Conto, O destinado, 1883

O destinado

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, em 30/04/1883.

Ao entrar no carro, cerca das
quatro horas da manh, Delfina trazia consigo uma preocupao grave, que eram
ao mesmo tempo duas. Isto pede alguma explicao. Voltemos  primeira valsa.

A primeira valsa que Delfina
executou no salo do coronel foi um puro ato de complacncia. O irmo dela
apresentou-lhe um amigo, o bacharel Soares, seu companheiro de casa no ltimo
ano da academia, uma prola, um talento, etc. S no acrescentou que era dono
de um rico par de bigodes, e alis podia diz-lo sem mentir nem exagerar nada.
Curvo, gracioso, com os bigodes espetados no ar, o bacharel Soares pediu  moa
uma roda de valsa; e esta, depois de trs segundos de hesitao, respondeu que
sim. Por que hesitao? Por que complacncia? Voltemos  primeira quadrilha.

Na primeira quadrilha o par de
Delfina fora outro bacharel, o bacharel Antunes, to elegante como o valsista,
embora no tivesse o rico par de bigodes, que ele substitua por um par de
olhos mansos. Delfina gostou dos olhos mansos; e, como se eles no bastassem a
dominar o esprito da moa, o bacharel Antunes juntava a esse mrito o de uma
linguagem doce, canora, todas as sedues da conversao. Em poucas palavras,
acabada a quadrilha, Delfina achou no bacharel Antunes os caractersticos de um
namorado.

 Agora vou sentar-me um pouco,
disse-lhe ela depois de passear alguns minutos.

O Antunes acudiu com uma frase to
piegas, que no a ponho aqui para no desconcertar o estilo; mas, realmente,
foi coisa que deu  moa uma idia avantajada do rapaz. Verdade  que Delfina
no tinha o esprito muito exigente; era um bom corao, excelente ndole,
educada a primor, amiga de bailar, mas sem largos horizontes intelectuais: 
quando muito, um pedao de azul visto da janela de um sto.

Contentou-se, portanto, com a
frase do bacharel Antunes, e sentou-se pensativa. Quanto ao bacharel, ao longe,
defronte, conversando aqui e ali, no tirava os olhos da bela Delfina. Gostava
dos olhos dela, dos seus modos, elegncia, graa...

  a flor do baile, dizia ele a
um parente da famlia.

 A rainha, emendou este.

 No, a flor, teimou o primeiro;
e, com um tom adocicado:  Rainha d idia de domnio e imposio, ao passo que
a flor traz a sensao de uma celeste embriaguez de aromas.

Delfina, logo que teve notcia
desta frase, declarou de si para si que o bacharel Antunes era um moo de
grande merecimento, e um dignssimo marido. Note-se que ela partilhava a mesma
opinio acerca da distino entre rainha e flor; e, posto aceitasse qualquer
das duas definies, todavia achou que a escolha da flor e a sua explicao
eram obra acertada e profundamente sutil.

Ora, em tais circunstncias,  que
o bacharel Soares pediu-lhe uma valsa. A primeira valsa era sua inteno d-la
ao bacharel Antunes; mas ele no apareceu ento, ou porque estivesse no buffet,
ou porque realmente no gostasse de valsar. Que remdio seno d-la ao outro?
Levantou-se, aceitou o brao do par, ele cingiu-lhe delicadamente a cintura, e
ei-los no turbilho. Pararam da a pouco; o bacharel Soares teve a delicada
audcia de lhe chamar slfide.

 Na verdade, acrescentou ele, 
valsista de primeira ordem.

Delfina sorriu, com os olhos
baixos, no espantada do cumprimento, mas satisfeita de o ouvir. Deram outra
volta, e o bacharel Soares, com muita delicadeza, repetiu o elogio. No 
preciso dizer que ele a conchegava ao corpo com certa presso respeitosa e
amorosa ao mesmo tempo. Valsaram mais, valsaram muito, ele dizendo-lhe coisas
amveis ao ouvido, ela escutando-o corada e delirante...

A est explicada a preocupao de
Delfina, alis duas, porque tanto os bigodes de um como os olhos mansos do
outro iam com ela dentro do carro, s quatro horas da manh. A me achou que
ela estava com sono; e Delfina explorou o erro, deixando cair a cabea para
trs, cerrando os olhos e pensando nos dois namorados. Sim, dois namorados. A
moa tentava sinceramente escolher um deles, mas o preterido sorria-lhe com
tanta graa que era pena deix-lo; elegia ento esse, mas o outro dizia-lhe
coisas to doces, que no mereciam tal desprezo. O melhor seria fundi-los
ambos, unir os bigodes de um aos olhos de outro, e meter esse conjunto divino
no corao; mas como? Um era um, outro era outro. Ou um, ou outro.

Assim entrou ela em casa; assim
recolheu-se aos aposentos. Antes de se despir, deixou-se cair em uma cadeira,
com os olhos no ar; tinha a alma longe, dividida em duas partes, uma parte nas
mos de Antunes, outra nas de Soares. Cinco horas! era tempo de repousar.
Delfina comeou a despir-se e despentear-se, lentamente, ouvindo as palavras do
Antunes, sentindo a presso do Soares, encantada, cheia de uma sensao
extraordinria. No espelho, pareceu-lhe ver os dois rapazes, e
involuntariamente voltou a cabea; era iluso! Enfim, rezou, deitou-se, e
dormiu.

Que a primeira idia da donzela,
ao acordar, fosse para os dois pares da vspera, nada h que admirar, desde que
na noite anterior, ou velando ou sonhando, no pensou em outra coisa. Assim ao
vestir, assim ao almoar.

 Fifina ontem conversou muito com
um moo de bigodes grandes, disse uma das irmzinhas.

 Boas! foi com aquele que danou
a primeira quadrilha, emendou a outra irm.

Delfina zangou-se; mas v-se que
as pequenas acertaram. Os dois cavalheiros tinham tomado conta dela, do seu
esprito, do seu corao; a tal ponto que as pequenas deram por isso. O que se
pergunta  se o fato de um amor assim duplo  possvel; talvez que sim, desde
que no haja sado da fase preparatria, inicial; e esse era o caso de Delfina.
Mas enfim, cumpria escolher um deles.

Devine, si tu peux, et choisis, si
tu l'oses.

Delfina achou que a eleio no
era urgente, e fez um clculo que prova da parte dela certa sagacidade e
observao; disse consigo que o prprio tempo excluiria o condenado, em
proveito do destinado. Quando eu menos pensar, disse ela, estou amando deveras
ao escolhido.

Escusado  acrescentar que no
disse nada ao irmo, em primeiro lugar porque no so coisas que se digam aos
irmos, e em segundo lugar porque ele conhecia um dos concorrentes. Demais, o
irmo, que era advogado novo, e trabalhava muito, estava nessa manh to
ocupado no gabinete, que nem veio almoar.

 Est com gente de fora,
disse-lhe uma das pequenas.

 Quem ?

 Um moo.

Delfina sentiu bater-lhe o
corao. Se fosse o Antunes! Era cedo,  verdade, nove horas apenas; mas podia
ser ele que viesse buscar o outro para almoar. Imaginou logo um acordo feito
na vspera, entre duas quadrilhas, e atribuiu ao Antunes o plano luminoso de
ter assim entrada na famlia...

E foi, foi, devagarinho, at 
porta do gabinete do irmo. No podia ver de fora; as cortinas ficavam
naturalmente por dentro. No ouvia falar, mas um ou outro rumor de ps ou de
cadeiras. Que diabo! Teve uma idia audaciosa: empurrar devagarinho a porta e
espiar pela fresta. F-lo; e que desiluso! viu ao lado do irmo um rapaz seco,
murcho, acanhado, sem bigodes nem olhos mansos, com o chapu nos joelhos, e um
ar modesto, quase pedinte. Era um cliente do jovem advogado. Delfina recuou
lentamente, comparando a figura do pobre-diabo com a dos dois concorrentes da
vspera, e rindo da iluso. Por que rir? Coisas de moa. A verdade  que ela
casou da a um ano justamente com o pobre-diabo. Leiam os jornais do tempo; l
est a notcia do consrcio, da igreja, dos padrinhos, etc. No digo o ano,
porque eles querem guardar o incgnito, mas procurem que ho de achar.
