Conto, Antes que cases, 1875

Antes que cases...

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http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 7/1875 a 9/1875.

CAPTULO
PRIMEIRO

Era um dia um rapaz de vinte e cinco
anos, bonito e celibatrio, no rico, mas vantajosamente empregado. No tinha
ambies, ou antes tinha uma ambio s; era amar loucamente uma mulher e casar
sensatamente com ela. At ento no se apaixonara por nenhuma. Estreara algumas
afeies que no passaram de namoricos modestos e prosaicos. O que ele sonhava
era outra coisa.

A viveza da imaginao e a leitura
de certos livros lhe desenvolveram o germe que a natureza lhe pusera no
corao. Alfredo Tavares ( o nome do rapaz) povoara o seu esprito de Julietas
e Virgnias, e aspirava noite e dia viver um romance como s ele o podia
imaginar. Em amor a prosa da vida metia-lhe nojo, e ningum dir certamente que
ela seja uma coisa inteiramente agradvel; mas a poesia  rara e passageira  a
poesia como a queria Alfredo Tavares, e no viver a prosa, na esperana de uma
poesia incerta, era arriscar-se a no viver absolutamente.

Este raciocnio no o fazia
Alfredo.  at duvidoso que ele raciocinasse alguma vez. Alfredo devaneava e
nada mais. Com a sua imaginao, vivia s vezes sculos, sobretudo de noite 
mesa do ch, que ele ia tomar no Carceller. Os castelos que ele fabricava entre
duas torradas eram obras-primas de fantasia. Seus sonhos oscilavam entre o
alade do trovador e a gndola veneziana, entre uma castel da idade mdia e
uma fidalga da idade dos doges.

No era isto s; era mais e menos.

Alfredo no exigia especialmente
um sangue real; muita vez ia alm da castel, muita vez vinha aqum da filha
dos doges, sonhava com Semramis e com Ruth ao mesmo tempo. O que ele pedia era
o potico, o delicioso, o vago; uma mulher bela e vaporosa, delgada se fosse
possvel, em todo o caso vaso de quimeras, com quem iria suspirar uma vida mais
do cu que da terra,  beira de um lago ou entre duas colinas eternamente
verdes. A vida para ele devia ser a cristalizao de um sonho. Essa era nem
mais nem menos a sua ambio e o seu desespero.

Alfredo Tavares adorava as
mulheres bonitas. Um leitor menos sagaz achar nisto uma vulgaridade. No ;
admir-las, am-las, que  a regra comum; Alfredo adorava-as literalmente. No
caa de joelhos porque a razo lhe dizia que seria ridculo; mas se o corpo
ficava de p, o corao ajoelhava. Elas passavam e ele ficava mais triste que
dantes, at que a imaginao o levasse outra vez nas asas, alm e acima dos
paraleleppedos e do Carceller.

Mas se a sua ambio era amar uma
mulher, por que razo no amara uma de tantas que adorava assim de passagem?
Leitor, nenhuma delas lhe tocara o verdadeiro ponto do corao. Sua admirao
era de artista; a bala que o devia matar, ou no estava fundida, ou no fora
disparada. No seria porm difcil que uma das que ele simplesmente admirava,
lograsse dominar-lhe o corao; bastava-lhe um quebrar de olhos, um sorriso, um
gesto qualquer. A imaginao dele faria o resto.

Do que vai dito at aqui no se
conclua rigorosamente que Alfredo fosse apenas um habitante dos vastos
intermndios de Epcuro, como dizia o Diniz. No; Alfredo no vivia sempre das suas
quimeras. A outra viajava muito, mas a besta comia, passeava, londreava, e at
( desiluso ltima!), e at engordava. Alfredo era refeito e corado devendo
ser plido e magro, como convinha a um sonhador da sua espcie. Vestia com
apuro, regateava as suas contas, no era raro cear nas noites em que ia ao
teatro, tudo isto sem prejuzo dos seus sentimentos poticos. Feliz no era,
mas tambm no torcia o nariz s necessidades vulgares da vida. Casava o
devaneio com a prosa.

Tal era Alfredo Tavares.

Agora que o leitor o conhece, vou
contar o que lhe aconteceu, por onde ver o leitor como os acontecimentos
humanos dependem de circunstncias fortuitas e indiferentes. Chame a isto acaso
ou providncia; nem por isso a coisa deixa de existir.

CAPTULO II

Uma noite, era em 1867, subia
Alfredo pela Rua do Ouvidor. Eram oito horas; ia aborrecido, impaciente, com
vontade de se distrair, mas sem vontade de falar a ningum. A Rua do Ouvidor oferecia
boa distrao, mas era um perigo para quem no queria conversar. Alfredo
reconheceu isto mesmo; e chegando  esquina da Rua da Quitanda parou. Seguiria
pela Rua da Quitanda ou pela Rua do Ouvidor? That was the question.

Depois de hesitar uns dez minutos,
e de tomar ora por uma, ora por outra rua, Alfredo seguiu enfim pela da
Quitanda na direo da de So Jos. Sua idia era subir depois por esta, entrar
na da Ajuda, ir pela do Passeio, dobrar a dos Arcos, vir pela do Lavradio at
ao Rocio, descer pela do Rosrio at a Direita, onde iria tomar ch ao
Carceller, depois do que se recolheria a casa estafado e com sono.

Foi neste ponto que interveio o
personagem que o leitor pode chamar Dom Acaso ou Madre Providncia, como lhe
aprouver. Nada mais fortuito que ir por uma rua em vez de ir por outra, sem
nenhuma necessidade que obrigue a seguir por esta ou por aquela. Pois este ato
assim fortuito  o ponto de partida da aventura de Alfredo Tavares.

Havia em frente de uma loja, que
ficava adiante do extinto Correio Mercantil, um carro parado. Esta
circunstncia no chamou a ateno de Alfredo; ele ia cheio de seu prprio
aborrecimento, de todo alheio ao mundo exterior. Mas uma mulher no  um carro,
e a coisa de seis passos da loja, Alfredo via assomar  porta uma mulher,
vestida de preto, e esperar que um criado lhe abrisse a portinhola.

Alfredo parou.

A necessidade de esperar que a
senhora entrasse no carro, justificava este ato; mas a razo dele era pura e
simplesmente a admirao, o pasmo, o xtase em que ficou o nosso Alfredo ao
contemplar, de perfil e  meia luz, um rosto idealmente belo, uma figura
elegantssima, gravemente envolvida em singelas roupas pretas, que lhe
realavam mais a alvura dos braos e do rosto. Eu diria que o rapaz ficara embasbacado,
se o permitisse a nobreza dos seus sentimentos e o asseio do escrito.

A moa desceu a calada, ps um p
quase invisvel no estribo do carro e entrou; fechou-se a portinhola, o criado
subiu a almofada e o carro partiu. Alfredo s se moveu quando o carro comeou a
andar. A viso desaparecera, mas o rosto dela ficara-lhe na memria e no
corao. O corao palpitava com fora. Alfredo apressou o passo atrs do
carro, mas muito antes de chegar  esquina da Rua da Assemblia, j o carro
subia por esta acima. Quis a sua felicidade que um tlburi viesse atrs dele e
vazio. Alfredo meteu-se no tlburi e mandou tocar atrs do carro.

A aventura sorria-lhe. O fortuito
do encontro, a corrida de um veculo atrs de outro, ainda que no fossem
coisas raras, davam-lhe sempre um ponto de partida para um romance. Sua
imaginao estava j alm deste primeiro captulo. A moa devia ser uma Llia
perdida na realidade, uma Helosa ignota da sociedade fluminense, de quem ele
seria, salvo algumas alteraes, o apaixonado Abelardo. Neste caminho de
inveno Alfredo tinha j mentalmente escrito muitos captulos do seu romance,
quando o carro parou em frente de uma casa da Rua de Mata-cavalos, chamada hoje
de Riachuelo.

O tlburi parou a alguns passos.

No tardou que a moa sasse do
carro e entrasse na casa, cuja aparncia indicava certa abastana. O carro
voltou depois pelo mesmo caminho, a passo lento, enquanto o tlburi, tambm a
passo lento seguia para diante. Alfredo tomou nota da casa, e de novo
mergulhou-se nas suas reflexes.

O cocheiro do tlburi que at
ento guardara um inexplicvel silncio, entendeu que devia oferecer os seus
bons ofcios ao fregus.

 V. S. ficou entusiasmado por
aquela moa, disse ele com ar sonso.  bem bonita!

 Parece que sim, respondeu
Alfredo; vi-a de relance. Morar ali mesmo?

 Mora.

 Ah! o senhor j ali foi...

 Duas vezes.

 Foi naturalmente levar o marido.

  viva.

 Sabe disso?

 Sei, sim, senhor... Onde pus eu
o meu charuto?...

 Tome um.

Alfredo ofereceu um charuto de
Havana ao cocheiro, que o aceitou com muitos sinais de reconhecimento. Aceso o
charuto, o cocheiro continuou.

 Aquela moa  viva e luxa
muito. Muito homem anda a mordido por ela, mas parece que ela no quer casar.

 Como sabe disso?

 Eu moro ali na Rua do Resende.
No viu como o cavalo queria quebrar a esquina?

Alfredo esteve um instante calado.

 Mora s? perguntou ele.

 Mora com uma tia velha e uma
irm mais moa.

 Sozinhas?

 H tambm um primo.

 Moo?

 Trinta e tantos anos.

 Solteiro?

 Vivo.

Alfredo confessou a si mesmo que
este primo era carta desnecessria no baralho. Palpitou-lhe que seria um
obstculo s suas venturas. Se fosse um pretendente? Era natural, se no estava
morto para as paixes da terra. Uma prima to bonita  uma Eva tentada e
tentadora. Alfredo fantasiava j assim um inimigo e as foras dele, antes de
conhecer a disposio da praa.

O cocheiro deu-lhe algumas
informaes mais. Havia umas partidas na casa da formosa dama, mas s de ms a
ms, as quais eram freqentadas por algumas poucas pessoas escolhidas. ngela,
que assim dizia ele chamar-se a moa, tinha alguns haveres, e viria a herdar da
tia, que j estava muito velha.

Alfredo recolheu carinhosamente as
informaes todas do cocheiro, e o nome de ngela para logo lhe ficou
entranhado no corao. Inquiriu do nmero do tlburi, o lugar onde estacionava
e o nmero da cocheira na Rua do Resende, e mandou voltar para baixo. Ao passar
em frente  casa de ngela, Alfredo deitou para l os olhos. A sala estava
alumiada, mas nenhum vulto de mulher ou de homem lhe apareceu. Alfredo
recostou-se molemente e o tlburi partiu a todo o galope.

CAPTULO III

Alfredo estava contente consigo e com
a fortuna. Depara-lhe esta uma mulher como aquela senhora, teve ele a idia de
a seguir, as circunstncias o ajudaram poderosamente; sabia agora onde morava a
bela, sabia que era livre, e enfim, e mais que tudo, amava.

Amava, sim. Aquela primeira noite
foi toda dedicada  lembrana da viso ausente e passageira. Enquanto ela
talvez dormia no silncio da sua alcova solitria, Alfredo pensava nela e fazia
j de longe mil castelos no ar. Um pintor no compe na imaginao o seu
primeiro painel com mais amor do que ele delineava os incidentes da sua paixo
e o feliz desenlace que ela no podia deixar de ter. Escusado  dizer que no
entrava no esprito do solitrio amador a idia de que ngela fosse uma mulher
vulgar. Era impossvel que uma mulher to bela no fosse igualmente, em
esprito, superior ou, melhor, uma imaginao etrea, vaporosa, com aspiraes
anlogas s dele, que eram de viver como se poetisa. Isto devia ser ngela, sem
o que no se cansaria a natureza a dar-lhe to aprimorado invlucro.

Com estas e outras reflexes foi
passando a noite, e j a aurora tingia o horizonte sem que o nosso aventuroso
heri tivesse dormido. Mas era preciso dormir e dormiu. O sol j ia alto quando
ele acordou. ngela foi ainda o seu primeiro pensamento. Ao almoo pensou nela,
pensou nela durante o trabalho, nela pensou ainda quando se sentou  mesa do
hotel. Era a primeira vez que se sentia to fortemente abalado; no tinha que
ver; era chegada a sua hora.

De tarde foi a Mata-cavalos. No
achou ningum  janela. Passou trs ou quatro vezes por diante da casa sem ver
o menor vestgio da moa. Alfredo era naturalmente impaciente e frentico; este
primeiro revs da fortuna o ps de mau humor. A noite desse dia foi pior que a
anterior. A tarde seguinte, porm, alguma compensao lhe deu. Ao avistar a
casa deu com um vulto de mulher  janela. Se no lho dissessem os olhos,
dizia-lhe claramente o corao que a mulher era ngela. Alfredo ia pelo lado
oposto, com os olhos pregados na moa e to apaixonados os levava, que se ela
os visse, no deixaria de lhes ler o que andava no corao do pobre rapaz. Mas
a moa, ou porque algum a chamasse de dentro, ou porque j estivesse
aborrecida de estar  janela, entrou rapidamente, sem dar f do nosso heri.

Alfredo nem por isso ficou
desconsolado.

Tinha visto outra vez a moa;
tinha verificado que era realmente uma formosura notvel; sentia o corao cada
vez mais preso. Isto era o essencial. O resto seria objeto de pacincia e de
fortuna.

Como era natural, amiudaram-se os
passeios a Mata-cavalos. A moa ora estava, ora no estava  janela; mas ainda
ao cabo de oito dias no reparara no paciente amador. No nono dia Alfredo foi
visto por ngela. No se admirou de que ele j de longe viesse a olhar para
ela, porque isso era o que faziam todos os rapazes que ali passavam; mas a
expresso com que ele olhava  que lhe chamou a ateno.

Desviou contudo os olhos por no
lhe parecer conveniente que atendia ao desconhecido. No tardou porm que de
novo olhasse; mas como ele no houvesse desviado os seus dela, ngela
retirou-se.

Alfredo suspirou.

O suspiro de Alfredo tinha dois
sentidos.

Era o primeiro uma homenagem do
corao.

O segundo era uma confisso de
desnimo.

O rapaz via claramente que o
corao da bela no fora tomado de assalto, como ele supunha. Todavia no
tardou que reconhecesse a possibilidade de pr as coisas em bom caminho, com o
andar do tempo, e bem assim a obrigao que tinha ngela de no parecer
namoradeira deixando-se ir ao sabor da ternura que naturalmente havia de ter
lido nos olhos dele.

Da a quatro dias ngela tornou a
ver o rapaz; pareceu reconhec-lo, e mais depressa que da primeira vez, deixou
a janela. Alfredo desta vez enfiou. Um monlogo triste e  meia voz entrou a
correr-lhe dos lbios fora, monlogo em que ele acusava a sorte e a natureza,
culpadas de no terem feito e dirigido os coraes de modo que quando um amasse
ao outro se afinasse pela mesma corda. Queria ele dizer na sua que as almas
deviam descer aos pares c a este mundo. O sistema era excelente, agora que ele
amava a bela viva; se amasse alguma velha desdentada e tabaquista, o sistema
seria detestvel.

Assim vai o mundo.

Cinco ou seis semanas correram
assim, ora a v-la e ela a fugir-lhe, ora a no v-la absolutamente e a passar
noites atrozes. Um dia, estando em uma loja na Rua do Ouvidor ou dos Ourives,
no sei bem onde foi, viu-a entrar acompanhada da irm mais moa, e estremeceu.
ngela olhou para ele; se o conheceu no o disse no rosto, que se mostrou
impassvel. De outra vez indo a uma missa fnebre na Lapa, deu com os olhos na
formosa esquiva; mas foi o mesmo que se olhasse para uma pedra; a moa no se
moveu; uma s fibra do rosto no se lhe alterou.

Alfredo no tinha amigos ntimos a
quem confiasse estas coisas de corao. Mas o sentimento era mais forte, e ele
sentia a necessidade de derramar o que sentia no corao de algum. Deitou os
olhos a um companheiro de passeios, com quem alis no andava desde a aventura
da Rua da Quitanda. Tibrcio era o nome do confidente. Era um sujeito magro e
amarelo, que se andasse naturalmente podia apresentar uma figura sofrivelmente
elegante, mas que tinha o sestro de contrariar a natureza dando-lhe um jeito
particular e perfeitamente ridculo. Votava todas as senhoras honestas ao maior
desprezo; e era muito querido e festejado na roda das que o no eram.

Alfredo reconhecia isto mesmo; mas
olhava-lhe algumas qualidades boas, e sempre o considerara seu amigo. No
hesitou portanto em dizer tudo a Tibrcio. O amigo ouviu lisonjeado a narrao.

  de fato bonita?

 Oh! no sei como a descrevo!

 Mas  rica?...

 No sei se o ... sei que por
ora tudo  intil; pode ser que ame algum e esteja at para casar com o tal
primo, ou com outro qualquer. O certo  que eu estou cada vez pior.

 Imagino.

 Que farias tu?

 Eu insistia.

 Mas se nada alcanar?

 Insiste sempre. J arriscaste
uma carta?

 Oh! no!

Tibrcio refletiu.

 Tens razo, disse ele; seria
inconveniente. No sei que te diga; eu nunca naveguei nesses mares. Ando c por
outros, cujos parcis conheo, e cuja bssola  conhecida por todos.

 Se eu pudesse esquecer-me dela,
disse Alfredo que nenhuma ateno prestara s palavras do amigo, j tinha
deixado isto de mo. s vezes penso que estou fazendo figura ridcula, porque
enfim ela  pessoa de outra sociedade...

 O amor iguala as distncias,
disse sentenciosamente Tibrcio.

 Ento parece-te?...

 Parece-me que deves continuar
como hoje; e se daqui a algumas semanas mais nada houveres adiantado, fala-me
porque eu terei meio de te dar algum conselho bom.

Alfredo apertou fervorosamente as
mos do amigo.

 Entretanto, continuou este, seria
bom que eu a visse; talvez que, no estando namorado como tu, possa
conhecer-lhe o carter e saber se  frieza ou soberba o que a faz at agora
esquiva.

Interiormente Alfredo fez uma
careta. No lhe parecia conveniente passar por casa de ngela acompanhado de
outro, o que tiraria ao seu amor o carter romntico de um padecimento
solitrio e discreto. Era entretanto impossvel recusar nada a um amigo que se
interessava por ele. Convieram em que iriam nessa mesma tarde a Mata-cavalos.

 Acho bom, disse o namorado
alegre com uma idia sbita, acho bom que no passemos juntos; tu irs adiante
e eu um pouco atrs.

 Pois sim. Mas estar ela 
janela hoje?

 Talvez; estes ltimos cinco dias
tenho-a visto sempre  janela.

 Oh! isso  j um bom sinal.

 Mas no olha para mim.

 Dissimulao!

 Aquele anjo?

 Eu no creio em anjos, respondeu
filosoficamente Tibrcio, no creio em anjos na terra. O mais que posso
conceder neste ponto  que os haja no cu; mas  apenas uma hiptese vaga.

CAPTULO IV

Nessa mesma tarde foram os dois a
Mata-cavalos, na ordem convencionada. ngela estava  janela, acompanhada da
tia velha e da irm mais moa. Viu de longe o namorado, mas no fitou os olhos
nele; Tibrcio pela sua parte no desviava os seus da formosa dama. Alfredo
passou como sempre.

Os dois amigos foram reunir-se
quando j no podiam estar ao alcance dos olhos dela. Tibrcio fez um elogio 
beleza da moa que o amigo ouviu encantado, como se lhe estivessem a elogiar
uma obra sua.

 Oh! hei de ser muito feliz!
exclamou ele num acesso de entusiasmo.

 Sim, concordou Tibrcio; creio
que hs de ser feliz.

 Que me aconselhas?

 Mais alguns dias de luta, uns
quinze, por exemplo, e depois uma carta...

 J tinha pensado nisso, disse Alfredo;
mas receava errar; precisava da opinio de algum. Uma carta, assim, sem nenhum
fundamento de esperana, sai fora da norma comum; por isso mesmo me seduz. Mas
como hei de mandar a carta?

 Isto agora  contigo, disse Tibrcio;
v se tens meio de travar relaes com algum criado da casa, ou...

 Ou o cocheiro do tlburi!
exclamou triunfalmente Alfredo Tavares.

Tibrcio exprimiu com a cara o
ltimo limite do assombro ao ouvir estas palavras de Alfredo; mas o amigo no
se deteve em explicar-lhe que havia um cocheiro de tlburi meio confidente
neste negcio. Tibrcio aprovou o cocheiro; ficou assentado que o meio da carta
seria aplicado.

Os dias correram sem incidente
notvel. Perdo; houve um notvel incidente.

Alfredo passava uma tarde por
baixo das janelas de ngela. Ela no olhava para ele. De repente Alfredo ouve
um pequeno grito e v passar-lhe por diante dos olhos alguma coisa parecida com
um lacinho de fita.

Era efetivamente um lacinho de
fita que cara no cho. Alfredo olhou para cima; j no viu a viva. Olhou em
roda de si, abaixou-se, apanhou o lao e guardou-o na algibeira.

Dizer o que havia dentro da sua
alma naquele venturoso instante  tarefa que pediria muito tempo e mais
adestrado pincel. Alfredo mal podia conter o corao. A vontade que tinha era
beijar ali mesmo na rua o lao, que ele j considerava uma parte da sua bela.
Reprimiu-se contudo; foi at o fim da rua; voltou por ela; mas, contra o
costume daqueles ltimos dias, a moa no apareceu.

Esta circunstncia era suficiente
para fazer crer na casualidade da queda do lao. Assim pensava Alfredo; ao
mesmo tempo porm perguntava se no era possvel que ngela, envergonhada da
sua audcia, quisesse agora evitar a presena dele e no menos as vistas
curiosas da vizinhana.

 Talvez, dizia ele.

Da a um instante:

 No, no  possvel tamanha
felicidade. O grito que soltou foi de sincera surpresa. A fita foi casual. Nem
por isso a adorarei menos...

Apenas chegou  casa, Alfredo
tirou o lao, que era de fita azul, e devia ter estado no colo ou no cabelo da
viva. Alfredo beijou-o cerca de vinte e cinco vezes e, se a natureza o tivesse
feito poeta,  provvel que naquela mesma ocasio expectorasse dez ou doze
estrofes em que diria estar naquela fita um pedao da alma da bela; a cor da
fita serviria para fazer bonitas e adequadas comparaes com o cu.

No era poeta o nosso Alfredo;
contentou-se em beijar o precioso despojo, e no deixou de referir o episdio
ao seu confidente.

 Na minha opinio, disse este, 
chegada a ocasio de lanar a carta.

 Creio que sim.

 No sejas mole.

 H de ser j amanh.

Alfredo no contava com a
instabilidade das coisas humanas. A amizade na terra, ainda quando o corao a
mantenha, est dependente do fio da vida. O cocheiro do tlburi no se teria
provavelmente esquecido do seu fregus de uma noite; mas tinha morrido no
intervalo daquela noite ao dia em que Alfredo o foi procurar.

  demais! exclamou Alfredo;
parece que a sorte se compraz de multiplicar os obstculos com que eu esbarro a
cada passo! Aposto que esse homem no morria se eu no precisasse dele. O
destino persegue-me... Mas nem por isso hei de curvar a cabea... Oh! no!

Com esta boa resoluo se foi o
namorado em busca de outro meio. A sorte trouxe-lhe um excelente. Vagou a casa
contgua  de ngela; era uma casa pequena, elegantezinha, prpria para um ou
dois rapazes solteiros... Alfredo alugou a casa e foi diz-lo triunfalmente ao
seu amigo.

 Fizeste muito bem! exclamou
este; o golpe  de mestre. Estando ao p  impossvel que no chegues a algum
resultado.

 Tanto mais que ela j me
conhece, disse Alfredo; deve ver nisso uma prova de amor.

 Justamente!

Alfredo no se demorou em fazer a mudana;
dali a dois dias estava na sua casa nova.  escusado dizer que o lao azul no
foi em alguma gaveta ou caixinha; foi na algibeira dele.

CAPTULO V

Tanto a casa de ngela como a de
Alfredo tinham um jardim no fundo. Alfredo quase morreu de contentamento quando
descobriu esta circunstncia.

  impossvel, pensava ele, que
aquela moa to potica, no goste de passear no jardim. V-la-ei desta janela
do fundo, ou por cima da cerca se for baixa. Ser?

Alfredo desceu  cerca e verificou
que a cerca lhe dava pelo peito.

 Bom! disse ele. Nem de
propsito!

Agradeceu mentalmente  sorte que
ainda h poucos dias amaldioava e subiu para pr os seus objetos em ordem e
dar alguns esclarecimentos ao criado.

Nesse mesmo dia de tarde, estando
 janela, viu a moa. ngela encarou com ele como quem duvidava do que via; mas
passado esse momento de exame, pareceu no lhe dar ateno.

Alfredo, cuja inteno era
cumpriment-la, com o pretexto da vizinhana, esqueceu-se completamente da
formalidade. Em vo procurou nova ocasio. A moa parecia alheia  sua pessoa.

 No faz mal, disse ele consigo;
o essencial  que eu esteja aqui ao p.

A moa parecia-lhe agora ainda
mais bonita. Era uma beleza que ainda ganhava mais quando examinada de perto. Alfredo
reconheceu que era de todo impossvel pensar em outra mulher deste mundo ainda
que aquela devesse faz-lo desgraado.

No segundo dia foi mais feliz.
Chegou  janela repentinamente na ocasio em que ela e a tia estavam  sua;
Alfredo cumprimentou-as respeitosamente. Elas corresponderam com um leve gesto.

O conhecimento estava travado.

Nem por isso adiantou o namoro,
porque durante a tarde os olhos de ambos no se encontraram e a existncia de
Alfredo parecia ser a ltima coisa de que ngela se lembrava.

Oito dias depois, estando Alfredo
 janela, viu chegar a moa sozinha, com uma flor na mo. Ela olhou para ele;
cumprimentaram.

Era a primeira vez que Alfredo
alcanava alguma coisa. A sua alma voou ao stimo cu.

A moa recostou-se na grade com a
flor na mo, a brincar distrada, no sei se por brincar, se por mostrar a mo
ao vizinho. O certo  que Alfredo no tirava os olhos da mo. A mo era digna
irm do p, que Alfredo entrevira na Rua da Quitanda.

O rapaz estava fascinado.

Mas quando ele quase perdeu o
juzo foi na ocasio em que ela, indo retirar-se da janela, encarou outra vez
com ele. No havia severidade nos lbios; Alfredo viu-lhe at uma sombra de
sorriso.

 Sou feliz! exclamou Alfredo
entrando. Enfim, consegui j alguma coisa.

Dizendo isto deu alguns passos na
sala, agitado, rindo, mirando-se ao espelho, completamente fora de si. Dez
minutos depois chegou  janela; outros dez minutos depois chegava ngela.

Olharam-se ainda uma vez.

Era a terceira naquela tarde,
depois de tantas semanas da mais profunda indiferena.

A imaginao de Alfredo no o
deixou dormir nessa noite. Pelos seus clculos dentro de dois meses iria
pedir-lhe a mo.

No dia seguinte no a viu e ficou
desesperado com esta circunstncia. Felizmente o criado, que j havia percebido
alguma coisa, achou meio de lhe dizer que a famlia da casa vizinha sara de
manh e no voltara.

Seria uma mudana?

Esta idia veio fazer da noite de
Alfredo uma noite de angstias. No dia seguinte trabalhou mal. Jantou s
pressas e foi para casa. ngela estava  janela.

Quando Alfredo apareceu  sua e a
cumprimentou, viu que ela tinha outra flor na mo; era um mal-me-quer.

Alfredo ficou logo embebido a
contempl-la; ngela comeou a desfolhar o mal-me-quer, como se estivesse
consultando sobre algum problema do corao.

O namorado no se deteve mais;
correu a uma gavetinha de segredo, tirou o lao de fita azul, e veio para a
janela com ele.

A moa tinha desfolhado toda a
flor; olhou para ele e viu o lacinho que lhe cara da cabea.

Estremeceu e sorriu.

Daqui em diante compreende o
leitor que as coisas no podiam deixar de caminhar.

Alfredo conseguiu v-la um dia no
jardim, assentada dentro de um caramancho, e j desta vez o cumprimento foi acompanhado
de um sorriso. No dia seguinte ela j no estava no caramancho; passeava. Novo
sorriso e trs ou quatro olhares.

Alfredo arriscou a primeira carta.

A carta era escrita com fogo;
falava de um cu, de um anjo, de uma vida toda poesia e amor. O moo
oferecia-se para morrer a seus ps se fosse preciso.

A resposta veio com prontido.

Era menos ardente; direi at que
no havia ardor nenhum; mas simpatia sim, e muita simpatia, entremeada de
algumas dvidas e receios, e frases bem dispostas para espertar os brios de um
corao que todo se desfazia em sentimento.

Travou-se ento um duelo epistolar
que durou cerca de um ms antes da entrevista.

A entrevista verificou-se ao p da
cerca, de noite, pouco depois das ave-marias, tendo Alfredo mandado o criado ao
seu amigo e confidente Tibrcio com uma carta em que lhe pedia que detivesse o
portador at s oito horas ou mais.

Convm dizer que esta entrevista
era perfeitamente desnecessria.

ngela era livre; podia escolher
livremente um segundo marido; no tinha de quem esconder os seus amores.

Por outro lado, no era difcil a
Alfredo obter uma apresentao em casa da viva, se lhe conviesse entrar
primeiramente assim, antes de lhe pedir a mo.

Todavia, o namorado insistiu na
entrevista do jardim, que ela recusou a princpio. A entrevista entrava no
sistema potico de Alfredo, era uma leve reminiscncia da cena de Shakespeare.

CAPTULO VI

 Juras ento que me amas?

 Juro.

 At  morte?

 At  morte.

 Tambm eu te amo, minha querida
ngela, no de hoje, mas h muito, apesar dos teus desprezos...

 Oh!

 No direi desprezos, mas
indiferena... Oh! mas tudo l vai; agora somos dois coraes ligados para
sempre.

 Para sempre!

Neste ponto ouviu-se um rumor na
casa de ngela.

 Que ? perguntou Alfredo.

ngela quis fugir.

 No fujas!

 Mas...

 No  nada; algum criado...

 Se dessem por mim aqui!

 Tens medo?

 Vergonha.

A noite encobriu a mortal palidez
do namorado.

 Vergonha de amar! exclamou ele.

 Quem te diz isso? Vergonha de me
acharem aqui, expondo-me s calnias, quando nada impede que tu...

Alfredo reconheceu a justia.

Nem por isso deixou de meter a mo
nos cabelos com um gesto de aflio trgica, que a noite continuava a encobrir
aos olhos da formosa viva.

 Olha! o melhor  vires  nossa
casa. Autorizo-te a pedir a minha mo.

Conquanto ela j houvesse indicado
isto nas cartas, era a primeira vez que formalmente o dizia. Alfredo viu-se
transportado ao stimo cu. Agradeceu a autorizao que lhe dava e
respeitosamente beijou-lhe a mo.

 Agora, adeus!

 Ainda no! exclamou Alfredo.

 Que imprudncia!

 Um instante mais!

 Ouves? disse ela prestando o
ouvido ao rumor que se fazia na casa.

Alfredo respondeu apaixonada e
literariamente:

 No  a calhandra,  o rouxinol!

  a voz de minha tia! observou a
viva prosaicamente. Adeus...

 Uma ltima coisa te peo antes
de ir  tua casa.

 Que ?

 Outra entrevista neste mesmo
lugar.

 Alfredo!

 Outra e ltima.

ngela no respondeu.

 Sim?

 No sei, adeus!

E libertando a sua mo das mos do
namorado que a retinha com fora, ngela correu para casa.

Alfredo ficou triste e alegre ao
mesmo tempo.

Ouvira a doce voz de ngela,
tivera nas suas a sua mo alva e macia como veludo, ouvira jurar que o amava,
enfim estava autorizado a pedir-lhe solenemente a mo.

A preocupao, porm, da moa a
respeito do que pensaria a tia afigurou-se-lhe extremamente prosaica. Quisera
v-la toda potica, embebida no seu amor, esquecida do resto do mundo, morta
para tudo o que no fosse o bater do seu corao.

A despedida, sobretudo,
pareceu-lhe repentinamente demais. O adeus foi antes de medo que de amor, no
se despediu, fugiu. Ao mesmo tempo esse sobressalto era dramtico e
interessante; mas por que no conceder-lhe segunda entrevista?

Enquanto ele fazia estas
reflexes, ngela pensava na impresso que lhe teria deixado e na mgoa que por
ventura lhe ficara da recusa de uma segunda e ltima entrevista.

Refletiu longo tempo e resolveu
remediar o mal, se mal se podia aquilo chamar.

No dia seguinte, logo cedo,
recebeu Alfredo um bilhetinho da namorada.

Era um protesto de amor, com uma
explicao da fuga da vspera e uma promessa de outra entrevista na seguinte
noite, depois da qual ele iria pedir-lhe oficialmente a mo.

Alfredo exultou.

Nesse dia a natureza pareceu-lhe
melhor. O almoo foi excelente apesar de lhe terem dado um filet to duro
como sola e de estar o ch frio como gua. O patro nunca lhe pareceu mais
amvel. Todas as pessoas que encontrava tinham cara de excelentes amigos.
Enfim, at o criado ganhou com os sentimentos alegres do amo: Alfredo deu-lhe
uma boa molhadura pela habilidade com que lhe escovara as botas, que, entre
parnteses, nem sequer levavam graxa.

Verificou-se a entrevista sem
nenhum incidente notvel. Houve os costumados protestos:

 Amo-te muito!

 E eu!

 s um anjo!

 Seremos felizes.

 Deus nos oua!

 H de ouvir-nos.

Estas e outras palavras foram o
estribilho da entrevista que durou apenas meia hora.

Nessa ocasio Alfredo desenvolveu
o seu sistema de vida, a maneira por que ele encarava o casamento, os sonhos de
amor que haviam realizar, e mil outros artigos de um programa de namorado, que
a moa ouviu e aplaudiu.

Alfredo despediu-se contente e
feliz.

A noite que passou foi a mais
deliciosa de todas. O sonho que ele procurara durante tanto tempo ia enfim
realizar-se; amava a uma mulher como ele a queria e imaginava. Nenhum obstculo
se oferecia  sua ventura na terra.

No outro dia de manh entrando no
hotel, encontrou o amigo Tibrcio; e referiu-lhe tudo. O confidente felicitou o
namorado pelo triunfo que alcanara e deu-lhe logo um aperto de mo, no
podendo dar-lhe, como quisera, um abrao.

 Se soubesses como vou ser feliz!

 Sei.

 Que mulher! que anjo!

 Sim!  bonita.

 No  s bonita. Bonitas h muitas.
Mas a alma, a alma que ela tem, a maneira de sentir, tudo isso e mais, eis o
que faz uma criatura superior.

 Quando ser o casamento?

 Ela o dir.

 H de ser breve.

 Dentro de trs a quatro meses.

Aqui fez Alfredo um novo hino em
louvor das qualidades eminentes e raras da noiva e pela centsima vez defendeu
a vida romanesca e ideal. Tibrcio observou gracejando que lhe era necessrio
primeiro suprimir o bife que estava comendo, observao que Alfredo teve a
franqueza de achar descabida e um pouco tola.

A conversa, porm, no teve
incidente desagradvel e os dois amigos separaram-se como dantes, no sem que o
noivo agradecesse ao confidente a animao que lhe dera nos piores dias do seu
amor.

 Enfim, quando a vais pedir?

 Amanh.

 Coragem!

CAPTULO VII

No  minha inteno nem vem ao
caso referir ao leitor todos os episdios de Alfredo Tavares.

At aqui foi necessrio contar
alguns e resumir outros. Agora que o namoro chegou ao seu termo e que o perodo
do noivado vai comear, no quero fatigar a ateno do leitor com uma narrao
que nenhuma variedade apresenta. Justamente trs meses depois da segunda
entrevista recebiam-se os dois noivos, na Igreja da Lapa, em presena de
algumas pessoas ntimas, entre as quais o confidente de Alfredo, um dos
padrinhos. O outro era o primo de ngela, de quem falara o cocheiro do tlburi,
e que at agora no apareceu nestas pginas por no ser preciso. Chamava-se
Epaminondas e tinha a habilidade de desmentir o padre que tal nome lhe dera,
pregando a cada instante a sua peta. A circunstncia no vem ao caso e por isso
no insisto nela.

Casados os dois namorados foram
passar a lua-de-mel na Tijuca, onde Alfredo escolhera casa adequada s
circunstncias e ao seu gnio potico.

Durou um ms esta ausncia da
corte. No trigsimo primeiro dia, ngela viu anunciada uma pea nova no Ginsio
e pediu ao marido para virem  cidade.

Alfredo objetou que a melhor
comdia deste mundo no valia o aroma das laranjeiras que estavam florindo e o
melanclico som do repuxo do tanque. ngela encolheu os ombros e fechou a cara.

 Que tens, meu amor?
perguntou-lhe da a vinte minutos o marido.

ngela olhou para ele com um gesto
de lstima, ergueu-se e foi encerrar-se na alcova.

Dois recursos restavam a Alfredo.

1 Coar a cabea.

2 Ir ao teatro com a mulher.

Alfredo curvou-se a estas duas
necessidades da situao.

ngela recebeu-o muito alegremente
quando ele lhe foi dizer que iriam ao teatro.

 Nem por isso, acrescentou Alfredo,
nem por isso deixo de sentir algum pesar. Vivemos to bem estes trinta dias.

 Voltaremos para o ano.

 Para o ano!

 Sim, alugaremos outra casa.

 Mas ento esta?...

 Esta acabou. Pois querias viver
num desterro?

 Mas eu pensei que era um
paraso, disse o marido com ar melanclico.

 Paraso  coisa de romance.

A alma de Alfredo levou um
trambolho. ngela viu o efeito produzido no esposo pelo seu reparo e procurou suaviz-lo,
dizendo-lhe algumas coisas bonitas com que ele algum tempo mitigou as suas
penas.

 Olha, ngela, disse Alfredo, o
casamento, como eu imaginei sempre,  uma vida solitria de dois entes que se
amam... Seremos ns assim?

 Por que no?

 Juras ento...

 Que seremos felizes.

A resposta era elstica. Alfredo
tomou-a ao p da letra e abraou a mulher.

Naquele mesmo dia vieram para a
casa da tia e foram ao teatro.

A nova pea do Ginsio aborreceu
tanto o marido quanto agradou  mulher. ngela parecia fora de si de contente.
Quando caiu o pano no ltimo ato, disse ela ao esposo:

 Havemos de vir outra vez.

 Gostaste?

 Muito. E tu?

 No gostei, respondeu Alfredo
com evidente mau humor.

ngela levantou os ombros, com o ar
de quem dizia:

 Gostes ou no, hs de c voltar.

E voltou.

Este foi o primeiro passo de uma
carreira que parecia no acabar mais.

ngela era um turbilho.

A vida para ela estava fora de
casa. Em casa morava a morte, sob a figura do aborrecimento. No havia baile a
que faltasse, nem espetculo, nem passeio, nem festa clebre, e tudo isto
cercado de muitas rendas, jias e sedas, que ela comprava todos os dias, como
se o dinheiro nunca devesse acabar.

Alfredo esforava-se por atrair a
mulher  esfera dos seus sentimentos romnticos; mas era esforo vo.

Com um levantar de ombros, ngela
respondia a tudo.

Alfredo detestava principalmente
os bailes, porque era quando a mulher menos lhe pertencia, sobretudo os bailes
dados em casa dele.

s observaes que ele fazia nesse
sentido, ngela respondia sempre:

 Mas so obrigaes da sociedade;
se eu quisesse ser freira metia-me na Ajuda.

 Mas nem todos...

 Nem todos conhecem os seus
deveres.

 Oh! a vida solitria, ngela! a vida
para dois!

 A vida no  um jogo de xadrez.

 Nem um arraial.

 Que queres dizer com isso?

 Nada.

 Pareces tolo.

 ngela...

 Ora!

Levantava os ombros e deixava-o
sozinho.

Alfredo era sempre o primeiro a
fazer as pazes. A influncia que a mulher exercia nele no podia ser mais
decisiva. Toda a energia estava com ela; ele era literalmente um fmulo da
casa.

Nos bailes a que iam, o suplcio
alm de ser grande em si mesmo, era aumentado com os louvores que Alfredo ouvia
fazer  mulher.

 L est ngela, dizia um.

 Quem ?

  aquela de vestido azul.

 A que se casou?

 Pois casou?

 Casou, sim.

 Com quem?

 Com um rapaz bonacho.

 Feliz mortal!

 Onde est o marido?

 Caluda! est aqui:  este sujeito
triste que est consertando a gravata...

Estas e outras consideraes
irritavam profundamente Alfredo. Ele via que era conhecido por causa da mulher.
A pessoa dele era uma espcie de cifra. ngela  que era a unidade.

No havia meio de se recolher
cedo. ngela entrando num baile s se retirava com as ltimas pessoas.
Cabia-lhe perfeitamente a expresso que o marido empregou num dia de mau humor:

 Tu espremes um baile at o
bagao.

s vezes estava o msero em casa, descansando
e alegremente conversando com ela, abrindo todo o pano  imaginao. ngela, ou
por aborrecimento, ou por desejo invencvel de passear, ia vestir-se e
convidava o marido a sair. O marido j no recalcitrava; suspirava e vestia-se.
Do passeio voltava ele aborrecido, e ela alegre, alm do mais porque no
deixava de comprar um vestido novo e caro, uma jia, um enfeite qualquer.

Alfredo no tinha foras para
reagir.

O menor desejo de ngela era para
ele uma lei de ferro; cumpria-a por gosto e por fraqueza.

Nesta situao, Alfredo sentiu
necessidade de desabafar com algum. Mas esse algum no aparecia. No lhe
convinha falar ao Tibrcio, por no querer confiar a um estranho, embora amigo,
as suas zangas conjugais. A tia de ngela parecia apoiar a sobrinha em tudo. Alfredo lembrou-se de pedir conselho a Epaminondas.

CAPTULO VIII

Epaminondas ouviu atentamente as
queixas do primo. Achou-as exageradas, e foi o menos que lhe podia dizer,
porque no seu entender eram verdadeiros despropsitos.

 O que voc quer  realmente
impossvel.

 Impossvel?

 Decerto. A prima est moa, quer
naturalmente divertir-se. Por que razo h de viver como freira?

 Mas eu no peo que viva como
freira. Quisera v-la mais em casa, menos aborrecida quando est s comigo.
Lembra-se da nossa briga do domingo?

 Lembro-me. Voc queria ler-lhe
uns versos e ela respondeu que no a aborrecesse.

 Que tal?...

Epaminondas recolheu-se a um
eloqente silncio.

Alfredo esteve tambm algum tempo
calado. Enfim:

 Estou resolvido a usar da minha
autoridade de marido.

 No caia nessa.

 Mas ento devo viver eternamente
nisto?

 Eternamente j v que 
impossvel, disse Epaminondas sorrindo. Mas veja bem o risco que corre. Eu tive
uma prima que se vingou do marido por uma dessas. Parece incrvel! Cortou a si
mesma o dedo mnimo do p esquerdo e deu-lhe a comer com batatas.

 Est brincando...

 Estou falando srio. Chamava-se
Lcia. Quando ele reconheceu que efetivamente tinha devorado a carne da sua
carne, teve um ataque.

 Imagino.

 Dois dias depois expirou de
remorsos. No faa tal; no irrite uma mulher. D tempo ao tempo. A velhice h
de cur-la e traz-la a costumes pacficos.

Alfredo fez um gesto de desespero.

 Sossegue. Tambm eu fui assim.
Minha finada mulher...

 Era do mesmo gosto?

 Do mesmssimo. Quis
contrari-la. Ia-me custando a vida.

 Sim?

 Tenho aqui entre duas costelas
uma cicatriz larga; foi uma canivetada que Margarida me deu estando eu a dormir
muito tranqilamente.

 Que me diz?

 A verdade. Mal tive tempo de lhe
segurar no pulso e arroj-la para longe de mim. A porta do quarto estava
fechada com o trinco mas foi tal a fora com que a empurrei que a porta se
abriu e ela foi parar ao fim da sala.

 Ah!

Alfredo lembrou-se a tempo do
sestro do primo e deixou-o falar a gosto. Epaminondas engendrou logo ali um ou
dois captulos de romance sombrio e ensangentado. Alfredo, aborrecido,
deixou-o s.

Tibrcio encontrou-o algumas vezes
cabisbaixo e melanclico. Quis saber da causa, mas Alfredo conservou prudente
reserva.

A esposa deu ampla liberdade aos
seus caprichos. Fazia recepes todas as semanas, apesar dos protestos do
marido que, no meio da sua mgoa, exclamava:

 Mas ento eu no tenho mulher!
tenho uma locomotiva!

Exclamao que ngela ouvia
sorrindo sem lhe dar a mnima resposta.

Os cabedais da moa eram poucos;
as despesas muitas. Com as mil coisas em que se gastava o dinheiro no era
possvel que ele durasse toda a vida. Ao cabo de cinco anos, Alfredo reconheceu
que tudo estava perdido.

A mulher sentiu dolorosamente o
que ele lhe contou.

 Sinto isto deveras, acrescentou
Alfredo; mas a minha conscincia est tranqila. Sempre me opus a despesas
loucas...

 Sempre?

 Nem sempre, porque te amava e
amo, e doa-me ver que ficavas triste; mas a maior parte delas opus-me com
todas as foras.

 E agora?

 Agora precisamos ser econmicos;
viver como pobres.

ngela curvou a cabea.

Seguiu-se um grande silncio.

O primeiro que o rompeu foi ela.

  impossvel!

 Impossvel o qu?

 A pobreza.

 Impossvel, mas necessria,
disse Alfredo com filosfica tristeza.

 No  necessria; eu hei de
fazer alguma coisa; tenho pessoas de amizade.

 Ou um potosi...

ngela no se explicou mais;
Alfredo foi para a casa de negcio que estabelecera, no descontente com a
situao.

 No estou bem, pensava ele; mas
ao menos terei mudado a minha situao conjugal.

Os quatro dias seguintes passaram
sem novidade.

Houve sempre uma novidade.

ngela est muito mais carinhosa
com o marido do que at ento. Alfredo atribua esta mudana s circunstncias atuais
e agradeceu  boa estrela que to venturoso o tornara.

No quinto dia Epaminondas foi
falar a Alfredo propondo-lhe ir pedir ao governo uma concesso e privilgio de
minas em Mato Grosso.

 Mas eu no me meto em explorador
de minas.

 Perdo; vendemos o privilgio.

 Est certo disso? perguntou
Alfredo tentado.

 Certssimo.

E logo:

 Temos, alm disso, outra
empresa: uma estrada de ferro no Piau. Vende-se a empresa do mesmo modo.

 Tem elementos para ambas as
coisas?

 Tenho.

Alfredo refletiu.

 Aceito.

Epaminondas declarou que
alcanaria tudo do ministro. Tantas coisas disse que o primo, sabedor dos
carapetes que ele pregava, comeou a desconfiar.

Errava desta vez.

Pela primeira vez Epaminondas falava
verdade; tinha elementos para alcanar as duas empresas.

ngela no perguntou ao marido a
causa da preocupao com que ele nesse dia entrou em casa. A idia de Alfredo era tudo ocultar  mulher, pelo menos enquanto pudesse. Confiava no resultado
dos seus esforos para traz-la a melhor caminho.

Os papis andaram com uma
prontido rara em coisas anlogas. Parece que uma fada benfazeja se encarregava
de adiantar o negcio.

Alfredo conhecia o ministro. Duas
vezes fora convidado para l tomar ch e tivera, alm disso, a honra de o
receber em casa algumas vezes. Nem por isso julgava ter direito  pronta
soluo do negcio. O negcio, porm, corria mais veloz que uma locomotiva.

No havia passado dois meses
depois da apresentao do memorial quando Alfredo, ao entrar em casa, foi
surpreendido por muitos abraos e beijos da mulher.

 Que temos? disse ele todo
risonho.

 Vou dar-te um presente.

 Um presente?

 Que dia  hoje?

 Vinte e cinco de maro.

 Fazes anos.

 Nem me lembrava.

 Aqui est o meu presente.

Era um papel.

Alfredo abriu o papel.

Era o decreto de privilgio das
minas.

Alfredo ficou literalmente
embasbacado.

 Mas como veio isto?...

 Quis causar-te esta surpresa. O outro
decreto h de vir de aqui a oito dias.

 Mas ento sabia que eu...?

 Sabia tudo.

Quem te disse?...

ngela titubeou.

 Foi... foi o primo Epaminondas.

A explicao satisfez Alfredo
durante trs dias.

No fim desse tempo abriu um jornal
e leu com pasmo esta mofina:

Mina de caroo, com que ento os
cofres pblicos j servem para nutrir o fogo no corao dos ministros? Quem
pergunta quer saber.

Alfredo rasgou o jornal no
primeiro mpeto.

Depois...

CAPTULO IX

 Mas em suma que tens? disse
Tibrcio ao ver que Alfredo no se atrevia a falar.

 O que tenho? Fui  cata de
poesia e acho-me em prosa chata e baixa. Ah! meu amigo quem me mandou seguir
pela Rua da Quitanda?
