moas.

 O mundo caminha bem sem o
ministrio, observou outra.

 Oremos pelo ministrio,
acrescentou piedosamente uma terceira.

No se falou mais nisto.
Aparentemente, era uma coisa insignificante, um incidente sem resultado, na
vida aprazvel daquela abenoada solido.

Assim seria para os outros.

Para Andrade foi um raio de luz, 
ou pelo menos um indcio veemente.

Notou ele que Sara ouvira a
notcia com ateno profunda demais para o seu sexo, e depois ficara algum
tanto pensativa.

Por qu?

Tomou nota do incidente.

Noutra ocasio foi surpreend-la a
ler um livro.

 Que livro ser esse? perguntou
ele sorrindo.

 Veja, respondeu ela
apresentando-lhe o livro.

Era uma histria de Catarina de
Mdicis.

Isto seria insignificante para
outro; para o nosso candidato era um vestgio preciosssimo.

Com os apontamentos que tinha, j
Andrade podia conhecer a situao; mas, como era prudente, buscou esclarec-la
melhor.

Um dia mandou uma cartinha a James
Hope, concebida nestes termos:

Empurraram-me alguns bilhetes de
teatro:  um espetculo em benefcio de um homem pobre. Sei como o senhor 
caridoso, e por isso a lhe remeto um camarote. A pea  excelente.

A pea era o Pedro.

No dia aprazado, l estava Andrade
no Ginsio. Hope no faltou, com a famlia, ao espetculo anunciado.

Nunca Andrade sentira tanto a
beleza de Sara. Estava esplndida, mas o que aumentava a beleza e o que lhe
inspirava adorao maior, era o concerto de louvores que ele ouvia  roda de
si. Se todos gostavam dela, no era natural que ela s lhe pertencesse a ele?

Pela razo de beleza, como por
causa das observaes que Andrade queria fazer, no tirou os olhos da moa
durante a noite inteira.

Foi ao camarote dela no fim do
segundo ato.

 Venha, disse-lhe Hope, deixe-me
agradecer-lhe a ocasio que me proporcionou de ver Sara entusiasmada.

 Ah!

  um excelente drama este Pedro,
disse a moa apertando a mo de Andrade.

 Excelente s? perguntou ele.

 Diga-me, perguntou James, este
Pedro sobe sempre at ao fim?

 No o disse ele no primeiro ato?
respondeu Andrade. Subir! subir! subir! Quando um homem sente em si uma grande
ambio, no pode deixar de realiz-la, porque justamente nesse caso  que se
deve aplicar o querer  poder.

 Tem razo, disse Sara.

 Pela minha parte, continuou
Andrade, nunca deixei de admirar este carter soberbo, natural, grandioso, que
me parece falar ao que h de mais ntimo em minha alma! Que  a vida sem uma
grande ambio?

Este arrojo de vaidade produziu o
desejado efeito, eletrizou a moa, a cujos olhos parecia que Andrade se havia
transfigurado.

Bem o percebeu Andrade, que
coroava assim os seus esforos.

Adivinhara tudo.

Tudo o qu?

Adivinhara que Miss Hope era
ambiciosa.

CAPTULO V

Eram duas pessoas diferentes at
aquele dia; da a pouco pareciam entender-se, harmonizar-se, completar-se.

Tendo compreendido e sondado a situao,
Andrade no deixou de prosseguir no ataque em regra. Sabia para onde iam as simpatias da moa; foi com elas, e to cauteloso, e ao mesmo tempo to
audaz, que inspirou ao esprito de Sara pouco disfarvel entusiasmo.

Entusiasmo, digo, e era esse o
sentimento que devia inspirar quem pretendesse o corao de Miss Hope.

Amor  bom para as almas
anglicas.

Sara no era assim; a ambio no
se contenta com flores e horizontes curtos. No pelo amor, mas pelo entusiasmo,
 que ela devia ser vencida.

Sara via Andrade com olhos de
admirao. Ele soubera, a pouco e pouco, convenc-la de que era um homem
essencialmente ambicioso, confiado na sua estrela, e seguro dos seus destinos.

Que mais queria a moa?

Ela era efetivamente ambiciosa e
sedenta de honras e eminncias. Se tivesse nascido nas imediaes de um trono,
poria esse trono em perigo.

Para que ela amasse algum, era
necessrio que esse pudesse competir com ela no gnio, e lhe afianasse a vinda
de glrias futuras.

Andrade compreendera isso.

E to hbil se houve que
conseguira fascinar a moa.

Hbil, digo eu, e nada mais;
porque, se houve jamais criatura desambiciosa neste mundo, esprito mais
tmido, gnio menos desejoso de mando e poderio, esse foi sem dvida o n osso
Andrade.

A paz era para ele o ideal.

E a ambio no existe sem
perptua guerra.

Como conciliar, pois, este gnio
natural com as esperanas que inspirara  ambiciosa Sara?

Deixava ao futuro?

Desengan-la-ia, quando fosse
conveniente?

A viagem  Europa foi ainda uma
vez adiada, porque Andrade, competentemente autorizado pela moa, pediu-a em
casamento ao honrado comerciante James Hope.

 Perco ainda uma vez a minha
viagem, disse o velho, mas desta vez por um motivo legtimo e agradvel; fao
minha filha feliz.

 Parece-lhe que eu... murmurou
Andrade.

 Ande l, disse Hope batendo no
ombro do futuro genro; minha filha morre pelo senhor.

O casamento foi celebrado dentro
de um ms. Os noivos foram passar a lua-de-mel na Tijuca. Cinco meses depois
estavam ambos na cidade, ocupando uma casa potica e romanesca em Andara.

At ento a vida foi um caminho
semeado de flores. Mas o amor no podia tudo numa aliana iniciada pela
ambio.

Andrade estava satisfeito e feliz.
Simulou enquanto pde o carter que no tinha; mas, le naturel chass,
revenait au galop. A pouco e pouco iam manifestando-se as preferncias do
rapaz por uma vida calma e pacfica, sem ambies, nem rudo.

Sara comeou a notar que a
poltica e todas as grandezas do Estado aborreciam sobremaneira o marido. Lia
alguns romances, alguns versos, e nada mais, aquele homem que, pouco antes de
casar, parecia destinado a mudar a face do globo. Poltica era para ele
sinnimo de dormideira.

Tarde conheceu Sara quanto se havia
enganado. Grande foi a sua desiluso. Como ela possusse realmente uma alma
vida de grandeza e poderio, sentiu amargamente este desengano.

Quis disfar-lo, mas no pde.

E um dia disse a Andrade:

 Por que razo a guia perdeu as
asas?

 Qual guia? perguntou ele.

Andrade compreendeu a inteno
dela.

 A guia era apenas uma pomba,
disse ele, passando-lhe o brao  roda da cintura.

Sara recuou e foi encostar-se 
janela.

Caa, ento, a tarde; e tudo
parecia convidar aos devaneios do corao.

 Suspiras? perguntou Andrade.

No teve resposta.

Houve longo silncio, interrompido
apenas pelo taco de Andrade que batia compassadamente no cho.

Afinal, levantou-se o rapaz.

 Olha, Sara, disse ele, vs este cu
dourado e esta natureza tranqila?

A moa no respondeu.

 Isto  a vida, isto  a
verdadeira glria, continuou o marido. Tudo mais  manjar de almas doentias.
Gozemos isto, que deste mundo  o melhor.

Deu-lhe um beijo na testa e saiu.

Sara ficou longo tempo pensativa,
 janela; e no sei se a leitora achar ridculo que ela vertesse alguma
lgrima.

Verteu duas.

Uma pelas ambies abatidas e
desfeitas.

Outra pelo erro em que estivera
at ento.

Porquanto, se o esprito parecia
magoado e entorpecido com o desenlace de tantas iluses, dizia-lhe o corao
que a verdadeira felicidade de uma mulher est na paz domstica.

Que mais lhe direi para completar
a narrativa?

Sara disse adeus s ambies dos
primeiros anos, e voltou-se toda para outra ordem de desejos.

Quis Deus que ela os realizasse.
Quando morrer no ter pgina na histria; mas o marido poder escrever-lhe na
sepultura: Foi boa esposa e teve muitos filhos.
