Conto, Tempo de crise, 1873

Tempo de crise



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, abril de 1873.

Queres tu saber, meu rico irmo, a
notcia que achei no Rio de Janeiro, apenas pus p em terra? Uma crise
ministerial. No imaginas o que  uma crise ministerial na cidade fluminense.
L na provncia chegam as notcias amortecidas pela distncia, e alm disso
completas; quando sabemos de um ministrio defunto, sabemos logo de um
ministrio recm-nato. Aqui a coisa  diversa, assiste-se  morte do
agonizante, depois ao enterro, depois ao nascimento do outro, o qual muitas
vezes, graas s dificuldades polticas, s vem  luz depois de uma operao
cesariana.

Quando desembarquei estava o C. 
minha espera na Praia dos Mineiros, e as suas primeiras palavras foram estas:

 Caiu o ministrio!

Tu sabes que eu tinha razes para
no gostar do gabinete, depois da questo de meu cunhado, de cuja demisso
ainda ignoro a causa. Todavia, senti que o gabinete morresse to cedo, antes de
dar todos os seus frutos, principalmente quando o negcio do meu cunhado era
justamente o que me trazia c. Perguntei ao C. quem eram os novos ministros.

 No sei, respondeu; nem te posso
afirmar se os outros caram; mas desde manh no corre outra coisa. Vamos saber
notcias. Queres comer?

 Sem dvida, respondi; vou
residir no Hotel da Europa, se houver lugar.

 H de haver.

Seguimos para o Hotel da Europa
que  na Rua do Ouvidor; l me deram um aposento e um almoo. Acendemos
charutos e samos.

 porta perguntei-lhe eu:

 Onde saberemos notcias?

 Aqui mesmo na Rua do Ouvidor.

 Pois ento na Rua do Ouvidor 
que?

 Sim; a Rua do Ouvidor  o lugar
mais seguro para saber notcias. A casa do Moutinho ou do Bernardo, a casa do
Desmarais ou do Garnier, so verdadeiras estaes telegrficas. Ganha-se mais
em estar a comodamente sentado do que em andar pela casa dos homens da
situao.

Ouvi silenciosamente as
explicaes do C. e segui com ele at um pasmatrio poltico, onde apenas
encontramos um sujeito fumando, e conversando com o caixeiro.

 A que horas esteve ela aqui?
perguntava o sujeito.

 s dez.

Ouvimos estas palavras entrando. O
sujeito calou-se imediatamente e sentou-se numa cadeira por trs de um
mostrador, batendo com a bengala na ponta do botim.

 Trata-se de algum namoro, no?
perguntei eu baixinho ao C.

 Curioso! respondeu-me ele;
naturalmente  algum namoro, tens razo; alguma rosa de Citera.

 Qual! disse eu.

 Por qu?

 Os jardins de Citera so
francos; ningum espreita as rosas por fora...

 Provinciano! disse o C. com um
daqueles sorrisos que s ele tem; tu no sabes que, estando as rosas em moda,
h certa honra para o jardineiro... Anda sentar-te.

 No; fiquemos um pouco  porta;
quero conhecer esta rua de que tanto se fala.

 Com razo, respondeu o C. Dizem
de Shakespeare que, se a humanidade perecesse, ele s poderia comp-la, pois
que no deixou intacta uma fibra sequer do corao humano. Aplico el cuento.
A Rua do Ouvidor resume o Rio de Janeiro. A certas horas do dia, pode a
fria celeste destruir a cidade; se conservar a Rua do Ouvidor, conserva No, a
famlia e o mais. Uma cidade  um corpo de pedra com um rosto. O rosto da
cidade fluminense  esta rua, rosto eloqente que exprime todos os sentimentos
e todas as idias...

 Continua, meu Virglio.

 Pois vai ouvindo, meu Dante.
Queres ver a elegncia fluminense. Aqui achars a flor da sociedade,  as
senhoras que vm escolher jias ao Valais ou sedas a Notre Dame,  os rapazes
que vm conversar de teatros, de sales, de modas e de mulheres. Queres saber
da poltica? Aqui sabers das notcias mais frescas, das evolues prximas,
dos acontecimentos provveis; aqui vers o deputado atual com o deputado que
foi, o ministro defunto e s vezes o ministro vivo. Vs aquele sujeito?  um
homem de letras. Deste lado, vem um dos primeiros negociantes da praa. Queres
saber do estado do cmbio? Vai ali ao Jornal do Commercio, que  o Times
de c. Muita vez encontrars um coup  porta de uma loja de modas:
 uma Ninon fluminense. Vs um sujeito ao p dela, dentro da loja, dizendo um
galanteio? Pode ser um diplomata. Dirs que eu s menciono a sociedade mais ou
menos elegante? No; o operrio pra aqui tambm para ter o prazer de
contemplar durante minutos uma destas vidraas rutilante de riqueza, 
porquanto, meu caro amigo, a riqueza tem isto de bom consigo,   que a simples
vista consola.

Saiu-me o C. tamanho filsofo que
me espantou. Ao mesmo tempo agradeci ao cu to precioso encontro. Para um
provinciano, que no conhece bem a capital,  uma felicidade encontrar um
cicerone inteligente.

O sujeito que estava dentro chegou
 porta, demorou-se alguns instantes, e saiu acompanhado por outro, que ento
passava.

 Cansou de esperar, disse eu.

 Sentemo-nos.

Sentamo-nos.

 Fala-se ento de tudo aqui?

 De tudo.

 Bem e mal?

 Como na vida.  a sociedade
humana em ponto pequeno. Mas por enquanto o que nos importa  a crise; deixemos
de moralizar...

Interessava-me tanto a conversa,
que pedi ao C. a continuao das suas lies, to necessrias a quem no
conhecia a cidade.

 No te iludas, disse ele, a
melhor lio deste mundo no vale um ms de experincia e de observao. Abre
um moralista; encontrars excelentes anlises do corao humano; mas se no
fizeres a experincia por ti mesmo pouco te valer o teres lido. La Rochefoucauld aos vinte anos faz dormir; aos quarenta  um livro predileto...

Estas ltimas palavras revelaram
no C. um desses indivduos doentes que andam a ver tudo cor de morte e do
sangue. Eu que vinha para divertir-me, no queria estar a braos com um segundo
volume de nosso Padre Tom, espcie de Timon cristo, a quem dars a ler esta
carta, acompanhada de muitas lembranas minhas.

 Sabes que mais? disse eu ao meu
cicerone, vim para divertir-me, e por isso acho-te razo; tratemos da crise.
Mas por enquanto nada sabemos, e...

 Aqui vem o nosso Abreu, que h
de saber alguma coisa.

O Dr. Abreu que entrou nesse
momento, era um homem alto e magro, longo bigode, colarinho em p, palet e
calas azuis. Fomos apresentados um ao outro. O C. perguntou-lhe o que sabia da
crise.

 Nada, respondeu misteriosamente
o Dr. Abreu; apenas ouvi ontem de noite que os homens no se entendiam...

 Mas eu j hoje ouvi dizer na
praa que havia crise formal, disse o C.

  possvel, disse o outro. Sa
agora mesmo de casa, e vim logo para aqui... Houve Cmara?

 No.

 Bem; isso  um indcio. Estou
capaz de ir  Cmara...

 Para qu? Aqui mesmo saberemos.

O Dr. Abreu tirou um charuto de
uma charuteira de marroquim encarnado, e fitando muito os olhos no cho, como
quem est seguindo um pensamento, acendeu quase maquinalmente o charuto.

Soube depois que era um meio
inventado por ele para no oferecer charutos aos circunstantes.

 Mas que lhe parece?
perguntou-lhe o C. passando algum tempo.

 Parece-me que os homens caem.
Nem podia deixar de ser assim. H mais de um ms que andam brigados.

 Mas por qu? perguntei eu.

 Por vrias coisas; e a principal
 justamente a presidncia da sua provncia...

 Ah!

 O Ministro do Imprio quer o
Valadares, e o da fazenda insiste pelo Robim. Ontem houve conselho de
ministros, e o do Imprio apresentou definitivamente a nomeao do Valadares...
Que faz o colega?

 Ora, vivam! Ento j sabem da
crise?

Esta pergunta era feita por um
sujeito que entrou pela loja mais rpido que um foguete. Trazia na cara uns
ares de gazeta noticiosa.

 Crise formal? perguntamos todos.

 Completa. Os homens brigaram
ontem de noite; e foram hoje de manh a S. Cristvo...

  o que dizia, observou o Dr.
Abreu.

 Qual o verdadeiro motivo da
crise? perguntou o C.

 O verdadeiro motivo foi uma
questo da guerra.

 No creia nisso!

O Dr. Abreu disse estas palavras
com um ar de to altiva convico, que o recm-chegado replicou um pouco
enfiado:

 Sabe ento o verdadeiro motivo
mais do que eu que estive com o cunhado do Ministro da Guerra?

A rplica pareceu decisiva; o Dr.
Abreu limitou-se a fazer aquele gesto com que a gente costuma dizer: Pode
ser...

 Seja qual for o motivo, disse o
C., a verdade  que temos crise ministerial; mas ser aceita a demisso?

 Eu creio que , disse o Sr.
Ferreira (era o nome do recm-chegado).

 Quem sabe?

Ferreira tomou a palavra:

 A crise era prevista; eu h mais
de quinze dias anunciei ali em casa do Bernardo, que a crise no podia deixar
de estar iminente. A situao no podia prolongar-se; se os ministros no
concordassem a Cmara os obrigaria a sair. J a deputao da Bahia tinha
mostrado os dentes, e at sei (posso diz-lo agora) sei que um deputado do
Cear estava para apresentar uma moo de desconfiana...

Ferreira disse estas palavras em
voz baixa, com o ar misterioso que convm a certas revelaes. Nessa ocasio
ouvimos um carro. Corremos  porta; era efetivamente um ministro.

 Mas ento no esto todos em S. Cristvo? observou o C.

 Este vai naturalmente para l.

Ficamos  porta; e o grupo foi-se
pouco a pouco aumentando; antes de um quarto de hora ramos oito. Todos falavam
na crise; uns sabiam a coisa de fonte certa; outros por ouvir dizer. O Ferreira
saiu pouco depois dizendo que ia  Cmara saber o que havia de novo. Nessa
ocasio apareceu um desembargador e indagou se era exato o que se dizia
relativamente  crise ministerial.

Afirmamos que sim.

 Qual seria a causa? perguntou
ele.

O Abreu, que dera antes como causa
a presidncia l da provncia, declarou agora ao desembargador que uma questo
da guerra produzira o desacordo entre os ministros.

 Est certo disso? perguntou o
desembargador.

 Certssimo; soube-o hoje mesmo
do cunhado do Ministro da Guerra.

Nunca vi maior facilidade em mudar
de opinio, nem maior descaro em colher as afirmaes alheias. Interroguei
depois o C. que me respondeu:

 No te espantes; em tempo de
crise  sempre bom mostrar que se anda bem infocrmado.

Dos presentes eram quase todos
oposicionistas, ou pelo menos faziam coro com o Abreu, que fazia diante do
cadver ministerial o papel de Bruto diante do cadver de Csar. Alguns
defendiam a vtima, mas como se defende uma vtima poltica, sem grande calor
nem excessiva paixo.

Cada personagem novo trazia uma
confirmao ao trato; j no era trato; evidentemente havia crise. Grupos de
polticos e politices estavam parados s portas das lojas, conversando
animadamente. De quando em quando surgia ao longe um deputado. Era logo cercado
e interrogado; e s se colhia a mesma coisa.

Vimos ao longe um homem de 35
anos, meo na altura, suas, luneta pnsil, olhar profundo, acompanhando uma
influncia poltica.

 Graas a Deus! agora vamos ter
notcias frescas, disse o C.

Ali vem o Mendona; h de saber
alguma coisa.

A influncia poltica no pde
passar de outro grupo; o Mendona veio ao nosso.

 Venha c; voc que lambe os
vidros por dentro h de saber o que h?

 O que h?

 Sim.

 H crise.

 Bem; mas os homens saem ou
ficam?

Mendona sorriu, depois ficou
srio, corrigiu o lao da gravata, e murmurou um: no sei; assaz
parecido com um: sei demais.

Olhei atentamente para aquele
homem que parecia estar senhor dos segredos do Estado, e admirei a discrio
com que os ocultava de ns.

 Diga o que sabe, Sr. Mendona,
disse o desembargador.

 Eu j disse a V. Excia. o que
h, interrompeu o Abreu; pelo menos tenho razo para afirm-lo. No sei o que
sabe l o Sr. Mendona, mas creio que no estar comigo...

Mendona fez um gesto de quem ia
falar. Foi cercado por todos. Ningum ouviu com mais ateno o orculo de
Delfos.

 Sabem que h crise; a causa 
muito secundria, mas a situao no podia prolongar-se.

 Qual  a causa?

 A nomeao de um juiz de
direito.

 S!

 S.

 J sei o que , disse Abreu
sorrindo. Era negcio pendente h muitas semanas.

 Foi isso. Os homens l foram ao
pao.

 Ser aceita a demisso?
perguntei eu.

Mendona abaixou a voz.

 Creio que .

Depois apertou a mo ao
desembargador, ao C. e ao Abreu e retirou-se com a mesma satisfao de um homem
que acaba de salvar o Estado.

 Pois, senhores, eu creio que
esta verso  a verdadeira. O Mendona anda informado.

Passa defronte um sujeito.

 Anda c, Lima, gritou Abreu.

O Lima aproximou-se.

 Ests convidado para o
ministrio?

 Estou; voc quer alguma pasta?

No penses que este Lima era
alguma coisa; o dito de Abreu era um gracejo que se renova em todas as crises.

A nica preocupao do Lima eram
umas senhoras que passavam. Ouvi dizer que eram as Valadares,  a famlia do
indigitado presidente. Pararam  porta da loja, conversaram alguma coisa com o
C. e o Lima, e seguiram viagem.

 So lindas estas moas, disse um
dos circunstantes.

 Eu era capaz de as nomear para o
ministrio.

 Sendo eu presidente do conselho.

 Tambm eu.

 A mais gorda devia ser Ministro
da Marinha.

 Por qu?

 Porque parece mesmo uma fragata.

Ligeiro sorriso acolheu este
dilogo entre o desembargador e o Abreu. Viu-se ao longe um carro.

 Quem ser? Algum ministro?

 Vejamos.

 No;  a A...

 Como vai bonita!

 Pudera!

 Ela j tem carro?

 H muito tempo.

 Olhem, ali vem o Mendona.

 Vem com outro. Quem ?

  um deputado.

Passaram os dois juntos de ns. O
Mendona no nos cumprimentou; ia conversando baixinho com o deputado.

Houve outra trgua na conversa
poltica. E no te admires. Nada mais natural do que entremear aqui uma
discusso sobre crise poltica com as sedas de uma dama do tom.

Finalmente surgiu de longe o j
citado Ferreira.

 Que h? perguntamos quando ele
chegou.

 Foi aceita a demisso.

 Quem  o chamado?

 No se sabe.

 Por qu?

 Dizem que os homens ficam com as
pastas at segunda-feira.

Dizendo estas palavras, o Ferreira
entrou, e foi sentar-se. Outros o imitaram; alguns se foram embora.

 Mas donde sabe isso? disse o
desembargador.

 Soube na Cmara.

 No me parece natural.

 Por qu?

 Que fora moral deve ter um
ministrio j demitido e ocupando as pastas?

 Realmente, a coisa  singular;
mas eu ouvi ao primo do Ministro da Fazenda.

Ferreira tinha a particularidade
de andar informado pelos parentes dos ministros; pelo menos, assim o dizia.

 Quem ser chamado?

 Naturalmente o N.

 Ou o P.

 J hoje de manh se dizia que
era o K.

Entrou o Mendona; o caixeiro
deu-lhe uma cadeira, e ele sentou-se ao lado do Lima, que nesse momento
descalava as luvas, ao mesmo tempo que o desembargador oferecia rap aos
circunstantes.

 Ento, Sr. Mendona, quem  o
chamado? perguntou o desembargador.

 O B.

 Com certeza?

  o que se diz.

 Eu ouvi que s na segunda-feira
se organizar ministrio novo.

 Qual! insistiu Mendona;
afirmo-lhe que o B. foi ao pao.

 Viu-o?

 No, mas disseram-mo.

 Pois acredite que at
segunda-feira...

A conversa ia-me interessando; eu
j tinha esquecido o interesse que ligava  mudana dos ministros, para atender
simplesmente ao que se passava diante de mim. No imaginas o que  formar um
ministrio na rua antes que ele esteja formado no pao.

Cada qual exps a sua conjetura;
vrios nomes foram lembrados para o poder. s vezes aparecia um nome contra o
qual se apresentavam objees; ento replicava o autor da combinao:

 Est enganado; pode o F. ficar
com a pasta da Justia, o M. com a da Guerra, K. Marinha, T. Obras Pblicas, V.
Fazenda, X. Imprio, e C. Estrangeiros.

 No  possvel; o V.  que deve
ficar com a pasta de Estrangeiros.

 Mas o V. no pode entrar nessa
combinao.

 Por qu?

  inimigo do F.

 Sim; mas a deputao da Bahia?

Aqui coava o outro a orelha.

 A deputao da Bahia, respondia
ele, pode ficar bem metendo o N.

 O N. no aceita.

 Por qu?

 No quer ministrio de
transio.

 Chama a isto ministrio de
transio?

 Pois que  mais?

Este dilogo em que todos tomavam
parte, inclusive o C. e que era repetido sempre que um dos circunstantes
apresentava uma combinao nova, foi interrompido pela chegada de um deputado.

Desta vez amos ter notcias
frescas.

Efetivamente soubemos pelo
deputado que o V. tinha sido chamado ao pao e estava organizando gabinete.

 Que dizia eu? exclamou Ferreira.
Nem era de ver outra coisa. A situao  do V.; o seu ltimo discurso foi o que
os franceses chamam discurso-ministro. Quem so os outros?

 Por ora, disse o deputado, s h
dois ministros na lista: o da Justia e o do Imprio.

 Quem so?

 No sei, respondeu o deputado.

No me foi difcil ver que o homem
sabia, mas era obrigado a guardar segredo. Compreendi que aquele  que lambia
os vidros por dentro, expresso muito usada em tempo de crise.

Houve um pequeno silncio.
Conjeturei que cada qual estivesse a adivinhar quem seriam os nomeados; mas, se
algum os descobriu, no os nomeou.

O Abreu dirigiu-se ao deputado.

 V. Ex.a acredita que
o ministrio fique organizado hoje?

 Creio que sim; mas da pode ser
que no...

 A situao no  boa, observou
Ferreira.

 Admira-me que V. Ex.a
no seja convidado...

Estas palavras, naquela ocasio
inconvenientes, foram pronunciadas pelo Lima, que trata a poltica como trata
as mulheres e os cavalos. Cada um de ns procurou disfarar o efeito de
semelhante tolice, mas o deputado respondeu direitamente  pergunta:

 Pois no me admira nada disso;
deixo o lugar aos componentes. Estou pronto a servir como soldado... No passo
disso.

 Perdo,  muito digno!

Entrou um homem esbaforido. Fiquei
surpreso. Era um deputado. Olhou para todos, e dando com os olhos no colega,
disse:

 Podes dar-me uma palavra?

 Que ? perguntou o deputado
levantando-se.

 Vem c.

Foram at  porta, depois
despediram-se de ns e seguiram apressadamente para cima.

 Esto ambos ministros, exclamou
Ferreira.

 Acredita? perguntei eu.

 Sem dvida.

Mendona foi da mesma opinio; e
foi a primeira vez que o vi adotar uma opinio alheia.

Eram duas horas da tarde quando
saram os dois deputados. Ansiosos por saber mais notcias, samos todos e
descemos a rua vagarosamente. Grupos de quatro e cinco se entretinham com o
assunto do dia. Parvamos; combinvamos as verses; mas no retificavam as dos
outros. Um desses grupos j estavam os trs ministros nomeados; outro
acrescentava os nomes dos dois deputados, pela nica razo de os ter visto
entrar num carro.

s trs horas j corriam verses
de todo o gabinete, mas era tudo vago.

Determinamos no voltar para casa
sem saber do resultado da crise, salvo se a notcia no viesse at s cinco
horas, pois era de mau gosto (disse-me o C.) andar na Rua do Ouvidor s 5 horas
da tarde.

 Mas qual ser o meio de saber?
perguntei eu.

 Eu vou ver se colho alguma
coisa, disse Ferreira.

Vrios incidentes nos iam detendo
a marcha: algum amigo que passava, uma mulher que saa de uma loja, uma jia
nova em uma vidraa, um grupo to curioso como o nosso, etc.

Nada se soube nessa tarde.

Voltei para o Hotel da Europa a
fim de descansar e jantar; o C. jantou comigo. Conversamos muito do tempo da
academia, dos nossos amores, das nossas travessuras, at que a noite veio e
resolvemos voltar  Rua do Ouvidor.

 No era melhor irmos  casa do
V., pois que  ele o organizador do gabinete? perguntei.

 Principalmente, no temos
tamanho interesse que justifique esse passo, respondeu o C.; depois,  natural
que ele no nos possa falar. Organizar um gabinete no  coisa simples.
Finalmente, apenas o gabinete estiver organizado c saberemos na rua qual ele
.

A Rua do Ouvidor  lindssima 
noite. Esto os rapazes s portas das lojas, vendo passar as moas, e como tudo
est iluminado, no imaginas o efeito que faz.

Confesso que me esqueceu o
ministrio e a crise. Havia ento menos quem cuidasse de poltica; a noite da
Rua do Ouvidor pertence exclusivamente  fashion, que  menos dada aos
negcios do Estado que os freqentadores de dia. Todavia, achamos alguns grupos
onde se dava como certa a organizao do gabinete, mas no se sabia ao certo
quem eram os ministros todos.

Encontramos os mesmos amigos da
manh.

Ora, justamente quando o Mendona
se dispunha a ir colher alguma coisa certa, apareceu o desembargador com o
rosto alegre.

 Que h?

 Est organizado.

 Mas quem so?

O desembargador tirou do bolso uma
lista.

 So estes.

Lemos os nomes  luz do lampio de
um mostrador. O Mendona no gostou do gabinete; o Abreu achou-o excelente; o
Lima, fraco.

 Mas isto  certo? perguntei eu.

 Deram-me agora esta lista; creio
que  autntica.

 O que ? perguntou por trs de
mim uma voz.

Era um sujeito moreno e bigode
grisalho.

 Sabe quem so? perguntou-lhe o
Abreu.

 Tenho uma lista.

 Vejamos se combina com esta.

Costearam-se as listas; havia
engano num nome.

Mais adiante encontramos outro
grupo lendo outra lista. Divergiam em dois nomes. Alguns sujeitos que no
tinham lista copiavam uma deles, deixando de copiar os nomes duvidosos, ou
escrevendo-os todos com uma cruz  margem. Corriam assim as listas at que
apareceu uma com ares de autntica; outras foram aparecendo no mesmo sentido e
s 9 horas da noite sabamos positivamente, sem arredar p da Rua do Ouvidor,
qual era o gabinete.

O Mendona ficou alegre com o
resultado da crise.

Perguntaram-lhe por que razo.

 Tenho dois compadres no
ministrio! respondeu ele.

Aqui tens o quadro infiel de uma
crise ministerial no Rio de Janeiro. Infiel digo, porque o papel no pode
conter os dilogos, nem as verses, nem os comentrios, nem as caras de um dia
de crise. Ouvem-se, contemplam-se; no se descrevem.
