Poesia, Americanas, 1875

Americanas

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol.
II,

Nova Aguilar, Rio de
Janeiro, 1994.

Publicado originalmente
no Rio de Janeiro, por B.-L. Garnier, em 1875.

NDICE

POTIRA

NINI

A CRIST-NOVA

JOS BONIFCIO

A VISO DE JACICA

A GONALVES DIAS

OS SEMEADORES

A FLOR DO EMBIRUU

LUA NOVA

SABINA

LTIMA JORNADA

OS ORIZES

POEMA
PRESENTE Na primeira edio

CANTIGA DO
ROSTO BRANCO

POTIRA [1]

Os Tamoios, entre
outras presas que fizeram, levaram esta ndia, a qual pretendeu o capito da
empresa violar; resistiu valorosamente dizendo em lngua braslica: Eu sou
crist e casada; no hei de fazer traio a Deus e a meu marido; bem podes matar-me e fazer de mim o que quiseres. Deu-se
por afrontado o brbaro, e em vingana lhe acabou a vida com grande crueldade.

VASC., CR. DA
COMPANHIA DE JESUS, LIV. 3

I

Moa crist
das solides antigas,

Em que
urea folha reviveu teu nome?

Nem o eco das matas
seculares,

Nem a voz das sonoras
cachoeiras,

O transmitiu aos
sculos futuros.

Assim da tarde estiva
s auras frouxas

Tnue fumo do colmo no
ar se perde;

Nem de outra sorte em
moribundos lbios

A humana voz expira. O
horror e o sangue

Da miseranda cena em
que, de envolta

Coos longos,
magoadssimos suspiros,

Crist Lucrcia, abriu
tua alma o vo

Para subir s regies
celestes,

Mal deixada memria
aos homens lembra.

Isso apenas; no mais;
teu nome obscuro,

Nem tua campa o
brasileiro os sabe.

II

J da frvida luta os
ais e os gritos

Extintos eram. Nos
baixis ligeiros

Os tamoios inclumes
embarcam;

Ferem coos remos as
serenas ondas

At surgirem na remota
aldeia.

Atrs ficava, lutuosa
e triste,

A nascente cidade
brasileira, [2]

Do inopinado assalto
espavorida,

Ao cu mandando em
coro inteis vozes.

Vinha j perto
rareando a noite,

Alva aurora, que 
vida acorda as selvas,

Quando a aldeia surgiu
aos olhos torvos

Da expedio noturna.
 praia saltam

Os vencedores em
tropel; transportam

s cabanas despojos e
vencidos,

E, da viglia
fatigados, buscam

Na curva leve rede
amigo sono,

Exceto o chefe. Oh!
esse no dormira

Longas noites, se a
troco da vitria

Precisas fossem. Traz
consigo o prmio,

O desejado prmio.
Desmaiada

Conduz nos braos trmulos a moa

Que renegou Tup, e as rudes crenas [3]

Lavou nas guas do
batismo santo.

Na rede ornada de
amarelas penas

Brandamente a depe.
Leve tecido

Da cativa gentil as
formas cobre;

Veste-as de mais a
sombra do crepsculo,

Sombra que a tbia luz
da alva nascente

De todo no rompeu.
Inquieto sangue

Nas veias ferve do
ndio. Os olhos luzem

De concentrada raiva
triunfante.

Amor talvez lhes lana
um leve toque

De ternura, ou j
sfrego desejo;

Amor, como ele,
asprrimo e selvagem,

Que outro no sente o
heri.

III

Heri lhe chamam

Quantos o ho visto no
fervor da guerra

Medo e morte espalhar
entre os contrrios

E avantajar-se nos
certeiros golpes

Aos mais fortes da
tribo. O arco e a flecha

Desde a infncia os
meneia ousado e afoito;

Cedo aprendeu nas
solitrias brenhas

A pleitear s feras o
caminho.

A fora ope  fora,
a astcia  astcia,

Qual se da ona e da
serpente houvera

Colhido as armas. Traz
ao colo os dentes

Dos contrrios
vencidos. Nem dos anos

O nmero supera o das
vitrias;

Tem no espaoso rosto
a flor da vida,

A juventude, e goza
entre os mais belos

De real primazia. A
cinta e a fronte

Azuis, vermelhas
plumas alardeam,

Ingnuas galas do
gentio inculto.

IV

Da cativa gentil
cerrados olhos

No se entreabrem 
luz. Morta parece.

Uma s contrao lhe
no perturba

A paz serena do mimoso
rosto.

Junto dela, cruzados
sobre o peito

Os braos, Anaj
contempla e espera;

Sfrego espera,
enquanto idias negras

Esto a revoar-lhe em
torno e a encher-lhe

A mente de projetos
tenebrosos.

Tal no cimo do velho
Corcovado

Prxima tempestade
engloba as nuvens.

Sbito ao seio trgido
e macio

Ansiosas mos estende;
inda palpita

O corao, com
desusada fora,

Como se a vida toda
ali buscasse

Refgio certo e
ltimo. Impetuoso

O vestido cristo lhe
despedaa,

E  luz j viva da
manh recente

Contempla as nuas
formas. Era acaso

A sncope chegada ao
termo prprio,

Ou, no pejo ofendida,
s mos estranhas

A desmaiada moa
despertara.

Potira acorda, os
olhos lana em torno,

Fita, v, compreende,
e inquieta busca

Fugir do vencedor s
mos e ao crime...

Msera! ope-se-lhe o
irritado gesto

Do asprrimo
guerreiro; um ai lhe sobe

Angustioso e triste
aos lbios trmulos,

Sobe, murmura e
sufocado expira.

Na rede envolve o
corpo, e, desviando

Do terrvel tamoio os
lindos olhos,

Entrecortada prece aos
cus envia,

E as faces banha de
serenas lgrimas.

V

Longo tempo
correra. Amplo silncio

Reinou entre ambos. Do
tamoio a fronte

Pouco a pouco despira
o torvo aspecto.

Ao trabalhado
esprito, revolto

De mil sinistros
pensamentos, volve

Benigna calma. Tal de
um rio engrossa

O volume extensssimo
das guas

Que vo enchendo de
pavor os ecos,

Vencendo no arrudo o
vento e o raio,

E pouco a pouco
atenuando as vozes,

Adelgaando as ondas,
tornam mansas

Ao primitivo leito.
Ei-lo se inclina,

Para tomar nos braos
a formosa

Por cujo amor
incendiara a aldeia

Daquelas gentes
plidas de Europa.

Sente-lhe a moa as
mos, e erguendo o rosto,

O rosto inda de
lgrimas molhado,

Do corao estas
palavras solta:

 L entre os meus,
suave e amiga morte,

Ah! porque me no
deste? Houvera ao menos

Quem escutasse de meus
lbios frios

A prece derradeira; e
a santa bno

Levaria minha alma aos
ps do Eterno...

No, no te peo a
vida;  tua, extingue-a;

Um s alvio imploro.
No receies

Embeber no meu sangue
a ervada seta;

Mata-me, sim; mas
leva-me onde eu possa

Ter em sagrado leito o
ltimo sono!

Disse, e fitando no
ndio vidos olhos,

Esperou. Anaj sacode
a fronte,

Como se lhe pesara
idia triste;

Crava os olhos no
cho; lentas lhe saem

Estas vozes do peito:

Oh! nunca os padres

Pisado houvessem estas
plagas virgens!

Nunca de um deus
estranho as leis ignotas

Viessem perturbar as
tribos, como

Perturba o vento as
guas! Rosto a rosto

Os guerreiros pelejam;
matam, morrem.

Ante  o fulgor
das armas inimigas

No descora o tamoio.
Assaz lhe pulsa

Valor nativo e raro em
peito livre.

Armas, deu-lhas Tup
novas e eternas

Nestas matas
vastssimas. De sangue

Estranhos rios ho de,
ao mar correndo,

Tristes novas levar 
ptria deles,

Primeiro que o tamoio
a frente incline

Aos inimigos peitos.
Outra fora,

Outra e maior nos move
a guerra crua;

So eles, so os
padres. Esses mostram

Cheia de riso a boca e
o mel nas vozes,

Sereno o rosto e as
brancas mos inermes;

Ordens no trazem de
cacique alheio,

Tudo nos levam, tudo.
Uma por uma

As filhas de Tup
correm trs eles,

Com elas os
guerreiros, e com todos

A nossa antiga f. Vem
perto o dia

Em que, na imensido
destes desertos,

H de ao frio luar das
longas noites

O paj suspirar
sozinho e triste

Sem povo nem Tup!

VI

Silenciosas

Lgrimas lhe espremeu
dos olhos negros

Esta lembrana de
futuros males.

Escuta! diz Potira.
O ndio estende

Imperioso as mos e
assim prossegue:

Tambm com eles foste,
e foi contigo

Da minha vida a flor!
Teu pai mandara,

E com ele mandou Tup,
que eu fosse

Teu esposo; vedou-mo a
voz dos padres,

Que me perdeu,
levando-te consigo.

No morri; vivi s
para esta afronta;

Vivi para esta
inslita tristeza

De maldizer teu nome e
as graas tuas,

Chorar-te a vida e
desejar-te a morte.

Ai! nos rudes combates
em que a tribo

Rega de sangue o cho
da virgem terra

Ou tinge a flor do
mar, nunca a meu lado

Teu nobre vulto
esteve. A aldeia toda,

Mais que o teu corao,
ficou deserta.

Duas vezes, mimosas
rebentaram

Do lacrimoso cajueiro
as flores,

Desde o dia funesto em
que deixaste

A cabana paterna. O
extremo lume

Expirou de teu pai nos
olhos tristes;

Piedosa chama consumiu
seus restos,

E a aldeia toda o
lastimou com prantos.

No de todo se foi da
nossa vida;

Parte ficou para
sentir teus males.

Antes que o ltimo sol
 melindrosa

Flor do maracuj
cerrasse as folhas

Um sonho tive.
Merencrio vulto,

Triste
como uma fronte de vencido,

Cor da lua os cabelos
venerandos,

O vulto de teu pai :
Guerreiro (disse),

Corre  vizinha
habitao dos brancos,

Vai, arranca Potira 
lei funesta

Dos plidos pajs;
Tup to ordena;

Nos braos traze a
fugitiva cora;

Vincula o teu destino
ao dela;  tua.

Impossvel! Que vale
um vago sonho?

Sou esposa e crist.
mpio, respeita

O amor que Deus
protege e santifica;

Mata-me; a minha vida
te pertence;

Ou, se te pesa
derramar o sangue

Daquela a quem amaste,
e por quem foste

Lanar entre os
cristos a dor e o susto,

Faze-me escrava;
servirei contente

Enquanto a vida
alumiar meus olhos.

Toma, entrego-te o
sangue e a liberdade;

Ordena ou fere. Tua
esposa, nunca!

Calou-se, e reclinada
sobre a rede,

Potira murmurava
ignota prece,

Olhos fitos no prximo
arvoredo,

Olhos no ermos de
profunda mgoa.

VII

 Cristo! em que alma
penetrou teu nome

Que lhe no desse o
blsamo da vida?

Pelo vento dos sculos
levado,

Vidente e cego, o
mximo dos seres,

Que fora do homem
nesta escassa terra,

Se ao mistrio da vida
lhe no desses,

 Cristo! a eterna
chave da esperana?

Filosofia estica,
rdua virtude,

Criao de homem, tudo
passa e expira.

Tu s, filha de Deus,
palavra amiga,

Tu, suavssima voz da
eternidade,

Tu perduras, tu vales,
tu confortas.

Neste sonho iriado de
outros sonhos,

Vrios como as feies
da natureza,

Nesta confusa agitao
da vida,

Que alma transpe a
derradeira idade

Farta de algumas
passageiras glrias?

Torvo  o ar do
sepulcro; ali no viam

Essas cansadas rosas
da existncia

Que s vezes tantas
lgrimas nos custam,

E tantas mais antes do
ocaso expiram.

Flor do Evangelho,
nncia de alvos dias,

Esperana crist, no
te h murchado

O vento rido e seco;
s tu viosa

Quando as da terra
lnguidas inclinam

O seio, e a vida
lentamente exalam.

Esta a consolao ltima
e doce

Da esposa indiana foi.
Cativa ou morta,

Antevia a celeste
recompensa

Que aos humildes
reserva a mo do Eterno.

Naquele rude corao
das brenhas

A semente evanglica
brotara.

VIII

Das duas condies
deu-lhe o guerreiro

A pior,  f-la escrava;
e ei-la aparece

Da sua aldeia aos
olhos espantados

Qual fora em dias de
melhor ventura.

Despida vem das roupas
que lhe h posto

Sobre as polidas
formas uso estranho,

No sabido jamais
daqueles povos

Que a natureza ingnua
doutrinara.

Vence na gentileza s
mais da tribo,

E tem de sobra um
sentimento novo,

Pudor de esposa e de
crist,  realce

Que ao ndio acende a
natural volpia.

Simulada alegria lhe
descerra

Os lbios; riso 
flor, escasso e dbio,

Que mal lhe encobre as
vergonhosas mgoas.

 voz do seu senhor
acorre humilde;

No a assusta o labor;
nem dos perigos

Conhece os medos. Nas
ruidosas festas,

Quando ferve o cauim, e o ar atroa [4]

Pocema de alegria ou
de combate,

Como que se lhe fecha
a flor do rosto.

J lhe descai ento no
seio opresso

A graciosa fronte; os
olhos fecha,

E ao cu voltando o
pensamento puro,

Menos por si, que
pelos outros pede.

Nem s o ardor da f
lhe abrasa o peito;

Lacera-lho tambm agra
saudade;

Chora a separao do
amado esposo,

Que, ou cedo a
esquece, ou solitrio geme.

Se, alguma vez,
fugindo a estranhos olhos,

No j cruis, mas
cobiosos dela,

Entra desatinada o
bosque antigo,

E a dor expande em
lbregos soluos,

Coo doce nome acorda
ao longe os ecos,

Farta de amor e
prdiga de vida,

Ouve-as a selva, e no
lhe entende as mgoas.

Outras vezes pisando a
ruiva areia

Das praias, ou
galgando a penedia

Cujos ps orla o mar
de nvea espuma,

As ondas murmurantes
interroga;

Conta ao vento da
noite as dores suas;

Mas... fiis ao
destino e  lei que as rege,

As preguiosas ondas
vo caminho,

Crespas do vento que
sussurra e passa.

IX

Quando, ao sol da
manh, partem s vezes,

Com seus arcos, os
destros caadores,

E alguns da rija
estaca desatando

Os ns de embira s
rpidas igaras,

 pesca vo pelas
ribeiras prximas,

Das esposas, das mes
que os lares velam,

Grata alegria os
coraes inunda,

Menos o dela, que
suspira e geme,

E no aguarda doce
esposo ou filho.

Triste os v na
partida e no regresso,

E nessa melanclica
postura,

Semelha a accia
langue e esmorecida,

Que j de orvalho ou
sol no pede os beijos.

As outras...  Raro em
lbios de felizes

Alheias mgoas travam.
No se pejam

De seus olhos azuis e
alegres penas

Os sas sobre as
rvores pousados,

Se ao perto voa na
campina verde

De anuns lutuoso
bando; nem os trilos

Das andorinhas
interrompe a nota

Que a juriti suspira.
 As outras folgam

Pelo arraial
dispersas; vo-se  terra

Arrancar as razes
nutritivas,

E fazem os preparos do
banquete

A que ho de vir mais
tarde os destemidos

Senhores do arco,
alegres vencedores

De quanto vive na gua
e na floresta.

Da cativa nenhuma
inquire as mgoas.

Contudo, algumas
vezes, curiosas

Virgens lhe dizem,
apiedando o gesto:

 Pois que  taba
voltaste, em que teus olhos

Primeiro viram luz,
que mgoa funda

Lhes destila to longo
e amargo pranto,

Amargo mais do que
esse que no busca

Recatado silncio? 
E s doces vozes

A crist desterrada
assim responde:

 Potira  como
aquela flor que chora

Lgrimas de alvo
leite, se do galho

Mo cruel a cortou.
Oh! no permita

O cu que mpia
fortuna vos separe

Daquele que
escolherdes. Dor  essa

Maior que um pobre
corao de esposa.

Esperanas...
Deixei-as nessas guas

Que me trouxeram,
cmplices do crime,

 taba de Tup, no
alumiada

Da palavra celeste.
Algumas vezes,

Raras, alveja em minha
noite escura

No sei que tbia
aurora, e penso: Acaso

O sol que vem me
guarda um raio amigo,

Que h de acender
nestes cansados olhos

Ventura que j foi. As
asas colhe

Guanumbi, e o aguado
bico embebe

No tronco, onde
repousa adormecido

At que volte uma
estao de flores. [5]

Ventura imita o
guanumbi dos campos:

Acordar coas flores
de outros dias.

Doce iluso que rpido
se escoa,

Como o pingo de
orvalho mal fechado

Numa folha que o vento
agita e entorna.

E as virgens dizem,
apiedando o gesto:

 Potira  como
aquela flor que chora

Lgrimas de alvo
leite, se do galho

Mo cruel a cortou!

X

Era chegado

O fatal prazo, o
desenlace triste.

Tudo morre,  a
tristeza como o gozo;

Rosas de amor ou
lrios de saudade,

Tarde ou cedo os
esfolha a mo do tempo.

Costeando as longas
praias, ou transpondo

Extensos vales e
montanhas, correm

Mensageiros que s
tabas mais vizinhas

Vo convidar  festa
as gentes todas.

Era a festa da morte.
ndio guerreiro,

Trs luas h cativo, o
instante aguarda

Em que s mos de
inimigos vencedores,

Caia expirante, e os
vnculos rompendo

Da vida, a alma
remonte alm dos Andes.

Corre de boca em boca
e de eco em eco

A alegre nova. Vem descendo
os montes,

Ou abicando s
povoadas praias

Gente da raa ilustre.
A onda imensa

Pelo arraial se
estende pressurosa.

De quantas cores
natureza frtil

Tinge as prprias
feies, copiam eles

Engraadas, vistosas
louanias.

Vrios na idade so,
vrios no aspecto,

Todos iguais e irmos
no herdado brio.

Dado o amplexo de
amigo, acompanhado

De suspiros e psames
sinceros

Pelas fadigas da
viagem longa,

Rompem ruidosas
danas. Ao tamoio

Deu o Ibaque os
segredos da poesia;

Cantos festivos,
moduladas vozes,

Enchem os ares,
celebrando a festa

Do sacrifcio prximo.
Ah! no cubra

Vu de nojo ou
tristeza o rosto aos filhos

Destes polidos tempos!
Rudes eram

Aqueles homens de
speros costumes,

Que ante o sangue de
irmos folgavam livres,

E ns, soberbos filhos
de outra idade,

Que a voz falamos da
razo severa

E na luz nos banhamos
do Calvrio,

Que somos ns mais que
eles? Raa triste

De Cains, raa
eterna...

XI

Os cantos cessam.

Calou-se o marac. As
roucas vozes

Dos frvidos
guerreiros j reclamam

O brutal sacrifcio.
s mos das servas

A taa do cauim
passara exausta.

Inquieto aguarda o
prisioneiro a morte.

Da nao guaians nos
rudes campos

Nasceu. Nos campos da
saudosa ptria

Industriosa mo no
sabe ainda

Alevantar as tabas.
Cova funda

Da terra, me comum, no seio aberta, [6]

Os acolhe e protege. O
cho lhes forra

A pele do tapir;
contnua chama

Lhes supre a luz do
sol.  uso antigo

Do guaians que chega
a extrema idade,

Ou de mortal doena
acometido,

No expirar aos olhos
de outros homens;

Vivo o guardam no bojo
da igaaba,

E  fria terra o do,
como se fora

Pasto melhor (melhor!)
aos frios vermes.

Do almo, doce licor
que extrai das flores

Me do mel, iramaia,
larga cpia

Pelos robustos membros
lhe coaram

Seis ancis da tribo.
Rubras penas

Na vasta fronte e nos
nervosos braos

Garridamente o
enfeitam. Longa e forte

A muurana os rins lhe
cinge e aperta.

Entra na praa o
fnebre cortejo.

Olhar tranqilo, inda
que fero, espalha

O indomado cativo. Em
p, defronte,

Grave, silencioso, ao
sol mostrando

De feias cores e
vistosas plumas

Singular harmonia,
aguarda a vtima

O executor. Nas mos
lhe pende a enorme

Tagapema enfeitada,
arma certeira,

Arma triunfal de morte
e de extermnio.

Medem-se rosto a rosto
os dois contrrios

Cum sorriso feroz.
Confusas vozes

Enchem sbito o
espao. No lhe  dado

Ao vencido guerreiro
haver a morte

Silenciosa e triste em
que se passa

Da curva rede  fria
sepultura.

Meigas aves que vo de
um clima a outro

Abrem placidamente as
asas leves,

No tu, guerreiro, que
encaraste a morte,

Tu combate! Vencido e
vencedores

Derradeiros escrnios
se arremessam;

Gritos, injrias,
convulses de raiva,

Vivo clamor acorda os
longos ecos

Das penedias prximas.
A clava

Do executor girou no
ar trs vezes

E de leve caiu na
grossa espdua

Do arquejante cativo.
J na boca

Que o desprezo e o
furor num riso entreabrem,

Orla de espuma alveja.
Avana, corre,

Estaca... No lhe d
mais amplo espao

A muurana, cujas
pontas tiram

Dois mancebos
robustos. Nas cavernas

Do longo peito lhe
murmura o dio,

Surdo, como o rumor da
terra inquieta,

Pejada de vulces. Os
lbios morde,

E, como derradeira
injria,  face

Do executor lhe cospe
espuma e sangue.

No vibra o arco mais
veloz o tiro,

Nem mais segura no
aterrado cervo

Feroz sucuriba os ns
enrosca,

Do que a pesada,
enorme tagapema

A cabea de um golpe
lhe esmigalha.

Cai fulminada a vtima
na terra,

E alegre o povo
longamente aplaude.

XII

Na voz universal
perdeu-se um grito

De piedade e terror:
to fundo entrara

Naquela alma roubada 
noite escura

Raio de sol cristo!
Potira foge,

Pelos bosques atnita
se entranha

E pra  margem de um
pequeno rio;

Pousa na relva os
trmulos joelhos

E nas mimosas mos
esconde o rosto.

No de lgrimas era
aquele stio

Ou s de doces
lgrimas choradas

De olhos que amor
venceu:  macia relva,

Leito de sesta a
amores fugitivos.

Da verde, rara abbada
de folhas

Tpida e doce a luz
coava a frouxo

Do sol, que, alm das
rvores, tranqilo,

Metade da jornada ia
transpondo.

Longe era ainda a hora
melanclica

Em que a jurema cerra
a mida folha,

E o lume azul o
pirilampo acende.

De p, a um velho
tronco descoroado

Da copada ramagem,
resto apenas,

Vestgio do tufo, a
indiana moa

Languidamente encosta
o esbelto corpo.

Neste ameno recesso
tudo  triste,

Porque  alegre tudo.
No mui longe

Um desfolhado ip
conserva e guarda

Flores que lhe ficaram
de outro estio,

Como esperana de
folhagem nova,

Flores que a
desventura lhe h negado,

A ela, alma esquecida
nesta terra,

Que nada espera da
estao vindoura.

Olha, e de inveja o
corao lhe estala.

Pelo tronco das
rvores se enroscam

Parasitas, esposas do
arvoredo,

Mais fiis no, mais
venturosas que ela.

Morrer? Descanso fora
s mgoas suas,

Mais que descanso,
perdurvel gozo,

Que a nossa eterna
ptria aos infelizes

Deste desterro guarda
alvas capelas

De no murchandas e
cheirosas flores.

Tal lhe falava no
ntimo do peito

Desespero cruel.
Alguns instantes

Pela cansada mente lhe
vagaram

De voluntria,
abreviada morte,

Lutuosas idias. Mal
compreende

Esses desmaios da
criatura humana

Quem no sentiu no
corao rasgado

Abatimento e enojo;
ou, mais do que isto,

Esse contraste imenso
e irreparvel

Do amor interno e a
solido da vida.

Rpido espao foi.
Pronto lhe volve

Doce resignao,
crist virtude,

Que desafia e que
assoberba os males.

As dbeis mos
levanta. J dos lbios

Solta nas asas de
orao singela

Lstimas suas... Na
folhagem seca

Ouve de cautos ps
rumor sumido,

Volve a cabea...

XIII

Trmulo, calado,

Anaj crava nela os
olhos turvos

Dos vapores da festa.
As mos inermes

Lhe pendem; mas o
peito   msera!  esse,

Esse de mal contido
amor transborda.

Longo instante passou.
Alfim: Deixaste

A festa nossa (o
brbaro murmura);

Misteriosa vieste. Dos
guerreiros

Nenhum te viu; mas eu
senti teus passos,

E vim contigo ao ermo.
Ave mesquinha,

Intil foges; gavio
te espreita,[7]

Minha te fez Tup. Em
p, sorrindo,

Escutava Potira a voz
severa

De Anaj. Breve espao
abria entre ambos

Alcatifado cho. A
fatal hora

Chegara ao fim? No o
perscruta a moa;

Tudo aceita das mos
do seu destino,

Tudo, exceto... No
prximo arvoredo

Ouve de uma ave o pio
melanclico;

Era a voz de seu pai?
a voz do esposo?

De ambos talvez. No
nimo da escrava

Restos havia dessa
crena antiga

Antiga e sempre nova:
o peito humano

Raro de obscuros elos
se liberta.

XIV

 Nasceste para ser
senhora e dona:

Anaj no te veda a
liberdade;

Quebra tu mesma os ns
do cativeiro.

Faze-te esposa. Vem
coroar meus dias;

Vem, tudo esqueo. A
fronte do guerreiro,

Adornada por ti, ser
mais nobre;

Mais forte o brao em
que pousar teu rosto.

Sou menos belo que
esse esposo ausente?

Rudes feies compensa
amor sobejo.

Vem; ver-me-s
companheira nos combates,

E, se inimiga frecha
entrar meu seio,

Morrerei a teus ps.
Tens medo aos padres?

Outro destino escolhe.
Cauteloso,

Tece o japu nos
elevados ramos

Das elevadas rvores o
ninho,

Onde o inimigo lhe no
roube a prole.

Ninho h na serra ao
nosso amor propcio;

Viveremos ali. Troveje
em baixo

A inbia convidando 
guerra os povos;

Leva de arcos
transforme estas aldeias

Em campos de combate,
 ou j dispersas

As fugitivas tribos
vo buscando

Longes
sertes para chorar seus males,

Viveremos ali. Talvez,
um dia,

Quando eu passar 
misteriosa estncia

Das delcias eternas,
me pergunte

Meu velho pai:  Teu
arco de guerreiro

Em que deserta praia o
abandonaste?

Salvar-me- teu amor
do eterno pejo.

XV

Doce era a voz e
triste. Rasos dgua

Os olhos. Foi desmaio
de tristeza

Que o gesto dissipou
da esquiva moa.

Volve ao Tamoio
vingativa idia.

 Minha (diz ele) ou
morres! Estremece

Potira, como quando a
brisa passa

Ao de leve na folha da
palmeira,

E logo fria ao brbaro
responde:

 Jaz esquecido em
nossas velhas tabas

O respeito da esposa?
Acaso  digna

Do sangue do Tamoio
esta ameaa?

Que desvalia aos olhos
teus me coube,

Se a outro me ligaram
natureza,

Religio, destino? A
liberdade

Nas tuas mos depus;
com ela a vida.

 tudo, quase tudo.
Honra de esposa,

Oh! essa deves
respeit-la! Vai-te!

Ceva teu dio nas sangrentas
carnes

Do prostrado cativo.
Aqui chorando,

Na solido destes
bosques mal fechados,

s maviosas brisas
meus suspiros

Entregarei;
lev-los-o nas asas

L onde geme solitrio
o esposo.

Vai-te!

E as mimosas mos colhendo ao rosto,

Alou a Deus o
pensamento amante,

Como a centelha viva
que a fogueira

Extinta aos ares sobe.
Imvel, muda,

Longo tempo ficou.
Diante dela,

Como ela imvel, o
tamoio estava.

Amor, dio, cime,
orgulho, pena,

Opostos sentimentos se
combatem

No atribulado peito.
Generoso

Era, mas no domado
amor lhe dava

Inspirao de crimes.
No mais pronto

Cai sobre a triste
cora fugitiva

Jaguar de longa fome
esporeado,

Do que ele as mos
lanou ao colo e  fronte

Da msera Potira. Ai!
no, no diga

A minha voz o
lamentoso instante

Em que ela, ao seu
algoz volvendo ansiosa

Turvos olhos:
Perdo-te! murmura,

Os lbios cerra e
imaculada expira!

XVI

Estro maior teu nome
obscuro cante,

Moa crist das
solides antigas,

E eterno o cinja de
virentes flores,

Que as mereces. De no
sabido bardo

Estes gemidos so. Lnguidas brisas

No taquaral  noite sussurrando,

Ou enrugando o mole
dorso s vagas,

No tem a voz com que
domina os ecos

Despenhada cachoeira.
So, contudo,

Mas que dbeis e
tristes, no concerto

Da orquestra universal
cabidas notas.

Alveja a nebulosa
entre as estrelas,

E abre ao p do rosal
a flor da murta.

NINI

(HISTRIA GUAICURU)

Desde ento cobriu-se
Nanine de uma mortal

melancolia, sendo seus
olhos sempre chorosos. Assim

se passaram trs meses,
quando um dia, estando

deitada na sua rstica
cama, lhe deram a notcia

que seu desleal marido
se tinha casado com uma

rapariga de menor
esfera. Senta-se ento Nanine

na cama, como
arrebatada, chama para junto de

si um pequeno ndio que
era seu cativo, e diz-lhe

na presena de vrios
antecris: s meu cativo;

dou-te a liberdade, com
a condio de que te

chamars toda a vida
Panenioxe.

F. RODRIGUES PRADO, Hist.
dos ndios Cavaleiros.

...che piange

Vedova sola.

DANTE

I

Contam-se histrias antigas

  Pelas terras de
alm-mar,

De moas e de
princesas,

  Que amor fazia
matar.

Mas amor que entranha
nalma

  E a vida so
acabar,

Amor  de todo o
clima,

  Bem como a luz,
como o ar.

Morrem dele nas
florestas

  Aonde habita o
jaguar,

Nas margens dos
grandes rios

  Que levam
troncos ao mar.

Agora direi um caso

  De muito
penalizar,

To triste como os que
contam

  Pelas terras de
alm-mar.

II

Cabana que esteira
cobre

  De junco
tranado a mo,

Que agitao vai por
ela!

  Que ledas horas
lhe vo!

Panenioxe  guerreiro [8]

  Da velha, dura
nao.

Caiavaba h j sentido

  A sua lana e
faco. [9]

Vem de longe, chega 
porta

  Do afamado
capito;

Deixa a lana e o
cavalo,

  Entra com seu
corao.

A noiva que ele lhe
guarda

  Moa  de nobre
feio,

Airosa como gil cora

  Que corre pelo
serto.

Amores eram nascidos

  Naquela tenra
estao

Em que a flor que h
de ser flor

  Inda se fecha
em boto.

Muitos agora lhe
querem,

  E muitos que
fortes so;

Nini ao melhor deles [10]

  No dera o seu
corao.

Cas-los agora, 
tempo;

  Cas-los, nobre
ancio!

Limpo sangue tem o noivo,

  Que  filho de
capito. [11]

III

 Traze a minha
lana, escravo,

  Que tanto peito
abateu;

Traze aqui o meu
cavalo

  Que largos campos
correu.

 Lana tens e tens
cavalo

  Que meu velho
pai te deu;

Mas aonde te vais
agora

  Onde vais,
esposo meu?

 Vou-me  caa,
junto  cova

  Onde a ona se
meteu...

 Montada no meu
cavalo

  Vou contigo,
esposo meu.

 Vou-me s ribas do
Escopil,

  Que a minha
lana varreu...

 Irei pelejar na
guerra,

  A teu lado,
esposo meu.

 Fica-te a na
cabana

  Onde o meu amor
nasceu.

 Melhor no haver
nascido

  Se j de todo
morreu.

E uma lgrima,  a
primeira

  De muitas que
ela verteu, 

Pela face cobreada

  Lenta, lenta
lhe correu.

Enxug-la, no a
enxuga

  O esposo que j
perdeu,

Que ele no cho fita
os olhos,

  Como que a voz
lhe morreu.

Traz o escravo o seu
cavalo

  Que o velho
sogro lhe deu;

Traz-lhe mais a sua
lana

  Que tanto peito
abateu.

Ento, recobrando a
alma,

  Que o remorso
esmoreceu,

Com esta dura palavra

   esposa lhe
respondeu:

 A bocaiva trs vezes [12]

  No tronco
amadureceu,

Desde o dia em que o
guerreiro

  Sua esposa
recebeu.

Trs vezes! Amor
sobejo

  Nossa vida toda
encheu.

Fastio me entrou no
seio,

  Fastio que me
perdeu.

E pulando no cavalo,

  Sumiu-se...
desapareceu...

Pobre moa sem marido,

  Chora o amor
que lhe morreu!

IV

Leva o Paraguai as
guas,

  Leva-as no
mesmo correr,

E as aves descem ao
campo

  Como usavam de
descer.

Tenras flores, que
outro tempo

  Costumavam de
nascer,

Nascem; vivem de igual
vida;

  Morrem do mesmo
morrer.

Nini, pobre viva,

  Viva sem bem o
ser,

Tanta lgrima chorada

  J te no pode
valer.

Olhos que amor
desmaiara

  De um desmaiar
que  viver,

O choro empana-os
agora,

  Como que vo
fenecer.

Corpo que fora robusto

  No seu cavalo a
correr,

De contnua dor
quebrado

  Mal se pode j
suster.

Colar de prata no
usa,

  Como usava de
trazer;

Pulseiras de finas
contas

  Todas as veio a
romper. [13]

Que ela, se nada h
mudado

  Daquele eterno
viver,

Com que a natureza
sabe

  Renascer,
permanecer,

Toda  outra; a alma
lhe morre,

  Mas de um
contnuo morrer,

E no h mgoa mais
triste

  De quantas
podem doer.

Os que outrora a
desejavam,

  Antes dela mal
haver,

Vendo que chora e
padece,

  Rindo se pem a
dizer:

 Remador vai na
canoa,

  Canoa vai a
descer...

Piranha espiou do
fundo

  Piranha, que o
vai comer.

Ningum se fie da
brasa

  Que os olhos
vem arder,

Sereno que cai de
noite

  H de faz-la
morrer.

Panenioxe, Panenioxe,

  No lhe sabias
querer.

Quem te pagara esse
golpe

  Que lhe vieste
fazer!

V

Um dia,  era sobre
tarde,

  Ia-se o sol a
afundar;

Calumbi cerrava as
folhas

  Para melhor as
guardar.

Vem cavaleiro de longe

  E  porta vai
apear.

Traz o rosto
carregado,

  Como a noite
sem luar.

Chega-se  pobre da
moa

  E assim comea
a falar:

 Guaicuru di-lhe no
peito

  Tristeza de
envergonhar.

Esposo que te h
fugido

  Hoje se vai a
casar;

Noiva no  de alto
sangue,

  Porm de sangue
vulgar.

Ergue-se a moa de um
pulo,

  Arrebatada, e
no olhar

Rebenta-lhe uma fasca

  Como de luz a
expirar.

Menino escravo que
tinha

  Acerta de ali
passar;

Nini atentando nele

  Chama-o para o
seu lugar.

 Cativo s tu; sers
livre,

  Mas vais o nome
trocar;

Nome avesso te
puseram...

  Panenioxe hs
de ficar.

Pela face cobreada

  Desce, desce
com vagar

Uma lgrima: era a
ltima

  Que lhe restava
chorar.

Longo tempo ali
ficara,

  Sem se mover
nem falar;

Os que a vem naquela
mgoa

  Nem ousam de a
consolar.

Depois um longo
suspiro,

  E ia a moa a
expirar...

O sol de todo morria

  E enegrecia-se
o ar.

Pintam-na de vivas
cores, [14]

  E lhe lanam um
colar;

Em fina esteira de
junco

  Logo a vo
amortalhar.

O triste pai
suspirando

  Nos braos a
vai tomar,

Deita-a sobre o seu
cavalo

  E a leva para
enterrar.

Na terra em que dorme
agora

  Justo lhe era
descansar,

Que pagou foro da vida

  Com muito e
muito penar.

Que assim se morre de
amores

  Aonde habita o
jaguar,

Como as princesas
morriam

  Pelas terras de
alm-mar.

A
CRIST-NOVA

...essa
mesma foi levada

cativa
para uma terra estranha.

NAUM,
cap. III, v. 10

PARTE I

I

Olhos fitos no cu, sentado  porta,

O velho pai estava. Um luar frouxo

Vinha beijar-lhe a veneranda barba

Alva e longa, que o peito lhe cobria,

Como a nvoa na encosta da montanha

Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,

E silenciosa: a praia era deserta,

Ouvia-se o bater pausado e longo

Da sonolenta vaga,  nico e triste

Som que a mudez quebrava  natureza.

II

Assim talvez nas
solides sombrias

Da velha Palestina

Um profeta no esprito
volvera

As desgraas da
ptria. Quo remota

Aquela de seus pais
sagrada terra,

Quo diferente desta
em que h vivido

Os seus dias melhores!
Vago e doce,

Este luar no alumia
os serros

Estreis, nem as
ltimas runas,

Nem as ermas
plancies, nem aquele

Morno silncio da
regio que fora

E que a histria de
todo amortalhara.

 torrentes antigas!
guas santas

De Cedron! J talvez o
sol que passa,

E v nascer e v morrer
as flores,

Todas no leito vos
secou, enquanto

Estas murmuram
plcidas e cheias,

E vo contando s deleitosas
praias

Esperanas futuras.
Longo e longo

O devolver dos sculos

Ser, primeiro que a
memria do homem

Tea a mortalha fria

Da regio que inda
tinge o albor da aurora.

III

Talvez, talvez no
esprito fechado

Do ancio vagueavam
lentamente

Estas idias tristes.
Junto  praia

Era a austera manso,
donde se via

Desenrolarem-se as
serenas vagas

Do nosso golfo azul.
No a enfeitavam

As galas da opulncia,
nem os olhos

Entristecia coo
medonho aspecto

Da misria; no
prdiga nem surda

A fortuna lhe fora,
mas aquela

Mediana sbria, que os
desejos

Contenta do filsofo,
lhe havia

Dourado os tetos.
Guanabara ainda

No era a flor aberta

Da nossa idade; era
boto apenas,

Que rompia do hastil,
nascido  beira

De suas ondas mansas.
Simples e rude,

Ia brotando a juvenil
cidade,

Nestas incultas
terras, que a lembrana

Recordava talvez do
antigo povo,

E o guau alegre,
e as rspidas pelejas,

Toda essa vida que
morreu.

IV

Sentada

Aos ps do velho
estava a amada filha,

Bela como a aucena
dos Cantares,

Como a rosa dos
campos. A cabea

Nos joelhos do pai
reclina a moa,

E deixa resvalar o
pensamento

Rio abaixo das longas
esperanas

E namorados sonhos.
Negros olhos

Por entre os mal
fechados

Clios estende  serra
que recorta

Ao longe o cu. Morena
 a face linda

E levemente plida.
Mais bela,

Nem mais suave era a
formosa Rute

Ante o rico Booz, do
que essa virgem,

Flor que Israel brotou
do antigo tronco,

Corada ao sol da
juvenil Amrica.

V

Mudos viam correr
aquelas horas

Da noite, os dois: ele
voltando o rosto

Ao passado, ela os
olhos ao futuro.

Cansam-lhe enfim ao
pensamento as asas

De ir voando, atravs
da espessa treva,

Frouxas as colhe, e
desce ao campo exguo

Da realidade. A
delicada virgem

Primeiro volve a si;
os lindos dedos

Corre-lhe ao longo da
nevada barba,

E:  Pai amigo, que
pensar vos leva

To longe a alma?
Estremecendo o velho:

 Curiosa!  lhe
disse,  o pensamento

 como as aves
passageiras: voa

A buscar melhor clima.
 Oposto rumo

Ias tu, alma em flor,
aberta apenas,

To longe ainda do
calor da sesta,

To remota da noite...
Uma esperana

Te sorria talvez?
Talvez, quem sabe,

Uns namorados olhos
que me roubem,

Que te levem... No
cores, filha minha!

Esquecimento, no;
lembrana ao menos

Ficar-te- do paterno
afeto; e um dia,

Quando eu na terra
descansar meus ossos,

Havers doce blsamo
no seio

Da afeio juvenil...
Sim; no te acuso;

Ama:  a lei da
natureza, eterna!

Ama: um homem ser da
nossa raa...

VI

Estas palavras tais
ouvindo a moa,

Turbada os olhos
descaiu na terra,

E algum tempo ficou
calada e triste,

Como no azul do cu o
astro da noite,

Se uma nuvem lhe
empana a meio a face.

Sbito a voz e o rosto
alevantando,

Com dissimulao, 
pecado embora,

Mas inocente: 
Olhai, a noite  linda!

O vento encrespa
molemente as ondas,

E o cu  todo azul e
todo estrelas!

Formosa, oh! quo
formosa a terra minha!

Dizei: alm desses
compridos serros,

Alm daquele mar, 
orla de outros,

Outras como esta
vivem?

VII

Fresca e pura

Era-lhe a voz, voz
dalma que sabia

Entrar no corao
paterno. A fronte

Inclina o velho sobre
o rosto amado

De ngela.  Na cabea
sculo santo

Imprime  filha; e
suspirando, os olhos

Melancolicamente ao ar
levanta,

Desce-os e assim murmura:

Vaso  digno de ti,
lrio dos vales,

Terra solene e bela. A
natureza

Aqui pomposa,
compassiva e grande,

No regao recebe a
alma que chora

E o corao que tmido
suspira.

Contudo, a sombra
pesarosa e errante

Do povo que acabou
pranteia ainda

Ao longo das areias,

Onde o mar bate, ou no
cerrado bosque

Inda povoado das
relquias suas,

Que o nome de Tup
confessar podem

No prprio templo
augusto. ltima e forte

Consolao  esta do
vencido

Que viu tudo perder-se
no passado,

E nico salva do
naufrgio imenso

O seu Deus. Ptria
no. Uma h na terra

Que eu nunca vi...
Hoje  runa tudo,

E viuvez e morte. Um
tempo, entanto,

Bela e forte ela foi;
mas longe, longe

Os dias vo da
fortaleza e glria

Escoados de todo como
as guas

Que no volvem jamais.
leo que a unge,

Finas telas que a
vestem, atavios

De ouro e prata que o
colo e os braos lhe ornam,

E a flor de trigo e
mel de que se nutre,

Sonhos, so sonhos do
profeta.  morta [15]

Jerusalm! Oh! quem
lhe dera os dias

Da passada grandeza,
quando a planta

Da senhora das gentes
sobre o peito

Pousava dos vencidos,
quando o nome

Do que h salvo
Israel, Moiss.

 No! Cristo,

Filho de Deus! S ele
h salvo os homens!

Isto dizendo, a
delicada virgem

As mos postas ergueu.
Uma palavra

No disse mais; no
corao, entanto,

Murmurava uma prece
silenciosa,

Ardente e viva, como a
f que a anima

Ou como a luz da
almpada

A que no faltou leo.

VIII

Taciturno

Esteve longo tempo o
ancio. Aquela

Alma infeliz nem toda
era de Cristo

Nem toda de Moiss;
ouvia atento

A palavra da Lei, como
nos dias

Do eleito povo; mas a
doce nota

Do Evangelho no raro
lhe batia

No alvoroado peito,

Solenssima e pura...
Descambava

No entanto a lua. A
noite era mais linda,

E mais augusta a
solido. Na alcova

Entre a plida moa.
Da parede

Um Cristo pende; ela
os joelhos dobra,

Os dedos cruza e reza,
 no serena,

Nem alegre tambm,
como costuma,

Mas a tremer-lhe nos
formosos olhos

Uma lgrima.

IX

A lmpada acendida

Sobre a mesa do velho,
as largas folhas

Alumia de um livro. O
mximo era

Dos livros todos. A
escolhida lauda

Era a do canto dos
cativos que iam

Pelas ribas do
Eufrates, relembrando

As desgraas da
ptria. A ss, com eles,

Suspira o velho aquele
salmo antigo:

Junto os rios da terra
amaldioada

De Babilnia, um dia
nos sentamos,

Com saudades de Sio
amada.

As harpas nos
salgueiros penduramos,

E ao relembrarmos os
extintos dias

As lgrimas dos olhos
desatamos.

Os que nos davam cruas
agonias

De cativeiro, ali nos
perguntavam

Pelas nossas antigas
harmonias.

E dizamos ns aos que
falavam:

Como em terra de
exlio amargo e duro

Cantar os hinos que ao
Senhor louvavam?

Jerusalm, se inda num
sol futuro,

Eu desviar de ti meu
pensamento

E teu nome entregar a
olvido escuro,

A minha destra a frio
esquecimento

Votada seja; apegue-se
 garganta

Esta lngua infiel, se
um s momento

Me no lembrar de ti,
se a grande e santa

Jerusalm no for
minha alegria

Melhor no meio de
misria tanta.

Oh! lembra-lhes,
Senhor, aquele dia

Da abatida Sio,
lembra-lho aos duros

Filhos de Edom, e 
voz que ali dizia:

Arruinai-a,
arruinai-a; os muros

Arrasemo-los todos; s
lhe baste

Um monto de destroos
mal seguros.

Filha de Babilnia,
que pecaste,

Abenoado o que se
houver contigo

Com a mesma opresso
que nos mostraste!

Abenoado o brbaro
inimigo

Que os tenros filhos
teus s mos tomando,

Os for, por teu
justssimo castigo,

Contra um duro penedo
esmigalhando!

PARTE II

I

Era naquela doce e
amvel hora

Em que vem branqueando
a alva celeste,

Quando parece que
remoa a vida

E toda se espreguia a
natureza.

Alva neblina que
espalhara a noite

Frouxamente nos ares
se dissolve,

Como de uns olhos tristes

Foge coo tempo a j
ligeira sombra

De consoladas mgoas.
Vida  tudo.

E pompa e graa
natural da terra,

Mas que no seja no ermo,

Onde seus olhos
rtilos espraia

Livres a aurora, sem
tocar vestgios

De obras caducas do
homem, onde as guas

Do rio bebe a fugitiva
cora,

Vivo aroma nos ares se
difunde,

E aves, e aves de
infinitas cores

Voando vo e revoando
tornam,

Inda senhoras da
amplido que  sua.

Donde as h de fugir o
homem um dia

Quando a agreste
solido entrar o passo

Criador que derruba.
J de todo

Nado era o sol; e 
viva luz que inunda

Estes meus ptrios
morros e estas praias,

Sorrindo a terra moa

Noiva parece que o
virgneo seio

Entrega ao beijo
nupcial do amado.

E h de os fnebres vus
lanar a morte

Na verdura do campo? A
natureza

A nota vibrar da
extrema angstia

Neste festivo cntico
de graas

Ao sol que nasce, ao
Criador que o envia,

Como renovao de
juventude?

II

Coava o sol pela mida
e fina

Gelosia da alcova em
que se apresta

A recente crist.
Singelas roupas

Traja da ingnua cor
que a natureza

Pintou nas plumas que
primeiro brota

O seu ptrio guar.
Vnculo frouxo

Mal lhe segura a
luzidia trana,

Como ao desdm lanada

Sobre a espdua
gentil. Jia nenhuma,

Mais que seus olhos
meigos, e essa doce

Modstia natural,
encanto, enlevo,

Casta flor que
aborrece os mimos do horto,

E ama livre nascer no
campo,  larga,

Rstica, mas formosa.
No lhe ensombram

As tristezas da
vspera o semblante,

Nem da secreta lgrima
na face

Ficou vestgio, 
Descuidosa e alegre,

Ri-se, murmura uma
cantiga, ou pensa,

E repete baixinho um
nome... Oh! se ele

Espreit-la pudesse
ali risonha,

A ss consigo, entre o
seu Cristo e as flores

Colhidas ao tombar da
extinta noite,

E vicejantes inda!

III

De repente,

Aos ouvidos da moa
enamorada

Chega um surdo rumor
de soltas vozes,

Que ora crescendo vai,
ora se apaga,

Estranho, desusado.
Eram... So eles,

Os franceses, que vm
de longes praias

A cobiar a prola
mimosa,

Niteri, na alva-azul
concha nascida

De suas guas
recatadas. Rege

O atrevido Duclerc a
flor dos nobres,

Cuja tez branca
requeimara o fogo

Que o vivo sol dos
trpicos dardeja,

E a lufada dos ventos
do oceano.

Cobiam-te eles, minha
terra amada,

Como quando nas faixas
sempre-verdes

Eras envolta; e rude,
inda que belo,

O aspecto havias que
poliu mais tarde

A clara mo do tempo.
Inda repetem

Os ecos do recncavo
os suspiros

Dos que vieram a
buscar a morte,

E a receberam dos
vares possantes

Companheiros de
Estcio. A todos eles,

Prole de Luso ou
gerao da Glia,

Cativara-os a niade
escondida,

E o sol os viu
travados nessa longa

E sangrenta porfia,
cujo prmio

Era teu verde, cndido
regao.

Triunfara o trabuco
lusitano

Naquele extinto
sculo. Vencido,

O pavilho francs
volvera  ptria,

Pela gua arrastando o
longo crepe

De suas tristes,
mortas esperanas,

Que vento novo o
desfraldou nos ares?

IV

ngela ouvira as vozes
da cidade,

As vozes do furor. J receosa,

Trmula, foge  alcova
e se encaminha

 cmera paterna. Ia
transpondo

A franqueada porta...
e pra. O peito

Rompe-lhe quase o
corao,  tamanho

 o palpitar, um
palpitar de gosto,

De surpresa e de
susto. Aqueles olhos,

Aquela graa mscula
do gesto,

Graa e olhos so
dele, o amado noivo,

Que entre os mais
homens elegeu sua alma

Para o vnculo
eterno... Sim, que a morte

Pode arrancar ao seio
humano o alento

ltimo e derradeiro;
os que deveras

Unidos foram, volvero
unidos

A mergulhar na
eternidade. Estava

Junto do velho pai o
gentil moo,

Ele todo agitado, o
ancio sombrio,

Calados ambos. A
atitude de ambos,

O misterioso, glido
silncio,

Mais que tudo, a
presena nunca usada

Daquele homem ali, que
mal a espreita

De longe e a furto,
nos instantes breves

Em que lhe  dado
v-la, tudo  moa

O nimo abala e o
corao enfia.

V

Mas o tropel de fora
avulta e cresce

E os trs acorda. A
virgem, lentamente,

Rosto inclinado ao
cho, transpe o espao

Que dos dois a
separa... O tenro colo

Curva ante o pai, e na
enrugada destra

O sculo imprime,
herdada usana antiga

De filial respeito. As
mos lhe toma

Enternecido o velho;
olhos com olhos

Alguns instantes
rpidos ficaram,

At que ele, voltando
o rosto ao moo:

 Perdoai,  disse, 
se o paterno afeto

Me atou a lngua.
Vacilar  justo

Quando  pobre runa a
flor lhe pedem

Que nica lhe nasceu,
 nica adorna

A aridez melanclica
do extremo,

Plido sol... No
protesteis! Roub-la,

Arranc-la aos meus
ltimos instantes,

No o fareis decerto.
Pouco importa

Ds que a metade lhe
levais da vida,

Ds que seu corao,
convosco parte

Afeies minhas.  Ao
demais, o sangue

Que lhe corre nas
veias, condenado,

Nuno, ser dos
vossos... Longo e frio

Olhar estas palavras
acompanha,

Como a
arrancar-lhe  o pensamento interno.

A donzela estremece.
Nuno o alento

Recobra e fala: Puro
sangue  ele,

Se lhe corre nas
veias. To mimosa,

Cndida criatura, alma
to casta,

Inda nascida entre os
incrus da Arbia,

Deus a votara 
converso e  vida

Dos eleitos do cu.
guas sagradas

Que a lavaram no
bero, j nas veias

O sangue velho e
impuro lhe trocaram

Pelo sangue de
Cristo...

VI

Neste instante

Cresce o tumulto
exterior. A virgem

Medrosa toda se
conchega ao colo

Do velho pai. Ouvis?
Falai!  tempo!

Nuno prossegue. Este
comum perigo

Chama os vares 
rspida batalha;

Com eles vou. Se um
galardo, entanto,

Merecer de meus
feitos, no  ptria

Irei pedi-lo; s de
vs o espero,

No o melhor, mas o
nico na terra,

Que a minha vida...
Rematar no pde

Esta palavra. Ao
escutar-lhe a nova

Da iminente peleja

E a deciso de
combater por ela,

Inteiras sente as
foras que se perdem

A donzela, e bem como
ao rijo vento

Inclina o colo o arbusto

Nos braos desmaiou do
pai. Volvida

A si, na palidez do
rosto o velho

Atenta um pouco, e
suspirando: As armas

Empunhai; combatei;
ngela  vossa.

No de mim a havereis:
ela a si mesma

Toda nas vossas mos
se entrega. Morta

Ou feliz  a escolha;
no vacilo:

Seja feliz, e folgarei
com ela...

VII

Sobre a fronte dos
dois as mos impondo,

Ao seio os conchegou,
bem como a tenda

Do patriarca santo
agasalhava

O moo Isaac e a
delicada virgem [16]

Que entre os rios
nasceu. Delicioso

E solene era o quadro;
mas solene

E delicioso embora, ia
esvair-se

Qual celeste viso,
que acende a espaos

O nimo do infeliz. A
guerra, a dura

Necessidade de imolar
os homens,

Por salvar homens, a
terrvel guerra

Corta o amoroso
vnculo que os prende

E  moa o riso lhe
converte em lgrimas.

Msera s tu, plida
flor; mas sofre

Que o calor deste sol
te acurve o clix,

Morta, no, nem j
murcha,  mas apenas

Como cansada de
queimor do estio.

Sofre; a tarde vir
serena e branda

A reviver-te o alento;
a fresca noite

Chover sobre ti
piedoso orvalho

E mais risonha
surgirs  aurora.

VIII

Foge  estncia da paz
o ardido moo;

Esperana, fortuna,
amor e ptria

A guerrear o levam. J
nas veias

O vivo sangue
irrequieto pulsa,

Como ansioso de correr
por ambas,

A bela terra e a
suspirada noiva.

Triste quadro a seus
olhos se apresenta;

Nos femininos rostos
v pintados

Incerteza e terror;
lamentos, gritos

Soam de entorno. Voam
pelas ruas

Homens de guerra;
homens de paz se aprestam

Para a crua peleja; e,
ou nobre estncia,

Ou choupana rasteira,
armado  tudo

Contra a forte
invaso. Nem l se deixa

Quieto, a ss com
Deus, na estreita cela,

O solitrio monge que
s batalhas

Fugiu da vida. O
patrimnio santo

Cumpre salv-lo. Cruz
e espada empunha,

Deixa a serena regio
da prece

E voa ao torvelinho do
combate.

IX

Entre os fortes alunos
que dirige

O ardido Bento, a perfilar-se corre [17]

Nuno. Estes so os que
o primeiro golpe

Descarregam no atnito
inimigo.

Do militar ofcio
ignoram tudo,

De armas no sabem;
mas o brio e a honra

E a lembrana da terra
em que primeiro

Viram a luz, e onde o
perd-la  doce,

Essa a escola lhes
foi. Pasma o inimigo

Do nobre esforo e
galhardia rara,

Com que inda nos
umbrais da vida que orna

Tanta esperana, tanto
sonho de ouro,

Resolutos a morte
encaram, prestes

A retalhar nas dobras

Da vestidura fnebre
da ptria

O piedoso lenol que
os leve  campa,

Ou com ela cingir o
eterno louro.

X

 mocidade,  baluarte
vivo

Da cara ptria! J
perdida  ela,

Quando em teu peito
entusiasmo santo

E puro amor se
extingue, e quele nobre,

Generoso despejo e
ardor antigo

Sucede o frio
calcular, e o torpe

Egosmo, e quanto h
hi no humano peito,

Que  fruto nosso e
podre... Muitos caem

Mortos ali. Que
importa? Vo seguindo

Avante os bravos, que
a invaso caminha

Implacvel e dura,
como a morte,

A pelejar e a
destruir. Tingidas

Ruas de estranho sangue

E sangue nosso,
lacerados membros,

Corpos de que h
fugido a alma cansada,

E o denso fumo e os
fnebres lamentos,

Quem nessa confuso,
misria e glria

Conhecer da juvenil
cidade

O aspecto, a vida?
Aqui da infncia os dias

Nuno vivera, 
vicejante sombra

Do seu ptrio
arvoredo, ao som das vagas

Que inda batendo vo
na amada areia;

Risos, jogos da verde
meninice,

Esta praia lhe lembra,
aquela pedra,

A mangueira do campo,
a tosca cerca

De espinheiro e de
flores enlaadas,

A ave que voa, a brisa
que suspira,

Que suspira como ele
h suspirado,

Quando rompendo o
corao do peito

Ia-lhe emps dessa
viso divina,

Realidade agora... E
h de perd-las

Ptria e noiva? Esta
idia lhe esvoaa

Torva e surda no
crebro do moo,

E ao contrado
esprito redobra

mpeto e foras. Rompe

Por entre a multido
dos seus, e investe

Contra o duro inimigo;
as balas voam,

E com elas a morte,
que no sabe

Dos escolhidos seus a
terra e o sangue,

E indistintos os toma;
ele, no meio

Daquele horrvel
turbilho, parece

Que a fasca do gnio
o leva e anima,

Que a fortuna o votara
 glria.

XI

Soam

Enfim os gritos de
triunfo; e o peito

Do povo que lutou
respira  larga,

Como ao que, aps
rdua subida, chega

Ao cimo da montanha, e
ao longe os olhos

Estende pelo azul dos
cus, e a vida

Bebe nesse ar mais
puro. Farto sangue

A vitria custara;
mas, se em meio

De tanta glria h
lgrimas, soluos,

Gemidos de viuvez,
quem os escuta,

Quem as v essas
lgrimas choradas

Na multido da praa
que troveja

E folga e ri? O sacro
bronze que usa

Os fiis convidar 
prece, e a morte

Do homem pranteia
lgubre e solene,

Ora festivo canta

O comum regozijo; e
pela aberta

Porta dos templos
entra a frouxo o povo

A agradecer com
lgrimas e vozes

O triunfo,  piedoso
instinto da alma,

Que a Deus levanta o
pensamento e as graas.

XII

Tu, mancebo feliz, tu
bravo e amado,

Voa nas asas rtilas e
leves

Da fortuna e do amor.
Como ao indiano,

Que, ao regressar das
porfiadas lutas,

Por estas mesmas
regies entrava,

A encontr-lo saa a
meiga esposa,

 A recente crist,
entre assustada

E jubilosa coroar
teus feitos

Coa melhor das capelas
que ho pousado

Em fronte de varo, 
um doce e longo

Olhar que inteiro
encerra a alma que chora

De gosto e vida! Voa o
moo  estncia

Do ancio; e ao pr na
suspirada porta

Olhos que traz
famintos de encontr-la,

Frio terror lhe empece
os membros. Frouxo

Ia o sol
transmontando; lenta a vaga

Melancolicamente ali
gemia,

E todo o ar parecia arfar de morte.

Qual se plida a vira, j cerrados

Os desmaiados olhos,

Frios os doces lbios

Cansados de pedir aos cus por ele,

Nuno estacara; e pelo rosto em fio

O suor lhe caiu da extrema angstia;

Longo tempo vacila;

Vence-se enfim, e entra a manso da esposa.

XIII

Quatro vultos na cmara paterna

Eram. O pai sentado,

Calado e triste. Reclinada a fronte

No espaldar da cadeira, a filha os olhos

E o rosto esconde, mas tremor contnuo

De um abafado soluar o esbelto

Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;

Ia a falar, quando a formosa virgem,

Os lacrimosos olhos levantando,

Um grito solta do ntimo do peito

E se lhe prostra aos ps: Oh! vivo, s vivo!

Inda bem... Mas o cu, que por ns vela,

Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,

Salva meu pobre pai! Estremecendo,

Nela e no velho fita Nuno os olhos,

E agitado pergunta: Qual ousado

Brao lhe ameaa a vida? Cavernosa

Uma voz lhe responde: O santo ofcio!

Volve o mancebo o rosto

E o merencrio aspecto

De dois familiares todo o sangue

Nas veias lhe gelou.

XIV

       Solene o velho

Com a voz, no frouxa, mas pausada, fala:

Vs? Todo o brio, todo o amor no peito

Te emudeceu. S lastimar-me podes,

Salvar-me, nunca. O crcere me aguarda,

E a fogueira talvez; cumpri-la,  tempo,

A vontade de Deus. Tu, pai e esposo

Da desvalida filha que a deixo,

Nuno, sers. A relembrar com ela

Meu pobre nome, aplacareis a imensa

Clera do Senhor... Sorrindo irnico,

Estas palavras ltimas lhe caem

Dos lbios tristes. Ergue-se: Partamos!

Adeus! Negou-me Aquele que no campo

Deixa a rvore anci perder as folhas

No mesmo ponto em que as nutriu viosas,

Negou-me ver por estas longas serras

Ir-se-me o ltimo sol. Brando regao

A filial piedade me daria

Em que eu dormisse o derradeiro sono,

E em braos de meu sangue transportado

Fora em horas de paz e de silncio

Levado ao leito extremo e eterno. Vive

Ao menos tu...

XV

  Um familiar lhe corta

O adeus ltimo: Vamos:  j tempo!

Resignado o infeliz, ao seio aperta

A filha, e todo o corao num beijo

Lhe transmitiu, e a caminhar comea.

ngela os lindos braos sobre os ombros

Trava do austero pai; flores dissreis

De parasita, que enroscou seus ramos

Pelo cansado tronco, estril, seco

De rvore antiga: Nunca! Ho de primeiro

A alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a morte

Pena h de ser da cometida culpa,

Convosco descerei  campa fria,

Juntos a mergulhar na eternidade.

Israel tem vertido

Um mar de sangue. Embora!  tona dele

Verdeja a nossa f, a f que anima [18]

O eleito povo, flor suave e bela

Que o medo no desfolha, nem j seca

Ao vento mau da clera dos homens!

XVI

Trmula a voz do peito lhe saa.

Das mos lhe trava um dos algozes. Ela

Entrega-se risonha,

Como se o clix da amargura extrema

Pelos meles da vida lhe trocassem

Celeste e eterna. O corao do moo

Latejava de espanto e susto. Os olhos

Pousa na filha o desvairado velho.

Que ouviu?  Atenta nela; o lindo rosto

O cu no busca jubiloso e livre,

Antes, como travado de agra pena,

Pende-lhe agora ao cho. Dizia acaso

Entre si mesma uma orao, e o nome

De Jesus repetia, mas to baixo,

Que o corao do pai mal pde ouvir-lho.

Mas ouviu-lho; e to forte amor, tamanho

Sacrifcio da vida a alma lhe rasga

E deslumbra. Escoou-se um breve tempo

De silncio; ele e ela, os tristes noivos,

Como se a eterna noite os recebera,

Gelados eram; levantar no ousam

Um para o outro os arrasados olhos

De mal contidas e teimosas lgrimas.

XVII

Nuno, enfim, lentamente e a custo arranca

Do corao estas palavras: Fora

Misericrdia ao menos confess-lo

Quando ao fogo do brbaro inimigo

Me era fcil deixar o derradeiro

Sopro da vida. Prmio  este acaso

De tamanho lidar? Que mal te hei feito,

Por que me ds to brbara e medonha

Morte, como esta, em que o cadver guarda

Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto

Da vida que fugiu? ngela os olhos

Magoados ergue; arfa-lhe o peito aflito,

Como o dorso da vaga que intumesce

A asa da tempestade. Adeus! suspira,

E a fronte abriga no paterno seio.

XVIII

O rebelde ancio, domado entanto,

Afracar-se-lhe sente dentro dalma

O sentimento velho que bebera

Com o leite dos seus; e sem que o lbio

Transmita a ouvidos de homem

O duvidar do corao, murmura

Dentro de si: To poderosa  essa

Ingnua f, que inda negando o nome

Do seu Deus, confiada aceita a morte,

E guarda puro o sentimento interno

Com que o vu rasgar da eternidade?

 Nazareno,  filho do mistrio,

Se  tua lei a nica da vida

Escreve-ma no peito; e d que eu veja

Morrer comigo a filha de meus olhos

E unidos irmos, pela porta imensa

Do teu perdo,  eternidade tua!

XIX

Mergulhara de todo o
sol no ocaso,

E a noite, clara,
deliciosa e bela,

A cidade cobriu,  no
sossegada,

Como costuma,  porm
leda e viva,

Cheia de luz, de
cantos e rumores,

Vitoriosa enfim. Eles,
calados,

Foram por entre a
multido alegre,

A penetrar o crcere
sombrio.

Donde ao mar passaro,
que os leve s praias

Da anci Europa.
Carregado o rosto,

Ia o pai; ela, no.
Serena e meiga,

Entra afoita o caminho
da amargura,

A custo sofreando
internas mgoas

Da amarga vida, breve
flor como ela,

Que inda mais breve a
mente lhe afigura.

Anjo, descera da
regio celeste

A pairar sobre o
abismo; anjo, subia

De novo  esfera
luminosa e eterna,

Ptria sua.
Levar-lhe- Deus em conta

O muito amor e o
padecer extremo,

Quando romper a tnica
da vida

E o silncio imortal
fechar seus lbios.

JOS BONIFCIO

De tantos olhos que o
brilhante lume

Viram do sol amortecer
no ocaso,

Quantos vero nas
orlas do horizonte

Resplandecer a aurora?

Inmeras, no mar da
eternidade,

As geraes humanas
vo caindo;

Sobre elas vai
lanando o esquecimento

A pesada mortalha.

Da agitao estril em
que as foras

Consumiram da vida,
raro apenas

Um eco chega aos
sculos remotos,

E o mesmo tempo o apaga.

Vivos transmite a popular memria

O gnio criador e a s
virtude,

Os que o ptrio torro
honrar souberam,

E honrar a espcie humana.

Vivo irs tu, egrgio
e nobre Andrada!

Tu, cujo nome, entre
os que  ptria deram

O batismo da amada
independncia,

Perpetuamente fulge.

O engenho, as foras, o saber, a vida

Tu votaste  liberdade nossa,

Que a teus olhos nasceu, e que teus olhos

Inconcussa deixaram.

Nunca interesse vil manchou teu nome,

Nem abjetas paixes; teu peito ilustre

Na viva chama ardeu que os homens leva

       Ao sacrifcio honrado.

Se teus restos h muito que repousam

No p comum das geraes extintas,

A ptria livre que legaste aos netos

       E te venera e ama,

Nem a face mortal consente  morte

Que te roube, e no bronze redivivo

O austero vulto restitui aos olhos

       Das vindouras idades.

Vede (lhes diz) o cidado que teve

Larga parte no largo monumento

Da liberdade, a cujo seio os povos

       Do Brasil te acolheram.

Pode o tempo varrer, um dia, ao longe,

A fbrica robusta; mas os nomes

Dos que o fundaram vivero eternos,

       E vivers, Andrada!

A VISO DE JACICA

Prestes de novo a batalhar, chegavam

Os valentes
guerreiros. Mas onde ele,

O duro chefe da
indomvel tribo,

O senhor das
montanhas? Afirmava

Tatupeba
que o vira, antes da aurora,

Erguer-se, e ao longo
do vizinho rio,

Por algum tempo
caminhar calado,

Como se o abafara um
pensamento

E lhe impedira o sono.
Vo receio

De batalhar? Oh! no!
Quase na infncia,

A torva catadura viu
da guerra,

Ofcio de homens, que
aprendeu brincando

Com seu pai, extremado
entre os guerreiros,

E na bravura e na
prudncia; a frecha

Ningum soubera menear
como ele,

Nem mais veloz nem
mais certeira nunca.

A lentos passos
caminhando chega,

Enfim, o bravo
Jacica. Torvo

E merencrio traz o
duro aspecto.

 Vamos (diz ele) a
descansar na taba,

Entre festas e danas;
penduremos

As armas nossas, que
sobeja h sido

A glria, e a doce paz
nos chama.

Leve,

Surdo rumor entre os
guerreiros soa;

Vai subindo,  rugido,
 j tumulto,

Como o grunhir de
trajaus no mato,

Que se aproxima e
cresce. Jacica

Olhos quietos pelo
campo estende;

Seu feio rosto  como
a rocha dura

Que o raio quebra, mas
no lasca o vento.

Fecha os lbios e
pensativo espera.

Tatupeba, que a raiva
a custo esconde,

Ergue-se ento;
crava-lhe os fulvos olhos,

Como a afiada ponta de
uma frecha.

Seu porte, entre os
irmos, semelha  vista

Jequitib robusto;
mais que todos,

Terror inspira e
universal respeito.

Ergue-se e fala: 
Longos sis hei visto,

Pelejei muitas
guerras; a meu lado

Vi cair mais valentes
do que folhas

Arranca o furaco; mas
nunca o nimo

Dos lidadores abalou a
palavra

Como essa tua; nunca
os braos nossos

Ficar deixaram nos
desertos campos

Os ossos no vingados
dos guerreiros.

Que gnio mau te
insinuou tal crime?

Assim falando,
Tatupeba o solo

Com a planta feriu. Os
olhos todos

Pendem da boca do
sombrio chefe.

Silencioso Jacica
ouvira

As falas do guerreiro;
silencioso

E quieto ficou. Aps
instantes,

A fronte sacudiu, como
expelindo

Idias ms que o
crebro lhe turvam,

E a voz lhe rompe do
ntimo do peito.

 guerreiros (diz
ele), aqui deitados

Estivestes a noite, e
toda inteira

A dormistes de certo;
eu, no distante,

Do rio  margem a
trabalhar comigo,

Afiava na mente atra
vingana;

At que os frouxos
membros descaram

Sobre a macia relva, e
um tempo largo

Assim fiquei entre
viglia e sono.

Viam meus olhos
ondular as guas,

Mas no alheado
pensamento os ecos

Sussurravam da
infncia. Um gnio amigo

Aos tempos me levava
em que no rosto

De meu pai aprendi,
com frio pasmo,

A rara intrepidez,
vlida herana,

Que tanto custa ao
prfido inimigo.

De repente, uma luz
plida e triste

Inunda o campo:
transparente nvoa

E luminosa aquilo
parecia,

Ou bao refletir da
branca lua

Que nuvens cobrem.
Lvido e curvado,

Iaba a meus olhos
aparece.

Vi-o qual era antes da
fria morte;

S a expresso do
rosto lhe mudara;

Enrgicas no tinha,
mas serenas

As
feies. Vem comigo! Assim me fala

O extinto bravo; e,
sbito estreitando

Ao peito o corpo do
saudoso amigo,

Juntos voamos  regio
das nuvens.

Olha! disse Iaba,
e o brao alonga

Para a terra.  guerreiros! largo espao

Era presa de alheio
senhorio.

Fitei os olhos mais; e
pouco a pouco,

Como enche o rio e
todo o campo alaga,

Umas gentes estranhas
se estendiam

De serto em serto. Presas do fogo

As matas vi, abrigo do
guerreiro,

E ao torvo incndio e
s invases da morte

Vi as tribos fugir,
ceder a custo,

Com lgrimas alguns,
todos com sangue,

A virgem terra ao
brbaro inimigo.

Mau vento os trouxe de
remota praia

Aqueles homens novos,
jamais vistos

De guerreiro ancio, a
quem no coube

Sequer a glria de
morrer contente

E todo reviver na
ousada prole.

Era o termo da vida
que chegara

Ao povo de Tup! Grito
de morte

nico enchia os ares,
 um suspiro

De tristeza e terror,
que reboava

Pelos recessos da
floresta antiga

E talvez ameigava o
peito s feras...

Surdos os manits
deixado haviam

Os seus fortes heris;
surdos se foram

Entre os gnios folgar
da raa nova,

E rir talvez das lgrimas
choradas

Pelos olhos das
virgens... Oh! se ao menos

Fora pranto de livres!
Era a morte

A menor das angstias;
vi curvada

E cativa rojar no p
da terra

A fronte do guerreiro,
agora altiva,

Livre, como o condor
que frecha as nuvens;

No canitar a cinge,
mas vergonha,

Melanclico adorno do
vencido.

O rosto desviei do
estranho quadro.

Olha! repete  o
plido Iaba.

Olhei de novo, e na saudosa taba,

Que os nossos arcos
defender souberam,

Em vez da sombra do
piaga santo,

Que, ao som do marac,
colhia as vozes

Do pensamento eterno,
e as infundia

No seio do guerreiro,
como o fumo

Do petum lhe dobrava
mpeto e fora,

Um vulto descobri de
vestes negras,

Nua quase a cabea, e
cor de espuma

Alguns cabelos raros.
Tinha o rosto

Alvo e quieto. Em suas
mos sustinha

Extenso lenho com dois
curtos braos.

Ia s; todo o campo
era deserto.

Nem um guerreiro! um
arco!  A tribo? Extinta!

A tal palavra, uma
pesada sombra

A vista me apagou, e
pela face

Senti rolar a lgrima
primeira.

O sinistro espetculo
mudara.

Ao dissipar-se a nuvem
de meus olhos

Achei-me junto do
vizinho rio,

Reclinado como antes,
e defronte

A plida figura de
Iaba.

 Torna  taba, me
disse o extinto moo;

Luas e luas volvero no espao

Antes da morte, mas a
morte  certa,

E terrvel ser. Nao
bem outra,

Sobre as runas da
valente raa

Vir sentar-se, e
brilhar na terra

Gloriosa e rica. Uma
chorada lgrima,

Talvez, talvez, no
meio de triunfos.

H de ser a tardia,
escassa paga

Da morte nossa. Poupa
ao menos essa

Derradeira
esperana de guard-lo

Todo o valor para o
supremo dia

E com honra ceder a
estranhas hostes;

Salva ao menos as
ltimas relquias

Desta nao vencida;
no se rasguem

Peitos que irmos ao
mesmo sol nasceram

E Anhang fez
contrrios... Todos eles [19]

Poucos sero para a
tremenda luta,

Mas de sobra ho de
ser para chor-la.

Assim falara o plido
Iaba;

Alguns instantes
contemplou meu rosto,

Calado e firme. A
cachoeira ao longe

Interrompia apenas o
silncio;

E eu morto, eu mesmo
me sentia morto.

Ele um triste suspiro
magoado

Soltou do peito; os
apagados olhos

s estrelas ergueu,
sereno e triste,

E de novo rompendo o
vo aos ares,

Como uma frecha
penetrou nas nuvens.

A GONALVES DIAS

Ningum vir, com
titubeantes passos,

E os olhos lacrimosos,
procurando

O meu jazigo...

GONALVES DIAS.  ltimos
Cantos.

Tu vive e goza luz
serena e pura.

J. BASLIO DA GAMA. Uraguai,
c. V.

Assim vagou por alongados climas,

E do naufrgio os
midos vestidos

Ao calor enxugou de
estranhos lares

O lusitano vate.
Acerbas penas

Curtiu naquelas regies;
e o Ganges,

Se o viu chorar, no
viu pousar calada,

Como a harpa dos
xules profetas,

A herica tuba. Ele a
embocou, vencendo

Coa lembrana do ninho
seu paterno,

Longas saudades e
mseras tantas.

Que monta o padecer?
Um s momento

As mgoas lhe pagou da
vida; a ptria

Reviu, aps a suspirar
por ela;

E a velha terra sua

O despojo mortal
cobriu piedosa

E de sobejo o
compensou de ingratos.

Mas tu, cantor da
Amrica, roubado

To cedo ao nosso
orgulho, no te coube

Na terra em que
primeiro houveste o lume

Do nosso sol, achar o
ltimo leito!

No te coube dormir no
cho amado,

Onde a luz frouxa da
serena lua,

Por noite silenciosa,
entre a folhagem

Coasse os raios midos
e frios,

Com que ela chora os
mortos... derradeiras

Lgrimas certas que
ter na campa

O infeliz que no
deixa sobre a terra

Um corao ao menos
que o pranteie.

Vinha contudo o plido
poeta

Os desmaiados olhos
estendendo

Pela azul extenso das
grandes guas,

A pesquisar ao longe o
esquivo fumo

Dos ptrios tetos. Na
abatida fronte

Ave da morte as asas
lhe roara;

A vida no cobrou nos
ares novos,

A vida, que em
viglias e trabalhos,

Em prol dos seus,
gastou por longos anos,

Coessa largueza de
nimo fadado

A entornar generoso a
vital seiva.

Mas, que importava a
morte, se era doce

Morr-la  sombra
deliciosa e amiga

Dos coqueiros da
terra, ouvindo acaso

No murmurar dos rios,

Ou nos suspiros do
noturno vento,

Um eco melanclico dos
cantos

Que ele outrora
entoara? Traz do exlio

Um livro, monumento
derradeiro

Que  ptria levantou;
ali revive

Toda a memria do
valente povo

Dos seus Timbiras...

Sbito, nas ondas

Bate os ps, espumante
e desabrido,

O corcel da tormenta;
o horror da morte

Enfia o rosto aos
nautas... Quem por ele,

Um momento hesitou
quando na frgil

Tbua confiou a nica
esperana

Da existncia?
Mistrio obscuro  esse

Que o mar no revelou.
Ali sozinho,

Travou naquela solido
das guas

O duelo tremendo, em
que a alma e corpo

As suas foras ltimas
despendem

Pela vida da terra e
pela vida

Da eternidade. Quanta
imagem torva,

Pelo turbado esprito
batendo

As fuscas asas, lhe
tornou mais triste

Aquele instante
fnebre! Suave

 o arranco final,
quando o j frouxo

Olhar contempla as
lgrimas do afeto,

E a cabea repousa em
seio amigo.

Nem afetos nem prantos;
mas somente

A noite, o medo, a
solido e a morte.

A alma que ali morava,
ingnua e meiga,

Naquele corpo exguo,
abandonou-o,

Sem ouvir os soluos
da tristeza,

Nem o grave salmear
que fecha aos mortos

O frio cho. Ela o
deixou, bem como

Hspede mal aceito e
mal dormido,

Que prossegue a
jornada, sem que leve

O sculo da partida,
sem que deixe

No rosto dos que
ficam,  rara embora, 

Uma sombra de plida
saudade.

Oh! sobre a terra em
que pousaste um dia,

Alma filha de Deus,
ficou teu rasto

Como de estrela que
perptua fulge!

No viste as nossas
lgrimas; contudo

O corao da ptria as
h vertido.

Tua glria as secou,
bem como orvalho

Que a noite amiga
derramou nas flores

E o raio enxuga da
nascente aurora.

Na manso a que foste,
em que ora vives,

Hs de escutar um eco
do concerto

Das vozes nossas.
Ouvirs, entre elas,

Talvez, em lbios de
indiana virgem!

Esta saudosa e
suspirada nnia:

Morto!  morto o
cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata,
suspirai comigo!

A grande gua o levou
como invejosa.

Nenhum p trilhar seu
derradeiro

Fnebre leito; ele
repousa eterno

Em stio onde nem
olhos de valentes,

Nem mos de virgens
podero tocar-lhe

Os frios restos.
Sabi-da-praia

De longe o chamar
saudoso e meigo,

Sem que ele venha
repetir-lhe o canto.

Morto!  morto o
cantor de meus guerreiros!

Virgens da mata,
suspirai comigo!

Ele houvera do Ibaque
o dom supremo

De modular nas vozes a
ternura,

A clera, o valor,
tristeza e mgoa,

E repetir aos
namorados ecos

Quanto vive e reluz no
pensamento.

Sobre a margem das
guas escondidas,

Virgem nenhuma
suspirou mais terna,

Nem mais vlida a voz
ergueu na taba,

Suas nobres aes
cantando aos ventos,

O guerreiro tamoio.
Doce e forte,

Brotava-lhe do peito a
alma divina.

Morto!  morto o
cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata,
suspirai comigo!

Coema, a doce amada de
Itajuba,

Coema no morreu; a
folha agreste

Pode em ramas
ornar-lhe a sepultura,

E triste o vento
suspirar-lhe em torno;

Ela perdura a virgem
dos Timbiras,

Ela vive entre ns.
Airosa e linda,

Sua nobre figura
adorna as festas

E enflora os sonhos
dos valentes. Ele,

O famoso cantor,
quebrou da morte

O eterno jugo; e a
filha da floresta

H de a histria
guardar das velhas tabas

Inda depois das
ltimas runas.

Morto!  morto o
cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata,
suspirai comigo!

O piaga, que foge a
estranhos olhos,

E vive e morre na
floresta escura,

Repita o nome do
cantor; nas guas

Que o rio leva ao mar,
mande-lhe ao menos

Uma sentida lgrima,
arrancada

Do corao que ele
tocara outrora,

Quando o ouviu
palpitar sereno e puro,

E na voz celebrou de
eternos carmes.

Morto!  morto o
cantor dos meus guerreiros!

Virgens da mata,
suspirai comigo!

OS SEMEADORES [20]

(Sculo XVI)

...Eis a saiu o que
semeia a semear...

MAT., XIII, 3.

Vs os que hoje colheis, por esses campos largos,

O doce fruto e a flor,

Acaso esquecereis os
speros e amargos

Tempos do semeador?

Rude era o cho;
agreste e longo aquele dia;

Contudo, esses heris

Souberam resistir na
afanosa porfia

Aos temporais e aos sis.

Poucos; mas a vontade
os poucos multiplica,

E a f, e as oraes

Fizeram transformar a
terra pobre em rica

E os centos em milhes.

Nem somente o labor,
mas o perigo, a fome,

O frio, a descalcez,

O morrer cada dia uma
morte sem nome,

O morr-la, talvez,

Entre brbaras mos,
como se fora crime,

Como se fora ru

Quem lhe ensinara
aquela ao pura e sublime

De as levantar ao cu!

 Paulos do serto!
Que dia e que batalha!

Venceste-la; e podeis

Entre as dobras dormir
da secular mortalha;

Vivereis, vivereis!

A FLOR DO EMBIRUU

Noite,
melhor que o dia, quem no te ama?

FIL. ELIS.

Quando a noturna
sombra envolve a terra

E  paz convida o
lavrador cansado,

 fresca brisa o seio
delicado

A branca flor do
embiruu descerra.

E das lmpidas
lgrimas que chora

A noite amiga, ela
recolhe alguma;

A vida bebe na ligeira
bruma,

At que rompe no
horizonte a aurora.

Ento,  luz nascente,
a flor modesta,

Quando tudo o que vive
alma recobra,

Languidamente as suas
folhas dobra,

E busca o sono quando
tudo  festa.

Suave imagem da alma
que suspira

E odeia a turba v! da
alma que sente

Agitar-se-lhe a asa
impaciente

E a novos mundos
transportar-se aspira!

Tambm ela ama as
horas silenciosas,

E quando a vida as
lutas interrompe,

Ela da carne os duros
elos rompe,

E entrega o seio s
iluses viosas.

 tudo seu,  tempo,
fortuna, espao,

E o cu azul e os seus
milhes de estrelas;

Abrasada de amor,
palpita ao v-las,

E a todas cinge no
ideal abrao.

O rosto no encara
indiferente,

Nem a traidora mo
cndida aperta;

Das mentiras da vida
se liberta

E entra no mundo que
jamais no mente.

Noite, melhor que o
dia, quem no te ama?

Labor ingrato,
agitao, fadiga,

Tudo faz esquecer tua
asa amiga

Que a alma nos leva
onde a ventura a chama.

Ama-te a flor que
desabrocha  hora

Em que o ltimo olhar
o sol lhe estende,

Vive, embala-se,
orvalha-se, recende,

E as folhas cerra
quando rompe a aurora.

LUA NOVA [21]

Me dos frutos, Jaci,
no alto espao

Ei-la assoma serena e
indecisa:

Sopro  dela esta
lnguida brisa

Que sussurra na terra
e no mar.

No se mira nas guas
do rio,

Nem as ervas do campo
branqueia;

Vaga e incerta ela
vem, como a idia

Que inda apenas comea
a espontar.

E iam todos;
guerreiros, donzelas,

Velhos, moos, as
redes deixavam;

Rudes gritos na aldeia
soavam,

Vivos olhos fugiam
pra o cu:

Iam v-la, Jaci, me
dos frutos,

Que, entre um grupo de
brancas estrelas,

Mal cintila: nem pde
venc-las,

Que inda o rosto lhe
cobre amplo vu.

E um guerreiro: Jaci,
doce amada,

Retempera-me as
foras; no veja

Olho adverso, na dura
peleja,

Este brao j frouxo
cair.

Vibre a seta, que ao
longe derruba

Tajau, que roncando
caminha;

Nem lhe escape
serpente daninha,

Nem lhe fuja pesado
tapir.

E uma virgem: Jaci,
doce amada,

Dobra os galhos,
carrega esses ramos

Do arvoredo coas
frutas que damos

Aos valentes
guerreiros, que eu vou

A busc-los na mata
sombria,

Por traz-los ao moo
prudente,

Que venceu tanta
guerra valente,

E estes olhos consigo
levou.

E um ancio, que a
saudara j muitos,

Muitos dias: Jaci,
doce amada,

D que seja mais longa
a jornada,

D que eu possa
saudar-te o nascer,

Quando o filho do
filho, que hei visto

Triunfar de inimigo
execrando,

Possa as pontas de um
arco dobrando

Contra os arcos
contrrios vencer.

E eles riam os fortes
guerreiros,

E as donzelas e
esposas cantavam,

E eram risos que
dalma brotavam,

E eram cantos de paz e
de amor.

Rude peito criado nas
brenhas,

 Rude embora, 
terreno  propcio;

Que onde o grmen
lanou benefcio

Brota, enfolha,
verdeja, abre em flor.

SABINA

Sabina era mucama da
fazenda;

Vinte anos tinha; e na
provncia toda

No havia mestia mais
 moda,

Com suas roupas de
cambraia e renda.

Cativa, no entrava na
senzala,

Nem tinha mos para
trabalho rude;

Desbrochava-lhe a sua
juventude

Entre carinhos e
afeies de sala.

Era cria da casa. A
sinh-moa,

Que com ela brincou
sendo menina,

Sobre todas amava esta
Sabina,

Com esse ingnuo e
puro amor da roa.

Dizem que  noite, a
suspirar na cama,

Pensa nela o feitor;
dizem que, um dia,

Um hspede que ali
passado havia,

Ps um cordo no colo
da mucama.

Mas que vale uma jia
no pescoo?

No pde haver o
corao da bela.

Se algum lhe acende
os olhos de gazela,

 pessoa maior:  o
senhor moo.

Ora, Otvio cursava a
Academia.

Era um lindo rapaz; a
mesma idade

Coas passageiras flores
o adornava

De cujo extinto aroma
inda a memria

Vive na tarde plida
do outono.

Oh! vinte anos! 
pombas fugitivas

Da primeira estao,
porque to cedo

Voais de ns? Pudesse
ao menos a alma

Guardar consigo as
iluses primeiras,

Virgindade sem preo,
que no paga

Essa descolorida,
rida e seca

Experincia do homem!

Vinte anos

Tinha Otvio, e a
beleza e um ar de corte,

E o gesto nobre, e
sedutor o aspecto;

Um vero Adnis, como
aqui diria

Algum poeta clssico,
daquela

Poesia que foi nobre,
airosa e grande

Em tempos idos, que
ainda bem se foram...

Cursava a Academia o
moo Otvio;

Ia no ano terceiro,
no remoto

Via desenrolar-se o
pergaminho,

Prmio de seus labores
e fadigas;

E uma vez bacharel,
via mais longe

Os curvos braos da
feliz cadeira

Donde o legislador a
rdea empunha

Dos lpidos frises do
Estado. Entanto,

Sobre os livros de
estudo, gota a gota

As horas despendia, e
trabalhava

Por meter na cabea o
jus romano

E o ptrio jus. Nas
suspiradas frias

Volvia ao lar paterno;
ali no dorso

De brioso corcel
corria os campos,

Ou, arma ao ombro,
polvorinho ao lado,

 caa dos veados e
cutias,

Ia matando o tempo.
Algumas vezes

Com o padre vigrio se
entretinha

Em desfiar um ponto de
intrincada

Filosofia, que o
senhor de engenho,

Feliz pai, escutava
glorioso,

Como a rever-se no
brilhante aspecto

De suas ricas
esperanas.

Era

Manh de estio;
erguera-se do leito

Otvio; em quatro
sorvos toda esgota

A taa de caf. Chapu
de palha,

E arma ao ombro, l
foi terreiro fora,

Passarinhar no mato.
Ia costeando

O arvoredo que alm
beirava o rio,

A passo curto, e o
pensamento  larga,

Como leve andorinha
que sasse

Do ninho, a respirar o
hausto primeiro

Da manh. Pela aberta
da folhagem,

Que inda no doura o
sol, uma figura

Deliciosa, um busto
sobre as ondas

Suspende o caador.
Me dgua fora,

Talvez, se a cor de
seus quebrados olhos

Imitasse a do cu; se
a tez morena,

Morena como a esposa
dos Cantares,

Alva tivesse; e raios
de ouro fossem

Os cabelos da cor da
noite escura,

Que ali soltos e
midos lhe caem,

Como um vu sobre o
colo. Trigueirinha,

Cabelo negro, os
largos olhos brandos

Cor de jabuticaba,
quem seria,

Quem, seno a mucama
da fazenda,

Sabina, enfim? Logo a
conhece Otvio,

E nela os olhos
espantados fita

Que desejos acendem. 
Mal cuidando

Daquele estranho
curioso, a virgem

Com os ligeiros braos
rompe as guas,

E ora toda se esconde,
ora ergue o busto,

Talhado pela mo da
natureza

Sobre o modelo
clssico. Na oposta

Riba suspira um
passarinho; e o canto

E a meia luz, e o
sussurrar das guas,

E aquela fada ali, to
doce vida

Davam ao quadro, que o
ardente aluno

Trocara por aquilo,
uma hora ao menos,

A Faculdade, o
pergaminho e o resto.

Sbito erige o corpo a
ingnua virgem.

Com as mos, os
cabelos sobre a espdua

Deita, e rasgando
lentamente as ondas,

Para a margem caminha,
to serena,

To livre como quem de
estranhos olhos

No suspeita a
cobia... Vu da noite,

Se lhos cobrira,
dissipara acaso

Uma histria de
lgrimas. No pode

Furtar-se Otvio 
comoo que o toma;

A clavina que a
esquerda mal sustenta

No cho lhe cai; e o
baque surdo acorda

A descuidada nadadora.
s ondas

A virgem torna. Rompe
Otvio o espao

Que os divide; e de
p, na fina areia,

Que o mole rio lambe,
ereto e firme,

Todo se lhe descobre.
Um grito apenas

Um s grito, mas
nico, lhe rompe

Do corao; terror,
vergonha... e acaso

Prazer, prazer
misterioso e vivo

De cativa que amou
silenciosa,

E que ama e v o
objeto de seus sonhos,

Ali com ela, a
suspirar por ela.

Flor da roa nascida
ao p do rio,

Otvio comeou 
talvez mais bela

Que essas belezas
cultas da cidade,

To cobertas de jias
e de sedas,

Oh! no me negues teu
suave aroma!

Fez-te cativa o bero;
a lei somente

Os grilhes te lanou;
no livre peito

De teus senhores tens
a liberdade,

A melhor liberdade, o
puro afeto

Que te elegeu entre as
demais cativas,

E de afagos te cobre!
Flor do mato,

Mais viosa do que
essas outras flores

Nas estufas criadas e
nas salas,

Rosa agreste nascida
ao p do rio,

Oh! no me negues teu
suave aroma!

Disse, e da riba os
cobiosos olhos

Pelas guas estende,
enquanto os dela,

Cobertos pelas
plpebras medrosas

Choram,  de gosto e
de vergonha a um tempo, 

Duas nicas lgrimas.
O rio

No seio as recebeu;
consigo as leva,

Como gotas de chuva,
indiferente

Ao mal ou bem que lhe
povoa a margem;

Que assim a natureza,
ingnua e dcil

s leis do Criador,
perptua segue

Em seu mesmo caminho,
e deixa ao homem

Padecer e saber que
sente e morre.

Pela azulada esfera
inda trs vezes

A aurora as flores
derramou, e a noite

Vezes trs a mantilha
escura e larga

Misteriosa cingiu. Na
quarta aurora,

Anjo das virgens, anjo
de asas brancas,

Pudor, onde te foste?
A alva capela

Murcha e desfeita pelo
cho lanada,

Coberta a face do
rubor do pejo,

Os olhos com as mos
velando, alaste

Para a Eterna Pureza o
eterno vo.

Quem ao tempo cortar
pudera as asas

Se deleitoso voa? Quem
pudera

Suster a hora
abenoada e curta

Da ventura que foge, e
sobre a terra

O gozo transportar da
eternidade?

Sabina viu correr
tecidos de ouro

Aqueles dias nicos na
vida

Toda enlevo e paixo,
sincera e ardente

Nesse primeiro amor
dalma que nasce

E os olhos abre ao
sol. Tu lhe dormias,

Conscincia; razo, tu
lhe fechavas

A vista interior; e
ela seguia

Ao sabor dessas horas
mal furtadas

Ao cativeiro e 
solido, sem v-lo

O fundo abismo
tenebroso e largo

Que a separa do eleito
de seus sonhos,

Nem pressentir a
brevidade e a morte!

E com que olhos de
pena e de saudade

Viu ir-se um dia pela
estrada fora

Otvio! Aos livros
torna o moo aluno,

No cabisbaixo e
triste, mas sereno

E lpido. Com ela a
alma no fica

De seu jovem senhor.
Lgrima pura,

Muito embora de
escrava, pela face

Lentamente lhe rola, e
lentamente

Toda se esvai num
plido sorriso

De me.

Sabina  me; o sangue livre

Gira e palpita no
cativo seio

E lhe paga de sobra as
dores cruas

Da longa ausncia. Uma
por uma, as horas

Na solido do campo h
de cont-las,

E suspirar pelo remoto
dia

Em que o veja de
novo... Pouco importa,

Se o materno sentir
compensa os males.

Riem-se dela as
outras;  seu nome

O assunto do terreiro.
Uma invejosa

Acha-lhe uns certos
modos singulares

De senhora de engenho;
um pajem moo,

De cobia e cime
devorado,

Desfaz nas graas que
em silncio adora

E consigo medita uma
vingana.

Entre os parceiros,
desfiando a palha

Com que entrana um
chapu, solenemente

Um Caanje ancio
refere aos outros

Alguns casos que viu
na mocidade

De cativas amadas e
orgulhosas

Castigadas do cu por
seus pecados,

Mortas entre os
grilhes do cativeiro.

Assim falavam eles;
tal o aresto

Da opinio. Quem
evit-lo pode

Entre os seus, por
mais baixo que a fortuna

Haja tecido o bero?
Assim falavam

Os cativos do engenho;
e porventura

Sabina o soube e o
perdoou.

Volveram

Aps os dias da
saudade os dias

Da esperana. Ora,
quis fortuna adversa

Que o corao do moo,
to volvel

Como a brisa que passa
ou como as ondas,

Nos cabelos castanhos
se prendesse

De donzela gentil, com
quem atara

O lao conjugal: uma
beleza

Pura, como o primeiro
olhar da vida,

Uma flor desbrochada
em seus quinze anos,

Que o moo viu num dos
seres da corte

E cativo adorou. Que
h de fazer-lhes

Agora o pai? Abenoar
os noivos

E ao regao traz-los
da famlia.

Oh! longa foi, longa e
ruidosa a festa

Da fazenda, por onde
alegre entrara

O moo Otvio
conduzindo a esposa.

Viu-os chegar Sabina,
os olhos secos,

Atnita e pasmada.
Breve o instante

Da vista foi. Rpido
foge. A noite

A seu trmulo p no
tolhe a marcha;

Voa, no corre, ao
malfadado rio,

Onde a voz escutou do
amado moo.

Ali chegando: Morrer
comigo.

O fruto de meu seio; a
luz da terra

Seus olhos no vero;
nem ar da vida

H de aspirar...

Ia a cair nas guas,

Quando sbito horror
lhe toma o corpo;

Gelado o sangue e
trmula recua,

Vacila e tomba sobre a
relva. A morte

Em vo a chama e lhe
fascina a vista;

Vence o instinto de
me. Erma e calada

Ali ficou. Viu-a jazer
a lua

Largo espao da noite
ao p das guas,

E ouviu-lhe o vento os
trmulos suspiros;

Nenhum deles, contudo,
o disse  aurora.

LTIMA JORNADA [22]

I

E ela se foi nesse
claro primeiro,

Aquela esposa msera e
ditosa;

E ele se foi o prfido
guerreiro.

Ela serena ia subindo
e airosa,

Ele  fora de
incgnitos pesares

Dobra a cerviz rebelde
e lutuosa.

Iam assim, iam
cortando os ares,

Deixando embaixo as
frtiles campinas,

E as florestas, e os
rios e os palmares.

Oh! cndidas
lembranas infantinas!

Oh! vida alegre da
primeira taba;

Que aurora vos tomou,
aves divinas?

Como um tronco do mato
que desaba,

Tudo caiu; lei brbara
e funesta:

O mesmo instante cria
e o mesmo acaba.

De esperanas tamanhas
o que resta?

Uma histria, uma
lgrima chorada

Sobre as ltimas ramas
da floresta.

A flor do ip a viu
brotar magoada,

E talvez a guardou no
seio amigo,

Como lembrana da
estao passada.

Agora os dois,
deixando o bosque antigo,

E as campinas, e os
rios e os palmares,

Para subir ao
derradeiro abrigo,

Iam cortando
lentamente os ares.

II

E ele clamava 
moa que ascendia;

 Oh! tu que a doce
luz eterna levas,

E vais viver na regio
do dia,

V como rasgam
brbaras e sevas

As tristezas mortais
ao que se afunda

Quase na fria regio
das trevas!

Olha esse sol que a
criao inunda!

Oh quanta luz, oh!
quanta doce vida

Deixar-me vai na
escurido profunda!

Tu ao menos perdoa-me,
querida!

Suave esposa, que eu
ganhei roubando,

Perdida agora para
mim, perdida!

Ao maldito na morte,
ao miserando,

Que mais lhe resta em
sua noite impura?

Sequer alvio ao
corao nefando.

Nos olhos trago a tua
morte escura.

Foi meu dio cruel que
h decepado,

Ainda em flor, a tua
formosura.

Mensageiro de paz, era
enviado

Um dia  taba de teus
pais, um dia

Que melhor fora se no
fora nado.

Ali te vi; ali, entre
a alegria

De teus fortes
guerreiros e donzelas,

Teu doce rosto para
mim sorria.

A mais bela eras tu
entre as mais belas,

Como no cu a criadora
lua

Vence na luz as
vvidas estrelas.

Gentil nasceste por
desgraa tua;

Eu covarde nasci; tu
me seguiste;

E ardeu a guerra
desabrida e crua.

Um dia o rosto
carregado e triste

 taba de teus pais
volveste, o rosto

Com que alegre e feliz
dali fugiste.

Tinha expirado o
passageiro gosto,

Ou o sangue dos teus,
correndo a fio,

Em teu seio outro
afeto havia posto.

Mas, ou fosse remorso,
ou j fastio,

Ias-te agora leve e
descuidada,

Como folha que o vento
entrega ao rio.

Oh! cora minha
fugitiva e amada!

Anhang te guiou por
mau caminho,

E a morte ps na minha
mo fechada.

Feriu-me da vingana
agudo espinho;

E fiz-te padecer to
cruas penas,

Que inda me di o
corao mesquinho.

Ao contemplar aquelas
tristes cenas

As aves, de piedosas e
sentidas,

Chorando foram
sacudindo as penas.

No viu o cedro ali
correr perdidas

Lgrimas de materno
amado seio;

Viu somente morrer a
flor das vidas.

O que mais houve da
floresta em meio

O sinistro espetculo,
decerto

Nenhum estranho
contempl-lo veio.

Mas, se algum
penetrasse no deserto,

Vira cair pesadamente
a massa

Do corpo do guerreiro;
e o crnio aberto,

Como se fora derramada
taa

Pela terra jazer, ali
chamando

O feio grasno do urubu
que passa.

Em vo a arma do golpe
iro buscando,

Nenhuma houve; nem
guerreiro ousado

A tua morte ali foi
castigando.

Talvez, talvez Tup,
desconsolado,

A pena contemplou
maior do que era

O delito; e de clera
tomado,

Ao mais alto dos Andes
estendera

O forte brao, e da
rvore mais forte

A seta e o arco
vingador colhera;

As pontas lhe dobrou,
da mesma sorte

Que o junco dobra,
sussurrando o vento,

E de um s tiro lhe
enviou a morte.

Ia assim suspirando
este lamento,

Quando subitamente a
voz lhe cala,

Como se a dor lhe
sufocara o alento.

No ar se perdera a
lastimosa fala,

E o infeliz, condenado
 noite escura,

Os dentes range e
treme de encontr-la.

Leva os olhos na viva
aurora pura

Em que v penetrar, j
longe, aquela

Doce, mimosa, virginal
figura.

Assim no campo a
tmida gazela

Foge e se perde; assim
no azul dos mares

Some-se e morre
fugidia vela.

E nada mais se viu
flutuar nos ares;

Que ele, bebendo as
lgrimas que chora,

Na noite entrou dos
imortais pesares,

E ela de todo
mergulhou na aurora.

OS ORIZES [23]

(Fragmento)

I

Nunca as armas
crists, nem do Evangelho

O lume criador, nem
frecha estranha

O vale penetraram dos
guerreiros

Que, entre serros
altssimos sentado,

Orgulhoso descansa.
nico o vento,

Quando as asas
desprega impetuoso,

Os campos varre e as
selvas estremece,

Um pouco leva, ao
recatado asilo,

Da poeira da terra.
Acaso o raio

Alguma vez nos speros
penedos,

Com fogo escreve a
assolao e o susto.

Mas olhos de homem,
no; mas brao afeito

A pleitear na guerra,
a abrir ousado

Caminho entre a
espessura da floresta,

No afrontara nunca os
atrevidos

Muros que a natureza a
pino erguera

Como eterna atalaia.

II

Um povo indcil

Nessas brenhas achou
ditosa ptria,

Livre, como o rebelde
pensamento

Que mpia fora no
doma, e airoso volve

Inteiro  eternidade.
Guerra longa

E porfiosa os adestrou
nas armas;

Rudes so nos costumes
mais que quantos

H criado este sol,
quantos na guerra

O tacape meneiam
vigoroso.

S nas festas de
plumas se ataviam

Ou na pele do tigre o
corpo envolvem,

Que o sol queimou, que
a rispidez do inverno

Endureceu como os
robustos troncos

Que s verga o tufo.
Tecer no usam

A preguiosa rede em
que se embale

O corpo fatigado do
guerreiro,

Nem as tabas erguer
como outros povos;

Mas  sombra das
rvores antigas,

Ou nas medonhas cavas
dos rochedos,

No duro cho, sobre
mofinas ervas,

Acham sono de paz,
jamais tolhido

De ambies, de
remorsos. Indomvel

Essa terra no ;
pronto lhes volve

O semeado po; vicejam
flores

Com que a rudez
tempera a extensa mata,

E o fruto pende dos
curvados ramos

Do arvoredo. Harta messe
do homem rude,

Que tem na ponta da
farpada seta

O pesado tapir, que
lhes no foge,

Nhandu, que  flor de
terra inquieto voa,

Sobejo pasto, e
deleitoso e puro

Da selvagem nao.
Nunca vaidade

De seu nome souberam,
mas a fora,

Mas a destreza do
provado brao

Os foros so do
imprio a que ho sujeito

Todo aquele serto.
Murmuram longe,

Contra eles, as gentes
debeladas

Vingana e dio. Os
ecos repetiram

Muita vez a pocema de
combate;

Nuvens e nuvens de
afiadas setas

Todo o ar cobriram;
mas o extremo grito

Da vitria final s
deles fora.

III

Despem armas de
guerra; a paz os chama

E o seu brbaro rito.
Alveja perto

O dia em que primeiro
a voz levante

A ave sagrada, o nume
de seus bosques,

Que de agouro
chamamos, Cupuaba

Melanclica e feia,
mas ditosa

E benfica entre eles. No se curvam [24]

Ao nome de Tup, que a
noite e o dia

No cu reparte, e ao
rspido guerreiro

Guarda os sonhos do
Ibaque e eternas danas.

Seu deus nico  ela,
a benfazeja

Ave amada, que os
campos despovoa

Das venenosas serpes,
 viva imagem

Do tempo vingador,
lento e seguro,

Que as calnias, a
inveja e o dio apagam,

E ao conspurcado nome
o alvor primeiro

Restitui. Uso  deles
celebrar-lhe

Com festas o primeiro
e o extremo canto.

IV

Terminara o cruento
sacrifcio.

Ensopa o cho da
dilatada selva

Sangue de caititus,
que o pio intento

Largos meses cevou;
brbara usana

Tambm de alheios
climas. As donzelas,

Mal sadas da
infncia, inda embebidas

Nos ledos jogos de
primeira idade,

Ao brutal
sacrifcio... Oh! cala, esconde,

Lbio cristo, mais brbaro
costume.

V

Agora a dana, agora
alegres vinhos,

Trs dias h que de
inimigos povos

Esquecidos os trazem.
Sobre um tronco

Sentado o chefe,
carregado o rosto,

Inquieto o olhar, o
gesto pensativo,

Como alheio ao prazer,
de quando em quando

 multido dos seus a
vista alonga,

E um rugido no peito
lhe murmura.

Quem a fronte enrugara
do guerreiro?

Inimigo no foi, que o
medo nunca

O sangue lhe esfriou,
nem vo receio

Da batalha futura o
desenlace

Lhe fez incerto.
Intrpidos como ele

Poucos vira este cu.
Seu forte brao,

Quando vibra o tacape
nas pelejas,

De rasgados cadveres
o campo

Inteiro alastra, e ao
peito do inimigo,

Como um grito de morte
a voz lhe soa.

Nem s nas gentes o
terror infunde;

 fama que em seus
olhos cor da noite,

Inda criana, um gnio
lhe deixara

Misteriosa luz, que as
foras quebra

Da ona e do jaguar.
Certo  que um dia

(A tribo o conta, e
seus pajs o juram)

Um dia em que, do
filho acompanhado,

Ia costeando a orla da
floresta,

Um possante jaguar,
escancarando

A boca, em frente do
famoso chefe

Estacara. De longe um
grito surdo

Solta o jovem
guerreiro; logo a seta

Embebe no arco, e o
tiro sibilante

Ia j disparar, quando
de assombro

A mo lhe afrouxa a
distendida corda.

A fera o colo tmida
abatera,

Sem ousar despregar os
fulvos olhos

Dos olhos do inimigo.
Urete ousado

Arco e frechas atira
para longe,

A maa empunha, e
lento, e lento avana;

Trs vezes volteando a
arma terrvel,

Enfim despede o golpe;
um grito apenas

nico atroa o
solitrio campo,

E a fera jaz, e o
vencedor sobre ela.

CANTIGA DO ROSTO
BRANCO [25]

Rico era o rosto
branco; armas trazia,

E o licor que devora e
as finas telas;

Na gentil Tibema os
olhos pousa,

E amou a flor das belas.

Quero-te! disse 
cortes da aldeia;

Quando, junto de ti,
teus olhos miro,

A vista se me turva,
as foras perco,

E quase, e quase expiro.

E responde a morena
requebrando

Um olhar doce, de
cobia cheio:

Deixa em teus lbios
imprimir meu nome;

Aperta-me em teu seio!

Uma cabana levantaram
ambos,

O rosto branco e a
amada flor das belas...

Mas as riquezas
foram-se coo tempo,

E as iluses com elas.

Quando ele empobreceu,
a amada moa

Noutros lbios pousou
seus lbios frios,

E foi ouvir de corao
estranho

Alheios desvarios.

Desta infidelidade o
rosto branco

Triste nova colheu;
mas ele amava,

Inda infiis, aqueles
lbios doces,

E tudo perdoava.

Perdoava-lhe tudo, e
inda corria

A mendigar o gro de
porta em porta,

Com que a moa
nutrisse, em cujo peito

Jazia a afeio morta.

E para si, para afogar
a mgoa,

Se um pouco havia do
licor ardente,

A dor que o devorava e
renascia

Matava lentamente.

Sempre trado, mas
amando sempre,

Ele a razo perdeu;
foge  cabana,

E vai correr na
solido do bosque

Uma carreira insana.

O famoso Sachm,
ancio da tribo,

Vendo aquela traio e
aquela pena,

 ingrata filha
duramente fala,

E rspido a condena.

Em vo!  duro o fruto
da papaia,

Que o lbio do homem
acha doce e puro;

Corao de mulher que
j no ama

Esse  inda mais duro.

Nu, qual sara do
materno ventre,

Olhos cavos, a barba
emaranhada,

O msero tornou, e ao
prprio teto

Veio pedir pousada.

Volvido se cuidava  flor
da infncia

(To escuro trazia o
pensamento).

Me! exclamava
contemplando a moa,

Acolhe-me um momento!

Vinha faminto.
Tibema, entanto,

Que j de outro
guerreiro os dons houvera,

Sentiu asco daquele
que outro tempo

As riquezas lhe dera.

Fora o lanou; e ele
expirou gemendo

Sobre folhas deitado
junto  porta;

Anos volveram; coos
volvidos anos,

Tibema era morta.

Quem ali passa,
contemplando os restos

Da cabana, que a erva
toda esconde:

Que runas so
essas?, interroga.

E ningum lhe responde.

[1] Simo de Vasconcelos no declara o nome da ndia, cuja
ao refere em sua Crnica.

Achei que no foi o caso desta
tamoia o nico em que to galhardamente se manifestou a fidelidade conjugal e
crist. O padre Anchieta, na carta escrita ao padre-mestre Laynes, a 16 de
abril de 1563, menciona o exemplo de uma ndia, mulher de um colono, a qual,
depois de lho matarem os ndios, caiu em poder destes, cujo Principal a quis
violentar. Ela resistiu e desapareceu. Os ndios fizeram correr a voz de que se
matara; Anchieta supe que ls mesmos lhe tiraram a vida. Caso anlogo 
referido pelo padre Joo Daniel (Tesouro descoberto no Amazonas, p. II,
cap. III); essa chama-se Esperana e era da aldeia de Cabu.

[2] A vila de so Vicente.

[3] Conduz nos braos trmulos a moa

Que renegou Tup...

Tinham os ndios a religio monotesta que a tradio lhes atribui? Nega-o
positivamente o Sr. Dr. Couto de Magalhes em seu excelente estudo acerca dos
selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavra Tup nas tribos
que freqentou, e ser inadmissvel a idia de tal deus, no estado rudimentrio
dos nossos aborgenes.

O Sr. Dr. Magalhes restituiu aos selvagens a teogonia verdadeira. No
integralmente, mas s em relao ao sol e  lua (Coaraci e Jaci), acho
notcia dela no Tesouro do padre Joo Daniel; e o que ento faziam os
ndios, quando aparecia a lua nova, me serviu  composio que vai includa
neste livro.

Sem embargo das razes alegadas pelo Sr. Dr. Magalhes, que todas so de
incontestvel procedncia, conservei Tup nos versos que ora dou a lume; fi-lo
por ir com as tradies literrias que achei, tradies que nada valem no
terreno da investigao cientfica, mas que tm por si o serem aceitas e
haverem adquirido um como direito de cidade.

[4] Quando ferve o cauim...

 ocioso explicar em notas o
sentido desta palavra e de outras, como pocema, muurana, tangapema,
canitar, com as quais todo leitor brasileiro est familiarizado, graas
ao uso que delas tm feito poetas e prosadores.  tambm desnecessrio fundamentar
com trechos das crnicas a cena do sacrifcio do prisioneiro, na estncia XI;
so coisas comezinhas.

[5] As asas colhe

Guanumbi, e
o aguado bico embebe

No tronco,
onde repousa adormecido

At que volte uma estao
de flores...

Simo de Vasconcelos (Not. do
Bras., livro 2), citando Marcgraff e outro autores, conta, como
verdadeira, a fbula a que aludem estes versos. Aproveitou-se dali uma
comparao potica: nada mais.

[6] Cova funda

Da terra, me comum...

Veja G. Dias, lt.
Cant., pg. 159:

...Quando o meu corpo

 terra, me comum...

[7] Intil foges; gavio te espreita...

Anaj, na lngua
geral, quer dizer gavio.

[8] Panenioxe  guerreiro

Da velha, dura
nao...

Tratando de descobrir a
significao de Panenioxe, conforme escreve Rodrigues Prado, apenas
achei no escasso vocabulrio guaicuru, que vem em Aires do Casal, a palavra nioxe
traduzida por jacar. No pude acertar com a significao do primeiro membro da
palavra, pane; h talvez relao entre ele e o nome do rio Ipan.

[9] Estas duas armas
(lana e faco) tm sido tomadas aos portugueses e espanhis, e algumas
compradas a estes, que inadvertidamente lhas tm vendido. (RODR. PRADO, Hist.
dos nd. Cav.)

[10] Nini ao melhor deles

No dera o seu
corao...

Nini  o nome
transcrito na Hist. dos nd. Cav. Na lngua geral temos nini, que Martius traduz por
infans. Esta forma pareceu mais graciosa; e no duvidei adot-la, desde
que o meu distinto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, dialeto
guaicuru, de que ela h feito estudos, nini exprime a idia de moa
franzina, delicada, no lhe parecendo que existia a forma
empregada na monografia de Rodrigues Prado.

[11] Os Guaicurus dividem-se
em nobres, plebeus ou soldados, e cativos. Do prprio texto que me serviu esta
composio se v a que ponto repugna aos nobres toda a aliana com pessoas de
condio inferior.

A este propsito direi a anedota que me foi referida por um distinto oficial da
nossa armada, o capito-de-fragata Sr. Henrique Batista, que em 1857 esteve no
Paraguai comandando o Japor, entre o forte Coimbra e o estabelecimento
Sebastopol. Ia muita vez a bordo do Japor um chefe guaicuru,
Capitozinho, muito amigo da nossa oficialidade. Tinha ele uma irm, que outro
chefe guaicuru, Lapagata, cortejava e desejava receber por esposa. Lapagata
recebera o ttulo de capito das mos do presidente de Mato-Grosso. Opunha-se
com todas as foras ao enlace o Capitozinho. Um dia, perguntando-lhe o Sr. H.
Batista por que motivo no consentia no casamento da irm com Lapagata,
respondeu altivo e Guaicuru:  Oponho-me, porque eu sou capito por herana de
meu pai, que j o era por herana do pai dele. Lapagata  capito de papel.

[12] As bocaivas servem de
alimento aos Guaicurus; nas proximidades de sazonarem os cocos fazem eles
grandes festas. (Veja CASAL E PRADO).

[13] Colar de prata no usa,

Como usava
de trazer;

Pulseiras de
finas contas

Todas as veio a romper...

Tais eram os adornos
das mulheres guaicurus. (Veja PRADO e DAZARA).

[14] As moas ricas vo
enfeitadas, como se ornariam para o prprio noivado. (AIRES DO CASAL, Coroa.,
280).

[15] leo que a unge,

Finas telas
que a vestem, atavios

De ouro e
prata que o colo e os braos lhe ornam,

E a flor de
trigo e mel de que se nutre,

Sonhos, so sonhos do
profeta...

Alude a um trecho do profeta Daniel:

9  E lavei-te na gua, e
alimpei-te do teu sangue; e te ungi com um leo;

13  E foste enfeitada de ouro e
prata, e vestida de linho e de roupas bordadas, e de diversas cores;
nutriste-te da farinha e de mel e de azeite, e foste mui aformoseada em
extremo.  (DANIEL, XV)

[16] ...a delicada virgem

Que entre os rios
nasceu...

Rebeca, filha da Mesopotmia.

[17] Bento do Amaral Gurgel,
que dirigiu a companhia de estudantes por ocasio daquela e da seguinte
invaso, em 1711.

[18] Israel tem vertido

Um mar de sangue. Embora!  tona dele

Verdeja a nossa f...

ngela pratica o
inverso daquele conselho atribudo aos rabinos de Constantinopla, respondendo
aos judeus de Espanha que batizassem os corpos, conservando as almas firmes na
Lei. ngela conserva o batismo da alma, e entrega o corpo ao suplcio como se
fosse verdadeiramente judeu. Nega a f com os lbios, confessando-a no corao:
maneira de conciliar o sentimento cristo e a piedade filial.

[19] A verdadeira pronncia
desta palavra  an-hanga.  outro caso em que fui antes com a maneira
corrente e comum na poesia.

[20] Il y
aurait une fort grande injustice  juger jsuites au seizime sicle et leurs
travaux, daprs les ides que peut inspirer le systme suivi dans missions. L on peut voir ds
projets ambitieux sallier  ds vues habiles: dans ls premiers travaux
executes par les pres de la compagnie, au Brsil, tout fut dsintress; et au
besoin, Le rcit de leurs souffrances pourrait le prouver. (F. DENIS, Le
Brsil).

[21] ... E na verdade tem
ocasies em que festejam muito a lua, como quando aparece nova; porque ento
saem de suas choupanas, do saltos de prazer, sadam-na e do-lhe as boas
vindas. (JOO DANIEL, Tes. descob. no Amaz., part. II, cap. X).

[22] No me recordo de haver
lido nos velhos escritos sobre os nossos aborgenes a crena que Montaigne lhes
atribui acerca das almas boas e ms. Este grande moralista tinha informaes
certamente exatas a respeito dos ndios; e aquela crena traz certamente um ar
de verossimilhana. No foi s isso o que me induziu a fazer tais versos; mas
tambm o que achei potico e gracioso na abuso.

[23]
        Tinha planeado uma composio de
dimenses maiores, e no a levei a cabo, por intervirem outros trabalhos, que
de todo me divertiram a ateno. Foi o nosso iminente poeta e literato Porto
Alegre, hoje baro de Santo ngelo, que h cerca de quatro anos, me chamou a
ateno para a relao de Monterroyo Mascarenhas, Os Orizes conquistados,
que vem na Rev. Inst. Hist., t. VIII.

A aspereza dos costumes daquele povo, habitante do serto  da Bahia, cerca
de duzentas lguas da capital, sua rara energia, as circunstncias singulares
da conquista e converso da tribo, eram certamente um quadro excelente para uma
composio potica. Ficou em fragmento, que ainda assim no quis excluir do
livro.

[24] A ave sagrada, o nume de seus bosques,

Que de
agouro chamamos, Cupuaba

Melanclica
e feia, mas ditosa

E benfica entre
eles...

Lastimosamente cegos
de dircurso, reconhecem e adoram por deus a coruja, chamando na sua linguagem Oitip-cupuaaba;
e o motivo de sua adorao consiste na benefcio que recebem desta ave, que,
naturalmente inimiga das cobras, numerosssimas naquele pas, as espia nos
matos, e lhes tira a vida. (J. F. MONTERROYO MASCARENHAS, Os Orizes
conquistados).

[25]
        No 
original esta composio; o original  propriamente indgena. Pertence  tribo
dos Molcogulges, e foi traduzida da lngua deles por Chateaubriand (Voy.
dans dAmr). Tinham aqueles selvagens fama de msicos, como os nossos
Tamoios. Na terceira noite da festa do milho (l-se no livro de Chateaubriand)
renem-se no lugar do conselho e disputam a prmio do canto. O prmio 
conferido pelo chefe verde. Concorrem as mulheres tambm, e algumas tm sado
vencedoras; uma de suas odes ficou clebre.

A ode clebre  a composio que transladei para a nossa lngua. O ttulo na
traduo em prosa de Chateaubriand   Chanson de La chair blanch.

Sobre o talento das mulheres para a poesia, tambm o tivemos em tribos nossas.
Veja-se FERNO CARDIM, Narrativa de uma viajem e misso.
