Conto, Habilidoso, 1885

Habilidoso

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em Gazeta
de Notcias, de 06/9/1885.

Paremos neste beco. H aqui uma
loja de trastes velhos, e duas dzias de casas pequenas, formando tudo uma
espcie de mundo insulado. Choveu de noite, e o sol ainda no acabou de secar a
lama da rua, nem o par de calas que ali pende de uma janela, ensaboado de
fresco. Pouco adiante das calas, v-se chegar  rtula a cabea de uma
mocinha, que acabou agora mesmo o penteado, e vem mostr-lo c fora; mas c
fora estamos apenas o leitor e eu, mais um menino, a cavalo no peitoril de
outra janela, batendo com os calcanhares na parede,  guisa de esporas, e ainda
outros quatro, adiante,  porta da loja de trastes, olhando para dentro.

A loja  pequena, e no tem muito
que vender, coisa pouco sensvel ao dono, Joo Maria, que acumula o negcio com
a arte, e d-se  pintura nas horas que lhe sobram da outra ocupao, e no so
raras. Agora mesmo est diante de uma pequena tela, to metido consigo e com o
trabalho, que podemos examin-lo a gosto, antes que d por ns.

Conta trinta e seis anos, e no se
pode dizer que seja feio; a fisionomia, posto que trivial, no  desengraada.
Mas a vida estragou a natureza. A pele, de fina que era nos primeiros anos,
est agora spera, a barba emaranhada e inculta; embaixo do queixo, onde ele
usa rap-la, no passa navalha h mais de quinze dias. Tem o colarinho
desabotoado e o peito  mostra; no veste palet nem colete, e as mangas da
camisa, arregaadas, mostram o brao carnudo e peludo. As calas so de brim
pardo, lavadas h pouco, e muito remendadas nos joelhos; remendos antigos, que
no resistem  lavadeira, que os desfia na gua, nem  costureira, que os
recompe. Uma e outra so a prpria mulher de Joo Maria, que rene aos dois
misteres o de cozinheira da casa. No h criados; o filho, de seis para sete anos,
 que lhes vai s compras.

Joo Maria veio para este beco h
uns quinze dias. Conta fazer alguma coisa, embora seja lugar de pouca passagem,
mas no h, no bairro, outra casa de trastes velhos, e ele espera que a
notoriedade v trazendo os fregueses. Demais, no teve tempo de escolher;
mudou-se s pressas, por intimao do antigo proprietrio. Ao menos, aqui o
aluguel  mdico. At agora, porm, no vendeu mais que um aparador e uma
gaiola de arame. No importa; os primeiros tempos so mais difceis. Joo Maria
espera, pintando.

Pintando o que, e para qu? Joo
Maria ignora absolutamente as primeiras lies do desenho, mas desde tenra
idade pegou-lhe o sestro de copiar tudo o que lhe caa nas mos, vinhetas de
jornais, cartas de jogar, padres de chitas, o papel das paredes, tudo. Tambm
fazia bonecos de barro, ou esculpia-os a faca nos sarrafos e pedaos de caixo.
Um dia aconteceu-lhe ir  exposio anual da Academia das Belas-Artes, e voltou
de l cheio de planos e ambies. Engenhou logo uma cena de assassinato, um
conde que matava a outro conde; rigorosamente, parecia oferecer-lhe um punhal.
Engenhou outros, alastrou as paredes, em casa, de narizes, de olhos, de
orelhas; vendo na Rua da Quitanda um quadro que representava um prato de
legumes, atirou-se aos legumes; depois, viu uma marinha, e tentou as marinhas.

Toda arte tem uma tcnica; ele
aborrecia a tcnica, era avesso  aprendizagem, aos rudimentos das coisas. Ver
um boi, reproduzi-lo na tela, era o mais que, no sentir dele, se podia exigir
do artista. A cor apropriada era uma questo dos olhos, que Deus deu a todos os
homens; assim tambm a exao dos contornos e das atitudes dependia da ateno,
e nada mais. O resto cabia ao gnio do artista, e Joo Maria supunha t-lo. No
dizia gnio, por no conhecer o vocbulo, seno no sentido restrito de ndole 
ter bom ou mau gnio , mas repetia consigo mesmo a palavra, que ouvia aos
parentes e aos amigos, desde criana.

 Joo Maria  muito habilidoso.

Assim se explica que, quando
algum disse um dia ao pai que o mandasse para a academia, e o pai consentiu em
desfazer-se dele, Joo Maria recusasse a ps juntos. Foi assim tambm que,
depois de andar por ofcios diversos, sem acabar nenhum, veio a abrir uma casa
de trastes velhos, para a qual se lhe no exigiam estudos preparatrios.

Nem aprendeu nada, nem possua o
talento que adivinha e impele a aprender e a inventar. Via-se-lhe, ao menos,
alguma coisa parecida com a fasca sagrada? Coisa nenhuma. No se lhe via mais
que a obstinao, filha de um desejo, que no correspondia s faculdades.
Comeou por brinco, puseram-lhe a fama de habilidoso, e no pde mais voltar
atrs. Quadro que lhe aparecesse, acendia-lhe os olhos, dava rebate s ambies
da adolescncia, e todas vinham de tropel, pegavam dele, para arrebat-lo a uma
glria, cuja viso o deslumbrava. Da novo esforo, que o louvor a outros vinha
incitar mais, como ao brio natural do cavalo se junta o estmulo das esporas.

Vede a tela que est pintando, 
porta;  uma imagem de Nossa Senhora, copiada de outra que viu um dia, e esta 
a sexta ou stima em que trabalha.

Um dia, indo visitar a madrinha,
viva de um capito que morreu em Monte Caseros, viu em casa dela uma Virgem, a leo. At ento s conhecia as imagens de santos nos registros das igrejas,
ou em casa dele mesmo, gravadas e metidas em caixilho. Ficou encantado; to bonita! cores to vivas! Tratou de a decorar para pintar
outra, mas a prpria madrinha emprestou-lhe o quadro. A primeira cpia que ele
fez, no lhe saiu a gosto; mas a segunda pareceu-lhe que era, pelo menos, to
boa como o original. A me dele, porm, pediu-lha para pr no oratrio, e Joo
Maria, que mirava o aplauso pblico, antes do que as bnos do cu, teve de
sustentar um conflito longo e doloroso; afinal cedeu. E seja dito isto em honra
dos seus sentimentos filiais, porque a me, D. Incia dos Anjos, tinha to
pouca lio de arte, que no lhe consentiu nunca pr na sala uma gravura, cpia
de Hamon, que ele comprara na Rua da Carioca, por pouco mais de trs mil-ris.
A cena representada era a de uma famlia grega, antiga, um rapaz que volta com
um pssaro apanhado, e uma criana que esconde com a camisa a irm mais velha,
para dizer que ela no est em casa. O rapaz, ainda imberbe, traz nuas as suas
belas pernas gregas.

 No quero aqui estas francesas
sem-vergonha! bradou D. Incia; e o filho no teve remdio seno encafuar a
gravura no quartinho em que dormia, e em que no havia luz.

Joo Maria cedeu a Virgem e foi
pintar outra; era a terceira, acabou-a em poucos dias. Pareceu-lhe o melhor dos
seus trabalhos: lembrou-se de exp-lo, e foi a uma casa de espelhos e gravuras,
na Rua do Ouvidor. O dono hesitou, adiou, tergiversou, mas afinal aceitou o
quadro, com a condio de no durar a exposio mais de trs dias. Joo Maria,
em troca, imps outra: que ao quadro fosse apenso um rtulo, com o nome dele e
a circunstncia de no saber nada. A primeira noite, depois da aceitao do
quadro, foi como uma vspera de bodas. De manh, logo que almoou, correu para
a Rua do Ouvidor, a ver se havia muita gente a admirar o quadro. No havia
ento ningum; ele foi para baixo, voltou para cima, rondando a porta,
espiando, at que entrou e falou ao caixeiro.

 Tem vindo muita gente?

 Tem vindo algumas pessoas.

 E olham? Dizem alguma coisa?

 Olhar, olham; agora se dizem
alguma coisa, no tenho reparado, mas olham.

 Olham com ateno?

 Com ateno.

Joo Maria inclinou-se para o
rtulo, e disse ao caixeiro que as letras deviam ter sido maiores; ningum as lia
da rua. E saiu  rua, para ver se se podiam ler; concluiu que no; deviam ter
sido maiores as letras. Assim como a luz no lhe parecia boa. O quadro devia
ficar mais perto da porta; mas aqui o caixeiro acudiu, dizendo que no podia
alterar a ordem do patro. Estavam nisto, quando entrou algum, um homem velho,
que foi direito ao quadro. O corao de Joo Maria batia que arrebentava o
peito. Deteve-se o visitante alguns momentos, viu o quadro, leu o rtulo,
tornou a ver o quadro, e saiu. Joo Maria no pde ler-lhe nada no rosto. Veio
outro, vieram mais outros, uns por diverso motivo, que apenas davam ao quadro
um olhar de passagem, outros atrados por ele; alguns recuavam logo como
embaados. E o pobre-diabo no lia nada, coisa nenhuma nas caras impassveis.

Foi essa Virgem o assunto a que
ele voltou mais vezes. A tela que est agora acabando,  a sexta ou stima. As
outras deu-as logo, e chegou a expor algumas, sem melhor resultado, porque os
jornais no diziam palavra. Joo Maria no podia entender semelhante silncio,
a no ser intriga de um antigo namorado da moa, com quem estava para casar.
Nada, nem uma linha, uma palavra que fosse. A prpria casa da Rua do Ouvidor
onde os exps recusou-lhe a continuao do obsquio; recorreu a outra da Rua do
Hospcio, depois a uma da Rua da Imperatriz, a outra do Rocio Pequeno;
finalmente no exps mais nada.

Assim que, o crculo das ambies
de Joo Maria foi-se estreitando, estreitando, estreitando, at ficar reduzido
aos parentes e conhecidos. No dia do casamento forrou a parede da sala com as
suas obras, ligando assim os dois grandes objetos que mais o preocupavam na
vida. Com efeito, a opinio dos convidados  que ele era um moo muito
habilidoso. Mas esse mesmo horizonte foi-se estreitando mais; o tempo arrebatou-lhe
alguns parentes e amigos, uns pela morte, outros pela prpria vida, e a arte de
Joo Maria continuou a mergulhar na sombra.

L est agora diante da eterna
Virgem; retoca-lhe os anjinhos e o manto. A tela fica ao p da porta. A mulher
de Joo Maria veio agora de dentro, com o filho; vai lev-lo a um consultrio
homeoptico, onde lhe do remdios de graa para o filho, que tem umas feridas
na cabea.

Ela faz algumas recomendaes ao
marido, enquanto este d uma pincelada no painel.

 Voc escutou, Joo Maria?

 Que , disse ele distraidamente,
recuando a cabea para ver o efeito de um rasgo.

 A panela fica no fogo; voc
daqui a pouco v ver.

Joo Maria respondeu que sim; mas
provavelmente no prestou ateno.

A mulher, enquanto o filho conversa
com os quatro meninos da vizinhana, que esto  porta, olhando para o quadro,
ajusta o leno ao pescoo. A fisionomia mostra a unhada do trabalho e da
misria; a figura  magra e cansada. Traz o seu vestido de sarja preta, o de
sair, no tem outro, j amarelado nas mangas e rodo na barra. O sapato de
duraque tem a beirada da sola comida das pedras. Ajusta o leno, d a mo ao
filho, e l vai para o consultrio. Joo Maria fica pintando; os meninos olham
embasbacados.

Olhemos bem para ele. O sol enche
agora o beco; o ar  puro e a luz magnfica. A me de um dos pequenos, que mora
pouco adiante, brada-lhe da janela que v para casa, que no esteja apanhando
sol.

 J vou, mame! Estou vendo uma
coisa!

E fica a mirar a obra e o autor.
Senta-se na soleira, os outros sentam-se tambm, e ficam todos a olhar
boquiabertos. De quando em quando dizem alguma coisa ao ouvido um do outro, um
reparo, uma pergunta, qual dos anjinhos  o Menino Jesus, ou o que quer dizer a
lua debaixo dos ps de Nossa Senhora, ou ento um simples aplauso ingnuo; mas
tudo isso apenas cochichado, para no turvar a inspirao do artista. Tambm
falam dele, mas falam menos, porque o autor de coisas to bonitas e novas
infunde-lhes uma admirao mesclada de adorao, no sei se diga de medo  em
suma, um grande sentimento de inferioridade.

Ele, o eterno Joo Maria, no
volta o rosto para os pequenos, finge que os no v, mas sente-os ali, percebe
e saboreia a admirao. Uma ou outra palavra que lhe chega aos ouvidos faz-lhe
bem, muito bem. No larga a palheta. Quando no passeia o pincel na tela, pra,
recua a cabea, d um jeito  esquerda, outro  direita, fixa a vista com
mistrio, diante dos meninos embasbacados; depois, unta a ponta do pincel na
tinta, retifica uma feio ou aviva o colorido.

No lhe lembra a panela ao fogo, nem o filho que l vai
doente com a me. Todo ele est ali. No tendo mais que avivar nem que
retificar, aviva e retifica outra vez, amontoa as tintas, decompe e recompe,
encurva mais este ombro, estica os raios quela estrela. Interrompe-se para
recuar, fita o quadro, cabea  direita, cabea  esquerda, multiplica as
visagens, prolonga-as, e a platia vai ficando a mais e mais pasmada. Que este
 o ltimo e derradeiro horizonte das suas ambies: um beco e quatro meninos.
