Conto, O Caso da Viva, 1881

O Caso da Viva

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/1/1881 a 15/3/1881.

CAPTULO PRIMEIRO

Este conto deve ser lido
especialmente pelas vivas de vinte e quatro a vinte e seis anos. No teria
mais nem menos a viva Camargo, D. Maria Lusa, quando se deu o caso que me
proponho contar nestas pginas, um caso triste e digno de memria posto que
menos sangrento que o de D. Ins. Vinte e seis anos; no teria mais, nem tanto;
era ainda formosa como aos dezessete, com o acrscimo das roupas pretas que lhe
davam grande realce. Era alva como leite, um pouco descolorida, olhos castanhos
e preguiosos, testa larga, e talhe direito. Confesso que essas indicaes so
mui gerais e vagas; mas conservo-as por isso mesmo, no querendo acentuar nada
neste caso, to verdadeiro como a vida e a morte. Direi somente que Maria
Lusa, nasceu com um sinalzinho cor-de-rosa, junto  boca, do lado esquerdo
(nica particularidade notada), e que foi esse sinal a causa de seus primeiros
amores, aos dezoito anos.

 Que  que tem aquela moa ao p
da boca? perguntava o estudante Rochinha a uma de suas primas, em certa noite
de baile.

 Um sinal.

 Postio?

 No, de nascena.

 Feia coisa! murmurou o Rochinha.

 Mas a dona no  feia, ponderou
a prima,  at bem bonita...

 Pode ser, mas o sinal 
hediondo.

A prima, casada de fresco, olhou
para o Rochinha com algum desdm, e disse-lhe que no desprezasse o sinal,
porque talvez fosse ele a isca com que ela o pescasse, mais tarde ou mais cedo.
O Rochinha levantou os ombros e falou de outro assunto; mas a prima era
inexorvel; ergueu-se, pediu-lhe o brao, levou-o at o lugar em que estava
Maria Lusa, a quem o apresentou. Conversaram os trs; tocou-se uma quadrilha,
o Rochinha e Maria Lusa danaram, depois conversaram alegremente.

 Que tal o sinal? perguntou-lhe a
prima,  porta da rua no fim do baile, enquanto o marido acendia um charuto e
esperava a carruagem.

 No  feio, respondeu o
Rochinha; d-lhe at certa graa; mas da  isca vai uma grande distncia.

 A distncia de uma semana,
tornou a prima rindo. E sem aceitar-lhe a mo entrou na carruagem.

Ficou o Rochinha  porta, um pouco
pensativo, no se sabe se pelo sinal de Maria Lusa, se pela ponta do p da
prima, que ele chegou a ver, quando ela entrou na carruagem. Tambm no se sabe
se ele viu a ponta do p sem querer, ou se buscou v-la. Ambas as hipteses so
admissveis aos dezenove anos de um rapaz acadmico. O Rochinha estudava
direito em S. Paulo, e devia formar-se no ano seguinte; estava portanto nos
ltimos meses da liberdade escolstica; e fio que a leitora lhe perdoar
qualquer inteno, se inteno houve naquela vista fugitiva. Mas, qualquer que
fosse o motivo secreto, a verdade  que ele no ficou pensativo mais de dois
minutos, acendeu um charuto e guiou para casa.

Esquecia-me dizer que a cena
contada nos perodos anteriores passou-se na noite de 19 de janeiro de 1871, em
uma casa do Bairro do Andara. No dia seguinte, dia de S. Sebastio, foi o
Rochinha jantar com a prima; eram anos do marido desta. Achou l Maria Lusa e
o pai. Jantou-se, cantou-se, conversou-se at meia noite, hora em que o Rochinha,
esquecendo-se do sinalzinho da moa, achou que ela estava muito mais bonita do
que lhe parecia no fim da noite passada.

 Um sinal que passa to depressa
de fealdade a beleza, observou o marido da prima, pode-se dizer que  o sinal
do teu cativeiro.

O Rochinha aplaudiu este ruim
trocadilho, sem entusiasmo, antes com certa hesitao. A prima, que estava
presente, no lhe disse nada, mas sorriu para si mesma. Era pouco mais velha
que Maria Lusa, tinha sido sua companheira de colgio, quisera v-la bem
casada, e o Rochinha reunia algumas qualidades de um marido possvel. Mas no
foram s essas qualidades que a levaram a prend-lo a Maria Lusa, e sim tambm
a circunstncia de que ele herdaria do pai algumas propriedades. Parecia-lhe
que um bom marido  um excelente achado, mas que um bom marido no pobre era um
achado excelentssimo. Assim s se falava ao primo no sinal de Maria Lusa,
como falava a Maria Lusa na elegncia do primo.

 No duvido, dizia esta da a
dias;  elegante, mas parece-me assim...

 Assim como?

 Um pouco...

 Acaba.

 Um pouco estrina.

 Que tolice!  alegre, risonho,
gosta de palestrar, mas  um bom rapaz e, quando precisa, sabe ser srio. Tem
s um defeito.

 Qual? perguntou Maria Lusa, com
curiosidade.

 Gosta de sinais cor de rosa ao
canto da boca.

Maria Lusa deu uma resposta
graciosamente brasileira, um muxoxo; mas a outra que sabia muito bem a mltipla
significao desse gesto, que tanto exprime o desdm, como a indiferena, como
a dissimulao, etc., no se deu por abalada e menos por vencida. Percebera que
o muxoxo no era da primeira nem da segunda significao; notou-lhe uma mistura
de desejo, de curiosidade, de simpatia, e jurou aos seus deuses transform-lo
em um beijo de esposa, com uma significao somente.

No contava com a academia. O
Rochinha partiu da a algumas semanas para S. Paulo, e, se deixou algumas
saudades, no as contou Maria Lusa a ningum; guardou-as consigo, mas
guardou-as to mal, que a outra as descobriu e leu.

 Est feito, pensou esta; um ano
passa-se depressa.

Reflexo errada, porque nunca
houve ano mais vagaroso para Maria Lusa do que esse, ano trpego, arrastado,
feito para entristecer as mais robustas esperanas. Mas tambm que impacincia
alegre quando se aproximou a vinda do Rochinha. No o encobria da amiga, que
teve o cuidado de o escrever ao primo, o qual respondeu com esta frase: Se h
por l saudades tambm as h por aqui e muitas: mas no diga nada a ningum. A
prima, com uma perfdia sem nome, foi cont-lo a Maria Lusa, e com uma
cegueira de igual quilate declarou isso mesmo ao primo, que, pela mais singular
das complacncias, encheu-se de satisfao. Quem quiser que o entenda.

CAPTULO II

Veio o Rochinha de S. Paulo, e da
em diante ningum o tratou seno por Dr. Rochinha, ou, quando menos, Dr. Rocha;
mas j agora, para no alterar a linguagem do primeiro captulo, continuarei a
dizer simplesmente o Rochinha, familiaridade tanto mais desculpvel, quanto
mais a autoriza a prpria prima dele.

 Doutor! disse ela. Creio que
sim, mas l para as outras; para mim h de ser sempre o Rochinha.

Veio pois o Rochinha de S. Paulo,
diploma na algibeira, saudades no corao.

Oito dias depois encontrava-se com
Maria Lusa, casualmente na Rua do Ouvidor,  porta de uma confeitaria; ia com
o pai, que o recebeu muito amavelmente, no menos que ela, posto que de outra
maneira. O pai chegou a dizer-lhe que todas as semanas, s quintas-feiras, estava
em casa.

O pai era negociante, mas no
abastado nem prspero. A casa dava-lhe para viver, e no viver mal. Chamava-se
Toledo, e contava pouco mais de cinqenta anos; era vivo; morava com uma irm
viva, que lhe servia de me  filha. Maria Lusa era o seu encanto, o seu
amor, a sua esperana. Havia da parte dele uma espcie de adorao, que entre
as pessoas da amizade passara a provrbio e exemplo. Ele tinha para si que o
dia em que a filha lhe no desse o beijo da sada era um dia fatal; e no atribua
a outra coisa o menor contratempo que lhe sobreviesse. Qualquer desejo de Maria
Lusa era para ele um decreto do cu, que urgia cumprir, custasse o que
custasse. Da vinha que a prpria Maria Lusa evitava muita vez falar-lhe de
alguma coisa que desejava, desde que a satisfao exigisse da parte do pai um
sacrifcio qualquer. Porque tambm ela adorava o pai, e nesse ponto nenhum
devia nada ao outro. Ela o acompanhava at a porta da chcara todos os dias,
para lhe dar o sculo da partida; ela o ia esperar para dar o sculo da
chegada.

 Papaizinho, como passou? dizia
ela batendo-lhe na face. E, de brao dado, atravessavam toda a chcara, unidos,
palreiros, alegres, como dois namorados felizes. Um dia Maria Lusa, em
conversa,  sobremesa, com pessoas de fora, manifestou grande curiosidade de
ver a Europa. Era pura conversa, sem outro alcance; contudo, no passaram
despercebidas ao pai as suas palavras. Trs dias depois, Toledo consultou
seriamente a filha se queria ir dai a quinze dias para a Europa.

 Para a Europa? perguntou ela um
tanto espantada.

 Sim. Vamos?

No respondeu Maria Lusa
imediatamente, to vacilante se viu entre o desejo secreto e o inesperado da
proposta. Como refletisse um pouco, perguntou a si mesma se o pai podia sem
sacrifcio realizar a viagem, mas, sobretudo, no atinou com a razo esta.

 Para a Europa? repetiu.

 Sim, para a Europa, disse o pai
rindo; mete-se a gente no paquete, e desembarca l.  a coisa mais simples do
mundo.

Maria Lusa ia dizer-lhe talvez
que sim; mas recordou-se subitamente das palavras que proferira dias antes, e
suspeitou que o pai faria apenas um sacrifcio pecunirio e pessoal, para o fim
de lhe cumprir o desejo. Ento abanou a cabea com um risinho triunfante.

 No, senhor, deixemo-nos da
Europa.

 No?

 Nem por sombras.

 Mas tu morres por l ir...

 No morro, no senhor, tenho
vontade de ver a Europa e hei de v-la algum dia, mas muito mais tarde... muito
mais tarde.

 Bem, ento vou s, redargiu o
pai com um sorriso.

 Pois v, disse Maria Lusa
erguendo os ombros.

E assim acabou o projeto europeu.
No s a filha percebeu o motivo da proposta do pai, como este compreendeu que
esse motivo fora descoberto; nenhum deles, todavia, aludiu ao sentimento
secreto do outro.

Toledo recebeu o Rochinha com
muita afabilidade, quando este l foi numa quinta-feira, duas semanas depois do
encontro na Rua do Ouvidor. A prima de Rochinha tambm foi, e a noite passou-se
alegremente para todos. A reunio era limitada; os homens jogavam o voltarete,
as senhoras conversavam de rendas e vestidos. O Rochinha e mais dois ou trs
rapazes, no obstante essa regra, preferiam o crculo das damas, no qual, alm
dos vestidos e rendas, tambm se falava de outras damas e de outros rapazes. A
noite no podia ser mais cheia.

No gastemos o tempo em episdios
midos; imitemos o Rochinha, que ao cabo de quatro semanas, preferiu uma
declarao franca  multido de olhares e boas palavras. Com efeito, ele
chegara ao estado agudo do amor, a ferida era profunda, e sangrava; urgiu
estanc-la e cur-la. Urgia tanto mais fazer-lhe a declarao, quanto que da
ltima vez que esteve com ela, encontrara-a um pouco acanhada e calada, e, 
despedida, no teve o mesmo aperto de mo do costume, um certo aperto
misterioso, singular, que se no aprende e se repete com muita exatido e
pontualidade, em certos casos de paixo concentrada ou no concentrada. Pois
nem esse aperto de mo; a de Maria Lusa parecia-lhe fria e fugidia.

 Que lhe fiz eu? dizia ele consigo,
ao retirar-se para casa.

E buscava recordar todas as
palavras do ltimo encontro, os gestos, e nada lhe parecia autorizar qualquer
suspeita ou ressentimento, que explicasse a sbita frieza de Maria Lusa. Como
j ento houvesse entrado na confidncia dos seus sentimentos  prima,
disse-lhe o que se passara, e a prima, que reunia ao desejo de ver casada a
amiga, certo pendor s intrigas amorosas, meteu-se a caminho para a casa desta.
No lhe custou muito descobrir a Maria Lusa a secreta razo de sua visita,
mas, pela primeira vez, achou a outra reservada.

Voc  bem cruel, dizia-lhe rindo;
sabe que o pobre rapaz no suspira seno por um ar de sua graa, e trata-o como
se fosse o seu maior inimigo.

 Pode ser. Onde  que voc
comprou esta renda?

 No Godinho. Mas vamos; voc acha
o Rochinha feio?

 Ao contrrio,  um bonito rapaz.

 Bonito, bem educado,
inteligente...

 No sei como  que voc ainda
gosta desse chapu to fora da moda...

 Qual fora da moda!

 O brinco  que ficou muito
bonito.

  uma prola...

 Prola este brinco de brilhante?

 No; falo do Rochinha.  uma
verdadeira prola; voc no sabe quem est ali. Vamos l; creio que no lhe tem
dio...

 dio por qu?

 Mas...

Quis a m fortuna do Rochinha que
a tia de Maria Lusa viesse ter com ela, de maneira que a prima dele no pde
acabar a pergunta que ia fazer e que era simplesmente esta:  Mas amor? 
pergunta decisiva, a que Maria Lusa devia responder, ainda que fosse com o
silncio. No produzindo esta entrevista o desejado efeito, antes parecendo
confirmar os receios do Rochinha, entendeu este que era melhor e mais pronto ir
diretamente ao fim, e declarar-lhe ele mesmo o que sentia, solicitando uma
resposta franca e definitiva. Foi o que fez na seguinte semana.

CAPTULO III

H duas maneiras de pedir uma
deciso, em casos amorosos; falando ou escrevendo, Jac no usou uma coisa nem
outra; foi diretamente ao pai de Raquel, e obteve-a a troco de sete anos de
trabalho, ao cabo dos quais, em vez de obter a Raquel, a amada, deram-lhe Lia,
a remelosa. No fim de sete anos! No estava o nosso Rochinha disposto a esperar
tanto tempo.

Nada, disse ele consigo uma semana
depois, isto h de acabar agora, imediatamente. Se no quer no queira...

No lhe dem crdito; ele falava
assim, para enganar-se a si prprio, para fazer crer que deixava o namoro, como
se deixa um espetculo aborrecido. No lhe dem crdito. Estava ento em casa,
 Rua dos Invlidos, olhando para a ponta da chinela turca ou marroquina, que
trazia nos ps, tendo na mo um retrato de Maria Lusa. Era uma fotografia que
lhe dera a prima, um ms antes. A prima pedira-a a Maria Lusa, dizendo-lhe que
era para dar a uma amiga; e Maria Lusa deu-lha; apenas a apanhou consigo,
disse-lhe que ia d-la no  amiga, mas ao primo que morria por ela. Ento
Maria Lusa estendeu a mo para tirar-lhe o retrato, protestou, arrufou-se,
tudo isso to mal fingido, que a amiga no teve remorsos do que fez e entregou
o retrato ao primo. Era o retrato que ele tinha nas mos,  Rua dos Invlidos,
sentado numa extensa cadeira americana; dividia os olhos entre o retrato e as
chinelas, sem poder acabar de resolver-se a alguma coisa.

 V, disse ele enfim;  preciso
acabar com isto.

Levantou-se, foi  secretria,
tirou uma folha de papel, passou-lhe as costas da mo por cima, e molhou a
pena.  V, repetiu; mas repetiu somente, a pena no ia. Acendeu um cigarro, e
nada; foi  janela, e nada. E, contudo, amava-a e muito; mas ou por isso, ou
por outro motivo, no achava que dizer no papel. Chegou a pr diante de si o
retrato de Maria Lusa; foi pior. A imagem da moa peava-lhe todos os
movimentos do esprito. No podia ele compreender este fenmeno; atirou a pena
irritado, e mudou de idia: falar-lhe-ia diretamente.

Dois dias depois foi  casa de
Toledo. Achou Maria Lusa na chcara, com a tia e outra senhora; e no deixou
passar a primeira ocasio que se lhe ofereceu de dizer alguma coisa. Com
efeito,  certo que abriu a boca, e pode afirmar-se que a palavra  Eu 
rompeu-lhe dos lbios, mas to a medo, e to surda, que ela no a ouviu. Ou se
a ouviu, disse-lhe coisa diferente; perguntou-lhe se tinha ido ao teatro.

 No, senhora, disse ele.

 Pois ns fomos outro dia.

 Ah!

Maria Lusa comeou a contar-lhe a
pea, com tanta miudeza e cuidado, que o Rochinha ficou profundamente triste.
No viu, no reparou que a voz de Maria Lusa parecia s vezes alterada, que
ela no ousava fit-lo muito tempo, e que, apesar do cuidado com que
reconstitua a pea, atrapalhou-se uma ou duas vezes. No viu nada; estava
entregue  idia fixa, ou antes ao fixo sentimento que nutria por ela, e no
viu nada. A noite caiu logo e no foi melhor para ele; Maria Lusa evitava-o,
ou s lhe falava de coisas fteis.

No se deteve o Rochinha um dia
mais. Naquela mesma noite minutou a carta decisiva. Era longa, difusa, cheia de
repeties, mas ardente, e verdadeiramente sentida. No dia seguinte copiou-a,
mandou-a... Custa-me diz-lo, mas fora  diz-lo; mandou-a pela prima. Esta
foi, nessa mesma noite,  casa de Maria Lusa; disse-lhe em particular que
trazia um segredo, um mimo, uma coisa.

 Que ? perguntou a amiga.

 Esta bocetinha.

Deu-lhe uma bocetinha de tartaruga
fechada, acrescentando que s a abrisse no quarto, ao deitar, e no falasse
dela a ningum.

 Um mistrio, concluiu Maria
Lusa. Cumpriu o que prometera  outra; abriu a bocetinha, no quarto, e viu
dentro um papel. Era uma carta, sem sobrescrito; suspeitou logo o que fosse,
fechou o papel na boceta, p-la de lado, e foi despir-se. Estava nervosa,
inquieta. Tinha uns esquecimentos longos; destoucou-se, por exemplo, em trs
tempos, intervalando-os de um comprido olhar aptico cravado no espelho. Numa
dessas vezes sentou-se numa cadeira, e ficou  toa com os braos cados no
regao; repentinamente ergueu-se e murmurou:

 Impossvel! Acabemos com isto.

Foi acabar de despir-se, mas dessa
vez de um modo febril, impaciente, como quem busca fugir de si prpria. Ainda
a, ao calar a chinelinha de marroquim, esqueceu-se e ficou um instante com os
olhos no p nu, alvo de leite, traado de linhas azuis. Enfim preparou-se para
dormir. Sobre o toucador continuava a boceta, fechada, com um certo ar de
mistrio e desafio. Maria Lusa no olhava para ela; ia de um para outro lado,
evitando-a, naturalmente receosa de fraquear e ler.

Rezou. Tinha a um canto do quarto
um pequeno oratrio com uma imagem da Conceio,  qual rezou com fervor, e
pode ser que lhe pedisse fora para resistir  tentao de ler a carta. Acabou
de rezar, e abriu uma janela. A noite estava serena, o ar lmpido, as estrelas
de uma nitidez encantadora. Maria Lusa achou na vista do cu e da noite uma
fora dissolvente da coragem que at ento soubera ter. A vista da natureza
grande e bela chamou-a  prpria natureza, e o corao pulou-lhe no peito com
violncia singular. Ento pareceu-lhe ver a figura do Rochinha, bonito,
elegante, corts, apaixonado; recordou as diferentes fases das relaes, desde
o baile em que danaram juntos. Iam j longos meses desde essa noite, ela
recordava-se de todas as circunstncias da apresentao. Pensou finalmente na
conversa da vspera, do ar preocupado que vira nele, da indeciso, do
acanhamento, como se quisesse dizer-lhe alguma coisa, e receasse faz-lo.

 Amar-me- muito? perguntou Maria
Lusa a si mesma.

E esta pergunta trouxe-lhe a
considerao de que, se ele a amasse muito, podia padecer igualmente muito, com
a simples e formal recusa da carta. Que tinha que a lesse? Era at conveniente
faz-lo, para saber na realidade o que  que ele sentia, e que resposta daria
ela  amiga. Foi dali ao toucador, onde estava a boceta, abriu-a, tirou a carta
e leu-a.

Leu-a  pouco; Maria Lusa releu a
carta, no uma, seno trs vezes. Era a primeira carta de amor que recebia,
circunstncia sem valor, ou de valor escasso, se fosse uma simples folha de
papel escrita, sem nenhuma correspondncia no corao dela. Mas como explicar
que alguns minutos depois de reler a carta, Maria Lusa se deixou cair na cama,
com a cabea no travesseiro, a chorar silenciosamente? Era claro que entre o
corao dela e a carta existia algum vnculo misterioso.

No dia seguinte, Maria Lusa
levantou-se cedo, com os olhos murchos e tristes; disse ao pai e  tia que no
pudera dormir uma parte da noite, por causa dos mosquitos. Era uma explicao;
o pai e a tia aceitaram-na. Mas o pai cuidou de dar-lhe um cordial, segredando
ao ouvido da filha uma palavra  esta palavra:

 Creio que  hoje.

 Hoje? repetiu ela.

 O pedido.

 Ah!

Toledo franziu a testa, ao ver que
a filha empalidecera, e ficou triste. Maria Lusa compreendeu, sorriu e
lanou-lhe os braos ao pescoo.

 Acho que ele escolheu mau dia,
disse ela; a insnia ps-me doente... Que  isso? que cara  essa?

 Tu ests mentindo, minha
filha... Se no  de teu gosto, fala; estamos em tempo.

 J lhe disse que  muito e muito
do meu gosto.

 Juras?

 Que idia! Juro.

Riu-se ainda uma vez abanando a
cabea, com um ar de repreenso, mas parece que fazia violncia a si mesma,
porque desde logo deixou o pai. Se a leitora imagina que Maria Lusa foi outra
vez chorar, mostra que ainda a no conhece; Maria Lusa foi descansar o
esprito, longe de um objeto que a mortificava; ao mesmo tempo foi cogitar na
resposta que daria ao Rochinha, cuja carta no leu mais em todo aquele dia 
no se sabe se para no aumentar a aflio, unicamente para no a decorar de
todo. Uma e outra coisa eram possveis.

CAPTULO IV

Naquele dia efetivamente foi 
casa de Toledo um dos homens que a freqentavam desde algum tempo. Era um
cearense, abastado e srio. Chamava-se Vieira, contava trinta e oito para
quarenta anos. A fisionomia era comum, mas exprimia certa bondade; as maneiras
acanhadas, mas discretas. Tinha as qualidades slidas, no as brilhantes; e, se
podia fazer a felicidade de uma consorte, no era precisamente o sonho de uma
moa.

Vieira fora apresentado em casa de
Toledo, por um amigo de ambos, e a seu pedido. Vira uma vez Maria Lusa, 
sada do teatro, e deixou-se impressionar fortemente. Chegara do norte havia
dois meses, e estava prestes a voltar, mas o encontro do teatro disp-lo a
demorar-se algum tempo. Sabemos ou adivinhamos o resto. Vieira principiou a
freqentar a casa de Toledo, com assiduidade, mas sem adiantar nada, j porque
o natural acanhamento lho impedia, j porque Maria Lusa no dava entradas a
declaraes. Era a amvel dona da casa, que se dividia por todos com agrado e
solicitude.

Se lhes disser que Maria Lusa no
percebeu nada nos olhos de Vieira, no fim de poucos dias, digo uma coisa que
nenhuma das leitoras acredita, porque todas elas sabem o contrrio. Percebeu-o,
efetivamente; mas no ficou abalada. Talvez o animou, olhando freqentes vezes
para ele, no por mal, mas para saber se ele estava olhando tambm, o que, em
certos casos, dizia uma dama,  o caminho de um namoro cerrado. Naquele foi
somente a iluso de Vieira, que concluiu dos olhos da moa, dos sorrisos e da
afabilidade uma disposio matrimonial que no existia. Convm saber notar que
a paixo de Vieira, foi a maior contribuio do erro; a paixo cegava-o. Um
dia, pois, estando em casa de Toledo, pediu licena para ir l no dia seguinte
tratar de negcios importantes. Toledo disse que sim; mas Vieira no foi;
adoecera.

 Que diacho pode ele querer
tratar comigo? pensou o pai de Maria Lusa.

E encontrando o amigo comum que
introduzira Vieira em sua casa, perguntou-lhe se sabia alguma coisa. O amigo
sorriu.

 Que ? insistiu Toledo.

 No sei se posso dizer, ele lhe
dir de viva voz.

 Se  indiscrio, no teimo.

O amigo esteve algum tempo calado,
sorriu outra vez, hesitou, at que lhe disse o motivo da visita, pedindo-lhe a
maior reserva.

 Sou confidente do Vieira; est
loucamente apaixonado.

Toledo sentiu-se alvoroado com a
revelao. Vieira merecera-lhe simpatia desde os primeiros dias do
conhecimento; achava-lhe qualidades srias e dignas. No era criana, mas os
quarenta anos ou trinta e oito que podia ter no se manifestavam por nenhum
cabelo grisalho ou cansao de fisionomia; esta, ao contrrio, era fresca, os
cabelos eram do mais puro castanho. E todas essas circunstncias eram realadas
pelos bens da fortuna, vantagem que Toledo, como pai, considerava de primeira
ordem. Tais foram os motivos que o levaram a falar do Vieira  filha, antes
mesmo que ele lha fosse pedir. Maria Lusa no se mostrou espantada da
revelao.

 Gosta de mim o Vieira? 
respondeu ela ao pai. Creio que j o sabia.

 Mas sabias que ele gosta muito?

 Muito, no.

 Pois  verdade. O pior  a
figura que estou fazendo...

 Como?

 Falando de coisas sabidas, e...
pode ser que ajustadas.

Maria Lusa baixou os olhos, sem
dizer nada; pareceu-lhe que o pai no rejeitava a pretenso do Vieira, e temeu
desengan-lo logo dizendo-lhe que no correspondia s afeies do namorado.
Esse gesto, alm do inconveniente de calar a verdade, teve o de fazer supor o
que no era. Toledo imaginou que era vergonha da filha, e uma espcie de
confisso. E foi por isso que tomou a falar-lhe, da a dois dias, com prazer,
louvando muito as qualidades do Vieira, o bom conceito em que era tido, as
vantagens do casamento. No seria capaz de impor  filha, nem esse nem outro;
mas visto que ela gostava... Maria Lusa sentiu-se fulminada. Adorava e
conhecia o pai; sabia que ele no falaria de coisa que lhe no supusesse
aceita, e sentiu qual era a sua persuaso. Era fcil retific-lo; uma s
palavra bastava a restituir a verdade. Mas a entrou Maria Lusa noutra
dificuldade; o pai, logo que sups aceita  filha a candidatura do Vieira,
manifestou todo o prazer que lhe daria o consrcio; e esta circunstncia  que
deteve a moa, e foi a origem dos sucessos posteriores.

A doena de Vieira durou perto de
trs semanas; Toledo visitou-o duas vezes. No fim daquele tempo, aps curta
convalescena, Vieira mandou pedir ao pai de Maria Lusa que lhe marcasse dia
para a entrevista, que no pudera realizar por motivo da enfermidade. Toledo
designou outro dia, e foi a isso que aludiu no fim do captulo passado.

O pedido do casamento foi feito
nos termos usuais, e recebido com muita benevolncia pelo pai, que declarou,
entretanto, nada decidido sem que fosse do agrado da filha. Maria Lusa declarou
que era muito de seu agrado; e o pai respondeu isso mesmo ao pretendente.

CAPTULO V

No se faz uma declarao
daquelas, em tais circunstncias, sem grande esforo. Maria Lusa lutou
primeiramente consigo, mas resolveu enfim, e, uma vez resoluta, no quis recuar
um passo. O pai no percebeu o constrangimento da filha; e se no a viu
jubilosa, atribuiu-o  natural gravidade do momento. Ele acreditara
profundamente que ia fazer a felicidade da moa.

Naturalmente a notcia, apenas
murmurada, causou assombro  prima do Rochinha, e desespero a este. O Rochinha
no podia crer, ouvira dizer a duas pessoas, mas parecia-lhe falso.

 No, impossvel, impossvel!

Mas logo depois lembrou-se de mil
circunstncias recentes, a frieza da moa, a falta de resposta, o desengano
lento que lhe dera, e chegava a crer que efetivamente Maria Lusa ia casar com
o outro. A prima dizia-lhe que no.

 Como no? interrompeu ele. Acho
a coisa mais natural do mundo. Repare bem que ele tem muito mais do que eu,
cinco ou seis vezes mais. Dizem que passa de seiscentos contos.

 Oh! protestou a prima.

 Qu?

No diga isso; no calunie Maria
Lusa.

O Rochinha estava desesperado e
no atendeu  splica; disse ainda algumas coisas duras, e saiu. A prima
resolveu ir ter com a amiga para saber se era verdade; comeava a crer que o
fosse, e em tal caso j no podia fazer nada. O que no entendia era o
repentino do casamento; no soube sequer do namoro.

Maria Lusa recebeu-a tranqila, a
princpio, mas s interrupes e recriminaes da amiga no pde resistir por
muito tempo. A dor comprimida fez exploso; e ela confessou tudo. Confessou que
no gostava do Vieira, sem, alis, lhe ter averso ou antipatia; mas aceitara o
casamento porque era um desejo do pai.

 Vou ter com ele, interrompeu a
amiga, vou dizer-lhe que...

 No quero, interrompeu vivamente
a filha de Toledo; no quero que lhe diga nada.

 Mas ento hs de
sacrificar-te?...

 Que tem? No  difcil o
sacrifcio; o meu noivo  um bom homem; creio at que pode fazer a felicidade
de uma moa.

A prima do Rochinha estava
impaciente, nervosa, desorientada; batia com o leque no joelho, levantava-se,
sacudia a cabea, fechava a mo; e tornava a dizer que ia ter com Toledo para
contar-lhe a verdade. Mas a outra protestava sempre; e da ltima vez
declarou-lhe peremptoriamente que seria intil qualquer tentativa; estava
disposta a casar com o Vieira, e nenhum outro.

A ltima palavra era clara e
expressiva; mas por outro lado traiu-a, porque Maria no o pde dizer sem
visvel comoo. A amiga compreendeu que o Rochinha era amado; ergueu-se e
pegou-lhe nas mos.

 Olhe, Maria Lusa, no direi
nada, no farei nada. Sei que voc gosta de outro, e sei quem  o outro. Por
que h de fazer dois infelizes? Pense bem; no se precipite.

Maria Lusa estendeu-lhe a mo.

 Promete que refletir? disse-lhe
a outra.

 Prometo.

 Reflita, e tudo se poder
arranjar, creio.

Saiu de l contente, e disse tudo
ao primo; contou-lhe que Maria Lusa no amava ao noivo; casava, porque lhe
parecia que era agradvel ao pai. No esqueceu dizer que alcanara a promessa
de Maria Lusa de que refletiria ainda sobre o caso.

 E basta que ela reflita, concluiu,
para que tudo se desfaa.

 Cr?

 Creio. Ela gosta de voc; pode
estar certo de que gosta e muito.

Um ms depois casavam-se Maria
Lusa e Vieira.

CAPTULO VI

Segundo o Rochinha confessou 
prima, a dor que ele padeceu com a notcia do casamento no podia ser descrita
por nenhuma lngua humana. E, salvo a exagerao, a dor foi isso mesmo. O pobre
rapaz rolou de uma montanha ao abismo, expresso velha, mas nica que pode dar
bem o abalo moral do Rochinha. A ltima conversa da prima com Maria Lusa
tinha-o principalmente enchido de esperanas, que a filha de Toledo cruelmente
desvaneceu. Um ms depois do casamento o Rochinha embarcava para a Europa.

A prima deste no rompeu as relaes
com Maria Lusa, mas as relaes esfriaram um pouco; e nesse estado duraram as
coisas at seis meses. Um dia encontraram-se casualmente, falaram de objetos
frvolos, mas a tristeza de Maria Lusa era tamanha, que feriu a ateno da
amiga.

 Ests doente? disse esta.

 No.

 Mas tens alguma coisa?

 No, nada.

A amiga sups que houvesse algum
desacordo conjugal, e, porque era muito curiosa, no deixou de ir alguns dias
depois  casa de Maria Lusa. No viu desacordo nenhum, mas muita harmonia
entre ambos, e extrema benevolncia da parte do marido. A tristeza de Maria
Lusa tinha momentos, dias, semanas, em que se manifestava de um modo intenso;
depois apagava-se ou diminua, e tudo voltava ao estado habitual.

Um dia, estando em casa da amiga,
Maria Lusa ouviu ler uma carta do Rochinha, vinda nesse dia da Europa. A carta
tratava de coisas graves; no era alegre nem triste. Maria Lusa empalideceu
muito, e mal pde dominar a comoo. Para distrair-se abriu um lbum de
retratos; o quarto ou quinto retrato era do Rochinha; fechou apressadamente e
despediu-se.

 Maria Lusa ainda gosta dele,
pensou a amiga.

Pensou isto, e no era pessoa que
se limitasse a pens-lo: escreveu-o logo ao primo, acrescentando esta reflexo:
Se o Vieira fosse um homem polido, espichava a canela e voc...

O Rochinha leu a carta com grande
saudade e maior satisfao; mas fraqueou logo, e achou que a notcia era
naturalmente falsa ou exagerada. A prima enganava-se, decerto; tinha o intenso
desejo de os ver casados, e buscava alimentar a chama para o fim de uma
hiptese possvel. No era outra coisa. E foi essa a linguagem da resposta que
lhe deu.

Ao cabo de um ano de ausncia,
voltou o Rochinha da Europa. Vinha alegre, juvenil, curado; mas, por mais que
viesse curado, no pde ver sem comoo Maria Lusa, da a cinco dias, na rua.
E a comoo foi ainda maior, quando ele reparou que a moa empalidecera muito.

 Ama-me ainda, pensou ele.

E esta idia luziu no crebro dele
e o acendeu de muita luz e vida. A idia de ser amado, apesar do marido, e
apesar do tempo (um ano!), deu ao Rochinha uma alta idia de si mesmo.
Pareceu-lhe que, rigorosamente, o marido era ele. E (coisa singular!) falou do
encontro  prima sem lhe dar notcia da comoo dele e de Maria Lusa, nem da
suspeita que lhe ficara de que a paixo de Maria Lusa no morrera. A verdade 
que os dois encontraram-se segunda vez e terceira, em casa da prima do
Rochinha, e a quarta vez na casa do prprio Vieira. Toledo era morto. Da quarta
vez  quinta vez, a distncia  to curta, que no vale a pena falar nisso,
seno para o fim de dizer que vieram logo atrs a sexta, a stima e outras.

Para dizer a verdade toda, as
visitas do Rochinha no foram animadas nem at desejadas por Maria Lusa, mas
por ele mesmo e pelo Vieira, que desde o primeiro dia achou-o extremamente
simptico. O Rochinha desfazia-se, na verdade, com o marido de Maria Lusa;
tinha para ele, as mais finas atenes, e desde o primeiro dia desacanhou-o,
por meio de uma bonhomia, que foi a porta aberta da intimidade.

Maria Lusa, ao contrrio, recebeu
as primeiras visitas do Rochinha com muita reserva e frieza. Achou-as at de
mau gosto. Mas  difcil conservar uma opinio, quando h contra ela um
sentimento forte e profundo. A assiduidade amaciou as asperezas, e acabou por
avigorar a chama primitiva. Maria Lusa no tardou em sentir que a presena do
Rochinha lhe era necessria, e at pela sua parte dava todas as mostras de uma
paixo verdadeira, com a restrio nica de que era extremamente cautelosa, e,
quando preciso, dissimulada.

Maria Lusa aterrou-se logo que
conheceu o estado do seu corao. Ela no amava o marido, mas estimava-o muito,
e respeitava-o. O renascimento do amor antigo pareceu-lhe uma perfdia; e,
desorientada, chegou a ter idia de contar tudo a Vieira; mas retraiu-se.
Tentou ento outro caminho, e comeou a fugir das ocasies de ver o antigo
namorado; plano que no durou muito tempo. A assiduidade do Rochinha teve interrupes,
mas no cessou nunca de todo, e ao fim de mais algumas semanas, estavam as
coisas como no primeiro dia.

Os olhos so uns porteiros bem
indiscretos do corao; os de Maria Lusa, por mais que esta fizesse, contaram
ao Rochinha tudo, ou quase tudo o que se passava no interior da casa, a paixo
e a luta com o dever. E o Rochinha alegrou-se com a denncia, e pagou aos
delatores com a moeda que mais os podia seduzir, por modo que eles dai em
diante no tiveram outra coisa mais conveniente do que prosseguir na revelao
comeada.

Um dia, animado por um desses
colquios, o Rochinha lembrou-se de dizer a Maria Lusa que ele ia outra vez
para a Europa. Era falso; no pensara sequer em semelhante coisa; mas se ela,
aterrada com a idia da separao, lhe pedisse que no partisse, o Rochinha
teria grande satisfao, e no precisava de outra prova de amor. Maria Lusa,
com efeito, empalideceu.

 Vou naturalmente no primeiro
paquete do ms que vem, continuou ele.

Maria Lusa baixara os olhos;
estava ofegante, e lutava consigo mesma. O pedido para que ele ficasse esteve
quase a saltar-lhe do corao, mas no chegou nunca aos lbios. No lhe pediu
nada, deixou-se estar plida, inquieta, a olhar para o cho, sem ousar
encar-lo. Era positivo o efeito da notcia; e o Rochinha no esperou mais nada
para pegar-lhe na mo. Maria Lusa estremeceu toda, e ergueu-se. No lhe disse
nada, mas afastou-se logo. Momentos depois, saa ele reflexionando deste modo:

 Faa o que quiser, ama-me. E at
parece que muito. Pois...

CAPTULO VII

Oito dias depois, soube-se que
Maria Lusa e o marido iam para Terespolis ou Nova Friburgo. Dizia-se que era
molstia de Maria Lusa, e conselho dos mdicos. No se dizia, contudo, os
nomes dos mdicos; e  possvel que esta circunstncia no fosse necessria. A
verdade  que eles partiram rapidamente, com grande mgoa e espanto do
Rochinha, espanto que, alis, no durou muito tempo. Ele pensou que a viagem
era um meio de lhe fugir a ele, e concluiu que no podia haver melhor prova da
intensidade da paixo de Maria Lusa.

No  impossvel que isto fosse
verdade; essa foi tambm a opinio da amiga; essa ser a opinio da leitora. O
certo  que eles seguiram e por l ficaram, enquanto o Rochinha meditava na
escolha da enfermidade que o levaria tambm a Nova Friburgo ou Terespolis.
Andava nessa indagao, quando se recebeu na Corte a notcia de que o Vieira
sucumbira a uma congesto cerebral.

 Feliz Rochinha! pensou
cruelmente a prima, ao saber da morte do Vieira.

Maria Lusa desceu logo depois de
enterrar o marido. Vinha sinceramente triste; mas excepcionalmente bela, graas
s roupas pretas.

Parece que, chegada a narrativa a
este ponto, dispensar-se-ia o auxlio do narrador, e as coisas iam por si
mesmas. Mas onde ficaria o caso da viva, que deu que falar a um bairro
inteiro? A amiga perguntou-lhe um dia se queria enfim casar com o Rochinha,
agora, que nada mais se opunha ao consrcio de ambos.

 Ele  que o pergunta? disse ela.

 Quem o pergunta sou eu, disse a
outra; mas h quem ignore a paixo dele?

 Crs que me ame?

 Velhaca! tu sabes bem que sim.
Vamos l; queres casar?

Maria Lusa deu um beijo na amiga;
foi a sua resposta. A amiga, contente, enfim, de realizar a sua primitiva
idia, correu  casa do primo. Rochinha hesitou, olhou para o cho, torceu a
corrente do relgio entre os dedos, abriu um livro de desenhos, arranjou um
cigarro, e acabou dizendo que...

 Qu? perguntou ansiosa a prima.

 Que no, que no tinha idia de
casar.

A estupefao da prima daria outra
novela. Tal foi o caso da viva.
