Conto, Troca de datas, 1883

Troca de datas

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 31/05 a 30/06/1883.

CAPTULO
PRIMEIRO

Deixa-te de partes, Eusbio; vamos
embora; isto no  bonito. Cirila...

 J lhe disse o que tenho de
dizer, tio Joo, respondeu Eusbio. No estou disposto a tornar  vida de outro
tempo. Deixem-me c no meu canto. Cirila que fique...

 Mas, enfim, ela no te fez nada.

 Nem eu digo isso. No me fez
coisa nenhuma; mas... para que repeti-lo? No posso atur-la.

 Virgem Santssima! Uma moa to
sossegada! Voc no pode aturar uma moa, que  at boa demais?

Pois, sim; eu  que sou mau; mas
deixem-me.

Dizendo isto, Eusbio caminhou
para a janela, e ficou olhando para fora. Dentro, o tio Joo, sentado, fazia
circular o chapu-de-chile no joelho, fitando o cho com um ar aborrecido e
irritado. Tinha vindo na vspera, e parece que com a certeza de voltar 
fazenda levando o prfugo Eusbio. Nada tentou durante a noite, nem antes do
almoo. Almoaram; preparou-se para dar uma volta na cidade, e, antes de sair,
meteu ombros ao negcio. V tentativa! Eusbio disse que no, e repetiu que
no,  tarde, e no dia seguinte. O tio Joo chegou a amea-lo com a presena
de Cirila; mas a ameaa no surtiu melhor efeito, porque Eusbio declarou
positivamente que, se tal sucedesse, ento  que ele faria coisa pior. No
disse o que era, nem era fcil achar coisa pior do que o abandono da mulher, a
no ser o suicdio ou o assassinato; mas vamos ver que nenhuma destas hipteses
era sequer imaginvel. No obstante, o tio Joo teve medo do pior, pela energia
do sobrinho, e resignou-se a tornar  fazenda sem ele.

De noite, falaram mansamente da
fazenda e de outros negcios de Pira; falaram tambm da guerra, e da batalha
de Curuzu, em que Eusbio entrara, e donde sara sem ferimentos, adoecendo dias
depois. De manh, despediram-se; Eusbio deu muitas lembranas para a mulher,
mandou-lhe mesmo alguns presentes, trazidos de propsito de Buenos Aires, e no
se falou mais na volta.

 Agora, at quando?

 No sei; pretendo embarcar daqui
a um ms ou trs semanas, e depois, no sei; s quando a guerra acabar.

CAPTULO
II

H uma poro de coisas que esto
patentes ou se deduzem do captulo anterior. Eusbio abandonou a mulher, foi
para a guerra do Paraguai, veio ao Rio de Janeiro, nos fins de 1866, doente,
com licena. Volta para a campanha. No odeia a mulher, tanto que lhe manda
lembranas e presentes. O que se no pode deduzir to claramente  que Eusbio
 capito de voluntrios;  capito, tendo ido tenente; portanto, subiu de
posto, e, na conversa com o tio, prometeu voltar coronel.

Agora, por que motivo, sendo a
mulher to boa, e, no a odiando ele, pois que lhe remete uns mimos, comprados
para ela, de propsito, no aqui, mas j em Buenos Aires, por que motivo, digo eu, resiste o Capito Eusbio  proposta de vir ver
Cirila? That is the rub. Eis a justamente o ponto intrincado. A
imaginao perde-se em um mar de conjeturas, sem achar nunca o porto da
verdade, ou pelo menos, a angra da verossimilhana. No; h uma angra;
parece-me que o leitor sagaz, no atinando com outro motivo, recorre 
incompatibilidade de gnio, nico modo de explicar este capito, que manda
presentes  consorte, e a repele.

Sim e no. A questo reduz-se a
uma troca de datas. Troca de datas? Mas... Sim, senhor, troca de datas, uma
clusula psicolgica e sentimental, uma coisa que o leitor no entende, nem
entender se se no der ao trabalho de ler este escrito.

Em primeiro lugar, fique sabendo
que o nosso Eusbio nasceu em 1842; est com vinte e quatro anos, depois da
batalha de Curuzu. Foi criado por um pai severo e uma me severssima. A me
faleceu em 1854; em 1862 o pai determinou cas-lo com a filha de um correligionrio
poltico, isto , conservador, ou, para falar a linguagem do tempo e do lugar,
saquarema. Essa moa  D. Cirila. Segundo todas as verses, at de adversrios,
D. Cirila era a primeira beleza da provncia, fruta da roa, no da corte,
aonde j viera duas ou trs vezes,  fruta agreste e sadia. Parece uma santa!
era o modo de exprimir a admirao dos que olhavam para ela; era assim que
definiam a serenidade da fisionomia e a mansido dos olhos. Da alma podia
dizer-se a mesma coisa, uma criatura plcida, parecia cheia de pacincia e
doura.

Saiba agora, em segundo lugar, que
o nosso Eusbio no criticou a escolha do pai, aprovou-a, gostou da noiva logo
que a viu. Ela tambm; ao alvoroo da virgem acresceu a simpatia que Eusbio
lhe inspirou, mas uma e outra coisa, alvoroo e simpatia, no foram
extraordinrios, no subiram de certa medida escassa, compatvel com a natureza
de Cirila.

Com efeito, Cirila era aptica.
Nascera para as funes anglicas, servir ao Senhor, cantar nos coros divinos,
com a sua voz fraca e melodiosa, mas sem calor, nem arrebatamentos. Eusbio no
lhe viu seno os olhos, que eram, como digo, bonitos, e a boca fresca e bem
rasgada; aceitou a noiva, e casaram-se da a um ms.

A opinio de toda a gente foi
unnime.  Um rapago! diziam consigo as damas. E os rapazes:  Uma linda
pequena! A opinio foi que o casamento no podia ser mais acertado e, portanto,
devia ser felicssimo. Pouco tempo depois de casados, morreu o pai de Eusbio;
este convidou o tio a tomar conta da fazenda, e deixou-se ali ficar ao p da
mulher. So dois pombinhos, dizia o tio Joo aos amigos. E enganava-se. Era uma
pomba e um gavio.

Dentro de quatro meses, as duas
naturezas to opostas achavam-se divorciadas. Eusbio tinha as paixes
enrgicas, tanto mais enrgicas quanto que a educao as comprimira. Para ele o
amor devia ser vulcnico, uma fuso de duas naturezas impetuosas; uma torrente
em suma, figura excelente, que me permite o contraste do lago quieto. O lago
era Cirila. Cirila era incapaz de paixes grandes, nem boas nem ms; tinha a
sensibilidade curta, e afeio moderada, quase nenhuma, antes obedincia do que
impulso, mais conformidade que arrojo. No contradizia nada, mas tambm no
exigia nada. Provavelmente, no teria cimes. Eusbio disse consigo que a
mulher era um cadver, e, lembrando-se do Eurico, emendou-lhe uma frase:
 Ningum vive atado a um cadver, disse ele.

Trs meses depois, deixou ele a
mulher e a fazenda, tendo assinado todas as procuraes necessrias. A razo
dada foi a guerra do Paraguai; e, com efeito, ele ofereceu os seus servios ao
governo; mas no h inconveniente que uma razo nasa com outra, ao lado, ou
dentro de si mesma. A verdade  que, na ocasio em que ele resolvia ir para a
campanha, deliciava os habitantes do Pira uma companhia de cavalinhos na qual
uma certa dama, rija, de olhos negros e quentes, fazia maravilhas no trapzio e
na corrida em plo. Chamava-se Rosita; e era oriental. Eusbio assinou com essa
representante da repblica vizinha um tratado de perptua aliana, que durou
dois meses. Foi depois do rompimento que Eusbio, tendo provado o vinho dos
fortes, determinou deixar a gua simples de casa. No queria fazer as coisas
com escndalo, e adotou o pretexto marcial. Cirila ouviu a notcia com tristeza,
mas sem tumulto. Estava fazendo crivo; parou, fitou-o, parece que com os olhos
um tanto midos, mas sem nenhum soluo e at nenhuma lgrima. Levantou-se e foi
cuidar da bagagem. Creio que  tempo de acabar este captulo.

CAPTULO
III

Como no  inteno do escrito
contar a guerra, nem o papel que l fez o Capito Eusbio, corramos depressa ao
fim, no ms de outubro de 1870, em que o batalho de Eusbio voltou ao Rio de
Janeiro, vindo ele major, e trazendo ao peito duas medalhas e dois oficialatos:
um bravo. A gente que nas ruas e das janelas via passar os galhardos vencedores
era muita, luzida e diversa. No admira, se no meio de tal confuso o nosso
Eusbio no viu a mulher. Era ela, entretanto, que estava debruada da janela
de uma casa da Rua Primeiro de Maro, com algumas parentas e amigas, e o
infalvel tio Joo.

 Olha, Cirila, olha, l vem ele,
dizia o bom roceiro.

Cirila baixou os olhos ao marido.
No o achou mudado, seno para melhor: pareceu-lhe mais robusto, mais gordo;
alm disso, tinha o ar marcial, que acentuava a figura. No o tendo visto desde
cinco anos, era natural que a comoo fosse forte, e algumas amigas, receosas,
olhavam para ela. Mas Cirila no desmaiou, no se alvoroou. O rosto ficou
sereno como era. Fitou Eusbio,  verdade, mas no muito tempo, e, em todo
caso, como se ele tivesse sado daqui na semana anterior. O batalho passou; o
tio Joo saiu para ir esperar o sobrinho no quartel.

 Ora, vem c, meu rapaz!

 Oh! tio Joo!

 Voltas cheio de glria! exclamou
o tio Joo depois de o abraar apertadamente.

 Parece-lhe?

 Pois ento! Lemos tudo o que
saiu nas folhas; voc brilhou... H de contar-nos isso depois. Cirila est na
corte...

 Ah!

 Estamos em casa do Soares
Martins.

No se pode dizer que ele recebeu
a notcia com desgosto: mas tambm no se pode afirmar que com prazer;
indiferente,  verdade, indiferente e frio. A entrevista no foi mais
alvoroada; ambos apertaram as mos com um ar de pessoas que se estimam sem
intimidade. Trs dias depois, Cirila voltava para a roa, e o Major Eusbio
deixava-se ficar na corte.

J o fato de ficar  muito; mas,
no se limitou a isso. Eusbio estava namorado de uma dama de Buenos Aires, que
prometera vir ter com ele ao Rio de Janeiro. No acreditando que ela cumprisse
a palavra, preparou-se para tornar ao Rio da Prata, quando ela aqui aportou,
quinze dias depois. Chamava-se Dolores, e era realmente bela, um belo tipo de
argentina. Eusbio amava-a loucamente, ela no o amava de outro modo; ambos
formavam um par de doidos.

Eusbio alugou casa na Tijuca,
onde foram viver os dois, como um casal de guias. Os moradores do lugar
contavam que eles eram um modelo de costumes e outro modelo de afeio. Com
efeito, no davam escndalo e amavam-se com o ardor, a tenacidade e o exclusivismo
das grandes paixes. Passeavam juntos, conversavam de si e do cu; ele deixava
de ir  cidade trs, cinco, seis dias, e quando ia era para se demorar o tempo
estritamente necessrio. Perto da hora de voltar, via-se a bela Dolores
esper-lo ansiosa  janela, ou ao porto. Um dia a demora foi alm dos limites
do costume; eram cinco horas da tarde, e nada; deram seis, sete, nem sombra de
Eusbio. Ela no podia ter-se; ia de um ponto para outro, interrogava os
criados, mandava um deles ver se aparecia o patro. No chorava, tinha os olhos
secos, ardentes. Enfim, perto de oito horas, apareceu Eusbio. Vinha
esbaforido; tinha ido  casa do Ministro da Guerra, onde o oficial do gabinete
lhe disse que S. Ex. desejava falar-lhe, nesse mesmo dia. Voltou l s quatro
horas; no o achou, esperou-o at s cinco, at s seis; s s seis e meia 
que o ministro voltou da Cmara, onde a discusso lhe tomara o tempo.

Ao jantar, contou Eusbio que o
motivo da entrevista com o Ministro da Guerra fora um emprego que ele pedira, e
que o ministro, no podendo dar-lho, trocara por outro. Eusbio aceitou; era
para o Norte, na provncia do Par...

 No Par?! interrompeu Dolores.

 Sim. Que tem?

Dolores refletiu um instante;
depois disse que ele fazia muito bem aceitando, mas que ela no iria; receava
os calores da provncia, tinha l perdido uma amiga; provavelmente, voltava a
Buenos Aires. O pobre major no pde acabar de comer; instou com ela,
mostrou-lhe que o clima era excelente, e que as amigas podiam morrer em qualquer
parte. Mas a argentina abanou a cabea. Sinceramente, no queria.

No dia seguinte, Eusbio desceu
outra vez para pedir dispensa ao ministro, e rogar-lhe que o desculpasse,
porque um motivo sbito, um incidente... Regressou  Tijuca, dispensado e triste;
mas os olhos de Dolores curaram-lhe a tristeza em menos de um minuto.

 J l vai o Par, disse ele
alegremente.

 Sim?

Dolores agradeceu-lhe o sacrifcio
com um afago; abraaram-se amorosos, como no primeiro dia. Eusbio estava
contente com ter cedido; no advertiu que, se ele insistisse, Dolores
embarcaria tambm. Ela no fez mais do que exercer a influncia que tinha, para
se no remover da capital; mas, assim como Eusbio sacrificou por ela o emprego,
assim Dolores sacrificaria por ele o repouso. O que ambos queriam
principalmente era no se separarem nunca.

Dois meses depois, veio a quadra
dos cimes. Eusbio desconfiou de Dolores, Dolores desconfiou de Eusbio, e as
tempestades desencadearam-se sobre a casa como o pampeiro do Sul. Diziam um ao
outro coisas duras, algumas ignbeis; Dolores arremetia contra ele, Eusbio
contra ela; espancavam-se e amavam-se. A opinio do lugar chegava ao extremo de
dizer que eles se amavam melhor depois de espancados.

 So sistemas! murmurava um
comerciante ingls.

Assim se passou metade do ano de
1871. No princpio de agosto, recebeu Eusbio uma carta do tio Joo, que lhe
dava notcia de que a mulher estava doente de cama, e queria falar-lhe. Eusbio
mostrou a carta a Dolores. No havia remdio seno ir; prometeu voltar logo...
Dolores pareceu consentir, ou deveras consentiu na ocasio; mas duas horas
depois, foi ter com ele, e ponderou-lhe que no se tratava de molstia grave,
se no o tio o diria na carta; provavelmente, era para tratar dos negcios da
fazenda.

 Se no  tudo mentira,
acrescentou ela.

Eusbio no tinha advertido na
possibilidade de um invento, com o fim de o arrancar aos braos da bela
Dolores, concordou que podia ser isso, e resolveu escrever. Escreveu com
efeito, dizendo que por negcios urgentes no podia ir logo; mas que desejava
saber tudo o que havia, no s a respeito da molstia de Cirila, como dos
negcios da fazenda. A carta era um modelo de hipocrisia. Foram com ela uns
presentes para a mulher.

No veio resposta. O tio Joo,
indignado, no lhe respondeu nada. Cirila estava deveras doente, e a doena no
era grave, nem foi longa; nada soube da carta, na ocasio; mas, quando ela se
restabeleceu o tio disse-lhe tudo, ao dar-lhe os presentes que Eusbio lhe
mandara.

 No contes mais com teu marido,
concluiu ele;  um pelintra, um sem-vergonha...

 Oh! tio Joo! repreendeu Cirila.

 Voc ainda toma as dores por
ele?

 Isto no  tomar as dores...

 Voc  uma tola! bradou o tio
Joo.

Cirila no disse que no; tambm
no disse que sim; no disse nada. Olhou para o ar, e foi dar umas ordens da
cozinha. Para ser exato e minucioso,  preciso dizer que, durante o trajeto,
Cirila pensou no marido; na cozinha, porm, s pensou na cozinheira. As ordens
que deu saram-lhe da boca, sem alterao de voz; e, lendo da a pouco a carta
do marido ao tio, f-lo com saudade,  possvel, mas sem indignao nem
desespero. H quem afirme que uma certa lgrima lhe caiu dos olhos no papel;
mas se deveras caiu, no foi mais de uma; em todo caso, no chegou a apagar
nenhuma letra, porque caiu na margem, e Eusbio escrevia com margens grandes
todas as suas cartas...

CAPTULO
IV

Dolores acabou. O que  que no
acaba? Acabou Dolores poucos meses depois da carta de Eusbio  mulher, no
morrendo, mas fugindo para Buenos Aires com um patrcio. Eusbio padeceu muito,
e resolveu matar os dois,  ou, pelo menos, arrebatar a amante ao rival. Um
incidente obstou a esse desastre.

Eusbio vinha do escritrio da
companhia de paquetes, onde fora tratar da passagem, quando sucedeu um desastre
na Rua do Rosrio perto do Beco das Cancelas:  um carro foi de encontro a uma
carroa, e quebrou-a. Eusbio, apesar das preocupaes de outra espcie, no
pde conter o movimento que tinha sempre em tais ocasies para ir saber o que
era, a extenso do desastre, a culpa do cocheiro, para chamar a polcia, etc.
Correu ao lugar; achou dentro do carro uma senhora, moa e bonita. Ajudou-a a
sair, levou-a para uma casa, e no a deixou sem lhe prestar outros pequenos
servios; finalmente, deu-se como testemunha nas indagaes policiais. Este
ltimo obsquio foi j um pouco interesseiro; a senhora deixara-lhe nalma uma
deliciosa impresso. Soube que era viva, fez-se encontradio, e amaram-se.
Quando ele confessou que era casado, D. Jesuna, que este era o nome dela, no
pde reter um dilvio de lgrimas... Mas amavam-se, e amaram-se. A paixo durou
um ano e mais, e no acabou por culpa dela, mas dele, cuja violncia no raras
vezes trazia atrs de si o fastio. D. Jesuna chorou muito, arrependeu-se; mas
o fastio de Eusbio era completo.

Esquecidas as duas, alis as trs
damas, porque  preciso contar a do circo, parecia que Eusbio ia voltar 
fazenda e restituir-se  famlia. No pensou em tal coisa. A corte seduzia-o; a
vida solta entrara-lhe no sangue. Correspondia-se com a mulher e com o tio,
mandava-lhes presentinhos e lembranas, chegara mesmo a anunciar que iria para
casa da a uma semana ou duas, pelo S. Joo, pela Glria, mas ia-se deixando
ficar. Enfim, um dia, ao ms de dezembro, chegou a preparar-se deveras, embora
lhe custasse muito, mas um namoro novo o dissuadiu, e ele ficou outra vez.

Eusbio freqentava assiduamente
os teatros, era doido por francesas e italianas, fazia verdadeiros desatinos,
mas como era tambm feliz, os desatinos ficavam largamente compensados. As
paixes eram enrgicas e infrenes; ele no podia resistir-lhes, no chegava
mesmo a tent-lo.

Cirila foi-se acostumando a viver
separada. Afinal convenceu-se de que entre um e outro o destino ou a natureza
cavara um abismo, e deixou-se estar na fazenda, com o tio Joo. O tio Joo
concordava com a sobrinha.

 Tem razo, dizia ele; vocs no
nasceram um para o outro. So dois gnios contrrios. Veja o que so s vezes
os casamentos. Mas eu tambm tenho culpa, porque aprovei tudo.

 Ningum podia adivinhar, tio
Joo.

 Isso  verdade. E voc ainda tem
esperanas?

 De qu?

 De que ele volte?

 Nenhuma.

E, de fato, no esperava nada. Mas
escrevia-lhe sempre,  brandamente afetuosa, sem lgrimas, nem queixumes, nem
pedido para voltar; no havia sequer saudades, dessas saudades de frmula,
nada. E era isto justamente o que quadrava ao esprito de Eusbio; eram essas
cartas sem instncia, que o no perseguiam nem exortavam, nem acusavam, como as
do tio Joo; e era por isso que ele mantinha constante e regular a
correspondncia com a mulher.

Um dia,  passados cinco anos, 
Cirila veio  corte, com o tio; esteve aqui cinco ou seis dias e voltou para a
roa, sem procurar o marido. Este soube do caso, disseram-lhe que ela estava em
certo hotel, correu para l, mas era tarde. Cirila partira no trem da manh.
Eusbio escreveu-lhe no dia seguinte, chamando-lhe ingrata e esquecida; Cirila
desculpou-se em dizer que tivera necessidade urgente de voltar, e no se falou
mais nisso.

Durante esse tempo a vida de
Eusbio continuara no mesmo diapaso. Os seus amores multiplicavam-se, e eram
sempre mulheres to impetuosas e ardentes, como ele. Uma delas, leoa ciumenta,
duas ou trs vezes lutara com outras, e at o feriu uma vez, deitando-lhe 
cara uma tesoura. Chamava-se Sofia, e era rio-grandense. To depressa viu o
sangue rebentar do queixo de Eusbio (a tesoura apanhara de leve essa parte do
rosto) Sofia caiu sem sentidos. Eusbio esqueceu-se de si mesmo, para correr a
ela. Voltando a si, ela pediu-lhe perdo, rojou-se-lhe aos ps, e foi cur-lo
com uma dedicao de me. As cenas de cimes reproduziram-se assim, violentas,
por parte de ambos.

Rita foi outra paixo de igual
gnero, com iguais episdios, e no foi a ltima. Outras vieram, com outros
nomes. Uma dessas deu lugar a um ato de delicadeza, realmente inesperado da
parte de um homem como aquele. Era uma linda mineira, de nome Rosria, que ele
encontrou no Passeio Pblico, um sbado,  noite.

 Cirila! exclamou ele.

Com efeito, Rosria era a cara de
Cirila, a mesma figura, os mesmos ombros; a diferena nica era que a mulher
dele tinha naturalmente os modos acanhados e modestos, ao passo que Rosria
adquirira outras maneiras soltas. Eusbio no tardou em reconhecer isso mesmo.
A paixo que esta mulher lhe inspirou foi grande; mas no menor foi o esforo
que ele empregou para esquec-la. A semelhana com a mulher constitua para ele
um abismo. Nem queria ao p de si esse fiel traslado, que seria ao mesmo tempo
um remorso, nem tambm desejava fitar aqueles costumes livres, que lhe
conspurcavam a imagem da mulher. Era assim que ele pensava, quando a via;
ausente, voltava a paixo. Que era preciso para venc-la, seno outra? Uma
Clarinha consolou de Rosria, uma Lusa de Clarinha, uma Romana de Lusa, etc.,
etc.

No iam passando s as aventuras,
mas os anos tambm, os anos que no perdoam nada. O corao de Eusbio tinha-se
fartado de amor; a vida oferecera-lhe a taa cheia, e ele embriagara-se
depressa. Estava cansado, e tinham passado oito anos. Pensou em voltar para
casa, mas como? A vergonha dominou-o. Escreveu uma carta  mulher, pedindo-lhe
perdo de tudo, mas rasgou-a logo, e ficou. O fastio veio sentar-se ao p dele;
a solido acabrunhou-o. Cada carta de Cirila trazia-lhe o aroma da roa, a
saudade de casa, a vida quieta ao lado da esposa constante e meiga, e ele tinha
mpetos de meter-se na estrada de ferro; mas a vergonha...

No ms de outubro de 1879, recebeu
uma carta do tio Joo. Era a primeira depois de algum tempo; receou alguma
notcia m, abriu-a, e preparou-se logo para seguir. Com efeito, Cirila estava
doente, muito doente. No dia seguinte partiu. Ao ver,  distncia, a fazenda, a
casa, a capelinha, estremeceu e sentiu alguma coisa melhor, menos desatinado do
que os anos perdidos. Entrou em casa trpego. Cirila estava dormindo quando ele
chegou, e, apesar dos pedidos do tio Joo, Eusbio foi ao quarto, p ante p, e
contemplou-a. Saiu logo, escondendo os olhos; o tio Joo apertou-o nos braos,
e contou-lhe tudo. Cirila adoecera de uma febre perniciosa, e o mdico disse
que o estado era gravssimo, e a morte muito provvel; felizmente, naquele dia
de manh, a febre cedera.

Cirila restabeleceu-se em poucos
dias. Eusbio, durante os primeiros, consentiu em no ver a mulher, para lhe
no produzir nenhum abalo; mas j sabemos que Cirila tinha os abalos
insignificantes. Estendeu-lhe a mo, quando ele lhe apareceu, como se ele tivesse
sado dali na semana anterior; tal qual se despedira antes, quando ele foi para
a guerra.

 Agora  de vez? perguntou o tio
Joo ao sobrinho.

 Juro que  de vez.

E cumpriu. No se pense que ficou
constrangido, ou com o ar enfadado de um grande estrina que acabou. Nada;
ficou amigo da mulher, meigo, brando, dado ao amor quieto, sem exploses, sem,
excessos qual o de Cirila. Quem os via podia crer que eram as duas almas mais
homogneas do universo; pareciam ter nascido um para o outro.

O tio Joo, homem rude e filsofo,
ao v-los agora to unidos, confirmou dentro de si mesmo a observao que
fizera uma vez, mas modificando-a, por este modo:  No eram as naturezas que
eram opostas, as datas  que se no ajustavam; o marido de Cirila  este
Eusbio dos quarenta, no o outro. Enquanto quisermos combinar as datas
contrrias, perdemos o tempo; mas o tempo andou e combinou tudo.
