Conto, Elogio da Vaidade, 1878

Elogio da
vaidade

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,Vol. III

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em O Cruzeiro, 28 de maio
de 1878.

I

Logo que a Modstia acabou de
falar, com os olhos no cho, a Vaidade empertigou-se e disse:

Damas e cavalheiros, acabais de
ouvir a mais chocha de todas as virtudes, a mais peca, a mais estril de
quantas podem reger o corao dos homens; e ides ouvir a mais sublime delas, a
mais fecunda, a mais sensvel, a que pode dar maior cpia de venturas sem
contraste.

Que eu sou a Vaidade, classificada
entre os vcios por alguns retricos de profisso; mas na realidade, a primeira
das virtudes. No olheis para este gorro de guizos, nem para estes punhos
carregados de braceletes, nem para estas cores variegadas com que me adorno.
No olheis, digo eu, se tendes o preconceito da Modstia; mas se o no tendes,
reparai bem que estes guizos e tudo mais, longe de ser uma casca ilusria e v,
so a mesma polpa do fruto da sabedoria; e reparai mais que vos chamo a todos,
sem os biocos e meneios daquela senhora, minha mana e minha rival.

Digo a todos, porque a todos
cobio, ou sejais formosos como Pris, ou feios como Tersites, gordos como
Pana, magros como Quixote, vares e mulheres, grandes e pequenos, verdes e
maduros, todos os que compondes este mundo, e haveis de compor o outro; a todos
falo, como a galinha fala aos seus pintinhos, quando os convoca  refeio, a
saber, com interesse, com graa, com amor. Porque nenhum, ou raro, poder
afirmar que eu o no tenha alado ou consolado.

II

Onde  que eu no entro? Onde 
que eu no mando alguma coisa? Vou do salo do rico ao albergue do pobre, do
palcio ao cortio, da seda fina e roagante ao algodo escasso e grosseiro.
Fao excees,  certo (infelizmente!); mas, em geral, tu que possuis, busca-me
no encosto da tua otomana, entre as porcelanas da tua baixela, na portinhola da
tua carruagem; que digo? busca-me em ti mesmo, nas tuas botas, na tua casaca,
no teu bigode; busca-me no teu prprio corao. Tu, que no possuis nada,
perscruta bem as dobras da tua estamenha, os recessos da tua velha arca; l me
achars entre dois vermes famintos; ou ali, ou no fundo dos teus sapatos sem
graxa, ou entre os fios da tua grenha sem leo.

Valeria a pena ter, se eu no
realasse os teres? Foi para escond-lo ou mostr-lo, que mandaste vir de to
longe esse vaso opulento? Foi para escond-lo ou mostr-lo, que encomendaste 
melhor fbrica o tecido que te veste, a safira que te arreia, a carruagem que
te leva? Foi para escond-lo ou mostr-lo, que ordenaste esse festim
babilnico, e pediste ao pomar os melhores vinhos? E tu, que nada tens, por que
aplicas o salrio de uma semana ao jantar de uma hora, seno porque eu te
possuo e te digo que alguma coisa deves parecer melhor do que s na realidade?
Por que levas ao teu casamento um coche, to rico e to caro, como o do teu
opulento vizinho, quando podias ir  igreja com teus ps? Por que compras essa
jia e esse chapu? Por que talhas o teu vestido pelo padro mais rebuscado, e
por que te remiras ao espelho com amor, seno porque eu te consolo da tua
misria e do teu nada, dando-te a troco de um sacrifcio grande benefcio ainda
maior?

III

Quem  esse que a vem, com os
olhos no eterno azul?  um poeta; vem compondo alguma coisa; segue o vo
caprichoso da estrofe.  Deus te salve, Pndaro! Estremeceu; moveu a fronte,
desabrochou em riso. Que  da inspirao? Fugiu-lhe; a estrofe perdeu-se entre
as moitas; a rima esvaiu-se-lhe por entre os dedos da memria. No importa;
fiquei eu com ele,  eu, a musa dcima, e, portanto, o conjunto de todas as
musas, pela regra dos doutores de Sganarello. Que ar beatfico! Que satisfao
sem mescla! Quem dir a esse homem que uma guerra ameaa levar um milho de
outros homens? Quem dir que a seca devora uma poro do pas? Nesta ocasio
ele nada sabe, nada ouve. Ouve-me, ouve-se; eis tudo.

Um homem caluniou-o h tempos; mas
agora, ao voltar  esquina, dizem-lhe que o caluniador o elogiou.

 No me fales nesse maroto.

 Elogiou-te; disse que s um
poeta enorme.

 Outros o tm dito, mas so
homens de bem, e sinceros. Ser ele sincero?

 Confessa que no conhece poeta
maior.

 Peralta! Naturalmente arrependeu-se
da injustia que me fez. Poeta enorme, disse ele?

 O maior de todos.

 No creio. O maior?

 O maior.

 No contestarei nunca os seus
mritos; no sou como ele que me caluniou; isto , no sei, disseram-mo. Diz-se
tanta mentira! Tem gosto o maroto;  um pouco estouvado s vezes, mas tem
gosto. No contestarei nunca os seus mritos. Haver pior coisa do que mesclar
o dio s opinies? Que eu no lhe tenho dio. Oh! nenhum dio.  estouvado,
mas imparcial.

Uma semana depois, v-lo-eis de
brao com o outro,  mesa do caf,  mesa do jogo, alegres, ntimos, perdoados.
E quem embotou esse dio velho, seno eu? Quem verteu o blsamo do esquecimento
nesses dois coraes irreconciliveis? Eu, a caluniada amiga do gnero humano.

Dizem que o meu abrao di.
Calnia, amados ouvintes! No escureo a verdade; s vezes h no mel uma
pontazinha de fel; mas como eu dissolvo tudo! Chamai aquele mesmo poeta, no
Pndaro, mas Trissotin. V-lo-eis derrubar o caro, estremecer, rugir,
morder-se, como os zoilos de Bocage. Desgosto, convenho, mas desgosto curto.
Ele ir dali remirar-se nos prprios livros. A justia que um atrevido lhe
negou, no lha negaro as pginas dele. Oh! a me que gerou o filho, que o
amamenta e acalenta, que pe nessa frgil criaturinha o mais puro de todos os
amores, essa me  Media, se a compararmos quele engenho, que se consola da
injria, relendo-se; porque se o amor de me  a mais elevada forma do
altrusmo, o dele  a mais profunda forma de egosmo, e s h uma coisa mais
forte que o amor materno,  o amor de si prprio.

IV

Vede estoutro que palestra com um
homem pblico. Palestra, disse eu? No;  o outro que fala; ele nem fala, nem
ouve. Os olhos entornam-se-lhe em roda, aos que passam, a espreitar se o vem,
se o admiram, se o invejam. No corteja as palavras do outro; no lhes abre
sequer as portas da ateno respeitosa. Ao contrrio, parece ouvi-las com
familiaridade, com indiferena, quase com enfado. Tu, que passas, dizes
contigo:

 So ntimos; o homem pblico 
familiar deste cidado; talvez parente. Quem lhe faz obter esse teu juzo,
seno eu? Como eu vivo da opinio e para a opinio, dou quele meu aluno as
vantagens que resultam de uma boa opinio, isto , dou-lhe tudo.

Agora, contemplai aquele que to
apressadamente oferece o brao a uma senhora. Ela aceita-lho; quer seguir at a
carruagem, e h muita gente na rua. Se a Modstia animara o brao do
cavalheiro, ele cumprira o seu dever de cortesania, com uma parcimnia de
palavras, uma moderao de maneiras, assaz miserveis. Mas quem lho anima sou
eu, e  por isso que ele cuida menos de guiar  dama, do que de ser visto dos
outros olhos. Por que no? Ela  bonita, graciosa, elegante; a firmeza com que
assenta o p  verdadeiramente senhoril. Vede como ele se inclina e bamboleia!
Riu-se? No vos iludais com aquele riso familiar, amplo, domstico; ela disse
apenas que o calor  grande. Mas  to bom rir para os outros!  to bom fazer
supor uma intimidade elegante!

No devereis crer que me  vedada
a sacristia? Decerto; e contudo, acho meio de l penetrar, uma ou outra vez, s
escondidas, at s meias roxas daquela grave dignidade, a ponto de lhe fazer
esquecer as glrias do cu, pelas vanglrias da terra. Verto-lhe o meu leo no
corao, e ela sente-se melhor, mais excelsa, mais sublime do que esse outro
ministro subalterno do altar, que ali vai queimar o puro incenso da f. Por que
no h de ser assim, se agora mesmo penetrou no santurio esta garrida matrona,
ataviada das melhores fitas, para vir falar ao seu Criador? Que farfalhar! que
voltear de cabeas! A antfona continua, a msica no cessa; mas a matrona
suplantou Jesus, na ateno dos ouvintes. Ei-la que dobra as curvas, abre o
livro, compe as rendas, murmura a orao, acomoda o leque. Traz no corao
duas flores, a f e eu; a celeste, colheu-a no catecismo, que lhe deram aos dez
anos; a terrestre colheu-a no espelho, que lhe deram aos oito; so os seus dois
Testamentos; e eu sou o mais antigo.

V

Mas eu perderia o tempo, se me
detivesse a mostrar um por um todos os meus sditos; perderia o tempo e o
latim. Omnia vanitas. Para que cit-los, arrol-los, se quase toda a
terra me pertence? E digo quase, porque no h negar que h tristezas na terra
e onde h tristezas a governa a minha irm bastarda, aquela que ali vedes com
os olhos no cho. Mas a alegria sobrepuja o enfado e a alegria sou eu. Deus d
um anjo guardador a cada homem; a natureza d-lhe outro, e esse outro  nem
mais nem menos esta vossa criada, que recebe o homem no bero, para deix-lo
somente na cova. Que digo? Na eternidade; porque o arranco final da modstia,
que a ls nesse testamento, essa recomendao de ser levado ao cho por quatro
mendigos, essa clusula sou eu que a inspiro e dito; ltima e genuna vitria
do meu poder, que  imitar os meneios da outra.

Oh! a outra! Que tem ela feito no
mundo que valha a pena de ser citado? Foram as suas mos que carregaram as
pedras das Pirmides? Foi a sua arte que entreteceu os louros de Temstocles?
Que vale a charrua do seu Cincinato, ao p do capelo do meu cardeal de Retz?
Virtudes de cenbios, so virtudes? Engenhos de gabinete, so engenhos?
Traga-me ela uma lista de seus feitos, de seus heris, de suas obras
duradouras; traga-ma, e eu a suplantarei, mostrando-lhe que a vida, que a
histria, que os sculos nada so sem mim.

No vos deixeis cair na tentao
da Modstia:  a virtude dos pecos. Achareis decerto, algum filsofo, que vos
louve, e pode ser que algum poeta, que vos cante. Mas, louvaminhas e cantarolas
tm a existncia e o efeito da flor que a Modstia elegeu para emblema; cheiram
bem, mas morrem depressa. Escasso  o prazer que do, e ao cabo definhareis na
soledade. Comigo  outra coisa: achareis,  verdade, algum filsofo que vos
talhe na pele; algum frade que vos dir que eu sou inimiga da boa conscincia.
Petas! No sou inimiga da conscincia, boa ou m; limito-me a substitu-la,
quando a vejo em frangalhos; se  ainda nova, ponho-lhe diante de um espelho de
cristal, vidro de aumento. Se vos parece prefervel o narctico da Modstia,
dizei-o; mas ficai certos de que excluireis do mundo o fervor, a alegria, a
fraternidade.

Ora, pois, cuido haver mostrado o
que sou e o que ela ; e nisso mesmo revelei a minha sinceridade, porque disse
tudo, sem vexame, nem reserva; fiz o meu prprio elogio, que  vituprio,
segundo um antigo rifo; mas eu no fao caso de rifes. Vistes que sou a me
da vida e do contentamento, o vnculo da sociabilidade, o conforto, o vigor, a
ventura dos homens; alo a uns, realo a outros, e a todos amo; e quem  isto 
tudo, e no se deixa vencer de quem no  nada.

E reparai que nenhum grande vcio
se encobriu ainda comigo; ao contrrio, quando Tartufo entra em casa de Orgon,
d um leno a Dorina para que cubra os seios. A modstia serve de conduta a
seus intentos. E por que no seria assim, se ela ali est de olhos baixos,
rosto cado, boca taciturna? Podereis afirmar que  Virgnia e no Locusta?
Pode ser uma ou outra, porque ningum lhe v o corao. Mas comigo? Quem se pode
enganar com este riso franco, irradiao do meu prprio ser; com esta face
jovial, este rosto satisfeito, que um quase nada obumbra, que outro quase nada
ilumina; estes olhos, que no se escondem, que se no esgueiram por entre as
plpebras, mas fitam serenamente o sol e as estrelas?

VI

O qu? Credes que no  assim?
Querem ver que perdi toda a minha retrica, e que ao cabo da pregao, deixo um
auditrio de relapsos? Cus! Dar-se- caso que a minha rival vos arrebatasse
outra vez? Todos o diro ao ver a cara com que me escuta este cavalheiro; ao
ver o desdm do leque daquela matrona. Uma levanta os ombros; outro ri de
escrnio. Vejo ali um rapaz a fazer-me figas: outro abana tristemente a cabea;
e todas, todas as plpebras parecem baixar, movidas por um sentimento nico.
Percebo, percebo! Tendes a volpia suprema da vaidade, que  a vaidade da
modstia.
