Conto, O carro n 13, 1868

O carro n 13



Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1868.

I

A fazenda da Soledade est situada no centro de um rico
municpio fluminense, e pertencia h dez anos ao comendador Faria, que a deixou
em herana ao nico filho que teve do primeiro matrimnio, e que se chama o dr.
Amaro de Faria. O comendador morreu em 185..., e poucos meses depois morreu a viva,
madrasta de Amaro. No havendo filhos nem colaterais, veio o dr. Amaro a ficar
senhor e possuidor da fazenda da Soledade, com trezentos escravos, moendas de
cana, grandes plantaes de caf, e vastssimas florestas de magnficas
madeiras. Conta redonda, possua o dr. Amaro de Faria uns dois mil contos e
vinte oito anos de idade. Tinha uma chave de ouro para abrir todas as portas.

Era formado em direito pela Faculdade de S. Paulo, e os
cinco anos que ali passou foram os nicos em que esteve ausente da casa
paterna. No conhecia a corte, onde apenas estivera algumas vezes de passagem.
Apenas recebeu a carta de bacharel retirou-se para a fazenda, e j ali se
achava havia cinco anos quando lhe faleceu o pai.

Todos supuseram, apenas morreu o comendador, que o dr.
Amaro continuasse a ser exclusivamente fazendeiro sem importar-se com mais
coisa alguma do resto do mundo. Efetivamente eram essas as intenes do moo; o
diploma de bacharel servia-lhe apenas para mostrar em qualquer tempo, se
necessrio fosse, um ttulo cientfico; mas ele no tinha inteno alguma de
usar dele. O presidente da provncia, andando um dia em viagem, hospedou-se na
fazenda da Soledade, e depois de uma hora de conversa ofereceu ao dr. Amaro um
cargo qualquer; mas o jovem fazendeiro recusou, dando em resposta que desejava
simplesmente cultivar o caf e a cana sem importar-se com o resto da repblica.
O presidente dificilmente conciliou o sono, pensando em tamanha abnegao e
indiferena da parte do rapaz. Uma das convices do presidente era que no
havia Cincinatos.

Estavam as coisas neste p, quando apareceu na fazenda da
Soledade um antigo colega de Amaro, formado ao mesmo tempo que ele e possuidor
de alguma fortuna.

Amaro recebeu alegremente o companheiro, que se chamava
Lus Marcondes, e vinha da corte expressamente para visit-lo. A recepo foi
como costuma ser no nosso hospitaleiro interior. Tomada a primeira xcara de
caf, Marcondes disparou contra o colega esta carga de palavras:

 Ento, que  isto? Ests metido em corpo e alma no caf
e no acar? Disseram-me isto apenas cheguei  corte, porque, no sei se sabes,
vim h poucos meses de Paris.

 Ah!

  verdade, meu Amaro, estive em Paris, e hoje compreendo
que a maior desgraa deste mundo  no ter estado naquela grande cidade. No
imaginas, meu rico, que viver  aquele! Ali no falta nada;  pedir por boca.
Corridas, bailes, teatros, cafs, parties de plaisir,  uma coisa ideal,
 um sonho,  o chic...  verdade que os cobres no se conservam muito
tempo na algibeira. Ainda bem o correspondente no acaba de entregar os mil
francos, j eles correm pela porta fora; mas vive-se. Mas, como ia dizendo,
quando cheguei  corte, a primeira notcia que me deram foi que tu estavas
fazendeiro. Custou-me a acreditar. Tanto teimaram, que eu quis vir examinar a
coisa com os meus prprios olhos. Parece que  exato.

 , respondeu Amaro. Bem sabes que eu estou acostumado a
isto; aqui fui educado, e, apesar de ter estado algum tempo fora, creio que em
nenhuma parte estarei to bem como aqui.

 O hbito  uma segunda natureza, disse sentenciosamente
Marcondes.

  verdade, retorquiu Amaro. Dou-me bem, e no acho que a
vida seja m.

 Que a vida seja m? Em primeiro lugar, no est provado
que isto seja vida;  vegetao. Comparo-te a um p de caf; nasceste,
cresceste, vives, ds fruto, e morrers na perfeita ignorncia das coisas da
vida... Para um rapaz da tua idade, que  inteligente, e possui dois mil
contos, semelhante viver equivale a um suicdio. A sociedade exige...

A conversa foi interrompida pelo jantar, que livrou ao
fazendeiro e ao leitor de um discurso de Marcondes. Na academia o jovem
bacharel era conhecido pela alcunha de perorador, graas  mania que ele tinha de
discursar a propsito de tudo. Amaro ainda se lembrava da arenga que Marcondes
pregou a um bilheteiro de teatro por uma questo de preo de bilhete.

II

A maada estava apenas adiada.

Durante o jantar a conversa versou sobre as recordaes
dos tempos acadmicos, e as novidades mais frescas da corte. No fim do jantar
Marcondes consentiu em ir ver os engenhos e algumas obras da fazenda, em
companhia de Amaro e do professor pblico da localidade, que, estando em frias
de Natal, fora passar alguns dias com o jovem fazendeiro. O professor tinha a
mania de citar os usos agrcolas dos antigos a propsito de cada melhoramento
moderno, o que provocava um discurso de Marcondes e um bocejo de Amaro.

Chegou a noite, e o professor foi deitar-se, menos por ter
sono que por fugir s peroraes de Marcondes. Este e Amaro ficaram ss na sala
de jantar, para onde vieram caf e charutos, e entraram ambos a conversar de
novo sobre os tempos da academia. Cada um deles deu notcia dos companheiros de
ano, os quais andavam todos dispersados, uns juzes municipais, outros
presidentes de provncia, outros deputados, outros advogados, muitos inteis,
entre os quais o jovem Marcondes, que dizia ser o homem mais feliz da Amrica.

 E a receita  simples, dizia ele a Amaro; deixa a
fazenda, faze uma viagem, e vers.

 No posso deixar a fazenda.

 Por qu? No s bastante rico?

 Sou; mas, enfim, a minha felicidade  esta. Demais, eu
aprendi com meu pai a no deixar a realidade pelo incgnito; o que eu no
conheo pode ser muito bom; mas se o que eu tenho  igualmente bom, nada de
arrisc-lo para investigar o desconhecido.

 Bela teoria! exclamou Marcondes pondo no pires a xcara
de caf que ia levando  boca; desse modo, se o mundo pensasse sempre assim,
ainda hoje vestamos as peles dos primeiros homens. Colombo no teria
descoberto a Amrica; o capito Cook...

Amaro interrompeu esta ameaa de discurso, dizendo:

 Mas eu no quero descobrir nada, nem imponho os meus
sentimentos como opinio. Estou bem; por que motivo irei eu agora ver se
encontro melhor felicidade, arriscando-me a no encontr-la?

 s um carrana! No falemos nisto.

Cessou, com efeito, a discusso. Entretanto Marcondes, ou
de propsito, ou por vaidade  talvez ambos os motivos , entrou a contar a
Amaro as suas interminveis aventuras no pas e no estrangeiro. A narrativa
dele era uma mistura de histria e de fbula, de verdade e de inveno, que
entreteve largamente o esprito de Amaro at alta noite.

Marcondes conservou-se na fazenda da Soledade cerca de
oito dias, e jamais cessou de conversar acerca do contraste que oferecia aquilo
que ele chamava vida com o que lhe parecia simples e absurda vegetao. O caso
 que no fim de oito dias tinha conseguido que Amaro fosse viajar  Europa com
ele.

 Quero obsequiar-te, dizia Amaro a Marcondes.

 Hs de agradecer-me, respondia este.

Marcondes foi para a corte, esperou pelo jovem fazendeiro,
que da a um ms a se achou, tendo entregue a fazenda a um velho amigo de seu
pai. No primeiro paquete embarcaram os dois colegas da academia, caminho de
Bordus.

III

Importa-nos pouco, e mesmo nada, o saber da vida que
passaram os dois viajantes na Europa. Amaro, que tinha tendncias sedentrias,
apenas chegou a Paris a ficou, e como Marcondes no desejava passar alm, no
o importunou por mais.

Uma capital como aquela tem sempre que ver e admirar:
Amaro ocupou-se com o estudo da sociedade em que vivia, dos monumentos, dos
melhoramentos, dos costumes, das artes, de tudo. Marcondes, que tinha outras
tendncias, tratou de levar o amigo para o centro dos que ele chamava prazeres
celestes. Amaro no resistiu, e foi; mas tudo cansa, e o fazendeiro no
encontrou em nada daquilo a felicidade que o amigo lhe anunciara. No fim de um
ano, Amaro determinou voltar para a Amrica, com grande desgosto de Marcondes,
que em vo procurou ret-lo.

Voltou Amaro aborrecido com ter gasto um ano sem vantagem
alguma, a no ser o ter visto e admirado uma grande capital. Mas a felicidade
que ele devia ter? Essa nem por sombra.

 Fiz mal, dizia ele consigo, em ter cedido aos conselhos.
Vim em busca do desconhecido.  uma lio que me h de aproveitar.

Embarcou, e chegou ao Rio de Janeiro, com grande alegria
no corao. O seu desejo era seguir logo para a fazenda da Soledade. Mas
lembrou-se de que existiam na corte algumas famlias da amizade da sua, a quem
cumpria ir falar antes de partir para o interior.

 Quinze dias  bastante, pensou ele.

Meteu-se num hotel, e logo no dia seguinte comeou a
romaria das visitas.

Uma das famlias a quem Amaro visitou era a de um
fazendeiro de Minas, que em virtude de vrios processos que teve por motivo de
relaes comerciais viu reduzidos os seus bens, e mudara-se para a corte, onde
vivia com a fortuna que lhe restava. Chamava-se Carvalho.

A achou Amaro, como fazendo parte da famlia, uma moa de
vinte e cinco anos, de nome Antonina. Era viva. Estava em casa de Carvalho,
porque este fora ntimo amigo do pai dela, e como este j no existisse, e ela
no quisesse viver s, depois de viva, Carvalho recebeu-a em casa, onde era
tratada como filha mais velha. Antonina tinha alguma coisa de seu. Era prendada,
espirituosa, elegante. Carvalho admirava sobretudo a sua penetrao de
esprito, e no cessava de elogiar-lhe essa qualidade, que para ele era
suprema.

Amaro Faria foi l duas vezes em trs dias, como simples
visita; mas no quarto dia sentiu j em si uma necessidade de l voltar. Se
tivesse partido para a fazenda era possvel que no lhe lembrasse mais nada;
mas a terceira visita produziu outra, e outras, at que no fim de quinze dias,
em vez de partir para a roa, Amaro dispunha-se a residir largo tempo na corte.

Estava namorado.

Antonina merecia ser amada por um rapaz como Faria. Sem
ser deslumbrantemente formosa, tinha umas feies regulares, uns olhos
ardentes, e era muito simptica. Gozava de geral considerao.

O rapaz era correspondido? Era. A jovem correspondeu logo
ao afeto do fazendeiro, com certo ardor que alis o mancebo partilhava.

Quando Carvalho desconfiou do namoro, disse a Amaro Faria:

 J sei que voc tem namoro c em casa.

 Eu?

 Sim, voc.

 Pois sim,  verdade.

 No h nada de mau nisto. Eu apenas quero dizer-lhe que
tenho olho vivo, e nada me escapa. A rapariga merece.

 Oh! Se merece! Quer saber de uma coisa? Eu j abeno
aquele maldito Marcondes que me arrancou l da fazenda, pois que eu venho achar
aqui a minha felicidade.

 Ento  decidido?

 Se ! Pensando bem, eu no posso deixar de casar-me.
Quero ter uma vida calma,  o meu natural. Achando uma mulher que no exija
modas nem bailes estou contente. Creio que esta  assim. Alm disso  bonita...

 E mais que tudo discreta, acrescentou Carvalho.

  o caso.

 Bravo! Posso avis-la de que...

 Toque-lhe nisso...

Carvalho trocou estas palavras com Amaro na tarde em que
este l jantou. Na mesma noite, quando Amaro se despediu, disse-lhe Carvalho em
particular:

 Toquei-lhe naquilo: a disposio  excelente!

Amaro foi para casa disposto a fazer no dia seguinte a sua
proposta de casamento a Antonina.

E, com efeito, no dia seguinte apareceu Amaro em casa de
Carvalho, como costumava, e a, em conversa com a viva, perguntou-lhe
francamente se queria casar com ele.

 Ama-me ento? Perguntou ela.

 Deve t-lo percebido, porque eu tambm percebi que sou
amado.

 , disse ela com a voz um pouco trmula.

 Aceita-me por marido?

 Aceito, disse ela. Mas repita que me ama.

 Cem vezes, mil vezes, se quer. Amo-a muito.

 No ser um fogo passageiro?

 Se eu empenho a minha vida inteira!

 Todos a empenham; mas depois...

 Comea ento por uma dvida?

 Um receio natural, um receio de quem ama...

 No me conhece ainda; mas ver que eu digo a verdade. 
minha, sim?

 Perante Deus e os homens, respondeu Antonina.

IV

Estando as coisas assim tratadas, no havendo obstculo
algum, fixou-se o casamento para dali a dois meses.

Amaro j abenoava o haver sado da fazenda, e nesse
sentido escreveu uma carta a Marcondes agradecendo-lhe a tentao que exercera
nele.

A carta terminava assim:

Mefistfeles do bem, eu te agradeo as tuas inspiraes.
Na Soledade havia tudo, menos a mulher que agora encontrei.

Como se v, no aparecia a menor sombra no cu da vida do
nosso heri. Parecia impossvel que alguma coisa viesse turv-lo.

Pois veio.

Uma tarde, entrando Amaro Faria para jantar achou uma
carta com o selo do correio.

Abriu-a e leu-a.

A carta dizia isto:

Uma pessoa que o viu h dias no Teatro Lrico, num
camarote da segunda ordem,  quem escreve esta carta.

H quem atribua o amor a simpatias eltricas; no tenho
nada com essas investigaes; mas o que me acontece faz crer que os que adotam
aquela teoria tenham razo.

Era a primeira vez que o via e logo, sem saber como, nem
por que razo, senti-me dominada pelo seu olhar.

Passei uma noite horrvel.

O senhor estava ao p de duas senhoras, e conversava
ternamente com uma delas.  sua noiva?  sua mulher? No sei; mas seja o que
for, bastou-me v-lo assim, para odiar o objeto das suas atenes.

Talvez que haja loucura neste passo que dou;  possvel, porque
eu perdi a razo. Amo-o doidamente, e bem quisera poder dizer-lhe em face.  o
que nunca farei. Os meus deveres obrigam-me a esta reserva; estou condenada a
am-lo sem confessar que o amo.

Basta, porm, que o senhor saiba que h uma mulher, entre
todas as desta capital, que apenas o v estremece de jbilo e de desespero, de
amor e de dio, por no poder ser sua, unicamente sua.

Amaro Faria leu e releu esta carta. No conhecia a letra,
nem podia imaginar quem fosse a autora. Soube apenas o que lhe dizia a carta;
nada mais.

Passado porm esse primeiro movimento de curiosidade, o
fazendeiro da Soledade guardou a carta, e foi passar a noite em casa de
Carvalho, onde Antonina o recebeu com a ternura do costume.

Amaro quis referir a aventura da carta; mas receando que
um fato to inocente pudesse causar infundados cimes  futura esposa, no
disse palavra a esse respeito.

Da a dois dias nova carta o esperava.

Desta vez Amaro abriu a carta apressadamente, por ter
visto que a letra era a mesma.

O romance comeava a interess-lo.

Dizia a carta:

Foi intil o meu protesto. Quis deixar de escrever-lhe
mais; apesar de tudo, sinto que no posso deixar de faz-lo.  uma necessidade
fatal...

Ah! os homens ignoram quanto esforo  preciso a uma
mulher para conter-se nos limites do dever.

Hesitei muito em escrever-lhe a primeira carta, e esta
mesmo no sei se lha remeterei; mas o amor triunfou e triunfar sempre, porque
eu j no vivo seno pela sua lembrana! De noite e de dia, a todas as horas,
em todas as circunstncias, a sua pessoa est sempre presente ao meu esprito.

Sei o seu nome, sei a sua posio. Sei mais que  um homem
de bem. O senhor  que no sabe quem eu sou, e pensar ao ler estas cartas, que
eu ando em busca de um romance que me rejuvenesa o corao e as feies. No;
sou moa, e posso afirmar que sou bela. No  porque mo digam; podero querer
lisonjear-me; mas o que no  lisonja  o murmrio de admirao que eu ouo apenas
entro numa sala ou passo em alguma rua.

Desculpe se lhe falo de mim com esta linguagem.

O que importa saber  que eu o amo perdidamente, e que a
ningum mais perteno, nem pertencerei.

Uma carta sua, uma linha, uma lembrana, para que eu tenha
uma relquia e um talism.

Se quiser fazer esta graa em favor de uma mulher
desgraada, escreva a P. L., e mande pr no correio, que eu l mandarei buscar.

Adeus! adeus!

Amaro Faria no estava acostumado a romances destes, nem
eles so comuns na vida.

A primeira carta produzira-lhe uma certa curiosidade, que
alis passou; mas a segunda j lhe produzira mais; sentia-se atrado para o
misterioso e o desconhecido, isso a que ele fugira sempre, contentando-se com a
realidade prtica das coisas.

 Devo escrever-lhe? perguntava ele consigo.  positivo
que esta mulher ama-me; no se escrevem cartas assim.  bonita, porque o
confessa sem medo de prov-lo algum dia. Mas devo escrever-lhe?

Nisto batem palmas.

V

Era Lus Marcondes que chegava da Europa.

 Que  isto? j de volta? perguntou-lhe Amaro.

  verdade; para variar. Eu  que me admiro de achar-te
na corte, quando j te fazia na fazenda.

 No, no fui  Soledade depois que voltei; e vais
espantar-te da razo; vou casar-me.

 Casar-te!

  verdade.

 Com a mo esquerda, morganaticamente...

 No, publicamente, e com a mo direita.

  assombroso.

 Dizes isso porque no conheces a minha noiva;  um anjo.

 Ento dou-te os meus parabns.

 Hei de apresentar-te hoje. E para festejar a tua chegada
jantas comigo.

 Sim.

 mesa do jantar, Amaro contou a Marcondes a histria das
cartas; e leu-lhes ambas.

 Bravo! disse Marcondes. Que lhe respondeste?

 Nada.

 Nada! s um grosseiro e um tolo. Pois uma mulher
escreve-te, mostra-se apaixonada por ti, e tu nada lhe respondes? No far isso
o Marcondes. Desculpa se te falo em verso... O velho Horcio...

Estava iminente um discurso. Faria, para atalh-lo,
apresentou-lhe a lista, e Marcondes passou rapidamente do velho Horcio a um
assado com batatas.

 Mas, continuou o amigo de Amaro, no me dirs por que
motivo lhe no respondeste?

 Eu sei l. Primeiramente porque no estou acostumado a
esta espcie de romances vivos, comeando por cartas annimas, e depois porque
vou casar...

 A isso respondo eu que uma vez  a primeira, e que o
ires casar no impede nada. Indo daqui para Botafogo, no h motivo nenhum que
me impea de entrar no Passeio Pblico ou na Biblioteca Nacional... Queres tu
ceder-me o romance?

 Isso nunca: seria uma deslealdade...

 Pois ento responde.

 Mas que lhe hei de dizer?

 Dize-lhe que a amas.

  impossvel; ela no pode acreditar...

 Pateta! disse Marcondes pondo vinho nos clices.
Dize-lhe que a simples leitura das cartas te puseram a cabea a arder, e que j
sentes que hs de vir a am-la, se j no a amas... e neste sentido escreve-lhe
trs ou quatro laudas.

 Ento achas que eu devo...

 Sem dvida alguma.

 Para falar a verdade eu tenho certa curiosidade...

 Pois avante.

Amaro escreveu nessa mesma tarde uma carta concebida
nestes termos, que Marcondes aprovou integralmente:

Senhora.  Quem quer que seja,  uma alma grande e um
corao de fogo. S um grande amor pode aconselhar um passo destes to
arriscado.

Li e reli as suas duas cartas; e hoje, quer que lhe diga?
penso nelas exclusivamente; fazem-me o efeito de um sonho. Eu pergunto a mim
mesmo se  possvel que eu inspirasse tal amor, e agradeo aos deuses o ter-me
demorado aqui na corte, pois que tive ocasio de ser feliz.

Na minha solido as suas cartas so um ris de esperana e
de felicidade.

Mas eu seria mais completamente feliz se pudesse
conhec-la; se me fosse dado v-la de perto, adorar sob a forma humana este
mito que a minha imaginao est criando.

Ousarei esper-lo?

 j grande atrevimento conceber semelhante idia; mas
espero que me perdoar, porque o amor perdoa tudo.

Em qualquer caso, fique certa de que eu sinto-me com
foras para corresponder ao seu amor, e ador-la como merece.

Uma palavra sua, e ver-me- correr por entre os mais
insuperveis obstculos.

A carta foi para o correio com as indicaes necessrias;
e Amaro, que ainda hesitou no momento de mand-la, dirigiu-se  noite para casa
da noiva em companhia de Lus Marcondes.

VI

Antonina recebeu o noivo com a mesma alegria do costume.
Marcondes agradou a todas as pessoas da casa pelo gnio galhofeiro que tinha, e
apesar da tendncia para os discursos interminveis.

Quando, pelas onze horas e meia da noite, saram de casa
de Carvalho, Marcondes apressou-se a dizer ao amigo:

 A tua noiva  linda.

 No achas?

 Decerto. E parece que te quer muito...

  por isso que eu lamento ter escrito aquela carta,
disse Amaro suspirando.

 Olha que parvo! exclamou Marcondes. Por que motivo h de
Deus dar nozes a quem no tem dentes?

 Acreditas que ela responda?

 Se responde! Eu estou traquejado nisto, meu rico!

 Que responder ela?

 Mil coisas bonitas.

 Afinal em que dar tudo isto? perguntou Amaro. Eu creio
que ela gosta de mim... No te parece?

 J te disse que sim!

 Estou ansioso por ver a resposta.

 E eu tambm...

Marcondes dizia consigo mesmo:

 Era bem bom que eu tomasse para mim este romance, porque
o palerma estraga tudo.

Amaro percebeu que o amigo hesitava em dizer-lhe alguma
coisa.

 Em que pensas? perguntou-lhe.

 Penso que tu s um palerma; e sou capaz de continuar o
teu romance por minha conta.

 Isso no! j agora deixa-me acabar. Vamos ver que
resposta vem. Quero que me ajudes, sim?

 Pronto, com a condio de que no hs de ser tolo.

Separaram-se.

Amaro foi para casa, e tarde conciliou o sono. A histria
das cartas enchia-lhe o esprito; imaginava a mulher misteriosa, construa
dentro de si uma figura ideal; dava-lhe cabelos de ouro...

VII

A prxima carta da misteriosa mulher era um hino de amor e
de alegria; ela agradecia ao seu amado aquelas linhas; prometia que s deixaria
a carta quando morresse.

Havia porm dois perodos que aguaram o prazer de Amaro
Faria. Um dizia assim:

H dias vi-o passar na rua do Ouvidor com uma famlia.
Disseram-me que o senhor vai casar com uma das moas. Sofri horrivelmente; vai
casar, quer dizer que a ama... e esta certeza mata-me!

O outro perodo pode resumir-se a estes termos:

Quanto ao pedido que me faz de querer ver-me, respondo-lhe
que no h de ver-me nunca; nunca, ouviu? Basta que saiba que eu o amo, muito
mais do que h de am-lo a viva Antonina. Perca a esperana de ver-me.

 Ests vendo, disse Amaro Faria a Marcondes mostrando-lhe
a carta, est tudo perdido.

 Oh! pateta! disse-lhe Marcondes. Tu no vs que esta
mulher no diz o que sente? Pois acreditas que isto seja a expresso exata do
pensamento dela? Acho a situao excelente para responderes; trata bem o
perodo do teu casamento, e insiste de novo no desejo de contempl-la.

Amaro Faria aceitou facilmente este conselho; o seu
esprito o predispunha para aceit-lo.

No dia seguinte uma nova epstola do fazendeiro da
Soledade foi para a caixa do correio.

Os pontos capitais da carta foram tratados por mo de
mestre. O instinto de Amaro supria-lhe a experincia.

Quanto  noiva, dizia ele que era exato que ia casar-se, e
que naturalmente a moa com quem o viu a sua incgnita amadora era Antonina;
entretanto, se era certo que o casamento fazia-se por inclinao, no era de
estranhar que um novo amor viesse substituir aquele; e a prpria demora do
enlace era uma prova de que o destino lhe preparava uma felicidade maior no
amor da autora das cartas.

Por fim, Amaro pedia instantemente para v-la, ainda que fosse um
minuto, porque, dizia ele, queria guardar as feies que devia adorar
eternamente.

A incgnita respondeu, e a carta dela era um composto de
expanses e reticncias, protestos e negativas.

Marcondes animava o abatido e recruta Amaro Faria, que em
mais duas cartas resumiu a maior fora de eloqncia de que podia dispor.

A ltima produziu o desejado efeito. A misteriosa
correspondente terminava a sua resposta com estas textuais palavras:

Consinto em que me veja, mas apenas um minuto. Irei com a
minha criada, antes amiga que criada, em um carro, no dia 15, esper-lo na
praia do Flamengo, s sete horas da manh. Para que se no engane, o carro tem
o nmero 13;  o de um cocheiro que j esteve ao meu servio.

 Que te dizia eu? perguntou Marcondes ao amigo quando
este lhe mostrou esta resposta. Se no estivesse eu aqui l se te ia por gua
abaixo este romance. Meu caro, dizem que a vida  um caminho cheio de espinhos
e flores; se  assim, acho tolice que um homem no apanhe as flores que
encontra.

Desta vez Marcondes pde fazer tranqilamente o discurso;
porque Amaro Faria, todo entregue s emoes que a carta lhe produzia, no
procurou atalh-lo.

 Enfim, hoje so 13, disse Marcondes; 15  o dia marcado.
Se for bonita como diz, v se foges com ela; o paquete do Rio da Prata sai a
23, e a tua fazenda  um quadriltero.

 V que letra fina! e que perfume!

 No tem dvida;  uma mulher elegante. O que eu desejo 
saber o resultado; no dia 15 vou esperar em tua casa.

 Sim.

VIII

Rompeu finalmente o dia 15, ansiosamente esperado por
Amaro Faria.

O jovem fazendeiro perfumou-se e enfeitou-se o mais que
pde. Estava adorvel. Depois de um ltimo olhar lanado ao espelho, Amaro
Faria saiu e entrou num tlburi.

Tinha calculado o tempo de l chegar; mas, como todo o
namorado, chegou um quarto de hora antes.

Deixou o tlburi a certa distncia, e entrou a passear ao
longo da praia.

De cada vez que assomava um carro ao longe, Amaro Faria
sentia-se enfraquecer; mas o carro passava, e em vez do nmero feliz trazia um
245 ou 523, que o deixava em profunda tristeza.

Amaro consultava o relgio de minuto a minuto.

Afinal assoma ao longe um carro que andava vagarosamente
como devem andar os carros que entram em tais mistrios.

 Ser este? disse Amaro consigo.

O carro aproximava-se com lentido e vinha fechado, de
maneira que ao passar junto de Amaro, este no pde ver quem ia dentro.

Mas apenas passou, Amaro leu o nmero 13.

As letras pareceram-lhe de fogo.

Foi imediatamente atrs; o carro parou dali a vinte
passos. Amaro aproximou-se e bateu na portinhola.

A portinhola abriu-se.

Havia dentro duas mulheres, ambas tinham um vu na cabea,
de maneira que Amaro no podia distinguir as suas feies.

 Sou eu! disse ele timidamente. Prometeu-me que eu a
veria...

E dizendo isto dirigia-se alternadamente para uma e outra,
pois no sabia qual delas era a misteriosa correspondente.

 V-la somente, e irei com a sua imagem no meu corao!

Uma das mulheres descobriu o rosto.

 Veja! disse ela.

Amaro recuou um passo.

Era Antonina.

A viva continuou:

 Aqui esto as suas cartas; lucrei muito. Como depois de
casada no ser tempo de arrepender-se, foi bom que o conhecesse agora mesmo.
Adeus.

Fechou a portinhola, e o carro partiu.

Amaro ficou alguns minutos no mesmo lugar, olhando sem
ver, e com mpetos de correr atrs do carro; mas era impossvel apanh-lo o
mais ligeiro tlburi, porque o carro, levado a galope, ia longe.

Amaro chamou de novo o seu tlburi e voltou para a cidade.

Apenas chegou  casa, saiu-lhe ao encontro o jovem
Marcondes, com um sorriso nos lbios.

 Ento,  bonita?

  o diabo! deixa-me!

Instado por Marcondes, o fazendeiro da Soledade contou
tudo ao amigo, que o consolou como pde, mas saiu de l rindo s gargalhadas.

IX

Amaro voltou para a fazenda.

Quando entrava pelo porto da Soledade foi dizendo consigo
estas filosficas palavras:

 Volto ao meu caf; sempre que fui em busca do
desconhecido dei-me mal; agora tranco as portas e viverei no meio das minhas
plantaes.
