CRNICA. Cronicas do Dr. Semana, 1861

Crnicas do Dr. Semana

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M. Jackson,1938.

Publicado
  originalmente na Semana Ilustrada,
  Rio de Janeiro, de 08/12/1861 a 26/06/1864.

CLNICA
  CIRRGICA DO DR. SEMANA

8 DE DEZEMBRO DE 1861

O Dr.
  Semana tem a honra de participar ao respeitvel pblico, que se acha nesta
    corte, onde fixou sua residncia, pronto sempre a ministrar aos necessitados os
    socorros de sua infalvel cincia.

No produzir a relao das
  memrias que tem no Instituto Imperial de Frana e que o fizeram conhecido em
  ambas as Amricas. Limita-se a publicar, apenas, o resultado de sua clnica
  durante o curto espao de tempo em que aqui se acha.

Estes dados estatsticos so teis: trazem proveito. A humanidade
  lucra com eles, quando insertos nas folhas dirias de grande extrao, porque
  fica sabendo onde ir procurar a sade e conhecer de perto quais tm sido os
  triunfos da cincia.

A vai a estatstica.

Tumores sub epidrmicos. -- Operei 200. Estes tumores so
  formados por uma substncia perlea mais ou menos consistente. Opero-os com uma simples manobra digital, ou quando
    muito com o auxlio da extremidade aberta do cilindro oco da chave da mquina
    gnomnica de Nuremberg. Todos quantos operei eram do rosto, e foram coroados de sucesso.

Ditos microscpicos ou
  acari-phlyctenoides. -- Tratei de alguns por meio da grattage com a rugina unguicular do Dr. Egratigneur.

Quistos. -- Operei 40. Emprego metdico das agulhas d'Inglaterra (por um processo meu). Todos estes quistos eram formados pelo pulex penetrans, com acidentes locais, como
  phlogose, prurido, tenso e calor urente. Consegui banir da prtica o uso da
  nicotina em p e o carbonato calcrio para favorecer a cicatrizao.

Hrnias glssicas atravs do orifcio
  oral.  -- Tenho
    curado um grande nmero sem operao sangrenta. Reduzo-as, por meio de uma
    hbil e engenhosa combinao de esforos musculares. Operao rpida e sem dor.

N. B. -- Emprazo os meus colegas desta corte para uma apreciao e
  discusso, cujo proveito ser seguro. Este acidente de hrnias glssicas  mais
  comum do que se pensa, sobretudo em indivduos de temperamento dbio e carter
  ingnuo. Dois casos vi complicados com luxao da mandbula.

Corpos estranhos. -- Fragmentos dos
  tecidos musculares tendinosos e aponeurticos, decoctos e putrefatos,
  profundamente implantados em vastas escavaes devidas  crie dos processos
  odnticos dos maxilares. Odontalgias. Extrao por meio da engenhosa alavanca
  do Dr. Curedent.

Excretos superabundantes. -- Dez casos de substncia superexcretada das glndulas ceruminosas dos condutos
  auditivos externos. Emprego da mencionada alavanca, modificada por mim.
  Superexcreo das glndulas de Meibonnio; imensos casos. Loes metdicas com
  protxido de hidrognio; cura constante.

Ortopedia. -- Desvio sinistroso dos
  apndices capilares da extremidade ceflica do corpo, no plano compreendido
  entre os pontos occipital, frontal e temporais, incluindo vrtex. Emprego
  constante (em 100 casos) do myriodonte de caout-chouc dos Drs.
  Chassepoux e Niobey.

Amputaes. -- Dos extremos livres
  dos referidos apndices pelo processo de Mr. Beaumely e com tesouras de minha
  inveno. Casos numerosos; cura sem acidente.

So estas as operaes que tenho praticado nesta corte em uma
  quinzena. Possuo agradecimentos, cientificamente redigidos e com assinaturas
  reconhecidas, que podem ser examinados no meu consultrio,  Rua dos Arcos n.
  66.

 Dr. Semana.

PRELEES
  DE GRAMTICA

Pelo Dr. Semana

PRLOGO, CAVACO OU ADVERTNCIA

27 DE JULHO DE 1862.

O meu moleque, apesar das grandes luzes que possui, pediu-me que
  escrevesse umas prelees de gramtica, para que por elas pudesse aprender a sua interessante consorte,
    que infelizmente  um poucochinho estpida. E, como eu reconhea que  de
    necessidade apurar o esprito e o classicismo da lngua de to distinta
    brasileira, resolvi publicar tais prelees, que bem podem
      aproveitar por a alm a quem desconhecer o idioma do unculo de Macau.

Quem as quiser ler pode faz-lo, uma vez que seja assinante do
  meu jornal, ou o compre por 500 rs.; quem no quiser, que no queira, porque
    para mim  o mesmo, e estamos em um pas constitucional, em que a vontade do
    cidado  livre e a da cidad depende da do marido, do pai, ou do irmo.

No peo elogios, porque a obra os no merece; mas peo
  pacincia e giro.

Dr. Semana.

INTRODUO

A gramtica semanal  a arte, que ensina a declarar bem os
  pensamentos da Semana Ilustrada,
    por meio de caracteres, ou de textos burlescos e chistosos.

Divide-se em quatro partes Ortografia,
  Prosdia, Etimologia e Sintaxe.

A Ortografia ensina a
  escrever certo o que sai publicado na Semana, quando o tipgrafo
    no comete algum erro, ou o revisor se esquece de emendar alguma letra trocada.

A Prosdia ensina, a saber, tudo quanto a Semana oferece a seus leitores, uma vez que estes no sejam meninos de escola, ou
  carroceiros que s saibam assinar o nome -- o que  muito raro entre os
  entusiastas do referido jornal.

A Etimologia ensina a conhecer a origem das palavras e caricaturas da Semana, se, porventura, os leitores forem
  espirituosos; no caso contrrio, a etimologia , para eles, uma parte suprflua da gramtica, e ento podem pedir aos
    vizinhos que a expliquem, ou aos missionrios capuchinhos do Castelo.

A Sintaxe ensina a ligar todas as palavras e caricaturas, para que se compreenda que a Semana Ilustrada sabe onde tem o nariz, e no
  precisa do esprito do Punch ou do Journal pour rire, para divertir os
  filhos do Brasil.

CAPTULO
  I

PARTES DA ORAO

Orao  o amontoado de palavras
  chistosas com sentido completo, para fazer rir os leitores da Semana.

Divide-se em: Artigo, Nome, Pronome, Verbo, Particpio,
  Advrbio, Preposio, Conjuno, e Interjeio.

 1.  -- DO ARTIGO

Artigo semanal  um pedao de
  escrito, com princpio, meio e fim, que serve para divertir ou aborrecer a quem
  o l. Exemplo: As memrias de um tunante; As
    vespas dramticas; e as Prelees de gramtica para uso da Negrinha.

O Artigo semanal pode ser masculino, feminino, ou neutro, conforme o gosto de quem o l. Serve
  para encher as colunas da Semana Ilustrada, e aumentar o nmero de suas pginas. Sem o Artigo, a Semana publicaria unicamente caricaturas.

 2. -- DO NOME

Nome semanal  uma voz empregada
  para conhecer as coisas, que merecem reparo ou caricatura por este mundo de
  Cristo. Exemplo: Guarda fiscal; Pedestre; Leo da
    rua do Ouvidor.

O Nome  substantivo, ou adjetivo.

Nome substantivo em geral, e at para a
  gramtica da Semana,
     aquele que pode estar na orao sem complemento algum. Exemplo: Celibatrio; Riala; Frade ou Freira.

Nome adjetivo, tambm em geral, e at para a gramtica da Semana,  aquele que no pode estar na orao sem
  algum substantivo. Ex.: Namorado; Camlia; Dr. Semana;
    Estmago de meirinho.

O Substantivo ou  prprio, ou apelativo.

Prprio  o que cabe a uma s
  coisa ou pessoa. Ex: Papa; Esttua do largo do Rocio;
    Subveno ao teatro de S. Pedro, ou  pera Nacional.

Apelativo  o que cabe a muitas coisas ou pessoas. Ex: Egosmo poltico;
  Classes perigosas do Rio de Janeiro; Vira-casacas; Pensionistas do Estado.

O Adjetivo  ou qualificativo, ou determinativo,
  ou possessivo, ou demonstrativo, ou genrico, ou numeral, ou indefinido.

Qualificativo  o que exprime a
  qualidade das coisas ou pessoas. Ex.: Chim ratoneiro;
    Cantor do Teatro Lrico com abaixamento de voz; Carroa de guas servidas
    nauseabunda.

Determinativo  o que determina o
  sentido particular e a ao dos nomes que modifica. Ex.: Limpeza pblica; Irrigao das ruas.

Possessivo  o que d uma idia
  de possesso. Ex.: Vereador da Cmara Municipal
    dentro do quatrinio; Cambista de bilhetes  porta do teatro; Lavadeira do
    Campo da Aclamao.

Demonstrativo  o que d uma idia de
  designao precisa. Ex: Mozinha preta no canto das ruas;
    Beco das Cancelas para quem tiver bebido cerveja ou mate; Hotel da Europa para
    quem tiver fome e quiser gastar dinheiro.

Genrico  o que especifica os
  gneros. Ex.: Anncio da 4 coluna dos jornais;
    Carne seca podre vendida  pobreza; Manteiga ranosa; Vinho com pau-campeche.

Numeral 
  o que d uma idia da quantidade, ou ordem. Ex.: Afilhado de
    ministro; Cavaleiro e oficial da Rosa; Rua imunda; Taverneiro velhaco; Pedestre
    dorminhoco e covarde; Deputado que no fala; Eleitor adulado; Protetor de
    vivas e rfs desvalidas; Patriotas da algibeira; e Crticos literrios.

Indefinido  o que modifica o
  nome, representando-o de uma maneira vaga. Ex.: Liberal;
    Conservador; Barrigudo; Pai da ptria; Literato; Escritor pblico; Artista;
    Irmo de Ordem Terceira; Homem desempregado.

 3. -- DO PRONOME

O Pronome  uma voz que se pe em lugar do nome. Ex: Baro do Engenho de
  Baixo, em lugar de Joo Francisco do Esprito Santo e
    Souza. Doutor, em
      lugar de Manoel Borromeu. Senado em lugar de Casa com escritos para alugar.

O Pronome  pessoal, ou conjuntivo,
  ou possessivo, ou demonstrativo, ou indefinido.

Pessoal  aquele que, as mais das
  vezes, representa as trs pessoas do verbo. Ex.: -- A Semana Ilustrada,
    que representa o Dr. Semana, o moleque e a negrinha.

Conjuntivo  o que se acha na
  mesma orao, em relao imediata com o nome ou pronome, que representa. Ex.: Deputado quando encontra um Eleitor Criminoso perante o Jri.

Possessivo 
  aquele que liga uma idia de possesso ao nome cujo lugar ocupa. Ex.: Petit-matre a cavalo.

Demonstrativo  o que, por assim
  dizer, mostra os objetos que representa. Ex.: Caixa d'gua de Catumbi
    que custou centenrios de contos. Teatro Lrico, que existe desde 1852. O papel
    de Mademoiselle no teatro de S. Pedro. Empregado de repartio quando leva o
    dia a fumar.

Indefinido  o que no determina
  a pessoa ou coisa, cujo lugar ocupa. Ex: Larpio. Procurador.
    Adulador. Pretendente.

 4.  -- DO VERBO

Verbo  uma palavra com que afirmamos uma
  coisa de outra. Ex: As ruas do Rio de Janeiro andam
    imundas, porque os fiscais no se importam com isso. O luxo  extraordinrio,
    porque poucos pagam as suas dvidas. A iluminao a gs no clareia depois de
    duas horas da noite, porque mandam apagar metade dos lampies. As chuvas alagam
    a cidade, porque as valas esto sempre entupidas.

O Verbo  ou ativo ou passivo.

Ativo  aquele que
  afirma que se faz alguma coisa. Ex.: Botar muito dinheiro fora.
    Eleies sem conscincia. Dar ajudas de custo sem necessidade. Prover empregos
    s por empenhos.

Passivo  o que afirma que uma
  coisa j est feita. Ex.: Notas diplomticas dando
    satisfaes a qualquer naozinha. Asneiras polticas. Vveres falsificados.
    Ponte dos despejos na praia de Santa Luzia.

 5.  - DO PARTICPIO

Particpio  uma voz que do nome
  participa os casos e do verbo os tempos. Ex.: Matria velha do
    Jornal do Comrcio. A Ndoa de Ouro. Carroas de Asseio Pblico.

 6.  - DO ADVRBIO

Advrbio  uma voz indeclinvel
  que, junto ao nome ou verbo, exprime o modo ou circunstncia de um e outro. Ex: Guarda-fiscal. Passeio pblico. Cmara Municipal. Guarda
    nacional. Iluminao a gs. Barcas Ferry.

Os advrbios dividem-se em:

Afirmativos. Ex.: Tudo entre ns
   mal feito. Cada um puxa a brasa para sua sardinha. Quem sabe ler, escrever e
  contar  uma inteligncia.

Negativos. Ex.: A Companhia dos
  nibus no tm burros gordos. A arborizao no  das primeiras necessidades no
  nosso pas. A lavoura no precisa de braos.

Comparativos. Ex.: Os frades de pedra do largo do Rocio e a Esttua eqestre. A nova casa
  da moeda e o Senado. O teatro lrico e o Circo Spalding and Rogers.

Demonstrativos. Ex.: A ponte das
  barcas velhas. O campo da Aclamao. Os negros de tigres com ferro ao pescoo.
  Os mendigos s portas das igrejas.

De tempo. Ex.: Daqui a cem
  anos teremos esgotos no Rio de Janeiro. Em 1999 o Correio h de melhorar o seu
  sistema de entrega de cartas. O Brasil h de ser grande nao quando todas as
  outras forem pequenas. O caf h de prosperar quando a natureza se lembrar de
  dar cabo do bicho.

De lugar. Ex.: Em qualquer
  parte fazem-se despejos. O largo de S. Francisco  o salo de baile dos tlburis,
  que atrapalham a quem passa. O teatro de S. Pedro  o ponto das quitandeiras de
  dote.

De quantidade. Ex.: Falta de
  patriotismo. Praticantes nas reparties sados das escolas. Vagabundos de
  esquinas. Ratoneiros de galinhas. Cambistas de teatros e de cavalinhos. Moas
  namoradeiras. Negociantes de funda.

De modo. Ex.: Autoridades que maltratam as partes. Negras minas atrevidas.
  Professores que tratam bem as meninas, para depois a polcia mandar-lhes fechar
  os colgios.

 7.  -- DA CONJUNO

Conjuno  uma voz
  indeclinvel, que serve de atar ou ajuntar uma palavra ou orao com outra.
  Ex.: Liga de cetim branco da marca "Honny soit qui mal y pense". -Pontes flutuantes da Companhia Ferry.
    Estola de padre no ato do casamento. Cadaros de ceroulas.

As conjunes dividem-se em:

Copulativas. Ex.: Pombo em cima
  do jac quando d comida aos filhos. Lnguas viperinas, que falam da vida
  alheia. Solda de consertador de porcelanas da Rua do Parto.

Condicionais. Ex.: A menina bonita
  casa se no tem muitos namorados. O corpo legislativo marchar de acordo se no
  houver interesses pessoais. Os alfaiates faro muitas casacas contanto que no
  elevem o preo dos feitios.

Conclusivas. Ex.: Os homens que se casam perdem a liberdade. Depois de um grande jantar
  tomam todos a sua xcara de caf (h excees a favor
    do ch). Quando um nibus de bestas magras est cheio, cada
      passageiro  obrigado a pagar o seu bilhete (no h
        excees).

Declarativas. Ex.: Eu te amo.
  Minha mulher anda sem meias por casa, e no penteia os cabelos. As gravatas de
  meu marido so retalhos dos meus vestidos.

Disjuntivas. Ex.: Aperto de mo
  entre inimigos. Apartes no parlamento. Intrigas nos bastidores. Filhos
  malcriados de dois amigos. Cimes de namorados. Misria repentina em qualquer
  casa conhecida.

Negativas. Ex.: No h quem
  mande ajuntar a lama quando chove. No h costureira que no saiba fazer ponto
  atrs e bainha de laada. No h repartio pblica que no tenha
  mexeriqueiros.

Causais. Ex.: A inveja afasta
  os homens uns dos outros. O talento chama inimigos. O interesse  o irmo de
  muitas amizades.

 8. -- DA INTERJEIO

Interjeio  uma voz
  indeclinvel, que sem ajuda do verbo exprime por si s os vrios afetos e
  paixes do nosso nimo. Ex. Que cidade do Rio de Janeiro
    imunda! Que escurido nas ruas depois de uma hora da noite! Que cavalos de
    tlburi to lazarentos!

As interjeies so:

De declamao. Ex.: Oh! escola dramtica do teatro de S. Pedro!! Ah! que oradores s vezes
  nas cmaras! E a maior parte dos pregadores de igreja!

De sentimento e de implorar socorro. Ex.: Que carroas de asseio pblico! Que chapus
  monstros nas cabeas dos pretos do ganho nas horas de mais concorrncia! Que
  quantidade de cambistas de bilhetes de loteria s portas dos tesoureiros! Que
  de benefcios nos teatros!

De espanto. Ex.: Quanta mulher feia no Rio
  de Janeiro! Que nmero de deputados mudos! Quanto militar poltro!

De repugnncia. Ex.: Que menina presunosa! Abaixo os ganhadores polticos! Um homem de gravata
  de trs cores!!

De dor. Ex.: Que de barras de vestidos na lama! Oh! botas de quinze dias com
  buracos! Ai, que cantora sem voz!

De admirao. Ex.: Que alinhamento de ruas para casas novas! Que de pobres nas igrejas!
  Quanta negra de vestido de moir antique.

De prazer. Ex.: Oh! minha boa cama! Por hoje nada mais! Aos leitores de prelees de
  gramtica, adeus!

 9. - DA PREPOSIO

  10
  DE AGOSTO DE 1862.

Preposio  uma voz indeclinvel,
  que serve para reger os nomes, e para compor os verbos e os nomes.

Ex.: Partido -- Progressista
  Constitucional. Contrabandos -- abrilhantados. Encampaes -- Unidas --
  Industriosas. Correio -- Mercantil. Harpocrtico -- a -- respeito -- de -- Poltica.
  Dirio -- Mudo -- Silencioso -- idem --idem.

As Preposies regem Genitivo, Dativo, Acusativo e Ablativo.

Mutandis mutandis vm todas elas dar no
  mesmo. Ex.: Descrena -- poltico -- social --
    brasileira. Crdito -- sem -- crdito -- monetrio. Sanguessugas -- parlamentares.
    Conservadores -- liberais e liberais -- conservadores.

CAPTULO
  II

DA SINTAXE

A Sintaxe ou  natural ou figurada.

Sintaxe natural  a que se funda nas
  regras gerais e ordinrias da Gramtica. Ex: Todo o deputado tem
    afilhados. Quem no tem dinheiro no tem amigos. O interesse individual  a grande
    mola dos partidos polticos do mundo.

Sintaxe figurada consiste no uso das figuras. Ex.: Ser hoje liberal e amanh
  conservador e depois puritano e depois coisa nenhuma. Prometer casamento a uma
  menina pobre, roer a corda, e amanh casar com uma noiva rica. Andar hoje de
  cotovelos rotos e amanh em carruagens com cavalos do Cabo. Ganhar 50$000 de
  ordenado e ir a bailes, teatros e cavalinhos com a famlia, sempre de carro e
  cheios de sedas e de brilhantes. Dar soires caloteando
    os confeiteiros e pedindo xcaras emprestadas.

 1.0 -- DA SINTAXE NATURAL

O Sujeito, que exercita a significao do verbo do modo finito, vai para nominativo, com
  quem o verbo concorda em nmero e pessoa. Ex.: Os ministrios e a
    maioria das cmaras. A independncia de carter e o Dr. Semana. Os candidatos
    da Senatoria de Mato-Grosso e os eleitores da mesma provncia.

Aquilo que se afirma ou nega do mesmo sujeito, ou a ele se refere, tambm vai para
  nominativo. Ex.: Tm passado alguns contrabandos na
    Alfndega. Nem todas as caixas de zinco trazem fundos falsos com brilhantes. A
    Biblioteca Pblica s est aberta s horas em que ningum precisa dela. A maior
    parte dos cavalos dos tlburis anda caindo pelo meio das ruas. O beco das
    Cancelas continua imundo.

Concorrendo na orao um sujeito da primeira pessoa do singular com outro
  da segunda ou terceira, poremos o verbo na primeira do plural. Ex.: Um empregado inteligente sem proteo, e outro estpido, afilhado de
    baro ou de conselheiro, este  o que tem acesso. Brasileiro e estrangeiro para
    qualquer emprego, este  o escolhido. Estudante aplicado e estudante vadio, o
    vadio  o aprovado.

28 DE SETEMBRO
  DE 1862.

Concorrendo na orao um sujeito da segunda pessoa do singular
  com outro da terceira, poremos o verbo na segunda do plural. Ex.: Um afilhado de figuro e um pai de famlia para o lugar de pedestre.
    Um noivo rico e estpido e um pobre e inteligente. Uma modista francesa e outra
    brasileira.

Concorrendo na orao muitos sujeitos, todos da terceira pessoa
  do singular, poremos o verbo na terceira do plural, concordando com todos; ou
  na terceira do singular, com um s. Ex.: Um deputado das
    maiorias. Uma inteligncia engarrafada. Um capacho de ministros. Uma rapariga
    namoradeira.

Os nomes adjetivos, pronomes e particpios concordam com seus
  substantivos em gnero, nmero e caso. Ex.: Feliz -- Bertha. Bela -- Armina. Ir -- as. Vilas -- Boas. Rosa -- Linda.
    Feliz -- Mina. Flor -- em -- tina. Eu -- fmea. Domingos Dias. -- J -- sinto --
    Arruda.

Os relativos concordam com os seus substantivos antecedente em
  gnero e nmero, e com o subseqente em gnero, nmero e caso. Ex.: As parelhas dos nibus. Os guardas-fiscais. As barcas de Niteri. Os
    anncios de leiles. Os dramas do teatro de S. Pedro.

O sujeito, que exercita a significao do verbo do modo
  infinito, vai para o acusativo. Ex.: Comandante de batalho da Guarda
    Nacional. - Professor de primeiras letras. Praticante de repartio, que s
    tira cpias e registra. Taqugrafo parlamentar.

Aquilo, que se afirma, ou nega desse sujeito, ou para ele se
  refere, tambm vai para o acusativo. Ex.: Os Comandantes dos
    batalhes s vezes nem sabem mandar. Nem todos os professores de primeiras
    letras esto habilitados para ensinar. H praticantes de repartio que no
    sabem se o -- c -- acompanhado de -- a -- o ou -- u -- deve ser cedilhado. Os
    taqugrafos parlamentares vem-se atrapalhados para entender certos oradores.

Pelo caso por que se faz a pergunta, por esse mesmo se d a
  resposta. Ex.: Quem tem culpa de estarem s ruas
    imundas? A Cmara Municipal. Quem no d cabo dos capoeiras? A Polcia. Para
    que servem os pedestres? Para coisa alguma. Quem deve evitar os ratoneiros?
    Cada um
    em sua casa
    ,
    fechando bem as portas. Quem h de obstar a que se forme um charco de guas
    servidas por trs do botequim do Passeio Pblico? Quem Deus quiser. Quem so os
    maiores inimigos dos empregados pblicos? Os seus colegas de repartio. Qual 
    a classe mais imoral do Brasil? A que no pode curar.

 2. -- DA SINTAXE DE REGNCIA

O nome, que significa o senhor ou possuidor de alguma coisa, ou
  a quem ela pertence, pe-se no genitivo. Ex.: Marido. Inspetor de
    quarteiro. Fiscal da cidade. gua entupindo as valas. Capoeiras em domingo.

Aos adjetivos, que significam coisa rica, pobre, ciente,
  ignorante, vazia, carregada, vestida, despida, lembrada, esquecida,
  participante, etc., se ajunta genitivo, que significa aquilo de que h riqueza,
  pobreza, cincia etc., etc. Rico de notas falsas. Pobre de boa
    educao. Ciente de estupidez. Ignorante das funes que exerce. Vazio de bom
    senso. Carregado de crimes e de torpezas. Vestido  custa dos alfaiates.
    Despido de vergonha. Lembrado quando h vontade de dar gargalhadas. Esquecido
    quando no aparece. Participante dos prejuzos. *

Aos verbos que significam acusar, absolver, se ajunta genitivo, que significa aquilo de que se acusa, ou absolve. Ex.: A cmara municipal  acusada de deixar que as ruas continuem como
  esto. As Autoridades so acusadas de no tomarem providncias para que no
  haja uma catstrofe das barcas Ferry. Os pedestres so absolvidos do pouco que
  fazem, porque so quase todos invlidos. Os teatros so absolvidos de estarem
  quase s moscas, porque o pblico no os freqenta.

O nome, que significa o louvor, ou vituprio, que se d a
  algum, pe-se: Todas as Cmaras Municipais so
    descuidadas. O Graa e o Vasques so violetas no Ginsio. O Dr. Semana  o
    rapaz mais bonito do Rio de Janeiro. As carroas do Asseio Pblico so vidros
    ambulantes de Frangipani.

CAPTULO
  III

DO DATIVO

Aos verbos Confiar, Dar, Entregar, Enviar,
  Mandar, Obedecer, Remeter, Recomendar e outros, se ajunta dativo, que significa
    pessoa, a quem se confia, d, entrega, etc. Ex.: A Cmara Municipal
      confia na indolncia do povo para no trazer a cidade limpa e asseada. O
      Tesouro d muito dinheiro sem saber para o qu. A segurana pblica quase
      sempre est entregue  boa ndole dos cidados. H mdicos que enviam os
      doentes para o outro mundo sem saberem de que molstias lhes morrem. Ningum
      manda examinar se a carne que se come  boi pesteado. No Brasil, por isso que
      todos so grandes, ningum gosta de obedecer. Remetem-se cartas pelo correio,
      que s vezes no chegam ao seu destino. Todas as falas do Trono recomendam a
      economia, mas... bota-se muito dinheiro fora.

Aos adjetivos, que significam coisa til, prejudicial, danosa, proveitosa,
  agradvel, desagradvel, decorosa, leal, desleal, etc., se ajunta dativo, que
  chamam de perda, ou de proveito. Ex.: Se no houvesse
    Cmaras Municipais seria uma grande utilidade para o pas. Os guarda-fiscais
    prejudicam as algibeiras. A falta de asseio das ruas  danosa para a
    salubridade pblica. Os empregos pblicos so s proveitosos para certa classe
    de gente. A vida de representantes da Nao  a mais agradvel de todas as que
    existem. As prelees de gramtica devem ser desagradveis para muitos sujeitos
    que tm mazelas. Desprezam-se hoje as posies decorosas pelas lucrativas.
    Procura-se hoje um homem leal no Rio de Janeiro e s se encontra o major
    Leandrinho. Os amigos ntimos so quase sempre desleais.

CAPTULO
  IV

DO ACUSATIVO

O verbo ativo tem
  depois de si acusativo, que  aquele sujeito, a quem se dirige a significao
  do verbo. Ex.: A crnica de um guarda-fiscal. A nomeada de tenor do teatro
  lrico. Os respingos das carroas do asseio pblico.

O lugar para onde
  algum vai, pe-se em acusativo regido da preposio a ou para. Ex.: A
  alfndega caminha para o caos. Os vapores peruanos vo sossegados para o seu
  pas. A dignidade nacional vai plantar batatas nas margens do Amazonas.

A orao feita pela voz ativa pode mudar-se para a passiva deste
  modo: o que era acusativo passa para nominativo, com quem o verbo concorda em
  nmero e pessoa; e o que era nominativo passa para ablativo. Ex.: Os
  praticantes do tesouro vo ser oficiais de descarga da alfndega. Os altos
  funcionrios passam a pedir assinatura de porta
  em porta. Os
  guardas-fiscais
  ainda ho de ser vereadores e estes guardas-fiscais.

CAPTULO
  V

DO ABLATIVO

O modo com que alguma coisa se faz pe-se: S com empenhos se obtm empregos. Com espetculos no Teatro Lrico 
  que o Ginsio h de levantar cabea. Com esperanas no futuro  que muita gente
  se mete em especulaes.

A causa por que alguma coisa se faz pe-se

  em ablativo. Ex.: O

   Vasques faz benefcio porque no tem dinheiro. H vereadores que foram
    eleitos por prometerem muita coisa. A imundcia em que est a cidade do Rio de
    Janeiro  devida a ... (adivinhem).

O instrumento com que alguma coisa se faz, pe-se

  em ablativo. Ex.: O

   dinheiro. O amor. O descaro.

O tempo em que alguma coisa sucede, pe-se

  em ablativo. Ex.: O

   muro do Passeio Pblico comeou a ser feito h
    mais de um sculo, e ainda no est pronto. O Teatro Lrico foi construdo por
    trs anos, em 1852, e ainda est em p, aformoseando o campo. Desde que o
    Brasil  Brasil fala-se em desmoronar a montanha do Castelo. A Semana ILUSTRADA
    j completou dois anos de existncia e h de durar muitos sculos.

O espao de tempo, que alguma coisa dura, pe-se

  em ablativo. Ex.: A

   lama nas ruas do Rio de Janeiro dura at secar pelos raios do sol. A
    pacincia dos Fluminenses  eterna a respeito da fiscalizao municipal. O
    reinado dos ratoneiros dura todos os dias desde as 10 horas da noite at s 5
    da madrugada.

A coisa em que algum excede a outro, pe-se

  em ablativo. Ex. Um

   fiscal excede a uma preguia em cuidados municipais. Os ratoneiros
    excedem  polcia em olho vivo. Os bailes do Oriente excedem a todos em
    pancadaria de zabumbas e de... pratos.

O preo por que alguma coisa se compra, ou vende, pe-se

  em ablativo. Ex.: Quanto

   custaram as obras do Passeio Pblico? Por quantos contos de ris se
    fez o grande depsito de gua em Catumbi?! Quem comprar certas firmas que h
    na praa do Rio de Janeiro?

O princpio ou parte donde alguma ao procede, pe-se

  em ablativo. Ex.: A

   porcaria em que est a cidade de S. Sebastio procede da incria de
    muita gente. A febre amarela e a colerina procedem do sono dos eleitos do povo.
    A falta de dinheiro, que todos sentem, procede dos mil e tantos regulamentos e
    decretos do tesouro.

A matria de que alguma coisa se faz pe-se

  em ablativo. Ex.: De

   qualquer homem forma-se um preceptor de meninos das aulas da
    Correio. De qualquer imundcia faz-se aterro do campo de Santa Ana. De
    qualquer cego de pau e cozinho faz-se um pedestre para apanhar os rapinadores
    de galinhas de gamelas de roupa.

O lugar onde algum est, ou onde alguma coisa sucede, pe-se

  em ablativo. Ex.: Os

   Fluminenses esto em um depsito de pestes. A cmara municipal est em
    um cu de delcias. Os burros e os gatos morrem pelas ruas, e a ficam dias
    inteiros. O centro do largo do Rocio  atravessado por quanto carro h, quando
    havia ordens em contrrio.

O lugar donde algum sai, ou vem, pe-se

  em ablativo. Ex.: Os

   tigres saem de todas as portas e a todas as horas. A descrena brota
    em todos os coraes.  A fome geral vem do pouco caso que se faz do povo,
    que s  considerado em vsperas de eleies.

O lugar por onde algum vai, ou passa,
  pe-se

  em ablativo. Ex.:
    Pelo

   campo de Santa Ana ningum pode
    passar. (Exceo
      da regra). A rua do Cattete est
        intransitvel. (No h mais exemplos para esta regra,
          porque no Rio de Janeiro por poucos lugares se pode andar e passar sem o leno
          no nariz).

A distncia de um lugar a outro pe-se

  em ablativo. Ex.: Um

   burro e um carroceiro. O  povo e os seus representantes. O
    comeo destas prelees e o seu

FIM

PASSEIO
  PBLICO

28 DE SETEMBRO DE 1862.

Ilmo. Sr. F. I. Alho.

Li com avidez a polmica sustentada por V. S. contra o meu procurador
  o Sr. Punch.

Os prelos do Jornal do Comrcio gemeram
  durante oito longos dias, emudecendo, por fim, sem que luzisse no esprito
  pblico a chispa da verdade nem assim (suponha que estou com o dedo polegar
  encostado  ltima falange do dedo mnimo).

Houve muita verbiagem, muita falha de sua parte; mas argumento
  de polpa, razo de convencer, nichts.

Quos vult perdere

Jupiter dementat

V. S. correu daqui para ali sobre o assunto, com a vivacidade e
  graa que todos lhe reconhecem, mas nem por isso conseguiu vencer, nem mesmo
  convencer.

Entre outras coisas alegou em um dos seus comunicados
  "documentos de desinteresse exibidos nos reparos do Passeio".

Hein? Creio que no li bem. Onde esto esses documentos? Quando
  fez esses reparos desinteressadamente?

As obras rezadas no contrato de 1. de dezembro de 1860 foram
  oradas em oitenta contos. Os oitenta contos foram pagos  boca do cofre. At
  aqui no houve -- desinteresse.

As que no estavam mencionadas no contrato foram pagas  parte,
  assim: a ponte de ferro, os seis pedestais para as esttuas e o repuxo. Tambm
  no houve desinteresse.

Ainda mais: V. S. no prescindiu da subveno estipulada na
  condio 7 do contrato e comeou a perceb-la desde o dia 27 de janeiro do corrente ano.
    Esta subveno  de 833$333 mensais.

Isto significa que, antes da
  abertura do Passeio, V. S. teve para conservao de uma coisa que ningum
  estragava o magro auxlio de seis contos cento e onze mil e tantos ris
  (6:111$000).

Quem sabe se no  isto o que mereceu o nome de desinteresse?

O Sr. F. I. Alho sempre foi homem espirituoso!

Abaixo transcrevo alguns documentos do seu desinteresse,
  colhidos no expediente do Ministrio da Agricultura.

"Ao Ministrio da Fazenda, para que expea as precisas ordens, a
  fim de que no tesouro nacional seja paga a Francisco Jos Fialho a subveno
  estipulada na condio 7  do contrato de 1. de dezembro de contar do dia
  27 de janeiro do corrente ano em que o Passeio Pblico foi dado por pronto,
  embora tenha ele de ser franqueado somente no dia 7 de setembro prximo
  vindouro, levando-se essas despesas s verbas a que se refere o  51 do art.
  2. da lei do oramento do exerccio de

      1861 a

    1862 e

      1862
        a

     1863.

"--  Ao mesmo, para ordenar que ao empresrio das obras de
  restaurao e conservao do Passeio Pblico desta corte, Francisco Jos
  Fialho, seja paga pela verba a que se refere o  55 do art. 2. da lei do
  oramento a quantia
    de 5:550$000, proveniente de diversas obras acrescidas, e que no foram
    includas no contrato celebrado em 1. de dezembro de 1860, sendo 3:500$000
    pela construo de uma ponte de ferro em substituio de uma de madeira,
    1:800$000 pela de seis pedestais para as esttuas e 250$000 pela de um repuxo.

"-- Ao mesmo, comunicando que o governo, concordando com sua
  informao constante do ofcio da mesma inspetoria de 4 de fevereiro prximo
  passado, relativo  abertura do Passeio  concorrncia do pblico se expedem
  nesta data ao tesouro nacional as precisas ordens para que Francisco Jos
  Fialho, empresrio das respectivas obras de conservao e reparao, comece a
  perceber a subveno estipulada na condio 7 do seu contrato desde o dia 29 de
    janeiro do corrente ano, em que o dito Passeio foi dado por pronto ".

Dr. Semana.

CARRAPATOS
  POLTICOS

Escrever a crnica dos insetos parece uma das misses mais
  difceis a que se pode propor um homem, que, pelo menos, tem conscincia de
  nunca ter sido
    inseto.

Compreendem todos que, sem ter passado pelas provas da
  experincia,  muito raro dizer coisa com coisa a respeito
  do que apenas se v em outros que no so da nossa espcie. Difficile rem postulasti.

H insetos que merecem particular meno, mesmo quando a ateno
  humana se aplica a outras coisas mais graves e mais srias. A insectologia no
   uma cincia intil e despida de interesse; pelo contrrio, prima entre os
  demais ramos da zoologia, porque se ocupa apenas com seres to diminutos e
  microscpicos que nos obrigam a dar de mo a todos quantos mastodontes nos apresentam diante dos olhos, s para fazer
    dos bichinhos um estudo especial.

V-se perfeitamente que Deus, depois de formado o grandioso da
  Criao, quis tambm mostrar a sua divina perfeio dando vida aos tomos da
  matria.  grandeza descer at os insetos!

O inseto no  uma excrescncia na vida do Cosmos,  uma verdade
  da harmonia estabelecida pela mo de Deus. Perguntai ao inseto por que existe.
  Dar-vos- ele: -- Porque existe o homem.

Era preciso o contrabalano nos seres surgidos do caos. O
  elefante erguia a tromba, o condor esvoaava entre as nuvens, a baleia
  chafarizava nos mares, a boa constritor desenrolava-se nas estradas. O inseto
  tornava-se uma necessidade. Entre as miradas de insetos, que volteiam nos
  ares, chamejam nas ervas, escorregam pelos charcos, animalizam a atmosfera, ou
  se entranham pelas carnes, distingue-se o carrapato, que, pelo seu perfume (ao
  princpio asqueroso, mas depois reconhecido como muito suave e medicinal), e
  pela forma chata e arredondada do seu corpo, faz-se querido e apreciado do
  homem, que, se no for ingrato, deve mostrar-se reconhecido  amizade que lhe
  consagra, prendendo-se-lhe ao corpo e sugando-lhe o sangue.

O caracterstico do carrapato  agarrar-se a uma raiz de cabelo
  e... esquecer-se de que deve ocupar-se de outras coisas. Ningum sabe mais notcias
  dele, e tambm no as d de si. Quem o deixar sossegado pode ficar certo de que
  ele no se incomoda e nem deixa a raiz do cabelo protetor.

 semelhana desses insetos, h tambm, no mundo social, alguns
  indivduos, que se atracam aos seus semelhantes e que fazem deles verdadeiros
  mrtires. Tomar-lhes conta fora a maior das loucuras, porque seria isso um p
  de cantiga para demorarem-se-nos ao cachao mais algumas horas.

Pelos sales aparecem desses carrapatos. Quando virem um janota
  de luneta ao olho, de bigode empomadado, de garras cor de rosa e de juba heliotrpada, procurando termos escolhidos,
    frases de folhetim e citaes de folhinha, no perguntem como se chama.  um carrapato de
      salo. Pobres moas, que os sofrem!

H velhos, desdentados, de gravata branca com o n amarrado de
  um lado, fedorentos de rap, remelosos de um dos olhos, de sobrecasaca de gola
  de veludo, e de bengalsio de cana com casto de carranca, que s falam em noivos, enxovais e fora, e
    arregalam o olho para uma mesa de voltarete. Esses tambm so carrapatos, mas
    de salas de jogo. Livre-se algum de lhes cair nas antenas.

O militar, de bigode cortadinho em roda do beio, de gravata de
  crina, e de colete de pano azul guarnecido de botes de ouro, que s conversa a
  respeito das suas campanhas, cicatrizes e galinhas,  um carrapato de toda a
  parte.

Qualquer padre que, longe de ir ler o brevirio, anda de
  sobrecasaca e voltinha, com a coroa feita na vspera e sapato de fivela: , nas
  salas de jantar e nas de engomado, um prestimoso carrapato.

O curioso sem voz, e que nunca aprendeu a cantar, que, cheio de
  momos e medeixes, se atira a um piano, sem maior empenho, e canta uma noite
  inteira, aborrecendo a todos os que querem conversar sobre eleies, bales,
  ladres e outras coisas dos mesmos consoantes:  um carrapato dos mais
  terrveis, porque, morde, chupa o ch e aborrece.

O estadista que conta mil histrias sem
  cunho de verdade, escarra pelos cantos, palita os dentes, mente e sorri com
  ares de confidncia, puxa o colarinho, passa a mo pela calva, endireita os
  culos, fala no Peru e na colonizao, nas presidncias de provncias e nas
  demisses da alfndega, no dficit e no cmbio, nas flores de seu jardim e nas chuvas de setembro, nos burros do
    carro e na imprensa, e por fim ronca em um brao de sof:  um dos maiores
    carrapatos da nossa sociedade.

H milhares e milhares de outros. Ponham todos a mo na
  conscincia, e digam-me se no tm um tanto ou quanto de carrapatos.

A esses carrapatos todos, acima referidos, pode dar-se o nome de
  -- carrapatos polticos -- porque so bem criados e atenciosos.

H ainda um ltimo carrapato, voraz e que se filia queles com
  quem tem relaes.  um
    rapaz bonito, ningum o pode negar, cheio de esprito, engraado e
    conquistador; veste com gosto, usa perfumes e tem criados de libr.  amigo do seu amigo; inimigo dos
      guardas-fiscais, por causa da limpeza das ruas; censor da polcia por amor dos
      ratoneiros; dedicado aos Vasques, porque  moleque; apreciador do belo sexo;
      entusiasta das moas morenas e de cabelos pretos; amante das claras de olhos
      azuis; bebedor de todas as taas e cheirador de todos os perfumes. Esse grande
      e eminente carrapato poltico, porque respeita, venera e elogia as moas e as
      velhas (idosas), os homens e os meninos, os ricos e os pobres, os sbios e os
      no sbios, os magros e os gordos, os altos e os baixos, os bisolhos e os
      caolhos, os bonitos e os feios, os ministros e os promotores (com licena do
      Dr. Guanabara, por causa do estilo);  sem tirar nem pr o Dr. Semana, quando se v apertado e no tem matria
        para encher as suas quatro pginas de texto.

Dr. Semana.

CARTA
  AO SR. CHRISTIE

8 DE FEVEREIRO DE 1863.

V. Excia., j jantou? ainda no jantou? Dvida terrvel, que me
  fez vacilar na remessa desta carta, porque se j jantou  triste para mim ir
  perturbar a mansa digesto de V. Excia.

Um beefsteack, e dois
  ou trs clices de vinho (daquele da Tijuca) uma vez cados no estmago querem
  ser satisfeitos em paz e sossego; acomodam-se ali dentro, e enquanto o dono, se
   sdito de Sua Majestade, como V. Excia., suspira pelas margens do Tmisa, vo
  se desfazendo mansamente, e vai subindo a parte vaporosa ao crebro... Mas a
  estou eu a ensinar o Padre Nosso ao Vigrio: h de V. Excia. perdoar, mas isso
  provm de fazer eu respeitar

      em V. Excia.

  at o estmago.

Como talvez ainda no tenha jantado, consentir que eu manifeste
  as dolorosas impresses que me sugeriu a leitura de um artigo do Dirio, onde
  se anuncia a retirada de V. Excia.. V. Excia. vai partir e nos deixa. Sabe
  quanto sinto? quanto sofro? ou, economicamente falando, quanto perco? Que
  assunto para a imaginao caprichosa do meu desenhista era V. Excia.. E agora
  que ainda est de notas para c e para l, como mulher que brigou e quer falar
  por ltimo, como isto no dava matria para as minhas quatro pginas!

V. Excia. h de lembrar-se que Molire escreveu boas comdias,
  no s por ser um gnio, mas por ter matria com que ench-las. Esta Semana Ilustrada, que  comdia hebdomadria deste
    seu criado, tinha farto assunto. Alguns inimigos meus, para abater-me, chamam a
    minha folha pura farsa; mas eu repilo a designao, no s por mim, como por V.
    Excia., a quem fere diretamente e a quem os malvolos poderiam aplicar os
    derivados, como farsola, etc..

Mas V. Excia. vai partir e isto me di mais que tudo. Partir!
  Deixar esta terra, onde V. Excia. via o cu, para onde no sabe se ir depois
  de morto, e ir meter-se entre os nevoeiros de Londres!  duro, Exmo. Sr.!

O meu moleque, que  instrudo, lembra-me que, partindo V.
  Excia., nem assim ficaremos desprovidos de assunto, porque as personagens como
  V. Excia. ficam sempre na histria, e por muito que se diga mais fica por
  dizer. Esta razo me consola, e praza a Deus que, sempre fiel, possa a nossa
  memria reproduzir nestas pginas, como exemplo a futuros ministros, a
  interessante e original vernica de V. Excia..

Aproveito a ocasio para renovar a V. Excia. os protestos de
  minha mais alta considerao.

Dr. Semana.

SEMANOPATIA

NOVA MEDICINA
  DESCOBERTA PELO DR. SEMANA

15 DE MARO DE 1863.

Irmos universais!

A imensidade dos meus conhecimentos e as altssimas virtudes que
  me franjam cidade. Traz a bolsa vazia, mas o estomago cheio... de fome. Nem um
  real na algibeira! E os acicates de Tntalo a lhe esporearem as entranhas!

A molstia  grave, porm o remdio que passo a apontar tambm 
  infalvel.

Vem um padeiro com o seu cesto artisticamente envolto num
  vistoso cobertor vermelho. O meu semelhante aproxima-se e trava com o padeiro o
  seguinte dilogo:

-- Quantos pes por quatro vintns?

-- Dois.

-- S dois?

-- No contando a vendagem, que se d de graa.

-- Ah! d-se de graa. Bem; nesse caso, levo agora a vendagem,
  virei amanh buscar os dois pes e dar os quatro vintns.

Outra receita:

A intensidade do calor, a umidade da atmosfera e muitas outras
  causas fazem com que muita gente no Rio sofra das urinas.

Recipe -- Quem se quiser libertar de to horrvel mal, mande-se vacinar, porque quem 
  vacinado no sofre da bexiga.

Outra, contra a fome:

Recipe -- Quem se quiser livrar de tal martrio, pea ao vizinho
  um fole, coloque o tubo entre os dentes, feche a boca e comece a soprar, soprar
  e soprar. Em menos de cinco minutos, sem ter despendido um vintm ficar de barriga cheia.

***

ltima receita de hoje:

Recipe -- O melhor remdio para no morrer
  de febre amarela ... morrer de outra molstia.

Dr. Semanopata.

PARTE
  FORENSE

O Dr. Semana,
  formado em todas as cincias, membro efetivo, correspondente e honorrio de
  diversas associaes literrias, cientficas, humanitrias, beneficentes,
  artsticas e bancrias, participa ao respeitvel pblico, que abriu, no largo
  de S. Francisco de Paulo n. 16, um escritrio de advocacia, onde poder ser
  procurado, a toda e qualquer hora, menos quando estiver dormindo. Encarrega-se
  de causas cveis, crimes, comerciais e sem efeitos. Assegura resultado pronto e
  rpido em todos os negcios de que se encarregar, ainda que no seja favorvel
  aos seus constituintes. No  exigente, e apenas se contenta com o pagamento
  adiantado. Recebe no seu escritrio os bacharis que trocam as pernas pela rua
  do Ouvidor  espera do ano de prtica; e prepara procuradores de causas, em
  menos de oito dias, e bem assim solicitadores e mais agentes dos Juzos. Faz
  requerimentos para a soltura de pretos fugidos, e para a emancipao de
  africanos livres. Conhece todas as frmulas do foro, mesmo as mais
  extravagantes e absurdas, e tem, engarrafada e em barrilotes de quinto, a mais
  superior chicana, no afamada pelos apreciadores, etc., etc., etc..

Outrossim, desejando o referido Dr. Semana,
  ilustrar o respeitvel pblico e dar-lhe conhecimento perfeito e claro da
  prtica seguida nos auditores desta corte, oferece aos numerosos assinantes
  deste jornal as seguintes normas de requerimentos, que podem ser apresentados
  em qualquer Juzo
  ;
  convencido de que faz um servio, facilitando os meios de penetrar no sagrado
  tempo da divina Astria.

DIREITO
  CRIMINAL

  ALTAS
  QUESTES DO CRIME

  EM CASA ALHEIA

4 DE OUTUBRO DE 1863.

1. Modelo de requerimento

Ilmo. Sr......................    (o ttulo da autoridade).

Diz Joo Faz Formas, cidado brasileiro e bem conceituado nesta
  cidade de... (o nome da cidade),
    onde mora desde que nasceu, por ter nascido de seus pais FF.... (os nomes dos pais), que foram bom cidado e boa
      cidadoa, que, tendo a quitandeira F.... (o nome da
        quitandeira), preta forra, e estabelecida  rua de...
          (nome da rua) n...., vendido, para
            a casa do Suplicante, uma abbora d'gua, no dia... do ms de ... de 18 ... (toda a data), aconteceu que o Suplicante mandou
              preparar a referida abbora com camares, comprados, no mencionado dia, a F....
              (o nome do peixeiro), estabelecido com
                banca  praa do Mercado (se houver, ou ento)
                  na praia de... , e por ter sobrevindo ao Suplicante, na madrugada do dia, em
                  que comeu a abbora com camares, uma forte indigesto, que quase o levou 
                  sepultura, entende o Suplicante que F.... e F.... (a quitandeira e o
                    pescador) cometeram o crime previsto no art. 192,
                      combinado com o art. 34 do cdigo criminal, por isso que tentaram contra a vida
                      do Suplicante; e portanto

P. a V.... que, recebendo a presente queixa, que o Suplicante jura,
  mande proceder  inquirio das testemunhas F.... , F...., F.... , F...., e
  F...

E. R. M

Joo Faz Formas.

2 . Modelo

Ilmo. Sr. Dr......... etc.

-- Diz Manoel Beef Batata, cidado naturalizado (se o for),
  que, tendo h dois anos, pouco mais ou menos, comprado uma dzia de talheres de
  osso ao negociante F...., estabelecido  rua de... n.. , sofreu, no dia de
  ontem, um grave ferimento no p, produzido pela queda de um garfo, que o
  espetou, estando jantando; e, como de semelhante ferimento poderia provir morte
  ao Suplicante, visto que, na opinio de diversos mdicos, a gangrena ou o
  ttano seriam fceis, entende o Suplicante que o referido negociante F....
  cometeu o crime previsto no art. 192, por isso que se deram as circunstncias
  do art. 16,   5, 8, 10, 15 combinado com o art. 34 do cdigo criminal; e,
  portanto,

P. a V... que, recebendo a presente queixa, a mande distribuir e
  jurar, inquirindo depois as testemunhas F... etc. (5 testemunhas).

E. R. M.

Como procurador, Anzis Carapua.

3. Modelo

Ilmo. Sr.... -- Diz Jos de Tal, estabelecido com armazm de... 
  rua de... n...., que, estando gravemente doente de nervos, com expressa
  recomendao dos facultativos de se no alterar, visto que est impossibilitado
  de ouvir todo e qualquer barulho, entrou-lhe pelo armazm F.... cidado ... (a nao) e vendedor de toalhas e guardanapos de
    linho, lenos de algodo e cambraieta, meias, etc., e, em altas vozes, comeou
    a mercar a sua fazenda, e a perguntar se a queriam comprar; e, como entenda o Suplicante
    que o referido F.... procurou tentar contra a vida do mesmo, crime previsto no
    art. 192 combinado com o 34 do cdigo criminal,

P. a V.... . que, recebendo a presente queixa, a mande
  distribuir e jurar, procedendo-se depois ao interrogatrio das testemunhas
  F.... F.... e F...., etc.

E. R. M.

O advogado provisionado F....

Despachos

Quando o juiz  escrupuloso, despacha o seguinte:

"D. e J., proceda-se  inquirio de testemunhas no dia... a...
  horas, intimadas elas para virem depor na forma da lei, e conduzido o ru para
  vir assistir a ver-se processar".

Quando no tem papas na lngua, diz:

"No tem lugar, porque no sou mdico do Hospcio de Pedro II,
  nem posso chamar a bolos o procurador (ou advogado
    provisionado), que poucas noes de direito mostra".

ALTAS QUESTES DO CRIME
  DE HOMICDIO

Modelo n. 1

Ilmo. Sr. Dr. Delegado de polcia de... (o lugar) -- Diz Joo das Espertezas que tendo, no
  dia de ontem, mandado chamar o Dr. Sangria (mdico) para ver-lhe pessoa de sua famlia, que se
    achava incomodada de dores de cabea, aconteceu que o referido doutor, no
    atendendo ao chamado, entrou hoje pela casa do Suplicante, quando j no era
    preciso, e sem especial licena do Suplicante; e como seja tal crime previsto
    pelo cdigo criminal,

P. a V.S. que, recebendo esta queixa, a mande autuar, marcando
  dia e hora para a inquirio das testemunhas F., F., e F.

E. R. M.

Como procurador, o advogado Jos das
  Tranquibrnias.

Modelo n. 2

Ilmo. Sr. (a autoridade).
  Diz F...., que, achando-se em uma conferncia secreta com o seu amigo F...., em
  sua casa  rua de... (o nome da rua),
    entrou-lhe, sem especial licena, seu irmo F...., indo perturbar a sua
    conferncia, e, como entenda o Suplicante que o referido seu irmo F....
    cometeu o crime de entrada em casa alheia,

P. a V.... (o tratamento da autoridade)
  que, recebendo a presente queixa, a mande distribuir (quando h mais de um escrivo) e autuar, marcando
    dia  e hora para o interrogatrio das testemunhas F.... , F.... (
      5 a
      8  testemunhas).

E. R. M

F.....

Despacho

A autoridade ordinariamente manda tais queixosos plantar batatas
  e estudar direito, ainda que tragam o Corpus
    Juris na algibeira.

PROCLAMAO
  DO DR. SEMANA

13 DE SETEMBRO DE 1863.

Cidados Assinantes da Semana Ilustrada! Sade e
  felicidades. Hoje que o meu jornal comea o duodcimo trimestre, hoje que,
  longe de perigos, posso levantar a fronte, porque vejo a aceitao que tenho
  tido, cabe-me dirigir-vos frases de agradecimento e de admirao pela maneira
  distinta e significativa com que vos tendes apresentado no meu escritrio; mas,
  sendo a ocasio prpria para a maior franqueza, cabe-me tambm dizer-vos que s
  a vontade de ferro dos meus progenitores, os Irmos Fleiuss,  capaz de
  sustentar esta folha, sem que at hoje se tenha dado a menor falta, por isso
  que o budget da Semana oferece
    em seus balanos sempre uma receita, que mal chega para despesas! No vos
    espanteis; eu me explico:

Se todos os Srs. Assinantes fossem prontos no pagamento de suas
  assinaturas, se grande nmero de cidados entusiastas dos bons bocados se
  animassem a procurar o meu jornal no meu escritrio, e no nas casas dos
  amigos, se a carne verde estivesse mais barata (apesar das estiradas
  correspondncias do Jornal do Comrcio),
    e se outros objetos de custo, como sejam po, feijo e farinha, se vendessem
    pela metade, poderia desde j afianar que a Semana deixaria lucro,
      sendo eu at capaz de diminuir o preo das assinaturas.

Mas ...

Tenho dito.

Viva a Semana Ilustrada!

Vivam os assinantes que pagam!

Viva!

O Dr. Semana.

CIRCULAR
  AOS NOSSOS DEPUTADOS

11 DE OUTUBRO DE 1863.

Ilmos. e Exmos. Srs. --  com o maior acatamento que me
  dirijo a vs, Srs. 120 deputados, para apresentar-vos o programa, que hei de
  com toda a restrio seguir, durante o quatrinio em que tiverdes de
  monopolizar os destinos do pas.

Prometo, desde j, aprontar o lpis e a pena para acompanhar,
  com toda a ateno, os importantes trabalhos da rua da Misericrdia, no me
  escapando o mais pequeno incidente, digno de publicidade.

Preparai, portanto, as lnguas, e eu serei convosco.

 necessrio que doteis o pas de leis, que, longe de molestar as algibeiras dos
  particulares, possam engrandec-los e torn-los verdadeiros habitantes de uma
  nao, em cuja capital se comea a adaptar o grande melhoramento da drainage.

E.R.M.

Dr. Semana.

CORREIO
  DA SEMANA ILUSTRADA

  29 DE NOVEMBRO DE 1863.

Carta que o Dr. Semana dirigiu a uma senhora, moradora
  para as bandas da Tijuca.

Sra. D. H. -- Sou muito apaixonado pelo belo sexo, e ele faz de
  mim gato-sapato, mas, quando qualquer dos anjos que o compem se torna maligno
  e diablico, esqueo todos os atributos que me encantavam, e digo-lhe verdades,
  embora fique mal comigo. Desculpe, portanto, a ousadia que tomo de dirigir-lhe,
  pela primeira vez (mas no ltima) esta cartinha. Entremos em matria, sem mais
  demora.

Acusam a V. Excia. de ser brbara para uns pobres negrinhos e
  uma moa que tem
  em casa. A
  vizinhana diz que ouve continuamente o ltego nas costas dessa infeliz gente.
  No acredito, minha senhora, e nem quero meter-me na vida privada, porque no 
  esse o meu ofcio; mas, vendo-a to acusada, animo-me a comunicar-lho para que
  tome suas providncias a fim de esmagar os caluniadores, que a desacreditam.
  Felizmente, essa notcia veio a mim, que no me animo a public-la no meu
  jornal, que s faz rir e no chorar; porm pode qualquer desesperado mandar
  para alguma folha diria a publicao das barbaridades e judiarias, que dizem,
  e no acredito, so praticadas por V. Excia.

Espero que no levar a mal a precauo, que tomo, de nada dizer
  pelo meu jornal e nem publicar o seu retrato que me foi remetido e existe em meu poder.

Adeus, minha senhora, acredite que estou sempre pronto a cumprir
  as suas ordens como

De V. Excia.

criado e venerador

Dr. Semana.

MANIFESTO
  DO DR. SEMANA AOS ASSINANTES DO SEU JORNAL

6 DE DEZEMBRO DE 1863.

Prezadssimos amigos e correligionrios!

 sempre
  com o maior prazer que pego na pena para dirigir-vos as manifestaes do meu reconhecimento
  e da minha gratido. Necessito de vs, preciso da continuao de vossos bons
  ofcios.

No vos admireis, pois, que, no 156 nmero do meu jornal,
  escreva algumas linhas mais aucaradas e melfluas, em cujas pontas
  imperceptveis anzis esto presos para pescarem as vossas assinaturas.

Quando a Polnia sacode a poeira do absolutismo, que ameaava
  sepulta-l, como outrora a lava sepultou Pompia e Herculano, e mostra os
  dentes podres e chumbados ao autocrata, que, por no ser cirurgio-dentista,
  no compreende o gracejo e esmaga-a com a unha do dedo grande do p esquerdo;
  quando Roma, ajoelhada s plantas biliceas do Santo Padre, maldiz Antonelli,
  jejua, bate nos peitos e espingardeia os soldados franceses, que tomam banho
  nos rios, porque lhes faltam banheiros como os do Bom Jesus e do Hotel Ravot;
  quando a Inglaterra v, de braos cruzados, uma Vitria cair de outra vitria, enquanto Sir Christie, em asmticos
    acessos de melancolia diplomtica, enche as escarradeiras do seu bed-chamber para despej-las no pacfico
    do Brasil, que o deixou partir com a mesma derme nasal, que trouxera da velha
    Albion; quando a Espanha estremece de jbilo ao ver passar a ex-Tebana ao lado
    direito de Isabel, enquanto milhares de Castelhanos expem a vida e na Praia
    das Frechas; quando a Frana empomada e estica o bigode, e parodia para todos
    os lados do globo a frase de Cambronne:
      La France
       mord, mais ne se rend
        pas; quando a Itlia canta o Viva Garibaldi e aplaude o milagre de S. Genaro; quando Portugal delira por
          causa do nascimento de D. Carlos e no se importa de perder centenas de contos
          no insignificante emprstimo contrado; quando o Mxico pisca o canto do olho
          ao arquiduque Maximiliano e manda Estrada e outros pndegos dar um passeio a
          Viena, para se convalescerem do susto, que lhes causara Juarez; quando os
          Confederados passam a perna pelo Potomac, enquanto Lincoln masca um pedao de
          tabaco; no  muito que a Semana Ilustrada sinta uma grande comoo ao chegar  ltima estao do 3. ano! As lgrimas devem ser
            copiosas, porque o assunto  sublime e digno de uma epopia em prosa.

 sempre grato, para o corao bem formado, dizer aos amigos, que so amigos, um
  adeus de despedida, j que, por uma infelicidade inexplicvel ou por um
  caiporismo sem significao, a Semana Ilustrada no
    pode mais continuar ... no 3. ano, e v-se forada a comear o 13. trimestre
    ou 4. ano!

O que fazer, Prezadssimos amigos e
  correligionrios? Seguir o destino, e deixar que o meu jornal corra a brilhante
    carreira, que lhe est traada por entre flores, prolas e perfumes.

Assim, portanto, participo-vos que a Semana Ilustrada vai entrar no
  seu 4. ano de existncia, e, por to justo motivo, ao deixar o 12. trimestre,
  mando celebrar um solene Te-Deum na igreja de S. Francisco
    de Paula.

Prometo, desde o n. 157 at o n. 208, escrever a favor do
  comrcio, da indstria da agricultura, da poltica, das artes, das cincias,
  das letras, das tretas, das ruas, das praas, dos becos, dos largos, dos
  fiscais, dos teatros, das cmaras municipais, dos permanentes, da armada, do
  exrcito, das finanas, dos veculos, do asseio pblico, da polcia, do clero,
  do povo, dos advogados, dos mdicos, das parteiras, dos senadores, dos
  deputados, dos alfaiates, das camiseiras, das irmandades, dos jornalistas, dos
  colgios (em geral), dos capitalistas, dos banqueiros, dos proprietrios, da
  guarda nacional, dos carniceiros, dos solicitadores, dos engenheiros, dos
  construtores, dos estaleiros, dos nuticos, dos homeopatas, das casas de sade,
  dos dentistas, dos pedicuros, dos veterinrios, dos boticrios, dos
  taqugrafos, dos pintores, dos estaturios, dos professores de lnguas, das
  bordadeiras, dos esgrimidores, dos ginsticos, dos msicos, dos afinadores, dos
  organistas, dos arquitetos, dos guarda-livros, dos agentes, dos contadores, dos
  negociantes, dos consignatrios, dos mercadores, dos livreiros, dos aferidores,
  dos ourives, dos cerieiros, dos chapeleiros, dos charuteiros, dos bengaleiros,
  dos coristas, dos droguistas, dos curtidores, dos fruteiros, dos cerniceiros,
  dos armadores, dos lojistas, dos ferragistas, dos gravadores, dos marmoristas,
  dos fogueteiros, dos louceiros, das modistas, dos cabeleireiros, dos barbeiros,
  dos tabaqueiros, dos arrieiros, dos sementeiros, dos cutileiros, dos
  tintureiros, dos lapidrios, dos cambistas, dos rebatedores, dos leiloeiros,
  dos despachantes, das floristas, dos trapicheiros, dos cocheiros, dos carros,
  dos tlburis, dos carroceiros, dos bauleiros, dos banheiros, dos belquiores,
  dos galvanistas, dos botiquineiros, dos calafates, dos pedreiros, dos
  caldeireiros, dos carpinteiros, dos colchoeiros, dos confeiteiros, dos
  corrieiros, dos amoladores, dos fotgrafos, dos douradores, dos empalhadores,
  dos azeiteiros, dos empresrios, dos encadernadores, dos engarrafadores de
  vinhos, dos esculpidores, dos espelheiros, dos esmaltadores, dos
  espingardeiros, dos asfaltadores, dos queroseneiros, dos seleiros, das
  lavadeiras e engomadeiras, dos funileiros, dos maquinistas, das coleteiras, dos
  marceneiros, dos rolheiros, dos sebeiros, dos vinagreiros, dos foleiros, dos
  joalheiros, dos ferreiros, dos sineiros, dos picheleiros, dos gaioleiros, dos
  pasteleiros, dos hoteleiros, dos lampistas, dos litgrafos, dos bombeiros, dos
  canteiros, dos oleiros, dos padeiros, dos cengrafos, dos relojoeiros, dos
  salsicheiros, dos serralheiros, dos urubus, dos tamanqueiros, dos tanoeiros,
  dos torneiros, dos vidraceiros, dos violeiros, dos pedestres, e mais entidades,
  que se oferecerem  minha pena.

O meu programa cifra-se na seguinte frase de um grande
  estadista: -- Justia a todos e favor ao meu moleque.

Dixit.

Dr. Semana.

CIRCULAR
  AOS MUITO ILUSTRES ASSINANTES DA SEMANA ILUSTRADA

Digitus Dei est hic.

Preclarrsimos
  senhores assinantes.

J
  que Deus permitiu que a quarta idade

Comeasse
  o jornal, que esta cidade

Por Semana conhece; j que o povo

Veio
  em chusma dizer que o ano novo

Desejava
  assinar, pois que  notrio

Ser
  eu, em todo o mundo -- papelrio,

Exato
  cumpridor dos meus deveres;

Alo
  a fronte, me esqueo dos prazeres,

P'ra
  vir aqui dizer que o quarto ano

Ser
  dos outros todos soberano.

Sim,
  a c'ra ter -- seu nascimento

 saudado na
  vspera do abrimento

Das
  sesses dos preparos p'ra o fabrico

Das
  leis do salvatrio! -- Ano to rico

Jamais
  sobre as cabeas brasileiras

Pairar
  ensopado em frioleiras!

De
  palestra oito meses -- leis, decretos,

Moes,
  requerimentos, mil projetos,

E
  no fim -- liberais, conservadores,

Vermelhos,
  amarelos, de mil cores,

Para
  a terra natal voltando, aflitos

Das
  lutas, que tiveram -- dos conflitos

Por
  causa das patentes, das comendas,

Das
  cartas de vigrios, das prebendas,

Que
  o povo eleitoral, antes do pleito,

Com
  os olhos p'ra urna e a mo no peito,

s
  dezenas prometem -- a ptria julgam

Bem
  salva pelas leis que no promulgam!

Salve
  o ano feliz, que em doze meses

Ver
  sair  cinqenta e duas vezes

A Semana Ilustrada!  Salve o ano

No
  qual toda a gente um grande cano

Ter
  p'ra no morrer mais afogada!...

Sobre
  o ano feliz, em que a boiada ...

Mas
  que digo? -- convm que hoje repita

Tanta
  coisa sublime, tanta dita,

Que
  imortal tornar o quarto ano

Da Semana Ilustrada? -- Sou humano,

Tenho
  pena de vs, bons assinantes,

E,
  portanto, calado, quero antes


  vossa perspiccia entregar puros

Da
  ptria e da Semana os dois futuros.

Refleti,
  ainda  tempo. -- A flor no morre

Se
  vida o sol lhe d -- se aragem corre.

Necessito
  de vs, pois sois o espeque,

Que
  escora o meu jornal e o meu moleque.

Vossos
  nomes mandai, vossa morada,

Que
  o Almanak tereis -- se no...
    mais nada.

Que
  mais posso pedir?...    apenas lembro

Que
  estamos 'no comeo de dezembro.

Dr. Semana.

NOVIDADE

17 DE JANEIRO DE 1864.

Humanitrio, como deve ser todo aquele que se dedica aos seus
  semelhantes, no posso deixar de publicar a seguinte carta, recebida de um dos meus
  assinantes de Niteri. Tenho sempre prazer quando transcrevo destas e doutras
  publicaes, mandadas por to bons pagantes. No declaro o nome do meu amigo,
  porque S.S., ou por modstia para livrar-se de elogios, ou por uma timidez
  indesculpvel, pediu-me positivamente que o suprimisse.

"Meu bom amigo Dr. Semana. -- Praia Grande, 12 de Janeiro de
  1864. -- Desejo que V. Excia. tenha gozado
  etc........................................
  ................................................................................................................

"Vou pedir a V. Excia. um grande obsquio e estou convencido de
  que no deixar de servir-me. Ei-lo:

"Pode publicar, na sua conceituada e mais que lida e procurada
  folha, que o remdio, inventado ou descoberto pelo ilustrado e enciclopdico
  Dr. Francisco Gomes de Freitas,  rua da Carioca n. 118, para curar as sobreditas ou meninas,  um dos
    maiores porretes para tais enfermidades. Sim, sim, e trs vezes sim!!! Se a
    caparrosa verde pode as uvas curar e o bicho matar, sem mais nada restar, por
    analogia se deve apostar que a choux-fleur,
    to apreciada pelos mdicos, com a bisnaga deve murchar.

"Os invejosos e todos os que, capazes de negar at a sua
  deliciosa me so, fingem nos remdios do ilustrado Dr. Freitas no acreditar,
  mas, desde no campo de Ourique de Cristo a apario at hoje, ainda um ente to
  humanitrio e universal no se pode encontrar. No, no e no!!

"A bisnaga* (que ningum podia acreditar e para
  remdio usar)  um dos especficos mais poderosos para quem com dores de cabea
  gritar e vontade tiver de flatos deitar, ou da sala para a cozinha andar. Basta
  nos bolsos das calas botar, ou no pescoo pendurar. Tenho um vizinho, mais
  para baixo do que para cima, que era mrtir nas ocasies de luas (o Dr. Freitas
  ter a bondade de confessar, ou estudar, se ainda reparo no fez, que os
  ataques nessas ocasies mais fortes so). Pois, meu senhor, a bisnaga, que ao
  Dr. Freitas foi implorar, fez-lhe o grande milagre de, para sempre, em trs
  horas, o curar. Minha tia, que nasceu onde o corpo de meu saudoso av jaz, que
  das sobreditas faleceu, porque a
    bisnaga no era conhecida, o remdio empregou, e j pimentas e pimentas provou,
    e carne cozida com abbora e repolho e paios jantou, e os incmodos costumados
    no experimentou. Eu, tendo a tantos curativos assistido, muitas bisnagas nos
    bolsos trazer entendi, e hoje, graas ao ilustrado e humanitrio Dr. Freitas,
    trago as tais flores secas nos bolsos das calas, dos coletes, das casacas e
    at no bolsinho do relgio.

"Glria, glria ao nico homem, que os seus negcios comerciais
  e honestos esquece, e em cima dos livros fenece, quando a humanidade padece e
  dele carece!! Possa a fama o nome de to distinto filantropo nas pginas da
  nossa histria e da de Portugal gravar, e a par das bisnagas e da caparrosa
  (descobertas suas), uma esttua em todos os intestinos levantar, j que
  qualquer bom vinho pode provar, e os emolientes desamparar. Esse homem  o
  irmo universal de toda a gerao atual, e, por conseqncia, tio de toda a que
  h de vir.

" Adeus, Exmo., mande suas ordens a quem  com respeito

"De V. Excia. etc."

 vista do testemunho do amvel Niteroiense, convido os meus
  leitores para que se munam de bisnagas na rua de S. Pedro, defronte da casa do
  falecido Sr. Joo Pedro da Veiga.

Ainda no experimentei esse remdio, porque (felizmente sou como
  as minhas leitoras) no sofro desse mal; porm no posso deixar de confessar
  que esta gente da corte inventam coisas que
    fazem abrir a boca. O Sr. Dr. Francisco Gomes de Freitas  uma pessoa sisuda e
    digna de ser acreditada, e S.S. nos assevera que a sua bisnaga  um poderoso
    reagente contra as molstias subterrneas.

Dr. Semana.

CARTA
  DO DR. SEMANA AO FILSOFO HERMOTIMO

7 DE FEVEREIRO DE 1864.

Senhor. -- Quis arvorar a Semana Ilustrada em comcio popular com o fim de instituir debate sobre a proposta de colocar a
  preguia  destra da Minerva em substituio do noturno guinchador.

Neste sentido dei alamir  minha formosa legio de
  colaboradores.

Estes, porm, com a sinceridade, que nunca vi desmentirem, e
  como se tivessem passado parla entre si, acabam de me responder, que votam
  contra a substituio, visto como lhes parece tirania desempoleirar a coruja,
  h tantos mil anos smbolo da meditao, para enobrecer o quadrpede peludo,
  emblema permanente da indolncia, anttese da atividade, contraste da energia,
  qualificativas de nossos numerosos escritores, em cujas lnguas todos os dias
  baixam as de fogo, que deram aos apstolos o privilgio de evangelizar e
  persuadir com inimitvel facndia.

V, portanto, Sr. Hermotimo, que a sua proposta nasceu para
  morrer.

Rose ... elle a vcu ce que vivent les roses:

L'espace d'un matin.

Competia-me presidir o comcio.

A presidncia vedava-me pronunciar-me, assim a favor como
  contra.

Entretanto, lembrando-me dos servios, que prestou durante a sua
  peregrinao por todos os mundos sem excetuar o da lua, eu j tinha preparado o
  moleque para recitar um discurso de arromba, superior a qualquer dos de
  Demstenes contra Felipe ou dos de Ccero contra Verres e Catilina.

O moleque havia de brilhar como tem brilhado muitos oradores
  negativos, incapazes at de ligar uma idia.

Isto aqui entre ns, que ningum oua.

O moleque daria pancas, porque este meu nbio tem decidida queda
  para tudo quanto destaca perfume de generosidade e  fora do comum.

O traquinas  das Arbias. Se o no contivesse, ia longe. Acho-o
  com disposio at de revolucionar-me a Semana,
    de pr tudo em polvorosa.

Estou do lado da proposta. Simpatizo com ela.

H nesta terra da Santa Cruz talentos a granel, inspiraes por
  d c aquela palha, habilidade a mos cheias.

Mas tambm h vaidade por a alm.

Qualquer rapazote, ledor de romances da terra, julga-se o
  Hrcules da literatura, vencedor de trabalhos, cada qual pelo menos igual aos
  doze daquele semi-deus, e como ele, bipartindo a pedregosa garganta do
  Mediterrneo, escreve nas colunas improvisadas -- non plus ultra.

Est tudo feito. Da por diante, esse privilegiado vai caminho
  de Cana. Apanha chuva de man muito melhor que a de arroz.

Pobre rapaziada de talento!

Fica estacionria, vive das tradies de ontem, como se fossem
  de sculos passados; e, quando sobem  pira, no  porque a tnica do centauro os
  desespera,  porque a glria j os tem cansado na safra de louros virentes.

Mas que quer que lhe faa, Sr. Hermotimo?

No posso, nem devo encontrar os desejos da minha esplndida
  falange.

Ela faz guerra  preguia quadrpede.

Eu no posso deixar de gritar com toda a fora dos pulmes: --
  Morra a preguia! embora a manhosa nem uma s polegada desa do pau.

O Sr., enquanto em corpo andou c por este vale de cardos e
  carrapichos, fez das suas, parecia medium endiabrado. Mistificou a meio mundo.

Agora, em esprito, vaga l por esses orbes luminosos. Deu
  muitas nos cravos, leve por tanto uma na ferradura, que ainda no  desforra.

A cabeas, como a sua, no faz mossa um coque, dado que seja com
  a clava de Alcides.

No d cavaco com a rejeio da proposta.

Resigne-se. Console-se com o mal das vinhas, contra a milagrosa bisnaga, ao qual principiam alguns ingratos e ingratas a
  fazer oposio.

Deixe a feia coruja continuar nas funes de caudatria de
  Minerva.

Reserve-se para melhor mar.

Com isso pouco perde e muito ganha.

O seu amigo e colega reverenciador

Dr. Semana.

BERNARDICES

14 DE FEVEREIRO DE 1864.

Infelizmente at hoje, apesar de terem sido publicados 165
  nmeros da Semana Ilustrada, h algumas pessoas
    neste nosso belo Rio de Janeiro que ainda no entenderam o pensamento que
    preside  marcha deste jornal.

A Semana Ilustrada no pretende
  ofender pessoa alguma, nem matar interesses e lucros alheios.  um jornal
    puramente humorstico, que at agora tem sabido guardar imparcialidade,
    preferindo proteger a atacar qualquer empresa, associao ou negociao
    particular.

Alguns gaiatos, talvez com a idia de guerrear a Semana, espalharam que o ltimo nmero atacara a
  empresa dos bailes mascarados do Teatro Lrico, para fazer-lhe mal,
  distrair-lhe a concorrncia, e assim vingar-se no sei de que parvoce. Ora,
  pelo amor de Deus! 
    preciso no conhecer a Semana Ilustrada!

Saibam, portanto, todos que sou amigo de um dos arrematantes
  desses bailes; que o tpico do artigo, que se diz ser contrrio aos ditos
  bailes, foi escrito pelo Menino Diabo, que apenas pretendeu pregar um susto de
  Carnaval, tanto aos empresrios como aos mscaras; que, finalmente, de cabea
  bem alta, posso dizer, Urbi et Orbi,
  que nunca pretendi, no pretendo e no hei de pretender arrematar os bailes
  mascarados do Teatro Lrico. No apaream, portanto, apoplexias de medo.

  necessrio que os meus leitores vejam sempre a Semana com os melhores olhos deste mundo,
  e que a entendam como deve ser entendida, e no como meia dzia de crianas a
  quer por a soletrar.

Estou superior a todas essas intriguinhas, mas no desejo que
  amigos meus se possam ofender, acreditando que sou capaz de molestar o menor
  mosquito, por inveja, cime, dio, vingana ou... nem sei o qu.

Dr. Semana.

CORREIO
  DA SEMANA ILUSTRADA

CARTA PRIMEIRA

27 DE MARO DE 1864.

Ilmo. Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polcia. -- Tratado sempre com a
  maior delicadeza por V. Excia., que se torna distinto pelas suas maneiras atenciosas
  para com todos os que tm a honra de conversar com V. Excia., deveria ir
  pessoalmente procur-lo para pedir-lhe um grande favor a bem da nossa
  sociedade; mas os contnuos afazeres,
    a que me entrego diariamente, privam-me desse prazer, e por isso lancei mo do
    meio mais fcil, e rpido, de comunicao, dirigindo-lhe esta carta, que,
    espero, ser, cuidadosamente lida por V. Excia., a quem no falta bom senso e
    moralidade para decidir o que for mais compatvel com os nossos usos, costumes
    e educao.

H nesta cidade do Rio de Janeiro um estabelecimento, onde,
  todas as noites, por entre baforadas de fumo e de lcool, se v e se ouve
  aquilo que nossos pais nunca viram nem ouviram, embora se diga que  um sinal
  de progresso e de civilizao. Chama-se esse estabelecimento -- Alcazar Lrico.

Apesar de velho, no sou carranca e retrgrado, e sei aplaudir
  todas as novidades que o estrangeiro nos traz, passando pela alfndega do bom
  senso, ou mesmo por contrabando, contanto que tenha uma capa de moralidade; mas
  quando essas novidades aparecem no mercado avariadas e cheias de gua salgada,
  fico indignado, pergunto aos meus botes em que pas estamos, conveno-me de
  que somos, na verdade, tidos por selvagens hotentotes, e imploro a Deus para
  que ilumine as cabeas que nos dirigem, a fim de que apliquem o ferro em brasa,
  na ferida, que comea a chagar-se pelo veneno que lhe inoculam.

Falo com esta franqueza, porque estou escrevendo a um magistrado
  morigerado e honesto, cujo principal desejo  bem merecer de seus concidados
  pelos seus atos de virtude e de rigorosa justia.

Enquanto se proibia a todos os teatros de brasileiros --
  representaes nas sextas-feiras da quaresma e na vspera e
  no dia de Ramos, consentia-se que o Alcazar tivesse o salo aberto para moralizar
  o bom povo, que o freqenta! Se no h injustia neste procedimento, seja de
  quem for, h pelo menos falta de equidade, que s redunda em proveito do
  francs, contra os brasileiros, que vivem na maior misria, esmolando da
  concorrncia dos seus teatros o po quotidiano.

V. Excia. dignar-se-  de explicar-me como se pode dar esse
  fato?

Rogo ainda a V. Excia. o especial obsquio de freqentar essa
  casa de educao, no se contentando em mandar inspetores de quarteiro e mesmo
  o respectivo subdelegado. V. Excia.  um homem ilustrado, que conhece
  perfeitamente a lngua francesa, e no s ter belas noites de divertimento,
  como far um relevante servio  sociedade em que vive, e onde tem milhares de
  relaes com todas as famlias decentes e honestas do Rio de Janeiro, as quais,
  por uma infelicidade do empresrio, nunca encontrar nessa Academia.

Desculpe V. Excia. a ousadia de escrever-lhe esta carta, e
  permita que, d'ora em diante, lhe dirija muitas outras a respeito do meu
  protegido Mr. Arnaud e do seu especial e inimitvel estabelecimento.

Por agora, contento-me com os pedidos acima feitos, esperando
  que no sero as minhas palavras atiradas ao vento.

Aqui me tem V. Excia. sempre pronto a cumprir as suas ordens
  como quem, com todo o respeito e considerao, 

De V. Excia. amigo, afetuoso e obrigadssimo criado

Dr. Semana.

CARTA
  SEGUNDA

3 DE ABRIL DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro Presidente do Conservatrio
  Dramtico. -- Sou o primeiro a reconhecer que no me cabem direitos para ir importun-lo
  e distra-lo dos seus importantes labores; mas V. Excia. que, h anos,  meu
  amigo e me tem disso dado exuberantes provas, permitir-me- o desembarao, na
  certeza de que somente as nossas ntimas relaes me autorizam a dirigir-lhe
  esta carta, a qual, espero, ser lida com toda a ateno por V. Excia., que, na
  opinio de todos os que tm a ventura de trocar falas com V. Excia.,  um
  cavalheiro muito distinto e extraordinariamente delicado. Releve, pois, a
  ousadia, e decida, em sua sabedoria, se  possvel atender ao pedido, que lhe
  vou fazer.

Em primeiro lugar, tenho a dizer-lhe que sei que V. Excia. no
  pertence  escola do realismo.  isto um grande argumento a meu favor.
    Vamos ao pedido:

Este nosso Rio de Janeiro, Exmo.,  o poo onde vm cair todas
  as caambas vazias do estrangeiro. Para felicidade dos nossos civilizadores,
  saem sempre com as tais caambas cheias de dinheiro, e... deixam-nos com caras
  indefinveis...

Na rua da Vala existe um teatrinho, barraco ou coisa que o
  valha, a que se chama Alcazar Lrico. Creio que V. Excia. no o freqenta.  pena.

Nesse estabelecimento, fuma-se, bebe-se, espirra-se, assobia-se,
  grita-se, berra-se, canta-se, dana-se, representa-se, e... mais nada, creio
  eu. J v V. Excia. que  um divertimento de mo cheia.

A V. Excia. no cabe indagar quem l vai, nem os inconvenientes
  que podem provir  moralizao do nosso povo, da existncia de semelhante
  colgio de bons costumes; mas, como presidente do Conservatrio Dramtico,
  pertence-lhe inspecionar se tudo quanto por l se diz est permitido e
  licenciado pela censura.

Se nossos venerandos pais, Exmo., fossem vivos,
  horrorizar-se-iam ao saber do grande adiantamento, que vai tendo a nossa boa e
  sofredora sociedade fluminense com a representao das mais inocentes, puras e
  espirituosas produes dos teatrinhos parisienses. Infelizmente somos ns os
  vivos, e, graas aos bons desejos de civilizao e de progresso, vamos
  assistindo, com ouvidos de mercadores, a todas essas gentilezas, importadas do
  velho mundo que tantas lies de moral e de educao nos tem dado, merc de
  Deus!

O esprito, que por l se repete,  to grande, o sainete da
  frase  to doce, e o gesto to adequado, que, segundo creio, h mo alheia
  aperfeioando as plantas traadas pelo Conservatrio. Veja bem V. Excia. que
  isto no passa de simples suposio minha. Deus me defenda de dizer que  uma
  verdade.

0

Peo, portanto, a V. Excia., como supremo fiscal dos nossos teatros,
  que se digne, de quando em vez, de freqentar esse santurio da moral. V.
  Excia. no faz esse obsquio unicamente a mim, falo-o principalmente a todas as
  famlias honestas e decentes do Rio de Janeiro, que no podem ver um
  divertimento na corte, donde mal entendidos prejuzos e censurveis
  preconceitos as afastam, proibindo-lhes a entrada.

Sou o primeiro a estimar que existam muitos estabelecimentos
  destes; mas no me acomodo com a idia de que no vo a eles todas as classes
  da sociedade. Ser o culpado disso o Conservatrio Dramtico?

Creio intimamente que no, porque  composto de pessoas bastante
  ilustradas, que s licenciam composies dignas de serem recitadas nos mais
  finos e aristocrticos sales. Acho que  esquisitice dos nossos pais de famlia.

Desculpe V. Excia. o meu pedido, filho somente do desejo que
  tenho de proteger o meu simptico Mr. Arnaud e o seu inimitvel e especial
  estabelecimento.

Continuarei a importun-lo com outras missivas, contentando-me,
  por ora, com o que acima fica dito.

Julgo desnecessrio dizer-lhe que da polcia espero tudo, e por
  isso vou escrever mais algumas linhas ao meu respeitvel amigo o Exmo. Sr. Dr.
  chefe de polcia.

Aqui me tem V. Excia. sempre s ordens, com a melhor vontade,
  porque sou, pedida a necessria vnia, com o maior respeito e considerao,

De V. Excia. afetuoso amigo e obrigadssimo criado

Dr. Semana.

CARTA
  TERCEIRA

10 DE ABRIL DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polcia. -- Apesar talvez de incomod-lo
  com as minhas cartas, no posso deixar de pegar na pena, para escrever-lhe esta
  segunda missiva, a favor do bem conceituado e decente estabelecimento do meu
  simptico Mr. Arnaud, que se negou a consentir que Mlle. Risette cantasse no
  benefcio de uma pobre escrava brasileira.

Mas voltemos ao Alcazar. As famlias honestas do Rio de Janeiro
  continuam a esperar de V. Excia. a extino dessa casa de educao. Conheo um
  ilustre deputado que pretende apresentar na cmara um requerimento pedindo informaes
  a respeito da utilidade desse estabelecimento.

Repare V. Excia. que  o nico divertimento (menos praas de
  touros) a que se assiste com o chapu na cabea, com o charuto na boca, a
  garrafa de cerveja ao lado, e uma, duas ou trs raparigas, lindas como os
  amores, sentadinhas em derredor da mesa. Que prazer! Que glria! No falte,
  Exmo., porque h de apreciar muita coisa interessante.

V. Excia. que  to bom, to amvel e to atencioso para comigo,
  no h de deixar de satisfazer um pedido meu -- V ao Alcazar!

Continuarei a incomod-lo, por causa do meu Mr. Arnaud,
  esperando que V. Excia. tomar, no valor, que merecerem, estas missivas.

Sou, com estima e respeito,

  De V. Excia.

Amigo afetuoso e obrigadssimo criado

Dr. Semana.

SARAU
  LITERRIO

10 DE ABRIL DE 1864.

Ainda bem! No h nada a dizer-se contra a semana. Ela
  foi verdadeiramente ilustrada por uma dessas
    festas ntimas que deixam sempre saudades.

A convite do Sr. conselheiro Jos Feliciano de Castilho,
  reuniram-se nos belos sales do Club Fluminense vrios cavalheiros. Polticos,
  literatos, comerciantes, isto , clero, nobreza e povo, tudo l se achou
  representado. E os trs estados funcionaram na melhor harmonia possvel at 1
  hora da noite.

E querem saber os leitores o motivo dessa reunio
  extraordinria?  simples. Tratava-se de fazes as despedidas a um homem de letras, o Sr. Dr. Joo
    Cardoso de Menezes Souza.

Ora, o motivo serviu esta vez de pretexto. E os convidados, os
  que faziam parte do batalho literrio, recitaram vrias composies prosaicas
  ou poticas, conforme a ndole de cada um.

O moleque da Semana 
  doido por estas festas. Se no  assduo  sala da recitao, no abandona a
  corte da sala do ch. Guloso como um verdadeiro moleque, prefere os bolinhos s
  poesias e o po com manteiga  melhor prosa do mundo.

Contudo, fez-me uma revelao que no deixarei de comunic-la,
  mesmo porque no guardo segredos de moleque.

-- Por que no se ho de regularizar estes saraus, meu nhonh,
  perguntou-me ele, e por que no convidar ao belo sexo para infundir o gosto da
  literatura s nossas belas patrcias?

O moleque  um tanto desembaraado, e fala das nossas patrcias
  como se fossem crioulas.

Seriamente no tive o que responder-lhe. E apesar de no esperar
  do meu moleque seno alguma boa molecagem, confesso que me pareceu mais a sua
  reflexo uma boa idia.

A ela, pois, homens de letras: moos e velhos; o estimulo do
  sexo encantador faz homens e cria saraus.

Dr. Semana.

CORREIO
  DA SEMANA ILUSTRADA

  CARTA QUARTA

17 DE ABRIL DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Conselheiro Presidente do Conservatrio
  Dramtico. -- V. Excia. tem-se mostrado sempre to benvolo para comigo que,
  espero, deve ter tomado srias providncias a respeito da ltima carta, que lhe
  escrevi, recomendando-lhe o meu simptico Mr. Arnaud, e o seu especial e
  inocente estabelecimento.

Creio que V. Excia. nunca foi ao Alcazar, mas uma vez  a
  primeira, e no s eu, como todos os meus amveis leitores, muito desejamos que
  V. Excia. freqente aquela casa de caridade.

No sei o que se exige para que uma pea seja licenciada; mas a
  ver pelo que l se representa, penso que tudo  lcito e admitido.  essa a
  opinio de V. Excia.?

O Alcazar no  unicamente um ponto de reunio,  tambm uma
  escola de costumes, e por isso o bom senso e a maior parte das famlias do Rio
  de Janeiro muito desejam que V. Excia., esquecendo, por alguns momentos, os
  seus grandes trabalhos noturnos, se dedique com assiduidade s mezinhas do
  Alcazar. V. Excia., que  em verdade filantropo, no deixar de condescender
  com o pedido deste seu velho amigo, que s deseja que V. Excia. mostre quanto 
  solicito em atender a uma pequena rogadella,
    filha dos desejos que nutro de ver nesta nossa terra alguma coisa que no seja
    de maus perfumes, trazidos pelo meu amigo francs da rua da Vala.

Adeus, Conselheiro; v ao Alcazar e disponha como sempre de quem  com respeito

  De V. Excia.

Amigo afetuoso e obrigadssimo criado

Dr. Semana.

CARTA
  DO DR. SEMANA AO IMPERADOR DA CHINA

CALENDAS DE ABRIL DE 1864.

Celestial Senhor. -- Pretendia escrever a Vossa Obesidade na linguagem
  de Confcio, visto como sou poliglota superior a Pico de
  la Mirandola
  e ao cardeal
  Mezzofante.

V. O. deve de saber que, em questes de lnguas, nada tenho de
  invejar s charqueada do Rio Grande do Sul.

Gorou-me, porm, o desejo a falta de tipos chineses neste
  imprio de terrcolas, aonde h multiplicidade de outros tipos; e  por isso
  que escrevo a V. O. no idioma portugus, ainda hoje falado pelos gafanos da Goa
  luso-chinesa.

O objeto da minha missiva, muito nobre descendente de Houang-ti,
   comunicar a V. O. que muitos dos mandarins do Celestial Imprio ocupam-se por
  aqui em vender camal e salinha em menoscabo da prospia de que procedem e
    da importncia poltica da sua nacionalidade.

Feita esta comunicao pelo meu correio dos mares dos tufes,
  espero em resposta ver, dentro deste ano da graa de 1864, arfar pela baa de
  Niteri uma invencvel armada de juncos comandada pelo mais hbil Nelson de V.
  O para restituir aos lares celestiais os mandarins degenerados e obrig-los
  assim a voltar s delcias da canga e do empalamento.

Sinto privar da presena de to ilustres hspedes a terra, que
  me viu nascer; mas no lhe vejo melhor gesto; sou cosmopolita em matria de
  dignidade, e no perteno  legio dos otimistas que enxergam nos silvcolas, alm
  da qualidade de nobres, que eu tanto aprecio, os autores do grande melhoramento
  no carrego e prego do peixe cru.

Atendei, Celestial Senhor,  minha comunicao; vede que nela
  vai o interesse de vossos domnios no tocante ao pio e ao ch Lipton, to
  grato a vossos aliados do gabinete de S. James.

No deixeis, grande Chaa, apodrecer nos cortios do Rio de
  Janeiro os vossos desertados fidalgos. Cangai-os de novo, nclito, egrgio e magnnimo
  corifeu dos salamalecos: cangai-os e contai com os servios e prstimos do
  humanitrio e utilitrio instituto da Semana Ilustrada, que desde j toma a peito tratar a China no p das naes mais favorecidas.

De V. O. admirador profundo,

Dr. Semana.

17 de abril de 1864.

NOVIDADES
  DA SEMANA

24 DE ABRIL DE 1864.

O nico meio que resta ao cronista de novidades, quando se acha
  em frente de uma semana estril,  dizer francamente a verdade a seus leitores.

Entretanto, no podemos ns assim lavrar peremptoriamente uma
  sentena to pesada contra os 7 dias que acabam de decorrer.

Graves sucessos foram neles anunciados e, em todo o caso, se no
  do assunto para a galhofa, prestam-se, Deus o sabe, a movimentos expansivos de
  outra natureza.

J no  segredo para ningum. Est determinada a embaixada
  especial para o Rio da Prata. O ministro feliz no  o Dr. Semana, nem o
  redator da Gazetilha do Jornal do Comrcio,
     o Sr. deputado Jos Antonio Saraiva, que leva por secretrio especialssimo o
    talentoso Sr. Dr. Tavares Bastos, que vai representar o Amazonas sobre as guas
    do Rio da Prata. A misso  de paz.

Comearam j os trabalhos da augusta salinha. Os deputados
  provinciais preparam-se para afiar a lngua na pedra do oramento provincial,
  sobre a qual pedra deve ser levantada a igrejinha da felicidade pblica.

Como se v,  um negcio simples, e que no h de cansar muito
  aos dignssimos representantes de serra abaixo e serra acima.

Houve pelos domnios da polcia uma balbrdia dos nossos
  pecados. Foi um negcio complicado e cheio de peripcias tais a assombrar os
  prprios atores de S. Pedro, que esto agora representando ao vivo as aventuras
  e descobertas de Cristvo Colombo.

Foi o caso que um marido enciumado, e que no est decididamente
  pelo divrcio dos casais, homem do seu ofcio, pegou no formo, como no seu
  malhete simblico, e sobre a cabea da sua cara metade tanto bateu e martelou,
  que lhe introduziu nos miolos a sua crena inabalvel de que o marido  sempre
  marido, mesmo quando a esposa no quer mais ser esposa.

Como este assunto, porm, est afeito aos tribunais, o Dr.
  Semana, que no  advogado que se inculque, s voltar a tratar dele quando se
  pronuncie a sentena.

Dr. Semana.

CORREIO
  DA SEMANA ILUSTRADA

CARTA QUINTA

1 DE MAIO DE 1864.

Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Chefe de Polcia. -- V. Excia. h de ter
  indubitavelmente reparado no meu silncio a respeito do Alcazar, pois acredite
  que  bem contra a minha vontade.

Fui a Petrpolis, e deixei o meu moleque encarregado de redigir
  a Semana, mas como no o autorizasse a
    dirigir-se a V. Excia., no se animou ele a escrever a continuao dos meus
    pedidos. Fez bem; porque sendo V. Excia. um cavalheiro to distinto e digno da
    maior considerao, no desejaria eu que o meu moleque tivesse a ousadia de ir
    perturbar a V. Excia. nos seus srios e importantes cuidados. Agora, porm,
    estou de volta, e por isso tomo a liberdade de pedir a V. Excia. que se digne
    de dizer-me o que tem feito a favor do meu simptico e prezado Mr. Arnaud, e do
    seu exemplar estabelecimento.

Contnuo a dizer a V. Excia. que no sou carranca e que desejo o
  progresso do meu pas, mas no seguindo a escola do realismo, no desejo ver certas coisinhas mostradas
    no teatro.

Os nossos maiores diziam que a roupa suja lava-se em casa, e por
  isso desde que imoralidade  roupa suja, no posso ver com bons olhos ela
  lavada  vista de todo o mundo.

Digne-se V. Excia. de ir ao Alcazar que h de ter momentos de
  verdadeiras comoes e ento acreditar que eu no o estou enganando e que s
  almejo ver nesta capital espetculos onde possam ir as famlias mais graves e
  honestas do Rio de Janeiro. Ser difcil conseguir isto? V. Excia. decidir, na
  certeza de que faz um servio real aos bons costumes,  nossa sociedade
  moralizada e ao

  De V. Excia.

                                    Amigo
  afetuoso e obrigadssimo criado

Dr. Semana.

NOVIDADES
  DA SEMANA

  1. DE MA1O DE 1864.

O Dr. Semana sai hoje fora do srio. Vai dar catanadas  direita
  e  esquerda, porque est de um mau humor desabrido.

Foi-se o sol e veio a chuva. Acabou-se a chuva e o preguioso do
  astro-rei mostra-nos apenas uma cara plida e sombria, como de quem esteve a
  dormir por muito tempo e acordou contra vontade.

 verdade que, com sol ou chuva, os hbitos desta boa, leal e herica cidade no
  se alteram.

Se o dia est calmoso os representantes da ptria no se renem
  na cmara para se reunirem no Carceller.

Se o dia est chuvoso, tambm no se renem, porque  mais
  gostoso ficar debaixo dos lenis, do que se expor a apanhar alguma
  constipao.

E o pior  que lhes acho razo, conquanto o pas e a grande
  imprensa entre j a queixar-se de tanto sueto e tanta cabula. Grita o Amazonas
  que quer abrir-se; grita o S. Francisco que no quer ficar fechado; grita a
  estrada de ferro D. Pedro II que est com sede e com vontade de beber gua da
  Serra; grita o governo que quer crditos suplementares; grita o pas que quer
  oramentos, gritam todos enfim os que se julgam com direito a exigir do
  parlamento os servios que lhes so devidos.

S os taqugrafos e os oficiais da secretaria da cmara no
  gritam, e fazem muito bem, porque tm muita razo.

Para eles  indiferente que haja sol ou chuva. O que no lhes 
  indiferente  que no haja sesso. Ttiros  sombra das suas faias, preferem
  tocar na rude avena a irem garatujar papel e aparar lpis.

Temos uma grande novidade a comunicar aos nossos leitores.
  Cristvo Colombo, em carne e osso, com as suas caravelas de pau pintado, acaba
  de surgir em pleno teatro de S. Pedro, descobrindo o novo mundo e pondo um ovo
  em p, com grande admirao e aplauso de todos os homens sensatos e ilustrados
  que no so pataus, e que por no pertencerem  confraria dos literatos
  medocres, que se elogiam mutuamente, e nem  companhia do teatro de S. Pedro,
  de que  reformador e restaurador um homem extraordinrio, que no  por ora
  conhecido, esto no caso de darem sobre esse drama monumental (onde aparecem
  158 pessoas vivas!!) um juzo seguro e imparcial. Pois apesar de tudo isso,
  essa maravilha do sculo XIX ia passando despercebida se no fosse a agudeza de
  engenho do redator da Gazetilha, que tendo ido casualmente  platia de S.
  Pedro, procurar o gato encantado do colar de prolas, ficou embasbacado diante
  do prodgio e anunciou urbi et orbi o
  grande achado que fizera!

E foi uma fortuna. Porque este pas no est preparado para to
  grandes coisas. E com exceo de muito pouca gente de gosto que por a existe,
  bem podem essas e outras maravilhas oferecerem-se  vista de todo o mundo que
  ningum os aprecia.

Em compensao, anuncia-se no Ginsio uma coisa ruim, que eu no
  conheo, mas que, por fora, h de ser muito vulgar e sensaborona, e sobretudo
  h de ter o defeito da casaca e da luva de pelica, e o de no mostrar em cena
  158 homens, nem nenhum navio fazendo fogo ao vivo, mas para a qual desde j
  esto convidadas todas as pessoas de mau gosto do Rio de Janeiro. Essa coisa 
  nada menos que um novo drama do autor da Histria de uma moa rica, intitulado A punio.

Quem estiver disposto a deitar fora o valor de uma cadeira e
  perder algumas horas do bom sono, deixe de ir ver a descoberta do mundo novo
  pelo novo Colombo, e v assistir  representao dessa maada em poucos atos.

Soam os clarins da guerra no campo do funcionalismo. Diretores
  gerais e chefes de seco, primeiros e segundos oficiais, amanuenses e
  praticantes, porteiros e contnuos, tudo anda num fervet opus! Chovem os raios de Jpiter Tonante sobre as cabeas
  venerandas de todos os direitos adquiridos! O governo, que no  para graas,
  descarrega sucessivamente golpes tremendos sobre a hidra das sete cabeas e no
  meio de toda a lufa-lufa do temporal, sentem-se muitos ameaados de um
  naufrgio completo nas praias inspitas da misria!

Este negcio  que  profundamente srio. A imaginao do Dr.
  Semana aterra-se diante do quadro lgubre dessas decepes cruis, e no tendo
  meio de oferecer alvio a tanta desgraa junta, toma o partido de fechar os
  olhos e de calar a boca.

Chiton!

NOVIDADES
  DA SEMANA

8 DE MAIO DE 1864.

Devo prevenir aos meus leitores que este artigo h de ser longo,
  pela importncia dos sucesso da semana que aqui tenho de consignar.

Por isso, e para no cansar os leitores, ofereo-lhes aqui o
  resumo das matrias com que me vou ocupar.

Vou tratar da nova companhia lrica que est a chegar.

Apresentar a estatstica das faltas e dos dias de trabalho da
  cmara dos deputados.

Do encerramento da 1. sesso e da abertura da 2. sesso da 12. legislatura.

Da assemblia provincial e do grande tamandu que lhe chegou da Bahia, e que ameaa devorar inutilmente o tempo e
  o subsdio da sesso extraordinria.

Da posse do povo presidente da provncia do Rio de Janeiro.

Do teatro Lrico e da exibio moderna do velho Ricardo III, onde a atriz Estela teve as honras da
  noite.

Do teatro Ginsio e da primeira representao de um novo drama
  do autor da Histria de uma moa rica.

Do teatro de S. Pedro e da descoberta do novo mundo dramtico,
  pelo Sr. Cristvo Colombo Pereira Barbosa.

Do teatro de Santa Thereza de Niteri, que est cado e que
  muita gente se prope reerguer  custa da provncia.

Do melhoramento apresentado pela Semana Ilustrada com as suas
  gravuras em madeira.

Da supresso de vrios empregos pblicos.

Da qualificao dos nossos diplomatas.

E etc., etc., etc..

Agora que est feito o sumrio, vou comear o artigo ...

Dr. Semana.

CORREIO
  DA SEMANA ILUSTRADA

8 DE MAIO DE 1864.

A S. Ex. o Sr. Dr. Chefe de Polcia, em

3 de maio de 1864.

A casa misteriosa da rua do Ouvidor n. 93, canto da dos
  Ourives, continua fechada em benefcio dos ratos e prejuzo dos cofres pblicos.

Este encerramento  um mote, que cada um vai glosando com ou sem
  fundamento.

Os malvolos dizem: a casa no se abre, porque fecha o segredo
  de algum crime.

Os supersticiosos resmungam: por ali anda alma penada; ali h
  lobisomem; mora o mafarrico; ali aquenta-se panela de feitios; ali tinem
  correntes, abafam-se gemidos, danam espectros, l-se a buena-dicha, etc.

Os avarentos segredam: a casa est fechada desde a expulso dos
  Jesutas; o dono herdou-a de um maioral da ordem, com a condio de no abri-la
  seno depois que os discpulos de Santo Incio conseguissem a revogao da bula
  de Ganganelli. Na casa h enterrada chelpa grossa, barras de ouro, cofres de
  jias, vasos de prata, e  por isso que o proprietrio, para no proceder 
  exumao desses ossos preciosos, prefere perder a bagatela de 2:000$000 por
  ano.  birra,
    prosseguem os avarentos no seu dilogo secreto,  birra, que j est em muito
    dinheiro, em cinco ou seis vezes o valor do feio prdio na mais faceira rua da
    cidade, onde todos os dias as casas do tempo do ona se esto convertendo em
    belos armazns de lantejoulas.

Os mais discretos exclamam: o direito de propriedade tem
  limites, no se deve confundir com o arbtrio de torn-la escarro em parede
  limpa, foco de infeco, ninho de arganazes, baratas, lacraias e minhocas.

Se esse direito no tivesse limites, o proprietrio que
  embirrasse com sua propriedade poderia incendi-la, demoli-la a tiros de
  canho, sem dar cavaco aos vizinhos e aos transeuntes, nem se responsabilizar
  pelos escalavramentos de uns e outros.

V, Exmo.? so estas as verses que tenho ouvido sobre a casa
  misteriosa, fechada desde as calendas da gua do monte.

Eu no aceito todas as verses, repilo at a das almas penadas,
  que  a mais verossmil para o capadcio do meu moleque.

Entretanto, d-me em que entender o tal prolongado fechamento;
  e, hoje mais do que nunca, por estarmos em mono de economia.

A dcima da casa misteriosa pode adicionar-se ao produto da
  supresso dos praticantes das secretarias.

Creio na ltima glosa.

O direito de propriedade tem limites. Acho at escandaloso o
  mistrio de fechamento.

V. Excia., se quiser, pode averiguar o segredo da abelha, que
  fechou a imunda colmia.

Chame-a a contas, Exmo.; e em nome da civilizao, do
  desemperramento, do bem pblico, do aformoseamento da rua do seu antigo colega
  ouvidor, que Deus haja, obrigue V. Excia. o proprietrio birrento a
  desembirrar-se, abrindo a casa endiabrada.

Faa-lhe este favor, Exmo ., e conte com os aplausos de quem se
  preza de ser

De V. Excia.

Muito atencioso venerador e amigo obrigado

Dr. Semana.

PONTOS
  E VRGULAS

  12 DE MAIO DE 1864.

Os carrancas clamam contra o progresso, e os cticos esfalfam-se
  em neg-lo.

Negar o progresso, que heresia!

Quando mesmo se possa faz-lo conscienciosamente no esto a
  mil inventos pasmosos atestando a existncia dele?

Por exemplo, em matria de estilo, todos pensam que tudo est
  descoberto, que todos os estilos j se acham consagrados...

Puro engano!

Tnhamos at aqui:

O estilo elevado; o estilo nobre; o estilo simples;  o
  estilo obscuro; o estilo nervoso; o estilo claro; o estilo abundante; o estilo
  seco; o estilo dramtico; o estilo pico; o estilo cmico; o estilo trgico; o
  estilo epistolar; o estilo chulo; o estilo pesado; o estilo ligeiro; o estilo
  gtico; o estilo drico; o estilo renascena; o estilo rabe, etc., etc., etc..

Parecia impossvel inventar mais um estilo.

Pois inventou-se. Chama-se:

O Estilo Leiloeiro!

No se parece
  com coisa alguma o novo estilo.  original, 
    inqualificvel, indiscutvel; l-se, admira-se, e no se passa da.

Aquilo que ningum pode inventar, aquilo que esquece ao
  dentista, ao calista e ao droguista (ao droguista sobretudo), no esquece ao
  leiloeiro.

O anncio em latim foi uma inveno leiloeira; o primeiro que
  usou dele bateu palmas; mas o vizinho no admitiu a vitria e recorreu  lngua
  de Pricles e Aspsia.

 verdade
  que todos eles tiveram a precauo de inserir ao lado a traduo, sem o qu,
  corriam o risco de no vender uma pea de pano.

Costumo ler os tais anncios, e s vezes caem-me debaixo dos
  olhos expresses realmente felizes.

Por exemplo, anunciou-se h dias um -- Raro e importante leilo de Histria Natural.

Imagine o leitor que leilo seria. Sentem-se calafrios ao pensar
  que um tigre de Hircacnia, uma ona de Gois ...

Mas no: mais adiante temos a explicao nas seguintes palavras
  textuais:

-- Ricas redomas de pssaros de todos os tamanhos e qualidades,
  de diversas provncias do Rio de Janeiro.

Com uma pena e certa disposio o anunciante faz esta reforma
  poltica: torna o Rio de Janeiro estado independente e recorta-o em provncias.

O anncio  a verdadeira cincia moderna.

Dize-me como anuncias, dir-te-ei que manhas tens.

*

*    *

 verdade que isto de
  imprensa  coisa difcil.

Todo o cuidado  pouco;  a que o Capitlio anda ao p da rocha
  Tarpia.

Agora mesmo, folheando uns papis, dei com uma nota de
  lembrana. Era um pedao transcrito de um jornal de provncia.

Tratava-se do clera-morbus. O redator da folha aparou a pena,
  assuou-se, e em artigo de fundo traou uma larga exposio que comea por estas
  palavras:

"No temos em mira mostrar erudio, visamos interesse maior, o
  de sermos teis a nossos semelhantes; lembrados do mandamento escrito nas
  tbuas da lei, dadas por Deus a Moiss. O mandamento -- Amar ao prximo como a
  si mesmo--  uma sublime epopia escrita pela mo Divina.

"Amamos ao prximo, escrevemos para o povo.

"No somos da escola contagionista,
  e, pois, principiamos por aconselhar que mostremos  vista do inimigo sangue
  frio e coragem. O medo causa diarria; a diarria  um dos sintomas precursores da clera, aos tmidos ela ataca com
    maior intensidade. O medo pode igualmente aconselhar uma completa abstinncia
    de alimento, ser mais um grave erro, porque da abstinncia nascer a falta de
    foras, a inanio, que tambm debilita e mata ".

 muito
  bonito, mas eu prefiro Ccero.

*

*    *

Vem a propsito, j que falo em imprensa, citar uma bernardice.

Eu no sou assinante da folha de que se trata, mas o meu amigo
  M., que costuma receb-la, foi que me mandou um nmero dela.

Houve no nmero anterior a esse alguns erros; o redator
  apressa-se a corrigi-los, e diz;

"Reparao.
  -- Depois de impressos e distribudos alguns exemplares do nosso ltimo nmero,
  deparamos com uma inexatido contida no Noticirio acerca
    das eleies que vm de proceder-se; bem como alguns erros mais, o que logo
    corrigimos, como se v nos outros exemplares que foram distribudos ".

Vo agora saber quais so os errados e os corrigidos.

*

*    *

Dizem as crnicas que na antiga repblica de Veneza a ponte dos
  Suspiros servia para despejar ao canal os condenados de certa ordem.

A execuo era de noite, e no meio do silncio; apenas a gua
  agitava-se um pouco, e nada mais.

Pouco mais ou menos  o que acontece aqui no Rio de Janeiro na
  ponte da Guarda-Velha.

A diferena  que, no nosso caso, devemos fazer honra  alta
  imparcialidade dos juzes, que devem obedecer e obedecem a duas coisas, 
  conscincia e  legalidade.

No mais,  o mesmo.

A gua que se agita  o simples murmrio, que a imprensa h de
  repetir.

O silncio  completo.

 um sistema que eu no cesso de preconizar, porque dos males o menor, e a mania
  da palavra est to desenvolvida entre ns que, a no ser a nova reforma, os litigantes gastariam mais tempo consigo que com o bem
    pblico.

*

*    *

Do parlamento  igreja vai a distncia de uma farda a uma
  sobrepeliz.

Entremos na igreja para ouvir a missa do maestro brasileiro
  Henrique Alves de Mesquita.

Mesquita  um grande talento avigorado por slidos estudos.

 uma
  coisa que ningum contesta.

Por isso foi grande a afluncia na igreja de S. Francisco de
  Paula, onde se cantou a missa do autor do Vagabundo.

Todos esto de acordo em que a nova obra de Mesquita  uma obra
  de inspirao e de estudo, e mais um floro para a sua coroa de compositor.

Eu junto os meus aplausos aos de todos.

Mas ponho entre eles o meu conselho.

Aos talentos conscienciosos pode-se aconselhar, porque eles
  sabem ouvir e discutir.

O meu conselho  que o maestro brasileiro estude com mais
  cuidado o gnero sacro e as obras dos velhos mestres alemes e italianos.

A sua missa tem ressaibos de msica profana.

A msica sacra, que  difcil, e para a qual o autor do Vagabundo tem grande propenso, precisa ser mais
  profundamente estudada por ele.

Cabe-lhe o papel invejvel de ser o continuador de Jos
  Mauricio. A arte brasileira atual precisa de um Beethoven: Mesquita pode s-lo,
  e  para que o seja que eu lhe dou estes conselhos de amigo e admirador.

Foram excelentes as vozes que cantaram a missa.

Mas, se nos  dado preferir entre tantas e to belas,
  mencionaremos aquela voz que tantos admiraram nas composies de Francisco
  Manoel, o ilustre mestre. Essa foi perfeitssima..

*

*
  *

Um contraste:

De uma missa a uma comdia, que abismo!

A comdia  a Famlia Benoiton de Sardou, representada no Ginsio.

Escasseia-se-me o espao, pouco direi. De mais... no se trata
  de falar, trata-se de ir ver a pea, que  de primo cartello.

No digo que no tenha imperfeies esta pea; e algumas
  visveis; mas as suas qualidades so tambm visveis, e da vem o sucesso que
  teve.

O dilogo  vivssimo e animado.

As cenas originais.

O esprito a jorros.

Os traos e as pinturas de costumes excelentes.

O interesse  de princpio a fim.

Est montada com luxo e gosto.

Os artistas geralmente vo bem, desde Furtado Coelho, que 
  primoroso, at o menino Monclar, que  a aurora de um belo dia.

Meus parabns ao Ginsio.

--Est pronto o artigo? pergunta-me o paginador.

Leitores,  assim, no somos nada diante do paginador.

At domingo.

Dr. Semana.

NOVIDADES
  DA SEMANA

15 DE MAIO DE 1864.

No serei eu quem diga que a novidade mais importante da semana
  foi a fala do trono.

Muito menos a resposta  fala do trono.

Toda pergunta tem resposta, diz o cdigo da civilidade, e toda
  resposta deve ser dada pelo caso por que se fez a pergunta, diz a gramtica.

E sendo a fala do trono, alm de uma coisa obrigativa, uma
  espcie de Deus te salve ou Dominus tecum 
    cmara temporria, que, como se sabe, tem quase sempre uma oposio, eu no
    quero dizer posio constipada, nada temos a observar sobre esse assunto.

Desta vez, porm, se eu casse na esparrela ( frase parlamentar
  atualmente) de meter o bedelho nessas coisas, muito teria a dizer sobre a
  situao e sobre a cmara que reduzida, por falta de transpirao, a espirrar
  freqentemente, acha somente quem lhe d o Deus a ajude sem encontrar
    quem lhe empreste um leno, que  o de que ela mais precisa.

Os guardanapos parlamentares andam um pouco estragados. Diz o
  rifo que -- quem nunca comeu mel quando come se lambuza. No quero fazer
  aplicao do ditado, mas todo o mundo est vendo que no banquete poltico est
  sentada muita gente com a boca suja.

A novidade da semana ... para no continuar a ter os leitores em
  suspenso, vou dizer-lhes qual foi: foi a representao do novo drama do
  talentoso autor da Histria de uma moa rica,
    o Dr. Pinheiro Guimares.

Intitula-se a nova composio do poeta -- Punio. -- Modelado no gosto da escola romntica, o drama do Dr. Pinheiro Guimares  um
  desses poemas sombrios que comovem profundamente o corao.

H nele muita verdade, porque h muito sentimento. A inspirao
  foi vigorosa e bem sustentada. Os caracteres esto delineados com firmeza.

Felizmente para ns todos, o autor da Punio j no precisa de elogios de animao. Literato
  distinto, recomendado por tantas provas, goza de merecido conceito, e constitui
  hoje uma das mais viosas esperanas da literatura dramtica nacional.

 diante desses esforos dignos e coroados de to feliz resultado, a despeito de
  obstculos e tropeos de todo o gnero, que lamento profundamente a decadncia
  a que chegou o teatro entre ns, a despeito de tantas centenas de contos de
  ris gastos improdutivamente, estupidamente, indignamente.

Compreendo que estes advrbios so um tanto pesados, mas no h
  remdio seno dar ao gato o seu verdadeiro nome.

Se o governo atual, que conta em seu seio nada menos, que dois
  poetas, fizesse alguma coisa em bem da instituio a que me refiro, prestaria
  um bom servio ao pas.

H na cmara representantes ilustres da causa das letras.
  Sabe-se at que um deles trabalha por alcanar uma medida legislativa que
  restabelea o teatro e abra novos horizontes  inteligncia nacional.

Oxal consiga o que deseja!

No prximo nmero falarei sobre a execuo do drama.

Outra novidade importante foi a dissoluo do Conservatrio
  Dramtico Brasileiro... Deus fale n'alma do finado, porque eu, ao menos, nada
  posso dizer dele.

Andam por a em ruge-ruge boatos
  assustadores. Diz-se tanta coisa, que a gente no sabe ao que dar crdito.

Entretanto, no darei fim a esta resenha, sem referir-me s duas
  novidades que de propsito guardei para o fim.

 a primeira o anncio faustoso do prximo casamento das nossas serenssimas
  princesas.

Conquanto se ignore ainda quem sejam os felizes prometidas
  noivos, o jbilo da nao, casado ao jbilo da famlia imperial, e unidas em
  uma s as aspiraes do pas e dos progenitores das interessantes princesas, a
  esta hora fazem todos votos pela felicidade e pelo acerto da escolha.

Se este acontecimento encheu de jbilo a famlia imperial, outro
  veio amargur-la. Falo do falecimento do Sr. Bispo de Crispolis, por cujo
  motivo to dolorosamente impressionados se mostraram o Imperador e sua famlia.
  O ilustre finado recebeu, ao descer  sepultura, todas as homenagens devidas s
  altas honras que o distinguiam.

Dr. Semana.

O
  INCNDIO DO MAL DAS VINHAS

  15 DE MAIO DE 1864.

Eram cinco e meia da tarde em 4 do ms de maio, em que canta o
  cuco no ano da graa corrente.

O sol, dardejando frouxamente, ia caminho do ocaso, incumbindo o
  crepsculo de dar muitas saudades  prxima noite, que j estava a sacudir o
  manto estrelado e de seu uso quando se resolve a ser escura como o azeviche.

Os transeuntes cruzavam-se pelo largo de S. Francisco, uns em
  procura de nibus, de gndolas e de diligncias, outros em direo  maxambomba
  e no poucos em colquio sobre o que haviam feito antes e depois do jantar.

De sbito, partem do campanrio do Santo de Paula sinistras
  badaladas tangidas por mo de solcito bombeiro.

-- Fogo! gritam mil vozes, fazendo horrvel assonncia com o
  rodar de carros, o apregoar do sino, o trotear dos cavalos.

-- Onde ? onde ser? perguntam-se os curiosos, enovelando-se,
  acotovelando-se, abalroando-se pelo Rocio e ruas adjacentes.

Basta nuvem de fumaa, chanfrando-se pelos telhados da rua da
  Carioca, no deixou duvidoso o lugar do incndio.

Acudiu quela paragem povo aos magotes, gente a troos como se
  tivesse de ascender s regies da lua o balo da falecida Mme Blanchard.

-- O incndio  no Mal das Vinhas -- titubeou um latago a dar s de Vila Diogo para o quartel das
  bombas -- pegou no fardo de bisnagas e vai-se comunicando  barrica da
  caparrosa.

-- No Mal das Vinhas ... parabns aos irmos universais dos pases vinhateiros -- disse um garoto de
  Lisboa a um janota do Porto. -- Vamos agora ter chuva de vinho a cntaros! L se
  foi o feroz oidium,
    inimigo mortal da cepa torta.

De feito, era o fogo no quintal do ilustre filho de seu delicioso pai, o filantropo mercador de tudo quanto existe e de outras coisas
  mais.

Apareceram os bombeiros, as autoridades policiais, sem levar
  ponto o nosso amigo capito Pimentel, que na sua f de ofcio de comandante dos
  pedestres j tem registrado... no sei quantos incndios apagados e por apagar.

Dez ou doze golfadas de mangueira bastaram para sepultar nas
  trevas o audacioso, que se preparava a obsequiar o resto do dia com um novo e
  formidvel fiat lux.

Nem houve chamas seno as do bronze pregoeiro.

O monstro devorador, segundo a Gazetilha, s queimou algum ferro, algumas tintas e outros objetos mais,
  difceis de classificar entre os variadssimos da feira do estimvel mercador.

Extinto o incndio, surgiram as verses. A mais verossmil  a
  que passo a transmitir aos leitores.

s cinco horas da tarde, estando o dono do armazm de variedades
  a vender um par de botas, soube, por informaes de um pequeno da casa, que no
  telheiro dos fundos lavrava fogo.

-- Deixe lavrar, menino; estou aviando fregus.

Recebida a importncia das botas, o fleumtico mercador
  dirigiu-se ao quintal do prdio.

Viu, com efeito, fogo, mas estranhando o caso, porque a cozinha
  do estabelecimento  lugar mais fresco de todo ele, evocou os manes de seu delicioso pai, saiu e foi  polcia, com toda a
    gravidade de fabricante de publicados,
      dar parte de que o seu asilo, inviolvel pela Constituio, estava sendo
      violado por um desalmado intruso. Pediu providncia.

Foi deferido, como ficou visto.

O fogo pegou realmente no fardo de bisnagas chegadas de Lisboa
  no paquete ingls ltimo, com o fim de serem grtis distribudas por indivduos de ambos os sexos atacados das supraditas.

Desse fardo comunicou-se ao barril do sulfato de ferro, no ao ferro puro, como por engano desculpvel
  declarou a sempre bem informada Gazetilha.
    Estendeu-se depois aos outros objetos, que no vm referidos no novo mtodo de publicar incndios.

Os prejuzos foram poucos, assegura a preconizada Gazetilha.

Engano de mais.

Foram muitos os prejuzos. Alm dos ratos, baratas, traas,
  cupins, que arderam nas chamas abafadas, l ficaram reduzidas a cinzas 1.500
  bisnagas, quatro arrobas de mata-mal das parras, e, o que  para lamentar-se
  deveras...

"Oh! que no sei de nojo como o conte..."

inutilizou-se com a gua das bombas um enorme publicado sobre a aplicao das bisnagas, com destino
  ao Jornal do Comrcio,

"Que foi s quem perdeu no tal joguinho."

Com esta perda, fatal  sade de tanta matrona e mais fatal
  ainda  literatura, debulho-me em pranto e nem posso noticiar aos leitores que,
  na extino do incndio, funcionaram pela primeira vez, e com xito feliz, as
  seringas propagadoras da espcie bovina, desprezadas injustamente pelos
  criadores de gado vacum.

Perdo, amveis leitores e adorveis leitoras; este
  acontecimento por muito tempo h de conquistar o

Dr. Semana.

NOVIDADES
  DA SEMANA

22 DE MAIO DE 1864.

Sim, senhor. As coisas andam introviscadas de modo que as novidades
  sucedem-se umas s outras sem ningum saber a qual delas deve dar crdito.

Diz-se que o ministrio cai. Diz-se tambm que o ministrio no
  cai.

Diz-se que o futuro organizador do gabinete  o Sr. conselheiro
  Souza Franco.

Diz-se tambm que ser o Sr. Nabuco.

No meio desta balbrdia, Pedro Botelho que se entenda.

O que  certo,  que o ministrio da Semana Ilustrada no cai. E no cai, porque se entende perfeitamente com o seu
  parlamento nacional.

Parlamento nobre, inteligente, numeroso, mas todo muito cordato,
  exigente sem impertinncia, suscetvel sem ser zangado, e, o que  melhor,
  pagante sem recalcitrar.

Tambm o que ele pede  pouco e o que no pede  muito.

O que ele pede  que o faam rir; que lhe deleitem o esprito
  sem ma-lo, que toquem o corao sem comov-lo com emoes profundas.

O que no pede, ento,  maravilhoso. No pede empregos, nem
  misses especiais, nem presidncias, nem estradas de ferro ou de rodagem, nem
  navegao area ou martima, nem diminuio do imposto da assinatura, nem duas
  folhas para um s assinante, enfim, no pede nada.

Na galhofa de bom sal e no gracejo inocente no v, felizmente,
  ataques  sua liberdade,  sua soberania,  sua moralidade.

Por isso nunca houve nem haver jamais melhor acordo entre dois
  poderes independentes.

As nossas esferas esto traadas de modo que so
  concentricamente paralelas. No h meio de se chocarem.

Em compensao, o ministrio da Semana  essencialmente constitucional. No ofende
  por modo algum as garantias do seu pblico, quero dizer, do seu parlamento.

Tranqilizado por esta forma o esprito pblico, e ainda no uso
  de uma faculdade constitucional, tem ele a honra de declarar s casas do seu
  poder legislativo, que os artistas do Ginsio, no desempenho do belo drama do
  Dr. Pinheiro Guimares, bem merecem da ptria, e fizeram jus, no direi a uma
  condecorao que lhes d honras de alferes ou tenente, ou mesmo de cabo de
  esquadra, mas a uma aposentadoria condigna.

Adelaide, Julia, Cllia, Pedro Joaquim, Graa, Vasques, Paiva e
  todos quantos tiveram a subida honra de merecer a confiana do autor da Punio, para interpretarem o seu poema, deram
    provas de estudo, de aplicao, de talento e de boa vontade.

Agora que est feita a proposta do poder executivo, cumpre ao
  pblico, sempre me esquece dizer parlamento, distingui-los e anim-los,
  honrando-os com seus aplausos e concorrendo com o seu bolo para a conservao
  desse teatro, que tantos servios pode prestar  literatura dramtica nacional.

Dr. Semana.

UM
  COMETA QUE NO SE ACHA NO ALMANAQUE

  5 DE JUNHO DE 1864.

 costume
  na cmara dos Srs. deputados grudarem-se umas s outras as emendas que se vo
  oferecendo aos projetos em discusso.

Eu entendo que se devia por isso mesmo deixar o nome de emendas e adaptar-se o de grudadas para aqueles papelinhos que escrevem em
  cima da coxa.

Mas vamos ao caso.

Na discusso do oramento do ministrio da agricultura, comrcio
  e obras pblicas, choveram emendas a rodo.

Na sesso de 30 de Maio o meu amigo Paranagu, que estava
  Paranaguando ou Piauiando na tribuna, pediu  mesa que lhe mandasse uma certa
  emenda; como, porm, todas as emendas estavam grudadas, foi um gosto ver o
  presidente e secretrio a desenrolar e enrolar o papelrio: era uma tira que
  podia estender-se do Po de Acar ao Corcovado! O respeitvel fugiu das
  galerias, pensando que era um Cometa que mostrava a
    sua cauda.

E todas aquelas grudadas tinham
  por fim desgrudar do tesouro pblico no
    sei quantas centenas de contos de ris!

Era, portanto, na verdade, um cometa. Mas, ainda bem que a
  cmara cortou na votao o rabo do bicho.

Dr. Semana.

NOVIDADES
  DA SEMANA

19 DE JUNHO DE 1864.

Uma novidade para a semana! Ningum a fornece? Tanto pior para
  mim e para vs, leitores.

Os jornalistas, e sobretudo os cronistas, so os maiores mgicos
  do meu conhecimento. Iludem ao pblico de maneira singular e impingem-lhes,
  pelo valor de uma assinatura, a mesma novidade que recebem grtis das mos do
  respeitvel pblico.

Se me no dais, no vos dou -- tal  o dstico, que deviam trazer
  todos os jornais noticiosos.

 exatamente
  essa a minha posio neste momento.

No posso dar ao pblico o que ele me no forneceu; nem hei de
  inventar para a Semana novidade que a semana no produziu.

Porque, alm disso, no me hei de ocupar com o sol e com a
  chuva, se bem que as
    modificaes atmosfricas exeram grande influncia nas regies polticas do
    pas, e que a cmara dos deputados esteja servindo de termmetro  populao,
    mas termmetro to infalvel como as folhinhas de Mathieu
    de
    la Drme
    , que,
    quando marcam tempo seguro,  que chove, e quando prenunciam mau tempo,  que o
    sol aparece rubicundo e risonho como... os leitores dispensam a comparao.

Nem me devo ocupar com o programa, que no  programa, que foi
  aprovado, e que no foi aprovado, que  e que no  ao mesmo tempo, porque esse
  tema j esgotou a musa de todos os charadistas polticos da terra.

No  tambm da minha competncia, visto que no sou poeta,
  analisar at que ponto os discursos dos senadores, que atacam e que defendem os
  poetas e os versejadores, so razoveis ou deixam de s-lo.

Nem tampouco apreciar a importncia poltica e americana, que
  podem ter as violncias praticadas pelos espanhis com os peruanos, quando vejo
  que aqueles se contentam com um pouco de guano para
    se desafrontarem de todo.

No falarei tambm dos eclipses sublunares, que se tm dado no
  Teatro Lrico pela sbita apario do clebre nariz cantante, a quem se tem
  aplicado os versos do satrico poeta, cujo nome no figura
  no Almanaque:

Nariz de embono

Com tal sacada,

Que entra na escada

Duas horas primeiro que seu dono.

..............................................

Voc perdoe,

  Nariz nefando,

  Que eu vou cortando,

  E ainda fica nariz em que se assoe!

Nada disto. Estes gracejos no so bonitos, sobretudo quando se
  referem a uma artista que no  de todo feia e que de todo no canta mal.

De um nariz desse tamanho precisava o Sr. Labe, para tomar uma pitada
  na torre do Carmo, desde a corda tesa, que atravessou do boulevard Carceller  cimalha da casa fronteira, e
    onde se diverte aos domingos, passeando sobre ela e por cima do Nigara das mil
    cabeas que o contemplam. No sabemos se esse exerccio ao ar livre tem
    alentado muito ao intrpido funmbulo.

Por falar em espetculo ao ar livre, vem a plo falar de um
  espetculo, representado sob a atmosfera pesada da pobreza. Refiro-me ao
  benefcio, ou antes malefcio, feito no Teatro Lrico, pela eminente atriz
  brasileira a Sra. D. Estela Sezefreda dos Santos.

Por Deus! no  s o amor da arte que
  falece nesta terra,  tambm o amor do prximo!

Uma artista, que tem tradio to gloriosa em nosso palco, e que, no declnio
  da vida, luta quase com a misria, para poder sustentar honradamente a suas
  filhas, tinha direito a esperar maior concorrncia do pblico.

Dr. Semana.

NOVIDADES
  DA SEMANA

26 DE JUNHO DE 1864.

Por uma triste novidade deve comear a Semana; o mundo poltico e a boa sociedade acabam
  de perder um dos seus mais belos ornamentos. O Visconde de Maranguape desceu ao
  tmulo. E, bem que adiantado em anos, conservava, a despeito dos insultos da
  enfermidade que o prostrou, o esprito vivaz e ameno que sempre o distinguiu.

Feia tem corrido a semana. O santo folgazo, que at dos moiros
  da moirana  festejado, teve desta vez festa molhada. O carrancudo sol fechou o
  sobrecenho e, amuado, escondeu-se por detrs das nuvens, que no h mais v-lo.

O corpo legislativo (que  o nosso sol
  poltico) entendeu que devia fazer o mesmo. E, escondido embaixo dos lenis,
  tem deixado desertas ambas as casas do parlamento.

O ruge-ruge do casamento das serenssimas princesas j comeou a
  pr em atividade os habitantes do Rio de Janeiro.

Caiam-se as casas, pintam-se as janelas e cada qual trata de
  aformosear a sua fachada.

Com exceo da mordomia imperial, que j mandou limpar o pao da
  cidade, parece que as outras estaes pblicas no tm pressa.

Grandes novidades artsticas se anunciam.

Acha-se entre ns a rainha da cena portuguesa, Emlia das Neves.

No sabemos ainda quando pretende dar ao pblico fluminense o
  prazer de v-la em cena, mas parece fora de dvida que a eminente artista no
  deixar de brindar-nos com a exibio do seu celebrado talento.

Outra grande novidade  a que se refere  pequena companhia lrica dos meninos florentinos,
  que vo tambm representar algumas peas do seu variado repertrio.

 f que h de ser divertido ver e ouvir as prima-donas de 12
  anos, os bartonos e baixos profundos de 13 anos.

A concorrncia no faltar decerto, e
  conquanto no seja o Provisrio a cena mais apropriada para esse curioso
  espetculo, parece decidido que nesse grande barraco tenha lugar a festa j
  anunciada.

O Alcazar enfeita-se tambm e pretende ter duplas receitas com a
  estria do novo pessoal cantante que lhe chegou. E o pior  que, ao passo que a
  arte vai decaindo, os espetculos dos botequins dramticos vo atraindo a
  concorrncia!

Espera-se tambm proximamente a novidade de uma companhia,
  contratada em Lisboa, para vir regenerar o teatro nacional. Deus a traga, para
  vermos at onde pode chegar o progresso desta terra.

Andam desde j num sarilho as comadres influentes nas freguesias
  da cidade, aplainando o terreno para as eleies de vereadores, que tero lugar
  em setembro.

Os fiscais, quero dizer, os Ilmos. Srs. fiscais, andam num
  corrupio.

Reunies sobre reunies, discursos, promessas, chegou-lhes o seu
  S. Martinho. Agora  que  mostrar influncia.

Como tudo isto  divertido! E edificante! E til aos interesses
  deste pobre municpio neutro, que est condenado a ficar eternamente sujeito s
  variaes do tempo e das cmaras!

Ferve agora o patriotismo. Cada qual tem um projeto de embelezamento
  municipal.

A propsito de beleza municipal, cumpre-nos participar ao
  pblico que para os lados do Passeio Pblico houve h dias uma revoluo e um
  alvoroo muito srio.

Foi o caso, que rebentaram os canos da City Improvements limited e, ao contrrio do dstico, no houve
  limite na porcaria e na fedentina, que empestou o bairro.

Olhem que custam caros todos os melhoramentos progressistas
  desta terra, mas so muito bons!

Dr. Semana.

FIM
