Conto, Dvida extinta, 1878

Dvida extinta

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, novembro, 1878.

I

Que ele era um
dos primeiros gamenhos de seu bairro e outros bairros adjacentes,  coisa que
no sofre nem sofreu nunca a menor contestao. Podia ter competidores;
teve-os; no lhe faltaram invejosos; mas a verdade, como o sol, acabou
dissipando as nuvens e mostrando a face rutilante e divina, ou divinamente
rutilante, como lhes parecer mais correntio e penteado. O estilo h de ir 
feio do conto, que  singelo, nu, vulgar, no desses contos crespos e
arrevesados com que autores de m sorte tomam o tempo e moem a pacincia 
gente crist. Pois no! Eu no sei dizer coisas fabulosas e impossveis, mas as
que me passam pelos olhos, as que os leitores podem ver e tero visto. Olho,
ouo e escrevo.

E  por isso que
no lhes pinto o meu gamenho de olhos derreados o fronte byroniana. De Byron 
que ele no tinha nada, a no ser um volume truncado, vertido em prosa
francesa, volume que ele lia e relia, a ver se extraa dele e da cabea um
recitativo  dama de seus pensamentos, que pela sua parte era a mais galante do
bairro.

O bairro era o
espao compreendido entre o Largo da Imperatriz e o cemitrio dos Ingleses. A
data... h uns vinte e cinco anos. O gamenho tinha por nome Anacleto Monteiro.
Era nesse tempo um rapaz de vinte e trs para vinte e quatro anos, com um
princpio de barba e outro de bigode, rosto moreno, olhos de azeviche, cabelo
castanho, grosso, farto e comprido, que ele arranjava em caracis,  fora de
pente e banha e sobre o qual punha s tardes, o melhor de seus dois chapus
brancos. Anacleto Monteiro adorava o chapu branco e as botas de verniz.
Naquele tempo alguns gamenhos usavam umas botas de verniz de cano vermelho.
Anacleto Monteiro adotou esse invento como a mais sublime das invenes do
sculo. E to gentil lhe parecia a idia do cano vermelho, que nunca saa de
casa sem levantar uma polegada s calas para que os olhos das damas no
perdessem aquela circunstncia da cor de crista de galo. As calas eram finas
mas vistosas, o palet esticado, a luva cor de canela ou de cinza, em harmonia
com a gravata, que era cor de cinza ou de canela. Ponham-lhe uma bengala na mo
e v-lo-o tal qual era, h vinte e cinco anos, o primeiro gamenho de seu
bairro.

Dizendo que era o
primeiro no me refiro  elegncia mas  audcia, que era verdadeiramente
napolenica. Anacleto Monteiro estava longe de competir com outros rapazes do
tempo e do bairro, no captulo da toilette e das maneiras; mas
derrubava-os a todos no namoro. No namoro era um verdadeiro gnio. Namorava por
necessidade, do mesmo modo que o pssaro canta; era ndole, vocao,
conformao do esprito. Que mrito ou que culpa h na mangueira em dar mangas?
Pois era a mesma coisa Anacleto Monteiro.

 Este pelintra
ainda me h de entrar em casa um dia com as costelas quebradas, dizia o tio a
uma parenta; mas se ele pensa que chamarei mdico, engana-se redondamente.
Meto-lhe o cvado e meio de pano no corpo, isso sim!

 Rapaziadas...
objetava timidamente a parenta.

 Qual,
rapaziadas! desaforadas,  o que deve dizer. No respeita nada nem ningum; 
s namorar. Tudo o que ganha  para aquilo, que a senhora v;  para adamar-se,
almiscarar-se, e l vai ele! Ah! se ele no fosse filho daquela irm, que Deus
tem!...

E o Sr. Bento
Fagundes consolava-se das extravagncias do sobrinho inserindo no nariz duas
onas de Paulo Cordeiro.

 Deixai l; mais
dia menos dia, vem o casamento e sossega.

 Qual casamento,
qual carapua! Pois como h de casar uma cabea de vento que namora s quatro e
s cinco?

 Uma das cinco
fisga-o...

 H de ser
naturalmente a pior.

 Isso l, so
desatinos. O que podemos ter por certo,  que ele no h de gastar a vida toda
nisso...

 Gasta, gasta...
Olhe, o barbeiro  dessa opinio.

 Deixe l o
barbeiro... Quer que lhe diga? Eu creio que, mais dia menos dia, ele est
fisgado... J est. H a umas coisas que ouvi dizer na missa de domingo
passado...

 Que foi?

 Umas coisas...

 Diga.

 No digo. O que
for aparecer. Talvez tenhamos casamento mais breve do que pensa.

 Sim?

A Sra. Leonarda
fez um gesto de cabea. O Sr. Bento Fagundes esteve algum tempo a olhar as
paredes; depois prorrompeu irado:

 Mas, tanto
pior! Ele no est em posio de casar. Salvo se a sujeita...

E o orador
conclua a frase esfregando o polegar no indicador, gesto que a Sra. D.
Leonarda correspondeu com outro derreando os cantos da boca, e abanando a
cabea da direita para a esquerda.

 Pobre! traduziu
o Sr. Bento Fagundes. Olhe, se ele pensa que h de vir meter-me a mulher em
casa, est muito enganado. Eu no fiz cinqenta e quatro anos para sustentar
famlia nova. Talvez ele pense que eu tenha mundos e fundos.

 Mundos, no
digo, primo; mas fundos...

 Fundos! os das
gavetas.

Aqui o Sr. Bento
Fagundes ia esfriando e desconversando, e a Sra. D. Leonarda traava o xale e
despedia-se.

II

Bento Fagundes da
Purificao era boticrio, na Rua da Sade, desde antes de 1830. Em 1852, data
do conto, tinha ele vinte e trs anos de botica e um peclio, em que todos
acreditavam, posto ningum dissesse t-lo visto. Aparentemente havia dois
escravos, comprados no Valongo, quando esses eram ainda boais e a preo
mdico.

Vivia o Sr. Bento
Fagundes uma vida montona e aborrecida como a chuva mida. Raro saa da
botica. Nos domingos havia um vizinho que o ia entreter ao gamo, jogo em que
ele era emrito, porque era inaltervel contra as pirraas da sorte, vantagem
contra o adversrio, que era irritadio e frentico. Felizmente para as botijas
do Sr. Bento Fagundes, as coisas no se passavam como no soneto de Tolentino; o
parceiro no atirava ao ar as tbulas, limitava-se a expectorar a clera,
derramar o rap, assoar as orelhas, o queixo, a gravata, antes de atinar com o
nariz. s vezes acontecia brigar com o boticrio e ficar mal com ele at o
domingo seguinte; o gamo reconciliava-os: similia similibus curantur.

Nos demais dias,
o Sr. Bento Fagundes vendia drogas, manipulava as cataplasmas, temperava e arredondava
as plulas. De manh, lavado e enfronhado no rodaque de chita amarela,
sentava-se em uma cadeira  porta, a ler o Jornal do Comrcio, que lhe
emprestava o padeiro da esquina. No lhe escapava nada, desde os debates das
cmaras at os anncios teatrais, posto no fosse a espetculos nem sasse
nunca. Lia com igual pachorra todos os anncios particulares. Os derradeiros
minutos eram dados ao movimento do porto. Uma vez inteirado das coisas do dia,
entregava-se todo aos misteres da farmcia.

Esta vida tinha
duas alteraes durante o ano; uma na ocasio das festas do Esprito Santo, em
que o Sr. Bento Fagundes ia ver as barracas, em companhia dos trs parentes que
tinha; outra na ocasio da procisso de Corpus Christi. Salvo essas duas
ocasies, nunca mais vinha  cidade o Sr. Bento Fagundes. Assim que, era todo
ele uma regularidade de cronmetro; um gesto compassado e um ar soturno com o
qual se parecia a botica, que era uma loja escura e melanclica.

Claro  que um
homem com tais hbitos longamente adquiridos mal poderia suportar a vida que
levava o pintalegrete do sobrinho. Anacleto Monteiro no era s pintalegrete;
trabalhava; tinha um emprego no Arsenal de Guerra; e s acabado o trabalho ou
nos dias de frias, atirava-se s ruas da Sade e adjacentes. Que ele passeasse
uma vez ou outra, no lho contestava o tio; mas sempre, e de botas encarnadas,
eis o escndalo. Da a raiva, os ralhos, as exploses. E quem o obriga a
aloj-lo na botica, dar-lhe casa, cama e mesa? O corao, leitora minha, o corao
de Bento Fagundes que ainda se conservava mais puro do que suas drogas. Bento
Fagundes tinha dois sobrinhos: o nosso Anacleto, que era filho de uma sua irm
muito querida, e Adriano Fagundes, filho de um irmo, a quem ele detestara
enquanto vivo foi. Em Anacleto amava a lembrana da irm; em Adriano as
qualidades pessoais; amava-os igualmente, e talvez um poucochinho mais a
Adriano do que ao outro.

As boas
qualidades deste eram mais conformes ao gnio do boticrio. Primeiramente, no
usava botas encarnadas, nem chapu branco, nem luvas, nem qualquer outro
distintivo de peraltice. Era um jarreta precoce. No arruava, no ia a teatros,
no gastava charutos. Tinha vinte e cinco anos e tomava rap desde os vinte.
Finalmente, apesar do convite que o tio lhe fez, nunca foi morar com ele;
residia em casa sua, na Rua do Propsito. Bento Fagundes suspeitava que ele
punha dinheiro de lado, suspeita que o tornava inda mais digno de apreo.

No havia entre
os dois primos grande afeio; mas davam-se, encontravam-se freqentes vezes ou
em casa do tio, ou na casa de Adriano. Nem este podia suportar a peraltice de
Anacleto, nem Anacleto o jarretismo de Adriano, e ambos tinham razo, porque
cada um deles via as coisas atravs de suas prprias preferncias, que  o que
acontece aos demais homens; sem embargo, porm, desse abismo que entre os dois
havia, davam-se e continuavam as relaes da infncia.

O tio estimava
v-los mais ou menos unidos. Sua clera a respeito de Anacleto, seus protestos
de o no receber em casa quando ele casasse, eram protestos ao vento, era
clera de namorado. Por outro lado, a sequido com que tratava Adriano era
apenas uma crosta, uma aparncia mentirosa. Como ficou dito, os dois rapazes
eram as duas nicas afeies do velho farmacutico, e a dor nica e verdadeira
que ele teria era se os visse inimigos. Vendo-os amigos, no pedia Bento
Fagundes nada mais ao destino do que v-los sos, empregados e felizes. Eles e
a Sra. D. Leonarda eram seus nicos parentes; esta mesma veio a morrer antes dele,
no lhe restando nos ltimos dias mais do que Anacleto e Adriano, as meninas de
seus olhos.

III

Ora,  de saber
que justamente no tempo em que a Sra. D. Leonarda fez meia confidncia ao
boticrio, era esta nada menos que verdica. Entre os dez ou doze namoros que o
jovem Anacleto entretinha nessa ocasio, havia um que ameaava internar-se
pelos domnios conjugais.

A donzela que
assim queria cortar as asas ao volvel Anacleto morava na Praia da Gamboa. Era
um demoninho de olhos pretos, que  a cor infernal por excelncia. Dizia-se na
vizinhana que em matria de namoro ela pedia meas ao sobrinho de Bento
Fagundes. Devia ser assim, porque muita sola de sapato era gasta na referida
praia, s por motivo dela, sem que nenhum dos pretendentes desanimasse, o que 
prova de que se a boa menina lhes no respondia que sim, tambm lhes no dizia
que no.

Carlota era o
nome desta volvel criatura. Tinha perto de dezenove anos e no possua
dezenove mil-ris. Os pretendentes no olhavam a isso; gostavam dela pelos
olhos, pela figura, por todas as graas que viam nela, e nada mais. As
vizinhas, suas naturais competidoras, no podiam perdoar-lhe a espcie de
monoplio que ela exercia em relao aos pintalegretes do bairro. Poucas eram
as que prendiam algum deles e estes eram quase todos, no rapazes desenganados,
mas precavidos, que depois de muito tempo, sem largar Carlota, iniciavam alguns
namoros suplementares.

Quando Anacleto
Monteiro se dignou baixar os olhos a Carlota foi com a inteno feita de derrubar
todos os pretendentes, fazer-se amado e romper o namoro, como era costume seu;
restituiria as cartas, ficando com duas, e a trana de cabelo, escondendo
alguns fios.

Um domingo de
tarde Anacleto Monteiro vestiu a melhor das roupas, empomadou-se, almiscarou-se,
enfeitou-se, ps na cabea o mais alvo dos chapus e saiu na direo da Gamboa.
Um general no dispe melhormente as suas tropas. A peleja era de honra; ele
afianara a alguns amigos, em uma loja de barbeiro, que deitaria ao cho todos
os que pretendiam o corao da pequena; cumpria dirigir o ataque em regra.

Nessa tarde houve
s um reconhecimento, e completo.

Ele passou
fitando na moa uns olhos lnguidos, depois intimativos, depois misteriosos. A
vinte passos parou, olhando para o mar, tirou o leno, chegou aos lbios, e
guardou-o depois de o agitar um pouco em forma de adeus. Carlota, que percebera
tudo, curvou muito o corpo, a brincar com um dos cachos. Usava cachos. Era uma
de suas armas.

No dia seguinte,
prosseguiu no reconhecimento, mas ento mais prximo  fortaleza. Anacleto
passou duas ou trs vezes pela porta, sorriu, contraiu as sobrancelhas, piscou
um olho. Ela sorriu tambm mas sem olhar para ele, com um gesto muito
disfarado e gracioso. Ao cabo de quatro dias estavam esgotados estes
preliminares amatrios, e Anacleto convencido de que podia empreender um ataque
 viva fora. A fortaleza pedia isso mesmo; a pontualidade com que o esperava 
janela, o interesse com que o seguia, o sorriso que lhe guardava no canto do
lbio, eram tudo sintomas de que a fortaleza estava prestes a render-se.

Anacleto
aventurou a primeira carta. A primeira carta de Anacleto era sempre a mesma.
Senhora! Desde o primeiro instante em que meus olhos tiveram a ventura etc.
Duas pginas deste chavo inspido mas eficaz. Escrita a carta, dobrou-a,
fechou-a em forma de lao, meteu-a no bolso e saiu. Passou; deixou cair a
noite; voltou a passar e, cosendo-se com a parede e a rtula, deu-lhe a carta
com uma arte s comparvel  arte com que ela a recebeu. Carlota foi l-la da
a alguns minutos.

Leu-a, mas no
escreveu logo a resposta. Era um de seus artifcios; nem escreveu a resposta,
nem chegou  janela, nos dois dias posteriores.

Anacleto foi s
nuvens quando, no dia seguinte, ao passar-lhe pela porta no viu a deusa da
Gamboa, como os rapazes lhe chamavam. Era a primeira que lhe resistia ao estilo
e ao almscar. Repetiu-se-lhe o caso no outro dia, e ele sentiu alguma coisa
semelhante ao amor-prprio ofendido.

 Ora d-se!
dizia ele consigo mesmo. Uma lambisgia que... Da, pode ser que esteja doente.
 isso; est doente... Se pudesse saber alguma coisa! Mas como?

No indagou nada
e esperou mais vinte e quatro horas; resoluo acertada, porque, vinte e quatro
horas depois, tinha ele a fortuna de ver a deusa, logo que apontou ao longe.

 L est ela.

Carlota tinha-o
visto e olhava para o mar. Anacleto aproximou-se; ela fitou-o; trocaram uma
chispa. Justamente ao passar pela rtula, Anacleto sussurrou com voz trmula e
puxada do corao:

 Ingrata!

Ao que ela
retorquiu:

 s ave-marias.

No havia j para
o sobrinho de Bento Fagundes comoes novas. O dito de Carlota no lhe fez
ferver o sangue. Sentiu-se porm lisonjeado. A praa estava rendida.

Logo depois das
ave-marias voltou o petimetre, encostadinho  parede, a passo curto e demorado.
Carlota deixou cair um papel, ele deixou cair o leno e abaixou-se para apanhar
o leno e o papel. Quando ergueu a cabea a moa tinha desaparecido.

A carta era
tambm um chavo. Carlota dizia sentir igual sentimento ao de Anacleto
Monteiro, mas pedia-lhe que, se no fosse inteno dele am-la deveras, melhor
era deix-la entregue  solido e s lgrimas. Estas lgrimas, as mais
hipotticas do mundo, engoliu-as o sobrinho do boticrio, porque era a primeira
vez que lhe falavam delas logo na primeira epstola. Concluiu que o corao da
pequena devia arder como um Vesvio.

A isto seguiu-se
uma orgia de cartas e passeios, de lencinho na boca, e de paradas  porta.
Antes de parar  porta, Anacleto Monteiro aventurou um aperto de mo, coisa
fcil, porque ela no a tinha pendurado para outra coisa.

Logo no dia
seguinte passou; estiveram alguns instantes sem dizer nada; depois disseram
ainda menos, porque falaram da lua e do calor. Foi s o intrito. Est provado
que a lua  o caminho do corao. No tardou que comeassem a repetir de viva
voz tudo o que tinham escrito nas cartas. Juras eternas, saudades, paixo
invencvel. No ponto agudo do casamento nenhum deles tocou, ela por modstia, ele
por prudncia; e assim correram as duas primeiras semanas.

IV

 Mas, deveras,
voc gosta de mim?

 Cus! Por que
me fazes essa pergunta? dizia pasmado Anacleto Monteiro.

 Eu sei! Voc 
to volvel!

 Volvel, eu!

 Sim, voc. J
me avisaram a seu respeito.

 Ah!

 J me disseram
que voc gasta o seu tempo a namorar, a enganar as moas, e depois...

 Quem foi esse
caluniador?

 Foi uma pessoa
que voc no conhece.

 Carlota, bem
sabes que meu corao palpita por ti e somente por ti... Pelo contrrio, voc 
que me parece no gostar nada... No abane a cabea; eu posso dar-lhe provas.

 Provas! Venha
uma.

 Posso dar
vinte. Em primeiro lugar, ainda no pude obter que voc me desse um beijo. Que
quer dizer isso, seria que voc quer s passar o tempo?

Carlota fez uma
careta.

 Que tem? que ?
disse Anacleto Monteiro angustiado.

 Nada; uma
pontada.

 Costumas a ter
isso?

 No, s ontem 
que me apareceu... H de ser a morte.

 No digas
semelhante coisa!

A dor passara e o
beijo no viera. Anacleto Monteiro suspirava pelo beijo desde o sexto dia de
palestra e Carlota com muita arte ia transferindo a ddiva para as calendas
gregas.

Naquela noite
saiu dali Anacleto um pouco picado de despeito, que era j um princpio de amor
srio. Caminhou pela praia adiante, sem reparar em um vulto que a trinta ou
quarenta passos estivera a espreit-lo; um vulto que ali ficou ainda por espao
de meia hora.

No reparou
Anacleto, seguiu para casa e entrou zangado e melanclico. Fumou dez ou doze
cigarros para distrair-se; leu duas ou trs pginas do Carlos Magno; por
fim deitou-se e s tarde conseguiu dormir. A figura de Carlota saa-lhe dos
cigarros, das folhas do livro e de dentro dos lenis. Na botica, logo que
entrou, pareceu-lhe v-la entre dois frascos de ipecacuanha. Comeava a ser
idia fixa.

Surgiu o dia
seguinte.

 Nada!  preciso
cortar este negcio antes que v mais longe, dizia ele consigo.

Diz-lo era
fcil; cumpri-lo era um pouco mais duro. Ainda assim, teve Anacleto foras para
no ir nessa tarde  Gamboa; mas to cruel foi a noite, e to longo o dia
seguinte, que na outra tarde, ainda o sol ardia longe do poente, e j o
sobrinho do boticrio palmilhava pela praia adiante.

Nestas negaas,
neste ir e vir, zangar-se e reconciliar-se, perdia ele o tempo e perdia tambm
a liberdade. O amor verdadeiro apoderou-se dele. As outras damas foram
abandonadas aos demais pretendentes, que folgaram com a incompatibilidade moral
de Anacleto Monteiro, por mais momentnea que ela fosse.

Antes de ir
adiante, importa explicar que nenhuma pessoa havia dito a Carlota o que ela
alegou que lhe disseram; era um recurso de namorada, uma peta inocente. Anacleto,
na qualidade de varo, engoliu a caraminhola. Os homens neste caso so uma
verdadeira lstima.

Desde que sentiu
amar deveras, o sobrinho de Bento Fagundes pensou seriamente no casamento. Sua
posio no era brilhante; mas nem a noiva exigira muito, nem seu corao tinha
liberdade de refletir. Demais, havia para ele certa esperana nos xaropes do
tio. Tambm ele cria que Bento Fagundes possua algum peclio. Isto, o amor, a
beleza de Carlota, a pobreza desta, eram motivos poderosos para lev-lo a falar
desde logo no desenlace religioso.

Uma noite
aventurou o pedido.

Carlota ouviu-o
com palpites; mas sua resposta foi uma evasiva, um adiamento.

 Mas por que no
me responde j? dizia ele desconfiado.

 Quero...

 Diga.

 Quero primeiro
sondar mame.

 Sua me no se
opor  nossa felicidade.

 Creio que no;
mas no desejo dar palavra sem estar certa de a poder cumprir.

 Logo no me
ama.

 Que exagerao!

Anacleto mordeu a
ponta do leno.

 No me ama,
gemeu ele.

 Amo, sim.

 No! Se me
amasse, outra seria sua resposta. Adeus, Carlota! Adeus para sempre!

E deu alguns
passos...

Carlota no lhe
respondeu nada. Deixou-se ficar  janela at que ele voltasse, o que no
demorou muito. Anacleto voltou.

 Jura que me
ama? disse ele.

 Juro.

 Vou mais
tranqilo. S desejo saber quando poderei obter sua resposta.

 Dentro de uma
semana; talvez antes.

 Adeus!

Desta vez o vulto
que o espreitara em uma das noites anteriores, estava no mesmo lugar, e quando
o viu afastar-se caminhou para ele. Caminhou e parou; olharam-se: foi um lance
teatral.

O vulto era
Adriano.

Vai o leitor
vendo que o conto no se parece com outros de gua morna. Neste h inclinao
trgica. Um leitor atilado v j ali uma espcie de fratricdio moral, um
produto do destino antigo. No  bem isto; mas podia ser. Adriano no sacou um
punhal do bolso, nem Anacleto recorreu  espada, que alis nem trazia nem
possua. Digo mais: Anacleto nem suspeitou nada.

 Tu por aqui!

 Ando a tomar
fresco.

 Tens razo; faz
um calor!

Os dois seguiram;
falaram de vrias coisas estranhas at chegarem  porta da casa de Adriano.
Cinco minutos depois, Anacleto despedia-se.

 Onde vais?

 Para casa; so
nove horas.

 Podes dispensar
alguns minutos? disse Adriano em tom srio.

 Pois no.

 Entra.

Entraram.

Anacleto ia meio
intrigado, como dizem os franceses; o tom do primo, seus modos, tudo tinha um
ar misterioso e aguava a curiosidade.

Adriano no o fez
demorar muito, nem deu lugar a conjecturas. Logo que entraram, acendeu uma
vela, convidou-o a sentar-se e falou por este modo:

 Voc gosta
daquela moa?

Anacleto
estremeceu.

 Que moa?
perguntou ele depois de curto silncio.

 A Carlota.

 A da Praia da
Gamboa?

 Sim.

 Quem lhe disse
isso?

 Responda:
gosta?

 Creio que sim.

 Mas... deveras?

 Essa agora!

 A pergunta 
natural, disse Adriano com tranqilidade. Voc  conhecido por gostar de
namorar umas e outras. No h motivo de censura, porque assim fazem muitos
rapazes. Por isso desejo saber se gosta deveras, ou se  um simples passatempo.

Anacleto refletiu
alguns instantes.

 Desejava saber
qual ser sua concluso em qualquer dos casos.

 Simplssima. No
caso de ser passatempo, pedir-lhe-ei que no ande a iludir uma pobre moa que
lhe no fez mal nenhum.

Anacleto j
estava srio.

 E no caso de
gostar deveras? disse ele.

 Neste caso,
dir-lhe-ei que tambm gosto dela deveras e que, sendo ambos competidores,
poderemos resolver este conflito por algum modo.

Anacleto Monteiro
bateu com a bengala no cho e ergueu-se fazendo um arremesso, enquanto Adriano,
pacificamente sentado, aguardava a resposta do primo. Este passeou de um lado
para outro sem saber que lhe respondesse e desejoso de o deitar pela janela
fora. O silncio foi longo. Anacleto rompeu-o, detendo-se de sbito:

 Mas no me dir
qual ser o modo de resolver o conflito? disse ele.

 Vrios.

 Vejamos, disse
Anacleto, sentando-se de novo.

 Primeiro: voc
desiste de a pretender;  o mais fcil e simples.

Anacleto
contentou-se com sorrir.

 O segundo?

 O segundo 
retirar-me eu.

  o melhor.

  o impossvel,
nunca o farei.

 Ah! ento sou
eu que devo retirar-me e deix-lo... Na verdade!

 Terceiro modo,
continuou pacificamente Adriano: ela escolher entre ambos.

 Isso 
ridculo.

 Justamente: 
ridculo... E  por ser destes trs modos, um ridculo e outro impossvel, que
eu lhe proponho o mais praticvel dos trs: sua retirada. Voc tem namorado
muitas sem casar; ser mais uma. E eu, que no uso namorar, gostei desta e
espero chegar ao casamento.

S ento lembrou
a Anacleto fazer-lhe a mais natural pergunta do mundo:

 Mas tem voc
certeza de ser amado por ela?

 No.

Anacleto no se
pde conter: levantou-se, soltou dois improprios e dirigiu-se para a porta. O
primo foi ter com ele.

 Venha c,
disse; resolvamos primeiro este negcio.

 Resolver o qu?

 Quer ento
ficar mal comigo?

Anacleto ergueu
secamente os ombros.

 Quer a luta?
tornou o outro. Pois lutaremos, pelintra!

 No luto com
jarretas!

 Tolo!

 Malcriado!

 Sai daqui,
pateta!

 Saio, sim; mas
no  por causa de seus berros, ouviu?

 Gabola!

 Grosseiro!

Anacleto saiu; o
primo soltou-lhe ainda um adjetivo atravs das persianas, a que ele respondeu
com outro, e foi o ltimo.

V

Adriano, logo que
ficou s, aplacou a clera com uma pitada, monologou um pouco e refletiu longo
tempo. De todas as injrias que o primo lhe dissera, a que mais o impressionou
foi o epteto de jarreta, evidentemente cabido. Adriano viu-se ao espelho e
concluiu que, efetivamente, uma gravata com menos voltas no lhe iria mal. A
roupa, em vez de comprada em um adelo, podia ser mandada fazer por algum
alfaiate. S no sacrificou ao chapu branco.

O chapu branco 
a pacholice do vesturio, disse ele.

Depois, lembrou-se
de Carlota, de seus olhos negros, dos gestos de desdm que lhe fazia quando ele
lhe cravava uns olhos mortos. Seu corao palpitava com uma fora incrvel; era
amor, clera, despeito, desejo de triunfar. O sono dessa noite foi entremeado
de sonhos agradveis e terrveis pesadelos. Um destes foi imenso. Adriano
sonhou que o primo lhe arrancava os olhos com a ponta da bengala, depois de lhe
pr na cara o par de botas, em um dia de chuva mida, testemunha desse
espetculo, que fazia lembrar os mais belos dias de Calgula; Carlota ria s
gargalhadas. O prego de uma quitandeira arrancou-o felizmente ao suplcio;
eram sete horas da manh.

Adriano no
perdeu tempo. Logo nesse dia tratou de melhorar a toilette, abrindo um
pouco os cordes da bolsa. A que no obriga o amor? Adriano encomendou umas
calas menos irrisrias, um palet mais socivel; muniu-se de outro chapu;
sacrificou os sapatos de dois mil e quinhentos. Quando estes utenslios lhe
foram entregues, Adriano investiu denodadamente  Praia da Gamboa, aonde no
fora desde a noite do ltimo encontro com Anacleto.

Pela sua parte, o
primo no perdera tempo. No receava a competncia de Adriano Fagundes, mas
tinha para si que se desforraria das pretenses deste, apressando o casamento.
E conquanto nada receasse do outro, de quando em quando lhe soava no corao a
palavra imperiosa do primo, e, incerto das predilees de Carlota, no sabia s
vezes em que daria o duelo.

Vendo-o triste e
preocupado, o boticrio lembrou-se das palavras da Sra. D. Leonarda, e, como
tinha grande afeto ao sobrinho, sentia ccegas de lhe dizer alguma coisa, de o
interrogar a respeito da mudana que lhe notava. No se atrevia. A Sra. D.
Leonarda, com quem conferenciou a tal respeito, acudiu logo:

 No lhe dizia
eu? No  nada; so amores. O rapaz est pelo beio...

 Pelo beio de
quem? perguntou Bento Fagundes.

 Isso... no
sei... ou... no posso dizer... H de ser ali para os lados da Gamboa...

Bento Fagundes
no pde obter mais. Continuou aborrecido. Anacleto Monteiro no voltava a ser
o que era antes; ele temia alguma pretenso mal acertada, e pensava j em
intervir, se fosse caso disso e valesse a pena.

 Que tens tu,
rapaz? Andas melanclico...

 No tenho nada;
ando constipado; dizia Anacleto Monteiro sem atrever-se a encarar o tio.

Metade dos
motivos da constipao de Anacleto, j o leitor a conhece; a outra metade vou
dizer-lha.

Insistira o rapaz
no casamento, Carlota continuava a negacear. A razo deste proceder explica-se
dizendo que ela queria fazer-se rogada, prender mais fortemente o corao de
Anacleto, despeit-lo; e a razo da razo era que mais de uma vez prometera a
mo, desde o primeiro dia, a sujeitos que no se lembravam mais de ir busc-la.
Carlota namorava desde os quinze anos e estava cansada de esperar um noivo.
Agora, seu plano era despeitar o pretendente, certa de que os homens nada
desejam mais ardentemente do que o amor que se lhes nega desde logo. Carlota
era um principezinho de Metternich.

Irritado com a
recusa e o adiamento da moa, Anacleto cometeu um erro monumental: aventurou a
idia de que houvesse algum rival, e, negando-o ela, retorquiu o pasccio:

 Tenho, tenho...
No h muitos dias escapei de me perder por sua causa.

 Minha causa?

  verdade. Um
bigorrilhas, que, por minha desgraa,  meu primo, espreitou-me uma noite
inteira e depois foi provocar-me.

 Sim?

 Provocar-me, 
verdade. Estivemos a ponto de pegar-nos. Ele escumava de raiva, chorava,
rasgava-se, mas eu que lhe sou superior em tudo, no lhe dei trela e sa.

 Ora essa!

 Sabes o que me
props?

 Que foi?

 Que eu
desistisse de tua mo em favor dele.

 Tolo!

 No achas?

 Sem dvida!

 Juras-me que
no  dele?

 Juro!

 Vou mais
contente. Mas quando falars a tua me?

 Hoje; hoje ou
amanh.

 Fala hoje
mesmo.

 Pode ser.

Depois de um
instante disse Carlota:

 Mas eu nem me
lembro de o ter visto! Que figura tem ele?

 Um jarreta.

E Anacleto
Monteiro, com aquela ternura que a situao lhe metia na alma, descreveu a
figura do primo, de quem Carlota se lembrou logo perfeitamente.

Fisicamente, no
ficou a moa lisonjeada; mas a idia de ser loucamente amada, ainda por um
jarreta, foi-lhe muito agradvel ao corao. As mulheres so principalmente
sensveis. Demais, Anacleto Monteiro cometera erro crasso sobre erro crasso:
alm de referir a paixo do primo, exagerou-lhe os efeitos; e dizer a Carlota
que um rapaz chorava por ela e se arrepelara era o mesmo que recomendar-lho 
imaginao.

Carlota pensou
efetivamente no jarreta, cuja paixo lhe parecia, seno mais sincera pelo menos
mais ardente que a do elegante. Tinha lido romances; gostava dos amores que
saem do vulgar. A figura, porm, de Adriano, temperava cruelmente essas
impresses. Quando lhe lembrava o trajo e o desalinho do rapaz, sentia-se algo
vexada; mas, ao mesmo tempo, perguntava a si prpria se o apuro de Anacleto no
orava pelo ridculo. As gravatas deste, se no eram amarrotadas como as de
Adriano, eram vistosas demais. Ela no sabia ainda o nome do jarreta, mas j o
nome de Anacleto lhe no parecia bonito.

Estas imaginaes
de Carlota coincidiram com a pontualidade do alfaiate de Adriano, por modo que
no dia seguinte ao da notcia que Anacleto lhe dera, viu Carlota aparecer o seu
amador silencioso, melhormente encadernado. A moa estremeceu ao v-lo e quando
ele lhe passou pela porta, a olhar para ela, Carlota no retirou os olhos nem
lhes deu m expresso. Adriano passou, olhou duas vezes para trs sem que ela
sasse da janela. Longe disso! Estava to encantada com a idia de que aquele
homem chorava por ela e se finava de amores, que ele lhe pareceu melhor do que
estava.

Ambos ficaram
satisfeitos um do outro.

Este  o ponto
agudo da narrao; repouse a leitora um instante e ver coisas espantosas.

VI

Carlota est a
duas amarras. Adriano declarou-se por meio de uma carta, em que lhe disse tudo
o que sentia; a moa, vendo que os dois amadores eram parentes e sabiam
mutuamente o que sentiam, receou escrever-lhe. Resolveu, porm, a faz-lo, mudando
um pouco a letra e esfriando a frase mais que pde. Adriano ficou satisfeito
com esse primeiro resultado, e insistiu com outra epstola, a que ela
respondeu, e desde logo se estabeleceu ativa correspondncia.

No deixou
Anacleto de suspeitar alguma coisa. Primeiramente, viu a mudana que se operara
nas roupas do primo; encontrou-o na praia algumas vezes; finalmente, Carlota
parecia-lhe s vezes distrada; via-a menos; recebia menos cartas.

 Dar-se- caso
que o pelintra...? pensou ele.

E meditou uma
vingana.

No atinou com
ela, cogitou um suplcio entre os maiores possveis e no encontrou nenhum.
Nenhum estava na altura de seus brios.

Eu sinto dizer a
verdade  leitora, se alguma simpatia lhe merece este namorado: Anacleto...
tinha medo. De bom grado cederia todas as Carlotas do mundo se corresse algum
risco corporal. Num momento de raiva era capaz de soltar algum improprio; era
at capaz de fazer algum gesto de ameaa; chegaria at a um princpio de
realizao. Mas o medo dominaria logo. Ele tinha medo do primo.

 Infame! dizia
ele com os seus botes.

Os botes, que
no eram aliados ao primo nem tinham que ver com os interesses dele,
mantinham-se com exemplar discrio.

Anacleto Monteiro
adotou a poltica da defensiva. Era a nica. Tratou de conservar as posies
conquistadas, no sem tentar tomar de assalto o reduto matrimonial, reduto que
forcejava por no cair.

Os encontros dos
dois na praia eram freqentes; um empatava o outro. Adriano conseguira
chegar-se  fala, mas o outro no o percebeu logo nos primeiros dias. Foi s ao
cabo de uma semana que ele descobriu esse progresso do inimigo. Passou; viu um
vulto  porta; atentou nele; era Adriano.

 Meu Deus!
exclamou Carlota. Aquele moo me conhece...

 J sei,
replicou Adriano com pausa. Ele gosta da senhora.

 Oh! mas eu...

 No se importe
com isso; eu saberei ensin-lo.

 Pelo amor de
Deus!

 Descanse;  s
se bulir comigo.

Anacleto Monteiro
afastava-se dali com a morte na alma e o crebro em ebulio. Parou ao longe, disposto a esganar o primo, quando ele se aproximasse. Chegou a
querer voltar, mas recuou diante da necessidade de um escndalo. Todo ele
tremia de clera. Encostou-se  parede, disposto a esperar at meia-noite, at
o outro dia, se necessrio fosse. No era. Adriano, ao cabo de meia hora,
despediu-se de Carlota e seguiu na mesma direo do primo. Este hesitou entre
uma afronta e uma retirada; preferiu a primeira e esperou. Adriano veio a passo
lento, encarou-o e seguiu. Anacleto ficou pregado  parede. No fim de cinco
minutos recobrou todo o sangue, por haver ficado sem pinga dele, e foi para
casa a passo lento e cauteloso.

Naturalmente este
episdio no podia ir alm. Desenganado Anacleto por seus prprios olhos, no
tinha mais que esperar. Assim foi por algumas horas. Anacleto recorreu  pena
logo que chegou  casa, e numa carta longa e chorosa disse  namorada todas as
queixas de seu corao. Carlota redigiu uma resposta em que lhe dizia que a
pessoa com quem ela estivera falando da janela era visita de casa. Ele
insistiu: ela ratificou as primeiras declaraes at que trs dias depois
ocorreu em plena tarde, e em plena rua, um episdio que regozijou singularmente
a vizinhana.

Nessa tarde
encontraram-se os dois perto da casa da namorada. Anacleto teve a infelicidade
de um pigarro; conseqentemente tossiu. A tosse pareceu escarninha a Adriano,
que estacando o passo, disse-lhe uma injria em alta voz. Anacleto teve a
infelicidade de retorquir com outra. O sangue subiu  cabea do primo, que lhe
lanou a mo ao palet. Nesta situao no h covardia que resista. Por mal dos
pecados, Carlota apareceu  janela: a luta era inevitvel.

H de desculpar o
leitor se lhe dou esta cena de pugilato; mas, repare bem, e ver que ela  romntica,
de um romntico baixo. Na Idade Mdia, as coisas no se passavam de outro modo.
A diferena  que os cavaleiros lutavam com outras armas e outra solenidade, e
a castel era diferente de uma vulgar namoradeira. Mas s o quadro era outro; o
fundo era o mesmo.

A castel da
Gamboa assistiu  luta dos dois pretendentes meio penalizada, meio lisonjeada e
meio remordida. Viu ir pelos ares o chapu branco de Anacleto, desfazer-se-lhe
a cabeleira, desarranjar-se-lhe a gravata. Adriano, por sua parte, recebia
algum pontap avulso do adversrio e pagava-lho em bons cachaes. Rolaram os
dois por terra, no meio da gente que se juntava e que no podia ou no ousava
separ-los; um gritava, outro bufava; os vadios riam, a poeira cercava-os a
todos, como uma espcie de nuvem misteriosa.

No fim de dez
minutos, conseguiram os passantes separar os dois inimigos. Um e outro tinham
sangue. Anacleto perdera um dente; Adriano recebera uma mordidela na face.
Assim desfeitos, feridos, empoeirados, apanharam os chapus e estiveram a ponto
de travarem nova luta. Dois estranhos caridosos impediram a repetio e
levaram-nos para casa.

Carlota no
pudera ver o resto; retirara-se para dentro, acusando-se a si prpria. Foi dali
rezar a uma imagem de Nossa Senhora, pedindo-lhe a reconciliao dos dois e
prometendo no atender a mais nenhum deles para os no irritar um contra o
outro.

Ao mesmo tempo em
que ela solicitava a reparao do mal que fizera, cada um deles jurava entre si
matar o outro.

VII

Aquele lance da
Praia da Gamboa foi motivo das palestras do bairro durante alguns dias. A causa
da luta foi logo conhecida; e, como  natural em tais casos, aos fatos reais
vieram juntar-se muitas circunstncias de pura imaginao. O principal  que os
belos olhos de Carlota tinham tornado irreconciliveis inimigos os dois primos.
Haver melhor anncio do que este?

Bento Fagundes
soube do caso e do motivo. Pesaroso, quis reconciliar os rapazes, falou-lhes
com autoridade e com brandura; mas nem um nem outro modo, nem conselhos nem
pedidos, tiveram que fazer com eles. Cada um dos dois meditava a morte do
outro, e s recuavam diante dos meios e da polcia.

 Tio Bento,
dizia Anacleto Monteiro; eu no poderei decentemente viver enquanto aquele mau
corao palpitar...

 Perdoa-lhe...

 No h perdo
para semelhante monstro!

Bento Fagundes
ficara aflito, ia de um para outro, sem alcanar mais resultado com este que
com aquele; caa-lhe o rosto, sombreava-se-lhe o esprito; terrvel sintoma: o
gamo foi posto de lado.

Enquanto no
punham em execuo o plano trgico, cada um dos dois rivais lanou mo de
outro, menos trgico e mais seguro: a calnia. Anacleto escreveu a Carlota
dizendo que Adriano, se se casasse com ela, pr-lhe-ia s costas quatro filhos
que j tinha de uma mulher ntima. Adriano denunciou o primo  namorada como um
dos mais insignes beberres da cidade.

Carlota recebeu
as cartas no mesmo dia, e no soube desde logo se devia crer ou no.
Inclinou-se ao segundo alvitre, mas os dois rivais no ganharam com esta disposio
da moa, porque, recusando dar crdito aos filhos de um e ao vinho do outro,
acreditou somente que ambos tinham sentimentos morais singularmente rasteiros.

 Creio que so
dois peraltas, disse ela com seus colchetes.

Esta foi a orao
fnebre dos dois namorados.

Posto que ambos
os primos calcassem o p da Praia da Gamboa para ver a moa e disput-la,
perdiam o tempo, porque Carlota teimara em no aparecer. O caso irritou-os
ainda mais um contra o outro, e por pouco no vieram de novo s mos.

Nisto interveio
um terceiro namorado, que em poucos dias deu conta da mo, casando com a bela
Carlota. Ocorreu o fato trs semanas depois do duelo manual dos dois parentes.
A notcia foi um pouco mais de combustvel lanado na fogueira de dios acesos
entre eles; nenhum dos dois acusou Carlota ou o destino, mas o adversrio.

A morte da Sra.
D. Leonarda trouxe um intervalo s dissenses domsticas da casa de Bento
Fagundes, cujos ltimos dias eram assim bastante amargurados; mas foram apenas
trguas.

O desgosto
profundo, de mos dadas com uma vscera inflamada, puseram o pobre boticrio na
cama um ms depois do casamento de Carlota e na sepultura cinqenta dias mais
tarde. A doena de Bento Fagundes foram novas trguas e desta vez mais sinceras,
porque a coisa era mais importante.

Prostrado na
cama, o boticrio via os dois sobrinhos servirem-no com muita docilidade e
brandura, mas via tambm que um abismo os separava eternamente. Esta dor era a
que mais o pungia naquela ocasio. Quisera reconcili-los, mas no tinha
esperana de o conseguir.

 Vou morrer,
dizia ele a Anacleto Monteiro, e levo a maior mgoa...

 Tio Bento,
deixe-se de idias negras.

 Negras so, 
verdade; bem negras, e assim...

 Qual morrer! H
de ir comigo passar uns dias na Tijuca...

 Contigo e o
Adriano, dizia Bento Fagundes, cravando no sobrinho uns olhos perscrutadores.

Aqui fechava-se o
rosto de Anacleto, onde o dio, s o dio, transluzia com um reflexo infernal.

Bento Fagundes
suspirava.

A Adriano dizia
ele:

 Sabes tu, meu
rico Adriano, qual  a maior dor que eu levo para a sepultura?

 Sepultura?
interrompia Adriano. Falemos de coisas mais alegres.

 Sinto que
morro. A dor maior que eu levo  que tu e Anacleto...

 No se exalte,
tio Bento; pode fazer-lhe mal.

Era intil.

Trs dias antes
de morrer, Bento Fagundes, vendo-os juntos no quarto, chamou-os e pediu-lhes
que fizessem as pazes. Recusaram ambos; a princpio desconversando; depois
abertamente. O boticrio insistiu; travou da mo de um e de outro e uniu-as.
Foi um simulacro. As mos dos dois tremiam, e ambos ficaram lvidos de clera.

Entre eles, era
tal o receio que nenhum ousava comer em casa de Bento Fagundes por medo de que
o cozinheiro, peitado, lhes propinasse uma dose de arsnico. No se falavam, 
claro; no se olhavam; tremiam quando se achavam a ss e fugiam para evitar o
escndalo de uma nova luta, a dois passos do enfermo.

A molstia era
mortal. Bento Fagundes expirou entre os dois parentes. Estes o amortalharam
silenciosamente, fizeram os convites, trataram do enterro, sem trocar a mnima
palavra.

Se a Sra. D.
Leonarda fosse viva teria ocasio de ver que no se enganava quando atribua
algumas economias ao velho boticrio. O testamento foi a confisso pblica.
Bento Fagundes declarou possuir, no estabelecimento, escravos, prdios e no
sei que ttulos, uns trinta e oito contos. Seus herdeiros universais eram
Anacleto e Adriano, ltimos parentes.

Havia,
entretanto, uma clusula no testamento, redigido um ms antes de morrer, que
deu alguma coisa que falar no bairro. Dizia Bento Fagundes:

Os ditos meus herdeiros universais, que por tais os
declaro, sero obrigados a usufruir juntos os meus bens ou continuando o meu
negcio da botica, ou estabelecendo qualquer outro, sem diviso da herana que
passar dividida a seus filhos, se os houver, caso se recusem ao cumprimento
desta minha ltima vontade.

A clusula era
singular; era-o, mas toda a gente compreendeu que era um derradeiro esforo do
finado para reconciliar os sobrinhos.

 Trabalho
perdido, dizia o barbeiro de Anacleto; eles esto como co e gato.

Esta opinio do
barbeiro era a mais geral. Efetivamente, logo que ouviram ler semelhante
clusula, os dois herdeiros fizeram um gesto como protestando contra a idia de
uma reconciliao. Seus brios no consentiam nessa venalidade do mais nobre dos
dios.

 Tinha que ver,
dizia consigo Adriano, se eu consentia que um biltre...

Ecoava Anacleto:

 Um biltre
daquele jaez reconciliado comigo! No faltava mais nada! Ainda que fique a
pedir esmolas...

No segundo dia da
leitura do testamento trataram ambos de pr em ordem as coisas em casa de Bento
Fagundes, cuja lembrana os enchia de exemplar piedade. A missa do stimo dia
foi concorrida. Ambos receberam os psames de todos, sem os darem um ao outro,
sem trocarem uma palavra de saudade...

 Que coraes de
ferro! dizia uma senhora indignada.

Aconteceu, porm,
que ao sarem da igreja, um tropeasse no outro:

 Perdo! disse Adriano.

 No foi nada!
acudiu Anacleto.

No outro dia
Anacleto escreveu ao primo: No lhe parece que seria conveniente mandar abrir
um epitfio para o nosso chorado tio?

Respondeu
Adriano: Aprovo cordialmente a sua idia; ele o merece e muito mais. Os dois
foram juntos  casa do marmorista; trataram com ele; discutiram o preo;
assentaram na redao do epitfio, que lembrava, no s o morto, mas sobretudo
os dois vivos. Saram juntos; toda a vida do finado foi rememorada entre eles,
com a mais ardente piedade. Um e outro lembraram-se da estima que ele sempre
lhes tivera. Nesse dia jantaram juntos; um jantar fnebre mas cordial.

Dois meses depois
chegaram  fala sobre a necessidade de obedecer ao desejo do morto, que devia
ser sagrado, dizia Anacleto. Sacratssimo, emendava Adriano.

Quando se
completaram cinco meses depois da morte do boticrio, Carlota e o marido
entraram em uma loja de fazendas, a comprar no sei quantos cvados de chita de
algodo. No repararam na firma social pintada na porta, mas ainda reparando,
podiam eles atinar quem seriam Fagundes e Monteiro? Fagundes e Monteiro, a
firma toda, estavam na loja e voltaram-se para servir a freguesa. Carlota
empalideceu, mas dominou-se. Pediu o que queria com voz trmula, e os dois
apressaram-se a servi-la no sei se comovidos, mas em todo o caso corteses.

 A senhora no
acha melhor fazenda do que esta.

 Pode ser... 
muito cara?

 Baratssima,
disse Fagundes: dois mil-ris...

  caro!

 Podemos
deix-la por mil e oitocentos, acudiu Monteiro.

 Mil e
seiscentos, props o marido de Carlota.

Os dois fizeram a
careta do estilo e simularam uma hesitao, que no foi longa.

 V, disseram
eles.

A fazenda foi
medida e paga. Carlota, que no ousava encar-los, fez um leve gesto de cabea
e saiu com o marido.

Ficaram
silenciosos os primos por alguns instantes. Um dobrava a fazenda, enquanto o
outro fechava o dinheiro na caixa. Interiormente estavam radiantes: tinham
ganho seiscentos ris em cvado!
