Crtica, Propsito, 1866

Propsito

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente na Semana Literria, seo do Dirio do Rio de Janeiro,
09/01/1866.

A temperatura literria est abaixo de zero. Este
clima tropical, que tanto aquece as imaginaes, e faz brotar poetas, quase
como faz brotar as flores, por um fenmeno, alis explicvel, torna preguiosos
os espritos, e nulo o movimento intelectual. Os livros que aparecem so raros,
distanciados, nem sempre dignos de exame da crtica. H decerto excees to
esplndidas quanto raras, e por isso mesmo mal compreendidas do presente,
graas  ausncia de uma opinio. At onde ir uma situao semelhante, ningum
pode diz-lo, mas os meios de iniciar a reforma, esses parecem-nos claros e
smplices, e para achar o remdio basta indicar a natureza do mal.

A nosso ver, h duas razes principais desta
situao: uma de ordem material, outra de ordem intelectual. A primeira, que se
refere  impresso dos livros, impresso cara, e de nenhum lucro pecunirio,
prende-se inteiramente  segunda que  a falta de gosto formado no esprito
pblico. Com efeito, quando aparece entre ns essa planta extica chamada
editor, se os escritores conseguem encarreg-lo, por meio de um contrato, da impresso
das suas obras,  claro que o editor no pode oferecer vantagem aos poetas,
pela simples razo de que a venda do livro  problemtica e difcil. A opinio
que devia sustentar o livro, dar-lhe voga, coro-lo enfim no Capitlio moderno,
essa, como os heris de Tcito, brilha pela ausncia. H um crculo limitado de
leitores; a concorrncia  quase nula, e os livros aparecem e morrem nas
livrarias. No dizemos que isso acontea com todos os livros, nem com todos os
autores, mas a regra geral  essa.

Se a ausncia de uma opinio literria torna
difcil a publicao dos livros, no  esse o menor dos seus inconvenientes; h
outro, de maior alcance, porque  de futuro:  o cansao que se apodera dos
escritores, na luta entre a vocao e a indiferena. Daqui se pode concluir que
o homem que trabalha, apesar de tais obstculos, merece duas vezes as bnos
das musas. Um exemplo: apareceu h meses um livro primoroso, uma obra selada
por um verdadeiro talento, alis conhecido e celebrado. Iracema foi
lida, foi apreciada mas no encontrou o agasalho que uma obra daquelas merecia.
Se alguma vez se falou na imprensa a respeito dela, mais detidamente, foi para
deprimi-la; e isso na prpria provncia que o poeta escolhe para teatro do seu
romance. Houve na Corte, quem se ocupasse igualmente com o livro, mas a
apreciao do escritor, reduzida a uma opinio isolada, no foi suficiente para
encaminhar a opinio, e  promover as palmas a que o autor tinha
incontestvel direito. Ora, se depois desta prova, o Sr. Conselheiro Jos de
Alencar atirasse a sua pena a um canto, e se limitasse a servir ao pas no
cargo pblico que ocupa,  triste diz-lo, mas ns cremos que a sua absteno
estava justificada. Felizmente, o autor d'O Guarani  uma dessas
organizaes raras que acham no trabalho sua prpria recompensa, e lutam menos
pelo presente, do que pelo futuro, Iracema, como obra do futuro, h de
viver, e temos f de que ser lida e apreciada, mesmo quando muitas das obras
que esto hoje em voga, servirem apenas para a crnica bibliogrfica de algum
antiqurio paciente.

A fundao da Arcdia Fluminense foi excelente num
sentido: no cremos que ela se propusesse a dirigir o gosto, mas o seu fim
decerto que foi estabelecer a convivncia literria, como trabalho preliminar
para obra de maior extenso. Nem se cuide que esse intento  de mnimo valor: a
convivncia dos homens de letras, levados por nobres estmulos, pode promover
ativamente o movimento intelectual; a Arcdia j nos deu algumas produes de
merecimento incontestvel, e se no naufragar, como todas as coisas boas do
nosso pas, pode-se esperar que ela contribua para levantar os espritos do
marasmo em que esto.

Qual o remdio para este mal que nos assoberba,
este mal de que s podem triunfar as vocaes enrgicas, e ao qual tantos
talentos sucumbem? O remdio j tivemos ocasio de indic-lo em um artigo que
apareceu nesta mesma folha: o remdio  a crtica. Desde que, entre o poeta e o
leitor, aparecer a reflexo madura da crtica, encarregada de aprofundar as
concepes do poeta para as comunicar ao esprito do leitor; desde que uma
crtica conscienciosa e artista, guiar a um tempo, a musa no seu trabalho, e o
leitor na sua escolha, a opinio comear a formar-se, e o amor das letras vir
naturalmente com a opinio. Nesse dia os cometimentos ilegtimos no sero to
fceis; as obras medocres no podero resistir por muito tempo; o poeta, em
vez de acompanhar o gosto mal formado, olhar mais seriamente para sua arte; a
arte no ser uma distrao, mas uma profisso, alta, sria, nobre, guiada por
vivos estmulos; finalmente, o que  hoje exceo, ser amanh uma regra geral.

Os que no conhecerem de perto o autor destas
linhas, vo naturalmente atribuir-lhe, depois desta exposio, uma inteno
imodesta que ele no tem. No, o lugar vago da crtica no se preenche
facilmente, no basta ter mostrado algum amor pelas letras para exercer a
tarefa difcil de guiar a opinio e as musas, nem essa tarefa pode ser
desempenhada por um s homem; e as eminentes e raras qualidades do crtico, so
de si to difceis de encontrar, que eu no sei se temos no Imprio meia dzia
de pensadores prprios para esse mister.

Assim que, estas
semanas literrias no passam de revistas bibliogrficas; seguramente que nos
no limitaremos a noticiar livros, sem exame, sem estudo; mas da a exercer
influncia no gosto, e a pr em ao os elementos da arte, vai uma distncia
infinita. Se os livros, porm, so poucos, se raro aparecem as vocaes
legtimas, como, preencher esta tarefa? A esta pergunta dos nossos leitores
temos uma resposta fcil. Se as publicaes no so freqentes, h obras na
estante nacional, que podem nos dias de carncia ocupar a ateno do cronista;
e  assim, por exemplo, que uma das primeiras obras de que nos ocuparemos ser
a Iracema do Sr. Jos de Alencar. Antes, porm, de trazer para estas
colunas a irm mais moa de Moema e de Lindia, to formosa, como elas, e como
elas to nacional, diremos alguma coisa do ltimo romance do Sr. Dr. Macedo, O
Culto do Dever, que acaba de ser publicado em volume. A prxima revista ser consagrada ao livro do autor d'A Moreninha, que no meio
das suas preocupaes polticas, no se esquece das musas. Mas que fruto nos
traz ele da sua ltima excurso ao Parnaso?  o que veremos na prxima semana.
