Conto, Sales, 1887

Sales

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol.
II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Gazeta de Notcias, 30 de maio de 1887.

Ao certo, no se pode saber em que
data teve Sales a sua primeira idia. Sabe-se que, aos dezenove anos, em 1854,
planeou transferir a capital do Brasil para o interior, e formulou alguma coisa
a tal respeito; mas no se pode afirmar, com segurana, que tal fosse a
primeira nem a segunda idia do nosso homem. Atriburam-lhe meia dzia antes
dessa, algumas evidentemente apcrifas, por desmentirem dos anos em flor, mas
outras possveis e engenhosas. Geralmente eram concepes vastas, brilhantes,
inopinveis ou s complicadas. Cortava largo, sem poupar pano nem tesoura; e,
quaisquer que fossem as objees prticas, a imaginao estendia-lhe sempre um
vu magnfico sobre o spero e o asprrimo. Ousaria tudo: pegaria de uma enxada
ou de um cetro, se preciso fosse, para pr qualquer idia a caminho. No digo
cumpri-la, que  outra coisa.

Casou aos vinte e cinco anos, em
1859, com a filha de um senhor de engenho de Pernambuco, chamado Melchior. O
pai da moa ficara entusiasmado, ouvindo ao futuro genro certo plano de
produo de acar, por meio de uma unio de engenhos e de um mecanismo
simplssimo. Foi no Teatro de Santa Isabel, no Recife, que Melchior lhe ouviu
expor os lineamentos principais da idia.

 Havemos de falar nisso outra
vez, disse Melchior; por que no vai ao nosso engenho?

Sales foi ao engenho, conversou,
escreveu, calculou, fascinou o homem. Uma vez acordados na idia, saiu o moo a
propag-la por toda a comarca; achou tmidos, achou recalcitrantes, mas foi
animando a uns e persuadindo a outros. Estudou a produo da zona, comparou a
real  provvel, e mostrou a diferena. Vivia no meio de mapas, cotaes de
preos, estatsticas, livros, cartas, muitas cartas. Ao cabo de quatro meses,
adoeceu; o mdico achou que a molstia era filha do excesso de trabalho cerebral,
e prescreveu-lhe grandes cautelas.

Foi por esse tempo que a filha do
senhor do engenho e uma irm deste regressaram da Europa, aonde tinham ido nos
meados de 1858. Es liegen einige gute Ideen in diesen Rock, dizia uma vez o alfaiate de
Heine, mirando-lhe a sobrecasaca. Sales no desceria a achar semelhantes coisas numa
sobrecasaca; mas, numa linda moa, por que no? H nesta pequena algumas
idias boas, pensou ele olhando para Olegria,  ou Legazinha, como se
dizia no engenho. A moa era baixota, delgada, rosto alegre e bom. A influio
foi recproca e sbita. Melchior, no menos namorado do rapaz que a filha, no
hesitou em cas-los; lig-lo  famlia era assegurar a persistncia de Sales na
execuo do plano.

O casamento fez-se em agosto, indo
os noivos passar a lua-de-mel no Recife. No fim de dois meses, no voltando
eles ao engenho, e acumulando-se ali uma infinidade de respostas ao
questionrio que Sales organizara, e muitos outros papis e opsculos, Melchior
escreveu ao genro que viesse; Sales respondeu que sim, mas que antes disso
precisava dar uma chegadinha ao Rio de Janeiro, coisa de poucas semanas, dois
meses, no mximo. Melchior correu ao Recife para impedir a viagem; em ltimo
caso, prometeu que, se esperassem at maio, ele viria tambm. Tudo foi intil;
Sales no podia esperar; tinha isto, tinha aquilo, era indispensvel.

 Se houver necessidade de
apressar a volta, escreva-me; mas descanse, a boa semente frutificar. Caiu em
boa terra, concluiu enfaticamente.

nfase no exclui sinceridade.
Sales era sincero, mas uma coisa  s-lo de esprito, outra de vontade. A
vontade estava agora na jovem consorte. Entrando no mar, esqueceu-lhe a terra;
descendo  terra, olvidou as guas. A ocupao nica do seu ser era amar esta
moa, que ele nem sabia que existisse, quando foi para o engenho do sogro
cuidar do acar. Meteram-se na Tijuca, em casa que era juntamente ninho e
fortaleza;  ninho para eles, fortaleza para os estranhos, alis inimigos.
Vinham abaixo algumas vezes,  ou a passeio, ou ao teatro; visitas raras e de
carto. Durou essa recluso oito meses. Melchior escrevia ao genro que
voltasse, que era tempo; ele respondia que sim, e ia ficando; comeou a
responder tarde, e acabou falando de outras coisas. Um dia, o sogro mandou-lhe
dizer que todos os apalavrados tinham desistido da empresa. Sales leu a carta
ao p de Legazinha, e ficou longo tempo a olhar para ela.

 Que mais? perguntou Legazinha.

Sales afirmou a vista; acabava de
descobrir-lhe um cabelinho branco. Cs aos vinte anos! Inclinou-se, e deu no
cabelo um beijo de boas-vindas. No cuidou de outra coisa em todo o dia.
Chamava-lhe 'minha velha'. Falava em comprar uma medalhinha de prata
para guardar o cabelo, com a data, e s a abririam quando fizessem vinte e
cinco anos de casados. Era uma idia nova esse cabelo. Bem dizia ele que a moa
tinha em si algumas idias boas, como a sobrecasaca de Heine; no s as tinha
boas, mas inesperadas.

Um dia, reparou Legazinha que os
olhos do marido andavam dispersos no ar, ou recolhidos em si. Nos dias seguintes observou a mesma coisa. Note-se que no eram olhos de qualquer. Tinham a cor
indefinvel, entre castanho e ouro;  grandes, luminosos e at quentes. Viviam
em geral como os de toda a gente; e, para ela, como os de nenhuma pessoa, mas o
fenmeno daqueles dias era novo e singular. Iam da profunda imobilidade 
mobilidade sbita e quase demente. Legazinha falava-lhe, sem que ele a ouvisse;
pegava-lhe dos ombros ou das mos, e ele acordava.

 Hem? que foi?

Legazinha a princpio ria-se.

 Este meu marido! Este meu
marido! Onde anda voc?

Sales ria tambm, levantava-se,
acendia um charuto, e entrava a andar e a pensar; da a pouco mergulhava outra
vez em si. O fenmeno foi-se agravando. Sales passou a escrever horas e horas;
s vezes, deixava a cama, alta noite, para ir tomar alguma nota. Legazinha
sups que era o negcio dos engenhos, e disse-lho, pendurando-se graciosamente
do ombro:

 Os engenhos? repetiu ele. E
voltando a si:  Ah! os engenhos...

Legazinha temia algum transtorno
mental, e procurava distra-lo. J saam a visitas, recebiam outras; Sales
consentiu em ir a um baile, na Praia do Flamengo. Foi a que ele teve um
princpio de reputao epigramtica, por uma resposta que deu distraidamente:

 Que idade ter aquela feiosa,
que vai casar? perguntou-lhe uma senhora com malignidade.

 Perto de duzentos contos,
respondeu Sales.

Era um clculo que estava fazendo;
mas o dito foi tomado  m parte, andou de boca em boca, e muita gente redobrou
os carinhos com um homem capaz de dizer coisas to perversas.

Um dia, o estado dos olhos foi
cedendo inteiramente da imobilidade para a mobilidade; entraram a rir, a
derramarem-se-lhe pelo corpo todo, e a boca ria, as mos riam, todo ele ria a
espduas despregadas. No tardou, porm, o equilbrio: Sales voltou ao ponto
central, mas  ai dela!  trazia uma idia nova.

Consistia esta em obter de cada
habitante da capital uma contribuio de quarenta ris por ms,  ou,
anualmente, quatrocentos e oitenta ris. Em troca desta penso to mdica,
receberia o contribuinte durante a Semana Santa uma coisa que no posso dizer
sem grandes refolhos de linguagem. Que como ele h pessoas neste mundo que
acham mais delicado comer peixe cozido, que l-lo impresso. Pois era o pescado
necessrio  abstinncia, que cada contribuinte receberia em casa durante a
semana santa, a troco de quatrocentos e oitenta ris por ano. O corretor, a
quem Sales confiou o plano, no o entendeu logo; mas o inventor explicou-lho.

 Nem todos pagaro s os quarenta
ris; uma tera parte, para receber maior poro e melhor peixe, pagar cem
ris. Quantos habitantes haver no Rio de Janeiro? Descontando os judeus, os
protestantes, os mendigos, os vagabundos, etc., contemos trezentos mil. Dois
teros, ou duzentos mil, a quarenta ris, so noventa e seis contos anuais. Os
cem mil restantes, a cem ris, do cento e vinte. Total: duzentos e dezesseis
contos de ris. Compreendeu agora?

 Sim, mas...

Sales explicou o resto. O juro do
capital, o preo das aes da companhia, porque era uma companhia annima,
nmero das aes, entradas dividendo provvel, fundo de reserva, tudo estava
calculado, somado. Os algarismos caam-lhe da boca, lcidos e grossos, como uma
chuva de diamantes; outros saltavam-lhe dos olhos,  guisa de lgrimas, mas
lgrimas de gozo nico. Eram centenas de contos, que ele sacolejava nas
algibeiras, passava s mos e atirava ao teto. Contos sobre contos; dava com
eles na cara do corretor, em cheio; repelia-os de si, a pontaps; depois
recolhia-os com amor. J no eram lgrimas nem diamantes, mas uma ventania de
algarismos, que torcia todas as idias do corretor, por mais rijas e arraigadas
que estivessem.

 E as despesas? disse este.

Estavam previstas as despesas. As
do primeiro ano  que seriam grandes. A companhia teria virtualmente o
privilgio da pescaria, com pessoal seu, canoas suas, estaes de parquias,
carroas de distribuio, impressos, licenas, escritrio, diretoria, tudo.
Deduzia as despesas, e mostrava lucro positivo, claro, numeroso. Vasto negcio,
vasto e humano; arrancava a populao aos preos fabulosos daqueles dias de
preceito.

Trataram do negcio; apalavraram
algumas pessoas. Sales no olhava a despesa para pr a idia a caminho. No
tinha mais que o dote da mulher, uns oitenta contos, j muito cerceados; mas
no olhava a nada. So despesas produtivas, dizia a si mesmo. Era preciso
escritrio; alugou casa na Rua da Alfndega, dando grossas luvas, e meteu l um
empregado de escrita e um porteiro fardado. Os botes da farda do porteiro eram
de metal branco, e tinham, em relevo, um anzol e uma rede, emblema da
companhia; na frente do bonet via-se o mesmo emblema, feito de galo de
prata. Essa particularidade, to estranha ao comrcio, causou algum pasmo, e
recolheu boa soma de acionistas.

 L vai o negcio a caminho!
dizia ele  mulher, esfregando as mos.

Legazinha padecia calada. A orelha
da necessidade comeava a aparecer por trs da porta; no tardaria a ver-lhe o
caro chupado e lvido, e o corpo em frangalhos. O dote, capital nico, ia-se indo com o necessrio e o hipottico. Sales, entretanto, no
parava, acudia a tudo,  praa e  imprensa, onde escreveu alguns artigos
longos, muito longos, pecuniariamente longos, recheados de Cobden e Bastiat,
para demonstrar que a companhia trazia nas mos 'o lbaro da
liberdade'.

A doena de um conselheiro de
Estado fez demorar os estatutos. Sales, impaciente nos primeiros dias, entrou a
conformar-se com as circunstncias, e at a sair menos. s vezes vestia-se para
dar uma vista ao escritrio; mas, apertado o colete, ruminava outra coisa e
deixava-se ficar. Crendice do amor, a mulher tambm esperava os estatutos;
rezava uma ave-maria, todas as noites, para que eles viessem, que se no
demorassem muito. Vieram; ela leu, um dia de manh, o despacho de
indeferimento. Correu atnita ao marido.

 No entendem disto, respondeu
Sales, tranqilamente. Descansa; no me abato assim com duas razes.

Legazinha enxugou os olhos.

 Vais requerer outra vez?
perguntou-lhe.

 Qual requerer!

Sales atirou a folha ao cho,
levantou-se da rede em que estava, e foi  mulher; pegou-lhe nas mos,
disse-lhe que nem cem governos o fariam desfalecer. A mulher, abanando a
cabea:

 Voc no acaba nada. Cansa-se 
toa... No princpio tudo so prodgios; depois... Olha o negcio dos engenhos
que papai me contou...

 Mas fui eu que me indeferi?

 No foi; mas h que tempos anda
voc pensando em outra coisa!

 Pois sim, e digo-te...

 No digas nada, no quero saber
nada, atalhou ela.

Sales, rindo, disse-lhe que ainda
havia de arrepender-se, mas que ele lhe daria um perdo 'de rendas',
nova espcie de perdo, mais eficaz que nenhum outro. Desfez-se do escritrio e
dos empregados, sem tristeza; chegou a esquecer-se de pedir luvas ao novo inquilino
da casa. Pensava em coisa diferente. Clculos passados, esperanas ainda
recentes, eram coisas em que parecia no haver cuidado nunca. Debruava-se-lhe
do olho luminoso uma idia nova. Uma noite, estando em passeio com a mulher,
confiou-lhe que era indispensvel ir  Europa, viagem de seis meses apenas.
Iriam ambos, com economia... Legazinha ficou fulminada. Em casa respondeu-lhe,
que nem ela iria, nem consentiria que ele fosse. Para qu? Algum novo sonho.
Sales afirmou-lhe que era uma simples viagem de estudo, Frana, Inglaterra,
Blgica, a indstria das rendas. Uma grande fbrica de rendas; o Brasil dando
malinas e bruxelas.

No houve fora que o detivesse,
nem splicas, nem lgrimas, nem ameaas de separao. As ameaas eram de boca.
Melchior estava, desde muito, brigado com ambos; ela no abandonaria o marido.
Sales embarcou, e no sem custo, porque amava deveras a mulher; mas era
preciso, e embarcou. Em vez de seis meses, demorou-se sete; mas, em
compensao, quando chegou, trazia o olhar seguro e radiante. A saudade, grande
misericordiosa, fez com que a mulher esquecesse tantas desconsolaes, e lhe
perdoasse  tudo.

Poucos dias depois alcanou ele
uma audincia do Ministro do Imprio. Levou-lhe um plano soberbo, nada menos
que arrasar os prdios do Campo da Aclamao e substitu-los por edifcios
pblicos, de mrmore. Onde est o quartel, ficaria o palcio da Assemblia
Geral; na face oposta, em toda a extenso, o palcio do imperador. David cum
Sibyla. Nas outras duas faces laterais ficariam os palcios dos sete
ministrios, um para a Cmara Municipal e outro para o Diocesano.

 Repare V. Ex. que  toda a
Constituio reunida, dizia ele rindo, para fazer rir o ministro; falta s o
Ato Adicional. As provncias que faam o mesmo.

Mas o ministro no se ria. Olhava
para os planos desenrolados na mesa, feitos por um engenheiro belga, pedia
explicaes para dizer alguma coisa, e mais nada. Afinal disse-lhe que o
governo no tinha recursos para obras to gigantescas.

 Nem eu lhos peo, acudiu Sales.
No preciso mais que de algumas concesses importantes. E o que no conceder o
governo para ver executar este primor?

Durou seis meses esta idia. Veio
outra, que durou oito; foi um colgio, em que ps  prova certo plano de
estudos. Depois vieram outras, mais outras... Em todas elas gastava alguma
coisa, e o dote da mulher desapareceu. Legazinha suportou com alma as
necessidades; fazia balas e compotas para manter a casa. Entre duas idias,
Sales comovia-se, pedia perdo  consorte, e tentava ajud-la na indstria
domstica. Chegou a arranjar um emprego nfimo, no comrcio; mas a imaginao
vinha muita vez arranc-lo ao solo triste e nu para as regies magnficas, ao
som dos guizos de algarismos e do tambor da celebridade.

Assim correram os primeiros seis
anos de casamento. Comeando o stimo, foi o nosso amigo acometido de uma leso
cardaca e de uma idia. Cuidou logo desta, que era uma mquina de guerra para
destruir Humait; mas a doena, mquina eterna, destruiu-o primeiro a ele. Sales
caiu de cama, a morte veio vindo; a mulher, desenganada, tratou de o persuadir
a que se sacramentasse.

 Fao o que quiseres, respondeu
ele ofegante.

Confessou-se, recebeu o vitico e
foi ungido. Para o fim, o aparelho eclesistico, as cerimnias, as pessoas
ajoelhadas, ainda lhe deram rebate  imaginao. A idia de fundar uma igreja,
quando sarasse, encheu-lhe o semblante de uma luz extraordinria. Os olhos
reviveram. Vagamente, inventou um culto, sacerdote, milhares de fiis. Teve
reminiscncias de Robespierre; faria um culto desta, com cerimnias e festas
originais, risonhas como o nosso cu... Murmurava palavras pias.

 Que ? dizia Legazinha, ao p da
cama, com uma das mos dele presa entre as suas, exausta de trabalho.

Sales no via nem ouvia a mulher.
Via um campo vastssimo, um grande altar ao longe, de mrmore, coberto de
folhagens e flores. O sol batia em cheio na congregao religiosa. Ao p do
altar via-se a si mesmo, magno sacerdote, com uma tnica de linho e cabeo de
prpura. Diante dele, ajoelhadas, milhares e milhares de criaturas humanas, com
os braos erguidos ao ar, esperando o po da verdade e da justia... que ele
ia... distribuir...
