Conto, Um esqueleto, 1875

Um esqueleto



Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.



Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, outubro a novembro de 1875.

CAPTULO
PRIMEIRO

Eram dez ou doze rapazes. Falavam
de artes, letras e poltica. Alguma anedota vinha de quando em quando temperar
a seriedade da conversa. Deus me perdoe! parece que at se fizeram alguns
trocadilhos.

O mar batia perto na praia
solitria... estilo de meditao em prosa. Mas nenhum dos doze convivas fazia caso do mar. Da noite tambm no, que era feia e ameaava chuva.  provvel
que se a chuva casse ningum desse por ela, to entretidos estavam todos em
discutir os diferentes sistemas polticos, os mritos de um artista ou de um
escritor, ou simplesmente em rir de uma pilhria intercalada a tempo.

Aconteceu no meio da noite que um
dos convivas falou na beleza da lngua alem. Outro conviva concordou com o
primeiro a respeito das vantagens dela, dizendo que a aprendera com o Dr.
Belm.

 No conheceram o Dr. Belm?
perguntou ele.

 No, responderam todos.

 Era um homem extremamente
singular. No tempo em que me ensinou alemo usava duma grande casaca que lhe
chegava quase aos tornozelos e trazia na cabea um chapu-de-chile de abas
extremamente largas.

 Devia ser pitoresco, observou um
dos rapazes. Tinha instruo?

 Variadssima. Compusera um
romance, e um livro de teologia e descobrira um planeta...

 Mas esse homem?

 Esse homem vivia em Minas. Veio  corte para imprimir os dois livros, mas no achou editor e preferiu rasgar os
manuscritos. Quanto ao planeta comunicou a notcia  Academia das Cincias de
Paris; lanou a carta no correio e esperou a resposta; a resposta no veio
porque a carta foi parar a Gois.

Um dos convivas sorriu
maliciosamente para os outros, com ar de quem dizia que era muita desgraa
junta. A atitude porm do narrador tirou-lhe o gosto do riso. Alberto (era o
nome do narrador) tinha os olhos no cho, olhos melanclicos de quem se
rememora com saudade de uma felicidade extinta. Efetivamente suspirou depois de
algum tempo de muda e vaga contemplao, e continuou:

 Desculpem-me este silncio, no
me posso lembrar daquele homem sem que uma lgrima teime em rebentar-me dos
olhos. Era um excntrico, talvez no fosse, no era decerto um homem
completamente bom; mas era meu amigo; no direi o nico mas o maior que jamais
tive na minha vida.

Como era natural, estas palavras
de Alberto alteraram a disposio de esprito do auditrio. O narrador ainda
esteve silencioso alguns minutos. De repente sacudiu a cabea como se expelisse
lembranas importunas do passado, e disse:

 Para lhes mostrar a
excentricidade do Dr. Belm basta contar-lhes a histria do esqueleto.

A palavra esqueleto aguou
a curiosidade dos convivas; um romancista aplicou o ouvido para no perder nada
da narrao; todos esperaram ansiosamente o esqueleto do Dr. Belm. Batia
justamente meia-noite; a noite, como disse, era escura; o mar batia
funebremente na praia. Estava-se em pleno Hoffmann.

Alberto comeou a narrao.

CAPTULO II

O Dr. Belm era um homem alto e
magro; tinha os cabelos grisalhos e cados sobre os ombros; em repouso era reto
como uma espingarda; quando andava curvava-se um pouco. Conquanto o seu olhar
fosse muitas vezes meigo e bom, tinha lampejos sinistros, e s vezes, quando
ele meditava, ficava com olhos como de defunto.

Representava ter sessenta anos,
mas no tinha efetivamente mais de cinqenta. O estudo o abatera muito, e os
desgostos tambm, segundo ele dizia, nas poucas vezes em que me falara do
passado, e era eu a nica pessoa com quem ele se comunicava a esse respeito.
Podiam contar-se-lhe trs ou quatro rugas pronunciadas na cara, cuja pele era
fria como o mrmore e branca como a de um morto.

Um dia, justamente no fim da minha
lio, perguntei-lhe se nunca fora casado. O doutor sorriu sem olhar para mim.
No insisti na pergunta; arrependi-me at de lha ter feito.

 Fui casado, disse ele, depois de
algum tempo, e daqui a trs meses posso dizer outra vez: sou casado.

 Vai casar?

 Vou.

 Com quem?

 Com a D. Marcelina.

D. Marcelina era uma viva de Ouro
Preto, senhora de vinte e seis anos, no formosa, mas assaz simptica, possua
alguma coisa, mas no tanto como o doutor, cujos bens oravam por uns sessenta
contos.

No me constava at ento que ele
fosse casar; ningum falara nem suspeitara tal coisa.

 Vou casar, continuou o Doutor,
unicamente porque o senhor me falou nisso. At cinco minutos antes nenhuma
inteno tinha de semelhante ato. Mas a sua pergunta faz-me lembrar que eu
efetivamente preciso de uma companheira; lancei os olhos da memria a todas as
noivas possveis, e nenhuma me parece mais possvel do que essa. Daqui a trs
meses assistir ao nosso casamento. Promete?

 Prometo, respondi eu com um riso
incrdulo.

 No ser uma formosura.

 Mas  muito simptica, decerto,
acudi eu.

 Simptica, educada e viva.
Minha idia  que todos os homens deviam casar com senhoras vivas.

 Quem casaria ento com as
donzelas?

 Os que no fossem homens,
respondeu o velho, como o senhor e a maioria do gnero humano; mas os homens,
as criaturas da minha tmpera, mas...

O doutor estacou, como se receasse
entrar em maiores confidncias, e tornou a falar da viva Marcelina cujas boas
qualidades louvou com entusiasmo.

 No  to bonita como a minha
primeira esposa, disse ele. Ah! essa... Nunca a viu?

 Nunca.

  impossvel.

  a verdade. J o conheci vivo,
creio eu.

 Bem; mas eu nunca lha mostrei.
Ande v-la...

Levantou-se; levantei-me tambm.
Estvamos assentados  porta; ele levou-me a um gabinete interior. Confesso que
ia ao mesmo tempo curioso e aterrado. Conquanto eu fosse amigo dele e tivesse
provas de que ele era meu amigo, tanto medo inspirava ele ao povo, e era
efetivamente to singular, que eu no podia esquivar-me a um tal ou qual
sentimento de medo.

No fundo do gabinete havia um
mvel coberto com um pano verde; o doutor tirou o pano e eu dei um grito.

Era um armrio de vidro, tendo
dentro um esqueleto. Ainda hoje, apesar dos anos que l vo, e da mudana que
fez o meu esprito, no posso lembrar-me daquela cena sem terror.

  minha mulher, disse o Dr.
Belm sorrindo.  bonita, no lhe parece? Est na espinha, como v. De tanta
beleza, de tanta graa, de tanta maravilha que me encantaram outrora, que a
tantos mais encantaram, que lhe resta hoje? Veja, meu jovem amigo; tal  ltima
expresso do gnero humano.

Dizendo isto, o Dr. Belm cobriu o
armrio com o pano e samos do gabinete. Eu no sabia o que havia de dizer, to
impressionado me deixara aquele espetculo.

Viemos outra vez para as nossas
cadeiras ao p da porta, e algum tempo estivemos sem dizer palavra um ao outro.
O doutor olhava para o cho; eu olhava para ele. Tremiam-lhe os lbios, e a
face de quando em quando se lhe contraa. Um escravo veio falar-lhe; o doutor
saiu daquela espcie de letargo.

Quando ficamos ss parecia outro;
falou-me risonho e jovial, com uma volubilidade que no estava nos seus usos.

 Ora bem, se eu for feliz no
casamento, disse ele, ao senhor o deverei. Foi o senhor quem me deu esta idia!
E fez bem, porque at j me sinto mais rapaz. Que lhe parece este noivo?

Dizendo isto, o Dr. Belm levantou-se
e fez uma pirueta, segurando nas abas da casaca, que nunca deixava, salvo
quando se recolhia de noite.

 Parece-lhe capaz o noivo? disse
ele.

 Sem dvida, respondi.

 Tambm ela h de pensar assim.
Ver, meu amigo, que eu meterei tudo num chinelo, e mais de um invejar a minha
sorte.  pouco; mais de uma invejar a sorte dela. Pudera no? No h muitos
noivos como eu.

Eu no dizia nada, e o doutor
continuou a falar assim durante vinte minutos. A tarde cara de todo; e a idia
da noite e do esqueleto que ali estava a poucos passos de ns, e mais ainda as
maneiras singulares que nesse dia, mais do que nos outros, mostrava o meu bom
mestre, tudo isso me levou a despedir-me dele e a retirar-me para casa.

O doutor sorriu-se com o sorriso
sinistro que s vezes tinha, mas no insistiu para que ficasse. Fui para casa
aturdido e triste; aturdido com o que vira; triste com a responsabilidade que o
doutor atirava sobre mim relativamente ao seu casamento.

Entretanto, refleti que a palavra
do doutor podia no ter pronta nem remota realizao. Talvez no se case nunca,
nem at pense nisso. Que certeza teria ele de desposar a viva Marcelina da a
trs meses? Quem sabe at, pensei eu, se no disse aquilo para zombar comigo?

Esta idia enterrou-se-me no
esprito. No dia seguinte levantei-me convencido de que efetivamente o doutor
quisera matar o tempo e juntamente aproveitar a ocasio de me mostrar o
esqueleto da mulher.

Naturalmente, disse eu comigo,
amou-a muito, e por esse motivo ainda a conserva.  claro que no se casar com
outra; nem achar quem case com ele, to aceita anda a superstio popular que
o tem por lobisomem ou quando menos amigo ntimo do diabo... ele! o meu bom e
compassivo mestre!

Com estas idias fui logo de manh
 casa do Dr. Belm. Achei-o a almoar sozinho, como sempre, servido por um
escravo da mesma idade.

 Entre, Alberto, disse o doutor
apenas me viu  porta. Quer almoar?

 Aceito.

 Joo, um prato.

Almoamos alegremente; o doutor
estava como me parecia na maior parte das vezes, conversando de coisas srias
ou frvolas, misturando uma reflexo filosfica com uma pilhria, uma anedota
de rapaz com uma citao de Virglio.

No fim do almoo tornou a falar do
seu casamento.

 Mas ento pensa nisso
deveras?... perguntei eu.

 Por que no? No depende seno
dela; mas eu estou quase certo de que ela no recusa. Apresenta-me l?

 s suas ordens.

No dia seguinte era apresentado o
Dr. Belm em casa da viva Marcelina e recebido com muita afabilidade.

Casar-se- deveras com ela?
dizia eu a mim mesmo espantado do que via, porque, alm da diferena da idade
entre ele e ela, e das maneiras excntricas dele, havia um pretendente  mo da
bela viva, o Tenente Soares.

Nem a viva nem o tenente
imaginavam as intenes do Dr. Belm; daqui podem j imaginar o pasmo de D.
Marcelina quando ao cabo de oito dias, perguntou-lhe o meu mestre, se ela
queria casar com ele.

 Nem com o senhor nem com outro,
disse a viva; fiz voto de no casar mais.

 Por qu? perguntou friamente o
doutor.

 Porque amava muito a meu marido.

 No tolhe isso que ame o
segundo, observou o candidato sorrindo.

E depois de algum tempo de
silncio:

 No insisto, disse ele, nem fao
aqui uma cena dramtica. Eu amo-a deveras, mas  um amor de filsofo, um amor
como eu entendo que deviam ser todos. Entretanto deixe-me ter esperana;
pedir-lhe-ei mais duas vezes a sua mo. Se da ltima nada alcanar consinta-me
que fique sendo seu amigo.

CAPTULO III

O Dr. Belm foi fiel a este
programa. Dali a ms pediu outra vez a mo da viva, e teve a mesma recusa, mas
talvez menos peremptria do que a primeira. Deixou passar seis semanas, e
repetiu o pedido.

 Aceitou? disse eu apenas o vi
vir da casa de D. Marcelina.

 Por que havia de recusar? Eu no
lhe disse que me casava dentro de trs meses?

 Mas ento o senhor  um
adivinho, um mgico?...

O doutor deu uma gargalhada, das
que ele guardava para quando queria motejar de algum ou de alguma coisa.
Naquela ocasio o motejado era eu. Parece que no fiz boa cara porque o douto
imediatamente ficou srio e abraou-me dizendo:

 Oh! meu amigo, no desconfie!
Conhece-me de hoje?

A ternura com que ele me disse
estas palavras tornava-o outro homem. J no tinha os tons sinistros do olhar
nem a fala saccade (v o termo francs, no me ocorre agora o nosso)
que era a sua fala caracterstica. Abracei-o tambm, e falamos do casamento e
da noiva.

O doutor estava alegre;
apertava-me muitas vezes as mos agradecendo-me a idia que lhe dera; fazia
seus planos de futuro. Tinha idias de vir  corte, logo depois do casamento;
aventurou a idia de seguir para a Europa; mas apenas parecia assentado nisto,
j pensava em no sair de Minas, e morrer ali, dizia ele, entre as suas
montanhas.

 J vejo que est perfeitamente
noivo, disse eu; tem todos os traos caractersticos de um homem nas vsperas
de casar.

 Parece-lhe?

 E .

 De fato, gosto da noiva, disse
ele com ar srio;  possvel que eu morra antes dela; mas o mais provvel  que
ela morra primeiro. Nesse caso, juro desde j que ir o seu esqueleto fazer
companhia ao outro.

A idia do esqueleto fez-me
estremecer. O doutor, ao dizer estas palavras, cravara os olhos no cho,
profundamente absorto. Da em diante a conversa foi menos alegre do que a
princpio. Sa de l desagradavelmente impressionado.

O casamento dentro de pouco tempo
foi realidade. Ningum queria acreditar nos seus olhos. Todos admiraram a
coragem (era a palavra que diziam) da viva Marcelina, que no recuava quele
grande sacrifcio.

Sacrifcio no era. A moa parecia
contente e feliz. Os parabns que lhe davam eram irnicos, mas ela os recebia
com muito gosto e seriedade. O Tenente Soares no lhe deu os parabns; estava
furioso; escreveu-lhe um bilhete em que lhe dizia todas as coisas que em tais
circunstncias se podem dizer.

O casamento foi celebrado pouco
depois do prazo que o Dr. Belm marcara na conversa que tivera comigo e que eu
j referi. Foi um verdadeiro acontecimento na capital de Minas. Durante oito
dias no se falava seno no caso impossvel; afinal, passou a novidade,
como todas as coisas deste mundo, e ningum mais tratou dos noivos.

Fui jantar com eles no fim de uma
semana; D. Marcelina parecia mais que nunca feliz; o Dr. Belm no o estava
menos. At parecia outro. A mulher comeava a influir nele, sendo j uma das
primeiras conseqncias a supresso da singular casaca. O doutor consentiu em
vestir-se menos excentricamente.

 Veste-me como quiseres, dizia
ele  mulher; o que no poders fazer nunca  mudar-me a alma. Isso nunca.

 Nem quero.

 Nem podes.

Parecia que os dois estavam
destinados a gozar uma eterna felicidade. No fim de um ms fui l, e achei-a
triste.

Oh! disse eu comigo, cedo comeam
os arrufos.

O doutor estava como sempre.
Lamos ento e comentvamos  nossa maneira o Fausto. Nesse dia
pareceu-me o Dr. Belm mais perspicaz e engenhoso que nunca. Notei, entretanto,
uma singular pretenso: um desejo de se parecer com Mefistfeles.

Aqui confesso que no pude deixar
de rir.

 Doutor, disse eu, creio que o
senhor abusa da amizade que lhe tenho para zombar comigo.

 Sim?

 Aproveita-se da opinio de
excntrico para me fazer crer que  o diabo...

Ouvindo esta ltima palavra, o
doutor persignou-se todo, e foi a melhor afirmativa que me poderia fazer de que
no ambicionava confundir-se com o personagem aludido. Sorriu-se depois
benevolamente, tomou uma pitada e disse:

 Ilude-se meu amigo, quando me
atribui semelhante idia, do mesmo modo que se engana quando supe que
Mefistfeles  isso que diz.

 Essa agora!...

 Noutra ocasio lhe direi as
minhas razes. Por agora vamos jantar.

 Obrigado. Devo ir jantar com meu
cunhado. Mas, se me permite ficarei ainda algum tempo aqui lendo o seu Fausto.

O doutor no ps objeo; eu era
ntimo da casa. Saiu dali para a sala do jantar. Li ainda durante vinte
minutos, findos os quais fechei o livro e fui despedir-me do Dr. Belm e sua
senhora.

Caminhei por um corredor fora que
ia ter  sala do jantar. Ouvia mover os pratos, mas nenhuma palavra soltavam os
dois casados.

O arrufo continua, pensei eu.

Fui andando... Mas qual no foi a
minha surpresa ao chegar  porta? O doutor estava de costas, no me podia ver.
A mulher tinha os olhos no prato. Entre ele e ela, sentado numa cadeira vi o
esqueleto. Estaquei aterrado e trmulo. Que queria dizer aquilo? Perdia-me em
conjeturas; cheguei a dar um passo para falar ao doutor, mas no me atrevi;
voltei pelo mesmo caminho, peguei no chapu, e deitei a correr pela rua fora.

Em casa de meu cunhado todos
notaram os sinais de temor que eu ainda levava no rosto. Perguntaram-me se
havia visto alguma alma do outro mundo. Respondi sorrindo que sim; mas nada
contei do que acabava de presenciar.

Durante trs dias no fui  casa
do doutor. Era medo, no do esqueleto, mas do dono da casa, que se me afigurava
ser um homem mau ou um homem doido. Todavia, ardia por saber a razo da
presena do esqueleto na mesa do jantar. D. Marcelina podia dizer-me tudo; mas
como indagaria isso dela, se o doutor estava quase sempre em casa?

No terceiro dia apareceu-me em
casa o Doutor Belm.

 Trs dias! disse ele, h j trs
dias que eu no tenho a fortuna de o ver. Onde anda? Est mal conosco?

 Tenho andado doente, respondi
eu, sem saber o que dizia.

 E no me mandou dizer nada,
ingrato! J no  meu amigo.

A doura destas palavras dissipou
os meus escrpulos. Era singular como aquele homem, que por certos hbitos,
maneiras e idias, e at pela expresso fsica, assustava a muita gente e dava
azo s fantasias da superstio popular, era singular, repito, como me falava
s vezes com uma meiguice incomparvel e um tom patriarcalmente benvolo.

Conversamos um pouco e fui
obrigado a acompanh-lo  casa. A mulher ainda me pareceu triste, mas um pouco
menos que da outra vez. Ele tratava-a com muita ternura e considerao, e ela
se no respondia alegre, ao menos falava com igual meiguice.

CAPTULO IV

No meio da conversa vieram dizer
que o jantar estava na mesa.

 Agora h de jantar conosco,
disse ele.

 No posso, balbuciei eu, devo
ir...

 No deve ir a nenhuma parte,
atalhou o doutor; parece-me que quer fugir de mim. Marcelina, pede ao Dr.
Alberto que jante conosco.

D. Marcelina repetiu o pedido do
marido, mas com um ar de constrangimento visvel. Ia recusar de novo, mas o
doutor teve a precauo de me agarrar no brao e foi impossvel recusar.

 Deixe-me ao menos dar o brao a
sua senhora, disse eu.

 Pois no.

Dei o brao a D. Marcelina que
estremeceu. O doutor passou adiante. Eu inclinei a boca ao ouvido da pobre
senhora e disse baixinho:

 Que mistrio h?

D. Marcelina estremeceu outra vez
e com um sinal imps-me silncio.

Chegamos  sala de jantar.

Apesar de j ter presenciado a
cena do outro dia no pude resistir  impresso que me causou a vista do
esqueleto que l estava na cadeira em que o vira com os braos sobre a mesa.

Era horrvel.

 J lhe apresentei minha primeira
mulher, disse o doutor para mim; so conhecidos antigos.

Sentamo-nos  mesa; o esqueleto
ficou entre ele e D. Marcelina; eu fiquei ao lado desta. At ento no pude
dizer palavra; era porm natural que exprimisse o meu espanto.

 Doutor, disse eu, respeito os
seus hbitos; mas no me dar a explicao deste?

 Este qual? disse ele.

Com um gesto indiquei-lhe o
esqueleto.

 Ah!... respondeu o doutor; um
hbito natural; janto com minhas duas mulheres.

 Confesse ao menos que  um uso
original.

 Queria que eu copiasse os
outros?

 No, mas a piedade com os
mortos...

Atrevi-me a falar assim porque,
alm de me parecer aquilo uma profanao, a melancolia da mulher parecia pedir
que algum falasse duramente ao marido e procurasse traz-lo a melhor caminho.

O doutor deu uma das suas
singulares gargalhadas, e estendendo-me o prato de sopa, replicou:

 O senhor fala de uma piedade de
conveno; eu sou pio  minha maneira. No  respeitar uma criatura que amamos
em vida, o traz-la assim conosco, depois de morta?

No respondi coisa nenhuma a estas
palavras do doutor. Comi silenciosamente a sopa, e o mesmo fez a mulher,
enquanto ele continuou a desenvolver as suas idias a respeito dos mortos.

 O medo dos mortos, disse ele,
no  s uma fraqueza,  um insulto, uma perversidade do corao. Pela minha
parte dou-me melhor com os defuntos do que com os vivos.

E depois de um silncio:

 Confesse, confesse que est com
medo.

Fiz-lhe um sinal negativo com a
cabea.

  medo, , como esta senhora que
est ali transida de susto, porque ambos so dois maricas. Que h entretanto
neste esqueleto, que possa meter medo? No lhes digo que seja bonito; no  bonito
segundo a vida, mas  formosssimo segundo a morte. Lembrem-se que isto somos
ns tambm; ns temos de mais um pouco de carne.

 S? perguntei eu
intencionalmente.

O doutor sorriu-se e respondeu:

 S.

Parece que fiz um gesto de
aborrecimento, porque ele continuou logo:

 No tome ao p da letra o que
lhe disse. Eu tambm creio na alma; no creio s, demonstro-a, o que no  para
todos. Mas a alma foi-se embora; no podemos ret-la; guardemos isto ao menos,
que  uma parte da pessoa amada.

Ao terminar estas palavras, o
doutor beijou respeitosamente a mo do esqueleto. Estremeci e olhei para D.
Marcelina. Esta fechara os olhos. Eu estava ansioso por terminar aquela cena
que realmente me repugnava presenciar. O doutor no parecia reparar em nada. Continuou a falar no mesmo assunto, e por mais esforos que eu fizesse para o desviar
dele era impossvel.

Estvamos  sobremesa quando o
doutor, interrompendo um silncio que durava j havia dez minutos perguntou:

 E segundo me parece, ainda lhe
no contei a histria deste esqueleto, quero dizer a histria de minha mulher?

 No me lembra, murmurei.

 E a ti? disse ele voltando-se
para a mulher.

 J.

 Foi um crime, continuou ele.

 Um crime?

 Cometido por mim.

 Pelo senhor?

  verdade.

O doutor concluiu um pedao de
queijo, bebeu o resto do vinho que tinha no copo, e repetiu:

  verdade, um crime de que fui
autor. Minha mulher era muito amada de seu marido; no admira, eu sou todo
corao. Um dia porm, suspeitei que me houvesse trado; vieram dizer-me que um
moo da vizinhana era seu amante. Algumas aparncias me enganaram. Um dia
declarei-lhe que sabia tudo, e que ia puni-la do que me havia feito. Lusa
caiu-me aos ps banhada em lgrimas protestando pela sua inocncia. Eu estava
cego; matei-a.

Imagina-se, no se descreve a
impresso de horror que estas palavras me causaram. Os cabelos ficaram-me em p. Olhei para aquele homem, para o esqueleto, para a senhora, e passava a mo pela testa,
para ver se efetivamente estava acordado, ou se aquilo era apenas um sonho.

O doutor tinha os olhos fitos no
esqueleto e uma lgrima lhe caa lentamente pela face. Estivemos todos calados
durante cerca de dez minutos.

O doutor rompeu o silncio.

 Tempos depois, quando o crime
estava de h muito cometido, sem que a justia o soubesse, descobri que Lusa
era inocente. A dor que ento sofri foi indescritvel; eu tinha sido o algoz de
um anjo.

Estas palavras foram ditas com tal
amargura que me comoveram profundamente. Era claro que ainda ento, aps longos
anos do terrvel acontecimento, o doutor sentia o remorso do que praticara e a
mgoa de ter perdido a esposa.

A prpria Marcelina parecia
comovida. Mas a comoo dela era tambm medo; segundo vim a saber depois, ela
receava que no marido no estivessem ntegras as faculdades mentais.

Era um engano.

O doutor era, sim, um homem
singular e excntrico; doido lhe chamavam os que, por se pretenderem mais
espertos que o vulgo, repeliam os contos da superstio.

Estivemos calados algum tempo e
dessa vez foi ainda ele que interrompeu o silncio.

 No lhes direi como obtive o
esqueleto de minha mulher. Aqui o tenho e o conservarei at  minha morte.
Agora naturalmente deseja saber por que motivo o trago para a mesa depois que
me casei.

No respondi com os lbios, mas os
meus olhos disseram-lhe que efetivamente desejava saber a explicao daquele
mistrio.

  simples, continuou ele;  para
que minha segunda mulher esteja sempre ao p da minha vtima, a fim de que se
no esquea nunca dos seus deveres, porque, ento como sempre,  mui provvel
que eu no procure apurar a verdade; farei justia por minhas mos.

Esta ltima revelao do doutor
ps termo  minha pacincia. No sei o que lhe disse, mas lembra-me que ele
ouviu-me com o sorriso benvolo que tinha s vezes, e respondeu-me com esta
simples palavra:

 Criana!

Sa pouco depois do jantar,
resolvido a l no voltar nunca.

CAPTULO V

A promessa no foi cumprida.

Mais de uma vez o Doutor Belm
mandou  casa chamar-me; no fui. Veio duas ou trs vezes instar comigo que l
fosse jantar com ele.

 Ou, pelo menos, conversar,
concluiu.

Pretextei alguma coisa e no fui.

Um dia porm, recebi um bilhete da
mulher. Dizia-me que era eu a nica pessoa estranha que l ia; pedia-me que no
a abandonasse.

Fui.

Eram ento passados quinze dias
depois do clebre jantar em que o doutor me referiu a histria do esqueleto. A
situao entre os dois era a mesma; aparente afabilidade da parte dela, mas na
realidade medo. O doutor mostrava-se afvel e terno, como sempre o vira com
ela.

Justamente nesse dia, anunciou-me
ele que pretendia ir a uma jornada dali a algumas lguas.

 Mas vou s, disse ele, e desejo
que o senhor me faa companhia a minha mulher vindo aqui algumas vezes.

Recusei.

 Por qu?

 Doutor, por que razo, sem
urgente necessidade, daremos pasto s ms lnguas? Que se dir...

 Tem razo, atalhou ele; ao
menos, faa-me uma coisa.

 O qu?

 Faa com que em casa de sua irm
possa Marcelina ir passar as poucas semanas de minha ausncia.

 Isso com muito gosto.

Minha irm concordou em receber a
mulher do Dr. Belm, que da a pouco saa da capital para o interior. Sua
despedida foi terna e amigvel para com ambos ns, a mulher e eu; fomos os
dois, e mais minha irm e meu cunhado acompanh-lo at certa distncia, e
voltamos para casa.

Pude ento conversar com D.
Marcelina, que me comunicou os seus receios a respeito da razo do marido.
Dissuadi-a disso; j disse qual era a minha opinio a respeito do Dr. Belm.

Ela referiu-me ento que a
narrao da morte da mulher j ele lha havia feito, prometendo-lhe igual sorte
no caso de faltar aos seus deveres.

 Nem as aparncias te salvaro,
acrescentou ele.

Disse-me mais que era seu costume
beijar repetidas vezes o esqueleto da primeira mulher e dirigir-lhe muitas
palavras de ternura e amor. Uma noite, estando a sonhar com ela, levantou-se da
cama e foi abraar o esqueleto pedindo-lhe perdo.

Em nossa casa todos eram de opinio
que D. Marcelina no voltasse mais para a companhia do Dr. Belm. Eu era de
opinio oposta.

 Ele  bom, dizia eu, apesar de
tudo; tem extravagncias, mas  um bom corao.

No fim de um ms recebemos uma
carta do doutor, em que dizia  mulher fosse ter ao lugar onde ele se achava, e
que eu fizesse o favor de a acompanhar.

Recusei ir s com ela.

Minha irm e meu cunhado
ofereceram-se porm para acompanh-la.

Fomos todos.

Havia entretanto uma recomendao
na carta do doutor, recomendao essencial; ordenava ele  mulher que levasse
consigo o esqueleto.

 Que esquisitice nova  essa?
disse meu cunhado.

 H de ver, suspirou
melancolicamente D. Marcelina, que o nico motivo desta minha viagem, so as
saudades que ele tem do esqueleto.

Eu nada disse, mas pensei que
assim fosse.

Samos todos em demanda do lugar
onde nos esperava o doutor.

amos j perto, quando ele nos
apareceu e veio alegremente cumprimentar-nos. Notei que no tinha a ternura de
costume com a mulher, antes me pareceu frio. Mas isso foi obra de pouco tempo;
da a uma hora voltara a ser o que sempre fora.

Passamos dois dias na pequena vila
em que o doutor estava, dizia ele, para examinar umas plantas, porque tambm
era botnico. Ao fim de dois dias dispnhamos a voltar para a capital; ele
porm pediu que nos demorssemos ainda vinte e quatro horas e voltaramos todos
juntos.

Acedemos.

No dia seguinte de manh convidou
a mulher a ir ver umas lindas parasitas no mato que ficava perto. A mulher
estremeceu, mas no ousou recusar.

 Vem tambm? disse ele.

 Vou, respondi.

A mulher cobrou alma nova e
deitou-me um olhar de agradecimento. O doutor sorriu  socapa. No compreendi
logo o motivo do riso; mas da a pouco tempo tinha a explicao.

Fomos ver as parasitas, ele
adiante com a mulher, eu atrs de ambos, e todos trs silenciosos.

No tardou que um riacho
aparecesse aos nossos olhos; mas eu mal pude ver o riacho; o que eu vi, o que
me fez recuar um passo, foi um esqueleto.

Dei um grito.

 Um esqueleto! exclamou D.
Marcelina.

 Descansem, disse o doutor,  o
de minha primeira mulher.

 Mas...

 Trouxe-o esta madrugada para
aqui.

Nenhum de ns compreendia nada.

O doutor sentou-se numa pedra.

 Alberto, disse ele, e tu,
Marcelina. Outro crime devia ser cometido nesta ocasio; mas tanto te amo,
Alberto, tanto te amei, Marcelina, que eu prefiro deixar de cumprir a minha
promessa...

Ia interromp-lo; mas ele no me
deu ocasio.

 Vocs amam-se, disse ele.

Marcelina deu um grito; eu ia
protestar.

 Amam-se que eu sei, continuou
friamente o doutor; no importa!  natural. Quem amaria um velho estrdio como
eu? Pacincia. Amem-se; eu s fui amado uma vez; foi por esta.

Dizendo isto abraou-se ao
esqueleto.

 Doutor, pense no que est
dizendo...

 J pensei...

 Mas esta senhora  inocente. No
v aquelas lgrimas?

 Conheo essas lgrimas; lgrimas
no so argumentos. Amam-se, que eu sei; desejo que sejam felizes, porque eu
fui e sou teu amigo, Alberto. No merecia certamente isso...

 Oh! meu amigo, interrompi eu,
veja bem o que est dizendo; j uma vez foi levado a cometer um crime por
suspeitas que depois soube serem infundadas. Ainda hoje padece o remorso do que
ento fez. Reflita, veja bem se eu posso tolerar semelhante calnia.

Ele encolheu os ombros, meteu a
mo no bolso, e tirou um papel e deu-mo a ler. Era uma carta annima; soube
depois que fora escrita pelo Soares.

 Isto  indigno! clamei.

 Talvez, murmurou ele.

E depois de um silncio:

 Em todo o caso, minha resoluo
est assentada, disse o doutor. Quero faz-los felizes, e s tenho um meio: 
deix-los. Vou com a mulher que sempre me amou. Adeus!

O doutor abraou o esqueleto e
afastou-se de ns. Corri atrs dele; gritei; tudo foi intil; ele metera-se no
mato rapidamente, e demais a mulher ficara desmaiada no cho.

Vim socorr-la; chamei gente. Da
a uma hora, a pobre moa, viva sem o ser, lavava-se em lgrimas de aflio.



CAPTULO VI

Alberto acabara a histria.

 Mas  um doido esse teu Dr.
Belm! exclamou um dos convivas rompendo o silncio de terror em que ficara o
auditrio.

 Ele doido? disse Alberto. Um
doido seria efetivamente se porventura esse homem tivesse existido. Mas o Dr.
Belm no existiu nunca, eu quis apenas fazer apetite para tomar ch. Mandem
vir o ch.

 intil dizer o efeito desta
declarao.
