Conto, Identidade, 1887

Identidade

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol.
II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Gazeta de Notcias, 14 de maro de 1887.

Convenhamos que o fenmeno da
semelhana completa entre dois indivduos no parentes  coisa mui rara, 
talvez ainda mais rara que um mau poeta calado. Pela minha parte no achei
nenhum. Tenho visto parecenas curiosas, mas nunca ao ponto de estabelecer
identidade entre duas pessoas estranhas.

Na famlia as semelhanas so
naturais; e isso que fazia pasmar ao bom Montaigne, no traz o menor espanto ao
mais soez dos homens. Os Ausos, povo antigo, cujas mulheres eram comuns, tinham
um processo sumrio para restituir os filhos aos pais: era a semelhana que, ao
cabo de trs meses, apresentasse o menino com algum dos cidados. V por conta
de Herdoto. A natureza era assim um tabelio muito mais seguro. Mas que entre
dois indivduos de famlia e casta diferentes (a no serem os Drmios e os
Menecmas dos poetas) a igualdade das feies, da estatura, da fala, de tudo,
seja tal que se no possam distinguir um do outro,  caso para ser posto em
letra de forma, depois de ter vivido trs mil anos em um papiro, achado em
Tebas. V por conta do papiro.

***

Era uma vez um fara, cujo nome se
perdeu na noite das velhas dinastias,  mas suponhamos que se chamava Pha-Nohr.
Teve notcia de que existia em certo lugar do Egito um homem to parecido com
ele que era difcil discrimin-los. A princpio ouviu a notcia com
indiferena, mas, depois de uma grande melancolia que teve, achaque dos ltimos
tempos, lembrou-se de deputar trs homens que fossem procurar esse milagre e
traz-lo ao pao.

 Dem-lhe o que pedir; se tiver
dvidas, quero que as paguem; se amar alguma mulher, que a traga consigo. O
essencial  que esteja c e depressa, ou eu mando executar os trs.

A corte respirou jubilosa. Aps
vinte anos de governo, era a primeira ameaa de morte que saa da real boca.
Toda ela aplaudiu a pena; alguns ousaram propor uma formalidade simblica, 
que, antes de executar os trs emissrios, se lhes cortassem os ps para
significar a pouca diligncia empregada em cumprir os recados do fara. Este,
porm, sorriu de um modo mui particular.

No tardou que os emissrios tornassem
a Mnfis com o menecma do rei. Era um pobre escriba, por nome Bachtan, sem
pais, nem mulher, nem filhos, nem dvidas, nem concubinas. A cidade e a corte
ficaram alvoroadas ao ver entrar o homem, que era a prpria figura do fara.
Juntos, s se podiam reconhecer pelos vestidos, porque o escriba, se no tinha
majestade e grandeza, trazia certo ar tranqilo e nobre, que as supria. Eram
mais que dois homens parecidos; eram dois exemplares de uma s pessoa; eles
mesmos no se distinguiam mais que pela conscincia da personalidade. Pha-Nohr
aposentou o escriba em uma cmara pegada  sua, dizendo que era para um
trabalho de interesse pblico; e ningum mais o viu durante dois meses.

No fim desse tempo, Pha-Nohr, que
instrura o escriba em todas as matrias da administrao, declarou-lhe uma
noite que ia p-lo no trono do Egito por algum tempo, meses ou anos. Bachtan
ficou sem entender nada.

 No entendes, escriba? O escriba
agora sou eu. Tu s fara. Fica a com o meu nome, o meu poder e a minha
figura. No descobrirs a ningum o segredo desta troca. Vou a negcios do
Estado.

 Mas, senhor...

 Reinas ou morres.

Antes reinar. Bachtan obedeceu 
ordem, mas suplicou ao rei que a demora no fosse muita; faria justia, mas no
tinha gosto ao poder, menos ainda nascera para governar o Egito. Trocaram de
aposentos. O escriba rolou durante a noite inteira, sem achar cmodo, no leito
da vindoura Clepatra. De manh, segundo o ajustado, foi o rei despedido com as
vestes do escriba, dando-lhe o escriba, que fazia de fara, algum dinheiro e
muitas pedras preciosas. Dez guardas do pao acompanharam o ex-fara at os
subrbios de uma cidade distante.

 Viva a vida! exclamou este,
apenas perdeu de vista os soldados. Santo nome de sis e de Osris! Viva a vida
e a liberdade!

Ningum, exceto o vento bochorno
do Egito, ouviu essas primeiras palavras ditas por ele a todo o universo. O
vento foi andando indiferente; mas o leitor, que no  vento, pede explicao
delas. Quando menos, supe que este homem  doido. Tal era tambm a opinio de
alguns doutores; mas, graas ao regmen especialista da terra, outros queriam
que o mal dele viesse do estmago, outros do ventre, outros do corao. Que
mal? Uma coisa esquisita. Imagine-se que Pha-Nohr comeara a governar com vinte
e dois anos, to alegre, expansivo e resoluto, que encantou a toda a gente;
tinha idias grandes, teis e profundas. No fim, porm, de dois anos, mudou
completamente de gnio. Tdio, desconfiana, averso s pessoas, sarcasmos
amiudados e, finalmente, umas crises melanclicas, que lhe levavam dias e dias.
Durou isto dezoito anos.

J sabemos que foi ao sair de uma
daquelas crises que ele entregou o Egito ao escriba. A causa, porm, deste ato
inexplicvel  a mesma da singular troca de gnio. Pha-Nohr persuadira-se de
que no podia conhecer o carter nem o corao dos homens, atravs da linguagem
curial, ataviada naturalmente, e que lhe parecia oblqua, dbia, sem vida
prpria nem contrastes. V que lhe no dissessem coisas rudes, nem ainda as
verdades inteiras; mas, por que lhe no mostrariam a alma toda, menos esses
desvos secretos, que h em toda a casa? Desde que isto se lhe meteu em cabea,
caiu na ruim tristeza e longas hipocondrias; e, se lhe no aparece o menecma
que ps no trono, provavelmente morreria de desespero.

Agora tinha mpetos de voar, de
correr toda aquela abbada de estanho que l ficava acima dele, ou ento ir
conversar com os crocodilos, trepar aos hipoptamos, disputar as serpentes aos
bis. Pelo boi pis! pensava ele andando e gesticulando, ruim ofcio era o meu.
C levo agora a minha boa alegria e no a dou a troco de nada, nem do Egito nem
de Babilnia.

***

 Charmion, quem ser aquele homem
que vem to alegre? perguntou um tecelo, jantando  porta de casa com a
mulher.

Charmion voltou os olhos cheios de
mistrios do Nilo para o lado que o marido indicava. Pha-Nohr, logo que os viu,
correu para eles. Era  entrada da cidade; podia ir buscar pousada e comida.
Mas to ansioso estava por sentir que no era rei e meter a mo nos coraes e
nos caracteres, que no hesitou em pedir-lhes algum bocado para matar a fome.

 Sou um pobre escriba, disse ele.
Trago uma caixa de pedras preciosas, que me deu o fara por achar que era
parecido com ele; mas pedras no se comem.

 Comers do nosso peixe e bebers
do nosso vinho, disse-lhe o tecelo.

O vinho era ruim; o peixe fora mal
crestado ao sol; mas para ele valiam mais que os banquetes de Mnfis, era o
primeiro jantar da liberdade. Expandia-se o ex-fara; ria, falava, interrogava,
queria saber isto e aquilo, batia no ombro ao tecelo, e este ria-se tambm e
contava-lhe tudo.

 A cidade  um covil de
sacripantes; mais ruins que eles s os meus vizinhos aqui da entrada. Contarei
a histria de um ou dois e bastar para conhecer o resto.

Contou umas coisas juntamente
ridculas e execrveis, que o hspede ouviu aborrecido. Este, para
desanojar-se, olhou para Charmion e notou que ela pouco mais fazia que fit-lo
com os seus grandes olhos cheios de mistrios do Nilo. No amara a outra mulher;
esta reduziu os seus quarenta e dois anos a vinte e cinco, ao passo que o
tecelo prosseguia em dizer a m casta de vizinhos que a fortuna lhe dera. Uns
perversos! e os que no eram perversos eram asnos, como um tal Phtataghuruh
que...

Que poder misterioso fez nascer
to linda criatura entre mecnicos? dizia Pha-Nohr consigo.

Caiu a tarde. Pha-Nohr agradeceu o
obsquio e quis ir-se embora; mas o tecelo no consentiu em deix-lo; passaria
ali a noite. Deu-lhe um bom aposento, ainda que pobre. Charmion foi adere-lo
com as melhores coisas que tinha, deitando-lhe sobre a cama uma bonita colcha
bordada  daquelas famosas colchas do Egito citadas por Salomo  e encheu-lhe
o ar de aromas finssimos. Era pobre, mas gostava do luxo.

Pha-Nohr deitou-se pensando nela.
Era virtuoso; parecia-lhe que estava pagando mal os obsquios do marido e
sacudia de si a imagem da moa. Os olhos, porm, ficavam; viu-os na escurido,
fitos nele, como dois fachos noturnos, e ouviu-lhe tambm a voz terna e splice.
Saltou da cama, os olhos desapareceram, mas a voz continuava, e, coisa
extraordinria, intercalada com a do marido. No podiam estar longe; colou o
ouvido  parede. Ouviu que o tecelo propunha  mulher ficarem com a caixa das
pedras preciosas do hspede, indo busc-la ao quarto; fariam depois alarido e
diriam que eram ladres. Charmion opunha-se; ele teimava, ela suplicava...

Pha-Nohr ficou embasbacado. Quem
diria que o bom tecelo, to obsequioso?... No dormiu o resto da noite;
gastou-a a andar e a agitar-se para que o homem l no fosse. De manh,
disps-se a andar. O tecelo quis ret-lo, pediu-lhe um dia mais, ou dois,
algumas horas; no alcanou nada. Charmion no ajudou o marido; trazia, porm,
os mesmos olhos da vspera, fitos no hspede, teimosos e enigmticos. Pha-Nohr
deu-lhe em lembrana uns brincos de cristal e um bracelete de ouro.

 At um dia! murmurou-lhe ela ao
ouvido.

Pha-Nohr entrou na cidade, achou
pousada, deixou as suas coisas a bom recado e saiu para a rua. Morria por andar
 toa, desconhecido, misturado  outra gente, falar e ouvir a todos, com
franqueza, sem os atilhos do formalismo nem as composturas do pao. Toda a
cidade estava em alvoroo, por causa da grande festa anual de sis. Grupos na
rua, ou s portas, mulheres, homens, crianas, muito riso, muita conversa, uma
algazarra de todos os diabos. Pha-Nohr ia a toda parte; foi ver aparelhar os
barcos, entrou nos mercados, interrogando a todos. A linguagem era naturalmente
rude,  s vezes obscena. No meio do tumulto recebeu alguns encontres. Eram os
primeiros, e mais lhe doeu a dignidade que a pessoa. Parece que chegou a
desandar para casa; mas riu-se logo do melindre e tornou  multido.

Na primeira rua em que entrou, viu
duas mulheres que brigavam, agarradas uma  outra, com palavras e murros. Eram
robustas e descaradas. Em volta, a gente fazia crculo, e animava-as, como se
pratica ainda hoje com os ces. Pha-Nohr no pde sofrer o espetculo;
primeiro, quis sair dali; mas tal pena teve das duas criaturas, que rompeu a multido,
penetrou no espao em que elas estavam e separou-as. Resistiram; ele, no menos
robusto, meteu-se de permeio. Ento elas, vendo que no podiam ir uma  outra,
despejaram nele a raiva; Pha-Nohr afasta-se, atravessa a multido, elas
perseguem-no, entre a risota pblica, ele corre, elas correm, e, a pedrada e
nome cru, o acompanham at longe. Uma das pedras feriu-lhe o pescoo.

Vou-me daqui, pensou ele,
entrando em casa. Em curando a ferida, embarco. Parece, na verdade, uma cidade
de sacripantes.

Nisto ouviu vozes na rua, e da a
pouco entrava-lhe em casa um magistrado acompanhado das duas mulheres e de umas
vinte pessoas. As mulheres queixavam-se de que esse homem investira contra
elas. As vinte pessoas juraram a mesma coisa. O magistrado ouviu a explicao
de Pha-Nohr; e, dizendo este que a sua melhor defesa era a ferida que trazia no
pescoo, retorquiu-lhe o magistrado que as duas agravadas naturalmente haviam
de defender-se, e multou-o. Pha-Nohr, esquecendo a abdicao temporria, gritou
que lhe prendessem o magistrado.

 Outra multa, respondeu este
gravemente; e o ferido no teve mais que pagar para se no descobrir.

Estava em casa, triste e
acabrunhado, quando viu entrar, da a dois dias, a bela Charmion debulhada em lgrimas. Sabendo da aventura, desamparou tudo, casa e marido, para vir tratar dele. Doa-lhe
muito? Queria que ela lhe bebesse o sangue da ferida, como o melhor vinho do
Egito e do mundo? Trazia um pacote com os objetos de uso pessoal.

 Teu marido? perguntou Pha-Nohr.

 Meu marido s tu!

Pha-Nohr quis replicar; mas os
olhos da moa encerravam, mais que nunca, todos os mistrios do Egito. Alm dos
mistrios, tinha ela um plano. Dissera ao marido que ia com uma famlia amiga 
festa de sis, e foi assim que saiu de casa.

 Olha, concluiu, para mais
captar-lhe a confiana, aqui trouxe o meu par de crtalos, com que uso
acompanhar as danas e as flautas. Os barcos saem amanh. Alugars um e iremos,
no a Busris, mas ao lugar mais ermo e spero, que ser para mim o seio da
prpria sis divina.

Cegueira do amor, em vo Pha-Nohr quis recuar e dissuadi-la. Tudo ficou ajustado. Como precisassem dinheiro, saiu
ele a vender duas pedras preciosas. Nunca soubera o valor de tais coisas; umas
foram-lhe dadas, outras foram-lhe compradas pelos seus mordomos. Contudo, tal
foi o preo que lhe ofereceu por elas o primeiro comprador, que ele voltou as
costas, por mais que este o chamasse para fazer negcio. Chegou-se a outro e
contou-lhe o que se dera com o primeiro.

 Como se h de impedir que os
velhacos abusem da boa-f dos homens de bem? disse este com voz melflua.

E, depois de examinar as pedras,
declarou que eram boas, e perguntou se o dono lhes tinha alguma afeio
particular.

 Para mim, acrescentou,  fora de
dvida que a afeio que se tem a um objeto torna-o mais vendvel. No me
pergunte a razo;  um mistrio.

 No tenho a estas nenhuma
afeio particular, acudiu Pha-Nohr.

 Bem, deixe-me avali-las.

Calculou baixinho, olhando para o
ar, e acabou oferecendo metade do valor das pedras. Era to superior esta
segunda oferta  primeira, que Pha-Nohr aceitou-a com grandes alegrias. Comprou
um barco, de boa accia, calafetado de fresco, e voltou  pousada, onde
Charmion lhe ouviu toda a histria.

 A conscincia daquele homem,
concluiu Pha-Nohr,  em si mesma uma rara pedra preciosa.

 No digas isso, meu divino sol.
As pedras valiam o dobro.

Pha-Nohr, indignado, quis ir ter
com o homem; mas a formosa Charmion reteve-o, era tarde e intil. Tinham de
embarcar na manh seguinte. Veio a manh, embarcaram, e no meio de tantos
barcos que iam a Busris puderam eles escapar-se e foram dar  outra cidade
distante, onde acharam casa estreita e graciosa, um ninho de amor.

 Viveremos aqui at  morte,
disse-lhe a bela Charmion.

***

J no era a pobre namorada sem
adornos; podia agora desbancar as ricas donas de Mnfis. Jias, finas tnicas,
vasos de aromas, espelhos de bronze, alcatifas por toda a parte e mulheres que
a servissem, umas do Egito, outras da Etipia; mas a melhor jia de todas, a
melhor alcatifa, o melhor espelho s tu, dizia ela a Pha-Nohr.

No faltaram tambm amigos nem
amigas, por mais que quisessem viver reclusos. Entre os homens, havia dois mais
particularmente aceitos a ambos, um velho letrado e um rapaz que andara por
Babilnia e outras partes. Na conversao, era natural que Charmion e as amigas
ouvissem com prazer as narrativas do moo. Pha-Nohr deleitava-se com as
palestras do letrado.

Desde longos anos que este
compunha um livro sobre as origens do Nilo; e, conquanto ningum o tivesse
lido, a opinio geral  que era admirvel. Pha-Nohr quis ter a glria de
ouvir-lhe algum trecho; o letrado levou-o  casa dele, um dia, aos primeiros
raios do sol. Abria o livro por uma longa dissertao sobre a origem da terra e
do cu; depois vinha outra sobre a origem das estaes e dos ventos; outra
sobre a origem dos ritos, dos orculos e do sacerdcio. No fim de trs horas,
pararam, comeram alguma coisa e entraram na segunda parte, que tratava da
origem da vida e da morte, matria de tanta ponderao, que no acabou mais,
porque a noite os tomou em meio. Pha-Nohr levantou-se desesperado.

 Amanh continuaremos, disse o
letrado; acabada esta parte, trato logo da origem dos homens, da origem dos
reinos, da origem do Egito, da origem dos faras, da minha prpria origem, da
origem das origens, e entramos na matria particular do livro, que so as
origens do Nilo, antecedendo-as, porm, das origens de todos os rios do
universo. Mas que lhe parece o que li?

Pha-Nohr no pde responder; saiu
furioso. Na rua teve uma vertigem e caiu. Quando voltou a si, a lua clareava o
caminho, ergueu-se a custo e foi para casa.

 Maroto! serpente! dizia ele. Se
eu fosse rei, no me aborrecias mais de meia hora. V liberdade, que me
condenas  escravido!

E assim pensando, ia cheio de
saudades de Mnfis, do poder que emprestara ao escriba e at dos homens que lhe
falavam tremendo e aos quais fugira. Trocara tudo por nada... Aqui emendou-se.
Charmion valia por tudo. J l iam meses que viviam juntos; os indiscretos 
que lhe empanavam a felicidade. Murmuraes de mulheres, disputas de homens
eram realmente matria estranha ao amor de ambos. Construiu novo plano de vida;
deixariam aquela cidade, onde no podiam viver para si. Iriam para algum lugar
pobre e de pouca gente. Para que luxo externo, amigos, conversaes frvolas? E
ele cantarolava, andando: Bela Charmion, palmeira nica, posta ao sol do
Egito...

Chegou  casa, correu ao aposento
comum, para enxugar as lgrimas  bela Charmion. No achou nada, nem a moa,
nem as pedras preciosas, nem as jias, tnicas, espelhos, muitas outras coisas
de valia. No achou sequer o moo viajante, que provavelmente,  fora de falar
de Babilnia, despertou na dama o desejo de irem visit-la juntos...

Pha-Nohr chorou de raiva e de
amor. No dormiu; no dia seguinte indagou, mas ningum sabia de nada. Vendeu os
poucos mveis e tapetes que lhe ficaram, e foi para uma cidadezinha prxima, no
mesmo distrito. Levava esperanas de encontr-la. Estava abatido e lgubre.
Para ocupar o tempo e sarar do abalo, meteu-se a aprendiz de embalsamador. A
morte me ajudar a suportar a vida, disse ele.

A casa era das mais clebres. No
embalsamava s os cadveres das pessoas ricas, mas tambm os das menos
abastadas e at da gente pobre. Como os preos de segunda e terceira classes
eram os mesmos de outras partes, muitas famlias mandavam para ali os seus
cadveres, para que os embalsamassem com os das pessoas nobres. Pha-Nohr
comeou pela gente nfima, cujo processo de embalsamamento era mais sumrio.
Notou logo que ele e os companheiros de classe eram vistos com desdm pelos
embalsamadores da segunda classe; estes chegavam-se muito aos da primeira, mas
os da primeira no faziam caso de uns nem de outros. No se mortificou com
isso. Sacar ou no os intestinos do cadver, ingerir-lhe leo de cedro ou vinho
de palma, mirra e canela, era diferena de operao e de preo. Outra coisa o
mortificou deveras.

Tinha ido ali buscar uma oficina
de melancolia e deu com um bazar de chufas e anedotas. Certamente havia
respeito, quando entrava uma encomenda; o cadver era recebido com muitas
atenes, gestos graves, caras lgubres. Logo, porm, que os parentes o
deixavam, recomeavam as alegrias. As mulheres, se faleciam moas e bonitas,
eram longamente vistas e admiradas por todos. A biografia dos mortos conhecidos
era feita ali mesmo, lembrando este um caso, aquele outro. Operavam os corpos,
gracejando, falando cada um dos seus negcios, planos, idias, puxando daqui e
dali, como se cortam sapatos. Pha-Nohr compreendeu que o uso encruara naquela
gente a piedade e a sensibilidade.

Talvez eu mesmo acabe assim,
pensou ele.

Deixou o ofcio, depois de esperar
algum tempo a ver se entrava o cadver da bela Charmion. Exerceu outros, foi
barbeiro, bateleiro, caador de aves aquticas. Cansado, exausto, aborrecido,
apertaram-lhe as saudades do trono; resolveu tornar a Mnfis e ocup-lo.

Toda a cidade, logo que o viu,
clamou que era chegado o escriba parecido com o fara, que ali estivera tempos
atrs; e faziam-se grupos na rua e uma grande multido o seguiu at ao pao.

 Muito parecido! exclamavam de um
lado e de outro.

 Sim? perguntava Pha-Nohr,
sorrindo.

 A nica diferena, explicou-lhe
um velho,  que o fara est muito gordo.

Pha-Nohr estremeceu. Correu-lhe um
frio pela espinha. Muito gordo? Era ento impossvel a permuta das pessoas.
Deteve-se alguns instantes; mas acudiu-lhe logo ir assim mesmo ao pao, e,
destronando o escriba, descobrir o segredo. Para que encobri-lo mais?

Entrou; a corte esperava-o, em
redor do fara, e reconheceu logo que era impossvel agora confundi-los, 
vista da diferena na grossura dos corpos; mas a cara, a fala, o gesto eram
ainda os mesmos. Bachtan perguntou-lhe placidamente o que  que queria;
Pha-Nohr sentiu-se rei e declarou-lhe que o trono.

 Sai da, escriba, concluiu; o
teu papel est acabado.

Bachtan riu-se para os outros, os
outros riram-se e o pao estremeceu com a gargalhada universal. Pha-Nohr fechou
as mos e ameaou a todos; mas a corte continuou a rir. Bachtan, porm, fez-se
srio e declarou que esse homem sedicioso era um perigo para o Estado. Pha-Nohr
foi ali mesmo preso, julgado e condenado  morte. Na manh seguinte, cumpriu-se
a sentena diante do fara e grande multido. Pha-Nohr morreu tranqilo, rindo
do escriba e de toda a gente, menos talvez de Charmion: Bela Charmion,
palmeira nica, posta ao sol do Egito... A multido, logo que ele expirou,
soltou uma formidvel aclamao:

 Viva Pha-Nohr!

E Bachtan, sorrindo, agradeceu.
