Conto, Vnus! Divina Vnus!, 1893

Vnus!
Divina Vnus!

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol.
II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Almanaque da Gazeta, junho de 1893.

 Vnus! Vnus! divina Vnus!

E despegando os olhos da parede, onde
estava uma cpia pequenina da Vnus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e
arrancou de si dois versos para completar uma quadra comeada s sete horas da
manh. Eram sete e meia; a xcara de caf, que a me lhe trouxera antes de sair
para a missa, estava intacta e fria sobre a mesa; a cama, ainda desfeita, era
uma pequena cama de ferro, a mesa em que escrevia era de pinho; a um canto um
par de sapatos, o chapu pendente de um prego. Desarranjo e falta de meios. O
poeta, com os ps metidos em chinelas velhas, com a cabea apoiada na mo
esquerda, ia escrevendo a poesia. Tinha acabado a quadra e releu-a:

Mimosa flor que dominas

Todas as flores do prado,

Tu tens as formas divinas

De Vnus, modelo amado.

Os dois ltimos versos no lhe
pareceram to bons como os dois primeiros, nem lhe saram to fluentemente.
Ricardo deu uma pancadinha seca na borda da mesa, e endireitou o busto.
Concertou os bigodes, fitou novamente a Vnus de Milo,  uma triste cpia em
gesso,  e tratou de ver se os versos lhe saam melhores.

Tem vinte anos este moo, olhos
claros e midos, cara sem expresso, nem bonita nem feia, banal. Cabelo
reluzente de leo, que ele pe todos os dias. Dentes tratados com esmero. As
mos so delgadinhas, como os ps, e tem as unhas compridas e encurvadas.
Empregado em um dos arsenais, vive com a me (j no tem pai), e paga a casa e
parte da comida. A outra parte  paga pela me, que, apesar de velha, trabalha
muito. Moram no bairro dos Cajueiros. O ano em que isto se dava era o de 1859.
 domingo. Dizendo que a me foi  missa, quase no  preciso acrescentar que
com um surrado vestido preto.

Ricardo prosseguia. O amor s
unhas faz com que no as roa, quando se acha em dificuldades mtricas. Em
compensao, afaga a ponta do nariz com a ponta dos dedos. Esfora-se por sacar
dali dois versos substitutivos, mas inutilmente. Afinal, tanto repetiu os dois
versos condenados, que acabou por achar a quadra excelente e continuou a
poesia. Saiu a segunda estrofe, depois a terceira, a quarta e a quinta. A ltima
dizia que o Deus verdadeiro, querendo provar que os falsos no eram to
poderosos como supunham, inventara, contra a bela Vnus, a formosa Marcela.
Gostou desta idia; era uma chave de ouro. Ergueu-se e passeou pelo quarto,
recitando os versos; em seguida, parou diante da Vnus de Milo, encantado da
comparao. Chegou a dizer-lhe em voz alta:

 Os braos que te faltam so os
braos dela!

Tambm gostou desta idia, e
tentou convert-la em uma estrofe, mas a veia esgotara-se. Copiou a poesia, 
primeiramente, em um caderno de outras; depois, em uma folha de papel bordado.
Acabava a cpia quando a me voltava da missa. Mal teve tempo de guardar tudo
na gaveta. A me viu que ele no bebera o caf, feito por ela, e posto ali com
a recomendao de que o no deixasse esfriar.

'Ho de ser os malditos
versos!' pensou ela consigo.

 Sim, mame, foram os malditos
versos! disse ele.

Maria dos Anjos, espantada:

 Voc adivinhou o que eu pensei?

Ricardo podia responder que j lhe
ouvira muitas vezes aquelas palavras, acompanhadas de certo gesto
caracterstico; mas preferiu mentir.

 O poeta adivinha. A inspirao
no serve s para compor versos, mas tambm para ler na alma dos outros.

 Ento, voc leu tambm que eu
rezei hoje na missa por voc... ?

 Li, sim, senhora.

 E que pedi a Nossa Senhora,
minha madrinha, que acabe com essa paixo, por aquela moa... Como se chama
mesmo?

Ricardo, depois de alguns
instantes, respondeu:

 Marcela.

 Marcela,  verdade. No disse o
nome, mas Nossa Senhora sabe. Eu no digo que vocs no se meream; no a
conheo. Mas, Ricardo, voc no pode tomar estado. Ela  filha de doutor, no
h de querer lavar nem engomar.

Ricardo teve moralmente nuseas.
Aquela idia reles de lavar e engomar era prpria de uma alma baixa, ainda que
excelente. Venceu o asco, e olhou para a me com um gesto igualmente amigo e
superior. No almoo, disse-lhe que Marcela era a mais famosa moa do bairro.

 Mame acredita que os anjos
venham  terra? Marcela  um anjo.

 Acredito, meu filho, mas os
anjos comem, quando esto neste mundo e se casam... Ricardo, se voc anda com
tanta vontade de casar, por que no aceita Felismina, sua prima, que gosta
tanto de voc?

 Ora, mame! Felismina!

 No  rica,  pobre...

 Quem lhe fala em dinheiro? Mas,
Felismina! basta-lhe o nome;  difcil achar outro to ridculo. Felismina!

 No foi ela que escolheu o nome,
foi o pai, quando ela se batizou.

 Pois sim, mas no se segue que seja
bonito. E depois, eu no gosto dela,  prosaica, tem o nariz comprido e os
ombros estreitos, sem graa; os olhos parecem mortos, olhos de peixe podre, e
fala arrastado. Parece da roa.

 Tambm eu sou da roa, meu
filho, replicou a me com brandura.

Ricardo almoou, passou o dia
agitado, felizmente lendo versos, que foram o seu calmante. Tinha um volume de
Casimiro de Abreu, outro de Soares de Passos, um de Lamartine, no contando os
seus prprios manuscritos. De noite, foi  casa de Marcela. Ia resoluto. No
eram os primeiros versos que escrevia  moa, mas no lhe entregara nenhuns, 
por acanhamento. De fato, esse namoro que Maria dos Anjos receava acabasse em
casamento, no passava ainda de alguns olhares e durava j umas seis semanas.
Foi o irmo de Marcela que apresentou ali o nosso poeta, com quem se
encontrava, s tardes, em um armarinho do bairro. Disse que era um moo de
muita habilidade. Marcela, que era bonita, no deixava passar olhos sem
fazer-lhes alguma pergunta a tal respeito, e como as respostas eram todas
afirmativas, fingia no entend-las e continuava o interrogatrio. Ricardo
respondeu pronto e entusiasmado; tanto bastou para continuarem uma variao
infinita sobre o mesmo tema. Entretanto, no havia nenhuma palavra de boca,
trocada entre eles, coisa que parecesse com declarao. Os prprios dedos de
Ricardo eram frouxos, quando recebiam os dela, que eram frouxssimos.

'Hoje dou o golpe', ia
ele pensando.

Havia gente em casa do Dr. Viana,
pai da moa. Tocava-se piano; Marcela perguntou-lhe logo com os olhos do
costume:

 Que tal me acha?

 Linda, anglica, respondeu
Ricardo pelo mesmo idioma.

Apalpou a algibeira do fraque; l
estava a poesia metida em sobrecarta cor-de-rosa, com uma pombinha cor de ouro,
em um dos cantos.

 Hoje temos solo, disse-lhe o
filho do Dr. Viana. Aqui est este senhor, que  excelente parceiro.

Ricardo quis recusar; no pde,
no podia. E l foi jogar o solo, a tentos, em um gabinete, ao p da sala de
visitas. Cerca de hora e meia no arredou p; afinal confessou que estava
cansado, precisava andar um pouco, voltaria depois.

Correu  sala. Marcela tocava
piano, um moo de bigodes compridos, ao p dela, ia cantar no sei que ria de
pera italiana. Era tenor, cantou, romperam grandes palmas. Ricardo, ao canto
de uma janela, fez-lhe o favor de umas palminhas, e esperou os olhos da
pianista. Os dele meditavam j esta frase: 'Sois o mais belo, o mais puro,
o mais adorvel dos arcanjos,  soberana do meu corao e da minha vida'.
Marcela, entretanto, foi sentar-se entre duas amigas, e de l perguntou-lhe:

 Pareo-lhe bonita?

 Sois o mais belo, o mais...

No pde acabar. Marcela falou s
amigas, e encaminhou os olhos para o tenor, com a mesma pergunta:

 Pareo-lhe bonita?

Ele, pela mesma lngua, respondeu
que sim, mas com tal clareza e autoridade, como se fora o prprio inventor do
idioma. E no esperou nova pergunta; no se restringiu  resposta; disse-lhe
com energia:

 E eu, que lhe pareo?

Ao que Marcela respondeu, sem
grande hesitao:

 Um belo noivo.

Ricardo empalideceu. No somente
viu a significao da resposta, mas ainda assistiu ao dilogo, que continuou
com vivacidade, abundncia e expresso. De onde vinha esse pelintra? Era um
jovem mdico, chegado dias antes da Bahia, recomendado ao pai de Marcela;
jantara ali, a reunio era em honra dele. Mdico distinto, bela voz de tenor...
Tais foram as informaes que deram ao pobre-diabo. Durante o resto da noite,
apenas pde colher um ou dois olhares rpidos. Resolveu sair mais cedo para
mostrar que estava ferido.

No foi logo para casa; vagou uma
hora ou mais, entre o desnimo e o furor, falando alto, jurando esquec-la,
desprez-la. No dia seguinte, almoou mal, trabalhou mal, jantou mal, e
trancou-se no quarto,  noite. A consolao nica eram os versos, que achava
lindos. Releu-os com amor. E a musa deu-lhe a fora dalma que a aventura de
domingo lhe tirara. Passados trs dias, Ricardo no pde mais consigo, e foi 
casa do Dr. Viana; achou-o de chapu na cabea, esperando que as senhoras
acabassem de vestir-se; iam ao teatro. Marcela desceu da a pouco, radiante, e
perguntou-lhe ocularmente:

 Que tal me acha com este
vestido?

 Linda, respondeu ele.

Depois, animando-se um pouco,
perguntou Ricardo  moa, sempre com os olhos, se queria que tambm ele fosse
ao teatro. Marcela no lhe respondeu; dirigiu-se para a janela, a ver o carro
que chegara. Ele no sabia (como sab-lo?) que o jovem mdico baiano, o tenor,
o diabo, Maciel, em suma, combinara com a famlia ir ao teatro, e j l os
estava esperando. No dia seguinte, com o pretexto de saber que tal andara o
espetculo, correu  casa de Marcela. Achou-a em conversao com o tenor, ao
lado um do outro, confiana que nunca lhe dera. Quinze dias depois falou-se da
possibilidade de uma aliana; quatro meses depois estavam casados.

Quisera contar aqui as lgrimas de
Ricardo; mas no as houve. Imprecaes, sim, protestos, juramento, ameaas,
vindo tudo a acabar em uma poesia com o ttulo Perjura. Publicou esses
versos, e, para lhes dar toda a significao, ps-lhe a data do casamento.
Marcela, porm, estava na lua-de-mel, no lia outros jornais alm dos olhos do
marido.

Amor cura amor. No faltavam
mulheres que tomassem a si essa obra demisericrdia. Uma Fausta, uma Dorotia,
uma Rosina, ainda outras, vieram sucessivamente adejar as asas nos sonhos do
poeta. Todas tiveram a mesma madrinha:

 Vnus! Vnus! divina Vnus!

Choviam versos; as rimas buscavam rimas,
cansadas de serem as mesmas; a poesia fortalecia o corao do moo. Nem todas
as mulheres tiveram notcia do amor do poeta; mas bastava que existissem, que
fossem belas, ou quase, para fascin-lo e inspir-lo. Uma dessas tinha apenas
dezesseis anos, chamava-se Virgnia e era filha de um tabelio, com quem
Ricardo se fez encontradio para mais facilmente penetrar-lhe em casa. Foi-lhe apresentado como poeta.

 Sim? Eu sempre gostei de versos,
disse o tabelio; se no fosse o meu cargo, escreveria alguns sonetinhos. No
meu tempo compus fbulas. O senhor gosta de fbulas?

 Como no? redargiu Ricardo. A
poesia lrica  melhor, mas a fbula...

 Melhor? No compreendo. A fbula
tem conceito, alm da graa de fazer falar os animais...

 Justamente!

 Ento, como  que disse que a
poesia lrica era melhor?

 Num sentido.

 Que sentido?

 Quero dizer, cada forma tem a
sua beleza; assim, por exemplo...

 Exemplos no faltam. A questo 
que o senhor acha a poesia lrica melhor que a fbula. S se no acha?

 Realmente, parece que no 
melhor, confessou Ricardo.

 Diga logo inferior. Luar,
nvoas, virgens, lago, estrelas, olhos de anjo, so palavras vs, boas para
poetas apatetados. Eu, tirando-me a fbula e a stira, no sei para que serve a
poesia. Para encher a cabea de caraminholas, e o papel de tolices...

Ricardo aturou toda essa rabugice
do notrio, para o fim de ser admitido em casa dele  coisa fcil, porque o pai
de Virgnia tinha algumas fbulas antigas e outras inditas e poucos ouvintes do
ofcio, ou verdadeiramente nenhum. Virgnia acolheu o moo com boa vontade; era
o primeiro que lhe falava de amores  porque desta vez o nosso Ricardo no se
deixou ficar atado. No lhe fez declarao franca e em prosa, dava-lhe versos
s escondidas. Ela guardava-os 'para os ler depois' e no dia seguinte
agradecia-os.

 Muito mimosos, dizia sempre.

 Eu fui apenas secretrio da
musa, respondeu ele uma vez; os versos foram ditados por ela. Conhece a musa?

 No.

 Veja no espelho.

Virgnia entendeu e corou. J os
dedos de ambos comearam a dizer alguma coisa. O pai ia muitas vezes com eles
ao Passeio Pblico, entretendo-os com fbulas. Ricardo estava certo de dominar
a mocinha e esperava que ela fizesse os dezessete anos para pedir-lhe a mo, a
ela e ao pai. Um dia, porm (quatro meses depois de conhec-la), Virgnia
adoece de molstia grave, que a ps entre a vida e a morte. Ricardo padeceu
deveras. No se lembrou de compor versos, nem tinha inspirao para eles; mas a
leitura casual daquela elegia de Lamartine, em que h estas palavras: Elle
avait seize ans; cest bien tt pour mourir, deu-lhe idia de escrever
alguma coisa em que aquilo entrasse por epgrafe. E trabalhava,  noite, de
manh, na rua, tudo por causa da epgrafe.

 Elle avait seize ans; cest
bien tt pour mourir! repetia ele andando.

Felizmente, a moa arribou, ao fim
de quinze dias, e, logo que pde, foi convalescer na Tijuca, em casa da
madrinha. No foi sem levar um soneto de Ricardo, com a famosa epgrafe, o qual
principiava por estes dois versos:

Agora, que a mimosa flor cada

Ao terrfico vento da procela...

Virgnia convalesceu depressa; mas
no voltou logo, ficou l um ms, dois meses, e, como eles no se
correspondiam, Ricardo vivia naturalmente ansioso. O tabelio dizia-lhe que os
ares eram bons, que a filha andava fraca, e no desceria sem estar inteiramente
restabelecida. Um dia leu-lhe uma fbula, composta na vspera, e dedicada ao
bacharel Vieira, sobrinho da comadre.

 Compreendeu o sentido, no? perguntou-lhe
no fim.

 Sim, senhor, entendi que o sol,
disposto a restituir a vida  lua...

 E no atina?

 A moralidade  clara.

 Creio; mas a ocasio...

 A ocasio?

 A ocasio  o casamento da minha
pecurrucha com o bacharel Vieira, que chegou de S. Paulo; gostaram-se; foi
pedida anteontem...

Esta nova desiluso atordoou
completamente o rapaz. Desenganado, jurou acabar com mulheres e musas. Que eram
musas seno mulheres? Contou  me esta resoluo, sem entrar em pormenores, e
a me o aprovou de todo. De fato, meteu-se em casa, as tardes e as noites, deu
de mo aos passeios e aos namoros. No comps mais versos, esteve a ponto de
quebrar a Vnus de Milo. Um dia soube que Felismina, a prima, ia casar. Maria
dos Anjos pediu-lhe uns cinco ou dez mil-ris para um presentinho; ele deu-lhe
dez mil-ris, logo que recebeu o ordenado.

 Com quem casa? perguntou.

 Com um moo da Estrada de Ferro.

Ricardo consentiu em ir com a me,
 noite, visitar a prima. L achou o noivo, ao p dela, no canap, conversando
baixinho. Depois das apresentaes, Ricardo encostou-se ao canto de uma janela,
e o noivo foi ter com ele, passados alguns minutos, para dizer-lhe que estimava
muito conhec-lo, tinha uma casa s suas ordens e um criado para o servir. J o
tratava por primo.

 Sei que meu primo  poeta.

Ricardo, com fastio, deu de
ombros.

 Ouvi dizer que  um grande
poeta.

 Quem lhe disse isso?

 Pessoas que sabem. Sua prima
tambm me disse que fazia bonitos versos.

Ricardo, aps alguns segundos:

 Fiz versos; provavelmente no os
farei mais.

Da a pouco estavam os noivos
outra vez juntos, falando baixinho. Ricardo teve-lhe inveja. Eram felizes, uma
vez que gostavam um do outro. Pareceu-lhe at que ela gostava ainda mais, porque
sorria sempre; e da talvez fosse para mostrar os lindos dentes que Deus lhe
dera. O andar da moa tambm era mais gracioso. O amor transforma as mulheres,
pensava ele; a prima est melhor do que era. O noivo  que lhe pareceu um tanto
impertinente, s a trat-lo por primo... Disse isto  me, na volta para casa.

 Mas que tem isso?

Sonhou nessa noite que assistia ao
casamento de Felismina, muitos carros, muitas flores, ela toda de branco, o
noivo de gravata branca e casaca preta, ceia lauta, brindes, recitando ele
Ricardo uns versos...

 Se outro no recitar, se no
eu... disse ele de manh, ao sair da cama.

E a figura de Felismina entrou a
persegui-lo. Dias depois, indo  casa dela, viu-a conversar com o noivo, e teve
um pequeno desejo de atir-lo  rua. Soube que ele ia na manh seguinte para a
Barra do Pira, a servio.

 Demora-se muito?

 Oito dias.

Ricardo visitou a prima todas
essas noites. Ela, aterrada com o sentimento que via nascer no primo, no sabia
que fizesse. A princpio resolveu no aparecer-lhe; mas aparecia-lhe, e ouvia
tudo o que ele contava com os olhos postos nos dele. A me dela tinha a vista
curta. Na vspera da volta do noivo, Ricardo apertou-lhe a mo com fora, com
violncia, e disse-lhe adeus 'at nunca mais'. Felismina no ousou
pedir-lhe que viesse; mas passou a noite mal. O noivo regressou por dois dias.

 Dois dias? perguntou-lhe Ricardo
na rua onde ele lhe deu a notcia.

 Sim, primo, tenho muito que
fazer, explicou o outro.

Partiu, as visitas continuaram; os
olhos falavam, os braos, as mos, um dilogo perptuo, no espiritual, no
filosfico, um dilogo fisiolgico e familiar. Uma noite, Ricardo sonhou que
pegava da prima e subia com ela ao alto de um penedo, no meio do oceano. Viu-a
sem braos. Acordando de manh, olhou para a Vnus de Milo.

 Vnus! Vnus! divina Vnus!

Atirou-se  mesa, ao papel, meteu
mos  obra, para compor alguma coisa, um soneto, um soneto que fosse. E olhava
para Vnus  a imagem da prima,  e escrevia, riscava, tornava a escrever e a
riscar, e novamente escrevia at que lhe saram os dois primeiros versos do
soneto. Os outros vieram vindo, cai aqui, cai acol.

 Felismina! exclamava ele. O nome
dela h de ser a chave de ouro. Rima com divina e cristalina. E conclua
assim o soneto.

E tu, criana amada, to divina

No s cpia da Vnus celebrada,

s antes seu modelo, Felismina.

Deu-lho nessa noite. Ela chorou
depois que os leu. Tinha de pertencer a outro homem. Ricardo ouviu essa palavra
e disse-lhe ao ouvido:

 Nunca!

Indo a acabar os quinze dias, o
noivo escreveu dizendo que precisava ficar ainda na Barra umas duas ou trs
semanas. Os dois, que iam dando pressa a tudo, trataram da concluso. Quando
Maria dos Anjos ouviu ao filho que ia desposar a prima, ficou espantada, e
pediu que se explicasse.

 Isto no se explica, mame...

 E o outro?

 Est na Barra. Ela j lhe
escreveu pedindo desculpa e contando a verdade.

Maria dos Anjos abanou a cabea,
com ar de reprovao.

 No  bonito, Ricardo...

 Mas se ns gostamos um do outro?
Felismina confessou que ia casar com ele,  toa, sem vontade; que sempre
gostara de mim; casava por no ter com quem.

 Sim, mas palavra dada...

 Que palavra, mame? Mas se eu a
adoro; digo-lhe que a adoro. Queria que eu ficasse a olhar ao sinal, e ela
tambm, s porque houve um equvoco, uma palavra dada sem reflexo? Felismina 
um anjo. No foi  toa que lhe deram um nome, que  a rima de divina. Um
anjo, mame!

 Oxal sejam felizes.

 Com certeza; mame ver.

Casaram-se. Ricardo era todo para
a realidade do amor. Conservou a Vnus de Milo, a divina Vnus, posta na
parede, apesar dos protestos de modstia da mulher. Convm saber que o noivo
casou mais tarde na Barra, Marcela e Virgnia estavam casadas. As outras moas
que Ricardo amou e cantou, tinham j maridos. O poeta deixou de poetar, com
grande mgoa dos seus admiradores. Um deles perguntou-lhe um dia, ansioso:

 Ento voc no faz mais versos?

 No se pode fazer tudo,
respondeu Ricardo, acariciando os seus cinco filhos.
