CRNICA.  O Velho Senado, 1898

O Velho Senado

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V.II, 1994.

Publicado originalmente
  em Revista
      Brasileira,  Rio de Janeiro, 1898.

A propsito de algumas litografias de Sisson,
  tive h dias uma viso do Senado de 1860. Vises valem o mesmo que a retina em
  que se operam. Um poltico, tornando a ver aquele corpo, acharia nele a mesma alma dos seus correligionrios extintos, e um
  historiador colheria elementos para a histria. Um simples curioso no descobre
  mais que o pinturesco do tempo e a expresso das
  linhas com aquele tom geral que do as coisas mortas e enterradas.

Nesse ano entrara eu para a imprensa. Uma noite, como
  sassemos do Teatro Ginsio, Quintino Bocaiva e eu fomos tomar ch. Bocaiva
  era ento uma gentil figura de rapaz, delgado, tez macia, fino bigode e olhos
  serenos. J ento tinha os gestos lentos de hoje, e um pouco daquele ar distant que Taine achou
  em Mrime.
    Disseram
  coisa anloga de Challemel-Lacour,
  que algum ultimamente definia como trs rpublicain de conviction et trs aristocrate de temprament. O nosso Bocaiva era s a segunda
  parte, mas j ento liberal bastante para dar um republicano convicto. Ao ch,
  conversamos primeiramente de letras, e pouco depois de poltica, matria
  introduzida por ele, o que me espantou bastante, no era usual nas nossas
  prticas. Nem  exato dizer que conversamos de poltica, eu antes respondia s
  perguntas que Bocaiva me ia fazendo, como se quisesse conhecer as minhas opinies.
  Provavelmente no as teria fixas nem determinadas; mas, quaisquer que fossem,
  creio que as exprimi na proporo e com a preciso apenas adequadas ao que ele
  me ia oferecer. De fato, separamo-nos com prazo dado para o dia seguinte, na
  loja de Paula Brito, que era na antiga Praa da Constituio, lado do Teatro S.
  Pedro, a meio caminho das Ruas do Cano e dos Ciganos. Relevai esta nomenclatura
  morta;  vcio de memria velha. Na manh seguinte, achei ali Bocaiva
  escrevendo um bilhete. Tratava-se do Dirio do Rio de Janeiro, que ia
  reaparecer, sob a direo poltica de Saldanha Marinho. Vinha dar-me um lugar
  na redao com ele e Henrique Csar Mzio.

Estas minudncias, agradveis de escrever, s-lo-o menos
  de ler.  difcil fugir a elas, quando se recordam coisas idas. Assim, dizendo
  que no mesmo ano, abertas as cmaras, fui para o Senado, como redator do Dirio
    do Rio, no posso esquecer que nesse ou no outro ali estiveram comigo,
  Bernardo Guimares, representante do Jornal do Comrcio, e Pedro Lus,
  por parte do Correio Mercantil, nem as boas horas que vivemos os trs.
  Posto que Bernardo Guimares fosse mais velho que ns, partamos irmmente o po da intimidade. Descamos juntos
    aquela Praa da Aclamao, que no era ento o parque de hoje, mas um vasto
  espao inculto e vazio como o Campo de S. Cristvo. Algumas vezes amos jantar
  a um restaurant da Rua dos Latoeiros, hoje
  Gonalves Dias, nome este que se lhe deu por indicao justamente no Dirio
    do Rio; o poeta morara ali outrora, e foi Mzio,
  seu amigo, que pela nossa folha o pediu  Cmara Municipal. Pedro Lus no
  tinha s a paixo que ps nos belos versos  Polnia e no discurso com que,
  pouco depois, entrou na Cmara dos Deputados, mas ainda a graa, o sarcasmo, a
  observao fina e aquele largo riso em que os grandes olhos se faziam maiores.
  Bernardo Guimares no falava nem ria tanto, incumbia-se de pontuar o dilogo
  com um bom dito, um reparo, uma anedota. O Senado no se prestava menos que o
  resto do mundo  conversao dos trs amigos.

Poucos membros restaro da velha casa. Paranagu e Sinimbu
  carregam o peso dos anos com muita facilidade e graa, o que ainda mais admira
  em Sinimbu, que suponho mais idoso. Ouvi falar a este
    bastantes vezes; no apaixonava o debate, mas era simples, claro,
  interessante, e, fisicamente, no perdia a linha. Esta gerao conhece a
  firmeza daquele homem poltico, que mais tarde foi presidente do Conselho e
  teve de lutar com oposies grandes. Um incidente dos ltimos anos mostrar bem
  a natureza dele. Saindo da Cmara dos Deputados para a Secretaria da
  Agricultura, com o Visconde de Ouro Preto, colega de
    gabinete, eram seguidos por enorme multido de gente
  em assuada. O
  carro parou
  em frente  secretaria; os dois apearam-se e pararam alguns instantes, voltados
  para a multido, que continuava a bradar e apupar, e ento vi bem a diferena
  dos dois temperamentos. Ouro Preto fitava-a com a cabea erguida e certo gesto
  de repto; Sinimbu parecia apenas mostrar ao colega um trecho de muro,
  indiferente. Tal era o homem que conheci no Senado.

Para avaliar bem a minha impresso diante daqueles homens
  que eu via ali juntos, todos os dias,  preciso no esquecer que no poucos
  eram contemporneos da maioridade, algum da Regncia, do Primeiro Reinado e da
  Constituinte. Tinham feito ou visto fazer a histria dos tempos iniciais do regmen, e eu era um adolescente espantado e curioso.
  Achava-lhes uma feio particular, metade militante, metade triunfante, um
  pouco de homens, outro pouco de instituio. Paralelamente, iam-me lembrando os apodos e chufas que a paixo poltica desferira
  contra alguns deles, e sentia que as figuras serenas e respeitveis que ali
  estavam agora naquelas cadeiras estreitas no tiveram outrora o respeito dos
  outros, nem provavelmente a serenidade prpria. E tirava-lhes as cs e as
  rugas, e fazia-os outra vez moos, rdegos e
  agitados. Comecei a aprender a parte do presente que h no passado, e
  vice-versa. Trazia comigo a oligarquia, o golpe de Estado de
    1848, e outras notas da poltica em oposio ao domnio conservador, e ao
  ver os cabos deste partido, risonhos, familiares, gracejando entre si e com os
  outros, tomando juntos caf e rap, perguntava a mim mesmo se eram eles que
  podiam fazer, desfazer e refazer os elementos e
  governar com mo de ferro este pas.

Os senadores compareciam regularmente ao trabalho. Era
  raro no haver sesso por falta de quorum. Uma particularidade do tempo
   que muitos vinham em carruagem prpria, como Zacarias, Monte Alegre,
  Abrantes, Caxias e outros, comeando pelo mais velho, que era o Marqus de Itanham. A idade deste fazia-o menos assduo, mas ainda
  assim era-o mais do que cabia esperar dele. Mal se podia apear do carro, e
  subir as escadas; arrastava os ps at  cadeira, que ficava do lado direito da
  mesa. Era seco e mirrado, usava cabeleira e trazia culos fortes. Nas
  cerimnias de abertura e encerramento agravava o aspecto com a farda de
  senador. Se usasse barba, poderia disfarar o chupado e engelhado dos tecidos,
  a cara rapada acentuava-lhe a decrepitude; mas a cara rapada era o costume de
  outra quadra, que ainda existia na maioria do Senado. Uns,
    como Nabuco e Zacarias, traziam a barba toda feita; outros deixavam
  pequenas suas, como Abrantes e Paranhos, ou, como Olinda e Eusbio, a barba
  em forma de colar; raros usavam bigodes, como Caxias e Montezuma, -- um Montezuma de segunda maneira.

A figura de Itanham era uma
  razo visvel contra a vitaliciedade do Senado, mas  tambm certo
    que a vitaliciedade dava quela casa uma conscincia de durao
  perptua, que parecia ler-se no rosto e no trato de seus membros. Tinham um ar
  de famlia, que se dispersava durante a estao calmosa, para ir s guas e
  outras diverses, e que se reunia depois, em prazo certo, anos e anos. Alguns
  no tornavam mais, e outros novos apareciam; mas tambm nas famlias se morre e
  nasce. Dissentiam sempre, mas  prprio das famlias numerosas brigarem,
  fazerem as pazes e tornarem a brigar; parece at que  a melhor prova de estar
  dentro da humanidade. J ento se evocavam contra a vitaliciedade do Senado os
  princpios liberais, como se fizera antes. Algumas vozes vibrantes c fora,
  calavam-se l dentro,  certo, mas o grmen da reforma ia ficando, os programas
  o acolhiam, e, como em vrios outros casos, os sucessos o fizeram lei.

Nenhum tumulto nas sesses. A ateno era grande e
  constante. Geralmente, as galerias no eram mui freqentadas, e, para o fim da
  hora, poucos espectadores ficavam, alguns dormiam.
  Naturalmente, a discusso do voto de graas e outras chamavam mais gente.
  Nabuco e algum outro dos principais da casa gozavam do privilgio de atrair
  grande auditrio, quando se sabia que eles rompiam um debate ou respondiam a um
  discurso. Nessas ocasies, mui excepcionalmente, eram admitidos ouvintes no
  prprio salo do Senado, como alis era comum na
  Cmara temporria; como nesta, porm, os espectadores no intervinham com
  aplausos nas discusses. A presidncia de Abaet redobrou a disciplina do
  regimento, porventura menos apertada no tempo da presidncia de Cavalcanti.

No faltavam oradores. Uma s vez ouvi falar a Eusbio de Queirs, e a impresso que me deixou foi viva; era fluente,
  abundante, claro, sem prejuzo do vigor e da energia. No foi discurso de
  ataque, mas de defesa, falou na qualidade de chefe do Partido Conservador, ou papa; Itabora, Uruguai, Saio Lobato e outros eram cardeais, e todos formavam
  o consistrio, segundo a clebre definio de Otaviano no Correio
    Mercantil. No reli o discurso, no teria agora tempo nem oportunidade de
  faz-lo, mas estou que a impresso no haveria diminudo muito, posto lhe falte
  o efeito da prpria voz do orador, que seduzia. A matria era sobremodo
  ingrata: tratava-se de explicar e defender o acmulo dos cargos pblicos,
  acusao feita na imprensa da oposio. Era a tarde da
  oligarquia, o crepsculo do domnio conservador. As eleies de 1860, na
  capital, deram o primeiro golpe na situao; se tambm deram o ltimo, no sei;
  os partidos nunca se entenderam bem acerca das causas imediatas da prpria
  queda ou subida, salvo no ponto de serem alternadamente a violao ou a
  restaurao da carta constitucional. Quaisquer que fossem, ento, a verdade 
  que as eleies da capital naquele ano podem ser contadas como uma vitria
  liberal. Elas trouxeram  minha imaginao adolescente uma viso rara e
  especial do poder das urnas. No cabe inseri-la aqui; no direi o movimento
  geral e o calor sincero dos votantes, incitados pelos artigos da imprensa e
  pelos discursos de Tefilo Otni, nem os lances,
  cenas e brados de tais dias. No me esqueceu a maior parte deles; ainda guardo
  a impresso que me deu um obscuro votante que veio ter com Otni,
  perto da matriz do Sacramento. Otni no o conhecia,
  nem sei se o tornou a ver. Ele chegou-se-lhe e
  mostrou-lhe um mao de cdulas, que acabava de tirar s escondidas da algibeira
  de um agente contrrio. O riso que acompanhou esta notcia nunca mais se me
  apagou da memria. No meio das mais ardentes reivindicaes
    deste mundo, alguma vez me despontou ao longe aquela boca sem nome,
  acaso verdica e honesta em tudo o mais da vida, que ali viera confessar
  candidamente, e sem outro prmio pessoal, o fino roubo praticado. No mofes
  desta insistncia pueril da minha memria; eu a tempo advirto que as mais
  claras guas podem levar de enxurro alguma palha podre, -- se  que  podre, se  que  mesmo
    palha.

Eusbio de Queirs era justamente respeitado dos seus e
  dos contrrios. No tinha a figura esbelta de um Paranhos, mas ligava-se-lhe uma histria particular e clebre, dessas que
  a crnica social e poltica de outros pases escolhe e examina, mas que os
  nossos costumes, -- alis demasiado soltos na palestra, -- no consentem inserir no escrito.
    De resto, pouco valeria repetir agora o que se divulgava ento, no podendo pr
    aqui a prpria e extremada beleza da pessoa que as ruas e salas desta cidade
    viram tantas vezes. Era alta e robusta; no me ficaram outros pormenores.

O Senado contava raras sesses ardentes; muitas, porm,
  eram animadas. Zacarias fazia reviver o debate pelo sarcasmo e pela presteza e
  vigor dos golpes. Tinha a palavra cortante, fina e rpida, com uns efeitos de
  sons guturais, que a tornavam mais penetrante e irritante. Quando ele se
  erguia, era quase certo que faria deitar sangue a algum. Chegou at hoje a
  reputao de debater, como oposicionista, e como ministro e chefe de
  gabinete. Tinha audcias, como a da escolha 'no acertada', que a
  nenhum outro acudiria, creio eu. Politicamente, era
  uma natureza seca e sobranceira. Um livro que foi de seu uso, uma Histria de Clarendon (History of the Rebellion and Civil Wars in England), marcado em partes, a lpis encarnado, tem uma
  sublinha nas seguintes palavras (vol. I, pg. 44)
  atribudas ao Conde de Oxford, em resposta ao Duque de Buckingham,
  'que no buscava a sua amizade nem temia o seu dio'.  arriscado ver
  sentimentos pessoais nas simples notas ou lembranas postas em livros de
  estudo, mas aqui parece que o esprito de Zacarias achou o seu parceiro.
  Particularmente, ao contrrio, e desde que se inclinasse a algum, convidava
  fortemente a am-lo; era lhano e simples, amigo e confiado. Pessoas que o
  freqentavam, dizem e afirmam que, sob as suas rvores da Rua do Conde ou entre
  os seus livros, era um gosto ouvi-lo, e raro haver esquecido a graa e a
  polidez dos seus obsquios. No Senado, sentava-se  esquerda da mesa, ao p da
  janela, abaixo de Nabuco, com quem trocava os seus reparos e reflexes. Nabuco,
  outra das principais vozes do Senado, era especialmente orador para os debates
  solenes. No tinha o sarcasmo agudo de Zacarias, nem o
    epigrama alegre de Cotegipe. Era ento o centro dos conservadores
  moderados que, com Olinda e Zacarias, fundaram a liga e os partidos
  Progressista e Liberal. Joaquim Nabuco, com a eloqncia de escritor poltico e
  a afeio de filho, dir toda essa histria no livro que est consagrando 
  memria de seu ilustre pai. A palavra do velho Nabuco era modelada pelos
  oradores da tribuna liberal francesa. A minha impresso  que preparava os seus
  discursos, e a maneira por que os proferia realava-lhes a matria e a forma slida
  e brilhante. Gostava das imagens literrias: uma dessas, a comparao do poder
  moderador  esttua de Glauco, fez ento fortuna. O gesto no era vivo, como o
  de Zacarias, mas pausado, o busto cheio era tranqilo, e a voz adquiria uma
  sonoridade que habitualmente no tinha.

Mas eis que todas as figuras se atropelam na evocao
  comum, as de grande peso, como Uruguai, com as de pequeno ou nenhum peso, como
  o Padre Vasconcelos, senador creio que pela Paraba, um bom homem que ali achei
  e morreu pouco depois. Outro, que se podia incluir nesta segunda categoria, era
  um de quem s me lembram duas circunstncias, as longas barbas grisalhas e
  srias, e a cautela e pontualidade com que no votava os artigos de uma lei sem
  ter os olhos pregados
  em Itabora. Era
  um modo de cumprir a fidelidade
  poltica e obedecer ao chefe, que herdara o basto de Eusbio. Como o recinto
  era pequeno, viam-se todos esses gestos, e quase se ouviam todas as palavras
  particulares. E, conquanto fosse assim pequeno, nunca vi rir a Itabora, creio
  que os seus msculos dificilmente ririam -- o contrrio de S. Vicente, que ria
    com facilidade, um riso bom, mas que lhe no ia bem. Quaisquer que fossem,
    porm, as deselegncias fsicas do senador por S. Paulo, e malgrado a palavra
    sem sonoridade, era ouvido com grande respeito, como Itabora. De Abrantes
    dizia-se que era um canrio falando. No sei at que ponto merece a definio;
    em verdade, achava-o fluente, acaso doce, e, para um povo mavioso como o nosso,
    a qualidade era preciosa; nem por isso Abrantes era popular. Tambm no o era
    Olinda, mas a autoridade deste sabe-se que era grande. Olinda aparecia-me
    envolvido na aurora remota do reinado, e na mais recente aurora liberal ou
    'situao nascente', mote de um dos chefes da liga, penso que Zacarias, que os conservadores glosaram por todos
    os feitios, na tribuna e na imprensa. Mas no deslizemos a reminiscncias de
    outra ordem; fiquemos na surdez de Olinda, que competia com Beethoven nesta
    qualidade, menos musical que poltica. No seria to surdo. Quando tinha de
    responder a algum, ia sentar-se ao p do orador, e escutava atento, cara de
    mrmore, sem dar um aparte, sem fazer um gesto, sem tomar uma nota. E a
    resposta vinha logo; to depressa o adversrio acabava, como ele principiava, e, ao que me ficou, lcido e completo.

Um dia vi ali aparecer um homem alto, suas e bigodes
  brancos e compridos. Era um dos remanescentes da Constituinte, nada menos que Montezuma, que voltava da Europa. Foi-me impossvel
  reconhecer naquela cara barbada a cara rapada que eu conhecia da litografia Sisson; pessoalmente nunca o vira. Era, muito mais que Olinda, um tipo de velhice robusta. Ao meu esprito de rapaz
  afigurava-se que ele trazia ainda os rumores e os gestos da assemblia de 1823.
  Era o mesmo homem; mas foi preciso ouvi-lo agora para sentir toda a veemncia
  dos seus ataques de outrora. Foi preciso ouvir-lhe a ironia de hoje para
  entender a ironia daquela retificao que ele ps ao texto de uma pergunta ao
  Ministro do Imprio, na clebre sesso permanente de
  11 a
  12 de novembro:
  'Eu disse que o Sr. Ministro do Imprio, por
  estar ao lado de Sua Majestade, melhor conhecer o 'esprito da
  tropa', e um dos senhores secretrios escreveu 'o esprito de Sua
  Majestade', quando no disse tal, porque deste no duvido eu'.

Agora o que eu mais ouvia dizer dele, alm do talento,
  eram as suas infidelidades, e sobre isto corriam anedotas; mas eu nada tenho
  com anedotas polticas. Que se no pudesse fiar muito em seus carinhos
  parlamentares, creio. Uma vez, por exemplo, encheu a alma de Sousa Franco de
  grandes aleluias. Querendo criticar o Ministro da Fazenda (no me lembra quem
  era) comeou por afirmar que nunca tivramos ministros da Fazenda, mas
  to-somente ministros do Tesouro. Encarecia com adjetivos: excelentes, ilustrados,
  conspcuos ministros do Tesouro, mas da Fazenda nenhum. 'Um houve, Sr. presidente que nos deu alguma coisa do que deve ser um
  Ministro da Fazenda; foi o nobre senador pelo Par'. E Sousa Franco sorria
  alegre, deleitava-se com a exceo, que devia doer ao seu forte rival em
  finanas, Itabora; no passou muito tempo que no perdesse o gosto. De outra
  vez, Montezuma atacava a Sousa Franco, e este
  novamente sorria, mas agora a expresso no era alegre, parecia rir de desdm. Montezuma empina o busto, encara-o irritado, e com a voz e
  o gesto intima-lhe que recolha o riso; e passa a demonstrar as suas crticas,
  uma por uma, com esta espcie de estribilho: 'Recolha o riso o nobre
  senador!' Tudo isto aceso e torvo. Sousa Franco quis resistir; mas o riso
  recolheu-se por si mesmo. Era ento um homem magro e cansado. Gozava ainda
  agora a popularidade ganha na Cmara dos Deputados, anos antes, pela campanha
  que sustentou, sozinho e parece que enfermo, contra o
  Partido Conservador.

Contrastando com Sousa Franco, vinha a figura de Paranhos,
  alta e forte. No  preciso diz-lo a uma gerao que o conheceu e admirou, ainda belo e robusto na velhice. Nem  preciso
  lembrar que era uma das primeiras vozes do Senado. Eu trazia de cor as palavras
  que algum me confiou haver dito, quando ele era simples estudante da Escola
  Central: 'Sr. Paranhos, voc ainda h de ser ministro'. O estudante
  respondia modestamente, sorrindo; mas o profeta dos seus destinos tinha
  apanhado bem o valor e a direo da alma do moo.

Muitas recordaes me vieram do Paranhos de ento,
  discursos de ataque, discursos de defesa, mas, uma basta, a justificao do
  convnio de 20 de fevereiro. A notcia deste ato entrou no Rio de Janeiro, como
  as outras desse tempo, em que no havia telgrafo. Os sucessos do exterior
  chegavam-nos s braadas, por atacado, e uma batalha, uma conspirao, um ato
  diplomtico eram conhecidos com todos os seus pormenores. Por um paquete do Sul
  soubemos do convnio da vila da Unio. O pacto foi mal recebido, fez-se uma
  manifestao de rua, e um grupo de populares, com trs ou quatro chefes 
  frente, foi pedir ao governo a demisso do plenipotencirio. Paranhos foi
  demitido, e, aberta a sesso parlamentar, cuidou de produzir a sua defesa.

Tornei a ver aquele dia, e ainda agora me parece v-lo.
  Galerias e tribunas estavam cheias de gente; ao salo do Senado foram admitidos
  muitos homens polticos ou simplesmente curiosos. Era uma hora da tarde quando
  o presidente deu a palavra ao senador por Mato Grosso; comeava a discusso do
  voto de graas. Paranhos costumava falar com moderao e pausa; firmava os
  dedos, erguia-os para o gesto lento e sbrio, ou ento para chamar os punhos da
  camisa, e a voz ia saindo meditada e colorida. Naquele dia, porm, a nsia de
  produzir a defesa era tal, que as primeiras palavras foram antes bradadas que
  ditas: 'No a vaidade. Sr. presidente...'
  Da a um instante, a voz tornava ao diapaso habitual, e o discurso continuou
  como nos outros dias. Eram nove horas da noite, quando ele acabou; estava como
  no princpio, nenhum sinal de fadiga nele nem no auditrio, que o aplaudiu. Foi
  uma das mais fundas impresses que me deixou a eloqncia parlamentar. A
  agitao passara com os sucessos, a defesa estava feita. Anos depois do ataque,
  esta mesma cidade aclamava o autor da lei de 28 de setembro de 1871, como uma
  glria nacional; e ainda depois, quando ele tornou da Europa, foi receb-lo e
  conduzi-lo at a casa. Ao claro de um belo sol, rubro de comoo, levado pelo
  entusiasmo pblico, Paranhos seguia as mesmas ruas que, anos antes, voltando do
  Sul, pisara sozinho e condenado.

A viso do Senado foi-se-me assim alterando nos gestos e nas pessoas, como nos dias, e sempre remota e
  velha: era o Senado daqueles trs anos. Outras figuras vieram vindo. Alm dos
  cardeais, os Muritibas, os Sousa e Melos, vinham os de menor graduao poltica, o risonho
  Pena, zeloso e mido em seus discursos, o Jobim, que falava algumas vezes, o
  Ribeiro, do Rio Grande do Sul, que no falava nunca, -- no me lembra, ao menos. Este,
    filsofo e fillogo, tinha junto a si, no tapete,
    encostado no p da cadeira, um exemplar do dicionrio de Morais. Era comum
    v-lo consultar um e outro tomo, no correr de um debate, quando ouvia algum
    vocbulo, que lhe parecia de incerta origem ou duvidosa aceitao. Em contraste
    com a absteno dele, eis aqui outro, Silveira da Mota, assduo na tribuna,
    oposicionista por temperamento, e este outro, D. Manuel de Assis Mascarenhas,
    bom exemplar da gerao que acabava. Era um homenzinho seco e baixo, cara lisa, cabelo raro e branco, tenaz, um tanto impertinente, creio que desligado de partidos. Da sua tenacidade dar idia o que lhe vi fazer em
    relao a um projeto de subveno ao teatro lrico, por meio de loterias. No
    era novo; continuava o de anos anteriores. D. Manuel opunha-se por todos os
    meios  passagem dele, e fazia extensos discursos. A mesa, para acabar com o
    projeto, j o inclua entre os primeiros na ordem do dia, mas nem assim
    desanimava o senador. Um dia foi ele colocado antes de nenhum. D. Manuel pediu a
    palavra, e francamente declarou que era seu intuito falar toda a sesso;
    portanto, aqueles de seus colegas que tivessem algum negcio estranho e fora do
    Senado podiam retirar-se; no se discutiria mais nada. E falou at o fim da
    hora, consultando a mido o relgio para ver o tempo que lhe ia faltando.
    Naturalmente no haveria muito que dizer em to escassa matria, mas a
    resoluo do orador e a liberdade do regimento davam-lhe meio de compor o
    discurso. Da nascia uma infinidade de episdios,
    reminiscncias, argumentos e explicaes; por exemplo, no era recente a sua
    averso s loterias, vinha do tempo em que, andando a viajar, foi ter a
    Hamburgo; ali ofereceram-lhe com tanta instncia um bilhete de loteria, que ele
    foi obrigado a comprar, e o bilhete saiu branco. Esta anedota era contada com
    todas as mincias necessrias para ampli-la. Uma parte do tempo falou sentado, e acabou diante da mesa e trs ou quatro colegas.
    Mas, imitando assim Cato, que tambm falou um dia
    inteiro para impedir uma petio de Csar, foi menos feliz que o seu colega
    romano. Csar retirou a petio, e aqui as loterias passaram, no me lembra se por fadiga ou omisso de D. Manuel; anuncia  que no podia
    ser. Tais eram os costumes do tempo.

E aps ele vieram outros, e ainda outros, Sapuca,
  Maranguape, Itana, e outros mais, at que se
  confundiram todos e desapareceu tudo, coisas e pessoas, como sucede s vises.
  Pareceu-me v-los enfiar por um corredor escuro, cuja porta era fechada por um
  homem de capa preta, meias de seda preta, cales pretos e sapatos de fivela.
  Este era nada menos que o prprio porteiro do Senado, vestido segundo as praxes
  do tempo, nos dias de abertura e encerramento da assemblia geral. Quanta coisa
  obsoleta! Algum ainda quis obstar  ao do porteiro, mas tinha o gesto to
  cansado e vagaroso que no alcanou nada; aquele deu volta  chave, envolveu-se
  na capa, saiu por uma das janelas e esvaiu-se no ar, a caminho de algum
  cemitrio, provavelmente. Se valesse a pena saber o nome do cemitrio, iria eu
  cat-lo, mas no vale; todos os cemitrios se parecem.
