Conto, Como se inventaram os almanaques, 1890

Como se inventaram os almanaques

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Almanaque
das Fluminenses, 1890.

Some-te, bibligrafo! No tenho nada
contigo. Nem contigo, curioso de histrias poentas. Sumam-se todos; o que vou
contar interessa a outras pessoas menos especiais e muito menos aborrecidas.
Vou dizer como se inventaram os almanaques.

Sabem que o Tempo , desde que
nasceu, um velho de barbas brancas. Os poetas no lhe do outro nome: o velho
Tempo. Ningum o pintou de outra maneira. E como h quem tome liberdades com os
velhos, uns batem-lhe na barriga (so os patuscos), outros chegam a desafi-lo;
outros lutam com ele, mas o diabo vence-os a todos;  de regra.

Entretanto, uma coisa  barba,
outra  corao. As barbas podem ser velhas e os coraes novos; e vice-versa:
h coraes velhos com barbas recentes. No  regra, mas d-se. Deu-se com o
Tempo. Um dia o Tempo viu uma menina de quinze anos, bela como a tarde, risonha
como a manh, sossegada como a noite, um composto de graas raras e finas, e
sentiu que alguma coisa lhe batia do lado esquerdo. Olhou para ela e as
pancadas cresceram. Os olhos da menina, verdadeiros fogos, faziam arder os dele
s com fit-los.

 Que  isto? murmurou o velho.

E os beios do Tempo entraram a
tremer e o sangue andava mais depressa, como cavalo chicoteado, e todo ele era
outro. Sentiu que era amor; mas olhou para o oceano, vasto espelho, e achou-se velho.
Amaria aquela menina a um varo to idoso? Deixou o mar, deixou a bela, e foi
pensar na batalha de Salamina.

As batalhas velhas eram para ele
como para nos os velhos sapatos. Que lhe importava Salamina? Repetiu-a de
memria, e por desgraa dele, viu a mesma donzela entre os combatentes, ao lado
de Temstocles. Dias depois trepou a um pncaro, o Chimborazo; desceu ao
deserto de Sinai; morou no sol, morou na lua; em toda parte lhe aparecia a
figura de bela menina de quinze anos. Afinal ousou ir ter com ela.

 Como te chamas, linda criatura?

 Esperana  o meu nome.

 Queres amar-me?

 Tu ests carregado de anos,
respondeu ela; eu estou na flor deles. O casamento  impossvel. Como te
chamas?

 No te importe o meu nome; basta
saber que te posso dar todas as prolas de Golconda...

 Adeus!

 Os diamantes de Ofir...

 Adeus!

 As rosas de Saaro...

 Adeus! Adeus!

 As vinhas de Engaddi...

 Adeus! adeus! adeus! Tudo isso
h de ser meu um dia; um dia breve ou longe, um dia...

Esperana fugiu. O Tempo ficou a
olhar, calado, at que a perdeu de todo. Abriu a boca para amaldio-la, mas as
palavras que lhe saam eram todas de bno; quis cuspir no lugar em que a
donzela pousara os ps, mas no pde impedir-se de beij-lo.

Foi por essa ocasio que lhe
acudiu a idia do almanaque. No se usavam almanaques. Vivia-se sem eles;
negociava-se, adoecia-se, morria-se, sem se consultar tais livros. Conhecia-se
a marcha do sol e da lua; contavam-se os meses e os anos; era, ao cabo, a mesma
coisa; mas no ficava escrito, no se numeravam anos e semanas, no se nomeavam
dias nem meses, nada; tudo ia correndo, como passarada que no deixa vestgios
no ar.

 Se eu achar um modo de trazer
presente aos olhos os dias e os meses, e o reproduzir todos os anos, para que
ela veja palpavelmente ir-se-lhe a mocidade...

Raciocnio de velho, mas tudo se
perdoa ao amor, ainda quando ele brota de runas. O Tempo inventou o almanaque;
comps um simples livro, seco, sem margens, sem nada; to-somente os dias, as
semanas, os meses e os anos. Um dia, ao amanhecer, toda a terra viu cair do cu
uma chuva de folhetos; creram a princpio que era geada de nova espcie,
depois, vendo que no, correram todos assustados; afinal, um mais animoso pegou
de um dos folhetos, outros fizeram a mesma coisa, leram e entenderam. O
almanaque trazia a lngua das cidades e dos campos em que caa. Assim toda a
terra possuiu, no mesmo instante, os primeiros almanaques. Se muitos povos os
no tm ainda hoje, se outros morreram sem os ler,  porque vieram depois dos
acontecimentos que estou narrando. Naquela ocasio o dilvio foi universal.

 Agora, sim, disse Esperana
pegando no folheto que achou na horta; agora j me no engano nos dias das
amigas. Irei jantar ou passar a noite com elas, marcando aqui nas folhas, com
sinais de cor os dias escolhidos.

Todas tinham almanaques. Nem s
elas, mas tambm as matronas, e os velhos e os rapazes, juzes, sacerdotes,
comerciantes, governadores, fmulos; era moda trazer o almanaque na algibeira. Um
poeta comps um poema atribuindo a inveno da obra s Estaes, por ordem de
seus pais, o Sol e a Lua; um astrnomo, ao contrrio, provou que os almanaques
eram destroos de um astro onde desde a origem dos sculos estavam escritas as
lnguas faladas na terra e provavelmente nos outros planetas. A explicao dos
telogos foi outra. Um grande fsico entendeu que os almanaques eram obra da
prpria terra, cujas palavras, acumuladas no ar, formaram-se em ordem,
imprimiram-se no prprio ar, convertido em folhas de papel, graas... No
continuou; tantas e tais eram as sentenas, que a de Esperana foi a mais
aceita do povo.

 Eu creio que o almanaque  o
almanaque, dizia ela rindo.

Quando chegou o fim do ano, toda a
gente, que trazia o almanaque com mil cuidados, para consult-lo no ano
seguinte, ficou espantada de ver cair  noite outra chuva de almanaques. Toda a
terra amanheceu alastrada deles; eram os do ano novo. Guardaram naturalmente os
velhos. Ano findo, outro almanaque; assim foram eles vindo, at que Esperana
contou vinte e cinco anos, ou, como ento se dizia, vinte e cinco almanaques.

Nunca os dias pareceram correr to
depressa. Voavam as semanas, com elas os meses, e, mal o ano comeava, estava
logo findo. Esse efeito entristeceu a terra. A prpria Esperana, vendo que os
dias passavam to velozes, e no achando marido, pareceu desanimada; mas foi s
um instante. Nesse mesmo instante apareceu-lhe o Tempo.

 Aqui estou, no deixes que te
chegue a velhice... Ama-me...

Esperana respondeu-lhe com duas
gaifonas, e deixou-se estar solteira. H de vir o noivo, pensou ela.

Olhando-se ao espelho, viu que mui
pouco mudara. Os vinte e cinco almanaques quase lhe no apagaram a frescura dos
quinze. Era a mesma linda e jovem Esperana. O velho Tempo, cada vez mais
afogueado em paixo, ia deixando cair os almanaques, ano por ano, at que ela
chegou aos trinta e da aos trinta e cinco.

Eram j vinte almanaques; toda a
gente comeava a odi-los, menos Esperana, que era a mesma menina das quinze
primaveras. Trinta almanaques, quarenta, cinqenta, sessenta, cem almanaques;
velhices rpidas, mortes sobre mortes, recordaes amargas e duras. A prpria
Esperana, indo ao espelho, descobriu um fio de cabelo branco e uma ruga.

 Uma ruga! Uma s!

Outras vieram,  medida dos
almanaques. Afinal a cabea de Esperana ficou sendo um pico de neve, a cara um
mapa de linhas. S o corao era verde como acontecia ao Tempo; verdes ambos,
eternamente verdes. Os almanaques iam sempre caindo. Um dia, o Tempo desceu a
ver a bela Esperana; achou-a anci, mas forte, com um perptuo riso nos
lbios.

 Ainda assim te amo, e te peo...
disse ele.

Esperana abanou a cabea; mas,
logo depois, estendeu-lhe a mo.

 V l, disse ela; ambos velhos,
no ser longo o consrcio.

 Pode ser indefinido.

 Como assim?

O velho Tempo pegou da noiva e foi
com ela para um espao azul e sem termos, onde a alma de um deu  alma de outro
o beijo da eternidade. Toda a criao estremeceu deliciosamente. A verdura dos
coraes ficou ainda mais verde.

Esperana, da em diante,
colaborou nos almanaques. Cada ano, em cada almanaque, atava Esperana uma fita
verde. Ento a tristeza dos almanaques era assim alegrada por ela; e nunca o
Tempo dobrou uma semana que a esposa no pusesse um mistrio na semana
seguinte. Deste modo todas elas foram passando, vazias ou cheias, mas sempre
acenando com alguma coisa que enchia a alma dos homens de pacincia e de vida.

Assim as semanas, assim os meses,
assim os anos. E choviam almanaques, muitos deles entremeados e adornados de
figuras, de versos, de contos, de anedotas, de mil coisas recreativas. E
choviam. E chovem. E ho de chover almanaques. O Tempo os imprime, Esperana os
brocha;  toda a oficina da vida.
