Conto, Nem uma nem outra, 1873

Nem uma nem outra

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em Jornal das Famlias, agosto,
1873

I

Numa tarde do ms
de maro de 1860, entrava no Hotel Ravot um velho mineiro, que, nesse mesmo
dia, chegara de Mar de Espanha. Trazia um camarada consigo e alojou-se num dos
aposentos do hotel, tendo o cuidado de restaurar as foras com um excelente
jantar.

O velho
representava ter cinqenta anos, e eu peo perdo aos homens que tm essa idade
sem todavia estarem velhos. O viajante de quem se trata, posto viesse de um
clima conservador, estava todavia alquebrado. Via-se pela cara que no era
homem inteligente, mas tinha nos traos severos do rosto os sinais positivos de
uma grande vontade. Era alto, um pouco magro, tinha os cabelos todos brancos.
No entanto, era alegre, e desde que chegara  Corte divertia-se muito com os
espantos do criado que pela primeira vez saa da sua provncia para vir ao Rio
de Janeiro.

Quando acabaram
de jantar, amo e criado entraram a conversar amigavelmente e com aquela boa
franqueza mineira to apreciada pelos que conhecem a provncia. Depois de
rememorarem os incidentes da viagem, depois de comentarem o pouco que o criado
conhecia do Rio de Janeiro, entraram ambos no principal assunto que trouxera o
amo ao Rio de Janeiro.

Amanh, Jos,
disse o amo, precisamos ver se descobrimos meu sobrinho. No vou daqui sem
lev-lo comigo.

 Ora, Sr.
capito, respondia o criado, eu acho bem difcil encontrar seu sobrinho numa
cidade tamanha. S se ficarmos aqui um ano inteiro.

 Qual, um ano!
Basta anunciar no Jornal do Comrcio, e se no for bastante vou 
polcia, mas hei de ach-lo. Tu lembras-te dele?

 No me lembro
nada. Vi-o s uma vez e h tanto tempo...

 Mas no o achas
um bonito rapaz?

 Naquele tempo
era...

 H de estar
melhor.

O capito sorriu
depois de pronunciar estas palavras; mas o criado no lhe viu o sorriso, nem lho
perceberia, que  justamente o que acontece aos leitores.

A conversa parou
nisto.

No dia seguinte,
a primeira coisa em que o capito Ferreira cuidou, logo depois do almoo, foi
em levar um anncio ao Jornal do Comrcio, concebido nos seguintes termos:

Deseja-se saber onde mora o
senhor Vicente Ferreira para negcio do seu interesse.

Apenas deixou o
anncio, descansou o nosso capito e ficou a esperar uma resposta.

Mas, contra a
expectativa, no apareceu resposta nenhuma no dia seguinte, e o capito foi
obrigado a repetir o anncio.

A mesma coisa.

O capito fez
repetir o anncio durante oito dias, sem adiantar um passo, mandou p-lo em
grandes tipos; mas continuava o mesmo silncio. Convenceu-se por fim que o
sobrinho no estava no Rio de Janeiro.

 Fizemos a
viagem inutilmente, disse o capito ao criado; voltemos para Mar de Espanha.

O criado
alegrou-se com a idia de voltar; mas o velho estava triste.

Para distrair-se
de sua tristeza, saiu o capito a dar um passeio depois do almoo, e dirigiu-se
para os lados do Passeio Pblico.

Justamente na Rua
do Passeio pareceu ver entrar em uma casa um sujeito que de longe lhe pareceu o
sobrinho.

O velho apressou
o passo e chegou  porta do corredor por onde entrara o vulto, mas no achou ningum.
Quem quer que era tinha j subido a escada.

Que fazer?

Lembrou-se de
ficar na porta  espera; mas podendo ser que se houvesse enganado, a espera
seria, sobre fastidiosa, intil. O capito lembrou-se de bater palmas.

Com efeito, subiu
o primeiro lano da escada e bateu palmas. Pouco depois veio abrir-lhe a
cancela um moo representando ter vinte e cinco anos de idade, a quem o
capito, apenas o viu, gritou com toda a fora dos seus pulmes.

 Vicente!

 Quem ?

O capito subiu
os degraus sem responder e chegou ao patamar gritando:

 Pois no me
conheces, sobrinho ingrato?

Dizer isto e
atirar-se-lhe aos braos foi a mesma coisa. O rapaz abraou ternamente o tio,
no sem um pouco de acanhamento em que o capito no reparou.

 Entre c para a
sala, meu tio, disse Vicente.

Entraram na sala,
e se os olhos do tio fossem mais indiscretos teriam visto que, justamente no
momento em que ele entrava na sala, saiu por um corredor interno um vestido de
mulher.

Mas o capito
Ferreira ia to embebido no sobrinho e to contente por t-lo finalmente
encontrado, que no reparou em coisa nenhuma.

 Ora, graas a
Deus que te encontro! disse ele sentando-se numa cadeira que lhe oferecia o
rapaz.

 Quando chegou?

 H dez dias.
No sabendo onde moravas, anunciei no Jornal do Comrcio todos os dias,
e sempre em vo. No leste o anncio?

 Meu tio, eu no
leio jornais.

 Tu no ls
jornais?

 No, senhor.

 Homem, fazes
bem; mas ao menos agora seria conveniente que houvesses lido; mas para isso era
preciso que eu te avisasse, e eu no sabia da casa...

 J v... disse
Vicente sorrindo.

 Pois, senhor,
acho-te bem disposto. Ests muito melhor do que a ltima vez que l foste 
fazenda; creio que h j cinco anos.

 Pouco mais ou
menos.

 Tudo por l
ficou bom, mas com saudades de ti. Por que diabo no apareces?

 Meu tio, ando
to ocupado...

 Sim, creio que
ests aprendendo a tocar piano, disse o capito olhando para o instrumento que
via na sala.

 Eu? disse o
rapaz; no, no sou eu,  um amigo.

 Que mora
contigo?

 Justo.

 Vocs moram
bem; e estou capaz de vir para aqui uns dias antes de voltar para Minas.

O rapaz
empalideceu, e por muito pouca perspiccia que tenha o leitor h de compreender
que esta palidez est ligada  fuga do vestido de que lhe falei acima.

No respondeu
coisa alguma  proposta do tio, e este foi o primeiro a romper a dificuldade,
dizendo:

 Mas para qu?
demoro-me to pouco tempo que no vale a pena; e alm disso, pode o teu amigo
no gostar...

 Ele  um pouco
esquisito.

 Ora a est! E
eu sou muito esquisito, e portanto, no podemos fazer conciliao. O que eu
quero, Vicente,  falar-te sobre um importantssimo negcio, nico que me traz
ao Rio de Janeiro.

 Um negcio?

 Sim; mas agora
no temos tempo; adiemos para outra ocasio. Apareces no Ravot hoje?

 L irei.

 Olha, vai
jantar comigo, sim?

 Vou, meu tio.

 Anda da.

 Agora no me 
possvel; tenho de esperar o meu companheiro; mas pode ir que eu l estarei
para jantar.

 Ora, bem, no
me faltes.

 No, senhor.

O capito abraou
outra vez o sobrinho e saiu radiante de alegria.

Apenas o tio
chegou  porta da rua, Vicente, que tinha voltado  sala e estava  janela,
sentiu que lhe tocavam por trs.

Voltou-se.

Uma moa  a do
vestido  estava por trs dele, e lhe perguntava sorrindo:

 De onde te veio
este tio?

 De Minas; no
contava agora com ele, tenho de l ir jantar.

 Ora...

 Desculpa;  um
tio.

 V, disse ela
sorrindo, fao o sacrifcio ao tio. Mas, olha, v se mo envias depressa para
Minas.

 Descansa; o
mais depressa que me for possvel.

II

Vicente foi exato
na promessa.

O capito
Ferreira, que j estava impaciente, apesar de no ser tarde, andava da sala
para a janela, olhando para todos os lados, a ver se descobria sinais do
sobrinho. Ora, o sobrinho entrou justamente numa ocasio em que ele estava na
sala; um criado do hotel levou-o ao aposento do capito, aonde Vicente entrou
justamente na ocasio em que o capito ia para a janela, de maneira que foi uma
grande surpresa para o tio ver o sobrinho repimpado numa cadeira quando menos o
esperava.

 Por onde diabo
entraste tu?

 Pela porta.

  singular; no
te senti entrar. Ora, ainda bem que vieste; so horas de jantar, e  bom que
jantemos antes, a fim de termos tempo para conversarmos a respeito do negcio
de que te falei.

Vicente estava
alegre e ruidoso como era do seu natural. A entrada inesperada do tio na casa
da Rua do Passeio  que o tinha tornado acanhado e hesitante; agora, porm, que
j no tinha motivos para hesitaes nem acanhamentos, deu o rapaz largas ao
seu gnio folgazo.

A surpresa foi
agradvel para o capito Ferreira, que no tinha a insuportvel mania de querer
moos velhos, e aceitava o gnio de todas as idades e de todos os
temperamentos.

Acabando o
jantar, o capito foi com o sobrinho para o seu aposento e a comeou a
conversa importante que o trouxera  corte.

 Primeiramente,
disse o velho, deixa-me puxar-te as orelhas pela tua prolongada ausncia l de
casa, aonde ias ao menos uma vez por ano. Que diabo andas fazendo aqui?

 Meu tio, ando
muito ocupado.

 Graves
negcios, no?

 No graves,
porm, maantes.

 Sim? Imagino.
Ests empregado?

 Numa casa
comercial, onde ganho alguma coisa, e isso junto com o pouquinho que me ficou
de minha me...

 Eram uns vinte
contos, no pode ser muito, talvez no seja nada.

 Isso est
intacto.

 Confesso, disse
o velho, que no te supunha to econmico. Mas por que razo no arranjaste uma
licena para ires ver-me  fazenda?

 No comrcio 
difcil.

 Pois mandava-se
o emprego ao diabo; l em casa h um canto para um parente.

Vicente no
respondeu; o velho continuou:

 E  justamente
para isto que eu vim falar-te.

 Ah! disse
Vicente arregalando os olhos.

 Aposto que
recusas?

 Recusar? Mas...

 Ests com pouca
vontade, e eu no teu caso faria o mesmo; mas no se trata s de abandonar a
Corte para ires encafuar-te numa fazenda. Para um rapaz a mudana h de ser
difcil. A carne  dura de roer, mas eu trago-te o molho.

Dizendo isto, o
capito fitava os olhos do rapaz cuidando ver neles uma curiosidade misturada
de alegria. Viu a curiosidade, mas no viu a alegria. No se perturbou, e
continuou:

 Teu pai, que
era meu irmo, incumbiu-me de velar por ti, e fazer-te feliz. At aqui tenho
cumprido o que prometi, porque sendo mais feliz na Corte, no te forcei a ir
viver comigo na fazenda; e quando quiseste ter um emprego, esse que tens agora,
hs de lembrar-te que algum to ofereceu.

  verdade.

 Pois bem, foi
por iniciativa minha.

 Ah! foi meu
tio?

 Pois ento?
disse o velho, batendo-lhe na perna a rir; cuidavas que eu ignorava o teu
emprego? Se eu mesmo to dei; e mais, tenho indagado do teu comportamento na
casa, e sei que  exemplar. J por trs vezes mandei dizer ao teu patro que te
desse licena por algum tempo, e ele mesmo, segundo me consta, falou-te nisso,
mas tu recusaste.

  verdade, meu
tio, respondeu Vicente; e eu no sei como lhe agradea...

 O haveres
recusado visitar-me?

 Confesso que...

 Compreendo o
motivo; os rapazes da corte  as delcias de Cpua, como diz o vigrio Tosta 
eis a causa.

Vicente caa das
nuvens com todas estas notcias que lhe dava o capito, ao passo que o capito
ia desenrolando-as sem inteno de afrontar nem censurar o rapaz... O capito
era um bom velho; compreendia a mocidade, e desculpava-lhe tudo.

 Ora bem,
continuou ele, quem fez tanto por ti, entende que  chegado o momento de
fazer-te feliz de outra maneira.

 Qual maneira?
perguntou Vicente curioso e ao mesmo tempo assustado com o gnero de felicidade
que lhe anunciava o tio.

 De uma maneira
to velha como Ado e Eva, o casamento.

Vicente
empalideceu; esperava tudo, menos o casamento. E que casamento seria? O velho
no disse mais nada; Vicente gastou alguns minutos em formular uma resposta,
que seria ao mesmo tempo une fin de non recevoir.

 Que achas?
perguntou finalmente o velho.

 Acho, respondeu
resolutamente o rapaz, que meu tio  em extremo bondoso comigo em me propor o
casamento para minha felicidade. Com efeito, parece que o casamento  o remate
natural da vida, e por isso aceito com braos abertos a sua idia.

O velho sorria de
contentamento, e ia j abra-lo quando o sobrinho acabou o discurso.

 Mas,
acrescentou Vicente, a dificuldade est na esposa, e eu por enquanto no amo a
ningum.

 No amas a
ningum? disse o velho deitando-se; mas ento cuidas que eu vinha  corte s
para te propor um casamento? Trago duas propostas  a do casamento e a da
mulher. No amas a mulher? Hs de vir a am-la, porque ela j te ama.

Vicente
estremeceu; a questo agora tornava-se mais complicada. Ao mesmo tempo a idia
de ser amado sem que ele soubesse nem tivesse feito nenhum esforo, era uma
coisa que lhe sorria  vaidade. Entre estes dois sentimentos contrrios, o
rapaz achou-se embaraado para dar uma resposta qualquer.

 A mulher que te
destino e que te ama,  minha filha Delfina.

 Ah! a prima?
Mas ela  criana...

 Era h cinco
anos; agora est com dezessete anos, e creio que a idade  prpria para um
consrcio. Aceitas, no?

 Meu tio,
respondeu Vicente, eu aceitaria com muito prazer a sua idia; mas, posto que eu
reconhea toda a vantagem desta unio, contudo, no quero fazer uma moa
infeliz, e  o que pode acontecer se eu no amar minha mulher.

 Dar-lhe-s
pancadas?

 Oh! perdo!
disse Vicente, no sem esconder um sentimento de indignao que lhe provocara a
pergunta do velho. Mas no amando a uma pessoa que me ama,  faz-la infeliz.

 Histrias da
vida! disse o velho levantando-se e passeando pela sala; isto de amor em
casamento  uma burla; basta que se estimem e se respeitem;  o que eu exijo e
nada mais. V l; em troca disso, dou-te a minha fortuna toda; bem sei que isto
 o menos para ti; mas ter mulher bonita (porque Delfina  uma jia), meiga,
dcil,  uma fortuna que s um pateta pode recusar...

 Eu no digo
que...

 Um pateta, ou
um estouvado, como tu; um estouvado, que abandonou a casa de comrcio, em que
se achava, por um capricho, uma simples desinteligncia com o dono da casa...
Olhas espantado para mim?  verdade, meu rico; soube de tudo isso: e  essa a
razo de no saberes tu quando aqui cheguei. Creio ao menos que estars
empregado?

 Estou,
balbuciou o moo.

O capito estava
j zangado com as recusas do sobrinho, e no se pde conter; disse-lhe o que
sabia. Vicente, que o cuidava iludido acerca da sada da casa em que estivera,
recebeu a notcia como uma bala de 150.

O velho continuou
a passear silencioso. Vicente deixou-se estar assentado sem dizer palavra.

No fim de alguns
minutos, voltou o capito  sua cadeira e acrescentou:

 No me sejas
palerma; atende que eu venho fazer a tua felicidade. Tua prima suspira por ti.
S o soube quando o filho do Coronel Vieira foi l pedi-la em casamento. Disse-me ela ento que s se casaria contigo; e eu, que a estremeo, quero
fazer-lhe a vontade. Vamos; no posso esperar; decide-te.

 Meu tio, disse
Vicente depois de alguns instantes, no posso dar-lhe uma resposta definitiva;
mas afirmo que o que eu puder fazer estar feito.

 Boa confiana
devo eu ter nas tuas palavras!

 Por qu?

 Queres saber
por qu?  porque eu suponho que andars por a perdido, que sei eu? Como se
perdem os rapazes de hoje.

 Oh! quanto a
isso, juro...

 No quero
juramentos, quero uma resposta.

O capito Ferreira
era um homem de vontade; no admitia recusas, nem sabia propor coisas daquelas,
quando lhe no assistia direito legal. Vicente at ento vivera independente do
tio; era natural que nunca contasse com a fortuna dele. Querer impor-lhe o
casamento por aquele modo, era arriscar a negociao, afrontando o orgulho do
moo. O velho no reparava nisso, ficou muito admirado quando o sobrinho
respondeu secamente s ltimas palavras dele:

 Pois bem, a
minha resposta  simples: no me caso.

Seguiu-se a estas
palavras um profundo silncio; o velho ficou fulminado.

 No te casas?
perguntou ele no fim de longos minutos.

O rapaz fez um
sinal negativo.

 Reparaste bem
na resposta que me deste?

 Reparei.

 Adeus.

E dizendo isto, o
velho levantou-se e dirigiu-se para o quarto sem lhe dirigir um olhar sequer.

Vicente
compreendeu que estava despedido e saiu.

Quando chegou 
casa, achou a moa que j tivemos ocasio de ver no primeiro captulo, a qual o
recebeu com um abrao que era ao mesmo tempo um ponto de interrogao.

 Briguei com meu
tio, disse o moo sentando-se.

 Ah!

 Adivinha o que
ele queria?

 Mandar-te para
fora daqui?

 Casar-me com a
filha dele e fazer-me seu herdeiro.

 Recusaste?

 Recusei.

A moa ajoelhou-se
diante de Vicente e beijou-lhe as mos.

 Que  isto,
Clara?

 Obrigada!
murmurou ela.

Vicente
levantou-a e beijou-lhe por sua vez as mos.

 Tolinha! Pois
h nisto motivo para me agradeceres? E chorando! Clara, deixa-te de lgrimas!
Eu no gosto de ver uma moa chorona... Vamos! ri-te.

Clara sentou-se
calada; via-se-lhe a alegria no rosto, mas uma alegria misturada de tristeza.

 Quem sabe?
disse ela no fim de algum tempo; quem sabe se fizeste bem recusando?

 Essa agora!

 Recusaste por
minha causa, e eu...

 J vejo que fiz
mal em falar-te nisto. Ora, vamos... nada de tolices; anda passear.

Vicente Ferreira,
desde que lhe morrera a me, deixara o interior da provncia de S. Paulo, aonde
vivera, e estabeleceu-se na corte com o pouco que herdara; algum tempo
empregou-se, e j sabemos que por influncia do tio, que deveras o estimava.
Era um rapaz um tanto orgulhoso, e imaginava que viver com o tio era mostrar-se
adulador da fortuna dele, idia esta de que fugia sempre. Quando estava em S. Paulo visitara muitas vezes o tio; mas, depois que viera para a corte, nunca mais o fez.
Alm dos sentimentos que j apontamos acima, no queria deixar a casa ainda que
com licena do patro, que alis era o primeiro a oferecer-lha; e finalmente a
Clara da Rua do Passeio tinha grande parte na deciso do rapaz.

Por que essa
influncia e como comeara ela?

Apressemo-nos a
tirar do esprito do leitor uma idia que porventura j lhe tenha surgido, e vem
a ser a de que a nossa Clara  uma Margarida Gauthier lavando-se nas guas do
amor das culpas passadas.

Clara tinha sido
raptada de casa de seus pais por um amigo de Vicente, ou pelo menos o sujeito
que andava com ele  e abandonada no fim de um ms pelo tratante, que embarcou
para Buenos Aires.

A moa achou-se
s um dia de manh, sem arrimo nenhum, nem esperana dele. A primeira idia que
teve foi matar-se; nessa resoluo entrou por muito o amor que ainda tinha pelo
rapaz. Mas o medo, a educao religiosa que lhe haviam dado depressa lhe
arredaram do esprito semelhante idia.

No meio da sua
aflio lembrou-se de Vicente, que l fora  casa dela, uma vez, em companhia
do fugitivo Enas. Mandou-o chamar e contou-lhe a sua situao. Vicente ainda
no sabia da fuga do amigo, e ficou admirado que ele houvesse cometido
semelhante ato de covardia. Mas, sabendo que pelo lado da justia o raptor nada
temia, admirou-se da fuga sem outro motivo aparente alm da questo do rapto,
motivo que no era motivo, porque um homem que furta uma moa tem sempre nimo
para conserv-la durante algum tempo, at que possa a fuga completar a obra do
rapto: a audcia coroada pela covardia.

Ora, esse tempo
nunca  simplesmente um ms.

Outra causa devia
haver, e Vicente tratou de indagar nesse mesmo dia sem nada obter; no dia
seguinte, porm, a gazetilha do Jornal do Comrcio tirou todas as
dvidas: noticiava a fuga do homem com alguns contos de ris.

Para acabar j
com a histria deste sujeito, acrescentarei que, depois de longos trabalhos do
mesmo gnero, em Buenos Aires, fugiu ele para o Chile, onde consta que 
atualmente empregado em umas obras das estradas.

A moa contou a
Vicente qual era a sua posio, e pediu-lhe por esmola o seu auxlio.

Vicente tinha bom
corao; achou que naquele estado no devia fazer  moa um discurso intil
sobre o seu ato; cumpria-lhe socorr-la. Tirou, portanto, um conto de ris do
peclio que tinha e deu a Clara os primeiros auxlios necessrios; alugou-lhe
casa e uma criada; preparou-lhe uma moblia e despediu-se.

Clara recebeu
agradecida e envergonhada os auxlios de Vicente; mas ao mesmo tempo no via
nos atos do rapaz mais do que um sentimento de interesse.

No fim de quinze
dias, Vicente foi  casa de Clara e disse-lhe que, no podendo adiantar-lhe
tudo quanto ela precisasse e no devendo ela ficar exposta aos perigos da sua
situao, era conveniente que procurasse trabalhar, e para isso escolhesse o
que mais lhe conviesse.

Clara achou
justas as observaes de Vicente, e ficou assentado que a moa trabalharia de
costureira em casa de alguma modista.

Da a dias estava
a moa empregada.

Entretanto,
Vicente no voltou l mais; de quando em quando recebia um recado de Clara, mas
era sempre em assunto que lhe dispensava uma visita pessoal.

O procedimento do
moo no deixou de influir na rapariga, que j se arrependia do seu primeiro
juzo.

Um dia adoeceu
Vicente, e Clara apenas o soube, obteve licena da modista e foi tratar do enfermo
com a dedicao e zelo de uma irm. A doena de Vicente durou dez ou doze dias;
durante esse tempo no se desmentiu a solicitude da moa.

 Obrigado, disse
Vicente  rapariga, quando se levantou da cama.

 Por qu? Sou eu
quem lhe deve.

 J pagou de
sobra.

 Oh! nunca!
disse Clara. O senhor livrou-me a vida,  verdade; mas no fez s isto,
livrou-me de entrar numa carreira fatal... e mais...

 E mais nada,
disse Vicente.

A moa voltou o
rosto e enxugou uma lgrima.

 Por que chora?
perguntou Vicente.

Clara no
respondeu, mas levantou os olhos para ele rasos dgua, e parece que nesse
momento deviam eles ter uma expresso muito eloqente, porque o rapaz sorriu
dizendo estas palavras:

 Ama-me, no?

A moa beijou-lhe
a mo.

No dia seguinte
Clara despedia-se da modista, e os dois ficaram morando na casa da Rua do
Passeio, onde j o vimos.

Pede a verdade
que se diga que Vicente no amou desde logo a rapariga; mas o amor veio
lentamente como um vento fresco da noite, que comea mais dbil que o hlito de
um infante e acaba em forte virao.

Clara era bonita
e tinha excelente corao; o carter de Vicente estava de perfeito acordo com o
dela; ambos punham a felicidade na tranqilidade interior, na mtua afeio, no
trabalho e na mediania. Tinham achado tudo isso; por que abandon-lo?

III

O incidente do
tio capito foi passageira nuvem na vida de Vicente. Quinze dias depois estava
inteiramente esquecido. A prpria Clara, apesar da tristeza que lhe produzira a
proposta do capito, no se lembrava j dele. Tudo parecia ter voltado ao
antigo tempo.

Assim foi com
efeito durante trs meses; mas, no fim de junho, Vicente recebeu uma carta
pedindo-lhe que a sade de Delfina exigia a presena dele na fazenda. A carta
no tinha ar de ordem nem de splica: era um simples pedido.

Vicente ficou
impressionado com a carta do tio. Sentia-se com remorsos do que porventura
tivesse acontecido; era-lhe necessrio reprimir o mal, se mal havia. Tal foi,
com efeito, a sua resoluo.

Mas essa resoluo
no durou muito tempo; posto que o rapaz visse a gravidade do caso, no podia
esquecer-se de que havia uma proposta em p, talvez que a presena dele na
fazenda no fizesse mais do que acelerar a realizao de uma idia que lhe era
mortal.

Vicente desistiu
de ir  fazenda.

Desta vez, porm,
no comunicou a Clara o que havia, e tudo pareceu continuar no mesmo estado,
at que muitos dias depois, entrando Vicente em casa, achou Clara triste e com
vestgios de haver chorado.

 Que tens tu? perguntou-lhe.

 O que tenho?

 Sim, pareces
triste.

 Estou triste,
sim; parece que j no mereo confiana.

 Por qu?

 Recebeste uma
carta de teu tio e no me disseste nada.

  verdade; no
queria mortificar-te. Como soubeste disso?

 Achei hoje a
carta.

 Pois sim,
continuou Vicente, recebi a carta e para te no afligir no te participei coisa
alguma. E vs que pouco me importou, visto que no parti.

 Fizeste mal.

 Fiz mal?

 Devias ter ido
 fazenda.

Vicente franziu a
testa.

 Clara, disse
ele, no me amas?

 Eu? ah! injusto
que tu s! Amo-te, sim, e muito; mas que tem isso com o simples pedido de um
pai que te pede a salvao de uma filha?

 A salvao? 
romanesco demais.

 Incrdulo!

 Devo s-lo,
Clara, em no crer que uma moa, que eu vi menina pela ltima vez, tamanho amor
criasse por mim que venha a morrer dele.

 O corao tem
mistrios.

 Falemos de
outra coisa.

 No, disse
Clara, falemos disto. Tu vais a Minas.

Vicente fez um
gesto de impacincia.

 No te zangues,
continuou a moa; vais a Minas, e l te demoras o tempo preciso para acalmar
essa pobre moa; voltars depois. Vai, sim?

Vicente fitou em
Clara olhos desconfiados; atravs daquela insistncia ia uma inteno oculta, e
pela primeira vez sentiu cimes.

Parece que a moa
o compreendera logo, porque levantou-se da cadeira em que se achava e lanou ao
rapaz um olhar to soberano e to sincero, que ele sentiu-se envergonhado.

 Bem sei, Clara,
qual  a tua idia. Sentes que eu no v por tua causa; no queres ter o
remorso de haver feito sofrer ningum.

 Quando assim
fosse?... perguntou a moa.

 Era bonito da
tua parte.

Clara sorriu
tristemente.

 Achas bonito?
Eu acho que  simplesmente justo. Que direito tenho eu de fazer sangrar o
corao de uma pobre menina?

 Clara, tu no
me amas, porque o amor  menos filantropo.

A conversa ficou
nisto.

O jantar foi
triste, ambos estavam preocupados.

A verdade  que
as palavras da moa no deixaram de impressionar o rapaz; compreendia ele que
no o haviam de casar  fora, ao passo que a presena dele na fazenda podia
influir beneficamente no nimo da prima.

De noite assentou
que iria a Mar de Espanha.

Fixou a viagem
para da a dois dias.

Clara alegrou-se
com a notcia.

 Que dor me
tiras tu, disse ela; vai, e eu prometo que rogarei a Deus por ti, por ela, e
pela nossa felicidade.

No dia seguinte,
Vicente entrou a fazer os preparativos de viagem; comprou mala necessria, e j
ia com ela atravessando a Rua do Ouvidor, para ir a casa, quando viu  porta do
Hotel de Europa, na Rua do Carmo, um homem falando para dentro de um carro.

Era o capito.

Vicente parou, e
viu da a instantes sair de dentro uma moa alta, mas dbil e plida, em quem
reconheceu Delfina.

A moa entrou
para o hotel acompanhada do pai. Vicente conservou-se alguns instantes parado,
e depois seguiu viagem para a Rua do Passeio acompanhado do preto que lhe
levava a j intil mala.

Contou o caso a
Clara. A moa estremeceu desta vez como se visse o perigo perto e iminente.
Contudo, disse-lhe:

 Pois melhor; em
vez de ires a Mar de Espanha, vais ao Hotel de Europa;  mais perto, e eu tenho
o prazer de saber hoje em que param as coisas.

Era o alvitre
mais natural; Vicente foi ao hotel.

Quando l chegou,
ainda Delfina repousava da viagem; mas o capito recebeu-o tranqilo, seno
alegre.

 Meu tio, disse
Vicente, eu ia partir amanh, vinha com a mala, h pouco, quando o vi entrar
aqui, e mais a prima.

 H tanto tempo
que te escrevi! observou o velho tristemente.

  verdade; mas
eu no pude ir logo como queria. Cresceram-se os trabalhos, e s agora... Onde
est a prima?

A pergunta
relativa  prima era uma necessidade, visto que Vicente mentira por uma triste
necessidade da sua situao. O velho achou natural a pergunta e respondeu:

 Est
descansando.

 Vem doente?
perguntou Vicente depois de alguns instantes.

 Vem; quero consultar
um mdico.

A posio do
rapaz tornava-se embaraada; armara-se de argumentos para paliar os projetos do
tio, e achava o velho a cem lguas do assunto, evitando tocar nele.

Depois de um
silncio, que era de espinhos para Vicente, apareceu finalmente Delfina.

Estava plida e
desfeita; via-se nela os sinais de um sofrimento ntimo e longo. No entanto,
via-se-lhe a beleza em todo o esplendor da virgindade; e a palidez como que lhe
completava as graas, porque assim como as cores vivas so essenciais a certos
tipos de mulher, outros h cujo realce provm do descorado do rosto.

Tinha uns belos
olhos negros, agora um pouco empanados, mas ainda assim serenos e expressivos.
Os cabelos que eram da mesma cor, estavam penteados com graa, e emolduravam
uma testa alta e inteligente.

Quando Delfina
entrou na sala, Vicente fez um pequeno gesto de espanto, que era no somente
produzido pelo aspecto doentio da prima, mas tambm pela beleza desenvolvida
que ele jamais suspeitara na criana que vira havia cinco anos.

Quanto a Delfina,
no pde conter um grito. O pai correu para ela, e Vicente que se tinha
levantado foi direito  prima e estendeu-lhe a mo. A moa apertou-lha com
fora e fitou nele os seus belssimos olhos em que havia tudo, exprobao,
agradecimento, amor.

Durou esta cena
alguns segundos.

 Anda sentar-te,
disse por fim o capito  filha.

O autor de um
romance tem obrigao de conhecer profundamente os seus personagens. Direi de
Vicente, que, se ele tivesse o corao livre, ali mesmo diria:

 Prima, aqui
estou; sou seu esposo.

Quanto a mim,
esta declarao valeria mais que uma consulta do Valado ou do Pertence.

Mas o rapaz no
tinha o corao livre; para que tais palavras lhe pudessem sair da boca, era
necessrio que no tivesse dentro de si um pensamento absoluto e constante: o
amor de Clara.

Delfina, porm,
que, como todos os naufragados, atirava-se  primeira ponta de rochedo,
encheu-se toda com a esperana de que finalmente o seu amor ia ter uma
recompensa.

Vicente jantou l
nesse dia, entre o tio e a prima, alegre porque era mister consolar a enferma,
mas preocupado com a situao que o acaso ou o destino lhe proporcionara.

O capito, apesar
de no crer nem esperar nada da parte do sobrinho, pensou por um instante que
era possvel salvar tudo.

 Se a dvida do
rapaz (pensava ele)  no amar a rapariga, estou que pode vir a am-la, desde
que a vir mais vezes e habituar-se a contempl-la. Nem tudo est perdido.

Esta disposio
de esprito tornou suportveis as horas passadas entre os trs.  noite,
Vicente despediu-se, dizendo que voltaria no dia seguinte.

Ao sair encontrou
um amigo ntimo, a quem confiava todos os fatos de sua vida, e que partilhava
com Clara de sua inteira confiana.

 Ests agora
morando no Hotel de Europa? perguntou-lhe o amigo.

 No; vim ver
meu tio e minha prima.

 Chegaram de
Minas?

 Hoje mesmo.

Seguiram os dois
de brao dado pela Rua do Ouvidor, e como Vicente parecesse triste, o amigo
sacudiu-lhe o brao.

 Que diabo tens
tu hoje? Parece que viste alguma bruxa?

 Correia,
respondeu Vicente, estou numa situao de espinhos.

Correia esticou o
ouvido.

Vicente
contou-lhe tudo. O amigo Correia ouviu a narrao atentamente e concordou com
Vicente que a situao era das mais graves que podem surgir na vida de um
rapaz.

 Que me
aconselhas tu?

 Diversas
coisas; primeiramente o casamento...

 Isso no,
atalhou Vicente.

 Nesse caso,
continuou Correia, nova recusa peremptria.

 Seria mat-la.

 Terceiro
alvitre: no respondas nada, no afirmes nada, no prometas nada. Supe que
ests feito embaixador e que o teu governo te manda ordem de escrever uma resma
de papel em notas diplomticas que no digam coisa nenhuma.  o caso.

 Isso  o que 
difcil.

 Confesso que
sim; mas se fosse fcil, tu no vinhas aconselhar-te comigo. Vai com isto, e
dir-me-s o resultado.

 Por outro lado,
disse Vicente, Clara est a insistir comigo em favor da prima.

 Quer que te
cases?

 No, mas
interessa-se tanto pela sorte da outra, que eu tenho medo de contar-lhe a
realidade.

 No lhe contes
nada,  muito melhor. Isto de mulheres deitam tudo a perder.  capaz de fazer
alguma.

Os dois amigos
chegaram  Rua do Passeio, e estando perto de casa, Correia foi tomar ch com
Vicente. Clara indagou do estado de Delfina e do resultado da entrevista.
Vicente teve o cuidado de dizer que a doena da prima parecia-lhe mais
imaginria que real. Quanto aos sentimentos por ele, no acreditava que fossem
o que supusera. No passava de um capricho de moa.

Correia, como bom
Cireneu, comentou a exposio do amigo com algumas pilhrias relativas ao
desejo que as meninas tm de casar, e com isso acabou a noite e acabou o
captulo.

IV

O capito
Ferreira deixou o Hotel de Europa e foi morar na Rua dos Invlidos. Ao mesmo
tempo mandou chamar o mdico para tratar da filha. No posso, porm, ocultar
que o capito confiava mais que tudo na presena do sobrinho para o
restabelecimento de Delfina; e ao mesmo tempo contava que a moa influsse no
esprito do rapaz uma boa resoluo, e deste modo tudo previa alcanado sem pau
nem pedra.

Vicente no
deixou de visitar freqentemente a famlia; l se demorava horas inteiras,
jantava muitas vezes e retirava-se para casa alta noite, e ao passo que deixava
em casa do tio a alegria e a satisfao, ia encontrar igual satisfao e
alegria na casa dele. Clara era a primeira a insistir com ele para que no
deixasse de visitar com freqncia a casa do tio.

O desinteresse da
moa, posto que magoasse o amor-prprio do rapaz, no deixava de lhe parecer
herico. Ora, justamente estas duas impresses contrrias constituam da parte
de Vicente a principal fora para resistir aos encantos da prima, ao sentimento
de piedade que o estado dela inspirava, e s solicitaes do capito. Clara contara
com isso?  de crer que sim, porque a idia de perder Vicente no a mortificava
nunca, e parecia to longe dela como um plo est do outro plo.

Uma noite,
Vicente, por simples brincadeira, disse a Clara:

 Sabes, Clara?
Vou casar com a prima.

A moa
empalideceu, e como o rapaz lhe visse nos olhos duas lgrimas, prestes a cair,
bebeu-as com dois beijos, e tudo acabou bem como nas comdias.

Correia, porm,
nutria alguma desconfiana de que Vicente viesse a casar com a prima, e
disse-lho francamente uma vez.

 No, respondeu
Vicente,  coisa decidida, no me caso. E Clara... devia acaso abandonar essa
pobre moa?

  verdade que
h essa dificuldade, respondeu Correia, mas quem pode ter mo ao corao? Tua
prima parece-me furiosamente bonita. Vi-a outro dia, quando l passei por casa
dela; a mesma doena d-lhe um encanto novo. Sabes se podes v-la sempre com
esses olhos frios?

 Posso.

 Duvido. No se
resiste a uma moa bonita. Que olhar que tua prima tem!

Vicente ops-se a
todos os receios do amigo, e a sua ternura por Clara crescia  proporo que o
Correia se mostrava receoso.

No  que Vicente
desconhecesse a influncia da beleza de Delfina. Uma noite em que l se
demorara at onze horas, saiu dizendo consigo:

  pena que eu
no esteja livre. Delfina seria uma excelente esposa. Que alma e que beleza!
que ternura e que graa!

Estas mesmas
expresses usava o moo quando falava a Clara de sua prima; um dia, porm, ou
porque quisesse mortific-la, ou por qualquer outro motivo, Vicente deixou de
falar nesse sentido, e da a dias at deixou de tocar no nome de Delfina ou de
coisa que lhe dissesse respeito.

Os leitores
facilmente adivinham a verdade. A doente comeava a influir alguma coisa no
esprito do rapaz. Era natural; no se resiste ao influxo de uma beleza que nos
ama e adoece por ns. A vaidade interessa-se primeiro; depois o corao.

Cumpre dizer,
porm, em honra da lealdade do rapaz, que, apenas entrou a sentir essa
diferena em si, resolveu cortar a intimidade com o capito; para ele era uma
questo de honra resistir aos encantos da amvel prima.

Clara devia
sentir a diferena de Vicente pela ternura demasiada e desusados carinhos com
que ele lhe falava apenas voltava para casa. Parecia que cada vez que saa da
casa da prima tinha um erro a expiar, e fazia-o com sinceridade, porque o seu
amor ainda estava todo com a primeira mulher que soubera apoderar-se-lhe do
corao.

Entretanto,
Delfina ia melhorando a olhos vistos; no fim de um ms estava completamente
restituda  sade; e a alegria, que por tanto tempo se ausentara dela,
voltou-lhe inteira e absoluta.

 que Delfina
acreditava sinceramente na possibilidade de casar com o primo. As maneiras com
que este a tratava no podiam deixar de confirmar aquela esperana,
principalmente depois da certeza que o rapaz tinha de ser amado por ela.

Tambm acreditava
assim o capito, que at chegou a tocar nisso em presena da filha.

 Vicente, quando
ser o dia?

Delfina fitou os
olhos no rapaz, e este, surpreso com a pergunta, receoso pelo efeito de uma
recusa, e mais que tudo sem saber o que havia de dizer, respondeu:

 Talvez...
breve...

A moa palpitou
de alegria.

 intil dizer
que o rapaz no referiu esta cena a Clara, mas referiu-a a Correia, que sorriu
maliciosamente.

 Por que sorris?
perguntou-lhe Vicente.

 Porque me
anunciaste o teu casamento.

 No creio
nisso.

 V-lo-s.

 Respondi aquilo
por no saber o que havia de dizer; mas afiano que no posso casar com a
prima.

 Queres tu que
eu me case?

 Importa-me
pouco, respondeu Vicente.

 Dizes isso com
um ar...

 Ora, um ar!

 No s capaz de
apresentar-me l?

 Hoje mesmo.

 Est dito?

 Est dito.

Nessa noite,
Correia foi apresentado em casa do capito, que o recebeu com extrema
cordialidade. Delfina no simpatizou nada com ele, e teve a franqueza de
diz-lo ao primo.

Sejamos exatos:
Vicente estimou muito a antipatia da moa.

Entretanto, achou
que era compromet-lo, se o dissesse ao amigo. Este, porm, que tinha admirvel
penetrao, logo no dia seguinte, disse a Vicente:

 Tua prima
antipatizou comigo.

 No creias
nisso!

  o que te
digo.

Vicente admirou a
sagacidade do amigo e ao mesmo tempo deu-se por feliz ao ver que ele lhe dava
aquela notcia com a mais perfeita indiferena.

Com efeito,
Correia parecia importar-se tanto com a antipatia de Delfina, como se
importaria com a primeira camisa de Carlos Magno, dado que no fosse amante de
curiosidades histricas.

Era um carter
singular o amigo de Vicente; parecia no ter alma, nem sentimento de espcie
alguma; e entretanto, o sobrinho do capito tirou dele provas de verdadeira
dedicao. H muita gente assim; capaz de sacrificar-se por outrem, fria e
indiferentemente, sem nenhuma dessas expanses que so o verdadeiro toque das
grandes almas. O sentimento de afeio no  um castelo encerrado numa torre
antiga; a sua primeira necessidade  abrir asas por esse espao fora,
comunicar-se a todo o mundo, e, como os pssaros da floresta, segredar a todos
os ecos as alegrias do seu canto.

Correia parecia
estimar igualmente a Clara, por causa do afeto que a prendia a Vicente, e
todavia nunca este viu da parte dele a menor demonstrao de semelhante estima.

Um dia teve a
franqueza de dizer-lho.

Correia sorriu e
respondeu:

 Estimo a vocs
ambos; mas no sei que por isso seja necessrio, nem de bom gosto, andar
abraados a cada instante.

V

O capito
sentia-se feliz.

Dia por dia, a
moa ia melhorando, e a presena de Vicente j lhe no parecia totalmente
indiferente.

 O bicho comea
a morder o corao do rapaz, disse o velho.

A sua convico
era tal que chegou a marcar a poca do casamento de Vicente com Delfina. Era contar
muito com o futuro; e pela sua parte, Vicente jurava entre si que no casaria
nunca com a prima. A verdade, porm,  que j sentia alguma tristeza quando no
estava em casa do tio.

Delfina tinha a
mesma confiana do pai. E os motivos de sua confiana eram outros e mais
poderosos. Era bonita, e tinha a conscincia da beleza; alm disso, era
completa mulher; sabia como se prende um homem a quem se ama  no porque lho
houvessem ensinado, mas simplesmente por intuio.

Nas relaes
criadas na Corte, encontrou uma amiga, moa, solteira como ela, a quem
comunicava todos os pensamentos.

Jlia era o nome
da outra, e tinha um namorado tambm. A diferena  que com Jlia dava-se o
contrrio do que acontecia a Delfina. O doutor Castrioto amava Jlia e esta no
se importava com ele, isto , dizia que no se importava, o que  muito
diferente.

 curioso
transcrever aqui duas cartas de Jlia e Delfina, cheias dessa confiana que d
a situao de duas moas casadeiras.

A primeira carta
 de Delfina e era assim:

Meu bem,

Sonhei esta noite
com ele. Sonhei que nos casvamos, e confesso-te que tive um prazer enorme
nisto. Infelizmente, foi simples sonho.

Tanto eu, como
papai, acreditamos que o resultado de tudo ser o meu casamento com o primo.
Ele vem c todas as noites, e algumas vezes de dia tambm; conversamos muito, e
sobre tudo falo pouco, porque gosto de ouvi-lo.

Ontem, aconteceu
que, achando-nos ss, ficamos algum tempo calados. Por fim, Vicente suspirou.

 Onde vai esse
suspiro? perguntei eu.

 A parte
nenhuma.

 Cuidei que ia a
alguma parte.

 Eu nem sei se
suspirei.

V tu que
velhaco; suspirou e disse no saber se havia suspirado. A conversa ficou nisto;
mas eu suponho que o suspiro veio com direo a mim. Que dizes? Tua Delfina.

A resposta de
Jlia no se fez esperar.

Dizia assim:

Sempre s muito
tola, Delfina. Pois que te importam l os suspiros e os amores do primo? Faze
como eu com o Castrioto, que tanto suspira por que eu o ame, quanto eu suspiro
por ver-me livre dele.

No h nada como
ser solteira, minha amiga;  a liberdade. Estes senhores pilhando-se casados
fazem o diabo, e ns padecemos.

Tenho exemplos
disto; e voc diz: quem v as barbas do vizinho arder pe as suas de molho.

Eu c j as
pus...

 verdade que se
papai insistir em que eu case com o Dr. Castrioto, no terei remdio seno
casar; mas com uma condio:  que ele no h de escrever uma linha sequer. No
sabes? O Castrioto  escritor; deu em romancista. s vezes aparece c em casa
com uns rolos de papel e l aquilo tudo na sala, que  um aborrecimento, exceto
para o papai que acha que ele  um grande talento.

Ser bonito,
acredito; mas por escrever... antes o Alexandre Dumas.

Vem jantar c
domingo. Danaremos. Tua Jlia.

A carta de Jlia
est indicando na moa um desses espritos galhofeiros, incapazes de tomar a
vida a srio. O pobre Castrioto, se viesse a casar com ela, faria uma grande
tolice... se  que no era ele mesmo um grande tolo, coisa que veremos pelo
romance adiante.

O jantar de
domingo reuniu em casa de Jlia a famlia do capito Ferreira, Vicente e
Correia. Este, porm, retirou-se logo depois do jantar, dizendo que se achava
doente.

O pai de Jlia
era um velho bem apessoado, lhano, expansivo, mas com pouca instruo e nenhum
gosto, razo pela qual acreditava no talento de Castrioto.

No fim do jantar,
foram todos para a sala, e conversou-se alegremente sobre os sucessos do dia. O
capito contava anedotas; Delfina conversava com Vicente; Castrioto suspirava a
um canto. Jlia ia de um a outro grupo, alegre e descuidada, sem dar sequer
pelo namorado.

De repente,
Alvarenga (era o pai da amiga de Delfina) diz em voz alta a Castrioto:

 Dr. vamos 
obra.

Castrioto levantou-se.

 O Dr.
Castrioto, continuou Alvarenga, vai regalar-nos com a leitura de um romance. 
um grande talento, capito; os seus romances so magnficos.

 Que grande
maada! disse Jlia aproximando-se de Delfina e Vicente.

 Olha que ele te
ama! observou Delfina.

 Importa-me
pouco!

  assim to
cruel? perguntou Vicente.

 Com um maante,
sou.

 No zombe,
minha senhora, disse Vicente sorrindo.

No entanto,
Castrioto meteu a mo na algibeira e tirou um rolo de papel. Jlia soltou um profundo
suspiro; uma tia dela, que gostava imensamente dos romances do rapaz, abriu um
sorriso de contentamento; Alvarenga sorveu uma pitada, e convidou Castrioto a
sentar-se em posio de ser ouvido por todos.

Houve grande
rumor de cadeiras, de vestidos e de sapatos. Jlia, com grande m vontade, no
achava lugar capaz e agitava-se toda. Por fim sentou-se dizendo a Delfina:

 Deixa estar que
eu o curo.

Acomodaram-se
todos.

Castrioto
desenrolou as tiras, fato este que produziu um calafrio em Vicente.

 Como se chama
este novo romance? perguntou Alvarenga.

 Chama-se: Os
primeiros amores de um rapaz ou Os destinos escritos.

 Bonito! disse
Jlia com um sorriso de escrnio.

Castrioto no
compreendeu a inteno e agradeceu com a cabea.

Depois tossiu e
leu o que se segue:

Aquele dia
acordei cedo. Trouxe-me o moleque  cama uma cartinha delicadamente fechada e
recendendo a baunilha. Pensaram que era de alguma dama? No; era de meu amigo
Oliveira: antes de conhecer-lhe a letra, tinha-lhe conhecido o perfume.

A carta dizia
assim:

Adiou-se a ceia
de hoje: fica para quinta-feira. Mas no chores, temos compensao. Meu tio, o
desembargador, d hoje uma partida e quer por fora que venhas passar a noite
conosco. Tanto lhe falava em ti que o velho ficou com vontade de conhecer-te.
Contamos contigo. Adeus. Oliveira.

Tinha eu ento
vinte anos. Nessa idade no se discute o prazer; aceita-se sob todas as formas.
A partida compensava a ceia. Verdade  que a ceia tinha para mim um atrativo
singular, o atrativo da curiosidade. At ento contentava-me eu em fazer
pequenas excurses  famosa terra: aportava de manh e fazia-me ao largo de
tarde; outras vezes dava  navegao o sentido inverso. Mas que era isso para
conhecer tamanho mundo e to variada gente?

Afora esta
curiosidade, toda infantil, a ceia no valia para mim mais do que a partida.

Preparei-me 
noite e fui  casa do desembargador, que era na Rua dos Invlidos.

Havia pouca
gente; via-se que a assemblia tinha um carter ntimo.

As moas oravam
por vinte, e eram todas elegantes e bonitas. Havia alguns rapazes e poucos
velhos, todos mais ou menos aparentados com o desembargador.

Oliveira esperava
por mim com ansiedade, posto no fosse tarde.

Vendo-me entrar
risonho, exclama:

 Bravo! cuidei
que viesses triste.

 Por qu?

 Por causa da
transferncia.

 Ora!

Oliveira levou-me
ao desembargador. Era um bom velho, uma dessas velhices que indicam ter havido
tranqila mocidade. O desembargador apertou-me as mos com efuso; disse-me que
o sobrinho lhe falara de mim por modo que lhe espicaara a curiosidade.

 Por qu?
perguntei eu sorrindo.

 Porque adivinho
que o senhor  um moo.

Esta frase, que
eu teria compreendido agora, confesso que no a compreendi ento. Mas sempre me
pareceu que o velho me fazia um elogio e agradeci inclinando a cabea.

 Deixe-me
apresent-lo a estas moas.

O desembargador
deu-me o brao e foi apresentar-me primeiramente s filhas, e depois a todas as
outras damas. Depois de apresentar-me  ltima, voltou-se para o sobrinho, que
se achava perto e disse-lhe:

 Falta uma!

 Falta D.
Helena, respondeu Oliveira. Est tardando. Querem ver que no vem?

A Helena em
questo chegou da a meia hora pelo brao de um velho calvo e baixinho. O velho
era o pai da moa. Soubemos ento que a demora tinha sido por causa da ausncia
do pai, que era jurado e nesse dia entrara no conselho que julgara um crime de
estelionato, processo clebre.

Como o
desembargador me havia apresentado ao pai e  filha, deixei que o pai narrasse
ao desembargador as peripcias do tribunal, e fui conversar com a filha e
Oliveira que nesse momento tinham passado a uma saleta, onde havia outras moas
entretidas em mil importantssimas inutilidades.

Oliveira,
inebriante de baunilha, tinha-a nos cabelos, no leno e nas mos. Creio at que
a tinha nas palavras. A conversa, quando eu cheguei, versava justamente sobre o
perfume favorito de Oliveira. Afirmava este que o primeiro perfume da criao
era a baunilha; uma prima dele optava pela violeta; eu manifestei francamente a
minha preferncia pelo sndalo.

Helena no dava
opinio.

Como eu lhe
perguntasse diretamente o que pensava daquele conflito, respondeu-me:

 Pela minha
parte gosto de todos os perfumes; acho-os todos bons...

Estas palavras
disse-as ela sorrindo, e eu sorrindo as ouvi, ainda que j me no agradasse a
universalidade do seu gosto. Pareceu-me que ela desdenhava aquele gnero de
conversa. A suspeita feriu-me os brios, e eu entrei com ardor na defesa da
opinio que havia manifestado. O sndalo levou-me naturalmente a falar do
Oriente, e creio que disse coisas bonitas porque os ouvintes tiveram a bondade
de interromper-me com demonstraes de agrado.

Quanto a Helena,
ouviu-me silenciosamente, e como o piano, apenas eu acabara de falar, comeava
o preldio de uma quadrilha, a nica manifestao de aplauso que ela me deu foi
voltar-se para Oliveira e dizer-lhe:

  a nossa.

Oliveira
voltou-se para mim dizendo:

 s meu
vis--vis.

Fui ver um par, e
a quadrilha comeou.

Nisto...

A leitura do
romance foi interrompida. Jlia tivera um ataque de nervos que durou alguns
minutos; quando veio a si, estava a moa plida e mais interessante do que era.

Castrioto, que
como autor que era, no perdoaria a interrupo, perdoou-a  moa por ser quem
era.

Quando Jlia
ficou boa, todos se alegraram; e como Delfina fosse abra-la, ela disse-lhe ao
ouvido:

 Isto no foi
ataque; foi s para acabar com a tal leitura.

Vicente ouviu as
palavras de Jlia.

  muito cruel,
disse-lhe ele; no se paga assim a quem ama.

 Ento como ?
perguntou a filha de Alvarenga.

Vicente no
respondeu, mas olhou para Delfina que nesse momento olhou para ele.

Aquele olhar
decidiu o destino.

VI

Vicente comunicara
a Clara todos os incidentes de sua vida; entretanto, a pouco e pouco j no lhe
contava mais o que se passava em casa do tio.

A moa no
reparou nisso ao princpio; mas o prolongado silncio fez-lhe entrar a suspeita
no corao.

Quando ela
perguntava ainda pelos amores de Vicente com a prima, Vicente respondia que no
pensasse em semelhante coisa, mas no acrescentava mais nada.

Clara cada vez
suspeitava mais.

E tinha razo.

As carcias de
Vicente j no eram as mesmas; as suas ausncias eram cada vez mais freqentes.
Algumas vezes saa de manh s sete horas e s voltava  uma da noite.

No esprito de
Clara ia-se formando a convico de que o amor de Vicente por ela estava
acabado.

A convico
completou-se numa noite em que l apareceu Correia.

 J sei que
Vicente no est c, disse ele entrando.

  verdade,
respondeu Clara, folheando o livro em que lia quando Correia apareceu na sala.

 H de estar na
casa do tio.

E sentou-se.
Houve um silncio. Foi Clara que o rompeu:

 Tenho pena da
prima de Vicente, disse ela.

 Por qu?
perguntou Correia.

 Aquele amor...

 H de ter bom
pago.

 No zombe dela,
disse Clara.

 Pelo contrrio,
no zombo; digo que h de ter bom pago, porque h de vencer. O Vicente mais
tarde ou mais cedo est casado.

 Com ela?

 Salvo se for
comigo.

Clara
empalideceu.

 Mas que espera,
voc, de tudo isto, Clara? perguntou Correia. Era natural; ser amado por uma
rapariga bonita, e v-la todos os dias,  coisa a que se resista?

 Mas por que no
me disse ele isso? perguntou Clara com lgrimas na voz.

 Coitado!
exclamou Correia, sabe Deus o que lhe custar a ele.

Correia continuou
as suas confidncias deste modo, concluindo como todos os intrigantes:

 No diga que eu
lhe falei nisto.

 No, respondeu
Clara.

Com efeito, Clara
nada disse a Vicente; apenas quando ele chegou achou-a um pouco mudada; e digo
achou-a, porque esse era o estado dela, no que ele reparasse nisso.

A indiferena do
rapaz foi o pior de todos os golpes.

No esprito de
Clara o seu romance tinha chegado ao ltimo captulo.

Ao comear um
novo amor, Vicente nem sentia os remorsos de ter esquecido aquela que lhe
enchera os primeiros dias de mocidade.

Egosmo do corao
humano!

A lei  fatal; o
amor  isto: um sentimento exclusivo, que nada reconhece diante de si, capaz de
grandes dedicaes mas tambm capaz de grandes ingratides.

Clara
reconhecia-o agora.

Cuidava que a sua
felicidade seria eterna, e via finalmente que nada  eterno nas coisas humanas.

Cumpre dizer que
estes primeiros desencantos se passaram antes da cena em casa de Jlia e do
olhar trocado entre Vicente e Delfina. Aquele olhar foi a data verdadeira do
amor entre os dois primos.

Quando se deu
esta cena, Clara parecia reconciliada com o destino. De triste que andara
fizera-se alegre como antigamente.

Vicente, que no
havia reparado na tristeza, reparou na alegria. Explique quem quiser o
fenmeno; o certo  que foi ao voltar a alegria da moa que ele reparou que ela
andava melanclica.

Por que a sbita
tristeza? por que a sbita alegria?

A tristeza, essa
explicava-a Vicente; era naturalmente o fruto de suas prolongadas ausncias.
Mas a alegria sbita, sem que ele houvesse mudado o seu procedimento, e pelo
contrrio, quando comeava a amar verdadeiramente a outra? Que causa teria
isto?

Vicente
interrogou a moa.

Interrogou no 
o termo.

Sondou o terreno.

 Andas muito
alegre, Clara, disse ele um dia de manh, indo almoar.

 Por que no?

 Tens algum
motivo?

 Que pergunta!
No tendo motivo para estar triste,  natural que esteja alegre.  o meu estado
habitual.

A resposta no
satisfez o rapaz. Imaginou que algum motivo haveria estranho  casa. Qual?

Conquanto amasse
j a prima, Vicente sentira-se mordido pelo cime. Mas como era um esprito
fraco, incapaz de resolver por si, consultou o amigo Correia, o qual lhe
respondeu simplesmente:

 Se tens alguma
suspeita, no percas a rapariga de vista. No te deixes enganar. Mas, para
isso,  mister no andares por fora, e isso...

  impossvel!

 Quando te
casas?

Vicente sorriu e
no respondeu palavra.

Nessa noite, o
capito disse ao sobrinho que era necessrio separar-se de Clara, no caso de
amar Delfina, o que lhe parecia coisa certa e definitiva.

O sobrinho corou,
mas no contestou.

Separar-se de
Clara! Vicente no pensara nesta condio, alis naturalssima. Nesse momento,
travou-se-lhe no esprito uma grande luta. Comeou a reparar que no se quebram
facilmente laos to longamente formados.

 Devo faz-lo,
dizia ele consigo; mas terei foras para tanto? E ela! coitadinha!

Pensando nisto,
voltou para casa mais cedo; e querendo causar uma surpresa  rapariga entrou p
ante p na sala de visitas.

Clara estava
lendo uma carta aberta sobre as pginas de um livro.

Apenas o viu
soltou um pequeno grito, e fechou o livro com a carta dentro.

Vicente
empalideceu.

Mas ela o recebeu
to amavelmente, pareceu to isenta de culpa, que o rapaz julgou dever
mostrar-se sem nenhuma suspeita, e rir como se nada houvesse.

Riu alegremente.

Mas nem os olhos
dele nem os dela perdiam de vista o livro fechado sobre a mesa.

Vicente quis
tentar uma experincia e ps a mo sobre o livro olhando fixamente para Clara.

Esta empalideceu.

No havia dvida.

 Que tens?
perguntou Vicente.

 Nada; uma dor
repentina. Vai buscar-me um pouco de gua-de-colnia l no toucador.

Vicente levantou-se,
e sem deixar o livro foi ao toucador buscar a gua-de-colnia.

A presumida dor
de Clara passou pouco depois e Vicente, posto no houvesse necessidade, quis ir
levar o frasco da gua para o toucador.

Quando l chegou
abriu o livro, tirou a carta e voltou para a sala, pondo o livro em cima da
mesa.

A moa respirou.

Mas quando ela
abriu o livro, no achou coisa nenhuma.

 Vicente, disse
ela, tu guardaste um papel que estava aqui?

A audcia
desarmara o rapaz.

 Guardei, disse
ele, tirando a carta da algibeira, e confesso que o fiz por ter curiosidade de
ver o que estavas lendo com tanta ateno.

Abriu a carta e
leu; era uma declarao, mas em letra visivelmente disfarada.

 Que te parece?
perguntou Clara.

 De quem  esta
carta?

 No sei.
Mandaram-me h pouco. No achas engraado este sujeito, quem quer que ?

Vicente no
respondeu nada; mas a suspeita l ficou como dantes.

Quem explicar
todas estas inconseqncias do corao humano? Vicente, quase noivo de Delfina,
teve cimes de Clara; o amor passou ao segundo plano; agora, tratava-se de uma
ofensa que ele supunha aviltante.

De maneira que,
no s cuidou na inevitvel separao para o seu casamento, como at comeou a
rarear as visitas  casa do tio.

Debalde o capito
perguntava a Correia os motivos da ausncia do sobrinho e das curtas visitas
que lhe fazia.

Correia respondia
que ignorava tudo.

s vezes a sua
resposta era simplesmente abanar a cabea.

Delfina tambm
recorria ao amigo de Vicente para indagar dele, e Correia, com a discrio
prpria dos indiscretos, respondia com um sorriso ou um monosslabo.

Mas quando a
filha do capito o incumbia de alguma misso delicada, como a de ir buscar o
moo, dissuadi-lo de idias contrrias ao casamento, que porventura ele
tivesse, etc., Correia desempenhava-se sempre por modo que conquistava a
gratido da moa.

De maneira que,
um belo dia, o antiptico Correia era simplesmente o homem mais simptico do
Rio de Janeiro.

Era com ele que
Delfina conversava mais vezes, por ser amigo ntimo de Vicente. Alm dele, s
Jlia recebia as ntimas confidncias do corao. Quanto ao pai, no as recebia
todas.

Jlia, que era um
verdadeiro diabrete, teve um dia a desastrosa idia de dizer a Delfina:

 Admira-se esse
amor por teu primo!

 Por qu?
perguntou a moa.

 Aparece to
poucas vezes!

 Sim, h dias.
Naturalmente tem que fazer; mas que tem isso? Eu sei que ele me ama.

 No creio.

 Por qu?

 Porque se te
amasse no deixaria de estar ao p de ti, adivinhar os teus desejos,
obedecer-te em tudo como, por exemplo, o Correia...

 O Correia?

 Viste algum
rapaz mais atencioso que ele? Quem no soubesse, pensaria que o noivo era ele e
no esse fugitivo Vicente... Por que te no casas com o Correia?

 Credo! exclamou
Delfina.

 Por que no? 
repugnante?

 Pelo contrrio,
 um belo rapaz... mas...

 Mas...

 Eu amo ao
outro.

 Isso de amar o
outro, quando o outro no se importa contigo...  tolice.

Quando nessa
noite Correia apareceu em casa do capito, as primeiras palavras que proferiu
foram que Vicente no podia vir.

Delfina ficou
triste.

Mas Correia
tratou-a com todas as atenes, procurou distra-la com tanta delicadeza, que a
rapariga reparou ento no que Jlia lhe havia dito.

Havia com efeito
nas maneiras e na assiduidade de Correia alguma coisa que contrastava com a
ausncia e o proceder incompreensvel de Vivente.

 Quem sabe,
pensou Delfina, se ele no me ama?

Era preciso que a
moa estivesse muito absorvida no amor por Vicente, para no reparar nisso,
caso fosse exato o amor de Correia.

Mas parece que
era, ou parecia s-lo, visto que ela assim se convenceu depois de um exame de
dois dias.

 impossvel que
uma mulher, nas condies de Delfina, tenha dio a um homem s pelo crime de
am-la.

 crime que se
perdoa.

Delfina perdoou
ao rapaz.

 Mas no basta o
perdo, disse-lhe Jlia quando ela lhe falou a respeito de Correia.

 Ento que mais?
perguntou Delfina.

  preciso
am-lo.

 Ests tola!

Vicente
continuava a ir  casa do tio, mas sempre triste e preocupado; em casa dele
sentia-se o mesmo. De Roma chorava Tibur; de Tibur chorava Roma.

A preocupao do
rapaz, as suas freqentes distraes, as prolongadas ausncias, tudo isso foram
outras tantas causas de esfriamento entre ele e Delfina. A moa sonhara de
longe outro primo; aquele sara-lhe um tanto fantstico, j desvelado, j
esquecido, sem estabilidade nenhuma.

Ao lado dele,
Correia sempre pressuroso e delicado, pronto sempre para adivinhar-lhe os
pensamentos. A comparao no podia deixar de ser contrria ao primo.

Em suma, no fim
de dois meses estava entabulado o mais formidvel namoro entre Correia e
Delfina.

Aqui, o leitor h
de ficar admirado de ver uma moa que quase morre de amores por um rapaz,
apaixonar-se rapidamente por outro.

Que quer? A coisa
passou-se assim; eu estou contando a histria de pessoas que conheo, no
acrescento nem suprimo nada.

VII

O que se ter
passado entre Vicente e Clara?

As suspeitas de
Vicente no tiveram para alimentar-se nenhum acontecimento positivo; mas a
verdade  que continuavam a existir no esprito dele, e as reiteradas carcias
da moa longe de dissuadi-lo mais o confirmavam.

Quando se
encontrava com Correia, este sempre lhe perguntava:

 E Clara?

 Est boa.

 Esto bem
vocs?

 Assim, assim...

 Continuam as
tuas suspeitas...

 Infelizmente.

Correia suspirava
e respondia:

 Isto de
mulheres!...

Apertava a mo de
Vicente com ar de homem que d psames e retirava-se.

Vicente,
dedicado, terno, meigo no amor, era brutal no cime. Clara sentia-o agora.
Longe de receber as suas carcias com boa cara, Vicente maltratava a rapariga
com palavras duras e inconvenientes.

O menor gesto de
Clara era para ele objeto de suspeita; um sorriso  janela, um recado a alguma
amiga, um papel que lesse, tudo enfim lhe parecia sintoma de outro amor
estranho ao seu.

A pouco e pouco
este procedimento de Vicente foi tornando o corao de Clara mais indiferente
ao amor dele.

Mas a verdade 
que os cimes de Vicente teriam causado profunda alegria na alma de Clara,
porque eram prova cabal de ter cessado o amor pela prima, se no fosse uma
circunstncia importante do romance, a saber: que a carta, a clebre carta que
a moa estava lendo na noite em que Vicente entrou repentinamente em casa, essa
carta era justamente uma declarao de amor.

A pessoa que a
escrevera tinha escrito outras mais que chegaram s mos de Clara, a despeito
da extrema vigilncia de Vicente.

Clara sentia-se
presa a outro pelos mesmos laos que a prenderam a Vicente.

Este tinha apenas
o amigo Correia com quem desabafar as suas mgoas. Ora, Correia,  noite, era
sempre encontrado em casa do capito, de maneira que muitas vezes Vicente l ia
com o nico fim de ver Correia.

E tanto no o
dissimulava que algumas noites a sua visita limitava-se a conversar uma larga
meia hora com Correia e sair pouco depois.

O conselho de
Correia era que convinha redobrar de vigilncia.

O capito
Ferreira no s notou as ausncias prolongadas e as curtas visitas de Vicente,
mas tambm reparou nas visitas multiplicadas e longas de Correia.

O velho estimava
muito o sobrinho e quisera favorec-lo, cedendo aos desejos da filha; mas,
desde que reparou no namoro de Delfina, entendeu que convinha auxili-lo, a fim
de concluir depressa um casamento que, entre outras felicidades, tinha a de
faz-lo voltar  fazenda.

Por sua parte,
Jlia intercedia em favor dos namorados, e o velho capito, que gostava da
moa, prometia-lhe tudo quanto esta lhe pedia.

Os amores de
Correia e Delfina eram definitivos. Correia uma noite perguntou positivamente a
Delfina se podia ir pedi-la ao pai.

Ela respondeu que
sim.

Quando Jlia
soube disso bateu palmas de contente.

 Mas por que
ests contente agora, e no estavas quando se tratava de casar-me com o
Vicente?

 Porque este
implorou o teu amor; e eras tu quem imploravas o do outro.

 S por isso?

 S.

 Criana!

 E a prova  que
eu estou disposta a consentir que o Castrioto pea a minha mo. J implorou
bastante.

Jlia assim o
fez, e eu deixo  imaginao dos leitores calcular a alegria do fecundo
romancista.

 Ah! disse ele,
isto vai dar-me assunto para umas bonitas pginas!

 Menos isso,
disse Jlia. Casar comigo se no escrever romances.

 Mas, se  uma
vocao! replicou Castrioto.

 Ah! disse
Jlia, o senhor ama perfeitamente bem, mas escreve perfeitamente mal!

Assentado esse
ponto, Castrioto pediu a mo de Jlia que lhe foi concedida imediatamente.

Nesse dia o nosso
romancista no jantou.

VIII

O leitor j h de
ter notado o procedimento ambguo e obscuro de Correia: ora animava o namoro de
Delfina e Vicente; ora aconselhava ao amigo que no perdesse Clara de vista.

Quando estava com
Clara, lanava-lhe no esprito o grmen da suspeita.

Finalmente, por
vontade ou no, fizera com que Delfina se apaixonasse por ele; e um belo dia
resolveu ir pedi-la ao pai.

Eu podia
dispensar-me de dar as razes deste procedimento do rapaz. No era ele amigo de
Vicente? A utilidade de um amigo, em geral, no  outra. Entretanto, convm dar
dois motivos capitais.

O primeiro era a
riqueza de Delfina, herdeira nica do capito Ferreira; a outra era uma ofensa
praticada por Vicente contra a pessoa de Correia.

Ofensa grave,
questo de honra? No; uma simples ofensa de amor-prprio. Correia nunca lha
perdoou. O momento era azado para vingar-se.

Quando Correia
pediu ao capito a mo de Delfina, este no se mostrou surpreso; adivinhara o
amor dos dois, e, visto que a filha se dispunha a casar com o outro, abandonou
a causa do sobrinho, que alis no o interessava.

 Ela gosta do
senhor, disse o capito.

 No sei.

 Gosta que eu
sei. Pela minha parte no me oponho; casem-se e sejam felizes.

Unicamente, para
aceder  formula, mandou chamar a filha e declarou-lhe o pedido que Correia lhe
fizera. A menina baixou os olhos;  do programa; e murmurou um sim to sumido
que parecia no vir de dentro dalma quando no vinha doutra parte.

 Meu caro genro,
disse o capito sentenciosamente, guardado est o bocado para quem o h de
comer. Vim  corte para que Delfina casasse com Vicente, e vou para a roa com
o genro que no esperava nem conhecia. Digo isto porque eu volto para a roa e
no posso separar-me de Delfina.


Acompanh-lo-ei, respondeu Correia.

O capito achou
conveniente participar a Vicente o casamento da filha, mas desde logo viu o que
havia de delicado naquilo, no porque cuidasse ferir-lhe o corao, j livre de
uma momentnea impresso, mas porque sempre lhe seria ferir o amor-prprio.

Havia trs dias
que Vicente no aparecia.

 Ia escrever-te,
disse o capito.

 Por qu?

 Dar-te uma
notcia de que te vais admirar.

 Qual?

 Delfina
casa-se.

 A prima?

 Sim.

Houve um pequeno
silncio; a notcia abalou o rapaz, que ainda gostava da moa, apesar dos
cimes por Clara.

O velho esperou
alguma observao por parte de Vicente, e vendo que ela no aparecia,
continuou:

  verdade,
casa-se daqui a dois meses.

 Com quem?
perguntou Vicente.

 Com o Correia.

Quando Vicente
perguntou pelo noivo de Delfina, j o desconfiara, por se lembrar de que uma
noite reparara em certos olhares trocados entre os dois.

Mas a declarao
do tio no deixou de o abalar profundamente; um pouco de amor e um pouco de
despeito causaram essa impresso.

A conversa ficou
neste ponto; Vicente saiu.

Compreende-se a
situao do rapaz.

Quando saiu da
casa do tio, mil idias lhe tumultuavam na cabea. Queria ir brigar com o
rival, reclamar de Delfina a promessa tcita que lhe fizera, mil projetos,
todos mais extravagantes uns que outros.

Na posio em que
se achava, o silncio era a melhor soluo. Tudo mais era ridculo.

Mas o despeito 
um mau conselheiro.

Agitado por esses
sentimentos, entrou Vicente em casa, onde ao menos no encontrava o amor de
Clara.

A moa com efeito
estava cada vez mais fria e indiferente ao amor de Vicente. No se alegrava com
as suas alegrias, nem se entristecia com as suas tristezas.

Vicente passou
uma noite de desespero.

Preparava-se
entretanto o casamento.

Vicente achou que
no devia voltar  casa do tio, nem procurar o feliz rival. Mas oito dias
depois de saber oficialmente do casamento de Delfina, recebeu ele de Correia a
seguinte carta:

Meu Vicente,

Tenho hesitado em participar-te
uma notcia de que alis j ests inteirado; caso-me com tua prima. Eu nunca
teria pensado em semelhante coisa, se no visse que tu, depois de um ligeiro
namoro, ficaste indiferente ao destino da moa.

 claro que j te no importas com
ela.

O fato de no a amares abriu a
porta ao meu corao, que desde muito se sentia impressionado.

Amamo-nos ambos, e o casamento
ser daqui a cinqenta dias.

Espero que o aproves.

J era teu amigo; agora fico sendo
teu parente.

No precisava isto para apertar os
laos de amizade que nos unem.  Teu Correia.

Vicente leu
pasmado esta carta em que a audcia da hipocrisia no podia ir mais longe.

No respondeu.

 Deste modo,
pensou Vicente, ele compreender que o desprezo e vir talvez pedir-me uma
explicao.

Nisto enganou-se
o rapaz.

Correia no
pediria explicaes, nem esperava resposta  carta. A carta era mais um ato de
insolncia que de hipocrisia. O rapaz queria machucar completamente o amigo.

Vicente esperou
debalde uma visita de Correia.

A indiferena
exasperou-o ainda mais.

Acrescente-se a
isto a situao dele em relao a Clara, que era cada vez pior. Dos arrufos
tinham passado s grandes rixas, e a ltima fora revestida de graves
circunstncias.

Chegou finalmente
o dia do casamento de Delfina.

Jlia escolheu
tambm esse dia para casar-se.

Os dois
casamentos se fizeram na mesma igreja.

Estas
circunstncias, alm de outras, aproximaram Correia de Castrioto. Os dois
noivos trataram juntos dos preparativos da festa dupla em que eles eram heris.

Na vspera do
casamento, Castrioto foi dormir em casa de Correia.

 Conversemos das
nossas noivas, disse Correia ao romancista.

 Apoiado,
respondeu este.

Com efeito, l se
apresentou s dez horas, depois de sair da casa de Alvarenga, onde se despedira
da namorada pela ltima vez, para cumpriment-la no dia seguinte como noiva.

 Com que ento
amanh, disse Correia, estamos casados.

  verdade,
respondeu Castrioto.

 Ainda me parece
um sonho.

 E a mim! Pois
h seis meses que namoro esta moa sem esperana de conseguir nada. O senhor 
que andou depressa. To feliz no fui eu, apesar dos meus esforos.

  verdade;
amamo-nos depressa; e muito. Quer que lhe diga?  um pouco esquisito isto de
dormir solteiro e acordar noivo. Que lhe parece?

  verdade,
respondeu Castrioto, em voz surda.

 Que tem, amigo?
Parece que isso lhe traz idias sombrias... Vejo-o pensativo... Que tem?

Depois de algum
silncio Castrioto respondeu:

 Eu lhe digo.
Minha noiva casa-se comigo mediante uma condio.

 Uma condio?

 Dolorosa.

 Meu Deus! que
ser?

 A de no
escrever mais romances.

 Oh! mas parece
que a noiva vale a condio, disse Correia sustando uma gargalhada.

 Vale, respondeu
Castrioto, e por isso aceitei-a.

 E depois l
para diante...

 No; aceitei a
condio, hei de cumpri-la. E  por isso que eu, nesta hora solene em que me
despeo da vida de solteiro, quero ler-lhe o meu ltimo romance.

Dizendo isto,
Castrioto tirou do bolso um formidvel rolo de papel, cujo aspecto fez empalidecer
o hspede.

Batiam onze
horas.

A leitura do rolo
no levava menos de duas horas.

Correia achou-se
num destes momentos supremos em que toda a coragem  necessria ao homem.

Mas de que valia
a maior coragem deste mundo contra um mau escritor que est disposto a ler uma
obra?

Castrioto
desenrolou o romance, dizendo:

 O ttulo deste
: Os perigos do amor ou a casa misteriosa.

Correia no podia
escapar ao perigo da leitura.

Entretanto, para
servi-lo, pediu licena a Castrioto para pr-se  fresca e deitar-se no sof.

Feito isto, deu
sinal a Castrioto para comear.

O romancista
tossiu e entrou a ler o romance.

Quando acabou o
primeiro captulo, voltou-se para Correia e perguntou-lhe:

 Que lhe parece
este captulo?

 Excelente,
respondeu Correia.

Comeou o segundo
captulo com entusiasmo.

 Que lhe parece
este captulo?

Nenhuma resposta.

Castrioto
aproximou-se do hspede; dormia a sono solto.

 Miservel! disse
o romancista, indo deitar-se na cama de Correia.

IX

O dia seguinte
era o grande dia.

Para os noivos
levantou-se o sol como nunca; para Vicente jamais a luz do sol lhe pareceu to
irnica e zombeteira.

A felicidade de
Correia aumentava o despeito do rapaz e dava maiores propores ao desdm com
que o rival o tratava.

Por compensao,
alis fraca em tais circunstncias  Clara mostrava-se nesse dia mais solcita
e amvel que nunca. Acordou cantando e rindo. Com o humor da rapariga diminuiu
um pouco o aborrecimento de Vicente.

Vicente resolveu
no sair nesse dia, e entregar-se todo  companhia de Clara. Mas, de repente,
pareceu-lhe que a alegria da moa era um insulto ao seu despeito, imaginou que
ela zombara dele.

Disse-lho.

Clara ouviu a
censura com altivez e silncio.

Depois sorrindo
desdenhosamente:

 s um
extravagante...

Vicente
arrependeu-se; quis pedir perdo  moa da suspeita, mas isso seria complicar o
ridculo da situao.

Preferiu
calar-se.

 Afinal de
contas, disse ele, que me importa a mim o casamento? No casei porque no
quis...

E atirou-se a um
livro para ler.

No leu; folheou
pginas conduzindo os olhos maquinalmente.

Fechou o livro.

Acendeu dois
charutos e apagou-os logo.

Pegou em outro
livro e acendeu outro charuto, e repetiria a cena se no viesse o almoo
dar-lhe uma distrao.

Ao almoo
mostrou-se alegre.

 Sabes que estou
com grande apetite? disse ele a Clara.

 Sim?

  verdade!

 Por qu?

 Eu sei l! 
porque estou feliz.

 Ah!

 Feliz,
continuou Vicente, porque depois de tantos trabalhos estou ao p de ti, e s a
ti perteno.

A moa sorriu.

 Duvidas?
perguntou ele.

 No duvido.

Vicente
continuou:

 Confesso-te que
durante algum tempo estive quase obedecendo ao tio, tais eram as insistncias
dele para que eu me casasse com a deslambida da prima. Felizmente ela
namorou-se do outro; estou livre.

 Olha que rompes
o guardanapo...

Vicente com
efeito dera grande puxo no guardanapo...

A tranqilidade de
Clara contrastava com a agitao de Vicente, e era essa tranqilidade, um pouco
cmica, que o despeitava ainda mais.

O dia passou-se
do mesmo modo.

Depois de jantar
Vicente disps-se a dormir.

 Dormir!
exclamou Clara. H de fazer-te mal.

 Qual!

 Olha, vai dar
um passeio;  melhor...

 Queres ver-me
pelas costas?

 Se cuidas que 
isso, fica.

 Estou
brincando.

Vicente estava
morto por sair.

Ao chegar  rua
fez mil projetos. O primeiro foi ir  casa do tio; mas arrependeu-se logo, antevendo
o ridculo da cena.

Achou melhor ir a
Botafogo.

J ia entrar num
tlburi, quando o projeto lhe pareceu insuficiente.

 Nada;  melhor
ir  igreja; assistirei ao casamento, e ameaarei o Correia; porque aquele
patife h de pagar-me!

Encaminhou-se
para a freguesia de Santo Antnio, mas parou no caminho.

 Que irei l
fazer?

Nestas
alternativas escoou-se a hora.

 noite
encaminhou-se para a Rua dos Invlidos, onde morava o tio, e logo de longe viu
a casa iluminada.

Vicente teve um
movimento de furor; levantou o punho fechado e atirou  rua o chapu de um
sujeito que passava.

 Maluco!

Vicente, que
estava desesperado por descarregar em algum a raiva que tinha dentro de si,
voltou-se para o sujeito e perguntou-lhe a quem dirigia aquele epteto.

 Ao senhor!
respondeu o indivduo.

Vicente
agarrou-lhe a gola da casaca, e j fervia o soco quando algumas pessoas
intervieram e os separaram.

Apaziguado o
conflito e dadas as explicaes, seguiu Vicente pela rua adiante e deu acordo
de si em frente da casa do tio.

A casa estava
cheia.

De longe viu
sentados em um sof Correia e Delfina. A moa estava radiante de beleza.

Vicente mordeu o
lbio at deitar sangue.

Contemplou aquela
cena durante alguns instantes e seguiu adiante absorto em suas meditaes.

Justamente na
ocasio em que principiou ele a andar, bateu-lhe em cheio a luz de um lampio,
e Correia disse baixinho  noiva:

 O primo passou
agora ali.

 Deveras? perguntou
ela.

 Veio ver-nos.

 V um par
feliz, disse a moa.

 Felicssimo!
exclamou Correia.

A festa do
casamento foi esplndida; durou at alta noite.

Vicente no quis
saber mais nada; dirigiu-se para casa.

Ia triste,
abatido, envergonhado. O pior mal era no poder atirar a culpa para cima de
ningum: o culpado era ele.

Entrou em casa
pelas dez horas da noite.

Contra o costume,
Clara no o esperava na sala, posto houvesse luz.

Vicente vinha
morto por cair-lhe aos ps e dizer-lhe:

 Sou teu
eternamente, porque tu s a nica mulher que me tiveste amor!

No a encontrando
na sala, foi  alcova e no a viu. Chamou e ningum lhe apareceu.

Andou a casa toda
e no viu ningum.

Voltou  sala de
visitas e achou um bilhete, assim concebido:

Meu caro, no sirvo para irm de
caridade de coraes aflitos. Viva!

Deixo ao esprito
do leitor o cuidado de imaginar o furor de Vicente; de um s lance perdera
tudo.

Um ano depois as
situaes dos personagens deste romance eram as seguintes:

Correia, a mulher
e o sogro estavam na fazenda; todos felizes. O capito por ver a filha casada;
a filha por amar o marido; e Correia porque, tendo alcanado a desejada
fortuna, pagara-a com ser bom marido.

Jlia e Castrioto
tambm eram felizes; neste casal o marido era governado pela mulher que se
tornara uma rainha em casa. O nico desafogo que o marido tinha era escrever
furtivamente alguns romances e colaborar num jornalzinho literrio que se
chamava: O Girassol.

Quanto a Vicente,
julgando a regra pelas excees, e lanando  conta de todos as culpas suas,
no queria mais amigos nem amores. Escrevia numa casa comercial, e vivia como
um anacoreta. Ultimamente consta que tenciona casar com uma velha... de
duzentos contos.

Um amigo, que o
encontrou, interrogou-o a esse respeito.

  verdade,
respondeu ele, creio que se efetua o casamento.

 Mas uma
velha...

  melhor;  a
hiptese de ser feliz, porque as velhas tm uma fidelidade incomparvel e sem
exemplo.

 Qual?

 A fidelidade da
runa.
