Conto, Papis Avulsos, 1882

Papis Avulsos

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente por
Lombaerts & Cia, Rio de Janeiro, 1882.

NDICE

ADVERTNCIA

O
ALIENISTA

TEORIA DO MEDALHO

A
CHINELA TURCA

NA
ARCA

D.
BENEDITA

O
SEGREDO DO BONZO

O
ANEL DE POLCRATES

O
EMPRSTIMO

A SERENSSIMA REPBLICA

O ESPELHO

UMA VISITA DE ALCIBADES

VERBA TESTAMENTRIA

NOTAS DO AUTOR

ADVERTNCIA

Este ttulo de Papis Avulsos
parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vrios
escritos de ordem diversa para o fim de os no perder. A verdade  essa, sem
ser bem essa. Avulsos so eles, mas no vieram para aqui como passageiros, que
acertam de entrar na mesma hospedaria. So pessoas de uma s famlia, que a
obrigao do pai fez sentar  mesma mesa.

Quanto ao gnero deles, no sei que diga que no seja
intil. O livro est nas mos do leitor. Direi somente, que se h aqui pginas
que parecem meros contos e outras que o no so, defendo-me das segundas com
dizer que os leitores das outras podem achar nelas algum interesse, e das
primeiras defendo-me com So Joo e Diderot. O evangelista, descrevendo a
famosa besta apocalptica, acrescentava (XVII, 9): E aqui h sentido, que tem
sabedoria. Menos a sabedoria, cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot,
ningum ignora que ele, no s escrevia contos, e alguns deliciosos, mas at
aconselhava a um amigo que os escrevesse tambm. E eis a razo do
enciclopedista:  que quando se faz um conto, o esprito fica alegre, o tempo
escoa-se, e o conto da vida acaba, sem a gente dar por isso.

Deste modo, venha donde vier o
reproche*, espero
que da mesmo vir a absolvio.

Machado de Assis

Outubro de 1882.

O ALIENISTA

NDICE

CAPTULO
PRIMEIRO

CAPTULO
II

CAPTULO
III

CAPTULO
IV

CAPTULO
V

CAPTULO
VI

CAPTULO
VII

CAPTULO
VIII

CAPTULO
IX

CAPTULO
X

CAPTULO
XI

CAPTULO
XII

CAPTULO
XIII

CAPTULO PRIMEIRO

DE COMO ITAGUA GANHOU UMA CASA DE
ORATES

As crnicas da vila de Itagua dizem que em tempos remotos
vivera ali um certo mdico, o Dr. Simo Bacamarte, filho da nobreza da terra e
o maior dos mdicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra
e Pdua. Aos trinta e quatro anos regressou ao Brasil, no podendo el-rei
alcanar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa,
expedindo os negcios da monarquia.

 A cincia, disse ele a Sua Majestade,  o meu emprego
nico; Itagua  o meu universo.

Dito isso, meteu-se em Itagua, e entregou-se de corpo e
alma ao estudo da cincia, alternando as curas com as leituras, e demonstrando
os teoremas com cataplasmas. Aos quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e
Mascarenhas, senhora de vinte e cinco anos, viva de um juiz-de-fora, e no
bonita nem simptica. Um dos tios dele, caador de pacas perante o Eterno, e
no menos franco, admirou-se de semelhante escolha e disse-lho. Simo Bacamarte
explicou-lhe que D. Evarista reunia condies fisiolgicas e anatmicas de
primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso, e
excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sos e
inteligentes. Se alm dessas prendas,  nicas dignas da preocupao de um
sbio, D. Evarista era mal composta de feies, longe de lastim-lo,
agradecia-o a Deus, porquanto no corria o risco de preterir os interesses da
cincia na contemplao exclusiva, mida e vulgar da consorte.

D. Evarista mentiu s esperanas do Dr. Bacamarte, no lhe
deu filhos robustos nem mofinos. A ndole natural da cincia  a longanimidade;
o nosso mdico esperou trs anos, depois quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo
fez um estudo profundo da matria, releu todos os escritores rabes e outros,
que trouxera para Itagua, enviou consultas s universidades italianas e
alems, e acabou por aconselhar  mulher um regmen alimentcio especial. A
ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itagua, no
atendeu s admoestaes do esposo; e  sua resistncia,  explicvel, mas
inqualificvel,  devemos a total extino da dinastia dos Bacamartes.

Mas a cincia tem o inefvel dom de curar todas as mgoas;
o nosso mdico mergulhou inteiramente no estudo e na prtica da medicina. Foi
ento que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a ateno,  o recanto
psquico, o exame da patologia cerebral. No havia na colnia, e ainda no
reino, uma s autoridade em semelhante matria, mal explorada, ou quase
inexplorada. Simo Bacamarte compreendeu que a cincia lusitana, e
particularmente a brasileira, podia cobrir-se de louros imarcescveis, 
expresso usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade domstica;
exteriormente era modesto, segundo convm aos sabedores.

 A sade da alma, bradou ele,  a ocupao mais digna do
mdico.

 Do verdadeiro mdico, emendou Crispim Soares, boticrio
da vila, e um dos seus amigos e comensais.

A vereana de Itagua, entre outros pecados de que 
argida pelos cronistas, tinha o de no fazer caso dos dementes. Assim  que
cada louco furioso era trancado em uma alcova, na prpria casa, e, no curado,
mas descurado, at que a morte o vinha defraudar do benefcio da vida; os
mansos andavam  solta pela rua. Simo Bacamarte entendeu desde logo reformar
to ruim costume; pediu licena  Cmara para agasalhar e tratar no edifcio
que ia construir todos os loucos de Itagua e das demais vilas e cidades,
mediante um estipndio, que a Cmara lhe daria quando a famlia do enfermo o
no pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou
grande resistncia, to certo  que dificilmente se desarraigam hbitos
absurdos, ou ainda maus. A idia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em
comum, pareceu em si mesma um sintoma de demncia, e no faltou quem o
insinuasse  prpria mulher do mdico.

 Olhe, D. Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigrio do
lugar, veja se seu marido d um passeio ao Rio de Janeiro. Isso de estudar
sempre, sempre, no  bom, vira o juzo.

D. Evarista ficou aterrada, foi ter com o marido,
disse-lhe que estava com desejos, um principalmente, o de vir ao Rio de
Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a certo fim. Mas aquele
grande homem, com a rara sagacidade que o distinguia, penetrou a inteno da
esposa e redargiu-lhe sorrindo que no tivesse medo. Dali foi  Cmara, onde
os vereadores debatiam a proposta, e defendeu a com tanta eloqncia, que a
maioria resolveu autoriz-lo ao que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto
destinado a subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos pobres.
A matria do imposto no foi fcil ach-la; tudo estava tributado em Itagua.
Depois de longos estudos, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos
cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche morturio
pagaria dois tostes  Cmara, repetindo-se tantas vezes esta quantia quantas
fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da ltima bno na
sepultura. O escrivo perdeu-se nos clculos aritmticos do rendimento possvel
da nova taxa; e um dos vereadores, que no acreditava na empresa do mdico,
pediu que se relevasse o escrivo de um trabalho intil.

 Os clculos no so precisos, disse ele, porque o Dr.
Bacamarte no arranja nada. Quem  que viu agora meter todos os doidos dentro
da mesma casa?

Enganava-se o digno magistrado; o mdico arranjou tudo.
Uma vez empossado da licena comeou logo a construir a casa. Era na Rua Nova,
a mais bela rua de Itagua naquele tempo, tinha cinqenta janelas por lado, um
ptio no centro, e numerosos cubculos para os hspedes. Como fosse grande
arabista, achou no Coro que Maom declara venerveis os doidos, pela considerao
de que Al lhes tira o juzo para que no pequem. A idia pareceu-lhe bonita e
profunda, e ele a fez gravar no frontispcio da casa; mas, como tinha medo ao
vigrio, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a Benedito VIII,
merecendo com essa fraude alis pia, que o Padre Lopes lhe contasse, ao almoo,
a vida daquele pontfice eminente.

A Casa Verde foi o nome dado ao asilo, por aluso  cor
das janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itagua. Inaugurou-se com
imensa pompa; de todas as vilas e povoaes prximas, e at remotas, e da
prpria cidade do Rio de Janeiro, correu gente para assistir s cerimnias, que
duraram sete dias. Muitos dementes j estavam recolhidos; e os parentes tiveram
ocasio de ver o carinho paternal e a caridade crist com que eles iam ser
tratados. D. Evarista, contentssima com a glria do marido, vestira-se
luxuosamente, cobriu-se de jias, flores e sedas. Ela foi uma verdadeira rainha
naqueles dias memorveis; ningum deixou de ir visit-la duas e trs vezes,
apesar dos costumes caseiros e recatados do sculo, e no s a cortejavam como
a louvavam; porquanto,  e este fato  um documento altamente honroso para a
sociedade do tempo,  porquanto viam nela a feliz esposa de um alto esprito,
de um varo ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e nobre inveja dos
admiradores.

Ao cabo de sete dias expiraram as festas pblicas; Itagua
tinha finalmente uma casa de Orates.

CAPTULO II

TORRENTE DE LOUCOS

Trs dias depois, numa expanso ntima com o boticrio
Crispim Soares, desvendou o alienista o mistrio do seu corao.

 A caridade, Sr. Soares, entra decerto no meu
procedimento, mas entra como tempero, como o sal das coisas, que  assim que
interpreto o dito de S. Paulo aos Corntios: Se eu conhecer quanto se pode
saber, e no tiver caridade, no sou nada. O principal nesta minha obra da
Casa Verde  estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus,
classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do fenmeno e o remdio
universal. Este  o mistrio do meu corao. Creio que com isto presto um bom
servio  humanidade.

 Um excelente servio, corrigiu o boticrio.

 Sem este asilo, continuou o alienista, pouco poderia
fazer; ele d-me, porm, muito maior campo aos meus estudos.

 Muito maior, acrescentou o outro.

E tinham razo. De todas as vilas e arraiais vizinhos
afluam loucos  Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomanacos, era
toda a famlia dos deserdados do esprito. Ao cabo de quatro meses, a Casa
Verde era uma povoao. No bastaram os primeiros cubculos; mandou-se anexar
uma galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que no imaginara a
existncia de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicvel de alguns
casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilo, que todos os dias, depois do
almoo, fazia regularmente um discurso acadmico, ornado de tropos, de
antteses, de apstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de
Ccero, Apuleio e Tertuliano. O vigrio no queria acabar de crer. Qu! um
rapaz que ele vira, trs meses antes, jogando peteca na rua!

 No digo que no, respondia-lhe o alienista; mas a
verdade  o que Vossa Reverendssima est vendo. Isto  todos os dias.

 Quanto a mim, tornou o vigrio, s se pode explicar pela
confuso das lnguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura;
provavelmente, confundidas antigamente as lnguas,  fcil troc-las agora,
desde que a razo no trabalhe...

 Essa pode ser, com efeito, a explicao divina do
fenmeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas no 
impossvel que haja tambm alguma razo humana, e puramente cientfica, e disso
trato...

 V que seja, e fico ansioso. Realmente!

Os loucos por amor eram trs ou quatro, mas s dois
espantavam pelo curioso do delrio. O primeiro, um Falco, rapaz de vinte e
cinco anos, supunha-se estrela dalva, abria os braos e alargava as pernas,
para dar-lhes certa feio de raios, e ficava assim horas esquecidas a
perguntar se o sol j tinha sado para ele recolher-se. O outro andava sempre,
sempre, sempre,  roda das salas ou do ptio, ao longo dos corredores, 
procura do fim do mundo. Era um desgraado, a quem a mulher deixou por seguir um
peralvilho. Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes no
encalo; achou-os duas horas depois, ao p de uma lagoa, matou-os a ambos com
os maiores requintes de crueldade.

O cime satisfez-se, mas o vingado estava louco. E ento
comeou aquela nsia de ir ao fim do mundo  cata dos fugitivos.

A mania das grandezas tinha exemplares notveis. O mais
notvel era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que narrava s paredes
(porque no olhava nunca para nenhuma pessoa) toda a sua genealogia, que era
esta:

 Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada, a
espada engendrou Davi, Davi engendrou a prpura, a prpura engendrou o duque, o
duque engendrou o marqus, o marqus engendrou o conde, que sou eu.

Dava uma pancada na testa, um estalo com os dedos, e
repetia cinco, seis vezes seguidas:

 Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.

Outro da mesma espcie era um escrivo, que se vendia por
mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania era distribuir
boiadas a toda a gente, dava trezentas cabeas a um, seiscentas a outro, mil e
duzentas a outro, e no acabava mais. No falo dos casos de monomania
religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se Joo de Deus, dizia agora
ser o deus Joo, e prometia o reino dos cus a quem o adorasse, e as penas do
inferno aos outros; e depois desse, o licenciado Garcia, que no dizia nada,
porque imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma s palavra, todas as
estrelas se despegariam do cu e abrasariam a terra; tal era o poder que
recebera de Deus.

Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava
dar, menos por caridade do que por interesse cientfico.

Que, na verdade, a pacincia do alienista era ainda mais
extraordinria do que todas as manias hospedadas na Casa Verde; nada menos que
assombrosa. Simo Bacamarte comeou por organizar um pessoal de administrao;
e, aceitando essa idia ao boticrio Crispim Soares, aceitou-lhe tambm dois
sobrinhos, a quem incumbiu da execuo de um regimento que lhes deu, aprovado
pela Cmara, da distribuio da comida e da roupa, e assim tambm na escrita,
etc. Era o melhor que podia fazer, para somente cuidar do seu ofcio.

 A Casa Verde, disse ele ao vigrio,  agora uma espcie
de mundo, em que h o governo temporal e o governo espiritual. E o Padre
Lopes ria deste pio trocado,  e acrescentava,  com o nico fim de dizer
tambm uma chalaa:  Deixe estar, deixe estar, que hei de mand-lo denunciar
ao papa.

Uma vez desonerado da administrao, o alienista procedeu a
uma vasta classificao dos seus enfermos. Dividiu-os primeiramente em duas
classes principais: os furiosos e os mansos; da passou s subclasses,
monomanias, delrios, alucinaes diversas. Isto feito, comeou um estudo
aturado e contnuo; analisava os hbitos de cada louco, as horas de acesso, as
averses, as simpatias, as palavras, os gestos, as tendncias; inquiria da vida
dos enfermos, profisso, costumes, circunstncias da revelao mrbida,
acidentes da infncia e da mocidade, doenas de outra espcie, antecedentes na
famlia, uma devassa, enfim, como a no faria o mais atilado corregedor. E cada
dia notava uma observao nova, uma descoberta interessante, um fenmeno
extraordinrio. Ao mesmo tempo estudava o melhor regmen, as substncias
medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos, no s os que vinham
nos seus amados rabes, como os que ele mesmo descobria,  fora de sagacidade
e pacincia. Ora, todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo. Mal
dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se trabalhasse, porque ora
interrogava um texto antigo, ora ruminava uma questo, e ia muitas vezes de um
cabo a outro do jantar sem dizer uma s palavra a D. Evarista.

CAPTULO III

DEUS SABE O QUE FAZ!

A ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais
desgraada das mulheres; caiu em profunda melancolia, ficou amarela, magra,
comia pouco e suspirava a cada canto. No ousava
fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque respeitava nele o seu marido e
senhor, mas padecia calada, e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como
lhe perguntasse o marido o que  que tinha, respondeu tristemente que nada;
depois atreveu-se um pouco, e foi ao ponto de dizer que se considerava to
viva como dantes. E acrescentou:

 Quem diria nunca que meia dzia de lunticos...

No acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos
ao teto,  os olhos, que eram a sua feio mais insinuante,  negros, grandes,
lavados de uma luz mida, como os da aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que
empregara no dia em que Simo Bacamarte a pediu em casamento. No dizem as
crnicas se D. Evarista brandiu aquela arma com o perverso intuito de degolar
de uma vez a cincia, ou, pelo menos, decepar-lhe as mos; mas a conjetura  verossmil.
Em todo caso, o alienista no lhe atribuiu outra inteno. E no se irritou o
grande homem, no ficou sequer consternado. O metal de seus olhos no deixou de
ser o mesmo metal, duro, liso, eterno, nem a menor prega veio quebrar a
superfcie da fronte quieta como a gua de Botafogo. Talvez um sorriso lhe
descerrou os lbios, por entre os quais filtrou esta palavra macia como o leo
do Cntico:

 Consinto que vs dar um passeio ao Rio de Janeiro.

D. Evarista sentiu faltar-lhe o cho debaixo dos ps.
Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto no fosse sequer uma plida
sombra do que hoje , todavia era alguma coisa mais do que Itagua. Ver o Rio
de Janeiro, para ela, equivalia ao sonho do hebreu cativo. Agora,
principalmente, que o marido assentara de vez naquela povoao interior, agora
 que ela perdera as ltimas esperanas de respirar os ares da nossa boa
cidade; e justamente agora  que ele a convidava a realizar os seus desejos de
menina e moa. D. Evarista no pde dissimular o gosto de semelhante proposta.
Simo Bacamarte pegou-lhe na mo e sorriu,  um sorriso tanto ou quanto
filosfico, alm de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento: 
No h remdio certo para as dores da alma; esta senhora definha, porque lhe
parece que a no amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se. E porque era
homem estudioso tomou nota da observao.

Mas um dardo atravessou o corao de D. Evarista.
Conteve-se, entretanto: limitou-se a dizer ao marido, que, se ele no ia, ela
no iria tambm, porque no havia de meter-se sozinha pelas estradas.

 Ir com sua tia, redargiu o alienista.

Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas no
quisera pedi-lo nem insinu-lo, em primeiro lugar porque seria impor grandes
despesas ao marido, em segundo lugar porque era melhor, mais metdico e
racional que a proposta viesse dele.

 Oh! mas o dinheiro que ser preciso gastar! suspirou D.
Evarista sem convico.

 Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda
ontem o escriturrio prestou-me contas. Queres ver?

E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era
uma via-lctea de algarismos. E depois levou-a s arcas, onde estava o
dinheiro.

Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados,
dobres sobre dobres; era a opulncia.

Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o
alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais prfida das aluses:

 Quem diria que meia dzia de lunticos...

D. Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita
resignao:

 Deus sabe o que faz!

Trs meses depois efetuava-se a jornada. D. Evarista, a
tia, a mulher do boticrio, um sobrinho deste, um padre que o alienista
conhecera em Lisboa, e que de aventura achava-se em Itagua, cinco ou seis
pajens, quatro mucamas, tal foi a comitiva que a populao viu dali sair em
certa manh do ms de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para
o alienista. Conquanto as lgrimas de D. Evarista fossem abundantes e sinceras,
no chegaram a abal-lo. Homem de cincia, e s de cincia, nada o consternava
fora da cincia; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasio, se ele deixava
correr pela multido um olhar inquieto e policial, no era outra coisa mais do
que a idia de que algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de
juzo.

 Adeus! soluaram enfim as damas e o boticrio.

E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa,
trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que vinha montado;
Simo Bacamarte alongava os seus pelo horizonte adiante, deixando ao cavalo a
responsabilidade do regresso. Imagem vivaz do gnio e do vulgo! Um fita o
presente, com todas as suas lgrimas e saudades, outro devassa o futuro com
todas as suas auroras.

CAPTULO IV

UMA TEORIA NOVA

Ao passo que D. Evarista, em lgrimas, vinha buscando o
Rio de Janeiro, Simo Bacamarte estudava por todos os lados uma certa idia
arrojada e nova, prpria a alargar as bases da psicologia. Todo o tempo que lhe
sobrava dos cuidados da Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em
casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e virgulando as falas
de um olhar que metia medo aos mais hericos.

Um dia de manh,  eram passadas trs semanas,  estando
Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o
alienista o mandava chamar.

 Trata-se de negcio importante, segundo ele me disse,
acrescentou o portador.

Crispim empalideceu. Que negcio importante podia ser, se no
alguma triste notcia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este
tpico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas:
Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram separados um s
dia. Assim se explicam os monlogos que ele fazia agora, e que os fmulos lhe
ouviam muita vez:  Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de
Cesria? Bajulador, torpe bajulador! S para adular ao Dr. Bacamarte. Pois
agora agenta-te; anda, agenta-te, alma de lacaio, fracalho, vil, miservel.
Dizes amm a tudo, no ? a tens o lucro, biltre!  E muitos outros
nomes feios, que um homem no deve dizer aos outros, quanto mais a si mesmo.
Daqui a imaginar o efeito do recado  um nada. To depressa ele o recebeu como
abriu mo das drogas e voou  Casa Verde.

Simo Bacamarte recebeu-o com a alegria prpria de um
sbio, uma alegria abotoada de circunspeo at o pescoo.

 Estou muito contente, disse ele.

 Notcias do nosso povo? perguntou o boticrio com a voz
trmula.

O alienista fez um gesto magnfico, e respondeu:

 Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experincia
cientfica. Digo experincia, porque no me atrevo a assegurar desde j a minha
idia; nem a cincia  outra coisa, Sr. Soares, seno uma investigao
constante. Trata-se, pois, de uma experincia, mas uma experincia que vai
mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era at agora uma
ilha perdida no oceano da razo; comeo a suspeitar que  um continente.

Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticrio.
Depois explicou compridamente a sua idia. No conceito dele a insnia abrangia
uma vasta superfcie de crebros; e desenvolveu isto com grande cpia de
raciocnios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na histria e em
Itagua; mas, como um raro esprito que era, reconheceu o perigo de citar todos
os casos de Itagua, e refugiou-se na histria. Assim, apontou com
especialidade alguns personagens clebres, Scrates, que tinha um demnio
familiar, Pascal, que via um abismo  esquerda, Maom, Caracala, Domiciano,
Calgula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham
entidades odiosas, e entidades ridculas. E porque o boticrio se admirasse de
uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e at
acrescentou sentenciosamente:

 A ferocidade, Sr. Soares,  o grotesco a srio.

 Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares
levantando as mos ao cu.

Quanto  idia de ampliar o territrio da loucura, achou-a
o boticrio extravagante; mas a modstia, principal adorno de seu esprito, no
lhe sofreu confessar outra coisa alm de um nobre entusiasmo; declarou-a
sublime e verdadeira, e acrescentou que era caso de matraca. Esta expresso
no tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itagua, que como as
demais vilas, arraiais e povoaes da colnia, no dispunha de imprensa, tinha
dois modos de divulgar uma notcia: ou por meio de cartazes manuscritos e
pregados na porta da Cmara, e da matriz;  ou por meio de matraca.

Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um
homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na
mo.

De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e
ele anunciava o que lhe incumbiam,  um remdio para sezes, umas terras
lavradias, um soneto, um donativo eclesistico, a melhor tesoura da vila, o
mais belo discurso do ano, etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz
pblica; mas era conservado pela grande energia de divulgao que possua. Por
exemplo, um dos vereadores,  aquele justamente que mais se opusera  criao
da Casa Verde,  desfrutava a reputao de perfeito educador de cobras e
macacos, e alis nunca domesticara um s desses bichos; mas, tinha o cuidado de
fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crnicas que algumas
pessoas afirmavam ter visto cascavis danando no peito do vereador; afirmao
perfeitamente falsa, mas s devida  absoluta confiana no sistema. Verdade,
verdade; nem todas as instituies do antigo regmen mereciam o desprezo do
nosso sculo.

 H melhor do que anunciar a minha idia,  pratic-la,
respondeu o alienista  insinuao do boticrio.

E o boticrio, no divergindo sensivelmente deste modo de ver,
disse-lhe que sim, que era melhor comear pela execuo.

 Sempre haver tempo de a dar  matraca, concluiu ele.

Simo Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:

 Supondo o esprito humano uma vasta concha, o meu fim,
Sr. Soares,  ver se posso extrair a prola, que  a razo; por outros termos,
demarquemos definitivamente os limites da razo e da loucura. A razo  o
perfeito equilbrio de todas as faculdades; fora da insnia, insnia e s
insnia.

O vigrio Lopes, a quem ele confiou a nova teoria,
declarou lisamente que no chegava a entend-la, que era uma obra absurda, e,
se no era absurda, era de tal modo colossal que no merecia princpio de
execuo.

 Com a definio atual, que  a de todos os tempos,
acrescentou, a loucura e a razo esto perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde
uma acaba e onde a outra comea. Para que transpor a cerca?

Sobre o lbio fino e discreto do alienista roou a vaga
sombra de uma inteno de riso, em que o desdm vinha casado  comiserao; mas
nenhuma palavra saiu de suas egrgias entranhas.

A cincia contentou-se em estender a mo  teologia,  com
tal segurana, que a teologia no soube enfim se devia crer em si ou na outra.
Itagua e o universo ficavam  beira de uma revoluo.

CAPTULO V

O TERROR

Quatro dias depois, a populao de Itagua ouviu
consternada a notcia de que um certo Costa fora recolhido  Casa Verde.

 Impossvel!

 Qual impossvel! foi recolhido hoje de manh.

 Mas, na verdade, ele no merecia... Ainda em cima! depois
de tanto que ele fez...

Costa era um dos cidados mais estimados de Itagua.
Herdara quatrocentos mil cruzados em boa moeda de el-rei D. Joo V, dinheiro
cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver at o
fim do mundo. To depressa recolheu a herana, como entrou a dividi-la em
emprstimos, sem usura, mil cruzados a um, dois mil a outro, trezentos a este,
oitocentos quele, a tal ponto que, no fim de cinco anos, estava sem nada. Se a
misria viesse de chofre, o pasmo de Itagua seria enorme; mas veio devagar;
ele foi passando da opulncia  abastana, da abastana  mediania, da mediania
 pobreza, da pobreza  misria, gradualmente. Ao cabo daqueles cinco anos,
pessoas que levavam o chapu ao cho, logo que ele assomava no fim da rua,
agora batiam-lhe no ombro, com intimidade, davam-lhe piparotes no nariz,
diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano, risonho. Nem se lhe dava de ver que
os menos corteses eram justamente os que tinham ainda a dvida em aberto; ao
contrrio, parece que os agasalhava com maior prazer, e mais sublime
resignao. Um dia, como um desses incurveis devedores lhe atirasse uma
chalaa grossa, e ele se risse dela, observou um desafeioado, com certa
perfdia:  Voc suporta esse sujeito para ver se ele lhe paga. Costa no se
deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a dvida.  No admira,
retorquiu o outro; o Costa abriu mo de uma estrela, que est no cu. Costa
era perspicaz, entendeu que ele negava todo o merecimento ao ato, atribuindo-lhe
a inteno de rejeitar o que no vinham meter-lhe na algibeira. Era tambm
pundonoroso e inventivo; duas horas depois achou um meio de provar que lhe no
cabia um tal labu: pegou de algumas dobras, e mandou-as de emprstimo ao
devedor.

Agora espero que... pensou ele sem concluir a frase.

Esse ltimo rasgo do Costa persuadiu a crdulos e
incrdulos; ningum mais ps em dvida os sentimentos cavalheirescos daquele
digno cidado. As necessidades mais acanhadas saram  rua, vieram bater-lhe 
porta, com os seus chinelos velhos, com as suas capas remendadas. Um verme,
entretanto, roa a alma do Costa: era o conceito do desafeto. Mas isso mesmo
acabou; trs meses depois veio este pedir-lhe uns cento e vinte cruzados com
promessa de restituir-lhos da a dois dias; era o resduo da grande herana,
mas era tambm uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e sem
juros. Infelizmente no teve tempo de ser pago; cinco meses depois era
recolhido  Casa Verde.

Imagina-se a consternao de Itagua, quando soube do
caso. No se falou em outra coisa, dizia-se que o Costa ensandecera, no almoo,
outros que de madrugada; e contavam-se os acessos, que eram furiosos, sombrios,
terrveis,  ou mansos, e at engraados, conforme as verses. Muita gente
correu  Casa Verde, e achou o pobre Costa, tranqilo, um pouco espantado,
falando com muita clareza, e perguntando por que motivo o tinham levado para
ali. Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte aprovava esses sentimentos de
estima e compaixo, mas acrescentava que a cincia era a cincia, e que ele no
podia deixar na rua um mentecapto. A ltima pessoa que intercedeu por ele
(porque depois do que vou contar ningum mais se atreveu a procurar o terrvel
mdico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe
confidencialmente que esse digno homem no estava no perfeito equilbrio das
faculdades mentais,  vista do modo como dissipara os cabedais que...

 Isso, no! isso, no! interrompeu a boa senhora com
energia. Se ele gastou to depressa o que recebeu, a culpa no  dele.

 No?

 No, senhor. Eu lhe digo como o negcio se passou. O
defunto meu tio no era mau homem; mas quando estava furioso era capaz de nem
tirar o chapu ao Santssimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer,
descobriu que um escravo lhe roubara um boi; imagine como ficou.

A cara era um pimento; todo ele tremia, a boca escumava;
lembra-me como se fosse hoje. Ento um homem feio, cabeludo, em mangas de
camisa, chegou-se a ele e pediu gua. Meu tio (Deus lhe fale nalma!) respondeu
que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para ele, abriu a mo em ar
de ameaa, e rogou esta praga:  Todo o seu dinheiro no h de durar mais de
sete anos e um dia, to certo como isto ser o sino-salamo! E mostrou o
sino-salamo impresso no brao. Foi isto, meu senhor; foi esta praga
daquele maldito.

Bacamarte espetara na pobre senhora um par de olhos agudos
como punhais. Quando ela acabou, estendeu-lhe a mo polidamente, como se o
fizesse  prpria esposa do vice-rei e convidou-a a ir falar ao primo. A msera
acreditou; ele levou-a  Casa Verde e encerrou-a na galeria dos alucinados.

A notcia desta aleivosia do ilustre Bacamarte lanou o
terror  alma da populao. Ningum queria acabar de crer, que, sem motivo, sem
inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente
ajuizada, que no tinha outro crime seno o de interceder por um infeliz.
Comentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-se um romance, umas
finezas namoradas que o alienista outrora dirigira  prima do Costa, a
indignao do Costa e o desprezo da prima. E da a vingana. Era claro. Mas a
austeridade do alienista, a vida de estudos que ele levava, pareciam desmentir
uma tal hiptese. Histrias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um
dos mais crdulos chegou a murmurar que sabia de outras coisas, no as dizia,
por no ter certeza plena, mas sabia, quase que podia jurar.

 Voc, que  ntimo dele, no nos podia dizer o que h, o
que houve, que motivo...

Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente
inquieta e curiosa, dos amigos atnitos, era para ele uma consagrao pblica.
No havia duvidar; toda a povoao sabia enfim que o privado do alienista era
ele, Crispim, o boticrio, o colaborador do grande homem e das grandes coisas;
da a corrida  botica. Tudo isso dizia o caro jucundo e o riso discreto do
boticrio, o riso e o silncio, porque ele no respondia nada; um, dois, trs
monosslabos, quando muito, soltos, secos, encapados no fiel sorriso constante
e mido, cheio de mistrios cientficos, que ele no podia, sem desdouro nem
perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.

H coisa, pensavam os mais desconfiados.

Um desses limitou-se a pens-lo, deu de ombros e foi
embora. Tinha negcios pessoais. Acabava de construir uma casa suntuosa. S a
casa bastava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais,  a moblia, que
ele mandara vir da Hungria e da Holanda, segundo contava, e que se podia ver do
lado de fora, porque as janelas viviam abertas,  e o jardim, que era uma
obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de
albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magnfica, jardim pomposo,
moblia rara. No deixou o negcio das albardas, mas repousava dele na
contemplao da casa nova, a primeira de Itagua, mais grandiosa do que a Casa
Verde, mais nobre do que a da Cmara. Entre a gente ilustre da povoao havia
choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se falava, ou se louvava a casa
do albardeiro,  um simples albardeiro, Deus do cu!

 L est ele embasbacado, diziam os transeuntes, de
manh.

De manh, com efeito, era costume do Mateus estatelar-se,
no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, at
que vinham cham-lo para almoar. Os vizinhos, embora o cumprimentassem com
certo respeito, riam-se por trs dele, que era um gosto. Um desses chegou a
dizer que o Mateus seria muito mais econmico, e estaria riqussimo, se
fabricasse as albardas para si mesmo; epigrama ininteligvel, mas que fazia rir
s bandeiras despregadas.

 Agora l est o Mateus a ser contemplado, diziam 
tarde.

A razo deste outro dito era que, de tarde, quando as
famlias saam a passeio (jantavam cedo) usava o Mateus postar-se  janela, bem
no centro, vistoso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, atitude senhoril,
e assim ficava duas e trs horas at que anoitecia de todo. Pode crer-se que a
inteno do Mateus era ser admirado e invejado, posto que ele no a confessasse
a nenhuma pessoa, nem ao boticrio, nem ao Padre Lopes, seus grandes amigos. E
entretanto no foi outra a alegao do boticrio, quando o alienista lhe disse
que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que ele Bacamarte
descobrira e estudava desde algum tempo. Aquilo de contemplar a casa...

 No, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.

 No?

 H de perdoar-me, mas talvez no saiba que ele de manh
examina a obra, no a admira; de tarde, so os outros que o admiram a ele e 
obra.  E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo at o cair da
noite.

Uma volpia cientfica alumiou os olhos de Simo
Bacamarte. Ou ele no conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais
quis, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma notcia incerta ou
suspeita vaga. A explicao satisf-lo; mas como tinha as alegrias prprias de
um sbio, concentradas, nada viu o boticrio que fizesse suspeitar uma inteno
sinistra. Ao contrrio, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o brao para irem
a passeio. Deus! era a primeira vez que Simo Bacamarte dava ao seu privado
tamanha honra; Crispim ficou trmulo, atarantado, disse que sim, que estava
pronto. Chegaram duas ou trs pessoas de fora, Crispim mandou-as mentalmente a
todos os diabos; no s atrasavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte
elegesse alguma delas, para acompanh-lo, e o dispensasse a ele. Que
impacincia! que aflio! Enfim, saram. O alienista guiou para os lados da
casa do albardeiro, viu-o  janela, passou cinco, seis vezes por diante,
devagar, parando, examinando as atitudes, a expresso do rosto. O pobre Mateus,
apenas notou que era objeto da curiosidade ou admirao do primeiro vulto de
Itagua, redobrou de expresso, deu outro relevo s atitudes... Triste! triste,
no fez mais do que condenar-se; no dia seguinte, foi recolhido  Casa Verde.

 A Casa Verde  um crcere privado, disse um mdico em
clnica.

Nunca uma opinio pegou e grassou to rapidamente. Crcere
privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oeste de Itagua,  a
medo,  verdade, porque durante a semana que se seguiu  captura do pobre
Mateus, vinte e tantas pessoas,  duas ou trs de considerao,  foram
recolhidas  Casa Verde. O alienista dizia que s eram admitidos os casos
patolgicos, mas pouca gente lhe dava crdito. Sucediam-se as verses
populares. Vingana, cobia de dinheiro, castigo de Deus, monomania do prprio
mdico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itagua
qualquer grmen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com
desdouro e mngua daquela cidade, mil outras explicaes, que no explicavam
nada, tal era o produto dirio da imaginao pblica.

Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a
tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais comitiva,  ou quase toda,  que
algumas semanas antes partira de Itagua. O alienista foi receb-la, com o
boticrio, o Padre Lopes, os vereadores e vrios outros magistrados. O momento
em que D. Evarista ps os olhos na pessoa do marido  considerado pelos
cronistas do tempo como um dos mais sublimes da histria moral dos homens, e
isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egrgias. D.
Evarista soltou um grito, balbuciou uma palavra, e atirou-se ao consorte, de um
gesto que no se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de ona
e rola. No assim o ilustre Bacamarte; frio como um diagnstico, sem
desengonar por um instante a rigidez cientfica, estendeu os braos  dona,
que caiu neles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dois minutos, D.
Evarista recebia os cumprimentos dos amigos, e o prstito punha-se em marcha.

D. Evarista era a esperana de Itagua; contava-se com ela
para minorar o flagelo da Casa Verde. Da as aclamaes pblicas, a imensa
gente que atulhava as ruas, as flmulas, as flores e damascos s janelas. Com o
brao apoiado no do Padre Lopes,  porque o eminente Bacamarte confiara a
mulher ao vigrio, e acompanhava-os a passo meditativo,  D. Evarista voltava a
cabea a um lado e outro, curiosa, inquieta, petulante. O vigrio indagava do
Rio de Janeiro, que ele no vira desde o vice-reinado anterior; e D. Evarista
respondia, entusiasmada, que era a coisa mais bela que podia haver no mundo. O
Passeio Pblico estava acabado, um paraso, onde ela fora muitas vezes, e a Rua
das Belas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz das Marrecas! Eram
mesmo marrecas,  feitas de metal e despejando gua pela boca fora. Uma coisa
galantssima. O vigrio dizia que sim, que o Rio de Janeiro devia estar agora
muito mais bonito. Se j o era noutro tempo! No admira, maior do que Itagua,
e, de mais a mais sede do governo... Mas no se pode dizer que Itagua fosse feio;
tinha belas casas, a casa do Mateus, a Casa Verde...

 A propsito de Casa Verde, disse o Padre Lopes
escorregando habilmente para o assunto da ocasio, a senhora vem ach-la muito
cheia de gente.

 Sim?

  verdade. L est o Mateus...

 O albardeiro?

 O albardeiro; est o Costa, a prima do Costa, e Fulano,
e Sicrano, e...

 Tudo isso doido?

 Ou quase doido, obtemperou padre.

 Mas ento?

O vigrio derreou os cantos da boca,  maneira de quem no
sabe nada, ou no quer dizer tudo; resposta vaga, que se no pode repetir a
outra pessoa, por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinrio
que toda aquela gente ensandecesse; um ou outro, v; mas todos? Entretanto,
custava-lhe duvidar; o marido era um sbio, no recolheria ningum  Casa Verde
sem prova evidente de loucura.

 Sem dvida... sem dvida... ia pontuando o vigrio.

Trs horas depois, cerca de cinqenta convivas sentavam-se
em volta da mesa de Simo Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista
foi o assunto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta,
metforas, amplificaes, aplogos. Ela era a esposa do novo Hipcrates, a musa
da cincia, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolao; trazia nos olhos
duas estrelas, segundo a verso modesta de Crispim Soares, e dois sis, no
conceito de um vereador. O alienista ouvia essas coisas um tanto enfastiado,
mas sem visvel impacincia. Quando muito dizia ao ouvido da mulher, que a
retrica permitia tais arrojos sem significao. D. Evarista fazia esforos
para aderir a esta opinio do marido; mas, ainda descontando trs quartas
partes das louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos
oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete
acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o
nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Deus,
disse ele, depois de dar ao universo o homem e a mulher, esse diamante e essa
prola da coroa divina (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma
ponta a outra da mesa) Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.

D. Evarista baixou os olhos com exemplar modstia. Duas
senhoras, achando a cortesanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do
dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de
suspeitas, de ameaas, e, provavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande,
pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer
episdio trgico,  ou que o adiasse, ao menos, para o dia seguinte. Sim, que o
adiasse. Uma delas, a mais piedosa, chegou a admitir, consigo mesma, que D.
Evarista no merecia nenhuma desconfiana, to longe estava de ser atraente ou
bonita. Uma simples gua-morna. Verdade  que, se todos os gostos fossem
iguais, o que seria do amarelo? Esta idia f-la tremer outra vez, embora
menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito, e,
levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso. No lhe negou que
era um improviso brilhante, cheio de rasgos magnficos. Seria dele mesmo a
idia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou t-la-ia encontrado em algum
autor que?... No senhor; era dele mesmo; achou-a naquela ocasio e
parecera-lhe adequada a um arroubo oratrio. De resto, suas idias eram antes
arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o pico. Uma vez, por exemplo,
comps uma ode  queda do Marqus de Pombal, em que dizia que esse ministro era
o drago asprrimo do Nada, esmagado pelas garras vingadoras do Todo; e
assim outras, mais ou menos fora do comum; gostava das idias sublimes e raras,
das imagens grandes e nobres...

Pobre moo! pensou o alienista. E continuou consigo:
Trata-se de um caso de leso cerebral; fenmeno sem gravidade, mas digno de
estudo...

D. Evarista ficou estupefata quando soube, trs dias
depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moo que tinha idias
to bonitas! As duas senhoras atriburam o ato a cimes do alienista. No podia
ser outra coisa; realmente, a declarao do moo fora audaciosa demais.

Cimes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem
recolhidos Jos Borges do Couto Leme, pessoa estimvel, o Chico das Cambraias,
folgazo emrito, o escrivo Fabrcio, e ainda outros? O terror acentuou-se.
No se sabia j quem estava so, nem quem estava doido. As mulheres, quando os
maridos saam, mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os
maridos eram valorosos, alguns no andavam fora sem um ou dois capangas.
Positivamente o terror. Quem podia, emigrava. Um desses fugitivos chegou a ser
preso a duzentos passos da vila. Era um rapaz de trinta anos, amvel,
conversado, polido, to polido que no cumprimentava algum sem levar o chapu
ao cho; na rua, acontecia-lhe correr uma distncia de dez a vinte braas para
ir apertar a mo a um homem grave, a uma senhora, s vezes a um menino, como
acontecera ao filho do juiz-de-fora. Tinha a vocao das cortesias. De resto,
devia as boas relaes da sociedade, no s aos dotes pessoais, que eram raros,
como  nobre tenacidade com que nunca desanimava diante de uma, duas, quatro,
seis recusas, caras feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado numa
casa, no a deixava mais, nem os da casa o deixavam a ele, to gracioso era o
Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apesar de se saber estimado, teve medo
quando lhe disseram um dia, que o alienista o trazia de olho; na madrugada
seguinte fugiu da vila, mas foi logo apanhado e conduzido  Casa Verde.

 Devemos acabar com isto!

 No pode continuar!

 Abaixo a tirania!

 Dspota! violento! Golias!

No eram gritos na rua, eram suspiros em casa, mas no
tardava a hora dos gritos. O terror crescia; avizinhava-se a rebelio. A idia
de uma petio ao governo para que Simo Bacamarte fosse capturado e deportado,
andou por algumas cabeas, antes que o barbeiro Porfrio a expendesse na loja,
com grandes gestos de indignao. Note-se,  e essa  uma das laudas mais puras
desta sombria histria,  note-se que o Porfrio, desde que a Casa Verde
comeava a povoar-se to extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela
aplicao assdua de sanguessugas que dali lhe pediam; mas o interesse
particular, dizia ele, deve ceder ao interesse pblico. E acrescentava:  
preciso derrubar o tirano! Note-se mais que ele soltou esse grito justamente no
dia em que Simo Bacamarte fizera recolher  Casa Verde um homem que trazia com
ele uma demanda, o Coelho.

 No me diro em que  que o Coelho  doido? bradou o
Porfrio.

E ningum lhe respondia; todos repetiam que era um homem
perfeitamente ajuizado. A mesma demanda que ele trazia com o barbeiro, acerca
de uns chos da vila, era filha da obscuridade de um alvar, e no da cobia ou
dio. Um excelente carter o Coelho. Os nicos desafeioados que tinha eram
alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos, ou alegando andar com pressa, mal o
viam de longe dobravam as esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, ele
amava a boa palestra, a palestra comprida, gostada a sorvos largos, e assim 
que nunca estava s, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas no
desdenhando os outros. O Padre Lopes, que cultivava o Dante, e era inimigo do
Coelho, nunca o via desligar-se de uma pessoa que no declamasse e emendasse
este trecho:

La bocca sollev dal fero pasto

Quel seccatore...

mas uns sabiam do dio do padre, e outros pensavam que
isto era uma orao em latim.

CAPTULO VI

A REBELIO

Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram
e levaram uma representao  Cmara.

A Cmara recusou aceit-la, declarando que a Casa Verde
era uma instituio pblica, e que a cincia no podia ser emendada por votao
administrativa, menos ainda por movimentos de rua.

 Voltai ao trabalho, concluiu o presidente,  o conselho
que vos damos.

A irritao dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou
que iam dali levantar a bandeira da rebelio, e destruir a Casa Verde; que
Itagua no podia continuar a servir de cadver aos estudos e experincias de
um dspota; que muitas pessoas estimveis, algumas distintas, outras humildes
mas dignas de apreo, jaziam nos cubculos da Casa Verde; que o despotismo
cientfico do alienista complicava-se do esprito de ganncia, visto que os
loucos, ou supostos tais, no eram tratados de graa: as famlias, e em falta
delas a Cmara, pagavam ao alienista...

  falso, interrompeu o presidente.

 Falso?

 H cerca de duas semanas recebemos um ofcio do ilustre
mdico, em que nos declara que, tratando de fazer experincias de alto valor
psicolgico, desiste do estipndio votado pela Cmara, bem como nada receber
das famlias dos enfermos.

A notcia deste ato to nobre, to puro, suspendeu um
pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas
nenhum interesse alheio  cincia o instigava; e para demonstrar o erro era
preciso alguma coisa mais do que arruaas e clamores. Isto disse o presidente,
com aplauso de toda a Cmara. O barbeiro, depois de alguns instantes de
concentrao, declarou que estava investido de um mandato pblico, e no
restituiria a paz a Itagua antes de ver por terra a Casa Verde,  essa
Bastilha da razo humana,  expresso que ouvira a um poeta local, e que ele
repetiu com muita nfase. Disse, e a um sinal todos saram com ele.

Imagine-se a situao dos vereadores; urgia obstar ao
ajuntamento,  rebelio,  luta, ao sangue. Para acrescentar ao mal, um dos
vereadores, que apoiara o presidente, ouvindo agora a denominao dada pelo
barbeiro  Casa Verde  Bastilha da razo humana,  achou-a to elegante, que
mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que
reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, indignado, manifestasse em
termos enrgicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexo:

 Nada tenho que ver com a cincia; mas se tantos homens
em quem supomos juzo so reclusos por dementes, quem nos afirma que o alienado
no  o alienista?

Sebastio Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da
palavra, e falou ainda por algum tempo com prudncia, mas com firmeza. Os colegas
estavam atnitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da
ordem e do respeito  lei, no aventasse as suas idias na rua, para no dar
corpo e alma  rebelio, que era por ora um turbilho de tomos dispersos. Esta
figura corrigiu um pouco o efeito da outra: Sebastio Freitas prometeu
suspender qualquer ao, reservando-se o direito de pedir pelos meios legais a
reduo da Casa Verde. E repetia consigo, namorado:  Bastilha da razo
humana!

Entretanto, a arruaa crescia. J no eram trinta, mas
trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser
mencionada, porque ela deu o nome  revolta; chamavam-lhe o Canjica,  e
o movimento ficou clebre com o nome de revolta dos Canjicas. A ao podia ser
restrita,  visto que muita gente, ou por medo, ou por hbitos de educao, no
descia  rua; mas o sentimento era unnime, ou quase unnime, e os trezentos
que caminhavam para a Casa Verde,  dada a diferena de Paris a Itagua, 
podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.

D. Evarista teve notcia da rebelio antes que ela
chegasse; veio dar-lha uma de suas crias. Ela provava nessa ocasio um vestido
de seda,  um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,  e no quis
crer.

 H de ser alguma patuscada, dizia ela mudando a posio
de um alfinete. Benedita, v se a barra est boa.

 Est, sinh, respondia a mucama de ccoras no cho, est
boa. Sinh vira um bocadinho. Assim. Est muito boa.

 No  patuscada, no, senhora; eles esto gritando: 
Morra o Dr. Bacamarte! o tirano! dizia o moleque assustado.

 Cala a boca, tolo! Benedita, olha a do lado esquerdo;
no parece que a costura est um pouco enviesada? A risca azul no segue at
abaixo; est muito feio assim;  preciso descoser para ficar igualzinho e...

 Morra o Dr. Bacamarte! morra o tirano! uivaram fora
trezentas vozes. Era a rebelio que desembocava na Rua Nova.

D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro
instante no deu um passo, no fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama
correu instintivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D.
Evarista no dera crdito, teve um instante de triunfo, um certo movimento
sbito, imperceptvel, entranhado, de satisfao moral, ao ver que a realidade
vinha jurar por ele.

 Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.

D. Evarista, se no resistia facilmente s comoes de
prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. No desmaiou; correu  sala
interior onde o marido estudava. Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre
mdico escrutava um texto de Averris; os olhos dele, empanados pela cogitao,
subiam do livro ao teto e baixavam do teto ao livro, cegos para a realidade
exterior, videntes para os profundos trabalhos mentais. D. Evarista chamou pelo
marido duas vezes, sem que ele lhe desse ateno;  terceira, ouviu e
perguntou-lhe o que tinha, se estava doente.

 Voc no ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em
lgrimas.

O alienista atendeu ento; os gritos aproximavam-se,
terrveis, ameaadores; ele compreendeu tudo. Levantou-se da cadeira de
espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranqilo,
foi deposit-lo na estante. Como a introduo do volume desconcertasse um pouco
a linha dos dois tomos contguos, Simo Bacamarte cuidou de corrigir esse
defeito mnimo, e, alis, interessante. Depois disse  mulher que se
recolhesse, que no fizesse nada.

 No, no, implorava a digna senhora, quero morrer ao
lado de voc...

Simo Bacamarte teimou que no, que no era caso de morte;
e ainda que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama
curvou a cabea, obediente e chorosa.

 Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas.

O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou
ali no momento em que a rebelio tambm chegava e parava, defronte, com as suas
trezentas cabeas rutilantes de civismo e sombrias de desespero.  Morra!
morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na
varanda. Simo Bacamarte fez um sinal pedindo para falar; os revoltosos
cobriram-lhe a voz com brados de indignao. Ento, o barbeiro agitando o
chapu, a fim de impor silncio  turba, conseguiu aquietar os amigos, e
declarou ao alienista que podia falar, mas acrescentou que no abusasse da
pacincia do povo como fizera at ento.

 Direi pouco, ou at no direi nada, se for preciso.
Desejo saber primeiro o que pedis.

 No pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos
que a Casa Verde seja demolida, ou pelo menos despojada dos infelizes que l
esto.

 No entendo.

 Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade s vtimas
do vosso dio, capricho, ganncia...

O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem no
era coisa visvel aos olhos da multido; era uma contrao leve de dois ou trs
msculos, nada mais. Sorriu e respondeu:

 Meus senhores, a cincia  coisa sria, e merece ser
tratada com seriedade. No dou razo dos meus atos de alienista a ningum,
salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administrao da Casa Verde,
estou pronto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, no ganhareis
nada. Poderia convidar alguns de vs, em comisso dos outros, a vir ver comigo
os loucos reclusos; mas no o fao, porque seria dar-vos razo do meu sistema,
o que no farei a leigos, nem a rebeldes.

Disse isto o alienista, e a multido ficou atnita; era
claro que no esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. Mas o
assombro cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multido com muita
gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O barbeiro
tornou logo a si, e, agitando o chapu, convidou os amigos  demolio da Casa
Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi nesse momento decisivo que o
barbeiro sentiu despontar em si a ambio do governo; pareceu-lhe ento que,
demolindo a Casa Verde, e derrocando a influncia do alienista, chegaria a
apoderar-se da Cmara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de
Itagua. Desde alguns anos que ele forcejava por ver o seu nome includo nos
pelouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado por no ter uma
posio compatvel com to grande cargo. A ocasio era agora ou nunca. Demais
fora to longe na arruaa, que a derrota seria a priso, ou talvez a forca, ou
o degredo. Infelizmente, a resposta do alienista diminura o furor dos
sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignao, e
quis bradar-lhes:  Canalhas! covardes!  mas conteve-se, e rompeu deste modo:

 Meus amigos, lutemos at o fim! A salvao de Itagua
est nas vossas mos dignas e hericas. Destruamos o crcere de vossos filhos e
pais, de vossas mes e irms, de vossos parentes e amigos, e de vs mesmos. Ou
morrereis a po e gua, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno.

A multido agitou-se, murmurou, bradou, ameaou,
congregou-se toda em derredor do barbeiro. Era a revolta que tornava a si da
ligeira sncope, e ameaava arrasar a Casa Verde.

 Vamos! bradou Porfrio agitando o chapu.

 Vamos! repetiram todos.

Deteve-os um incidente: era um corpo de drages que, a
marche-marche, entrava na Rua Nova.

CAPTULO VII

O INESPERADO

Chegados os drages em frente aos Canjicas, houve um instante
de estupefao: os Canjicas no queriam crer que a fora pblica fosse mandada
contra eles; mas o barbeiro compreendeu tudo e esperou. Os drages pararam, o
capito intimou  multido que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela
estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja
resposta consistiu nestes termos alevantados:

 No nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadveres,
podeis tom-los; mas s os cadveres; no levareis a nossa honra, o nosso
crdito, os nossos direitos, e com eles a salvao de Itagua.

Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e
nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse tambm um
excesso de confiana na absteno das armas por parte dos drages; confiana
que o capito dissipou logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi
indescritvel. A multido urrou furiosa; alguns, trepando s janelas das casas,
ou correndo pela rua fora, conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de
clera, indignada, animada pela exortao do barbeiro. A derrota dos Canjicas
estava iminente, quando um tero dos drages,  qualquer que fosse o motivo, as
crnicas no o declaram,  passou subitamente para o lado da rebelio. Este
inesperado reforo deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lanou o desnimo
s fileiras da legalidade. Os soldados fiis no tiveram coragem de atacar os
seus prprios camaradas, e, um a um, foram passando para eles, de modo que ao
cabo de alguns minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro. O capito
estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaava
de morte. No teve remdio, declarou-se vencido e entregou a espada ao
barbeiro.

A revoluo triunfante no perdeu um s minuto; recolheu
os feridos s casas prximas, e guiou para a Cmara. Povo e tropa
fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itagua, ao ilustre
Porfrio. Este ia na frente, empunhando to destramente a espada, como se ela
fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitria cingia-lhe a fronte
de um nimbo misterioso. A dignidade de governo comeava a enrijar-lhe os
quadris.

Os vereadores, s janelas, vendo a multido e a tropa,
cuidaram que a tropa capturara a multido, e sem mais exame, entraram e votaram
uma petio ao vice-rei para que mandasse dar um ms de soldo aos drages,
cujo denodo salvou Itagua do abismo a que o tinha lanado uma cfila de
rebeldes. Esta frase foi proposta por Sebastio Freitas, o vereador
dissidente, cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os colegas. Mas bem
depressa a iluso se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e
ao alienista vieram dar-lhes notcia da triste realidade. O presidente no
desanimou:  qualquer que seja a nossa sorte, disse ele, lembremo-nos que
estamos ao servio de Sua Majestade e do povo.  Sebastio Freitas insinuou que
melhor se poderia servir  coroa e  vila saindo pelos fundos e indo
conferenciar com o juiz-de-fora, mas toda a Cmara rejeitou esse alvitre.

Da a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus
tenentes, entrava na sala da vereana, e intimava  Cmara a sua queda. A
Cmara no resistiu, entregou-se, e foi dali para a cadeia. Ento os amigos do
barbeiro propuseram-lhe que assumisse o governo da vila, em nome de Sua Majestade.
Porfrio aceitou o encargo, embora no desconhecesse (acrescentou) os espinhos
que trazia; disse mais que no podia dispensar o concurso dos amigos presentes;
ao que eles prontamente anuram. O barbeiro veio  janela, e comunicou ao povo
essas resolues, que o povo ratificou, aclamando o barbeiro. Este tomou a
denominao de  Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo. 
Expediram-se logo vrias ordens importantes, comunicaes oficiais do novo
governo, uma exposio minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de
obedincia s ordens de Sua Majestade; finalmente, uma proclamao ao povo,
curta, mas enrgica:

ITAGUAIENSES!

Uma Cmara corrupta e violenta conspirava contra os interesses
de Sua Majestade e do povo. A opinio pblica tinha-a condenado; um punhado de
cidados, fortemente apoiados pelos bravos drages de Sua Majestade, acaba de a
dissolver ignominiosamente, e por unnime consenso da vila, foi-me confiado o
mando supremo, at que Sua Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao
seu real servio. Itaguaienses! no vos peo seno que me rodeeis de confiana,
que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda pblica, to desbaratada pela
Cmara que ora findou s vossas mos. Contai com o meu sacrifcio, e ficai
certos de que a coroa ser por ns.

O Protetor da vila em nome de Sua
Majestade e do povo

Porfrio Caetano das Neves

Toda a gente advertiu no absoluto
silncio desta proclamao acerca da Casa Verde; e, segundo uns, no podia
haver mais vivo indcio dos projetos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto
maior quanto que, no meio mesmo desses graves sucessos, o alienista metera na
Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre elas duas senhoras, sendo um dos
homens aparentado com o Protetor. No era um repto, um ato intencional; mas
todos o interpretaram dessa maneira, e a vila respirou com a esperana de que o
alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros, e destrudo o
terrvel crcere.

O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia
recitando de esquina em esquina a proclamao, o povo espalhava-se nas ruas e
jurava morrer em defesa do ilustre Porfrio. Poucos gritos contra a Casa Verde,
prova de confiana na ao do governo. O barbeiro faz expedir um ato declarando
feriado aquele dia, e entabulou negociaes com o vigrio para a celebrao de
um Te Deum, to conveniente era aos olhos dele a conjuno do poder
temporal com o espiritual; mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.

 Em todo caso, Vossa Reverendssima no se alistar entre
os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro dando  fisionomia um aspecto
tenebroso.

Ao que o Padre Lopes respondeu, sem responder:

 Como alistar-me, se o novo governo no tem inimigos?

O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capito, os
vereadores e os principais da vila, toda a gente o aclamava. Os mesmos
principais, se o no aclamavam, no tinham sado contra ele. Nenhum dos
almotacs deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as famlias
abenoavam o nome daquele que ia enfim libertar Itagua da Casa Verde e do
terrvel Simo Bacamarte.

CAPTULO VIII

AS ANGSTIAS DO BOTICRIO

Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no captulo
anterior, o barbeiro saiu do palcio do governo,  foi a denominao dada 
casa da Cmara,  com dois ajudantes-de-ordens, e dirigiu-se  residncia de
Simo Bacamarte. No ignorava ele que era mais decoroso ao governo mand-lo
chamar; o receio, porm, de que o alienista no obedecesse, obrigou-o a parecer
tolerante e moderado.

No descrevo o terror do boticrio ao ouvir dizer que o
barbeiro ia  casa do alienista.  Vai prend-lo, pensou ele. E
redobraram-lhe as angstias. Com efeito, a tortura moral do boticrio naqueles
dias de revoluo excede a toda a descrio possvel. Nunca um homem se achou
em mais apertado lance:  a privana do alienista chamava-o ao lado deste, a
vitria do barbeiro atraa-o ao barbeiro. J a simples notcia da sublevao
tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do dio ao
alienista; mas a vitria final foi tambm o golpe final. A esposa, senhora
mscula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar dele era ao lado de
Simo Bacamarte; ao passo que o corao lhe bradava que no, que a causa do
alienista estava perdida, e que ningum, por ato prprio, se amarra a um
cadver. F-lo Cato,  verdade, sed victa Catoni, pensava ele,
relembrando algumas palestras habituais do Padre Lopes; mas Cato no se atou a
uma causa vencida, ele era a prpria causa vencida, a causa da repblica; o seu
ato, portanto, foi de egosta, de um miservel egosta; minha situao 
outra. Insistindo, porm, a mulher, no achou Crispim Soares outra sada em tal
crise seno adoecer; declarou-se doente, e meteu-se na cama.

 L vai o Porfrio  casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a
mulher no dia seguinte  cabeceira da cama; vai acompanhado de gente.

Vai prend-lo, pensou o boticrio.

Uma idia traz outra; o boticrio imaginou que, uma vez
preso o alienista, viriam tambm busc-lo a ele, na qualidade de cmplice. Esta
idia foi o melhor dos vesicatrios. Crispim Soares ergueu-se, disse que estava
bom, que ia sair; e apesar de todos os esforos e protestos da consorte,
vestiu-se e saiu. Os velhos cronistas so unnimes em dizer que a certeza de
que o marido ia colocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente
a esposa do boticrio; e notam, com muita perspiccia, o imenso poder moral de
uma iluso; porquanto, o boticrio caminhou resolutamente ao palcio do
governo, no  casa do alienista. Ali chegando, mostrou-se admirado de no ver
o barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adeso, no o tendo feito
desde a vspera por enfermo. E tossia com algum custo. Os altos funcionrios
que lhe ouviam esta declarao, sabedores da intimidade do boticrio com o
alienista, compreenderam toda a importncia da adeso nova, e trataram a
Crispim Soares com apurado carinho; afirmaram-lhe que o barbeiro no tardava;
Sua Senhoria tinha ido  Casa Verde, a negcio importante, mas no tardava.
Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do ilustre
Porfrio era a de todos os patriotas; ao que o boticrio ia repetindo que sim,
que nunca pensara outra coisa, que isso mesmo mandaria declarar a Sua
Majestade.

CAPTULO IX

DOIS LINDOS CASOS

No se demorou o alienista em receber o barbeiro;
declarou-lhe que no tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a
obedecer. S uma coisa pedia,  que o no constrangesse a assistir pessoalmente
 destruio da Casa Verde.

 Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de
alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenes vandlicas. Com razo
ou sem ela, a opinio cr que a maior parte dos doidos ali metidos est em seu
perfeito juzo, mas o governo reconhece que a questo  puramente cientfica, e
no cogita em resolver com posturas as questes cientficas. Demais, a Casa
Verde  uma instituio pblica; tal a aceitamos das mos da Cmara dissolvida.
H, entretanto,  por fora que h de haver um alvitre intermdio que restitua
o sossego ao esprito pblico.

O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que
esperava outra coisa, o arrasamento do hospcio, a priso dele, o desterro,
tudo, menos...

 O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o
barbeiro, vem de no atender  grave responsabilidade do governo. O povo,
tomado de uma cega piedade, que lhe d em tal caso legtima indignao, pode
exigir do governo certa ordem de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe
incumbe, no os deve praticar, ao menos integralmente, e tal  a nossa
situao. A generosa revoluo que ontem derrubou uma Cmara vilipendiada e
corrupta, pediu em altos brados o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no
nimo do governo eliminar a loucura? No. E se o governo no a pode eliminar,
est ao menos apto para discrimin-la, reconhec-la? Tambm no;  matria de
cincia. Logo, em assunto to melindroso, o governo no pode, no quer dispensar
o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede  que de certa maneira demos
alguma satisfao ao povo. Unamo-nos, e o povo saber obedecer. Um dos alvitres
aceitveis, se Vossa Senhoria no indicar outro, seria fazer retirar da Casa
Verde aqueles enfermos que estiverem quase curados, e bem assim os manacos de
pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerncia
e benignidade.

 Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito?
perguntou Simo Bacamarte, depois de uns trs minutos.

O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo
que onze mortos e vinte e cinco feridos.

 Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou
trs vezes o alienista.

E em seguida declarou que o alvitre lhe no parecia bom, mas
que ele ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E
fez-lhe vrias perguntas acerca dos sucessos da vspera, ataque, defesa, adeso
dos drages, resistncia da Cmara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com
grande abundncia, insistindo principalmente no descrdito em que a Cmara
cara. O barbeiro confessou que o novo governo no tinha ainda por si a
confiana dos principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse
ponto. O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, no j com a
simpatia, seno com a benevolncia do mais alto esprito de Itagua, e
seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera fisionomia
daquele grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento, nem modstia, mas
impassvel como um deus de pedra.

 Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o
alienista, depois de acompanhar o barbeiro at a porta. Eis a dois lindos
casos de doena cerebral. Os sintomas de duplicidade e descaramento deste
barbeiro so positivos. Quanto  toleima dos que o aclamaram no  preciso
outra prova alm dos onze mortos e vinte e cinco feridos.

 Dois lindos casos!

 Viva o ilustre Porfrio! bradaram umas trinta pessoas
que aguardavam o barbeiro  porta.

O alienista espiou pela janela, e ainda ouviu este resto
de uma pequena fala do barbeiro s trinta pessoas que o aclamavam:

 ...porque eu velo, podeis estar certos disso, eu velo
pela execuo das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se far pela melhor
maneira. S vos recomendo ordem. A ordem, meus amigos,  a base do governo...

 Viva o ilustre Porfrio! bradaram as trinta vozes,
agitando os chapus.

 Dois lindos casos! murmurou o alienista.

CAPTULO
X

A RESTAURAO

Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde
cerca de cinqenta aclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo,
atarantado, no sabia reagir. Joo Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas
ruas, que o Porfrio estava vendido ao ouro de Simo Bacamarte, frase que
congregou em torno de Joo Pina a gente mais resoluta da vila. Porfrio, vendo
o antigo rival da navalha  testa da insurreio, compreendeu que a sua perda
era irremedivel, se no desse um grande golpe; expediu dois decretos, um
abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. Joo Pina mostrou
claramente, com grandes frases, que o ato de Porfrio era um simples aparato,
um engodo, em que o povo no devia crer. Duas horas depois caa Porfrio
ignominiosamente, e Joo Pina assumia a difcil tarefa do governo. Como achasse
nas gavetas as minutas da proclamao, da exposio ao vice-rei e de outros
atos inaugurais, do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e
expedir; acrescentam os cronistas, e alis subentende-se, que ele lhes mudou os
nomes, e onde o outro barbeiro falara de uma Cmara corrupta, falou este de um
intruso eivado das ms doutrinas francesas, e contrrio aos sacrossantos
interesses de Sua Majestade, etc.

Nisto entrou na vila uma fora mandada pelo vice-rei, e
restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro
Porfrio, e bem assim a de uns cinqenta e tantos indivduos, que declarou
mentecaptos; e no s lhe deram esses, como afianaram entregar-lhe mais
dezenove sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas na
primeira rebelio.

Este ponto da crise de Itagua marca tambm o grau mximo
da influncia de Simo Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-lhe; e uma das mais
vivas provas do poder do ilustre mdico achamo-la na prontido com que os
vereadores, restitudos a seus lugares, consentiram em que Sebastio Freitas
tambm fosse recolhido ao hospcio. O alienista, sabendo da extraordinria
inconsistncia das opinies desse vereador, entendeu que era um caso patolgico,
e pediu-o. A mesma coisa aconteceu ao boticrio. O alienista, desde que lhe
falaram da momentnea adeso de Crispim Soares  rebelio dos Canjicas,
comparou-a  aprovao que sempre recebera dele, ainda na vspera, e mandou
captur-lo. Crispim Soares no negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera
a um movimento de terror, ao ver a rebelio triunfante, e deu como prova a
ausncia de nenhum outro ato seu, acrescentando que voltara logo  cama,
doente. Simo Bacamarte no o contrariou; disse, porm, aos circunstantes que o
terror tambm  pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos
mais caracterizados.

Mas a prova mais evidente da influncia de Simo Bacamarte
foi a docilidade com que a Cmara lhe entregou o prprio presidente. Este digno
magistrado tinha declarado em plena sesso, que no se contentava, para lav-lo
da afronta dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que
chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretrio da Cmara, entusiasmado
de tamanha energia. Simo Bacamarte comeou por meter o secretrio na Casa
Verde, e foi dali  Cmara  qual declarou que o presidente estava padecendo da
demncia dos touros, um gnero que ele pretendia estudar, com grande vantagem
para os povos. A Cmara a princpio hesitou, mas acabou cedendo.

Da em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem no
podia dar nascena ou curso  mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que
aproveitam ao inventor ou divulgador, que no fosse logo metido na Casa Verde.
Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de
anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que pem todo o seu
cuidado na tafularia, um ou outro almotac enfunado, ningum escapava aos
emissrios do alienista. Ele respeitava as namoradas e no poupava as
namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as
segundas a um vcio. Se um homem era avaro ou prdigo ia do mesmo modo para a
Casa Verde; da a alegao de que no havia regra para a completa sanidade
mental. Alguns cronistas crem que Simo Bacamarte nem sempre procedia com
lisura, e citam em abono da afirmao (que no sei se pode ser aceita) o fato
de ter alcanado da Cmara uma postura autorizando o uso de um anel de prata no
dedo polegar da mo esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental
ou tradicional, declarasse ter nas veias duas ou trs onas de sangue godo.
Dizem esses cronistas que o fim secreto da insinuao  Cmara foi enriquecer
um ourives, amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que o ourives viu
prosperar o negcio depois da nova ordenao municipal, no o  menos que essa
postura deu  Casa Verde uma multido de inquilinos; pelo que, no se pode
definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre mdico. Quanto  razo
determinativa da captura e aposentao na Casa Verde de todos quantos usaram do
anel,  um dos pontos mais obscuros da histria de Itagua; a opinio mais
verossmil  que eles foram recolhidos por andarem a gesticular,  toa, nas
ruas, em casa, na igreja. Ningum ignora que os doidos gesticulam muito. Em
todo caso,  uma simples conjetura; de positivo nada h.

 Onde  que este homem vai parar? diziam os principais da
terra. Ah! se ns tivssemos apoiado os Canjicas...

Um dia de manh,  dia em que a Cmara devia dar um grande
baile,  a vila inteira ficou abalada com a notcia de que a prpria esposa do
alienista fora metida na Casa Verde. Ningum acreditou; devia ser inveno de
algum gaiato. E no era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida s duas
horas da noite. O Padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente
acerca do fato.

 J h algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o
marido. A modstia com que ela vivera em ambos os matrimnios no podia
conciliar-se com o furor das sedas, veludos, rendas e pedras preciosas que
manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde ento comecei a
observ-la. Suas conversas eram todas sobre esses objetos: se eu lhe falava das
antigas cortes, inquiria logo da forma dos vestidos das damas; se uma senhora a
visitava, na minha ausncia, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me
o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa
Reverendssima h de lembrar-se, props-se a fazer anualmente um vestido para a
imagem de Nossa Senhora da Matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite,
porm, declarou-se a total demncia. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o
vesturio que levaria ao baile da Cmara Municipal; s hesitava entre um colar
de granada e outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria;
respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu a pergunta, ao
almoo; pouco depois de jantar fui ach-la calada e pensativa.  Que tem?
perguntei-lhe.  Queria levar o colar de granada, mas acho o de safira to
bonito!  Pois leve o de safira.  Ah! mas onde fica o de granada?  Enfim,
passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e
meia, acordo e no a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante
dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a
demncia; recolhi-a logo.

O Padre Lopes no se satisfez com a resposta, mas no
objetou nada. O alienista, porm, percebeu e explicou-lhe que o caso de D.
Evarista era de mania sunturia, no incurvel, e em todo caso digno de
estudo.

 Conto p-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.

A abnegao do ilustre mdico deu-lhe grande realce.
Conjeturas, invenes, desconfianas, tudo caiu por terra, desde que ele no
duvidou recolher  Casa Verde a prpria mulher, a quem amava com todas as
foras da alma. Ningum mais tinha o direito de resistir-lhe,  menos ainda o
de atribuir-lhe intuitos alheios  cincia.

Era um grande homem austero, Hipcrates forrado de Cato.

CAPTULO XI

O ASSOMBRO DE ITAGUA

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que
ficou a vila, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos
na rua.

 Todos?

 Todos.

  impossvel; alguns, sim, mas todos...

 Todos. Assim o disse ele no ofcio que mandou hoje de
manh  Cmara.

De fato, o alienista oficiara  Cmara expondo:  1, que
verificara das estatsticas da vila e da Casa Verde, que quatro quintos da
populao estavam aposentados naquele estabelecimento; 2, que esta deslocao
de populao levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das molstias
cerebrais, teoria que exclua da razo todos os casos em que o equilbrio das
faculdades no fosse perfeito e absoluto; 3, que desse exame e do fato
estatstico resultara para ele a convico de que a verdadeira doutrina no era
aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o
desequilbrio das faculdades, e como hipteses patolgicas todos os casos em
que aquele equilbrio fosse ininterrupto; 4, que  vista disso declarava 
Cmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as
pessoas que se achassem nas condies agora expostas; 5, que tratando de descobrir
a verdade cientfica, no se pouparia a esforos de toda a natureza, esperando
da Cmara igual dedicao; 6, que restitua  Cmara e aos particulares a soma
do estipndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte
efetivamente gasta com a alimentao, roupa, etc.; o que a Cmara mandaria
verificar nos livros e arcas da Casa Verde.

O assombro de Itagua foi grande; no foi menor a alegria
dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, danas, luminrias, msicas, tudo
houve para celebrar to fausto acontecimento. No descrevo as festas por no
interessarem ao nosso propsito; mas foram esplndidas, tocantes e prolongadas.

E vo assim as coisas humanas! No meio do regozijo
produzido pelo ofcio de Simo Bacamarte, ningum advertia na frase final do 
4, uma frase cheia de experincias futuras.

CAPTULO XII

O FINAL DO  4

Apagaram-se as luminrias, reconstituram-se as famlias,
tudo parecia reposto nos antigos eixos. Reinava a ordem, a Cmara exercia outra
vez o governo, sem nenhuma presso externa; o prprio presidente e o vereador
Freitas tornaram aos seus lugares. O barbeiro Porfrio, ensinado pelos
acontecimentos, tendo provado tudo, como o poeta disse de Napoleo, e mais
alguma coisa, porque Napoleo no provou a Casa Verde, o barbeiro achou
prefervel a glria obscura da navalha e da tesoura s calamidades brilhantes
do poder; foi,  certo, processado; mas a populao da vila implorou a
clemncia de Sua Majestade; da o perdo. Joo Pina foi absolvido, atendendo-se
a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas pensam que deste fato  que nasceu
o nosso adgio:  ladro que furta ladro, tem cem anos de perdo;  adgio
imoral,  verdade, mas grandemente til.

No s findaram as queixas contra o alienista, mas at
nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara; acrescendo que os
reclusos da Casa Verde, desde que ele os declarara plenamente ajuizados,
sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e frvido entusiasmo. Muitos
entenderam que o alienista merecia uma especial manifestao e deram-lhe um
baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as crnicas que D.
Evarista a princpio tivera idia de separar-se do consorte, mas a dor de
perder a companhia de to grande homem venceu qualquer ressentimento de amor
prprio e o casal veio a ser ainda mais feliz do que antes.

No menos ntima ficou a amizade do alienista e do
boticrio. Este concluiu do ofcio de Simo Bacamarte que a prudncia  a
primeira das virtudes em tempos de revoluo e apreciou muito a magnanimidade
do alienista, que ao dar-lhe a liberdade estendeu-lhe a mo de amigo velho.

  um grande homem, disse ele  mulher, referindo aquela
circunstncia.

No  preciso falar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do
Martim Brito e outros, especialmente nomeados neste escrito; basta dizer que
puderam exercer livremente os seus hbitos anteriores. O prprio Martim Brito,
recluso por um discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora
outro em honra do insigne mdico  cujo altssimo gnio, elevando as asas
muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espritos da terra.

 Agradeo as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e
ainda me no arrependo de o haver restitudo  liberdade.

Entretanto, a Cmara, que respondera o ofcio de Simo
Bacamarte, com a ressalva de que oportunamente estatuiria em relao ao final
do  4, tratou enfim de legislar sobre ele. Foi adotada, sem debate, uma
postura autorizando o alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se
achassem no gozo do perfeito equilbrio das faculdades mentais. E porque a
experincia da Cmara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ela a clusula, de que
a autorizao era provisria, limitada a um ano, para o fim de ser
experimentada a nova teoria psicolgica, podendo a Cmara, antes mesmo daquele
prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de
ordem pblica. O vereador Freitas props tambm a declarao de que em nenhum
caso fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos alienados: clusula que foi
aceita, votada e includa na postura, apesar das reclamaes do vereador
Galvo. O argumento principal deste magistrado  que a Cmara, legislando sobre
uma experincia cientfica, no podia excluir as pessoas dos seus membros das
conseqncias da lei; a exceo era odiosa e ridcula. Mal proferira estas duas
palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audcia e insensatez
do colega; este, porm, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a
exceo.

 A vereana, concluiu ele, no nos d nenhum poder
especial nem nos elimina do esprito humano.

Simo Bacamarte aceitou a postura com todas as restries.
Quanto  excluso dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se
fosse compelido a recolh-los  Casa Verde; a clusula, porm, era a melhor
prova de que eles no padeciam do perfeito equilbrio das faculdades mentais.
No acontecia o mesmo ao vereador Galvo, cujo acerto na objeo feita, e cuja
moderao na resposta dada s invectivas dos colegas mostravam da parte dele um
crebro bem organizado; pelo que rogava  Cmara que lho entregasse. A Cmara,
sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvo, estimou o pedido
do alienista, e votou unanimemente a entrega.

Compreende-se que, pela teoria nova, no bastava um fato
ou um dito, para recolher algum  Casa Verde; era preciso um longo exame, um
vasto inqurito do passado e do presente. O Padre Lopes, por exemplo, s foi
capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticrio quarenta dias. A
recluso desta senhora encheu o consorte de indignao. Crispim Soares saiu de
casa espumando de clera, e declarando s pessoas a quem encontrava que ia
arrancar as orelhas ao tirano. Um sujeito, adversrio do alienista, ouvindo na
rua essa notcia, esqueceu os motivos de dissidncia, e correu  casa de Simo
Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simo Bacamarte mostrou-se
grato ao procedimento do adversrio, e poucos minutos lhe bastaram para
conhecer a retido dos seus sentimentos, a boa-f, o respeito humano, a
generosidade; apertou-lhe muito as mos, e recolheu-o  Casa Verde.

 Um caso destes  raro, disse ele  mulher pasmada. Agora
esperemos o nosso Crispim.

Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, o boticrio
no arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado,
assegurando-lhe que no era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma leso
cerebral; ia examin-la com muita ateno; mas antes disso no podia deix-la
na rua. E, parecendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astcia e velhacaria do
marido poderiam de certo modo curar a beleza moral que ele descobrira na
esposa, disse Simo Bacamarte:

 O senhor trabalhar durante o dia na botica, mas
almoar e jantar, com sua mulher, e c passar as noites, e os domingos e
dias santos.

A proposta colocou o pobre boticrio na situao do asno
de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar  Casa Verde; e nessa
luta esteve algum tempo, at que D. Evarista o tirou da dificuldade, prometendo
que se incumbiria de ver a amiga e transmitir os recados de um para outro.
Crispim Soares beijou-lhe as mos agradecido. Este ltimo rasgo de egosmo
pusilnime pareceu sublime ao alienista.

Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito
pessoas; mas Simo Bacamarte no afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa,
espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o com
a mesma alegria com que outrora os arrebanhava s dzias. Essa mesma
desproporo confirmava a teoria nova; achara-se enfim a verdadeira patologia
cerebral. Um dia, conseguiu meter na Casa Verde o juiz-de-fora; mas procedia
com tanto escrpulo, que o no fez seno depois de estudar minuciosamente todos
os seus atos, e interrogar os principais da vila. Mais de uma vez esteve
prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com
um advogado, em quem reconheceu um tal conjunto de qualidades morais e mentais,
que era perigoso deix-lo na rua. Mandou prend-lo; mas o agente, desconfiado,
pediu-lhe para fazer uma experincia; foi ter com um compadre, demandado por um
testamento falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano;
era o nome da pessoa em questo.

 Ento, parece-lhe...?

 Sem dvida: v, confesse tudo, a verdade inteira, seja
qual for, e confie-lhe a causa.

O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado
o testamento, e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. No se negou o
advogado, estudou os papis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que
o testamento era mais que verdadeiro. A inocncia do ru foi solenemente
proclamada pelo juiz, e a herana passou-lhe s mos. O distinto jurisconsulto
deveu a esta experincia a liberdade. Mas nada escapa a um esprito original e
penetrante. Simo Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade,
a pacincia, a moderao daquele agente, reconheceu a habilidade e o tino com
que ele levara a cabo uma experincia to melindrosa e complicada, e determinou
recolh-lo imediatamente  Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores
cubculos.

Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma
galeria de modestos, isto , dos loucos em quem predominava esta perfeio
moral; outra de tolerantes, outra de verdicos, outra de smplices, outra de
leais, outra de magnnimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc.
Naturalmente, as famlias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria; e
alguns tentaram compelir a Cmara a cassar a licena. A Cmara, porm, no
esquecera a linguagem do vereador Galvo, e se cassasse a licena, v-lo-ia na
rua, e restitudo ao lugar; pelo que, recusou. Simo Bacamarte oficiou aos
vereadores, no agradecendo, mas felicitando-os por esse ato de vingana
pessoal.

Desenganados da legalidade, alguns principais da vila
recorreram secretamente ao barbeiro Porfrio e afianaram-lhe todo o apoio de
gente, dinheiro e influncia na corte, se ele se pusesse  testa de outro
movimento contra a Cmara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que no; que
a ambio o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que ele se
emendara, reconhecendo o erro prprio e a pouca consistncia da opinio dos
seus mesmos sequazes; que a Cmara entendera autorizar a nova experincia do
alienista, por um ano: cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao
vice-rei, caso a mesma Cmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia o
emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mos, e isso a troco de mortes
e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.

 O que  que me est dizendo? perguntou o alienista
quando um agente secreto lhe contou a conversao do barbeiro com os principais
da vila.

Dois dias depois o barbeiro era recolhido  Casa Verde. 
Preso por ter co, preso por no ter co! exclamou o infeliz.

Chegou o fim do prazo, a Cmara autorizou um prazo
suplementar de seis meses para ensaio dos meios teraputicos. O desfecho deste
episdio da crnica itaguaiense  de tal ordem, e to inesperado, que merecia
nada menos de dez captulos de exposio; mas contento-me com um, que ser o
remate da narrativa, e um dos mais belos exemplos de convico cientfica e
abnegao humana.

CAPTULO XIII

PLUS ULTRA!

Era a vez da teraputica. Simo Bacamarte, ativo e sagaz
em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligncia e penetrao com que
principiou a trat-los. Neste ponto todos os cronistas esto de pleno acordo: o
ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admirao em
Itagua.

Com efeito, era difcil imaginar mais racional sistema
teraputico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeio moral
que em cada um deles excedia s outras, Simo Bacamarte cuidou em atacar de
frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a
medicao que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e no ia logo s doses
mximas,  graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posio
social do enfermo. s vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma
bengala, para restituir a razo ao alienado; em outros casos a molstia era
mais rebelde; recorria ento aos anis de brilhantes, s distines
honorficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simo Bacamarte
comeava a desesperar da cura, quando teve a idia de mandar correr matraca,
para o fim de o apregoar como um rival de Garo e de Pndaro.

 Foi um santo remdio, contava a me do infeliz a uma
comadre; foi um santo remdio.

Outro doente, tambm modesto, ops a mesma rebeldia 
medicao; mas no sendo escritor (mal sabia assinar o nome) no se lhe podia
aplicar o remdio da matraca. Simo Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o
lugar de secretrio da Academia dos Encobertos estabelecida em Itagua. Os
lugares de presidente e secretrios eram de nomeao rgia, por especial graa
do finado rei D. Joo V, e implicavam o tratamento de Excelncia e o uso de uma
placa de ouro no chapu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas
representando o alienista que o no pedia como prmio honorfico ou distino
legtima, e somente como um meio teraputico para um caso difcil, o governo
cedeu excepcionalmente  splica; e ainda assim no o faz sem extraordinrio
esforo do ministro da marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado.
Foi outro santo remdio.

 Realmente,  admirvel! Dizia-se nas ruas, ao ver a
expresso sadia e enfunada dos dois ex-dementes.

Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral
ou mental era atacada no ponto em que a perfeio parecia mais slida; e o
efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade
predominante resistia a tudo; ento, o alienista atacava outra parte, aplicando
 teraputica o mtodo da estratgia militar, que toma uma fortaleza por um
ponto, se por outro o no pode conseguir.

No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde;
todos curados! O vereador Galvo to cruelmente afligido de moderao e
eqidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio
deixou um testamento ambguo, e ele obteve uma boa interpretao, corrompendo
os juzes, e embaando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista
manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que no teve parte na cura:
foi a simples vis medicatrix da natureza. No aconteceu o mesmo com o
Padre Lopes. Sabendo o alienista que ele ignorava perfeitamente o hebraico e o
grego, incumbiu-o de fazer uma anlise crtica da verso dos Setenta; o padre
aceitou a incumbncia, e em boa hora o fez; ao cabo de dois meses possua um
livro e a liberdade. Quanto  senhora do boticrio, no ficou muito tempo na
clula que lhe coube, e onde alis lhe no faltaram carinhos.

 Por que  que o Crispim no vem visitar-me? dizia ela
todos os dias.

Respondiam-lhe ora uma coisa, ora outra; afinal
disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona no pde conter a indignao e
a vergonha. Nas exploses da clera escaparam-lhe expresses soltas e vagas,
como estas:

 Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem
feito casas  custa de ungentos falsificados e podres... Ah! tratante!...

Simo Bacamarte advertiu que, ainda quando no fosse
verdadeira a acusao contida nestas palavras, bastavam elas para mostrar que a
excelente senhora estava enfim restituda ao perfeito desequilbrio das
faculdades; e prontamente lhe deu alta.

Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver
sair o ltimo hspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda no conheceis
o nosso homem. Plus ultra! era a sua divisa. No lhe bastava ter
descoberto a teoria verdadeira da loucura; no o contentava ter estabelecido em
Itagua o reinado da razo. Plus ultra! No ficou alegre, ficou
preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si
mesma, outra e novssima teoria.

Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim  ltima
verdade.

Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde
fulgurava a mais rica biblioteca dos domnios ultramarinos de Sua Majestade. Um
amplo chambre de damasco, preso  cintura por um cordo de seda, com borlas de
ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do
ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida
nas cogitaes cotidianas da cincia. Os ps, no delgados e femininos, no grados
e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de
sapatos cujas fivelas no passavam de simples e modesto lato. Vde a
diferena:  s se lhe notava luxo naquilo que era de origem cientfica; o que
propriamente vinha dele trazia a cor da moderao e da singeleza, virtudes to
ajustadas  pessoa de um sbio.

Era assim que ele ia, o grande alienista, de um cabo a
outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo, estranho a todas as coisas que
no fosse o tenebroso problema da patologia cerebral. Sbito, parou. Em p,
diante de uma janela, com o cotovelo esquerdo apoiado na mo direita, aberta, e
o queixo na mo esquerda, fechada, perguntou ele a si:

 Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por
mim,  ou o que pareceu cura no foi mais do que a descoberta do perfeito
desequilbrio do crebro?

E cavando por a abaixo, eis o resultado a que chegou: os
crebros bem organizados que ele acabava de curar eram desequilibrados como os
outros. Sim, dizia ele consigo, eu no posso ter a pretenso de haver-lhes
incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no
estado latente, mas existiam.

Chegado a esta concluso, o ilustre alienista teve duas
sensaes contrrias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver
que, ao cabo de longas e pacientes investigaes, constantes trabalhos, luta
ingente com o povo, podia afirmar esta verdade:  no havia loucos em Itagua;
Itagua no possua um s mentecapto. Mas to depressa esta idia lhe
refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a
idia da dvida. Pois qu! Itagua no possuiria um nico crebro concertado?
Esta concluso to absoluta no seria por isso mesmo errnea, e no vinha,
portanto, destruir o largo e majestoso edifcio da nova doutrina psicolgica?

A aflio do egrgio Simo Bacamarte  definida pelos
cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que tm
desabado sobre o homem. Mas as tempestades s aterram os fracos; os fortes
enrijam-se contra elas e fitam o trovo. Vinte minutos depois alumiou-se a
fisionomia do alienista de uma suave claridade.

Sim, h de ser isso, pensou ele.

Isso  isto. Simo Bacamarte achou em si os
caractersticos do perfeito equilbrio mental e moral; pareceu-lhe que possua
a sagacidade, a pacincia, a perseverana, a tolerncia, a veracidade, o vigor
moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado
mentecapto. Duvidou logo,  certo, e chegou mesmo a concluir que era iluso;
mas sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem
interrogou com franqueza. A opinio foi afirmativa.

 Nenhum defeito?

 Nenhum, disse em coro a assemblia.

 Nenhum vcio?

 Nada.

 Tudo perfeito?

 Tudo.

 No, impossvel, bradou o alienista. Digo que no sinto
em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificncia. A
simpatia  que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos
da vossa bondade.

A assemblia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o
Padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador:

 Sabe a razo por que no v as suas elevadas qualidades,
que alis todos ns admiramos?  porque tem ainda uma qualidade que reala as
outras:  a modstia.

Era decisivo. Simo Bacamarte curvou a cabea, juntamente
alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato contnuo, recolheu-se 
Casa Verde. Em vo a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava
perfeitamente so e equilibrado: nem rogos nem sugestes nem lgrimas o
detiveram um s instante.

 A questo  cientfica, dizia ele; trata-se de uma
doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reno em mim mesmo a teoria e a
prtica.

 Simo! Simo! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto
lavado em lgrimas.

Mas o ilustre mdico, com os olhos acesos da convico
cientfica, trancou os ouvidos  saudade da mulher, e brandamente a repeliu.
Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e  cura de si mesmo.
Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em
que entrou, sem ter podido alcanar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar
que nunca houve outro louco, alm dele, em Itagua; mas esta opinio, fundada
em um boato que correu desde que o alienista expirou, no tem outra prova,
seno o boato; e boato duvidoso, pois  atribudo ao Padre Lopes, que com tanto
fogo realara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o
enterro com muita pompa e rara solenidade.

TEORIA DO MEDALHO

Dilogo

 Ests com sono?

 No, senhor.

 Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janela. Que horas
so?

 Onze.

 Saiu o ltimo conviva do nosso modesto jantar. Com que,
meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. H vinte e um anos, no dia 5 de
agosto de 1854, vinhas tu  luz, um pirralho de nada, e ests homem, longos
bigodes, alguns namoros...

 Papai...

 No te ponhas com denguices, e falemos como dois amigos
srios. Fecha aquela porta; vou dizer-te coisas importantes. Senta-te e
conversemos. Vinte e um anos, algumas aplices, um diploma, podes entrar no
parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na indstria, no
comrcio, nas letras ou nas artes. H infinitas carreiras diante de ti. Vinte e
um anos, meu rapaz, formam apenas a primeira slaba do nosso destino. Os mesmos
Pitt e Napoleo, apesar de precoces, no foram tudo aos vinte e um anos. Mas,
qualquer que seja a profisso da tua escolha, o meu desejo  que te faas
grande e ilustre, ou pelo menos notvel, que te levantes acima da obscuridade
comum. A vida, Janjo,  uma enorme loteria; os prmios so poucos, os
malogrados inmeros, e com os suspiros de uma gerao  que se amassam as
esperanas de outra. Isto  a vida; no h planger, nem imprecar, mas aceitar
as coisas integralmente, com seus nus e percalos, glrias e desdouros, e ir
por diante.

 Sim, senhor.

 Entretanto, assim como  de boa economia guardar um po
para a velhice, assim tambm  de boa prtica social acautelar um ofcio para a
hiptese de que os outros falhem, ou no indenizem suficientemente o esforo da
nossa ambio.  isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

 Creia que lhe agradeo; mas que ofcio, no me dir?

 Nenhum me parece mais til e cabido que o de medalho.
Ser medalho foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porm, as instrues
de um pai, e acabo como vs, sem outra consolao e relevo moral, alm das
esperanas que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e
entende. s moo, tens naturalmente o ardor, a exuberncia, os improvisos da
idade; no os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco anos
possas entrar francamente no regmen do aprumo e do compasso. O sbio que
disse: a gravidade  um mistrio do corpo, definiu a compostura do medalho.
No confundas essa gravidade com aquela outra que, embora resida no aspecto, 
um puro reflexo ou emanao do esprito; essa  do corpo, to-somente do corpo,
um sinal da natureza ou um jeito da vida. Quanto  idade de quarenta e cinco
anos...

  verdade, por que quarenta e cinco anos?

 No , como podes supor, um limite arbitrrio, filho do
puro capricho;  a data normal do fenmeno. Geralmente, o verdadeiro medalho
comea a manifestar-se entre os quarenta e cinco e cinqenta anos, conquanto
alguns exemplos se dem entre os cinqenta e cinco e os sessenta; mas estes so
raros. H-os tambm de quarenta anos, e outros mais precoces, de trinta e cinco
e de trinta; no so, todavia, vulgares. No falo dos de vinte e cinco anos:
esse madrugar  privilgio do gnio.

 Entendo.

 Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira,
deves pr todo o cuidado nas idias que houveres de nutrir para uso alheio e
prprio. O melhor ser no as ter absolutamente; coisa que entenders bem,
imaginando, por exemplo, um ator defraudado do uso de um brao. Ele pode, por
um milagre de artifcio, dissimular o defeito aos olhos da platia; mas era
muito melhor dispor dos dois. O mesmo se d com as idias; pode-se, com
violncia, abaf-las, escond-las at  morte; mas nem essa habilidade  comum,
nem to constante esforo conviria ao exerccio da vida.

 Mas quem lhe diz que eu...

 Tu, meu filho, se me no engano, pareces dotado da
perfeita inpia mental, conveniente ao uso deste nobre ofcio. No me refiro
tanto  fidelidade com que repetes numa sala as opinies ouvidas numa esquina,
e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carncia de idias, ainda
assim pode no passar de uma traio da memria. No; refiro-me ao gesto
correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou
antipatias acerca do corte de um colete, das dimenses de um chapu, do ranger
ou calar das botas novas. Eis a um sintoma eloqente, eis a uma esperana. No
entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas
idias prprias, urge aparelhar fortemente o esprito. As idias so de sua
natureza espontneas e sbitas; por mais que as sofremos, elas irrompem e
precipitam-se. Da a certeza com que o vulgo, cujo faro  extremamente
delicado, distingue o medalho completo do medalho incompleto.

 Creio que assim seja; mas um tal obstculo  invencvel.

 No ; h um meio;  lanar mo de um regmen
debilitante, ler compndios de retrica, ouvir certos discursos, etc. O
voltarete, o domin e o whist so remdios aprovados. O whist tem
at a rara vantagem de acostumar ao silncio, que  a forma mais acentuada da
circunspeco. No digo o mesmo da natao, da equitao e da ginstica, embora
elas faam repousar o crebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar,
restituem-lhe as foras e a atividade perdidas. O bilhar  excelente.

 Como assim, se tambm  um exerccio corporal?

 No digo que no, mas h coisas em que a observao
desmente a teoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar  porque as
estatsticas mais escrupulosas mostram que trs quartas partes dos habituados
do taco partilham as opinies do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas
de recreio e parada  utilssimo, com a condio de no andares desacompanhado,
porque a solido  oficina de idias, e o esprito deixado a si mesmo, embora
no meio da multido, pode adquirir uma tal ou qual atividade.

 Mas se eu no tiver  mo um amigo apto e disposto a ir
comigo?

 No faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos
pasmatrios, em que toda a poeira da solido se dissipa. As livrarias, ou por
causa da atmosfera do lugar, ou por qualquer outra razo que me escapa, no so
propcias ao nosso fim; e, no obstante, h grande convenincia em entrar por
elas, de quando em quando, no digo s ocultas, mas s escncaras. Podes
resolver a dificuldade de um modo simples: vai ali falar do boato do dia, da
anedota da semana, de um contrabando, de uma calnia, de um cometa, de qualquer
coisa, quando no prefiras interrogar diretamente os leitores habituais das
belas crnicas de Mazade; 75 por cento desses estimveis cavalheiros
repetir-te-o as mesmas opinies, e uma tal monotonia  grandemente saudvel.
Com este regmen, durante oito, dez, dezoito meses  suponhamos dois anos, 
reduzes o intelecto, por mais prdigo que seja,  sobriedade,  disciplina, ao
equilbrio comum. No trato do vocabulrio, porque ele est subentendido no uso
das idias; h de ser naturalmente simples, tbio, apoucado, sem notas
vermelhas, sem cores de clarim...

 Isto  o diabo! No poder adornar o estilo, de quando em
quando...

 Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas,
a hidra de Lerna, por exemplo, a cabea de Medusa, o tonel das Danaides, as
asas de caro, e outras, que romnticos, clssicos e realistas empregam sem
desar, quando precisam delas. Sentenas latinas, ditos histricos, versos
clebres, brocardos jurdicos, mximas,  de bom aviso traz-los contigo para
os discursos de sobremesa, de felicitao, ou de agradecimento. Caveant,
consules  um excelente fecho de artigo poltico; o mesmo direi do Si
vis pacem para bellum. Alguns costumam renovar o sabor de uma citao
intercalando-a numa frase nova, original e bela, mas no te aconselho esse
artifcio; seria desnaturar-lhe as graas vetustas. Melhor do que tudo isso,
porm, que afinal no passa de mero adorno, so as frases feitas, as locues convencionais,
as frmulas consagradas pelos anos, incrustadas na memria individual e
pblica. Essas frmulas tm a vantagem de no obrigar os outros a um esforo
intil. No as relaciono agora, mas f-lo-ei por escrito. De resto, o mesmo
ofcio te ir ensinando os elementos dessa arte difcil de pensar o pensado.
Quanto  utilidade de um tal sistema, basta figurar uma hiptese. Faz-se uma
lei, executa-se, no produz efeito, subsiste o mal. Eis a uma questo que pode
aguar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inqurito pedantesco, a uma
coleta fastidiosa de documentos e observaes, anlise das causas provveis,
causas certas, causas possveis, um estudo infinito das aptides do sujeito
reformado, da natureza do mal, da manipulao do remdio, das circunstncias da
aplicao; matria, enfim, para todo um andaime de palavras, conceitos, e
desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse imenso aranzel, tu dizes
simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes!  E esta frase sinttica,
transparente, lmpida, tirada ao peclio comum, resolve mais depressa o
problema, entra pelos espritos como um jorro sbito de sol.

 Vejo por a que vosmec condena toda e qualquer
aplicao de processos modernos.

 Entendamo-nos. Condeno a aplicao, louvo a denominao.
O mesmo direi de toda a recente terminologia cientfica; deves decor-la.
Conquanto o rasgo peculiar do medalho seja uma certa atitude de deus Trmino,
e as cincias sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalho mais
tarde, convm tomar as armas do teu tempo. E de duas uma:  ou elas estaro
usadas e divulgadas daqui a trinta anos, ou conservar-se-o novas: no primeiro
caso, pertencem-te de foro prprio; no segundo, podes ter a coquetice de as
trazer, para mostrar que tambm s pintor. De oitiva, com o tempo, irs sabendo
a que leis, casos e fenmenos responde toda essa terminologia; porque o mtodo
de interrogar os prprios mestres e oficiais da cincia, nos seus livros,
estudos e memrias, alm de tedioso e cansativo, traz o perigo de inocular
idias novas, e  radicalmente falso. Acresce que no dia em que viesses a
assenhorear-te do esprito daquelas leis e frmulas, serias provavelmente
levado a empreg-las com um tal ou qual comedimento, como a costureira 
esperta e afreguesada,  que, segundo um poeta clssico,

Quanto mais pano tem, mais poupa o corte,

Menos monte alardeia de retalhos;

e este fenmeno, tratando-se de um medalho,  que no
seria cientfico.

 Upa! que a profisso  difcil.

 E ainda no chegamos ao cabo.

 Vamos a ele.

 No te falei ainda dos benefcios da publicidade. A
publicidade  uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar  fora de
pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, coisas midas, que antes exprimem a
constncia do afeto do que o atrevimento e a ambio. Que D. Quixote solicite
os favores dela mediante aes hericas ou custosas  um sestro prprio desse
ilustre luntico. O verdadeiro medalho tem outra poltica. Longe de inventar
um Tratado Cientfico da Criao dos Carneiros, compra um carneiro e
d-o aos amigos sob a forma de um jantar, cuja notcia no pode ser indiferente
aos seus concidados. Uma notcia traz outra; cinco, dez, vinte vezes pe o teu
nome ante os olhos do mundo. Comisses ou deputaes para felicitar um
agraciado, um benemrito, um forasteiro, tm singulares merecimentos, e assim
as irmandades e associaes diversas, sejam mitolgicas, cinegticas ou
coreogrficas. Os sucessos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidos
a lume, contanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se cares de um
carro, sem outro dano, alm do susto,  til mand-lo dizer aos quatro ventos,
no pelo fato em si, que  insignificante, mas pelo efeito de recordar um nome
caro s afeies gerais. Percebeste?

 Percebi.

 Essa  publicidade constante, barata, fcil, de todos os
dias; mas h outra. Qualquer que seja a teoria das artes,  fora de dvida que o
sentimento da famlia, a amizade pessoal e a estima pblica instigam 
reproduo das feies de um homem amado ou benemrito. Nada obsta a que sejas
objeto de uma tal distino, principalmente se a sagacidade dos amigos no
achar em ti repugnncia. Em semelhante caso, no s as regras da mais vulgar
polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desazado impedir que os
amigos o expusessem em qualquer casa pblica. Dessa maneira o nome fica ligado
 pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (suponhamos) na sesso
inaugural da Unio dos Cabeleireiros, reconhecero na compostura das feies o
autor dessa obra grave, em que a alavanca do progresso e o suor do trabalho
vencem as fauces hiantes da misria. No caso de que uma comisso te leve 
casa o retrato, deves agradecer-lhe o obsquio com um discurso cheio de
gratido e um copo dgua:  uso antigo, razovel e honesto. Convidars ento
os melhores amigos, os parentes, e, se for possvel, uma ou duas pessoas de
representao. Mais. Se esse dia  um dia de glria ou regozijo, no vejo que
possas, decentemente, recusar um lugar  mesa aos reporters dos jornais.
Em todo o caso, se as obrigaes desses cidados os retiverem noutra parte,
podes ajud-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notcia da festa; e,
dado que por um tal ou qual escrpulo, alis desculpvel, no queiras com a
prpria mo anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notcia
a algum amigo ou parente.

 Digo-lhe que o que vosmec me ensina no  nada fcil.

 Nem eu te digo outra coisa.  difcil, come tempo, muito
tempo, leva anos, pacincia, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na
terra prometida! Os que l no penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que
triunfam! E tu triunfars, cr-me. Vers cair as muralhas de Jeric ao som das
trompas sagradas. S ento poders dizer que ests fixado. Comea nesse dia a
tua fase de ornamento indispensvel, de figura obrigada, de rtulo. Acabou-se a
necessidade de farejar ocasies, comisses, irmandades; elas viro ter contigo,
com o seu ar pesado e cru de substantivos desadjetivados, e tu sers o
adjetivo dessas oraes opacas, o odorfero das flores, o anilado
dos cus, o prestimoso dos cidados, o noticioso e suculento
dos relatrios. E ser isso  o principal, porque o adjetivo  a alma do idioma,
a sua poro idealista e metafsica. O substantivo  a realidade nua e crua, 
o naturalismo do vocabulrio.

 E parece-lhe que todo esse ofcio  apenas um
sobressalente para os deficits da vida?

 Decerto; no fica excluda nenhuma outra atividade.

 Nem poltica?

 Nem poltica. Toda a questo  no infringir as regras e
obrigaes capitais. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou
conservador, republicano ou ultramontano, com a clusula nica de no ligar
nenhuma idia especial a esses vocbulos, e reconhecer-lhe somente a utilidade
do scibboleth bblico.

 Se for ao parlamento, posso ocupar a tribuna?

 Podes e deves;  um modo de convocar a ateno pblica. Quanto
 matria dos discursos, tens  escolha:  ou os negcios midos, ou a
metafsica poltica, mas prefere a metafsica. Os negcios midos, fora 
confess-lo, no desdizem daquela chateza de bom-tom, prpria de um medalho
acabado; mas, se puderes, adota a metafsica;   mais fcil e mais atraente.
Supe que deseja saber por que motivo a 7 companhia de infantaria foi
transferida de Uruguaiana para Canguu; sers ouvido to-somente pelo Ministro
da Guerra, que te explicar em dez minutos as razes desse ato. No assim a
metafsica. Um discurso de metafsica poltica apaixona naturalmente os
partidos e o pblico, chama os apartes e as respostas. E depois no obriga a
pensar e descobrir. Nesse ramo dos conhecimentos humanos tudo est achado,
formulado, rotulado, encaixotado;  s prover os alforjes da memria. Em todo
caso, no transcendas nunca os limites de uma invejvel vulgaridade.

 Farei o que puder. Nenhuma imaginao?

 Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom 
nfimo.

 Nenhuma filosofia?

 Entendamo-nos: no papel e na lngua alguma, na realidade
nada. Filosofia da histria, por exemplo,  uma locuo que deves empregar
com freqncia, mas probo-te que chegues a outras concluses que no sejam as
j achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexo, originalidade,
etc., etc.

 Tambm ao riso?

 Como ao riso?

 Ficar srio, muito srio...

 Conforme. Tens um gnio folgazo, prazenteiro, no hs
de sofre-lo nem elimin-lo; podes brincar e rir alguma vez. Medalho no quer
dizer melanclico. Um grave pode ter seus momentos de expanso alegre. Somente,
 e este ponto  melindroso...

 Diga.

 Somente no deves empregar a ironia, esse movimento ao
canto da boca, cheio de mistrios, inventado por algum grego da decadncia,
contrado por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feio prpria dos
cticos e desabusados. No. Usa antes a chalaa, a nossa boa chalaa amiga,
gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem vus, que se mete pela cara dos
outros, estala como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de
riso os suspensrios. Usa a chalaa. Que  isto?

 Meia-noite.

 Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta;
ests definitivamente maior. Vamos dormir, que  tarde. Rumina bem o que te
disse, meu filho. Guardadas as propores, a conversa desta noite vale o Prncipe
de Machiavelli. Vamos dormir.

A CHINELA TURCA

Vde o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e
correto lao de gravata que apareceu naquele ano de 1850, e anunciam-lhe a
visita do Major Lopo Alves. Notai que  de noite, e passa de nove horas. Duarte
estremeceu, e tinha duas razes para isso. A primeira era ser o major, em
qualquer ocasio, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda  que ele
preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabelos loiros
e os mais pensativos olhos azuis, que este nosso clima, to avaro deles,
produzira. Datava de uma semana aquele namoro. Seu corao, deixando-se prender
entre duas valsas, confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declarao em
regra, que eles pontualmente transmitiram  moa, dez minutos antes da ceia,
recebendo favorvel resposta logo depois do chocolate. Trs dias depois, estava
a caminho a primeira carta, e pelo jeito que levavam as coisas no era de
admirar que, antes do fim do ano, estivessem ambos a caminho da igreja. Nestas
circunstncias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho
amigo da famlia, companheiro de seu finado pai no exrcito, tinha jus o major
a todos os respeitos. Impossvel despedi-lo ou trat-lo com frieza. Havia
felizmente uma circunstncia atenuante; o major era aparentado com Ceclia, a
moa dos olhos azuis; em caso de necessidade, era um voto seguro.

Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde
Lopo Alves, com um rolo debaixo do brao e os olhos fitos no ar, parecia
totalmente alheio  chegada do bacharel.

 Que bom vento o trouxe a Catumbi a semelhante hora?
perguntou Duarte, dando  voz uma expresso de prazer, aconselhada no menos
pelo interesse que pelo bom-tom.

 No sei se o vento que me trouxe  bom ou mau, respondeu
o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento
rijo. Vai sair?

 Vou ao Rio Comprido.

 J sei; vai  casa da viva Meneses. Minha mulher e as
pequenas j l devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que  cedo,
no?

Lopo Alves tirou o relgio e viu que eram nove horas e
meia. Passou a mo pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou
a sentar-se e disse:

 Dou-lhe uma notcia, que certamente no espera. Saiba
que fiz... fiz um drama.

 Um drama! exclamou o bacharel.

 Que quer? Desde criana padeci destes achaques
literrios. O servio militar no foi remdio que me curasse, foi um paliativo.
A doena regressou com a fora dos primeiros tempos. J agora no h remdio
seno deix-la, e ir simplesmente ajudando a natureza.

Duarte recordou-se de que efetivamente o major falava
noutro tempo de alguns discursos inaugurais, duas ou trs nnias e boa soma de
artigos que escrevera acerca das campanhas do Rio da Prata. Havia porm muitos
anos que Lopo Alves deixara em paz os generais platinos e os defuntos; nada
fazia supor que a molstia volvesse, sobretudo caracterizada por um drama. Esta
circunstncia explic-la-ia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves, algumas
semanas antes, assistira  representao de uma pea do gnero ultra-romntico,
obra que lhe agradou muito e lhe sugeriu a idia de afrontar as luzes do
tablado. No entrou o major nestas minuciosidades necessrias, e o bacharel
ficou sem conhecer o motivo da exploso dramtica do militar. Nem o soube, nem
curou disso. Encareceu muito as faculdades mentais do major, manifestou
calorosamente a ambio que nutria de o ver sair triunfante naquela estria,
prometeu que o recomendaria a alguns amigos que tinha no Correio Mercantil,
e s estacou e empalideceu quando viu o major, trmulo de bem-aventurana,
abrir o rolo que trazia consigo.

 Agradeo-lhe as suas boas intenes, disse Lopo Alves, e
aceito o obsquio que me promete; antes dele, porm, desejo outro. Sei que 
inteligente e lido; h de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. No
lhe peo elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se achar que no  bom,
diga-o sem rebuo.

Duarte procurou desviar aquele clice de amargura; mas era
difcil pedi-lo, e impossvel alcan-lo. Consultou melancolicamente o relgio,
que marcava nove horas e cinqenta e cinco minutos, enquanto o major folheava
paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscrito.

 Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que so
rapazes e o que so bailes. Descanse que ainda hoje danar duas ou trs valsas
com ela, se a tem, ou com elas. No acha melhor irmos para o seu
gabinete?

Era indiferente, para o bacharel, o lugar do suplcio;
acedeu ao desejo do hspede. Este, com a liberdade que lhe davam as relaes,
disse ao moleque que no deixasse entrar ningum. O algoz no queria
testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou lugar ao p da
mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o desespero numa
vasta poltrona de marroquim, resoluto a no dizer palavra para ir mais depressa
ao termo.

O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicao
produziu um calafrio no ouvinte. Nada havia de novo naquelas cento e oitenta
pginas, seno a letra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as ficelles
e at o estilo dos mais acabados tipos do romantismo desgrenhado. Lopo Alves
cuidava pr por obra uma inveno, quando no fazia mais do que alinhavar as
suas reminiscncias. Noutra ocasio, a obra seria um bom passatempo. Havia logo
no primeiro quadro, espcie de prlogo, uma criana roubada  famlia, um
envenenamento, dois embuados, a ponta de um punhal e quantidade de adjetivos
no menos afiados que o punhal. No segundo quadro dava-se conta da morte de um
dos embuados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e
matar o tirano do stimo. Alm da morte aparente do embuado, havia no segundo
quadro o rapto da menina, j ento moa de dezessete anos, um monlogo que
parecia durar igual prazo, e o roubo de um testamento.

Eram quase onze horas quando acabou a leitura deste
segundo quadro. Duarte mal podia conter a clera; era j impossvel ir ao Rio
Comprido. No  fora de propsito conjeturar que, se o major expirasse naquele
momento, Duarte agradecia a morte como um benefcio da Providncia. Os
sentimentos do bacharel no faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um
mau livro  capaz de produzir fenmenos ainda mais espantosos. Acresce que,
enquanto aos olhos carnais do bacharel aparecia em toda a sua espessura a grenha
de Lopo Alves, fulgiam-lhe ao esprito os fios de ouro que ornavam a formosa
cabea de Ceclia; via-a com os olhos azuis, a tez branca e rosada, o gesto
delicado e gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no salo
da viva Meneses. Via aquilo, e ouvia mentalmente a msica, a palestra, o soar
dos passos, e o ruge-ruge das sedas; enquanto a voz rouquenha e sensaborona de
Lopo Alves ia desfiando os quadros e os dilogos, com a impassibilidade de uma
grande convico.

Voava o tempo, e o ouvinte j no sabia a conta dos
quadros. Meia-noite soara desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu
Duarte que o major enrolava outra vez o manuscrito, erguia-se, empertigava-se,
cravava nele uns olhos odientos e maus, e saa arrebatadamente do gabinete.
Duarte quis cham-lo, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. Quando
pde dominar-se, ouviu o bater do taco rijo e colrico do dramaturgo na pedra
da calada.

Foi  janela; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham
desaparecido.

 Por que no fez ele isso a mais tempo? disse o rapaz
suspirando.

O suspiro mal teve tempo de abrir as asas e sair pela
janela fora, em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veio
anunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo.

 A esta hora! exclamou Duarte.

 A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na
sala. A esta ou a qualquer hora, pode a polcia entrar na casa do cidado, uma
vez que se trata de um delito grave.

 Um delito!

 Creio que me conhece...

 No tenho essa honra.

 Sou empregado na polcia.

 Mas que tenho eu com o senhor? de que delito se trata?

 Pouca coisa: um furto. O senhor  acusado de haver
subtrado uma chinela turca. Aparentemente no vale nada ou vale pouco a tal
chinela. Mas h chinela e chinela. Tudo depende das circunstncias.

O homem disse isto com um riso sarcstico, e cravando no
bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte no sabia sequer da existncia do
objeto roubado. Concluiu que havia equvoco de nome, e no se zangou com a
injria irrogada  sua pessoa, e de algum modo  sua classe, atribuindo-se-lhe
a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da polcia, acrescentando que no era
motivo, em todo caso, para incomod-lo a semelhante hora.

 H de perdoar-me, disse o representante da autoridade. A
chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de ris;  ornada de
finssimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. No  turca s pela
forma, mas tambm pela origem. A dona, que  uma de nossas patrcias mais
viageiras, esteve, h cerca de trs anos, no Egito, onde a comprou a um judeu.
A histria, que este aluno de Moiss referiu acerca daquele produto da
indstria muulmana,  verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir,
perfeitamente mentirosa. Mas no vem ao caso diz-la. O que importa saber  que
ela foi roubada e que a polcia tem denncia contra o senhor.

Neste ponto do discurso, chegara-se o homem  janela;
Duarte suspeitou que fosse um doido ou um ladro. No teve tempo de examinar a
suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados,
que lhe lanaram as mos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que
soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o
meteram  fora. J l estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e
magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o
chicote do cocheiro e o carro partiu  desfilada.

 Ah! ah! disse o homem gordo. Com que ento pensava que
podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar moas louras, casar talvez
com elas... e rir ainda por cima do gnero humano.

Ouvindo aquela aluso  dama dos seus pensamentos, Duarte
teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforo de rival
suplantado. Ou a aluso seria casual e estranha  aventura? Duarte perdeu-se
num cipoal de conjeturas, enquanto o carro ia sempre andando a todo galope. No
fim de algum tempo, arriscou uma observao.

 Quaisquer que sejam os meus crimes, suponho que a
polcia...

 Ns no somos da polcia, interrompeu friamente o homem
magro.

 Ah!

 Este cavalheiro e eu fazemos um par. Ele, o senhor e eu
faremos um terno. Ora, terno no  melhor que par; no, no pode ser. Um casal
 o ideal. Provavelmente no me entendeu?

 No, senhor.

 H de entender logo mais.

Duarte resignou-se  espera, enfronhou-se no silncio,
derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos
depois estacavam os cavalos.

 Chegamos, disse o homem gordo.

Dizendo isto, tirou um leno da algibeira e ofereceu-o ao
bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro
observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. No resistiu o
bacharel; atou o leno e apeou-se. Ouviu, da a pouco, ranger uma porta; duas
pessoas,  provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro,  seguraram-lhe
as mos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando,
ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, frases truncadas.
Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte
obedeceu; mas ao desvendar-se, no viu ningum mais.

Era uma sala vasta, assaz iluminada, trastejada com
elegncia e opulncia. Era talvez sobreposse a variedade dos adornos; contudo,
a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado.

Os bronzes, chares, tapetes, espelhos,  a cpia infinita
de objetos que enchiam a sala, era tudo da melhor fbrica. A vista daquilo
restituiu a serenidade de nimo ao bacharel; no era provvel que ali morassem
ladres.

Reclinou-se o moo indolentemente na otomana... Na
otomana! Esta circunstncia trouxe  memria do rapaz o princpio da aventura e
o roubo da chinela. Alguns minutos de reflexo bastaram para ver que a tal
chinela era j agora mais que problemtica. Cavando mais fundo no terreno das
conjeturas, pareceu-lhe achar uma explicao nova e definitiva. A chinela vinha
a ser pura metfora; tratava-se do corao de Ceclia, que ele roubara, delito
de que o queria punir o j imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente
as palavras misteriosas do homem magro: o par  melhor que o terno; um casal 
o ideal.

 H de ser isso, concluiu Duarte; mas quem ser esse
pretendente derrotado?

Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e
negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por efeito
de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por ele deitou-lhe
a bno, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel
ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, estpido de todos
os sentidos. O inesperado daquela apario baralhou totalmente as idias
anteriores a respeito da aventura. No teve tempo, entretanto, de cogitar
alguma nova explicao, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por
ela outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a ele e o convidou a
segui-lo. Duarte no ops resistncia. Saram por uma terceira porta, e,
atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala,
que s o era por duas velas postas em castiais de prata. Os castiais estavam
sobre uma mesa larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava
ter cinqenta e cinco anos; era uma figura atltica, farta de cabelos na cabea
e na cara.

 Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na
sala.

 No, senhor.

 Nem  preciso. O que vamos fazer exclui absolutamente a
necessidade de qualquer apresentao. Saber em primeiro lugar que o roubo da
chinela foi um simples pretexto...

 Oh! decerto! interrompeu Duarte.

 Um simples pretexto, continuou o velho, para traz-lo a
esta nossa casa. A chinela no foi roubada; nunca saiu das mos da dona. Joo
Rufino, v buscar a chinela.

O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a
famosa chinela no tinha nenhum diamante, nem fora comprada a nenhum judeu do
Egito; era, porm, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenez.
Duarte ouviu as explicaes, e, reunindo todas as foras, perguntou
resolutamente:

 Mas, senhor, no me dir de uma vez o que querem de mim
e o que estou fazendo nesta casa?

 Vai sab-lo, respondeu tranqilamente o velho.

A porta abriu-se e apareceu o homem magro com a chinela na
mo. Duarte, convidado a aproximar-se da luz, teve ocasio de verificar que a
pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim finssimo; no
assento do p, estufado e forrado de seda cor azul, rutilavam duas letras
bordadas a ouro.

 Chinela de criana, no lhe parece? disse o velho.

 Suponho que sim.

 Pois supe mal;  chinela de moa.

 Ser; nada tenho com isso.

 Perdo! Tem muito, porque vai casar com a dona.

 Casar! exclamou Duarte.

 Nada menos. Joo Rufino, v buscar a dona da chinela.

Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando 
porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o
centro da sala. No era mulher, era uma slfide, uma viso de poeta, uma
criatura divina.

Era loura; tinha os olhos azuis, como os de Ceclia,
extticos, uns olhos que buscavam o cu ou pareciam viver dele. Os cabelos,
desleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabea, um como resplendor de
santa; santa somente, no mrtir, porque o sorriso que lhe desabrochava os
lbios, era um sorriso de bem-aventurana, como raras vezes h de ter tido a
terra.

Um vestido branco, de finssima cambraia, envolvia-lhe
castamente o corpo, cujas formas alis desenhava, pouco para os olhos, mas
muito para a imaginao.

Um rapaz, como o bacharel, no perde o sentimento da
elegncia, ainda em lances daqueles. Duarte, ao ver a moa, comps o chambre,
apalpou a gravata e fez uma cerimoniosa cortesia, a que ela correspondeu com
tamanha gentileza e graa, que a aventura comeou a parecer muito menos
aterradora.

 Meu caro doutor, esta  a noiva.

A moa abaixou os olhos; Duarte respondeu que no tinha
vontade de casar.

 Trs coisas vai o senhor fazer agora mesmo, continuou
impassivelmente o velho: a primeira  casar; a segunda escrever o seu
testamento; a terceira engolir certa droga do Levante...

 Veneno! interrompeu Duarte.

 Vulgarmente  esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte
do cu.

Duarte estava plido e frio. Quis falar, no pde; um
gemido, sequer, no lhe saiu do peito. Rolaria ao cho, se no houvesse ali
perto uma cadeira em que se deixou cair.

 O senhor, continuou o velho, tem uma fortunazinha de
cento e cinqenta contos. Esta prola ser a sua herdeira universal. Joo
Rufino, v buscar o padre.

O padre entrou, o mesmo padre calvo que abenoara o
bacharel pouco antes; entrou e foi direto ao moo, engrolando sonolentamente um
trecho de Neemias ou qualquer outro profeta menor; travou-lhe da mo e disse:

 Levante-se!

 No! no quero! no me casarei!

 E isto? disse da mesa o velho, apontando-lhe uma
pistola.

 Mas ento  um assassinato?

 ; a diferena est no gnero de morte: ou violenta com
isto, ou suave com a droga. Escolha!

Duarte suava e tremia. Quis levantar-se e no pde. Os
joelhos batiam um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse
baixinho:

 Quer fugir?

 Oh! sim! exclamou, no com os lbios, que podia ser
ouvido, mas com os olhos em que ps toda a vida que lhe restava.

 V aquela janela? Est aberta; embaixo fica um jardim.
Atire-se dali sem medo.

 Oh! padre! disse baixinho o bacharel.

 No sou padre, sou tenente do exrcito. No diga nada.

A janela estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma
nesga do cu, j meio claro. Duarte no hesitou, coligiu todas as foras, deu
um pulo do lugar onde estava e atirou-se a Deus misericrdia por ali abaixo.
No era grande altura, a queda foi pequena; ergueu-se o moo rapidamente, mas o
homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo.

 Que  isso? perguntou ele rindo.

Duarte no respondeu, fechou os punhos, bateu com eles
violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pelo jardim fora. O homem
no caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impresso, seguiu
no encalo do fugitivo. Comeou ento uma carreira vertiginosa. Duarte ia
saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando rvores, que uma ou
outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o suor em bica, alteava-se-lhe
o peito, as foras iam a perder-se pouco a pouco; tinha uma das mos feridas, a
camisa salpicada do orvalho das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser
apanhado, o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Enfim, cansado,
ferido, ofegante, caiu nos degraus de pedra de uma casa, que havia no meio do
ltimo jardim que atravessara.

Olhou para trs; no viu ningum: o perseguidor no o
acompanhara at ali. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro
degraus que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma
sala pequena e baixa.

Um homem que ali estava, lendo um nmero do Jornal do
Comrcio, pareceu no o ter visto entrar. Duarte caiu numa cadeira. Fitou os
olhos no homem. Era o Major Lopo Alves.

O major, empunhando a folha, cujas dimenses iam-se
tornando extremamente exguas, exclamou repentinamente:

 Anjo do cu, ests vingado! Fim do ltimo quadro.

Duarte olhou para ele, para a mesa, para as paredes,
esfregou os olhos, respirou  larga.

 Ento! Que tal lhe pareceu?

 Ah! excelente! respondeu o bacharel, levantando-se.

 Paixes fortes, no?

 Fortssimas. Que horas so?

 Deram duas agora mesmo.

Duarte acompanhou o major at  porta, respirou ainda uma
vez, apalpou-se, foi at  janela. Ignora-se o que pensou durante os primeiros
minutos; mas, ao cabo de um quarto de hora, eis o que ele dizia consigo: 
Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e frtil, tu me salvaste de uma ruim pea
com um sonho original, substituste-me o tdio por um pesadelo: foi um bom
negcio. Um bom negcio e uma grave lio: provaste-me ainda uma vez que o
melhor drama est no espectador e no no palco.

NA ARCA

Trs
captulos inditos do Gnesis

NDICE

CAPTULO
A

CAPTULO
B

captulo
c

Captulo A

1.  Ento No disse a seus filhos Jaf, Sem e Cam: 
Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, ns, e nossas mulheres, e
todos os animais. A arca tem de parar no cabeo de uma montanha; desceremos a
ela.

2.  Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me
disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer
perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nela tu, tua mulher e teus
filhos.

3.  E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os
animais.

4.  Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e
todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas do cu; tornaremos a
descer  terra, e a viver no seio da paz e da concrdia.

5.  Isto disse No, e os filhos de No muito se alegraram
de ouvir as palavras de seu pai; e No os deixou ss, retirando-se a uma das
cmaras da arca.

6.  Ento Jaf levantou a voz e disse:  Aprazvel vida
vai ser a nossa. A figueira nos dar o fruto, a ovelha a l, a vaca o leite, o
sol a claridade e a noite a tenda.

7.  Porquanto seremos nicos na terra, e toda a terra
ser nossa, e ningum perturbar a paz de uma famlia, poupada do castigo que
feriu a todos os homens.

8.  Para todo o sempre. Ento Sem, ouvindo falar o
irmo, disse:  Tenho uma idia. Ao que Jaf e Cam responderam: Vejamos a
tua idia, Sem.

9.  E Sem falou a voz de seu corao, dizendo:  Meu pai
tem a sua famlia; cada um de ns tem a sua famlia; a terra  de sobra;
podamos viver em tendas separadas. Cada um de ns far o que lhe parecer
melhor: e plantar, caar, ou lavrar a madeira, ou fiar o linho.

10.  E respondeu Jaf:  Acho bem lembrada a idia de
Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeo de uma
montanha; meu pai e Cam descero para o lado do nascente; eu e Sem para o lado
do poente. Sem ocupar duzentos cvados de terra, eu outros duzentos.

11.  Mas, dizendo Sem:  Acho pouco duzentos cvados ,
retorquiu Jaf: Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua
haver um rio, que as divida no meio, para se no confundir a propriedade. Eu
fico na margem esquerda e tu na margem direita;

12.  E a minha terra se chamar terra de Jaf, e a tua
se chamar a terra de Sem; e iremos s tendas um do outro, e partiremos o po da
alegria e da concrdia.

13.  E tendo Sem aprovado a diviso, perguntou a Jaf:
Mas o rio? a quem pertencer a gua do rio, a corrente?

14.  Porque ns possumos as margens, e no estatumos
nada a respeito da corrente. E respondeu Jaf, que podiam pescar de um e outro
lado; mas, divergindo o irmo, props dividir o rio em duas partes, fincando um
pau no meio. Jaf, porm, disse que a corrente levaria o pau.

15.  E tendo Jaf respondido assim, acudiu o irmo: 
Pois que te no serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que
no haja conflito, podes levantar um muro, dez ou doze cvados, para l da tua
margem antiga.

16.  E se com isto perdes alguma coisa, nem  grande a
diferena, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a
concrdia entre ns, segundo  a vontade do Senhor.

17.  Jaf porm replicou:  Vai bugiar! Com que direito
me tiras a margem, que  minha, e me roubas um pedao de terra? Porventura s
melhor do que eu,

18.  Ou mais belo, ou mais querido de meu pai? Que
direito tens de violar assim to escandalosamente a propriedade alheia?

19.  Pois agora te digo que o rio ficar do meu lado,
com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra,
matar-te-ei como Caim matou a seu irmo.

20.  Ouvindo isto, Cam atemorizou-se muito, e comeou a
aquietar os dois irmos,

21.  Os quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor
de brasa, e olhavam-se cheios de clera e desprezo.

22.  A arca, porm, boiava sobre as guas do abismo.

Captulo B

1.  Ora, Jaf, tendo curtido a clera, comeou a espumar
pela boca, e Cam falou-lhe palavras de brandura,

2.  Dizendo:  Vejamos um meio de conciliar tudo; vou
chamar tua mulher e a mulher de Sem.

3.  Um e outro, porm, recusaram dizendo que o caso era
de direito e no de persuaso.

4.  E Sem props a Jaf que compensasse os dez cvados
perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra dele. Mas Jaf respondeu:

5.  Por que me no mandas logo para os confins do mundo?
J te no contentas com quinhentos cvados; queres quinhentos e dez, e eu que
fique com quatrocentos e noventa.

6.  Tu no tens sentimentos morais? no sabes o que 
justia? no vs que me esbulhas descaradamente? e no percebes que eu saberei
defender o que  meu, ainda com risco de vida?

7.  E que, se  preciso correr sangue, o sangue h de
correr j e j,

8.  Para te castigar a soberba e lavar a tua
iniqidade?

9.  Ento Sem avanou para Jaf; mas Cam interps-se,
pondo uma das mos no peito de cada um;

10.  Enquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do
dilvio, tinham vivido na mais doce concrdia, ouvindo o rumor das vozes,
vieram espreitar a briga dos dois irmos, e comearam a vigiar-se um ao outro.

11.  E disse Cam:  Ora, pois, tenho uma idia
maravilhosa, que h de acomodar tudo;

12.  A qual me  inspirada pelo amor, que tenho a meus
irmos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pai, e ficarei
com o rio e as duas margens, dando-me vs uns vinte cvados cada um.

13.  E Sem e Jaf riram com desprezo e sarcasmo, dizendo:
 Vai plantar tmaras! Guarda a tua idia para os dias da velhice. E puxaram
as orelhas e o nariz de Cam; e Jaf, metendo dois dedos na boca, imitou o silvo
da serpente, em ar de surriada.

14.  Ora, Cam, envergonhado e irritado, espalmou a mo
dizendo:  Deixa estar! e foi dali ter com o pai e as mulheres dos dois
irmos.

15.  Jaf porm disse a Sem:  Agora que estamos ss,
vamos decidir este grave caso, ou seja de lngua ou de punho. Ou tu me cedes as
duas margens, ou eu te quebro uma costela.

16.  Dizendo isto, Jaf ameaou a Sem com os punhos
fechados, enquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: No te cedo
nada, gatuno!

17.  Ao que Jaf retorquiu irado: Gatuno s tu!

18.  Isto dito, avanaram um para o outro e atracaram-se.
Jaf tinha o brao rijo e adestrado; Sem era forte na resistncia. Ento Jaf,
segurando o irmo pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: De quem  o
rio?

19.  E respondendo Sem:   meu! Jaf fez um gesto para
derrub-lo; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irmo para
longe; Jaf, porm, espumando de clera, tornou a apertar o irmo, e os dois
lutaram brao a brao,

20.  Suando e bufando como touros.

21.  Na luta, caram e rolaram, esmurrando-se um ao
outro; o sangue saa dos narizes, dos beios, das faces; ora vencia Jaf,

22.  Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os
igualmente, e eles lutavam com as mos, os ps, os dentes e as unhas; e a arca
estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do cu.

23.  Ento as vozes e brados chegaram aos ouvidos de No,
ao mesmo tempo que seu filho Cam, que lhe apareceu clamando: Meu pai, meu pai,
se de Caim se tomar vingana sete vezes, e de Lameque setenta vezes sete, o
que ser de Jaf e Sem?

24.  E pedindo No que explicasse o dito, Cam referiu a
discrdia dos dois irmos, e a ira que os animava, e disse:  Correi a
aquiet-los. No disse:  Vamos.

25.  A arca, porm, boiava sobre as guas do abismo.

Captulo C

1.  Eis aqui chegou No ao lugar onde lutavam os dois
filhos,

2.  E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo
do joelho de Jaf, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava
roxa e sangrenta.

3.  Entretanto, Sem, alando as mos, conseguiu apertar o
pescoo do irmo, e este comeou a bradar: Larga-me, larga-me!

4.  Ouvindo os brados, as mulheres de Jaf e Sem acudiram
tambm ao lugar da luta, e, vendo-os assim, entraram a soluar e a dizer: O
que ser de ns? A maldio caiu sobre ns e nossos maridos.

5.  No, porm, lhes disse: Calai-vos, mulheres de meus
filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que for justo. E caminhando
para os dois combatentes,

6.  Bradou: Cessai a briga. Eu, No, vosso pai, o ordeno
e mando. E ouvindo os dois irmos o pai, detiveram-se subitamente, e ficaram
longo tempo atalhados e mudos, no se levantando nenhum deles.

7.  No continuou: Erguei-vos, homens indignos da
salvao e merecedores do castigo que feriu os outros homens.

8.  Jaf e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto,
o pescoo e as mos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham lutado com
unhas e dentes, instigados de dio mortal.

9.  O cho tambm estava alagado de sangue, e as
sandlias de um e outro, e os cabelos de um e outro,

10.  Como se o pecado os quisera marcar com o selo da
iniqidade.

11.  As duas mulheres, porm, chegaram-se a eles,
chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do corao. Jaf e Sem no
atendiam a nada, e estavam com os olhos no cho, medrosos de encarar seu pai.

12.  O qual disse: Ora, pois, quero saber o motivo da
briga.

13.  Esta palavra acendeu o dio no corao de ambos.
Jaf, porm, foi o primeiro que falou e disse:

14.  Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia
escolhido para levantar a minha tenda, quando as guas houverem desaparecido e
a arca descer, segundo a promessa do Senhor;

15.  E eu, que no tolero o esbulho, disse a meu irmo:
No te contentas com quinhentos cvados e queres mais dez? E ele me
respondeu: Quero mais dez e as duas margens do rio que h de dividir a minha
terra da tua terra.

16.  No, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e
acabando Jaf, perguntou ao irmo: Que respondes?

17.  E Sem disse:  Jaf mente, porque eu s lhe tomei
os dez cvados de terra, depois que ele recusou dividir o rio em duas partes; e
propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que ele medisse outros
dez cvados nos fundos das terras dele,

18.  Para compensar o que perdia; mas a iniqidade de
Caim falou nele, e ele me feriu a cabea, a cara e as mos.

19.  E Jaf interrompeu-o dizendo: Porventura no me
feriste tambm? No estou ensangentado como tu? Olha a minha cara e o meu
pescoo; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.

20.  Indo No falar, notou que os dois filhos de novo
pareciam desafiar-se com os olhos. Ento disse: Ouvi! Mas os dois irmos,
cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando:  De quem  o rio?  O
rio  meu.

21.  E s a muito custo puderam No, Cam e as mulheres de
Sem e Jaf conter os dois combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande
cpia.

22.  No, porm, alando a voz, bradou:  Maldito seja o
que me no obedecer. Ele ser maldito, no sete vezes, no setenta vezes sete,
mas setecentas vezes setenta.

23.  Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca,
no quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que levantareis as tendas.

24.  Depois ficou meditabundo.

25.  E alando os olhos ao cu, porque a portinhola do
teto estava levantada, bradou com tristeza:

26.  Eles ainda no possuem a terra e j esto brigando
por causa dos limites. O que ser quando vierem a Turquia e a Rssia?

27.  E nenhum dos filhos de No pde entender esta
palavra de seu pai.

28.  A arca, porm, continuava a boiar sobre as guas do
abismo.

D. BENEDITA

Um
retrato

NDICE

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO
II

CAPTULO
III

CAPTULO
IV

Captulo
Primeiro

A coisa mais rdua do mundo, depois do ofcio de governar,
seria dizer a idade exata de D. Benedita. Uns davam-lhe quarenta anos, outros
quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte
e nove; mas esta opinio, eivada de intenes ocultas, carecia daquele cunho de
sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito,
seno para dizer, desde logo, que D. Benedita foi sempre um padro de bons
costumes. A astcia do corretor no fez mais do que indign-la, embora,
momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto s outras conjeturas, oscilando
entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, no desdiziam das feies de D.
Benedita, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma
coisa admira  que houvesse suposies neste negcio, quando bastava
interrog-la para saber a verdade verdadeira.

D. Benedita fez quarenta e dois anos no domingo dezenove
de setembro de 1869. So seis horas da tarde; a mesa da famlia est ladeada de
parentes e amigos, em nmero de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas
estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre aludir
francamente  idade da dona da casa. Alm disso, vem-se ali,  mesa, uma moa
e um rapaz, seus filhos; este , decerto, no tamanho e nas maneiras, um tanto
menino; mas a moa, Eullia, contando dezoito anos, parece ter vinte e um, tal
 a severidade dos modos e das feies.

A alegria dos convivas, a excelncia do jantar, certas
negociaes matrimoniais incumbidas ao cnego Roxo, aqui presente, e das quais
se falar mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso d  festa
um carter ntimo e feliz. O cnego levanta-se para trinchar o peru. D.
Benedita acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o peru a um
dos convivas, em vez de o fazer retalhar fora da mesa por mos servis, e o
cnego era o pianista daquelas ocasies solenes. Ningum conhecia melhor a
anatomia do animal, nem sabia operar com mais presteza. Talvez,  e este
fenmeno fica para os entendidos,  talvez a circunstncia do canonicato
aumentasse ao trinchante, no esprito dos convivas, uma certa soma de
prestgio, que ele no teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de
matemticas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um estudante
ou um amanuense, sem a lio do longo uso, poderia dispor da arte consumada do
cnego?  outra questo importante.

Venhamos, porm, aos demais convivas, que esto parados,
conversando; reina o burburinho prprio dos estmagos meio regalados, o riso da
natureza que caminha para a repleo;  um instante de repouso.

D. Benedita fala, como as suas visitas, mas no fala para
todas, seno para uma, que est sentada ao p dela. Essa  uma senhora gorda,
simptica, muito risonha, me de um bacharel de vinte e dois anos, o
Leandrinho, que est sentado defronte delas. D. Benedita no se contenta de
falar  senhora gorda, tem uma das mos desta entre as suas; e no se contenta
de lhe ter presa a mo, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados. No
os fita, note-se bem, de um modo persistente e longo, mas inquieto, mido,
repetido, instantneo. Em todo caso, h muita ternura naquele gesto; e, dado
que no a houvesse, no se perderia nada, porque D. Benedita repete com a boca
a D. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito:  que est
encantada, que considera uma fortuna conhec-la, que  muito simptica, muito
digna, que traz o corao nos olhos, etc., etc., etc. Uma de suas amigas diz-lhe,
rindo, que est com cimes.

 Que arrebente! responde ela, rindo tambm.

E voltando-se para a outra:

 No acha? ningum deve meter-se com a nossa vida.

E a tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as
ofertas, mais isto, mais aquilo,  um projeto de passeio, outro de teatro, e
promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expanso e calor, que a outra
palpitava de alegria e reconhecimento.

O peru est comido. D. Maria dos Anjos faz um sinal ao
filho; este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:

 Meus senhores,  preciso desmentir esta mxima dos
franceses:  les absents ont tort. Bebamos a algum que est longe,
muito longe, no espao, mas perto, muito perto, no corao de sua digna esposa:
 bebamos ao ilustre Desembargador Proena.

A assemblia no correspondeu vivamente ao brinde; e para
compreend-lo basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais
ntimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; enfim,
bebeu-se, mas sem estrpito; ao que parece, para no avivar a dor de D.
Benedita. V precauo! D. Benedita, no podendo conter-se, deixou
rebentarem-lhe as lgrimas, levantou-se da mesa, retirou-se da sala. D. Maria
dos Anjos acompanhou-a. Sucedeu um silncio mortal entre os convivas. Eullia
pediu a todos que continuassem, que a me voltava j.

 Mame  muito sensvel, disse ela, e a idia de que
papai est longe de ns...

O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eullia. Um
sujeito, ao lado dele, explicou-lhe que D. Benedita no podia ouvir falar do
marido sem receber um golpe no corao  e chorar logo; ao que o Leandrinho
acudiu dizendo que sabia da tristeza dela, mas estava longe de supor que o seu
brinde tivesse to mau efeito.

 Pois era a coisa mais natural, explicou o sujeito,
porque ela morre pelo marido.

 O cnego, acudiu Leandrinho, disse-me que ele foi para o
Par h uns dois anos...

 Dois anos e meio; foi nomeado desembargador pelo
ministrio Zacarias. Ele queria a Relao de So Paulo, ou da Bahia; mas no
pde ser e aceitou a do Par.

 No voltou mais?

 No voltou.

 D. Benedita naturalmente tem medo de embarcar...

 Creio que no. J foi uma vez  Europa. Se bem me
lembro, ela ficou para arranjar alguns negcios de famlia; mas foi ficando,
ficando, e agora...

 Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim...
Conhece o marido?

 Conheo; um homem muito distinto, e ainda moo, forte;
no ter mais de quarenta e cinco anos. Alto, barbado, bonito. Aqui h tempos
disse-se que ele no teimava com a mulher, porque estava l de amores com uma
viva.

 Ah!

 E houve at quem viesse cont-lo a ela mesma. Imagine
como a pobre senhora ficou! Chorou uma noite inteira, no dia seguinte no quis
almoar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.

 Mas no foi?

 No foi; desfez a viagem da a trs dias.

D. Benedita voltou nesse momento, pelo brao de D. Maria
dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupo, e
sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu,
pegando-lhe outra vez na mo.

 Vejo que me quer bem, disse ela.

 A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.

 Mereo? inquiriu ela entre desvanecida e modesta.

E declarou que no, que a outra  que era boa, um anjo, um
verdadeiro anjo; palavra que ela sublinhou com o mesmo olhar namorado, no
persistente e longo, mas inquieto e repetido. O cnego, pela sua parte, com o
fim de apagar a lembrana do incidente, procurou generalizar a conversa,
dando-lhe por assunto a eleio do melhor doce. Os pareceres divergiram muito.
Uns acharam que era o de coco, outros o de caju, alguns o de laranja, etc. Um
dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos,  no com a
boca,  e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de
Eullia, um doce moreno, corado; dito que a me dele interiormente aprovava, e
que a me dela no podia ver, to entregue estava  contemplao da recente
amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!

Captulo II

D. Benedita levantou-se, no dia seguinte, com a idia de
escrever uma carta ao marido, uma longa carta em que lhe narrasse a festa da
vspera, nomeasse os convivas e os pratos, descrevesse a recepo noturna, e,
principalmente, desse notcia das novas relaes com D. Maria dos Anjos. A mala
fechava-se s duas horas da tarde, D. Benedita acordara s nove, e, no morando
longe (morava no Campo da Aclamao), um escravo levaria a carta ao correio
muito a tempo. Demais, chovia; D. Benedita arredou a cortina da janela, deu com
os vidros molhados; era uma chuvinha teimosa, o cu estava todo brochado de uma
cor pardo-escura, malhada de grossas nuvens negras. Ao longe, viu flutuar e
voar o pano que cobria o balaio que uma preta levava  cabea: concluiu que
ventava. Magnfico dia para no sair, e, portanto, escrever uma carta, duas
cartas, todas as cartas de uma esposa ao marido ausente. Ningum viria
tent-la.

Enquanto ela compe os babadinhos e rendas do roupo
branco, um roupo de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862, no mesmo
dia aniversrio, 19 de setembro, convido a leitora a observar-lhe as feies.
V que no lhe dou Vnus; tambm no lhe dou Medusa. Ao contrrio de Medusa,
nota-se-lhe o alisado simples do cabelo, preso sobre a nuca. Os olhos so
vulgares, mas tm uma expresso bonach. A boca  daquelas que, ainda no
sorrindo, so risonhas, e tem esta outra particularidade, que  uma boca sem
remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos, mas eu s digo o que quero, e
s quero falar das saudades e dos remorsos. Toda essa cabea, que no
entusiasma, nem repele, assenta sobre um corpo antes alto do que baixo, e no
magro nem gordo, mas fornido na proporo da estatura. Para que falar-lhe das
mos? H de admir-las logo, ao travar da pena e do papel, com os dedos
afilados e vadios, dois deles ornados de cinco ou seis anis.

Creio que  bastante ver o modo por que ela compe as
rendas e os babadinhos do roupo para compreender que  uma senhora caprichosa,
amiga do arranjo das coisas e de si mesma. Noto que rasgou agora o babadinho do
punho esquerdo, mas  porque, sendo tambm impaciente, no podia mais com a
vida deste diabo. Essa foi a sua expresso, acompanhada logo de um Deus me
perdoe! que inteiramente lhe extraiu o veneno. No digo que ela bateu com o
p, mas adivinha-se, por ser um gesto natural de algumas senhoras irritadas. Em
todo caso, a clera durou pouco mais de meio minuto. D. Benedita foi  caixinha
de costura para dar um ponto no rasgo, e contentou-se com um alfinete. O
alfinete caiu no cho, ela abaixou-se a apanh-lo. Tinha outros,  verdade,
muitos outros, mas no achava prudente deixar alfinetes no cho. Abaixando-se,
aconteceu-lhe ver a ponta da chinela, na qual pareceu-lhe descobrir um sinal
branco; sentou-se na cadeira que tinha perto, tirou a chinela, e viu o que era:
era um roidinho de barata. Outra raiva de D. Benedita, porque a chinela era
muito galante, e fora-lhe dada por uma amiga do ano passado. Um anjo, um
verdadeiro anjo! D. Benedita fitou os olhos irritados no sinal branco;
felizmente a expresso bonach deles no era to bonach que se deixasse
eliminar de todo por outras expresses menos passivas, e retomou o seu lugar.
D. Benedita entrou a virar e revirar a chinela, e a pass-la de uma para outra
mo, a princpio com amor, logo depois maquinalmente, at que as mos pararam
de todo, a chinela caiu no regao, e D. Benedita ficou a olhar para o ar,
parada, fixa. Nisto o relgio da sala de jantar comeou a bater horas. D.
Benedita logo s primeiras duas estremeceu:

 Jesus! Dez horas!

E, rpida, calou a chinela, consertou depressa o punho do
roupo, e dirigiu-se  escrivaninha, para comear a carta. Escreveu, com
efeito, a data, e um:  Meu ingrato marido; enfim, mal traara estas linhas:
 Voc lembrou-se ontem de mim? Eu..., quando Eullia lhe bateu  porta,
bradando:

 Mame, mame, so horas de almoar.

D. Benedita abriu a porta, Eullia beijou-lhe a mo,
depois levantou as suas ao cu:

 Meu Deus! que dorminhoca!

 O almoo est pronto?

 H que sculos!

 Mas eu tinha dito que hoje o almoo era mais tarde...
Estava escrevendo a teu pai.

Olhou alguns instantes para a filha, como desejosa de lhe
dizer alguma coisa grave, ao menos difcil, tal era a expresso indecisa e
sria dos olhos. Mas no chegou a dizer nada; a filha repetiu que o almoo
estava na mesa, pegou-lhe do brao e levou-a.

Deixemo-las almoar  vontade; descansemos nessa outra
sala, a de visitas, sem alis inventariar os mveis dela, como o no fizemos em
nenhuma outra sala ou quarto. No  que eles no prestem, ou sejam de mau
gosto; ao contrrio, so bons. Mas a impresso geral que se recebe  esquisita,
como se ao trastejar daquela casa houvesse presidido um plano truncado, ou uma
sucesso de planos truncados. Me, filha e filho almoaram. Deixemos o filho,
que nos no importa, um pirralho de doze anos, que parece ter oito, to mofino
 ele. Eullia interessa-nos, no s pelo que vimos de relance no captulo
passado, como porque, ouvindo a me falar em D. Maria dos Anjos e no
Leandrinho, ficou muito sria e, talvez, um pouco amuada. D. Benedita percebeu
que o assunto no era aprazvel  filha, e recuou da conversa, como algum que
desanda uma rua para evitar um importuno; recuou e ergueu-se; a filha veio com
ela para a sala de visitas.

Eram onze horas menos um quarto. D. Benedita conversou com
a filha at depois do meio-dia, para ter tempo de descansar o almoo e escrever
a carta. Sabem que a mala fecha s duas horas. De fato, alguns minutos, poucos,
depois do meio-dia, D. Benedita disse  filha que fosse estudar piano, porque
ela ia acabar a carta. Saiu da sala; Eullia foi  janela, relanceou a vista
pelo Campo, e, se lhes disser que com uma pontazinha de tristeza nos olhos,
podem crer que  a pura verdade. No era, todavia, a tristeza dos dbeis ou dos
indecisos; era a tristeza dos resolutos, a quem di de antemo um ato pela
mortificao que h de trazer a outros, e que, no obstante, juram a si mesmos
pratic-lo, e praticam. Convenho que nem todas essas particularidades podiam
estar nos olhos de Eullia, mas por isso mesmo  que as histrias so contadas
por algum, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido. Que
era uma tristeza mscula, era;  e que da a pouco os olhos sorriam de um sinal
de esperana, tambm no  mentira.

 Isto acaba, murmurou ela, vindo para dentro.

Justamente nessa ocasio parava um carro  porta,
apeava-se uma senhora, ouvia-se a campainha da escada, descia um moleque a
abrir a cancela, e subia as escadas D. Maria dos Anjos. D. Benedita, quando lhe
disseram quem era, largou a pena, alvoroada; vestiu-se  pressa, calou-se, e
foi  sala.

 Com este tempo! exclamou. Ah! isto  que  querer bem 
gente!

 Vim sem esperar pela sua visita, s para mostrar que no
gosto de cerimnias, e que entre ns deve haver a maior liberdade.

Vieram os cumprimentos de estilo, as palavrinhas doces, os
afagos da vspera. D. Benedita no se fartava de dizer, que a visita naquele
dia era uma grande fineza, uma prova de verdadeira amizade; mas queria outra,
acrescentou da a um instante, que D. Maria dos Anjos ficasse para jantar. Esta
desculpou-se alegando que tinha de ir a outras partes; demais, essa era a prova
que lhe pedia,  a de ir jantar  casa dela primeiro. D. Benedita no hesitou,
prometeu que sim, naquela mesma semana.

 Estava agora mesmo escrevendo o seu nome, continuou.

 Sim?

 Estou escrevendo a meu marido, e falo da senhora. No
lhe repito o que escrevi, mas imagine que falei muito mal da senhora, que era
antiptica, insuportvel, maante, aborrecida... Imagine!

 Imagino, imagino. Pode acrescentar que, apesar de ser
tudo isso, e mais alguma coisa, apresento-lhe os meus respeitos.

 Como ela tem graa para dizer as coisas! comentou D.
Benedita olhando para a filha.

Eullia sorriu sem convico. Sentada na cadeira fronteira
 me, ao p da outra ponta do sof em que estava D. Maria dos Anjos, Eullia
dava  conversao das duas a soma de ateno que a cortesia lhe impunha, e
nada mais.

Chegava a parecer aborrecida; cada sorriso que lhe abria a
boca era de um amarelo plido, um sorriso de favor. Uma das tranas,  era de
manh, trazia o cabelo em duas tranas cadas pelas costas abaixo,  uma delas
servia-lhe de pretexto a alhear-se de quando em quando, porque puxava-a para a
frente e contava-lhe os fios do cabelo,  ou parecia cont-los. Assim o creu D.
Maria dos Anjos, quando lhe lanou uma ou duas vezes os olhos, curiosa, desconfiada.
D. Benedita  que no via nada; via a amiga, a feiticeira, como lhe chamou duas
ou trs vezes,  feiticeira como ela s.

 J!

D. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras
visitas; mas foi obrigada a ficar ainda alguns minutos, a pedido da amiga. Como
trouxesse um mantelete de renda preta, muito elegante, D. Benedita disse que
tinha um igual e mandou busc-lo. Tudo demoras. Mas a me do Leandrinho estava
to contente! D. Benedita enchia-lhe o corao; achava nela todas as qualidades
que melhor se ajustavam  sua alma e aos seus costumes, ternura, confiana,
entusiasmo, simplicidade, uma familiaridade cordial e pronta. Veio o mantelete;
vieram oferecimentos de alguma coisa, um doce, um licor, um refresco; D. Maria
dos Anjos no aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de que iriam
jantar com ela naquela semana.

 Quinta-feira, disse D. Benedita.

 Palavra?

 Palavra.

 Que quer que lhe faa se no for? H de ser um castigo
bem forte.

 Bem forte? No me fale mais.

D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga;
depois abraou e beijou tambm a Eullia, mas a efuso era muito menor de parte
a parte. Uma e outra mediam-se, estudavam-se, comeavam a compreender-se. D.
Benedita levou a amiga at o patamar da escada, depois foi  janela para v-la
entrar no carro; a amiga, depois de entrar no carro, ps a cabea de fora,
olhou para cima, e disse-lhe adeus, com a mo.

 No falte, ouviu?

 Quinta-feira.

Eullia j no estava na sala; D. Benedita correu a acabar
a carta. Era tarde; no relatara o jantar da vspera, nem j agora podia
faz-lo. Resumiu tudo; encareceu muito as novas relaes; enfim, escreveu estas
palavras:

O Cnego Roxo falou-me em casar Eullia com o filho de D.
Maria dos Anjos;  um moo formado em direito este ano;  conservador, e espera
uma promotoria, agora, se o Itabora no deixar o ministrio. Eu acho que o
casamento  o melhor possvel. O Dr. Leandrinho ( o nome dele)  muito bem
educado; fez um brinde a voc, cheio de palavras to bonitas, que eu chorei. Eu
no sei se Eullia querer ou no; desconfio de outro sujeito que outro dia
esteve conosco nas Laranjeiras. Mas voc que pensa? Devo limitar-me a
aconselh-la, ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco de
minha autoridade; mas no quero fazer nada sem que voc me diga. O melhor seria
se voc viesse c.

Acabou e fechou a carta; Eullia entrou nessa ocasio, ela
deu-lha para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem
saber que tratava dela e do seu futuro. D. Benedita deixou-se cair no sof,
cansada, exausta. A carta era muito comprida apesar de no dizer tudo; e
era-lhe to enfadonho escrever cartas compridas!

Captulo III

Era-lhe to enfadonho escrever cartas compridas! Esta
palavra, fecho do captulo passado, explica a longa prostrao de D. Benedita.
Meia hora depois de cair no sof, ergueu-se um pouco, e percorreu o gabinete
com os olhos, como procurando alguma coisa. Essa coisa era um livro. Achou o
livro, e podia dizer achou os livros, pois nada menos de trs estavam ali, dois
abertos, um marcado em certa pgina, todos em cadeiras. Eram trs romances que
D. Benedita lia ao mesmo tempo. Um deles, note-se, custou-lhe no pouco
trabalho. Deram-lhe notcia na rua, perto de casa, com muitos elogios; chegara
da Europa na vspera. D. Benedita ficou to entusiasmada, que apesar de ser
longe e tarde, arrepiou caminho e foi ela mesmo compr-lo, correndo nada menos
de trs livrarias. Voltou ansiosa, namorada do livro, to namorada que abriu as
folhas, jantando, e leu os cinco primeiros captulos naquela mesma noite. Sendo
preciso dormir, dormiu; no dia seguinte no pde continuar, depois esqueceu-o.
Agora, porm, passados oito dias, querendo ler alguma coisa, aconteceu-lhe
justamente ach-lo  mo.

 Ah!

E ei-la que torna ao sof, que abre o livro com amor, que
mergulha o esprito, os olhos e o corao na leitura to desastradamente
interrompida. D. Benedita ama os romances,  natural; e adora os romances
bonitos,  naturalssimo. No admira que esquea tudo para ler este; tudo, at
a lio de piano da filha, cujo professor chegou e saiu, sem que ela fosse 
sala. Eullia despediu-se do professor; depois foi ao gabinete, abriu a porta,
caminhou p ante p at o sof, e acordou a me com um beijo.

 Dorminhoca!

 Ainda chove?

 No, senhora; agora parou.

 A carta foi?

 Foi; mandei o Jos a toda a pressa. Aposto que mame
esqueceu-se de dar lembranas a papai? Pois olhe, eu no me esqueo nunca.

D. Benedita bocejou. J no pensava na carta; pensava no
colete que encomendara  Charavel, um colete de barbatanas mais moles do que o
ltimo. No gostava de barbatanas duras; tinha o corpo mui sensvel. Eullia
falou ainda algum tempo do pai, mas calou-se logo, e vendo no cho o livro
aberto, o famoso romance, apanhou-o, fechou-o, p-lo em cima da mesa. Nesse
momento vieram trazer uma carta a D. Benedita; era do Cnego Roxo, que mandava
perguntar se estavam em casa naquele dia, porque iria ao enterro dos ossos.

 Pois no! bradou D. Benedita; estamos em casa, venha,
pode vir.

Eullia escreveu o bilhetinho de resposta. Da a trs
quartos de hora fazia o cnego a sua entrada na sala de D. Benedita. Era um bom
homem o cnego, velho amigo daquela casa, na qual, alm de trinchar o peru nos
dias solenes, como vimos, exercia o papel de conselheiro, e exercia-o com
lealdade e amor. Eullia, principalmente, merecia-lhe muito; vira-a pequena,
galante, travessa, amiga dele, e criou-lhe uma afeio paternal, to paternal
que tomara a peito cas-la bem, e nenhum noivo melhor do que o Leandrinho,
pensava o cnego. Naquele dia, a idia de ir jantar com elas era antes um
pretexto; o cnego queria tratar o negcio diretamente com a filha do
desembargador. Eullia, ou porque adivinhasse isso mesmo, ou porque a pessoa do
cnego lhe lembrasse o Leandrinho, ficou logo preocupada, aborrecida.

Mas, preocupada ou aborrecida, no quer dizer triste ou
desconsolada. Era resoluta, tinha tmpera, podia resistir, e resistiu, declarando
ao cnego, quando ele naquela noite lhe falou do Leandrinho, que absolutamente
no queria casar.

 Palavra de moa bonita?

 Palavra de moa feia.

 Mas, por qu?

 Porque no quero.

 E se mame quiser?

 No quero eu.

 Mau! isso no  bonito, Eullia.

Eullia deixou-se estar. O cnego ainda tornou ao assunto,
louvou as qualidades do candidato, as esperanas da famlia, as vantagens do
casamento; ela ouvia tudo, sem contestar nada. Mas quando o cnego formulava de
um modo direto a questo, a resposta invarivel era esta:

 J disse tudo.

 No quer?

 No.

O desconsolo do bom cnego era profundo e sincero. Queria
cas-la bem, e no achava melhor noivo. Chegou a interrog-la discretamente,
sobre se tinha alguma preferncia em outra parte. Mas Eullia, no menos
discretamente, respondia que no, que no tinha nada; no queria nada; no
queria casar. Ele creu que era assim, mas receou tambm que no fosse assim;
faltava-lhe o trato suficiente das mulheres para ler atravs de uma negativa.
Quando referiu tudo a D. Benedita, esta ficou assombrada com os termos da
recusa; mas tornou logo a si, e declarou ao padre que a filha no tinha
vontade, faria o que ela quisesse, e ela queria o casamento.

 J agora nem espero resposta do pai, concluiu;
declaro-lhe que ela h de casar. Quinta-feira vou jantar com D. Maria dos
Anjos, e combinaremos as coisas.

 Devo dizer-lhe, ponderou o cnego, que D. Maria dos
Anjos no deseja que se faa nada  fora.

 Qual fora! No  preciso fora.

O cnego refletiu um instante.

 Em todo caso, no violentaremos qualquer outra afeio,
que ela possa ter, disse ele.

D. Benedita no respondeu nada; mas consigo, no mais fundo
de si mesma, jurou que, houvesse o que houvesse, acontecesse o que acontecesse,
a filha seria nora de D. Maria dos Anjos. E ainda consigo, depois de sair o
cnego:  Tinha que ver! um tico de gente, com fumaas de governar a casa!

A quinta-feira raiou. Eullia,  o tico de gente,
levantou-se fresca, lpida, loquaz, com todas as janelas da alma abertas ao
sopro azul da manh. A me acordou ouvindo um trecho italiano, cheio de
melodia; era ela que cantava, alegre, sem afetao, com a indiferena das aves
que cantam para si ou para os seus, e no para o poeta, que as ouve e traduz na
lngua imortal dos homens. D. Benedita afagara muito a idia de a ver abatida,
carrancuda, e gastara uma certa soma de imaginao em compor os seus modos,
delinear os seus atos, ostentar energia e fora. E nada! Em vez de uma filha
rebelde, uma criatura grrula e submissa. Era comear mal o dia; era sair
aparelhada para destruir uma fortaleza, e dar com uma cidade aberta, pacfica,
hospedeira, que lhe pedia o favor de entrar e partir o po da alegria e da
concrdia. Era comear o dia muito mal.

A segunda causa do tdio de D. Benedita foi um ameao de
enxaqueca, s trs horas da tarde; um ameao, ou uma suspeita de possibilidade
de ameao. Chegou a transferir a visita, mas a filha ponderou que talvez a
visita lhe fizesse bem, e em todo caso, era tarde para deixar de ir. D.
Benedita no teve remdio, aceitou o reparo. Ao espelho, penteando-se, esteve
quase a dizer que definitivamente ficava: chegou a insinu-lo  filha.

 Mame, veja que D. Maria dos Anjos conta com a senhora,
disse-lhe Eullia.

 Pois sim, redargiu a me, mas no prometi ir doente.

Enfim, vestiu-se, calou as luvas, deu as ltimas ordens;
e devia doer-lhe muito a cabea, porque os modos eram arrebitados, uns modos de
pessoa constrangida ao que no quer. A filha animava-a muito, lembrava-lhe o
vidrinho dos sais, instava que sassem, descrevia a ansiedade de D. Maria dos
Anjos, consultava de dois em dois minutos o pequenino relgio, que trazia na
cintura, etc. Uma amofinao, realmente.

 O que tu ests  me amofinando, disse-lhe a me.

E saiu, saiu exasperada, com uma grande vontade de esganar
a filha, dizendo consigo que a pior coisa do mundo era ter filhas. Os filhos
ainda v: criam-se, fazem carreira por si; mas as filhas!

Felizmente, o jantar de D. Maria dos Anjos aquietou-a; e
no digo que a enchesse de grande satisfao, porque no foi assim. Os modos de
D. Benedita no eram os do costume; eram frios, secos, ou quase secos; ela,
porm, explicou de si mesma a diferena, noticiando o ameao da enxaqueca,
notcia mais triste do que alegre, e que, alis, alegrou a alma de D. Maria dos
Anjos, por esta razo fina e profunda: antes a frieza da amiga fosse originada
na doena do que na quebra do afeto. Demais, a doena no era grave. E que
fosse grave! No houve naquele dia mos presas, olhos nos olhos, manjares
comidos entre carcias mtuas; no houve nada do jantar de domingo. Um jantar
apenas conversado; no alegre, conversado; foi o mais que alcanou o cnego.
Amvel cnego! As disposies de Eullia, naquele dia, cumularam-no de
esperanas; o riso que brincava nela, a maneira expansiva da conversa, a
docilidade com que se prestava a tudo, a tocar, a cantar, e o rosto afvel,
meigo, com que ouvia e falava ao Leandrinho, tudo isso foi para a alma do
cnego uma renovao de esperanas. Logo hoje  que D. Benedita estava doente!
Realmente, era caiporismo.

D. Benedita reanimou-se um pouco,  noite, depois do
jantar. Conversou mais, discutiu um projeto de passeio ao Jardim Botnico,
chegou mesmo a propor que fosse logo no dia seguinte; mas Eullia advertiu que
era prudente esperar um ou dois dias at que os efeitos da enxaqueca
desaparecessem de todo; e o olhar que mereceu  me, em troca do conselho,
tinha a ponta aguda de um punhal. Mas a filha no tinha medo dos olhos
maternos. De noite, ao despentear-se, recapitulando o dia, Eullia repetiu
consigo a palavra que lhe ouvimos, dias antes,  janela:

Isto acaba.

E, satisfeita de si, antes de dormir, puxou uma certa
gaveta, tirou uma caixinha, abriu-a, aventou um carto de alguns centmetros de
altura,  um retrato. No era retrato de mulher, no s por ter bigodes, como
por estar fardado; era, quando muito, um oficial de marinha. Se bonito ou feio,
 matria de opinio. Eullia achava-o bonito; a prova  que o beijou, no digo
uma vez, mas trs. Depois mirou-o, com saudade, tornou a fech-lo e guard-lo.

Que fazias tu, me cautelosa e rspida, que no vinhas
arrancar s mos e  boca da filha um veneno to sutil e mortal? D. Benedita, 
janela, olhava a noite, entre as estrelas e os lampies de gs, com a
imaginao vagabunda, inquieta, roda de saudades e desejos. O dia tinha-lhe
sado mal, desde manh. D. Benedita confessava, naquela doce intimidade da alma
consigo mesma, que o jantar de D. Maria dos Anjos no prestara para nada, e que
a prpria amiga no estava provavelmente nos seus dias de costume. Tinha
saudades, no sabia bem de qu, e desejos, que ignorava. De quando em quando,
bocejava ao modo preguioso e arrastado dos que caem de sono; mas se alguma
coisa tinha era fastio,  fastio, impacincia, curiosidade. D. Benedita cogitou
seriamente em ir ter com o marido; e to depressa a idia do marido lhe
penetrou no crebro, como se lhe apertou o corao de saudades e remorsos, e o
sangue pulou-lhe num tal mpeto de ir ver o desembargador que, se o paquete do
Norte estivesse na esquina da rua e as malas prontas, ela embarcaria logo e
logo. No importa; o paquete devia estar prestes a sair, oito ou dez dias; era
o tempo de arranjar as malas. Iria por trs meses somente, no era preciso
levar muita coisa.

Ei-la que se consola da grande cidade fluminense, da
similitude dos dias, da escassez das coisas, da persistncia das caras, da
mesma fixidez das modas, que era um dos seus rduos problemas:  por que  que
as modas ho de durar mais de quinze dias?

 Vou, no h que ver, vou ao Par, disse ela a meia voz.

Com efeito, no dia seguinte, logo de manh, comunicou a
resoluo  filha, que a recebeu sem abalo. Mandou ver as malas que tinha,
achou que era preciso mais uma, calculou o tamanho, e determinou compr-la.
Eullia, por uma inspirao sbita:

 Mas, mame, ns no vamos por trs meses?

 Trs... ou dois.

 Pois, ento, no vale a pena. As duas malas chegam.

 No chegam.

 Bem; se no chegarem, pode-se comprar na vspera. E
mame mesmo escolhe;  melhor do que mandar esta gente que no sabe nada.

D. Benedita achou a reflexo judiciosa, e guardou o dinheiro.
A filha sorriu para dentro. Talvez repetisse consigo a famosa palavra da
janela:  Isto acaba. A me foi cuidar dos arranjos, escolha de roupa, lista
das coisas que precisava comprar, um presente para o marido, etc. Ah! Que
alegria que ele ia ter! Depois do meio-dia saram para fazer encomendas,
visitas, comprar as passagens, quatro passagens; levavam uma escrava consigo.
Eullia ainda tentou arred-la da idia, propondo a transferncia da viagem;
mas D. Benedita declarou peremptoriamente que no. No escritrio da Companhia
de Paquetes disseram-lhe que o do Norte saa na sexta-feira da outra semana.
Ela pediu as quatro passagens; abriu a carteirinha, tirou uma nota, depois
duas, refletiu um instante.

 Basta vir na vspera, no?

 Basta, mas pode no achar mais.

 Bem; o senhor guarde os bilhetes: eu mando buscar.

 O seu nome?

 O nome? O melhor  no tomar o nome; ns viremos trs
dias antes de sair o vapor. Naturalmente ainda haver bilhetes.

 Pode ser.

 H de haver.

Na rua, Eullia observou que era melhor ter comprado logo
os bilhetes; e, sabendo-se que ela no desejava ir para o Norte nem para o Sul,
salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da vspera, h de
supor-se que a reflexo da moa era profundamente maquiavlica. No digo que
no. D. Benedita, entretanto, noticiou a viagem aos amigos e conhecidos, nenhum
dos quais a ouviu espantado. Um chegou a perguntar-lhe se, enfim, daquela vez
era certo. D. Maria dos Anjos, que sabia da viagem pelo cnego, se alguma coisa
a assombrou, quando a amiga se despediu dela, foram as atitudes geladas, o
olhar fixo no cho, o silncio, a indiferena. Uma visita de dez minutos
apenas, durante os quais D. Benedita disse quatro palavras no princpio: 
Vamos para o Norte. E duas no fim:  Passe bem. E os beijos? Dois tristes
beijos de pessoa morta.

Captulo
IV

A viagem no se fez por um motivo supersticioso. D.
Benedita, no domingo  noite, advertiu que o paquete seguia na sexta-feira, e
achou que o dia era mau. Iriam no outro paquete. No foram no outro; mas desta
vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano, e o melhor
alvitre em tais casos  no teimar com o impenetrvel. A verdade  que D.
Benedita no foi, mas iria no terceiro paquete, a no ser um incidente que lhe
trocou os planos.

Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. A
nova amizade era uma famlia do Andara; a festa no se sabe a que propsito
foi, mas deve ter sido esplndida, porque D. Benedita ainda falava dela trs
dias depois. Trs dias! Realmente, era demais. Quanto  famlia, era impossvel
ser mais amvel; ao menos, a impresso que deixou na alma de D. Benedita foi
intensssima. Uso este superlativo, porque ela mesma o empregou:  um documento
humano.

 Aquela gente? Oh! deixou-me uma impresso intensssima.

E toca a andar para Andara, namorada de D. Petronilha,
esposa do Conselheiro Beltro, e de uma irm dela, D. Maricota, que ia casar
com um oficial de marinha, irmo de outro oficial de marinha, cujos bigodes,
olhos, cara, porte, cabelos, so os mesmos do retrato que o leitor entreviu h
tempos na gavetinha de Eullia. A irm casada tinha trinta e dois anos, e uma
seriedade, umas maneiras to bonitas, que deixaram encantada a esposa do desembargador.
Quanto  irm solteira era uma flor, uma flor de cera, outra expresso de D.
Benedita, que no altero com receio de entibiar a verdade.

Um dos pontos mais obscuros desta curiosa histria  a
pressa com que as relaes se travaram, e os acontecimentos se sucederam. Por
exemplo, uma das pessoas que estiveram em Andara, com D. Benedita, foi o
oficial de marinha retratado no carto particular de Eullia, 1 tenente
Mascarenhas, que o Conselheiro Beltro proclamou futuro almirante. Vede, porm,
a perfdia do oficial: vinha fardado; e D. Benedita, que amava os espetculos
novos, achou-o to distinto, to bonito, entre os outros moos  paisana, que o
preferiu a todos, e lho disse. O oficial agradeceu comovido. Ela ofereceu-lhe a
casa; ele pediu-lhe licena para fazer uma visita.

 Uma visita? V jantar conosco.

Mascarenhas fez uma cortesia de aquiescncia.

 Olhe, disse D. Benedita, v amanh.

Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedita falou-lhe da
vida do mar; ele pediu-lhe a filha em casamento. D. Benedita ficou sem voz,
pasmada. Lembrou-se,  verdade, que desconfiara dele, um dia, nas Laranjeiras;
mas a suspeita acabara. Agora no os vira conversar nem olhar uma s vez. Em
casamento! Mas seria mesmo em casamento? No podia ser outra coisa; a atitude
sria, respeitosa, implorativa do rapaz dizia bem que se tratava de um
casamento. Que sonho! Convidar um amigo, e abrir a porta a um genro: era o
cmulo do inesperado. Mas o sonho era bonito; o oficial de marinha era um
galhardo rapaz, forte, elegante, simptico, metia toda a gente no corao, e
principalmente parecia ador-la, a ela, D. Benedita. Que magnfico sonho! D.
Benedita voltou do pasmo, e respondeu que sim, que Eullia era sua. Mascarenhas
pegou-lhe na mo e beijou-a filialmente.

 Mas o desembargador? disse ele.

 O desembargador concordar comigo.

Tudo andou assim depressa. Certides passadas, banhos
corridos, marcou-se o dia do casamento; seria vinte e quatro horas depois de
recebida a resposta do desembargador. Que alegria a da boa me! que atividade
no preparo do enxoval, no plano e nas encomendas da festa, na escolha dos
convidados, etc.! Ela ia de um lado para outro, ora a p, ora de carro, fizesse
chuva ou sol. No se detinha no mesmo objeto muito tempo; a semana do enxoval
no era a do preparo da festa, nem a das visitas; alternava as coisas, voltava
atrs, com certa confuso,  verdade. Mas a estava a filha para suprir as
faltas, corrigir os defeitos, cercear as demasias, tudo com a sua habilidade
natural. Ao contrrio de todos os noivos, este no as importunava; no jantava
todos os dias com elas, segundo lhe pedia a dona da casa; jantava aos domingos,
e visitava-as uma vez por semana. Matava as saudades por meio de cartas, que
eram contnuas, longas e secretas, como no tempo do namoro. D. Benedita no
podia explicar uma tal esquivana, quando ela morria por ele; e ento
vingava-se da esquisitice, morrendo ainda mais, e dizendo dele por toda a parte
as mais belas coisas do mundo.

 Uma prola! uma prola!

 E um bonito rapaz, acrescentavam.

 No ? De truz.

A mesma coisa repetia ao marido nas cartas que lhe
mandava, antes e depois de receber a resposta da primeira. A resposta veio; o
desembargador deu o seu consentimento, acrescentando que lhe doa muito no
poder vir assistir s bodas, por achar-se um tanto adoentado; mas abenoava de
longe os filhos, e pedia o retrato do genro.

Cumpriu-se o acordo  risca. Vinte e quatro horas depois
de recebida a resposta do Par efetuou-se o casamento, que foi uma festa
admirvel, esplndida, no dizer de D. Benedita, quando a contou a algumas
amigas. Oficiou o Cnego Roxo, e claro  que D. Maria dos Anjos no esteve
presente, e menos ainda o filho. Ela esperou, note-se, at  ltima hora um
bilhete de participao, um convite, uma visita, embora se abstivesse de
comparecer; mas no recebeu nada. Estava atnita, revolvia a memria a ver se
descobria alguma inadvertncia sua que pudesse explicar a frieza das relaes;
no achando nada, sups alguma intriga. E sups mal, pois foi um simples
esquecimento. D. Benedita, no dia do consrcio, de manh, teve idia de que D.
Maria dos Anjos no recebera participao.

 Eullia, parece que no mandamos participao a D. Maria
dos Anjos, disse ela  filha, almoando.

 No sei; mame  quem se incumbiu dos convites.

 Parece que no, confirmou D. Benedita. Joo, d c mais
acar.

O copeiro deu-lhe o acar; ela, mexendo o ch, lembrou-se
do carro que iria buscar o cnego e reiterou uma ordem da vspera.

Mas a fortuna  caprichosa. Quinze dias depois do
casamento, chegou a notcia do bito do desembargador. No descrevo a dor de D.
Benedita; foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca,
vieram ter com ela; D. Benedita chorou todas as lgrimas de uma esposa austera
e fidelssima. Depois da missa do stimo dia, consultou a filha e o genro
acerca da idia de ir ao Par, erigir um tmulo ao marido, e beijar a terra em
que ele repousava. Mascarenhas trocou um olhar com a mulher; depois disse 
sogra que era melhor irem juntos, porque ele devia seguir para o Norte da a
trs meses em comisso do governo. D. Benedita recalcitrou um pouco, mas
aceitou o prazo, dando desde logo todas as ordens necessrias  construo do
tmulo. O tmulo fez-se; mas a comisso no veio, e D. Benedita no pde ir.

Cinco meses depois, deu-se um pequeno incidente na
famlia. D. Benedita mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o
genro, com o pretexto de uma interrupo na obra, props acab-la. D. Benedita
consentiu, e o ato era tanto mais honroso para ela, quanto que o genro comeava
a parecer-lhe insuportvel com a sua excessiva disciplina, com as suas teimas,
impertinncias, etc. Verdadeiramente, no havia teimas; nesse particular, o
genro de D. Benedita contava tanto com a sinceridade da sogra que nunca
teimava; deixava que ela prpria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que
isto mesmo a mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul;
Eullia, grvida, ficou com a me.

Foi por esse tempo que um negociante, vivo, teve idia de
cortejar D. Benedita. O primeiro ano de viuvez estava passado. D. Benedita
acolheu a idia com muita simpatia, embora sem alvoroo. Defendia-se consigo;
alegava a idade e os estudos do filho, que em breve estaria a caminho de So
Paulo, deixando-a s, sozinha no mundo. O casamento seria uma consolao, uma
companhia. E consigo, na rua ou em casa, nas horas disponveis, aprimorava o
plano com todos os floreios da imaginao vivaz e sbita; era uma vida nova,
pois desde muito, antes mesmo da morte do marido, pode-se dizer que era viva.
O negociante gozava do melhor conceito: a escolha era excelente.

No casou. O genro tornou do Sul, a filha deu  luz um
menino robusto e lindo, que foi a paixo da av durante os primeiros meses.
Depois, o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedita achou-se s e
triste; o filho no bastava aos seus afetos. A idia de viajar tornou a
rutilar-lhe na mente, mas como um fsforo, que se apaga logo. Viajar sozinha
era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou melhor ficar.

Uma companhia lrica, adventcia, sacudiu-lhe o torpor, e
restituiu-a  sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a idia do
casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado, tambm
vivo.

 Casarei? no casarei?

Uma noite, volvendo D. Benedita este problema,  janela da
casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns meses, viu um singular
espetculo. Primeiramente uma claridade opaca, espcie de luz coada por um
vidro fosco, vestia o espao da enseada, fronteiro  janela. Nesse quadro
apareceu-lhe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de
reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veio
at ao peitoril da janela de D. Benedita; e de um gesto sonolento, com uma voz
de criana, disse-lhe estas palavras sem sentido:

 Casa... no casars... se casas... casars... no
casars... e casas... casando...

D. Benedita ficou aterrada, sem poder mexer-se; mas ainda
teve a fora de perguntar  figura quem era. A figura achou um princpio de
riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira ao
nascimento de D. Benedita: Meu nome  Veleidade, concluiu; e, como um suspiro,
dispersou-se na noite e no silncio.

O SEGREDO DO BONZO

Captulo
indito de Ferno Mendes Pinto

Atrs deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchu,
capital do reino de Bungo, com o Padre-mestre Francisco, e de como el-rei se
houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao
padre as primazias da nossa santa religio. Agora direi de uma doutrina no
menos curiosa que saudvel ao esprito, e digna de ser divulgada a todas as
repblicas da cristandade.

Um dia, andando a passeio com Diogo Meireles, nesta mesma
cidade Fuchu, naquele ano de 1552, sucedeu deparar-se-nos um ajuntamento de
povo,  esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com
grande abundncia de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria
passante de cem pessoas, vares somente, e todos embasbacados. Diogo Meireles,
que melhor conhecia a lngua da terra, pois ali estivera muitos meses, quando
andou com bandeira de veniaga (agora ocupava-se no exerccio da medicina, que
estudara convenientemente, e em que era exmio) ia-me repetindo pelo nosso
idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte:  Que ele no
queria outra coisa mais do que afirmar a origem dos grilos, os quais procediam
do ar e das folhas de coqueiro, na conjuno da lua nova; que este
descobrimento, impossvel a quem no fosse, como ele, matemtico, fsico e
filsofo, era fruto de dilatados anos de aplicao, experincia e estudo,
trabalhos e at perigos de vida; mas enfim, estava feito, e todo redundava em
glria do reino de Bungo, e especialmente da cidade Fuchu, cujo filho era; e,
se por ter aventado to sublime verdade, fosse necessrio aceitar a morte, ele
a aceitaria ali mesmo, to certo era que a cincia valia mais do que a vida e
seus deleites.

A multido, tanto que ele acabou, levantou um tumulto de
aclamaes, que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alou nos braos o homem
bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau, que descobriu a origem dos grilos!
E todos se foram com ele ao alpendre de um mercador, onde lhe deram refrescos e
lhe fizeram muitas saudaes e reverncias,  maneira deste gentio, que  em
extremo obsequioso e corteso.

Desandando o caminho, vnhamos ns, Diogo Meireles e eu,
falando do singular achado da origem dos grilos, quando, a pouca distncia
daquele alpendre, obra de seis credos, no mais, achamos outra multido de
gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficamos espantados com a
semelhana do caso, e Diogo Meireles, visto que tambm este falava apressado,
repetiu-me da mesma maneira o teor da orao. E dizia este outro, com grande
admirao e aplauso da gente que o cercava, que enfim descobrira o princpio da
vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruda, e era nada
menos que uma certa gota de sangue de vaca; da provinha a excelncia da vaca
para habitao das almas humanas, e o ardor com que esse distinto animal era
procurado por muitos homens  hora de morrer; descobrimento que ele podia
afirmar com f e verdade, por ser obra de experincias repetidas e profunda
cogitao, no desejando nem pedindo outro galardo mais que dar glria ao
reino de Bungo e receber dele a estimao que os bons filhos merecem. O povo,
que escutara esta fala com muita venerao, fez o mesmo alarido e levou o homem
ao dito alpendre, com a diferena que o trepou a uma charola; ali chegando, foi
regalado com obsquios iguais aos que faziam a Patimau, no havendo nenhuma
distino entre eles, nem outra competncia nos banqueteadores, que no fosse a
de dar graas a ambos os banqueteados.

Ficamos sem saber nada daquilo, porque nem nos parecia
casual a semelhana exata dos dois encontros, nem racional ou crvel a origem
dos grilos, dada por Patimau, ou o princpio da vida futura, descoberto por
Languru, que assim se chamava o outro. Sucedeu, porm, costearmos a casa de um
certo Titan, alparqueiro, o qual correu a falar a Diogo Meireles, de quem era
amigo. E, feitos os cumprimentos, em que o alparqueiro chamou as mais galantes
coisas a Diogo Meireles, tais como  ouro da verdade e sol do pensamento, 
contou-lhe este o que vramos e ouvramos pouco antes. Ao que Titan acudiu com
grande alvoroo:  Pode ser que eles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem
que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas pegadas ao
monte Coral. E porque ficssemos cobiosos de ter alguma notcia da doutrina,
consentiu Titan em ir conosco no dia seguinte s casas do bonzo, e
acrescentou:  Dizem que ele no a confia a nenhuma pessoa, seno s que de
corao se quiserem filiar a ela; e, sendo assim, podemos simular que o
queremos unicamente com o fim de a ouvir; e se for boa, chegaremos a pratic-la
 nossa vontade.

No dia seguinte, ao modo concertado, fomos s casas do
dito bonzo, por nome Pomada, um ancio de cento e oito anos, muito lido e
sabido nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquela
gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se finavam de
puro cime. E tendo ouvido o dito bonzo a Titan quem ramos e o que queramos,
iniciou-nos primeiro com vrias cerimnias e bugiarias necessrias  recepo
da doutrina, e s depois dela  que alou a voz para confi-la e explic-la.

 Haveis de entender, comeou ele, que a virtude e o saber
tm duas existncias paralelas, uma no sujeito que as possui, outra no esprito
dos que o ouvem ou contemplam. Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais
profundos conhecimentos em um sujeito solitrio, remoto de todo contato com
outros homens,  como se eles no existissem. Os frutos de uma laranjeira, se
ningum os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ningum
os vir, no valem nada; ou, por outras palavras mais enrgicas, no h
espetculo sem espectador. Um dia, estando a cuidar nestas coisas, considerei
que, para o fim de alumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus
longos anos, e, alis, nada chegaria a valer sem a existncia de outros homens
que me vissem e honrassem; ento cogitei se no haveria um modo de obter o
mesmo efeito, poupando tais trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o
da regenerao dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.

Neste ponto, afiamos os ouvidos e ficamos pendurados da
boca do bonzo, o qual, como lhe dissesse Diogo Meireles que a lngua da terra
me no era familiar, ia falando com grande pausa, porque eu nada perdesse. E
continuou dizendo:  Mal podeis adivinhar o que me deu idia da nova doutrina;
foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra to luminosa que, posta no
cabeo de uma montanha ou no pncaro de uma torre, d claridade a uma campina
inteira, ainda a mais dilatada. Uma tal pedra, com tais quilates de luz, no
existiu nunca, e ningum jamais a viu; mas muita gente cr que existe e mais de
um dir que a viu com os seus prprios olhos. Considerei o caso, e entendi que,
se uma coisa pode existir na opinio, sem existir na realidade, e existir na
realidade, sem existir na opinio, a concluso  que das duas existncias
paralelas a nica necessria  a da opinio, no a da realidade, que  apenas
conveniente. To depressa fiz este achado especulativo, como dei graas a Deus
do favor especial, e determinei-me a verific-lo por experincias; o que
alcancei, em mais de um caso, que no relato, por vos no tomar o tempo. Para
compreender a eficcia do meu sistema, basta advertir que os grilos no podem
nascer do ar e das folhas de coqueiro, na conjuno da lua nova, e por outro
lado, o princpio da vida futura no est em uma certa gota de sangue de vaca;
mas Patimau e Languru, vares astutos, com tal arte souberam meter estas duas
idias no nimo da multido, que hoje desfrutam a nomeada de grandes fsicos e
maiores filsofos, e tm consigo pessoas capazes de dar a vida por eles.

No sabamos em que maneira dssemos ao bonzo as mostras
do nosso vivo contentamento e admirao. Ele interrogou-nos ainda algum tempo,
compridamente, acerca da doutrina e dos fundamentos dela, e depois de
reconhecer que a entendamos, incitou-nos a pratic-la, a divulg-la
cautelosamente, no porque houvesse nada contrrio s leis divinas ou humanas,
mas porque a m compreenso dela podia dan-la e perd-la em seus primeiros
passos; enfim, despediu-se de ns com a certeza (so palavras suas) de que
abalvamos dali com a verdadeira alma de pomadistas; denominao esta que, por
se derivar do nome dele, lhe era em extremo agradvel.

Com efeito, antes de cair a tarde, tnhamos os trs
combinado em pr por obra uma idia to judiciosa quo lucrativa, pois no  s
lucro o que se pode haver em moeda, seno tambm o que traz considerao e
louvor, que  outra e melhor espcie de moeda, conquanto no d para comprar
damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois,  guisa de experincia, meter
cada um de ns, no nimo da cidade Fuchu, uma certa convico, mediante a qual
houvssemos os mesmos benefcios que desfrutavam Patimau e Languru; mas, to
certo  que o homem no olvida o seu interesse, entendeu Titan que lhe cumpria
lucrar de duas maneiras, cobrando da experincia ambas as moedas, isto , vendendo
tambm as suas alparcas: ao que nos no opusemos, por nos parecer que nada
tinha isso com o essencial da doutrina.

Consistiu a experincia de Titan em uma coisa que no sei
como diga para que a entendam. Usam neste reino de Bungo, e em outros destas
remotas partes, um papel feito de casca de canela moda e goma, obra mui prima,
que eles talham depois em pedaos de dois palmos de comprimento, e meio de
largura, nos quais desenham com vivas e variadas cores, e pela lngua do pas,
as notcias da semana, polticas, religiosas, mercantis e outras, as novas leis
do reino, os nomes das fustas, lancharas, bales e toda a casta de barcos que
navegam estes mares, ou em guerra, que a h freqente, ou de veniaga. E digo as
notcias da semana, porque as ditas folhas so feitas de oito em oito dias, em
grande cpia, e distribudas ao gentio da terra, a troco de uma esprtula, que
cada um d de bom grado para ter as notcias primeiro que os demais moradores.
Ora, o nosso Titan no quis melhor esquina que este papel, chamado pela nossa
lngua Vida e claridade das coisas mundanas e celestes, ttulo
expressivo, ainda que um tanto derramado. E, pois, fez inserir no dito papel
que acabavam de chegar notcias frescas de toda a costa de Malabar e da China,
conforme as quais no havia outro cuidado que no fossem as famosas alparcas
dele Titan; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo, por serem
mui slidas e graciosas; que nada menos de vinte e dois mandarins iam requerer
ao imperador para que, em vista do esplendor das famosas alparcas de Titan, as
primeiras do universo, fosse criado o ttulo honorfico de alparca do Estado,
para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do
entendimento; que eram grossssimas as encomendas feitas de todas as partes, s
quais ele Titan ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela glria que dali
provinha  nao; no recuando, todavia, do propsito em que estava e ficava de
dar de graa aos pobres do reino umas cinqenta corjas das ditas alparcas, conforme
j fizera declarar a el-rei e o repetia agora; enfim, que apesar da primazia no
fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra, ele sabia os deveres da
moderao, e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da
glria do reino de Bungo.

A leitura desta notcia comoveu naturalmente a toda a
cidade Fuchu, no se falando em outra coisa durante toda aquela semana. As
alparcas de Titan, apenas estimadas, comearam de ser buscadas com muita
curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois no deixou ele de
entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e extraordinrias anedotas
acerca da sua mercadoria. E dizia-nos com muita graa:  Vede que obedeo ao
principal da nossa doutrina, pois no estou persuadido da superioridade das
tais alparcas, antes as tenho por obra vulgar, mas fi-lo crer ao povo, que as
vem comprar agora, pelo preo que lhes taxo.  No me parece, atalhei, que
tenhais cumprido a doutrina em seu rigor e substncia, pois no nos cabe
inculcar aos outros uma opinio que no temos, e sim a opinio de uma qualidade
que no possumos; este , ao certo, o essencial dela.

Dito isto, assentaram os dois que era a minha vez de
tentar a experincia, o que imediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas
as suas partes, por no demorar a narrao da experincia de Diogo Meireles,
que foi a mais decisiva das trs, e a melhor prova desta deliciosa inveno do
bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que tinha de msica e charamela, em
que alis era mediano, lembrou-me congregar os principais de Fuchu para que me
ouvissem tanger o instrumento; os quais vieram, escutaram e foram-se repetindo
que nunca antes tinham ouvido coisa to extraordinria. E confesso que alcancei
um tal resultado com o s recurso dos ademanes, da graa em arquear os braos
para tomar a charamela, que me foi trazida em uma bandeja de prata, da rigidez
do busto, da uno com que alcei os olhos ao ar, e do desdm e ufania com que
os baixei  mesma assemblia, a qual neste ponto rompeu em um tal concerto de
vozes e exclamaes de entusiasmo, que quase me persuadiu do meu merecimento.

Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas
experincias, foi a de Diogo Meireles. Lavrava ento na cidade uma singular
doena, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam
metade e mais da cara ao paciente, e no s a punham horrenda, seno que era
molesto carregar tamanho peso. Conquanto os fsicos da terra propusessem
extrair os narizes inchados, para alvio e melhoria dos enfermos, nenhum destes
consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso  lacuna, e tendo por
mais aborrecvel que nenhuma outra coisa a ausncia daquele rgo. Neste
apertado lance mais de um recorria  morte voluntria, como um remdio, e a tristeza
era muita em toda a cidade Fuchu. Diogo Meireles, que desde algum tempo
praticava a medicina, segundo ficou dito atrs, estudou a molstia e reconheceu
que no havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes
levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado
como nenhum; no alcanou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrifcio. Ento
ocorreu-lhe uma graciosa inveno. Assim foi que, reunindo muitos fsicos,
filsofos, bonzos, autoridades e povo, comunicou-lhes que tinha um segredo para
eliminar o rgo; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado
por um nariz so, mas de pura natureza metafsica, isto , inacessvel aos
sentidos humanos, e contudo to verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura
esta praticada por ele em vrias partes, e muito aceita aos fsicos de Malabar.
O assombro da assemblia foi imenso, e no menor a incredulidade de alguns, no
digo de todos, sendo que a maioria no sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava
a metafsica do nariz, cedia entretanto  energia das palavras de Diogo
Meireles, ao tom alto e convencido com que ele exps e definiu o seu remdio.
Foi ento que alguns filsofos, ali presentes, um tanto envergonhados do saber
de Diogo Meireles, no quiseram ficar-lhe atrs, e declararam que havia bons
fundamentos para uma tal inveno, visto no ser o homem todo outra coisa mais
do que um produto da idealidade transcendental; donde resultava que podia
trazer, com toda a verossimilhana, um nariz metafsico, e juravam ao povo que
o efeito era o mesmo.

A assemblia aclamou a Diogo Meireles; e os doentes
comearam de busc-lo, em tanta cpia, que ele no tinha mos a medir. Diogo
Meireles desnarigava-os com muitssima arte; depois estendia delicadamente os
dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e
aplicava-o ao lugar vazio. Os enfermos, assim curados e supridos, olhavam uns
para os outros, e no viam nada no lugar do rgo cortado; mas, certos e
certssimos de que ali estava o rgo substituto, e que este era inacessvel
aos sentidos humanos, no se davam por defraudados, e tornavam aos seus
ofcios. Nenhuma outra prova quero da eficcia da doutrina e do fruto dessa
experincia, seno o fato de que todos os desnarigados de Diogo Meireles
continuaram a prover-se dos mesmos lenos de assoar. O que tudo deixo relatado
para glria do bonzo e benefcio do mundo.

O ANEL DE POLCRATES

A  L vai o Xavier.

Z  Conhece o Xavier?

A  H que anos! Era um nababo, rico, podre de rico, mas
prdigo...

Z  Que rico? que prdigo?

A  Rico e prdigo, digo-lhe eu. Bebia prolas diludas em
nctar. Comia lnguas de rouxinol. Nunca usou papel mata-borro, por ach-lo
vulgar e mercantil; empregava areia nas cartas, mas uma certa areia feita de p
de diamante. E mulheres! Nem toda a pompa de Salomo pode dar idia do que era
o Xavier nesse particular. Tinha um serralho: a linha grega, a tez romana, a
exuberncia turca, todas as perfeies de uma raa, todas as prendas de um
clima, tudo era admitido no harm do Xavier. Um dia enamorou-se loucamente de
uma senhora de alto coturno, e enviou-lhe de mimo trs estrelas do Cruzeiro,
que ento contava sete, e no pense que o portador foi a qualquer p-rapado.
No, senhor. O portador foi um dos arcanjos de Milton, que o Xavier chamou na
ocasio em que ele cortava o azul para levar a admirao dos homens ao seu
velho pai ingls. Era assim o Xavier. Capeava os cigarros com um papel de
cristal, obra finssima, e, para acend-los, trazia consigo uma caixinha de
raios do sol. As colchas da cama eram nuvens purpreas, e assim tambm a
esteira que forrava o sof de repouso, a poltrona da secretria e a rede. Sabe
quem lhe fazia o caf, de manh? A Aurora, com aqueles mesmos dedos
cor-de-rosa, que Homero lhe ps. Pobre Xavier! Tudo o que o capricho e a
riqueza podem dar, o raro, o esquisito, o maravilhoso, o indescritvel, o
inimaginvel, tudo teve e devia ter, porque era um galhardo rapaz, e um bom
corao. Ah! fortuna, fortuna! Onde esto agora as prolas, os diamantes, as
estrelas, as nuvens purpreas? Tudo perdeu, tudo deixou ir por gua abaixo; o
nctar virou zurrapa, os coxins so a pedra dura da rua, no manda estrelas s
senhoras, nem tem arcanjos s suas ordens...

Z  Voc est enganado. O Xavier? Esse Xavier h de ser
outro. O Xavier nababo! Mas o Xavier que ali vai nunca teve mais de duzentos
mil-ris mensais;  um homem poupado, sbrio, deita-se com as galinhas, acorda
com os galos, e no escreve cartas a namoradas, porque no as tem. Se alguma
expede aos amigos  pelo correio. No  mendigo, nunca foi nababo.

A  Creio; esse  o Xavier exterior. Mas nem s de po
vive o homem. Voc fala de Marta, eu falo-lhe de Maria; falo do Xavier
especulativo...

Z  Ah!  Mas ainda assim, no acho explicao; no me
consta nada dele. Que livro, que poema, que quadro...

A  Desde quando o conhece?

Z  H uns quinze anos.

A  Upa! Conheo-o h muito mais tempo, desde que ele
estreou na Rua do Ouvidor, em pleno Marqus de Paran. Era um endiabrado, um
derramado, planeava todas as coisas possveis, e at contrrias, um livro, um
discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma histria, um
libelo poltico, uma viagem  Europa, outra ao serto de Minas, outra  lua, em
certo balo que inventara, uma candidatura poltica, e arqueologia, e
filosofia, e teatro, etc., etc., etc. Era um saco de espantos. Quem conversava
com ele sentia vertigens. Imagine uma cachoeira de idias e imagens, qual mais
original, qual mais bela, s vezes extravagante, s vezes sublime. Note que ele
tinha a convico dos seus mesmos inventos. Um dia, por exemplo, acordou com o
plano de arrasar o morro do Castelo, a troco das riquezas que os jesutas ali
deixaram, segundo o povo cr. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as
com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de
arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objetos, deu-me dois tocheiros de
ouro...

Z  Realmente...

A  Ah! impagvel. Quer saber de outra? Tinha lido as
cartas do Cnego Benigno, e resolveu ir logo ao serto da Bahia, procurar a
cidade misteriosa. Exps-me o plano, descreveu-me a arquitetura provvel da
cidade, os templos, os palcios, gnero etrusco, os ritos, os vasos, as roupas,
os costumes...

Z  Era ento doido?

A  Originalo apenas. Odeio os carneiros de Panrgio,
dizia ele, citando Rabelais: Comme vous savez estre du mouton le naturel,
toujours suivre le premier, quelque part qu'il aille. Comparava a trivialidade a uma
mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes comer um mau bife em mesa
separada.

Z  Entretanto, gostava da sociedade.

A  Gostava da sociedade, mas no amava os scios. Um
amigo nosso, o Pires, fez-lhe um dia esse reparo; e sabe o que  que ele
respondeu? Respondeu com um aplogo, em que cada scio figurava ser uma cuia
dgua, e a sociedade uma banheira.  Ora, eu no posso lavar-me em cuias
dgua, foi a sua concluso.

Z  Nada modesto. Que lhe disse o Pires?

A  O Pires achou o aplogo to bonito que o meteu numa
comdia, da a tempos. Engraado  que o Xavier ouviu o aplogo no teatro e
aplaudiu-o muito, com entusiasmo; esquecera-se da paternidade; mas a voz do
sangue... Isto leva-me  explicao da atual misria do Xavier.

Z   verdade, no sei como se possa explicar que um
nababo...

A  Explica-se facilmente. Ele espalhava idias  direita
e  esquerda, como o cu chove, por uma necessidade fsica, e ainda por duas
razes. A primeira  que era impaciente, no sofria a gestao indispensvel 
obra escrita. A segunda  que varria com os olhos uma linha to vasta de
coisas, que mal poderia fixar-se em qualquer delas. Se no tivesse o verbo
fluente, morreria de congesto mental; a palavra era um derivativo. As pginas
que ento falava, os captulos que lhe borbotavam da boca, s precisavam de uma
arte de os imprimir no ar, e depois no papel, para serem pginas e captulos
excelentes, alguns admirveis. Nem tudo era lmpido; mas a poro lmpida
superava a poro turva, como a viglia de Homero paga os seus cochilos.
Espalhava tudo, ao acaso, as mos cheias, sem ver onde as sementes iam cair;
algumas pegavam logo...

Z  Como a das cuias.

A  Como a das cuias. Mas, o semeador tinha a paixo das
coisas belas, e, uma vez que a rvore fosse pomposa e verde, no lhe perguntava
nunca pela semente sua me. Viveu assim longos anos, despendendo  toa, sem
clculo, sem fruto, de noite e de dia, na rua e em casa, um verdadeiro prdigo.
Com tal regmen, que era a ausncia de regmen, no admira que ficasse pobre e
miservel. Meu amigo, a imaginao e o esprito tm limites; a no ser a famosa
botelha dos saltimbancos e a credulidade dos homens, nada conheo inesgotvel
debaixo do sol. O Xavier no s perdeu as idias que tinha, mas at exauriu a
faculdade de as criar; ficou o que sabemos. Que moeda rara se lhe v hoje nas
mos? que sestrcio de Horcio? que drama de Pricles? Nada. Gasta o seu
lugar-comum, rafado das mos dos outros, come  mesa redonda, fez-se trivial,
chocho...

Z  Cuia, enfim.

A  Justamente: cuia.

Z  Pois muito me conta. No sabia nada disso. Fico
inteirado; adeus.

A  Vai a negcio?

Z  Vou a um negcio.

A  D-me dez minutos?

Z  Dou-lhe quinze.

A  Quero referir-lhe a passagem mais interessante da vida
do Xavier. Aceite o meu brao, e vamos andando. Vai para a Praa? Vamos juntos.
Um caso interessantssimo. Foi ali por 1869 ou 70, no me recordo; ele mesmo 
que me contou. Tinha perdido tudo; trazia o crebro gasto, chupado, estril,
sem a sombra de um conceito, de uma imagem, nada. Basta dizer que um dia chamou
rosa a uma senhora,  uma bonita rosa; falava do luar saudoso, do sacerdcio
da imprensa, dos jantares opparos, sem acrescentar ao menos um relevo qualquer
a toda essa chaparia de algibebe. Comeara a ficar hipocondraco; e, um dia,
estando  janela, triste, desabusado das coisas, vendo-se chegado a nada,
aconteceu passar na rua um taful a cavalo. De repente, o cavalo corcoveou, e o
taful veio quase ao cho; mas sustentou-se, e meteu as esporas e o chicote no
animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada na rua e nas portas; no
fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha. Os
espectadores no se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a
arte do cavaleiro. Ento o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro no
tivesse nimo nenhum; no quis cair diante de gente, e isso lhe deu a fora de
domar o cavalo. E da veio uma idia: comparou a vida a um cavalo xucro ou
manhoso; e acrescentou sentenciosamente: Quem no for cavaleiro, que o parea.
Realmente, no era uma idia extraordinria; mas a penria do Xavier tocara a
tal extremo, que esse cristal pareceu-lhe um diamante. Ele repetiu-a dez ou doze
vezes, formulou-a de vrios modos, ora na ordem natural, pondo primeiro a
definio, depois o complemento; ora dando-lhe a marcha inversa, trocando
palavras, medindo-as, etc.; e to alegre, to alegre como casa de pobre em dia
de peru. De noite, sonhou que efetivamente montava um cavalo manhoso, que este
pinoteava com ele e o sacudia a um brejo. Acordou triste; a manh, que era de
domingo e chuvosa, ainda mais o entristeceu; meteu-se a ler e a cismar. Ento
lembrou-se... Conhece o caso do anel de Polcrates?

Z  Francamente, no.

A  Nem eu; mas aqui vai o que me disse o Xavier.
Polcrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; to feliz,
que comeou a recear alguma viravolta da Fortuna, e, para aplac-la
antecipadamente, determinou fazer um grande sacrifcio: deitar ao mar o anel
precioso que, segundo alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna
andava to apostada em cumul-lo de obsquios, que o anel foi engolido por um
peixe, o peixe pescado e mandado para a cozinha do rei, que assim voltou 
posse do anel. No afirmo nada a respeito desta anedota; foi ele quem me
contou, citando Plnio, citando...

Z  No ponha mais na carta. O Xavier naturalmente
comparou a vida, no a um cavalo, mas...

A  Nada disso. No  capaz de adivinhar o plano
estrambtico do pobre-diabo. Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a
minha idia, lanada ao mar, pode tornar ao meu poder, como o anel de
Polcrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu caiporismo ser tal, que nunca
mais lhe ponha a mo?

Z  Ora essa!

A  No  estrambtico? Polcrates experimentara a
felicidade; o Xavier quis tentar o caiporismo; intenes diversas, ao
idntica. Saiu de casa, encontrou um amigo, travou conversa, escolheu assunto,
e acabou dizendo o que era a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e quem no for
cavaleiro que o parea. Dita assim, esta frase era talvez fria; por isso o
Xavier teve o cuidado de descrever primeiro a sua tristeza, o desconsolo dos
anos, o malogro dos esforos, ou antes os efeitos da imprevidncia, e quando o
peixe ficou de boca aberta, digo, quando a comoo do amigo chegou ao cume, foi
que ele lhe atirou o anel, e fugiu a meter-se em casa. Isto que lhe conto 
natural, cr-se, no  impossvel; mas agora comea a juntar-se  realidade uma
alta dose de imaginao. Seja o que for, repito o que ele me disse. Cerca de
trs semanas depois, o Xavier jantava pacificamente no Leo de Ouro ou
no Globo, no me lembro bem, e ouviu de outra mesa a mesma frase sua,
talvez com a troca de um adjetivo. Meu pobre anel, disse ele, eis-te enfim no
peixe de Polcrates. Mas a idia bateu as asas e voou, sem que ele pudesse
guard-la na memria. Resignou-se. Dias depois, foi convidado a um baile: era
um antigo companheiro dos tempos de rapaz, que celebrava a sua recente
distino nobiliria. O Xavier aceitou o convite, e foi ao baile, e ainda bem
que foi, porque entre o sorvete e o ch ouviu de um grupo de pessoas que
louvavam a carreira do baro, a sua vida prspera, rgida, modelo, ouviu
comparar o baro a um cavaleiro emrito. Pasmo dos ouvintes, porque o baro no
montava a cavalo.

Mas o panegirista explicou que a vida no  mais do que um
cavalo xucro ou manhoso, sobre o qual ou se h de ser cavaleiro ou parec-lo, e
o baro era-o excelente.  Entra, meu querido anel, disse o Xavier, entra no
dedo de Polcrates. Mas de novo a idia bateu as asas, sem querer ouvi-lo.
Dias depois...

Z  Adivinho o resto: uma srie de encontros e fugas do
mesmo gnero.

A  Justo.

Z  Mas, enfim, apanhou-o um dia.

A  Um dia s, e foi ento que me contou o caso digno de
memria. To contente que ele estava nesse dia! Jurou-me que ia escrever, a
propsito disto, um conto fantstico,  maneira de Edgar Poe, uma pgina
fulgurante, pontuada de mistrios,  so as suas prprias expresses;  e
pediu-me que o fosse ver no dia seguinte. Fui; o anel fugira-lhe outra vez.
Meu caro A, disse-me ele, com um sorriso fino e sarcstico, tens em mim o
Polcrates do caiporismo; nomeio-te meu ministro honorrio e gratuito. Da em
diante foi sempre a mesma coisa. Quando ele supunha pr a mo em cima da idia,
ela batia as asas, pls, pls, pls, e perdia-se no ar, como as figuras de um
sonho. Outro peixe a engolia e trazia, e sempre o mesmo desenlace. Mas dos
casos que ele me contou naquele dia, quero dizer-lhe trs...

Z  No posso; l se vo os quinze minutos.

A  Conto-lhe s trs. Um dia, o Xavier chegou a crer que
podia enfim agarrar a fugitiva, e finc-la perpetuamente no crebro. Abriu um
jornal de oposio, e leu estupefato estas palavras: O ministrio parece
ignorar que a poltica , como a vida, um cavalo xucro ou manhoso, e, no
podendo ser bom cavaleiro, porque nunca o foi, devia ao menos parecer que o .

 Ah! enfim! exclamou o Xavier, c ests engastado no
bucho do peixe; j me no podes fugir. Mas, em vo! a idia fugia-lhe, sem
deixar outro vestgio mais do que uma confusa reminiscncia. Sombrio,
desesperado, comeou a andar, a andar, at que a noite caiu; passando por um teatro,
entrou; muita gente, muitas luzes, muita alegria; o corao aquietou-se-lhe.
Cmulo de benefcios: era uma comdia do Pires, uma comdia nova. Sentou-se ao
p do autor, aplaudiu a obra com entusiasmo, com sincero amor de artista e de
irmo. No segundo ato, cena VIII, estremeceu. D. Eugnia, diz o gal a uma
senhora, o cavalo pode ser comparado  vida, que  tambm um cavalo xucro ou
manhoso; quem no for bom cavaleiro, deve cuidar de parecer que o . O autor,
com o olhar tmido, espiava no rosto do Xavier o efeito daquela reflexo,
enquanto o Xavier repetia a mesma splica das outras vezes:  Meu querido
anel...

Z  Et nunc et semper... Venha o ltimo encontro, que so
horas.

A  O ltimo foi o primeiro. J lhe disse que o Xavier
transmitira a idia a um amigo. Uma semana depois da comdia cai o amigo
doente, com tal gravidade que em quatro dias estava  morte.

O Xavier corre a v-lo; e o infeliz ainda o pde conhecer,
estender-lhe a mo fria e trmula, cravar-lhe um longo olhar bao da ltima
hora, e, com a voz sumida, eco do sepulcro, soluar-lhe: C vou, meu Caro
Xavier, o cavalo xucro ou manhoso da vida deitou-me ao cho: se fui mau
cavaleiro, no sei; mas forcejei por parec-lo bom. No se ria; ele contou-me
isto com lgrimas. Contou-me tambm que a idia ainda esvoaou alguns minutos
sobre o cadver, faiscando as belas asas de cristal, que ele cria ser diamante
depois estalou um risinho de escrnio, ingrato e parricida, e fugiu como das
outras vezes, metendo-se no crebro de alguns sujeitos, amigos da casa, que ali
estavam, transidos de dor, e recolheram com saudade esse pio legado do defunto.
Adeus.

O EMPRSTIMO

Vou divulgar uma anedota, mas uma anedota no genuno
sentido do vocbulo, que o vulgo ampliou s historietas de pura inveno. Esta
 verdadeira; podia citar algumas pessoas que a sabem to bem como eu. Nem ela
andou recndita, seno por falta de um esprito repousado, que lhe achasse a
filosofia. Como deveis saber, h em todas as coisas um sentido filosfico.
Carlyle descobriu o dos coletes, ou, mais propriamente, o do vesturio; e
ningum ignora que os nmeros, muito antes da loteria do Ipiranga, formavam o
sistema de Pitgoras. Pela minha parte creio ter decifrado este caso de
emprstimo; ides ver se me engano.

E, para comear, emendemos Sneca. Cada dia, ao parecer
daquele moralista, , em si mesmo, uma vida singular; por outros termos, uma
vida dentro da vida. No digo que no; mas por que no acrescentou ele, que
muitas vezes uma s hora  a representao de uma vida inteira? Vede este
rapaz: entra no mundo com uma grande ambio, uma pasta de ministro, um banco,
uma coroa de visconde, um bculo pastoral. Aos cinqenta anos, vamos ach-lo
simples apontador de alfndega, ou sacristo da roa. Tudo isso que se passou em
trinta anos, pode algum Balzac met-lo em trezentas pginas; por que no h de
a vida, que foi a mestra de Balzac, apert-lo em trinta ou sessenta minutos?

Tinham batido quatro horas no cartrio do tabelio Vaz
Nunes,  Rua do Rosrio. Os escreventes deram ainda as ltimas penadas: depois
limparam as penas de ganso na ponta de seda preta que pendia da gaveta ao lado;
fecharam as gavetas, concertaram os papis, arrumaram os autos e os livros,
lavaram as mos; alguns que mudavam de palet  entrada, despiram o do trabalho
e enfiaram o da rua; todos saram. Vaz Nunes ficou s.

Este honesto tabelio era um dos homens mais perspicazes
do sculo. Est morto: podemos elogi-lo  vontade. Tinha um olhar de lanceta,
cortante e agudo. Ele adivinhava o carter das pessoas que o buscavam para
escriturar os seus acordos e resolues; conhecia a alma de um testador muito
antes de acabar o testamento; farejava as manhas secretas e os pensamentos
reservados. Usava culos, como todos os tabelies de teatro; mas, no sendo
mope, olhava por cima deles, quando queria ver, e atravs deles, se pretendia
no ser visto. Finrio como ele s, diziam os escreventes. Em todo o caso,
circunspeto. Tinha cinqenta anos, era vivo, sem filhos, e, para falar como
alguns outros serventurios, roa muito caladinho os seus duzentos contos de
ris.

 Quem ? perguntou ele de repente, olhando para a porta
da rua.

Estava  porta, parado na soleira, um homem que ele no conheceu
logo, e mal pde reconhecer da a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar;
ele obedeceu, cumprimentou-o, estendeu-lhe a mo, e sentou-se na cadeira ao p
da mesa. No trazia o acanho natural a um pedinte; ao contrrio, parecia que
no vinha ali seno para dar ao tabelio alguma coisa preciosssima e rara. E,
no obstante, Vaz Nunes estremeceu e esperou.

 No se lembra de mim?

 No me lembro...

 Estivemos juntos uma noite, h alguns meses, na
Tijuca... No se lembra? Em casa do Teodorico, aquela grande ceia de Natal; por
sinal que lhe fiz uma sade... Veja se se lembra do Custdio.

 Ah!

Custdio endireitou o busto, que at ento inclinara um
pouco. Era um homem de quarenta anos. Vestia pobremente, mas escovado,
apertado, correto. Usava unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mos
muito bem talhadas, macias, ao contrrio da pele do rosto, que era agreste.
Notcias mnimas, e alis necessrias ao complemento de um certo ar duplo que
distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almoo,
sem vintm, parecia levar aps si um exrcito. A causa no era outra mais do
que o contraste entre a natureza e a situao, entre a alma e a vida. Esse
Custdio nascera com a vocao da riqueza, sem a vocao do trabalho. Tinha o
instinto das elegncias, o amor do suprfluo, da boa chira, das belas damas,
dos tapetes finos, dos mveis raros, um voluptuoso, e, at certo ponto, um
artista, capaz de reger a vila Torloni ou a galeria Hamilton. Mas no tinha
dinheiro; nem dinheiro, nem aptido ou pachorra de o ganhar; por outro lado,
precisava viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je
n'en vois pas la ncessit, redargiu friamente o ministro. Ningum dava essa resposta ao
Custdio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil-ris, e de
tais esprtulas  que ele principalmente tirava o albergue e a comida.

Digo que principalmente vivia delas, porque o Custdio no
recusava meter-se em alguns negcios, com a condio de os escolher, e escolhia
sempre os que no prestavam para nada. Tinha o faro das catstrofes. Entre
vinte empresas, adivinhava logo a insensata, e metia ombros a ela, com
resoluo. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove
prosperassem, e a vigsima lhe estourasse nas mos. No importa; aparelhava-se
para outra.

Agora, por exemplo, leu um anncio de algum que pedia um
scio, com cinco contos de ris, para entrar em certo negcio, que prometia
dar, nos primeiros seis meses, oitenta a cem contos de lucro. Custdio foi ter
com o anunciante. Era uma grande idia, uma fbrica de agulhas, indstria nova,
de imenso futuro. E os planos, os desenhos da fbrica, os relatrios de
Birmingham, os mapas de importao, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho,
etc., todos os documentos de um longo inqurito passavam diante dos olhos de
Custdio, estrelados de algarismos, que ele no entendia, e que por isso mesmo
lhe pareciam dogmticos. Vinte e quatro horas; no pedia mais de vinte e quatro
horas para trazer os cinco contos. E saiu dali, cortejado, animado pelo
anunciante, que, ainda  porta, o afogou numa torrente de saldos. Mas os cinco
contos, menos dceis ou menos vagabundos que os cinco mil-ris, sacudiam
incredulamente a cabea, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de
sono. Nada. Oito ou dez amigos, a quem falou, disseram-lhe que nem dispunham
agora da soma pedida, nem acreditavam na fbrica. Tinha perdido as esperanas,
quando aconteceu subir a Rua do Rosrio e ler no portal de um cartrio o nome
de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do
tabelio, as frases com que ele lhe respondeu ao brinde, e disse consigo, que
este era o salvador da situao.

 Venho pedir-lhe uma escritura...

Vaz Nunes, armado para outro comeo, no respondeu; espiou
por cima dos culos e esperou.

 Uma escritura de gratido, explicou o Custdio; venho
pedir-lhe um grande favor, um favor indispensvel, e conto que o meu amigo...

 Se estiver nas minhas mos...

 O negcio  excelente, note-se bem; um negcio
magnfico. Nem eu me metia a incomodar os outros sem certeza do resultado. A
coisa est pronta; foram j encomendas para a Inglaterra; e  provvel que
dentro de dois meses esteja tudo montado,  uma indstria nova. Somos trs
scios, a minha parte so cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis
meses,  ou a trs, com juro mdico...

 Cinco contos?

 Sim, senhor.

 Mas, Sr. Custdio, no posso, no disponho de to grande
quantia. Os negcios andam mal; e ainda que andassem muito bem, no poderia
dispor de tanto. Quem  que pode esperar cinco contos de um modesto tabelio de
notas?

 Ora, se o senhor quisesse...

 Quero, decerto; digo-lhe que se se tratasse de uma
quantia pequena, acomodada aos meus recursos, no teria dvida em adiant-la.
Mas cinco contos! Creia que  impossvel.

A alma de Custdio caiu de bruos. Subira pela escada de
Jac at o cu; mas em vez de descer como os anjos no sonho bblico, rolou
abaixo e caiu de bruos. Era a ltima esperana; e justamente por ter sido
inesperada,  que ele sups que fosse certa, pois, como todos os coraes que
se entregam ao regmen do eventual, o do Custdio era supersticioso. O
pobre-diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milhes de agulhas que a
fbrica teria de produzir no primeiro semestre. Calado, com os olhos no cho,
esperou que o tabelio continuasse, que se compadecesse, que lhe desse alguma
aberta; mas o tabelio, que lia isso mesmo na alma do Custdio, estava tambm
calado, girando entre os dedos a boceta de rap, respirando grosso, com um
certo chiado nasal e implicante. Custdio ensaiou todas as atitudes; ora
pedinte, ora general. O tabelio no se mexia. Custdio ergueu-se.

 Bem, disse ele, com uma pontazinha de despeito, h de
perdoar o incmodo...

 No h que perdoar; eu  que lhe peo desculpa de no
poder servi-lo, como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada,
muito menos, no teria dvida; mas...

Estendeu a mo ao Custdio, que com a esquerda pegara
maquinalmente no chapu. O olhar empanado do Custdio exprimia a absoro da
alma dele, apenas convalescida da queda, que lhe tirara as ltimas energias.
Nenhuma escada misteriosa, nenhum cu; tudo voara a um piparote do tabelio. Adeus,
agulhas! A realidade veio tom-lo outra vez com as suas unhas de bronze. Tinha
de voltar ao precrio, ao adventcio, s velhas contas, com os grandes zeros
arregalados e os cifres retorcidos  laia de orelhas, que continuariam a
fit-lo e a ouvi-lo, a ouvi-lo e a fit-lo, alongando para ele os algarismos
implacveis de fome. Que queda! e que abismo! Desenganado, olhou para o
tabelio com um gesto de despedida; mas, uma idia sbita clareou-lhe a noite
do crebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servi-lo, e com prazer;
por que no seria uma quantia menor? J agora abria mo da empresa; mas no
podia fazer o mesmo a uns aluguis atrasados, a dois ou trs credores, etc., e
uma soma razovel, quinhentos mil-ris, por exemplo, uma vez que o tabelio
tinha a boa vontade de emprestar-lhos, vinham a ponto. A alma do Custdio
empertigou-se; vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades,
nem temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os quinhentos
mil-ris, que ele ia ver surgir da algibeira do tabelio, como um alvar de
liberdade.

 Pois bem, disse ele, veja o que me pode dar, e eu irei
ter com outros amigos... Quanto?

 No posso dizer nada a este respeito, porque realmente
s uma coisa muito modesta.

 Quinhentos mil-ris?

 No; no posso.

 Nem quinhentos mil-ris?

 Nem isso, replicou firme o tabelio. De que se admira?
No lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, no ando com elas
no bolso; e tenho certas obrigaes particulares... Diga-me, no est
empregado?

 No, senhor.

 Olhe; dou-lhe coisa melhor do que quinhentos mil-ris;
falarei ao Ministro da Justia, tenho relaes com ele, e...

Custdio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se
foi um movimento natural, ou uma diverso astuciosa para no conversar do
emprego,  o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O
essencial  que ele teimou na splica. No podia dar quinhentos mil-ris?
Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, no para a empresa, pois adotava o
conselho dos amigos: ia recus-la. Os duzentos mil-ris, visto que o tabelio
estava disposto a ajud-lo, eram para uma necessidade urgente,  tapar um
buraco. E ento relatou tudo, respondeu  franqueza com franqueza: era a regra
da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empresa, tivera em mente acudir
tambm a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe
devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posio. Eram duzentos e poucos
mil-ris; e dez, parece; mas aceitava duzentos...

 Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, enfim,
nem os duzentos mil-ris posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, esto
acima das minhas foras nesta ocasio. Noutra pode ser, e no tenho dvida, mas
agora...

 No imagina os apuros em que estou!

 Nem cem, repito. Tenho tido muitas dificuldades nestes
ltimos tempos. Sociedades, subscries, maonaria... Custa-lhe crer, no ?
Naturalmente: um proprietrio. Mas, meu amigo,  muito bom ter casas: o senhor
 que no conta os estragos, os consertos, as penas-d'gua, as dcimas, o
seguro, os calotes, etc. So os buracos do pote, por onde vai a maior parte da
gua...

 Tivesse eu um pote! suspirou Custdio.

 No digo que no. O que digo  que no basta ter casas
para no ter cuidados, despesas, e at credores... Creia o senhor que tambm eu
tenho credores.

 Nem cem mil-ris!

 Nem cem mil-ris, pesa-me diz-lo, mas  a verdade. Nem
cem mil-ris. Que horas so?

Levantou-se, e veio ao meio da sala. Custdio veio tambm,
arrastado, desesperado. No podia acabar de crer que o tabelio no tivesse ao
menos cem mil-ris. Quem  que no tem cem mil-ris consigo? Cogitou uma cena
pattica, mas o cartrio abria para a rua; seria ridculo. Olhou para fora. Na
loja fronteira, um sujeito apreava uma sobrecasaca,  porta, porque entardecia
depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o fregus
examinava o pano com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro...
Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de
aposentar o palet que trazia. Mas nem cinqenta mil-ris podia dar-lhe o
tabelio. Custdio sorriu;  no de desdm, no de raiva, mas de amargura e
dvida; era impossvel que ele no tivesse cinqenta mil-ris. Vinte, ao menos?
Nem vinte. Nem vinte! No; falso tudo, tudo mentira.

Custdio tirou o leno, alisou o chapu devagarinho; depois
guardou o leno, concertou a gravata, com um ar misto de esperana e despeito.
Viera cerceando as asas  ambio, pluma a pluma; restava ainda uma penugem
curta e fina, que lhe metia umas veleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz
Nunes cotejava o relgio de parede com o do bolso, chegava este ao ouvido,
limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impacincia e
fastio. Estavam a pingar as cinco; deram, enfim, e o tabelio, que as esperava,
desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o
palet de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de
rap, o leno, a carteira... Oh! a carteira! Custdio viu esse utenslio
problemtico, apalpou-o com os olhos, invejou a alpaca, invejou a casimira,
quis ser algibeira, quis ser o couro, a matria mesma do precioso receptculo.
L vai ela; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabelio
abotoou-se. Nem vinte mil-ris! Era impossvel que no levasse ali vinte
mil-ris, pensava ele; no diria duzentos, mas vinte, dez que fossem...

 Pronto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapu na cabea.

Era o fatal instante. Nenhuma palavra do tabelio, um
convite ao menos, para jantar; nada; findara tudo. Mas os momentos supremos
pedem energias supremas. Custdio sentiu toda a fora deste lugar-comum, e,
sbito, como um tiro, perguntou ao tabelio se no lhe podia dar ao menos dez
mil-ris.

 Quer ver?

E o tabelio desabotoou o palet, tirou a carteira,
abriu-a, e mostrou-lhe duas notas de cinco mil-ris.

 No tenho mais, disse ele; o que posso fazer 
reparti-los com o senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?

Custdio aceitou os cinco mil-ris, no triste, ou de m
cara, mas risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a sia Menor. Era o
jantar certo. Estendeu a mo ao outro, agradeceu-lhe o obsquio, despediu-se
at breve,  um at breve cheio de afirmaes implcitas. Depois saiu; o
pedinte esvaiu-se  porta do cartrio; o general  que foi por ali abaixo,
pisando rijo, encarando fraternalmente os ingleses do comrcio que subiam a rua
para se transportarem aos arrabaldes. Nunca o cu lhe pareceu to azul, nem a
tarde to lmpida; todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade.
Com a mo esquerda no bolso das calas, ele apertava amorosamente os cinco
mil-ris, resduo de uma grande ambio, que ainda h pouco sara contra o sol,
num mpeto de guia, e ora habita modestamente as asas de frango rasteiro.

A SERENSSIMA REPBLICA

(Conferncia
do Cnego Vargas)

Meus senhores,

Antes de comunicar-vos uma descoberta, que reputo de algum
lustre para o nosso pas, deixai que vos agradea a prontido com que acudistes
ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas no ignoro
tambm,  e fora ingratido ignor-lo,  que um pouco de simpatia pessoal se
mistura  vossa legtima curiosidade cientfica. Oxal possa eu corresponder a
ambas.

Minha descoberta no  recente; data do fim do ano de
1876. No a divulguei ento,  e, a no ser o Globo, interessante dirio
desta capital, no a divulgaria ainda agora,  por uma razo que achar fcil
entrada no vosso esprito. Esta obra de que venho falar-vos, carece de retoques
ltimos, de verificaes e experincias complementares. Mas o Globo
noticiou que um sbio ingls descobriu a linguagem fnica dos insetos, e cita o
estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas
com ansiedade. Sendo certo, porm, que pela navegao area, invento do padre
Bartolomeu,  glorificado o nome estrangeiro, enquanto o do nosso patrcio mal
se pode dizer lembrado dos seus naturais, determinei evitar a sorte do insigne
Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som,  face do universo, que
muito antes daquele sbio, e fora das ilhas britnicas, um modesto naturalista
descobriu coisa idntica, e fez com ela obra superior.

Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a
Aristteles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar regmen social s
aranhas? Aristteles responderia negativamente, como vs todos, porque 
impossvel crer que jamais se chegasse a organizar socialmente esse articulado
arisco, solitrio, apenas disposto ao trabalho, e dificilmente ao amor. Pois
bem, esse impossvel fi-lo eu.

Ouo um riso, no meio do sussurro de curiosidade.
Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior,
justamente porque no a conheceis. Amais o co, prezais o gato e a galinha, e
no advertis que a aranha no pula nem ladra como o co, no mia como o gato,
no cacareja como a galinha, no zune nem morde como o mosquito, no nos leva o
sangue e o sono como a pulga. Todos esses bichos so o modelo acabado da
vadiao e do parasitismo. A mesma formiga, to gabada por certas qualidades
boas, d no nosso acar e nas nossas plantaes, e funda a sua propriedade
roubando a alheia. A aranha, senhores, no nos aflige nem defrauda; apanha as
moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de
pacincia, de ordem, de previso, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus
talentos, no h duas opinies. Desde Plnio at Darwin, os naturalistas do
mundo inteiro formam um s coro de admirao em torno desse bichinho, cuja
maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso criado destri em menos de um
minuto. Eu repetiria agora esses juzos, se me sobrasse tempo; a matria,
porm, excede o prazo, sou constrangido a abrevi-la. Tenho-os aqui, no todos,
mas quase todos; tenho, entre eles, esta excelente monografia de Bchner, que
com tanta sutileza estudou a vida psquica dos animais. Citando Darwin e
Bchner,  claro que me restrinjo  homenagem cabida a dois sbios de primeira
ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as teorias
gratuitas e errneas do materialismo.

Sim, senhores, descobri uma espcie araneida que dispe do
uso da fala; coligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organizei-os
socialmente. O primeiro exemplar dessa aranha maravilhosa apareceu-me no dia 15
de dezembro de 1876. Era to vasta, to colorida, dorso rubro, com listras
azuis, transversais, to rpida nos movimentos, e s vezes to alegre, que de
todo me cativou a ateno. No dia seguinte vieram mais trs, e as quatro
tomaram posse de um recanto de minha chcara. Estudei-as longamente; achei-as
admirveis. Nada, porm, se pode comparar ao pasmo que me causou a descoberta
do idioma araneida, uma lngua, senhores, nada menos que uma lngua rica e
variada, com a sua estrutura sinttica, os seus verbos, conjugaes,
declinaes, casos latinos e formas onomatopaicas, uma lngua que estou
gramaticando para uso das academias, como o fiz sumariamente para meu prprio
uso. E fi-lo, notai bem, vencendo dificuldades asprrimas com uma pacincia
extraordinria. Vinte vezes desanimei; mas o amor da cincia dava-me foras
para arremeter a um trabalho, que hoje declaro, no chegaria a ser feito duas
vezes na vida do mesmo homem.

Guardo para outro recinto a descrio tcnica do meu
aracndeo, e a anlise da lngua. O objeto desta conferncia , como disse,
ressalvar os direitos da cincia brasileira, por meio de um protesto em tempo;
e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior  do sbio
de Inglaterra. Devo demonstr-lo, e para este ponto chamo a vossa ateno.

Dentro de um ms tinha comigo vinte aranhas; no ms
seguinte cinqenta e cinco; em maro de 1877 contava quatrocentas e noventa.
Duas foras serviram principalmente  empresa de as congregar:  o emprego da
lngua delas, desde que pude discerni-la um pouco, e o sentimento de terror que
lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma,
fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde ento adoraram-me. E
vede o benefcio desta iluso. Como as acompanhasse com muita ateno e
miudeza, lanando em um livro as observaes que fazia, cuidaram que o livro
era o registro dos seus pecados, e fortaleceram-me ainda mais na prtica das
virtudes. A flauta tambm foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber,
elas so doidas por msica.

No bastava associ-las; era preciso dar-lhes um governo
idneo. Hesitei na escolha; muitos dos atuais pareciam-me bons, alguns
excelentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma forma
vigente de governo ficava exposta a comparaes que poderiam amesquinh-la. Era-me
preciso, ou achar uma forma nova, ou restaurar alguma outra abandonada.
Naturalmente adotei o segundo alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que
uma repblica,  maneira de Veneza, o mesmo molde, e at o mesmo epteto.
Obsoleto, sem nenhuma analogia, em suas feies gerais, com qualquer outro
governo vivo, cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado,  o que
era meter  prova as aptides polticas da jovem sociedade.

Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os
diferentes modos eleitorais da antiga Veneza, figurava o do saco e bolas,
iniciao dos filhos da nobreza no servio do Estado. Metiam-se as bolas com os
nomes dos candidatos no saco, e extraa-se anualmente um certo nmero, ficando
os eleitos desde logo aptos para as carreiras pblicas. Este sistema far rir
aos doutores do sufrgio; a mim no. Ele exclui os desvarios da paixo, os
desazos da inpcia, o congresso da corrupo e da cobia. Mas no foi s por
isso que o aceitei; tratando-se de um povo to exmio na fiao de suas teias,
o uso do saco eleitoral era de fcil adaptao, quase uma planta indgena.

A proposta foi aceita. Serenssima Repblica pareceu-lhes
um ttulo magnfico, roagante, expansivo, prprio a engrandecer a obra
popular.

No direi, senhores, que a obra chegou  perfeio, nem
que l chegue to cedo. Os meus pupilos no so os solrios de Campanela ou os
utopistas de Morus; formam um povo recente, que no pode trepar de um salto ao
cume das naes seculares. Nem o tempo  operrio que ceda a outro a lima ou o
alvio; ele far mais e melhor do que as teorias do papel, vlidas no papel e
mancas na prtica. O que posso afirmar-vos  que, no obstante as incertezas da
idade, eles caminham, dispondo de algumas virtudes, que presumo, essenciais 
durao de um Estado. Uma delas, como j disse,  a perseverana, uma longa
pacincia de Penlope, segundo vou mostrar-vos.

Com efeito, desde que compreenderam que no ato eleitoral
estava a base da vida pblica, trataram de o exercer com a maior ateno. O
fabrico do saco foi uma obra nacional. Era um saco de cinco polegadas de altura
e trs de largura, tecido com os melhores fios, obra slida e espessa. Para
comp-lo foram aclamadas dez damas principais, que receberam o ttulo de mes
da repblica, alm de outros privilgios e foros. Uma obra-prima, podeis
cr-lo. O processo eleitoral  simples. As bolas recebem os nomes dos
candidatos, que provarem certas condies, e so escritas por um oficial
pblico, denominado das inscries. No dia da eleio, as bolas so metidas
no saco e tiradas pelo oficial das extraes, at perfazer o nmero dos
elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza, serve
aqui ao provimento de todos os cargos.

A eleio fez-se a princpio com muita regularidade; mas,
logo depois, um dos legisladores declarou que ela fora viciada, por terem
entrado no saco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assemblia
verificou a exatido da denncia, e decretou que o saco, at ali de trs
polegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do saco,
restringia-se o espao  fraude, era o mesmo que suprimi-la. Aconteceu, porm,
que na eleio seguinte, um candidato deixou de ser inscrito na competente
bola, no se sabe se por descuido ou inteno do oficial pblico. Este declarou
que no se lembrava de ter visto o ilustre candidato, mas acrescentou
nobremente que no era impossvel que ele lhe tivesse dado o nome; neste caso
no houve excluso, mas distrao. A assemblia, diante de um fenmeno
psicolgico inelutvel, como  a distrao, no pde castigar o oficial; mas,
considerando que a estreiteza do saco podia dar lugar a excluses odiosas,
revogou a lei anterior e restaurou as trs polegadas.

Nesse nterim, senhores, faleceu o primeiro magistrado, e
trs cidados apresentaram-se candidatos ao posto, mas s dois importantes,
Hazeroth e Magog, os prprios chefes do partido retilneo e do partido
curvilneo. Devo explicar-vos estas denominaes. Como eles so principalmente
gemetras,  a geometria que os divide em poltica. Uns entendem que a aranha
deve fazer as teias com fios retos,  o partido retilneo;  outros pensam, ao
contrrio, que as teias devem ser trabalhadas com fios curvos,   o partido
curvilneo. H ainda um terceiro partido, misto e central, com este postulado:
as teias devem ser urdidas de fios retos e fios curvos;  o partido
reto-curvilneo; e finalmente, uma quarta diviso poltica, o partido
anti-reto-curvilneo, que fez tbua rasa de todos os princpios litigantes, e
prope o uso de umas teias urdidas de ar, obra transparente e leve, em que no
h linhas de espcie alguma. Como a geometria apenas poderia dividi-los, sem
chegar a apaixon-los, adotaram uma simblica. Para uns, a linha reta exprime
os bons sentimentos, a justia, a probidade, a inteireza, a constncia, etc.,
ao passo que os sentimentos ruins ou inferiores, como a bajulao, a fraude, a
deslealdade, a perfdia, so perfeitamente curvos. Os adversrios respondem que
no, que a linha curva  a da virtude e do saber, porque  a expresso da
modstia e da humildade; ao contrrio, a ignorncia, a presuno, a toleima, a
parlapatice, so retas, duramente retas. O terceiro partido, menos anguloso,
menos exclusivista, desbastou a exagerao de uns e outros, combinou os
contrastes, e proclamou a simultaneidade das linhas como a exata cpia do mundo
fsico e moral. O quarto limita-se a negar tudo.

Nem Hazeroth nem Magog foram eleitos. As suas bolas saram
do saco,  verdade, mas foram inutilizadas, a do primeiro por faltar a primeira
letra do nome, a do segundo por lhe faltar a ltima. O nome restante e
triunfante era o de um argentrio ambicioso, poltico obscuro, que subiu logo 
poltrona ducal, com espanto geral da repblica. Mas os vencidos no se
contentaram de dormir sobre os louros do vencedor; requereram uma devassa. A
devassa mostrou que o oficial das inscries intencionalmente viciara a
ortografia de seus nomes. O oficial confessou o defeito e a inteno; mas
explicou-os dizendo que se tratava de uma simples elipse; delito, se o era,
puramente literrio. No sendo possvel perseguir ningum por defeitos de
ortografia ou figuras de retrica, pareceu acertado rever a lei. Nesse mesmo
dia ficou decretado que o saco seria feito de um tecido de malhas, atravs das
quais as bolas pudessem ser lidas pelo pblico, e, ipso facto, pelos
mesmos candidatos, que assim teriam tempo de corrigir as inscries.

Infelizmente, senhores, o comentrio da lei  a eterna
malcia. A mesma porta aberta  lealdade serviu  astcia de um certo Nabiga,
que se conchavou com o oficial das extraes, para haver um lugar na
assemblia. A vaga era uma, os candidatos trs; o oficial extraiu as bolas com
os olhos no cmplice, que s deixou de abanar negativamente a cabea, quando a
bola pegada foi a sua. No era preciso mais para condenar a idia das malhas. A
assemblia, com exemplar pacincia, restaurou o tecido espesso do regmen
anterior; mas, para evitar outras elipses, decretou a validao das bolas cuja
inscrio estivesse incorreta, uma vez que cinco pessoas jurassem ser o nome
inscrito o prprio nome do candidato.

Este novo estatuto deu lugar a um caso novo e imprevisto,
como ides ver. Tratou-se de eleger um coletor de esprtulas, funcionrio
encarregado de cobrar as rendas pblicas, sob a forma de esprtulas
voluntrias. Eram candidatos, entre outros, um certo Caneca e um certo
Nebraska. A bola extrada foi a de Nebraska. Estava errada,  certo, por lhe
faltar a ltima letra; mas, cinco testemunhas juraram, nos termos da lei, que o
eleito era o prprio e nico Nebraska da repblica. Tudo parecia findo, quando
o candidato Caneca requereu provar que a bola extrada no trazia o nome de
Nebraska, mas o dele. O juiz de paz deferiu ao peticionrio. Veio ento um
grande fillogo,  talvez o primeiro da repblica, alm de bom metafsico, e
no vulgar matemtico,  o qual provou a coisa nestes termos:

 Em primeiro lugar, disse ele, deveis notar que no 
fortuita a ausncia da ltima letra do nome Nebraska. Por que motivo foi ele
inscrito incompletamente? No se pode dizer que por fadiga ou amor da
brevidade, pois s falta a ltima letra, um simples a. Carncia de
espao? Tambm no; vede; h ainda espao para duas ou trs slabas. Logo, a falta
 intencional, e a inteno no pode ser outra seno chamar a ateno do leitor
para a letra k, ltima escrita, desamparada, solteira, sem sentido. Ora,
por um efeito mental, que nenhuma lei destruiu, a letra reproduz-se no crebro
de dois modos, a forma grfica e a forma snica; k e ca. O
defeito, pois, no nome escrito, chamando os olhos para a letra final, incrusta
desde logo no crebro esta primeira slaba: Ca. Isto posto, o movimento
natural do esprito  ler o nome todo; volta-se ao princpio,  inicial ne,
do nome Nebrask.  Cane.  Resta a slaba do meio, bras,
cuja reduo a esta outra slaba ca, ltima do nome Caneca,  a coisa
mais demonstrvel do mundo. E, todavia, no a demonstrarei, visto faltar-vos o
preparo necessrio ao entendimento da significao espiritual ou filosfica da
slaba, suas origens e efeitos, fases, modificaes, conseqncias lgicas e
sintxicas, dedutivas ou indutivas, simblicas e outras. Mas, suposta a
demonstrao, a fica a ltima prova, evidente, clara, da minha afirmao
primeira pela anexao da slaba ca s duas Cane, dando este nome
Caneca.

A lei emendou-se, senhores, ficando abolida a faculdade da
prova testemunhal e interpretativa dos textos, e introduzindo-se uma inovao,
o corte simultneo de meia polegada na altura e outra meia na largura do saco.
Esta emenda no evitou um pequeno abuso na eleio dos alcaides, e o saco foi
restitudo s dimenses primitivas, dando-se-lhe, todavia, a forma triangular.
Compreendeis que esta forma trazia consigo uma conseqncia: ficavam muitas
bolas no fundo. Da a mudana para a forma cilndrica; mais tarde deu-se-lhe o
aspecto de uma ampulheta, cujo inconveniente se reconheceu ser igual ao
tringulo, e ento adotou-se a forma de um crescente, etc. Muitos abusos,
descuidos e lacunas tendem a desaparecer, e o restante ter igual destino, no
inteiramente, decerto, pois a perfeio no  deste mundo, mas na medida e nos
termos do conselho de um dos mais circunspetos cidados da minha repblica,
Erasmus, cujo ltimo discurso sinto no poder dar-vos integralmente.
Encarregado de notificar a ltima resoluo legislativa s dez damas,
incumbidas de urdir o saco eleitoral, Erasmus contou-lhes a fbula de Penlope,
que fazia e desfazia a famosa teia,  espera do esposo Ulisses.

 Vs sois a Penlope da nossa repblica, disse ele ao
terminar; tendes a mesma castidade, pacincia e talentos. Refazei o saco,
amigas minhas, refazei o saco, at que Ulisses, cansado de dar s pernas, venha
tomar entre ns o lugar que lhe cabe. Ulisses  a Sapincia.

O ESPELHO

Esboo de
uma nova teoria da alma humana

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, vrias
questes de alta transcendncia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a
menor alterao aos espritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala
era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar
que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitaes e aventuras, e o cu,
em que as estrelas pestanejavam, atravs de uma atmosfera lmpida e sossegada,
estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafsicas,
resolvendo amigavelmente os mais rduos problemas do universo.

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que
falavam; mas, alm deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja esprtula no debate no passava de um ou outro resmungo de
aprovao. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e
cinqenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, no sem instruo, e,
ao que parece, astuto e custico. No discutia nunca; e defendia-se da
absteno com um paradoxo, dizendo que a discusso  a forma polida do instinto
batalhador, que jaz no homem, como uma herana bestial; e acrescentava que os
serafins e os querubins no controvertiam nada, e, alis, eram a perfeio
espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite,
contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era
capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

 Pensando bem, talvez o senhor tenha razo.

Vai seno quando, no meio da noite, sucedeu que este
casmurro usou da palavra, e no dois ou trs minutos, mas trinta ou quarenta. A
conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu
radicalmente os quatro amigos. Cada cabea, cada sentena; no s o acordo, mas
a mesma discusso, tornou-se difcil, seno impossvel, pela multiplicidade das
questes que se deduziram do tronco principal, e um pouco, talvez, pela
inconsistncia dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma
opinio,  uma conjetura, ao menos.

 Nem conjetura, nem opinio, redargiu ele; uma ou outra
pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu no discuto. Mas, se querem
ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a
mais clara demonstrao acerca da matria de que se trata. Em primeiro lugar,
no h uma s alma, h duas...

 Duas?

 Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas
almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para
dentro... Espantem-se  vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros,
tudo; no admito rplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A
alma exterior pode ser um esprito, um fluido, um homem, muitos homens, um
objeto, uma operao. H casos, por exemplo, em que um simples boto de camisa
 a alma exterior de uma pessoa;  e assim tambm a polca, o voltarete, um
livro, uma mquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Est claro
que o ofcio dessa segunda alma  transmitir a vida, como a primeira: as duas
completam o homem, que , metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma
das metades, perde naturalmente metade da existncia; e casos h, no raros, em
que a perda da alma exterior implica a da existncia inteira. Shylock, por
exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perd-los
equivalia a morrer. Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal;  um
punhal que me enterras no corao. Vejam bem esta frase; a perda dos
ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora,  preciso saber que a alma
exterior no  sempre a mesma...

 No?

 No, senhor; muda de natureza e de estado. No aludo a
certas almas absorventes, como a ptria, com a qual disse o Cames que morria,
e o poder, que foi a alma exterior de Csar e de Cromwell. So almas enrgicas
e exclusivas; mas h outras, embora enrgicas, de natureza mudvel. H
cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um
chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade,
suponhamos. Pela minha parte, conheo uma senhora,  na verdade, gentilssima,
 que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estao lrica
 a pera; cessando a estao, a alma exterior substitui-se por outra: um
concerto, um baile do Cassino, a Rua do Ouvidor, Petrpolis...

 Perdo; essa senhora quem ?

 Essa senhora  parenta do diabo, e tem o mesmo nome:
chama-se Legio... E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado
dessas trocas. No as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episdio de
que lhes falei. Um episdio dos meus vinte e cinco anos...

Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso
prometido, esqueceram a controvrsia. Santa curiosidade! tu no s s a alma da
civilizao, s tambm o pomo da concrdia, fruta divina, de outro sabor que
no aquele pomo da mitologia. A sala, at h pouco ruidosa de fsica e
metafsica,  agora um mar morto; todos os olhos esto no Jacobina, que
concerta a ponta do charuto, recolhendo as memrias. Eis aqui como ele comeou
a narrao:

 Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser
nomeado alferes da guarda nacional. No imaginam o acontecimento que isto foi
em nossa casa. Minha me ficou to orgulhosa! to contente! Chamava-me o seu
alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se
bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o
motivo no foi outro seno que o posto tinha muitos candidatos e que esses
perderam. Suponho tambm que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita:
nasceu da simples distino. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo,
e passaram a olhar-me de revs, durante algum tempo. Em compensao, tive
muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeao; e a prova  que todo o
fardamento me foi dado por amigos... Vai ento uma das minhas tias, D.
Marcolina, viva do Capito Peanha, que morava a muitas lguas da vila, num
stio escuso e solitrio, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e
levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que da a dias tornou  vila,
porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no stio, escreveu a minha me dizendo
que no me soltava antes de um ms, pelo menos. E abraava-me! Chamava-me
tambm o seu alferes. Achava-me um rapago bonito. Como era um tanto patusca,
chegou a confessar que tinha inveja da moa que houvesse de ser minha mulher.
Jurava que em toda a provncia no havia outro que me pusesse o p adiante. E
sempre alferes; era alferes para c, alferes para l, alferes a toda a hora. Eu
pedia-lhe que me chamasse Joozinho, como dantes; e ela abanava a cabea,
bradando que no, que era o senhor alferes. Um cunhado dela, irmo do finado
Peanha, que ali morava, no me chamava de outra maneira. Era o senhor
alferes, no por gracejo, mas a srio, e  vista dos escravos, que
naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o
primeiro servido. No imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia
Marcolina chegou ao ponto de mandar pr no meu quarto um grande espelho, obra
rica e magnfica, que destoava do resto da casa, cuja moblia era modesta e
simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da me,
que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. Joo VI. No
sei o que havia nisso de verdade; era a tradio. O espelho estava naturalmente
muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns
delfins esculpidos nos ngulos superiores da moldura, uns enfeites de
madreprola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

 Espelho grande?

 Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o
espelho estava na sala; era a melhor pea da casa. Mas no houve foras que a
demovessem do propsito; respondia que no fazia falta, que era s por algumas
semanas, e finalmente que o senhor alferes merecia muito mais. O certo  que
todas essas coisas, carinhos, atenes, obsquios, fizeram em mim uma
transformao, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou.
Imaginam, creio eu?

 No.

 O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas
naturezas equilibraram-se; mas no tardou que a primitiva cedesse  outra;
ficou-me uma parte mnima de humanidade. Aconteceu ento que a alma exterior,
que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moas, mudou de natureza, e
passou a ser a cortesia e os rapaps da casa, tudo o que me falava do posto,
nada do que me falava do homem. A nica parte do cidado que ficou comigo foi
aquela que entendia com o exerccio da patente; a outra dispersou-se no ar e no
passado. Custa-lhes acreditar, no?

 Custa-me at entender, respondeu um dos ouvintes.

 Vai entender. Os fatos explicaro melhor os sentimentos:
os fatos so tudo. A melhor definio do amor no vale um beijo de moa
namorada; e, se bem me lembro, um filsofo antigo demonstrou o movimento andando.
Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a conscincia do homem se
obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as
alegrias humanas, se eram s isso, mal obtinham de mim uma compaixo aptica ou
um sorriso de favor. No fim de trs semanas, era outro, totalmente outro. Era
exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notcia grave;
uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco lguas,
estava mal e  morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era me extremosa, armou
logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta
do stio. Creio que, se no fosse a aflio, disporia o contrrio; deixaria o
cunhado, e iria comigo. Mas o certo  que fiquei s, com os poucos escravos da
casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opresso, alguma coisa
semelhante ao efeito de quatro paredes de um crcere, subitamente levantadas em
torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a
alguns espritos boais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida
fosse menos intensa, e a conscincia mais dbil. Os escravos punham uma nota de
humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeio dos
parentes e a intimidade domstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que
eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nh alferes de minuto a
minuto. Nh alferes  muito bonito; nh alferes h de ser coronel; nh alferes
h de casar com moa bonita, filha de general; um concerto de louvores e
profecias, que me deixou exttico. Ah! prfidos! mal podia eu suspeitar a
inteno secreta dos malvados.

 Mat-lo?

 Antes assim fosse.

 Coisa pior?

 Ouam-me. Na manh seguinte achei-me s. Os velhacos,
seduzidos por outros, ou de movimento prprio, tinham resolvido fugir durante a
noite; e assim fizeram. Achei-me s, sem mais ningum, entre quatro paredes,
diante do terreiro deserto e da roa abandonada. Nenhum flego humano. Corri a
casa toda, a senzala, tudo, nada, ningum, um molequinho que fosse. Galos e
galinhas to-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as
moscas, e trs bois. Os mesmos ces foram levados pelos escravos. Nenhum ente
humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. No por
medo; juro-lhes que no tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que no
senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado
 tia Marcolina; fiquei tambm um pouco perplexo, no sabendo se devia ir ter
com ela, para lhe dar a triste notcia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei
o segundo alvitre, para no desamparar a casa, e porque, se a minha prima
enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da me, sem remdio nenhum;
finalmente, esperei que o irmo do tio Peanha voltasse naquele dia ou no
outro, visto que tinha sado havia j trinta e seis horas. Mas a manh passou
sem vestgio dele; e  tarde comecei a sentir a sensao como de pessoa que
houvesse perdido toda a ao nervosa, e no tivesse conscincia da ao
muscular. O irmo do tio Peanha no voltou nesse dia, nem no outro, nem em
toda aquela semana. Minha solido tomou propores enormes. Nunca os dias foram
mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinao mais cansativa.
As horas batiam de sculo a sculo, no velho relgio da sala, cuja pndula, tic-tac,
tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contnuo da eternidade.
Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e
topei com este famoso estribilho: Never, for ever!  For ever, never!
confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era
justamente assim que fazia o relgio da tia Marcolina:  Never, for ever!
For ever, never! No eram golpes de pndula, era um dilogo do abismo,
um cochicho do nada. E ento de noite! No que a noite fosse mais silenciosa. O
silncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solido ainda
mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ningum nas salas, na
varanda, nos corredores, no terreiro, ningum em parte nenhuma... Riem-se?

 Sim, parece que tinha um pouco de medo.

 Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o
caracterstico daquela situao  que eu nem sequer podia ter medo, isto , o
medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensao inexplicvel. Era como um
defunto andando, um sonmbulo, um boneco mecnico. Dormindo, era outra coisa. O
sono dava-me alvio, no pela razo comum de ser irmo da morte, mas por outra.
Acho que posso explicar assim esse fenmeno:  o sono, eliminando a necessidade
de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me,
orgulhosamente, no meio da famlia e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que
me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de
tenente, outro o de capito ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando
acordava, dia claro, esvaa-se com o sono a conscincia do meu ser novo e
nico,  porque a alma interior perdia a ao exclusiva, e ficava dependente da
outra, que teimava em no tornar... No tornava. Eu saa fora, a um lado e
outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne,
ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como lenda francesa.
Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para
casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canap da sala. Tic-tac, tic-tac.
Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa
ocasio lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo poltico, um romance,
uma ode; no escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas
palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia
Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma.
Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

 Mas no comia?

 Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas razes
tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se no fora a terrvel
situao moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos,
liras de Gonzaga, oitavas de Cames, dcimas, uma antologia em trinta volumes.
s vezes fazia ginstica; outras dava belisces nas pernas; mas o efeito era s
uma sensao fsica de dor ou de cansao, e mais nada. Tudo silncio, um silncio
vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da
pndula. Tic-tac, tic-tac...

 Na verdade, era de enlouquecer.

 Vo ouvir coisa pior. Convm dizer-lhes que, desde que
ficara s, no olhara uma s vez para o espelho. No era absteno deliberada,
no tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois,
ao mesmo tempo, naquela casa solitria; e se tal explicao  verdadeira, nada
prova melhor a contradio humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta
de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei.
O prprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; no me estampou a
figura ntida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A
realidade das leis fsicas no permite negar que o espelho reproduziu-me
textualmente, com os mesmos contornos e feies; assim devia ter sido. Mas tal
no foi a minha sensao. Ento tive medo; atribu o fenmeno  excitao
nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer.  Vou-me embora,
disse comigo. E levantei o brao com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de
deciso, olhando para o vidro; o gesto l estava, mas disperso, esgaado,
mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo
a roupa com estrpito, afligindo-me a frio com os botes, para dizer alguma
coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a
mesma difuso de linhas, a mesma decomposio de contornos... Continuei a
vestir-me. Subitamente por uma inspirao inexplicvel, por um impulso sem
clculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idia...

 Diga.

 Estava a olhar para o vidro, com uma persistncia de
desesperado, contemplando as prprias feies derramadas e inacabadas, uma
nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... No, no so
capazes de adivinhar.

 Mas, diga, diga.

 Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me
de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... no lhes
digo nada; o vidro reproduziu ento a figura integral; nenhuma linha de menos,
nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma
exterior. Essa alma ausente com a dona do stio, dispersa e fugida com os
escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco,
emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois comea a ver, distingue as
pessoas dos objetos, mas no conhece individualmente uns nem outros; enfim,
sabe que este  Fulano, aquele  Sicrano; aqui est uma cadeira, ali um sof.
Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho,
ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia
tudo. No era mais um autmato, era um ente animado. Da em diante, fui outro.
Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do
espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, trs horas, despia-me outra
vez. Com este regmen pude atravessar mais seis dias de solido, sem os
sentir...

Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido
as escadas.

UMA VISITA DE ALCIBADES

CARTA DO DESEMBARGADOR X... AO
CHEFE DE POLCIA DA CORTE

Corte, 20 de setembro de 1875.

Desculpe V. Ex. o tremido da letra e o desgrenhado do
estilo; entend-los- daqui a pouco.

Hoje,  tardinha, acabado o jantar, enquanto esperava a
hora do Cassino, estirei-me no sof e abri um tomo de Plutarco. V. Ex., que
foi meu companheiro de estudos, h de lembrar-se que eu, desde rapaz, padeci
esta devoo do grego; devoo ou mania, que era o nome que V. Ex. lhe dava, e
to intensa que me ia fazendo reprovar em outras disciplinas. Abri o tomo, e
sucedeu o que sempre se d comigo quando leio alguma coisa antiga:
transporto-me ao tempo e ao meio da ao ou da obra. Depois de jantar 
excelente. Dentro de pouco acha-se a gente numa via romana, ao p de um prtico
grego ou na loja de um gramtico. Desaparecem os tempos modernos, a insurreio
da Herzegovina, a guerra dos carlistas, a Rua do Ouvidor, o circo Chiarini.
Quinze ou vinte minutos de vida antiga, e de graa. Uma verdadeira digesto
literria.

Foi o que se deu hoje. A pgina aberta acertou de ser a
vida de Alcibades. Deixei-me ir ao sabor da loqela tica; da a nada entrava
nos jogos olmpicos, admirava o mais guapo dos atenienses, guiando
magnificamente o carro, com a mesma firmeza e donaire com que sabia reger as
batalhas, os cidados e os prprios sentidos. Imagine V. Ex. se vivi! Mas, o
moleque entrou e acendeu o gs; no foi preciso mais para fazer voar toda a
arqueologia da minha imaginao. Atenas volveu  histria, enquanto os olhos me
caam das nuvens, isto , nas calas de brim branco, no palet de alpaca e nos
sapatos de cordovo. E ento refleti comigo:

 Que impresso daria ao ilustre ateniense o nosso
vesturio moderno?

Sou espiritista desde alguns meses. Convencido de que
todos os sistemas so puras niilidades, resolvi adotar o mais recreativo deles.
Tempo vir em que este no seja s recreativo, mas tambm til  soluo dos
problemas histricos;  mais sumrio evocar o esprito dos mortos, do que
gastar as foras crticas, e gast-las em pura perda, porque no h raciocnio
nem documento que nos explique melhor a inteno de um ato do que o prprio
autor do ato. E tal era o meu caso desta noite. Conjeturar qual fosse a
impresso de Alcibades era despender o tempo, sem outra vantagem, alm do
gosto de admirar a minha prpria habilidade. Determinei portanto, evocar o
ateniense; pedi-lhe que comparecesse em minha casa, logo, sem demora.

E aqui comea o extraordinrio da aventura. No se demorou
Alcibades em acudir ao chamado; dois minutos depois estava ali, na minha sala,
perto da parede; mas no era a sombra impalpvel que eu cuidara ter evocado
pelos mtodos da nossa escola; era o prprio Alcibades, carne e osso, vero
homem, grego autntico, trajado  antiga, cheio daquela gentileza e desgarre
com que usava arengar s grandes assemblias de Atenas, e tambm, um pouco, aos
seus pataus. V. Ex., to sabedor da histria, no ignora que tambm houve
pataus em Atenas; sim, Atenas tambm os possuiu, e esse precedente  uma
desculpa. Juro a V.Ex. que no acreditei; por mais fiel que fosse o testemunho
dos sentidos, no podia acabar de crer que tivesse ali, em minha casa, no a
sombra de Alcibades, mas o prprio Alcibades redivivo. Nutri ainda a
esperana de que tudo aquilo no fosse mais do que o efeito de uma digesto mal
rematada, um simples eflvio do quilo, atravs da luneta de Plutarco; e ento
esfreguei os olhos, fitei-os, e...

 Que me queres? perguntou ele.

Ao ouvir isto, arrepiaram-se-me as carnes. O vulto falava
e falava grego, o mais puro tico. Era ele, no havia duvidar que era ele
mesmo, um morto de vinte sculos, restitudo  vida, to cabalmente como se
viesse de cortar agora mesmo a famosa cauda do co. Era claro que, sem o
pensar, acabava eu de dar um grande passo na carreira do espiritismo; mas, ai
de mim! no o entendi logo, e deixei-me ficar assombrado. Ele repetiu a
pergunta, olhou em volta de si e sentou-se numa poltrona. Como eu estivesse
frio e trmulo (ainda o estou agora) ele que o percebeu, falou-me com muito
carinho, e tratou de rir e gracejar para o fim de devolver-me o sossego e a
confiana. Hbil como outrora! Que mais direi a V. Ex.? No fim de poucos
minutos conversvamos os dois, em grego antigo, ele repotreado e natural, eu
pedindo a todos os santos do cu a presena de um criado, de uma visita, de uma
patrulha, ou, se tanto fosse necessrio,  de um incndio.

Escusado  dizer a V. Ex. que abri mo da idia de o
consultar acerca do vesturio moderno; pedira um espectro, no um homem de
verdade, como dizem as crianas. Limitei-me a responder ao que ele queria;
pediu-me notcias de Atenas, dei-lhas; disse-lhe que ela era enfim a cabea de
uma s Grcia, narrei-lhe a dominao muulmana, a independncia, Botzaris, lord
Byron. O grande homem tinha os olhos pendurados da minha boca; e,
mostrando-me admirado de que os mortos lhe no houvessem contado nada,
explicou-me que  porta do outro mundo afrouxavam muito os interesses deste.
No vira Botzaris nem lord Byron,  em primeiro lugar, porque  tanta e
tantssima a multido de espritos, que estes se fazem naturalmente
desencontrados; em segundo lugar, porque eles l congregam-se, no por
nacionalidades ou outra ordem, seno por categorias de ndole, costume e
profisso: assim  que ele, Alcibades, anda no grupo dos polticos elegantes e
namorados, com o Duque de Buckingham, o Garrett, o nosso Maciel Monteiro, etc.
Em seguida pediu-me notcias atuais; relatei-lhe o que sabia, em resumo;
falei-lhe do parlamento helnico e do mtodo alternativo com que Bulgaris e
Comondouros, estadistas seus patrcios, imitam Disraeli e Gladstone,
revezando-se no poder, e, assim como estes, a golpes de discurso. Ele, que foi
um magnfico orador, interrompeu-me:

 Bravo, atenienses!

Se entro nestas mincias  para o fim de nada omitir do
que possa dar a V. Ex. o conhecimento exato do extraordinrio caso que lhe vou
narrando. J disse que Alcibades escutava-me com avidez; acrescentarei que era
esperto e arguto; entendia as coisas sem largo dispndio de palavras. Era tambm
sarcstico; ao menos assim me pareceu em um ou dois pontos da nossa
conversao; mas no geral dela mostrava-se simples, atento, correto, sensvel e
digno. E gamenho, note V. Ex., to gamenho como outrora; olhava de soslaio
para o espelho, como fazem as nossas e outras damas deste sculo, mirava os
borzeguins, compunha o manto, no saa de certas atitudes esculturais.

 V, continua, dizia-me ele, quando eu parava de lhe dar
notcias.

Mas eu no podia mais. Entrado no inextricvel, no
maravilhoso, achava tudo possvel, no atinava por que razo, assim, como ele
vinha ter comigo ao tempo, no iria eu ter com ele  eternidade. Esta idia
gelou-me. Para um homem que acabou de digerir o jantar e aguarda a hora do
Cassino, a morte  o ltimo dos sarcasmos.

Se pudesses fugir... Animei-me: disse-lhe que ia a um
baile.

 Um baile? Que coisa  um baile?

Expliquei-lho.

 Ah! ver danar a prrica!

 No, emendei eu, a prrica j l vai. Cada sculo, meu
caro Alcibades, muda de danas como muda de idias. Ns j no danamos as
mesmas coisas do sculo passado; provavelmente o sculo XX no danar as
deste. A prrica foi-se, como os homens de Plutarco e os numes de Hesodo.

 Com os numes?

Repeti-lhe que sim, que o paganismo acabara, que as
academias do sculo passado ainda lhe deram abrigo, mas sem convico, nem
alma, que as mesmas bebedeiras arcdicas,

Evoh! padre
Bassaru!

Evoh! etc.

honesto passatempo de alguns desembargadores pacatos,
essas mesmas estavam curadas, radicalmente curadas. De longe em longe,
acrescentei, um ou outro poeta, um ou outro prosador alude aos restos da
teogonia pag, mas s o faz por gala ou brinco, ao passo que a cincia reduziu
todo o Olimpo a uma simblica. Morto, tudo morto.

 Morto Zeus?

 Morto.

 Dionisos, Afrodita?...

 Tudo morto.

O homem de Plutarco levantou-se, andou um pouco, contendo
a indignao, como se dissesse consigo, imitando o outro:  Ah! se l estou com
os meus atenienses!  Zeus, Dionisos, Afrodita... murmurava de quando em
quando. Lembrou-me ento que ele fora uma vez acusado de desacato aos deuses e
perguntei a mim mesmo donde vinha aquela indignao pstuma, e naturalmente
postia. Esquecia-me,  um devoto do grego!  esquecia-me que ele era tambm um
refinado hipcrita, um ilustre dissimulado. E quase no tive tempo de fazer
esse reparo, porque Alcibades, detendo-se repentinamente declarou-me que iria
ao baile comigo.

 Ao baile? repeti atnito.

 Ao baile, vamos ao baile.

Fiquei aterrado, disse-lhe que no, que no era possvel,
que no o admitiriam, com aquele trajo; pareceria doido; salvo se ele queria ir
l representar alguma comdia de Aristfanes, acrescentei rindo, para disfarar
o medo. O que eu queria era deix-lo, entregar-lhe a casa, e uma vez na rua,
no iria ao Cassino, iria ter com V. Ex.. Mas o diabo do homem no se movia;
escutava-me com os olhos no cho, pensativo, deliberante. Calei-me; cheguei a
cuidar que o pesadelo ia acabar, que o vulto ia desfazer-se, e que eu ficava
ali com as minhas calas, os meus sapatos e o meu sculo.

 Quero ir ao baile, repetiu ele. J agora no vou sem
comparar as danas.

 Meu caro Alcibades, no acho prudente um tal desejo. Eu
teria certamente a maior honra, um grande desvanecimento em fazer entrar no
Cassino, o mais gentil, o mais feiticeiro dos atenienses; mas os outros homens
de hoje, os rapazes, as moas, os velhos...  impossvel.

 Por qu?

 J disse; imaginaro que s um doido ou um comediante,
porque essa roupa...

 Que tem? A roupa muda-se. Irei  maneira do sculo. No
tens alguma roupa que me emprestes?

Ia a dizer que no; mas ocorreu-me logo que o mais urgente
era sair, e que uma vez na rua, sobravam-me recursos para escapar-lhe, e ento
disse-lhe que sim.

 Pois bem, tornou ele levantando-se, irei  maneira do
sculo. S peo que te vistas primeiro, para eu aprender e imitar-te depois.

Levantei-me tambm, e pedi-lhe que me acompanhasse. No se
moveu logo; estava assombrado. Vi que s ento reparara nas minhas calas
brancas; olhava para elas com os olhos arregalados, a boca aberta; enfim,
perguntou por que motivo trazia aqueles canudos de pano. Respondi que por maior
comodidade; acrescentei que o nosso sculo, mais recatado e til do que
artista, determinara trajar de um modo compatvel com o seu decoro e gravidade.
Demais nem todos seriam Alcibades. Creio que o lisonjeei com isto; ele sorriu
e deu de ombros.

 Enfim!

Seguimos para o meu quarto de vestir, e comecei a mudar de
roupa, s pressas. Alcibades sentou-se molemente num div, no sem elogi-lo,
no sem elogiar o espelho, a palhinha, os quadros.  Eu vestia-me, como digo,
s pressas, ansioso por sair  rua, por meter-me no primeiro tlburi que passasse...

 Canudos pretos! exclamou ele.

Eram as calas pretas que eu acabava de vestir. Exclamou e
riu, um risinho em que o espanto vinha mesclado de escrnio, o que ofendeu
grandemente o meu melindre de homem moderno. Porque, note V. Ex., ainda que o
nosso tempo nos parea digno de crtica, e at de execrao, no gostamos de
que um antigo venha mofar dele s nossas barbas. No respondi ao ateniense;
franzi um pouco o sobrolho e continuei a abotoar os suspensrios. Ele
perguntou-me ento por que motivo usava uma cor to feia...

 Feia, mas sria, disse-lhe. Olha, entretanto, a graa do
corte, v como cai sobre o sapato, que  de verniz, embora preto, e trabalhado
com muita perfeio.

E vendo que ele abanava a cabea:

 Meu caro, disse-lhe, tu podes certamente exigir que o
Jpiter Olmpico seja o emblema eterno da majestade:  o domnio da arte ideal,
desinteressada, superior aos tempos que passam e aos homens que os acompanham.
Mas a arte de vestir  outra cousa. Isto que parece absurdo ou desgracioso 
perfeitamente racional e belo,  belo  nossa maneira, que no andamos a ouvir
na rua os rapsodos recitando os seus versos, nem os oradores os seus discursos,
nem os filsofos as suas filosofias. Tu mesmo, se te acostumares a ver-nos,
acabars por gostar de ns, porque...

 Desgraado! bradou ele atirando-se a mim.

Antes de entender a causa do grito e do gesto, fiquei sem
pinga de sangue. A causa era uma iluso. Como eu passasse a gravata  volta do
pescoo e tratasse de dar o lao, Alcibades sups que ia enforcar-me, segundo
confessou depois. E, na verdade, estava plido, trmulo, em suores frios. Agora
quem se riu fui eu. Ri-me, e expliquei-lhe o uso da gravata, e notei que era
branca, no preta, posto usssemos tambm gravatas pretas. S depois de tudo
isso explicado  que ele consentiu em restituir-ma. Atei-a enfim, depois vesti
o colete.

 Por Afrodita! exclamou ele. s a coisa mais singular que
jamais vi na vida e na morte. Ests todo cor da noite  uma noite com trs
estrelas apenas  continuou apontando para os botes do peito. O mundo deve
andar imensamente melanclico, se escolheu para uso uma cor to morta e to
triste. Ns ramos mais alegres; vivamos...

No pde concluir a frase; eu acabava de enfiar a casaca,
e a consternao do ateniense foi indescritvel. Caram-lhe os braos, ficou
sufocado, no podia articular nada, tinha os olhos cravados em mim, grandes,
abertos. Creia V. Ex. que fiquei com medo, e tratei de apressar ainda mais a
sada.

 Ests completo? perguntou-me ele.

 No: falta o chapu.

 Oh! venha alguma coisa que possa corrigir o resto!
tornou Alcibades com voz suplicante. Venha, venha. Assim pois, toda a elegncia
que vos legamos est reduzida a um par de canudos fechados e outro par de
canudos abertos (e dizia isto levantando-me as abas da casaca), e tudo dessa
cor enfadonha e negativa? No, no posso cr-lo! Venha alguma coisa que corrija
isso. O que  que falta, dizes tu?

 O chapu.

 Pe o que te falta, meu caro, pe o que te falta.

Obedeci; fui dali ao cabide, despendurei o chapu, e pu-lo
na cabea. Alcibades olhou para mim, cambaleou e caiu. Corri ao ilustre
ateniense, para levant-lo, mas (com dor o digo) era tarde; estava morto, morto
pela segunda vez. Rogo a V. Ex. se digne de expedir suas respeitveis ordens
para que o cadver seja transportado ao necrotrio, e se proceda ao corpo de
delito, relevando de no ir pessoalmente  casa de V. Ex. agora mesmo (dez da
noite) em ateno ao profundo abalo por que acabo de passar, o que alis farei
amanh de manh, antes das oito.

VERBA TESTAMENTRIA

... Item,  minha ltima vontade que o caixo em que o
meu corpo houver de ser enterrado, seja fabricado em casa de Joaquim Soares, 
Rua da Alfndega. Desejo que ele tenha conhecimento desta disposio, que
tambm ser pblica. Joaquim Soares no me conhece; mas  digno da distino,
por ser dos nossos melhores artistas, e um dos homens mais honrados da nossa
terra...

Cumpriu-se  risca esta verba testamentria. Joaquim
Soares fez o caixo em que foi metido o corpo do pobre Nicolau B. de C.;
fabricou-o ele mesmo, con amore; e, no fim, por um movimento cordial, pediu
licena para no receber nenhuma remunerao. Estava pago; o favor do defunto
era em si mesmo um prmio insigne. S desejava uma coisa: a cpia autntica da
verba. Deram-lha; ele mandou-a encaixilhar e pendurar de um prego, na loja. Os
outros fabricantes de caixes, passado o assombro, clamaram que o testamento
era um despropsito. Felizmente,  e esta  uma das vantagens do estado social,
 felizmente, todas as demais classes acharam que aquela mo, saindo do abismo
para abenoar a obra de um operrio modesto, praticara uma ao rara e
magnnima. Era em 1855; a populao estava mais conchegada; no se falou de
outra coisa. O nome do Nicolau reboou por muitos dias na imprensa da corte,
donde passou  das provncias. Mas a vida universal  to variada, os sucessos
acumulam-se em tanta multido, e com tal presteza, e, finalmente, a memria dos
homens  to frgil, que um dia chegou em que a ao de Nicolau mergulhou de
todo no olvido.

No venho restaur-la. Esquecer  uma necessidade. A vida
 uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o
caso escrito. Obra de lpis e esponja. No, no venho restaur-la. H milhares
de aes to bonitas, ou ainda mais bonitas do que a do Nicolau, e comidas do
esquecimento. Venho dizer que a verba testamentria no  um efeito sem causa;
venho mostrar uma das maiores curiosidades mrbidas deste sculo.

Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse
menino que a vs, nos fins do sculo passado (em 1855, quando morreu, tinha o
Nicolau sessenta e oito anos), esse menino no  um produto so, no  um
organismo perfeito. Ao contrrio, desde os mais tenros anos, manifestou por
atos reiterados que h nele algum vcio interior, alguma falha orgnica. No se
pode explicar de outro modo a obstinao com que ele corre a destruir os
brinquedos dos outros meninos, no digo os que so iguais aos dele, ou ainda
inferiores, mas os que so melhores ou mais ricos. Menos ainda se compreende
que, nos casos em que o brinquedo  nico, ou somente raro, o jovem Nicolau
console a vtima com dois ou trs pontaps; nunca menos de um. Tudo isso 
obscuro. Culpa do pai no pode ser. O pai era um honrado negociante ou
comissrio (a maior parte das pessoas a que aqui se d o nome de comerciantes,
dizia o marqus de Lavradio, nada mais so que uns simples comissrios), que
viveu com certo luzimento, no ltimo quartel do sculo, homem rspido, austero,
que admoestava o filho, e, sendo necessrio, castigava-o. Mas nem admoestaes,
nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que
todos os bastes paternos; e, uma ou duas vezes por semana, o pequeno reincidia
no mesmo delito. Os desgostos da famlia eram profundos. Deu-se mesmo um caso,
que, por suas gravssimas conseqncias, merece ser contado.

O vice-rei, que era ento o Conde de Resende, andava
preocupado com a necessidade de construir um cais na Praia de D. Manuel. Isto,
que seria hoje um simples episdio municipal, era naquele tempo, atentas as
propores escassas da cidade, uma empresa importante. Mas o vice-rei no tinha
recursos; o cofre pblico mal podia acudir s urgncias ordinrias. Homem de
estado, e provavelmente filsofo, engendrou um expediente no menos suave que
profcuo: distribuir, a troco de donativos pecunirios, postos de capito,
tenente e alferes. Divulgada a resoluo, entendeu o pai do Nicolau que era
ocasio de figurar, sem perigo, na galeria militar do sculo, ao mesmo tempo
que desmentia uma doutrina bramnica. Com efeito, est nas leis de Manu, que
dos braos de Brama nasceram os guerreiros, e do ventre os agricultores e
comerciantes; o pai do Nicolau, adquirindo o despacho de capito, corrigia esse
ponto da anatomia gentlica. Outro comerciante, que com ele competia em tudo,
embora familiares e amigos, apenas teve notcia do despacho, foi tambm levar a
sua pedra ao cais. Desgraadamente, o despeito de ter ficado atrs alguns dias,
sugeriu-lhe um arbtrio de mau gosto e, no nosso caso, funesto; foi assim que
ele pediu ao vice-rei outro posto de oficial do cais (tal era o nome dado aos
agraciados por aquele motivo) para um filho de sete anos. O vice-rei hesitou;
mas o pretendente, alm de duplicar o donativo, meteu grandes empenhos, e o
menino saiu nomeado alferes. Tudo correu em segredo; o pai de Nicolau s teve
notcia do caso no domingo prximo, na igreja do Carmo, ao ver os dois, pai e
filho, vindo o menino com uma fardinha que, por galanteria, lhe meteram no
corpo. Nicolau, que tambm ali estava, fez-se lvido; depois, num mpeto,
atirou-se sobre o jovem alferes e rasgou-lhe a farda, antes que os pais
pudessem acudir. Um escndalo. O rebulio do povo, a indignao dos devotos, as
queixas do agredido, interromperam por alguns instantes as cerimnias
eclesisticas. Os pais trocaram algumas palavras acerbas, fora, no adro, e
ficaram brigados para todo o sempre.

 Este rapaz h de ser a nossa desgraa! bradava o pai de
Nicolau, em casa, depois do episdio.

Nicolau apanhou ento muita pancada, curtiu muita dor,
chorou, soluou; mas de emenda coisa nenhuma. Os brinquedos dos outros meninos
no ficaram menos expostos. O mesmo passou a acontecer s roupas. Os meninos
mais ricos do bairro no saam fora seno com as mais modestas vestimentas
caseiras, nico modo de escapar s unhas de Nicolau. Com o andar do tempo, estendeu
ele a averso s prprias caras, quando eram bonitas, ou tidas como tais. A rua
em que ele residia, contava um sem-nmero de caras quebradas, arranhadas,
conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu tranc-lo em
casa durante uns trs ou quatro meses. Foi um paliativo, e, como tal,
excelente. Enquanto durou a recluso, Nicolau mostrou-se nada menos que
anglico; fora daquele sestro mrbido, era meigo, dcil, obediente, amigo da
famlia, pontual nas rezas. No fim dos quatro meses, o pai soltou-o; era tempo
de o meter com um professor de leitura e gramtica.

 Deixe-o comigo, disse o professor; deixe-o comigo, e com
esta (apontava para a palmatria)... Com esta,  duvidoso que ele tenha vontade
de maltratar os companheiros.

Frvolo! trs vezes frvolo professor! Sim, no h dvida,
que ele conseguiu poupar os meninos bonitos e as roupas vistosas, castigando as
primeiras investidas do pobre Nicolau; mas em que  que este sarou da molstia?
Ao contrrio, obrigado a conter-se, a engolir o impulso, padecia dobrado,
fazia-se mais lvido, com reflexos de verde bronze; em certos casos, era
compelido a voltar os olhos ou fech-los, para no arrebentar, dizia ele. Por
outro lado, se deixou de perseguir os mais graciosos ou melhor adornados, no
perdoou aos que se mostravam mais adiantados no estudo; espancava-os,
tirava-lhes os livros, e lanava-os fora, nas praias ou no mangue. Rixas,
sangue, dios, tais eram os frutos da vida, para ele, alm das dores cruis que
padecia, e que a famlia teimava em no entender. Se acrescentarmos que ele no
pde estudar nada seguidamente, mas a trancos, e mal, como os vagabundos comem,
nada fixo, nada metdico, teremos visto algumas das dolorosas conseqncias do
fato mrbido, oculto e desconhecido. O pai, que sonhava para o filho a
Universidade, vendo-se obrigado a estrangular mais essa iluso, esteve prestes
a amaldio-lo; foi a me que o salvou.

Saiu um sculo, entrou outro, sem desaparecer a leso do
Nicolau. Morreu-lhe o pai em 1807 e a me em 1809; a irm casou com um mdico
holands, treze meses depois. Nicolau passou a viver s. Tinha vinte e trs
anos; era um dos petimetres da cidade, mas um singular petimetre, que no podia
encarar nenhum outro, ou fosse mais gentil de feies, ou portador de algum
colete especial, sem padecer uma dor violenta, to violenta, que o obrigava s
vezes a trincar o beio at deitar sangue. Tinha ocasies de cambalear; outras
de escorrer-lhe pelo canto da boca um fio quase imperceptvel de espuma. E o
resto no era menos cruel. Nicolau ficava ento rspido; em casa achava tudo
mau, tudo incmodo, tudo nauseabundo; feria a cabea aos escravos com os
pratos, que iam partir-se tambm, e perseguia os ces, a pontaps; no
sossegava dez minutos, no comia, ou comia mal. Enfim dormia; e ainda bem que
dormia. O sono reparava tudo. Acordava lhano e meigo, alma de patriarca,
beijando os ces entre as orelhas, deixando-se lamber por eles, dando-lhes do
melhor que tinha, chamando aos escravos as coisas mais familiares e ternas. E tudo,
ces e escravos, esqueciam as pancadas da vspera, e acudiam s vozes dele
obedientes, namorados, como se este fosse o verdadeiro senhor, e no o outro.

Um dia, estando ele em casa da irm, perguntou-lhe esta
por que motivo no adotava uma carreira qualquer, alguma coisa em que se
ocupasse, e...

 Tens razo, vou ver, disse ele.

Interveio o cunhado e opinou por um emprego na diplomacia.
O cunhado principiava a desconfiar de alguma doena e supunha que a mudana de
clima bastava a restabelec-lo. Nicolau arranjou uma carta de apresentao, e
foi ter com o ministro de estrangeiros. Achou-o rodeado de alguns oficiais da
secretaria, prestes a ir ao pao, levar a notcia da segunda queda de Napoleo,
notcia que chegara alguns minutos antes. A figura do ministro, as
circunstncias do momento, as reverncias dos oficiais, tudo isso deu um tal
rebate ao corao de Nicolau, que ele no pde encarar o ministro. Teimou, seis
ou oito vezes, em levantar os olhos, e da nica em que o conseguiu,
fizeram-se-lhe to vesgos, que no via ningum, ou s uma sombra, um vulto, que
lhe doa nas pupilas, ao mesmo tempo que a face ia ficando verde. Nicolau
recuou, estendeu a mo trmula ao reposteiro, e fugiu.

 No quero ser nada! disse ele  irm, chegando  casa;
fico com vocs e os meus amigos.

Os amigos eram os rapazes mais antipticos da cidade,
vulgares e nfimos. Nicolau escolhera-os de propsito. Viver segregado dos
principais era para ele um grande sacrifcio; mas, como teria de padecer muito
mais vivendo com eles, tragava a situao. Isto prova que ele tinha um certo
conhecimento emprico do mal e do paliativo. A verdade  que, com esses
companheiros, desapareciam todas as perturbaes fisiolgicas do Nicolau. Ele
fitava-os sem lividez, sem olhos vesgos, sem cambalear, sem nada. Alm disso,
no s eles lhe poupavam a natural irritabilidade, como porfiavam em tornar-lhe
a vida, seno deliciosa, tranqila; e para isso, diziam-lhe as maiores finezas
do mundo, em atitudes cativas, ou com uma certa familiaridade inferior. Nicolau
amava em geral as naturezas subalternas, como os doentes amam a droga que lhes
restitui a sade; acariciava-as paternalmente, dava-lhes o louvor abundante e
cordial, emprestava-lhes dinheiro, distribua-lhes mimos, abria-lhes a alma...
Veio o grito do Ipiranga; Nicolau meteu-se na poltica. Em 1823 vamos ach-lo
na Constituinte. No h que dizer ao modo por que ele cumpriu os deveres do
cargo. ntegro, desinteressado, patriota, no exercia de graa essas virtudes pblicas,
mas  custa de muita tempestade moral. Pode-se dizer, metaforicamente, que a
freqncia da cmara custava-lhe sangue precioso. No era s porque os debates
lhe pareciam insuportveis, mas tambm porque lhe era difcil encarar certos
homens, especialmente em certos dias. Montezuma, por exemplo, parecia-lhe
balofo, Vergueiro, maudo, os Andradas, execrveis. Cada discurso, no s dos
principais oradores, mas dos secundrios, era para o Nicolau verdadeiro
suplcio. E, no obstante, firme, pontual. Nunca a votao o achou ausente;
nunca o nome dele soou sem eco pela augusta sala. Qualquer que fosse o seu
desespero, sabia conter-se e pr a idia da ptria acima do alvio prprio.
Talvez aplaudisse in petto o decreto da dissoluo. No afirmo; mas h
bons fundamentos para crer que o Nicolau, apesar das mostras exteriores, gostou
de ver dissolvida a assemblia. E se essa conjetura  verdadeira, no menos o
ser esta outra:  que a deportao de alguns dos chefes constituintes,
declarados inimigos pblicos, veio aguar-lhe aquele prazer. Nicolau, que
padecera com os discursos deles, no menos padeceu com o exlio, posto lhes
desse um certo relevo. Se ele tambm fosse exilado!

 Voc podia casar, mano, disse-lhe a irm.

 No tenho noiva.

 Arranjo-lhe uma. Valeu?

Era um plano do marido. Na opinio deste, a molstia do
Nicolau estava descoberta; era um verme do bao, que se nutria da dor do
paciente, isto , de uma secreo especial, produzida pela vista de alguns
fatos, situaes ou pessoas. A questo era matar o verme; mas, no conhecendo
nenhuma substncia qumica prpria a destru-lo, restava o recurso de obstar 
secreo, cuja ausncia daria igual resultado. Portanto, urgia casar o Nicolau,
com alguma moa bonita e prendada, separ-lo do povoado, met-lo em alguma
fazenda, para onde levaria a melhor baixela, os melhores trastes, os mais reles
amigos, etc.

 Todas as manhs, continuou ele, receber o Nicolau um
jornal que vou mandar imprimir com o nico fim de lhe dizer as coisas mais
agradveis do mundo, e diz-las nominalmente, recordando os seus modestos, mas
profcuos trabalhos da Constituinte, e atribuindo-lhe muitas aventuras
namoradas, agudezas de esprito, rasgos de coragem. J falei ao almirante
holands para consentir que, de quando em quando, v ter com Nicolau algum dos
nossos oficiais dizer-lhe que no podia voltar para a Haia sem a honra de
contemplar um cidado to eminente e simptico, em quem se renem qualidades
raras, e, de ordinrio, dispersas. Voc, se puder alcanar de alguma modista, a
Gudin, por exemplo, que ponha o nome de Nicolau em um chapu ou mantelete,
ajudar muito a cura de seu mano. Cartas amorosas annimas, enviadas pelo
correio, so um recurso eficaz... Mas comecemos pelo princpio, que  cas-lo.

Nunca um plano foi mais conscienciosamente executado. A
noiva escolhida era a mais esbelta, ou uma das mais esbeltas da capital.
Casou-os o prprio bispo. Recolhido  fazenda, foram com ele somente alguns de
seus mais triviais amigos; fez-se o jornal, mandaram-se as cartas, peitaram-se
as visitas. Durante trs meses tudo caminhou s mil maravilhas. Mas a natureza,
apostada em lograr o homem, mostrou ainda desta vez que ela possui segredos
inopinveis. Um dos meios de agradar ao Nicolau era elogiar a beleza, a
elegncia e as virtudes da mulher; mas a molstia caminhara, e o que parecia
remdio excelente foi simples agravao do mal. Nicolau, ao fim de certo tempo,
achava ociosos e excessivos tantos elogios  mulher, e bastava isto a
impacient-lo, e a impacincia a produzir-lhe a fatal secreo. Parece mesmo
que chegou ao ponto de no poder encar-la muito tempo, e a encar-la mal;
vieram algumas rixas, que seriam o princpio de uma separao, se ela no
morresse da a pouco. A dor do Nicolau foi profunda e verdadeira; mas a cura
interrompeu-se logo, porque ele desceu ao Rio de Janeiro, onde o vamos achar,
tempos depois, entre os revolucionrios de 1831.

Conquanto parea temerrio dizer as causas que levaram o
Nicolau para o Campo da Aclamao, na noite de 6 para 7 de abril, penso que no
estar longe da verdade quem supuser que  foi o raciocnio de um ateniense
clebre e annimo. Tanto os que diziam bem, como os que diziam mal do
imperador, tinham enchido as medidas ao Nicolau. Esse homem, que inspirava
entusiasmos e dios, cujo nome era repetido onde quer que o Nicolau estivesse,
na rua, no teatro, nas casas alheias, tornou-se uma verdadeira perseguio
mrbida, da o fervor com que ele meteu a mo no movimento de 1831. A abdicao
foi um alvio. Verdade  que a Regncia o achou dentro de pouco tempo entre os
seus adversrios; e h quem afirme que ele se filiou ao Partido Caramuru ou
Restaurador, posto no ficasse prova do ato. O que  certo  que a vida pblica
do Nicolau cessou com a Maioridade.

A doena apoderara-se definitivamente do organismo.
Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solido. No podia fazer certas
visitas, freqentar certas casas. O teatro mal chegava a distra-lo. Era to
melindroso o estado dos seus rgos auditivos, que o rudo dos aplausos
causava-lhe dores atrozes. O entusiasmo da populao fluminense para com a
famosa Candiani e a Mera, mas a Candiani principalmente, cujo carro puxaram
alguns braos humanos, obsquio tanto mais insigne quanto que o no fariam ao
prprio Plato, esse entusiasmo foi uma das maiores mortificaes do Nicolau.
Ele chegou ao ponto de no ir mais ao teatro, de achar a Candiani insuportvel,
e preferir a Norma dos realejos  da prima-dona. No era por exagerao
de patriota que ele gostava de ouvir o Joo Caetano, nos primeiros tempos; mas
afinal deixou-o tambm, e quase que inteiramente os teatros.

Est perdido! pensou o cunhado. Se pudssemos dar-lhe um
bao novo...

Como pensar em semelhante absurdo? Estava naturalmente
perdido. J no bastavam os recreios domsticos. As tarefas literrias a que se
deu, versos de famlia, glosas a prmio e odes polticas, no duraram muito
tempo, e pode ser at que lhe dobrassem o mal. De fato, um dia, pareceu-lhe que
essa ocupao era a coisa mais ridcula do mundo, e os aplausos ao Gonalves
Dias, por exemplo, deram-lhe idia de um povo trivial e de mau gosto. Esse
sentimento literrio, fruto de uma leso orgnica, reagiu sobre a mesma leso,
ao ponto de produzir graves crises, que o tiveram algum tempo na cama. O
cunhado aproveitou o momento para desterrar-lhe da casa todos os livros de
certo porte.

Explica-se menos o desalinho com que da a meses comeou a
vestir-se. Educado com hbitos de elegncia, era antigo fregus de um dos
principais alfaiates da Corte, o Plum, no passando um s dia em que no fosse
pentear-se ao Desmarais e Grard, coiffeurs de la cour,  Rua do
Ouvidor. Parece que achou enfatuada esta denominao de cabeleireiros do pao,
e castigou-os indo pentear-se a um barbeiro nfimo. Quanto ao motivo que o
levou a trocar de traje, repito que  inteiramente obscuro, e a no haver
sugesto da idade,  inexplicvel.

A despedida do cozinheiro  outro enigma. Nicolau, por
insinuao do cunhado, que o queria distrair, dava dois jantares por semana; e
os convivas eram unnimes em achar que o cozinheiro dele primava sobre todos os
da capital. Realmente os pratos eram bons, alguns timos, mas o elogio era um
tanto enftico, excessivo, para o fim justamente de ser agradvel ao Nicolau, e
assim aconteceu algum tempo. Como entender, porm, que um domingo, acabado o
jantar, que fora magnfico, despedisse ele um varo to insigne, causa indireta
de alguns dos seus mais deleitosos momentos na terra? Mistrio impenetrvel.

 Era um ladro! foi a resposta que ele deu ao cunhado.

Nem os esforos deste nem os da irm e dos amigos, nem os
bens, nada melhorou o nosso triste Nicolau. A secreo do bao tornou-se
perene, e o verme reproduziu-se aos milhes, teoria que no sei se 
verdadeira, mas enfim era a do cunhado. Os ltimos anos foram crudelssimos.
Quase se pode jurar que ele viveu ento continuamente verde, irritado, olhos
vesgos, padecendo consigo ainda muito mais do que fazia padecer aos outros. A
menor ou maior coisa triturava-lhe os nervos: um bom discurso, um artista
hbil, uma sege, uma gravata, um soneto, um dito, um sonho interessante, tudo
dava de si uma crise.

Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver
a impassibilidade com que rejeitou os remdios dos principais mdicos da corte;
foi necessrio recorrer  simulao, e d-los, enfim, como receitados por um
ignoranto do tempo. Mas era tarde. A morte levou-o ao cabo de duas semanas.

 Joaquim Soares? bradou atnito o cunhado, ao saber da
verba testamentria do defunto, ordenando que o caixo fosse fabricado por
aquele industrial. Mas os caixes desse sujeito no prestam para nada, e...

 Pacincia! interrompeu a mulher; a vontade do mano h de
cumprir-se.

NOTAS DO AUTOR

'Advertncia'

Deste modo, venha donde vier o reproche....

'O Alienista'

No ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche....

Cerca de dois anos para c, recebi duas cartas annimas,
escritas por pessoa inteligente e simptica, em que me foi notado o uso do
vocbulo reproche. No sabendo como responda ao meu estimvel
correspondente, aproveito esta ocasio.

Reproche no  galicismo. Nem reproche nem reprochar.
Morais cita, para o verbo, este trecho dos Ind., II, fl. 259: 'hum
non tinha que reprochar ao outro'; e aponta os lugares de Fernando
de Lucena, Nunes de Leo e D. Francisco Manuel de Melo, em que se encontra o
substantivo reproche. Os espanhis tambm os possuem.

Resta a questo de eufonia. Reproche no parece
malsoante. Tem contra si o desuso. Em todo caso, o vocbulo que lhe est mais
prximo no sentido, exprobrao, acho que  insuportvel. Da a minha
insistncia em preferir o outro, devendo notar-se que no o vou buscar para dar
ao estilo um verniz de estranheza, mas quando a idia o traz consigo.

'A Chinela Turca'

Este conto foi publicado, pela primeira vez, na poca
n 1, de 14 de novembro de 1875. Trazia o pseudnimo de Manasss, com
que assinei outros artigos daquela folha efmera. O redator principal era um
esprito eminente, que a poltica veio tomar s letras: Joaquim Nabuco. Posso
diz-lo sem indiscrio. ramos poucos e amigos. O programa era no ter
programa, como declarou o artigo inicial, ficando a cada redator plena
liberdade de opinio, pela qual respondia exclusivamente. O tom (feita a
natural reserva da parte de um colaborador) era elegante, literrio, tico. A
folha durou quatro nmeros.

O Segredo do Bonzo

Como se ter visto, no h aqui um simples pastiche,
nem esta imitao foi feita com o fim de provar foras, trabalho que, se fosse
s isso, teria bem pouco valor. Era-me preciso, para dar a possvel realidade 
inveno, coloc-la a distncia grande, no espao e no tempo; e para tornar a
narrao sincera, nada me pareceu melhor do que atribu-la ao viajante escritor
que tantas maravilhas disse. Para os curiosos acrescentarei que as palavras: Atrs
deixei narrado o que se passou nesta cidade Fuchu,  foram escritas com o
fim de supor o captulo intercalado nas Peregrinaes, entre os caps.
CCXIII e CCXIV.

O bonzo do meu escrito chama-se Pomada, e pomadistas os
seus sectrios. Pomada e pomadista so locues familiares da nossa
terra:  o nome local do charlato e do charlatanismo.

O Anel de Polcrates  Era um saco de espantos...

Em algumas linhas escritas para dar o ltimo adeus a Artur
de Oliveira, meu triste amigo, disse que era ele o original deste personagem.
Menos a vaidade, que no tinha, e salvo alguns rasgos mais acentuados, este
Xavier era o Artur. Para complet-lo darei aqui mesmo aquelas linhas impressas
na Estao de 31 de agosto ltimo:

Quem no tratou de perto este rapaz, morto a 21 do ms
corrente, mal poder entender a admirao e saudade que ele deixou.

Conheci-o desde que chegou do Rio Grande do Sul, com dezessete
ou dezoito anos de idade; e podem crer que era ento o que foi aos trinta. Aos
trinta lera muito, vivera muito; mas toda aquela pujana de esprito, todo esse
raro temperamento literrio que lhe admirvamos, veio com a flor da
adolescncia; desabrochara com os primeiros dias. Era a mesma torrente de
idias, a mesma fulgurao de imagens. H algumas semanas, em escrito que viu a
luz na Gazeta de Noticias, defini a alma de um personagem com esta
espcie de hebrasmo:  chamei-lhe um saco de espantos. Esse personagem (posso
agora diz-lo) era, em algumas partes, o nosso mesmo Artur, com a sua poderosa
loqela e extraordinria fantasia. Um saco de espantos. Mas, se o da minha
inveno morreu exausto de esprito, no aconteceu o mesmo a Artur de Oliveira,
que pde alguma vez ficar prostrado, mas no exauriu nunca a fora genial que
possua.

Um organismo daqueles era naturalmente irrequieto. Minas
o viu, pouco depois, no colgio dos padres do Caraa, comeando os estudos, que
interrompeu logo, para continu-los na Europa. Na Europa travou relaes
literrias de muito peso; Tefilo Gauthier, entre outros, queria-lhe muito,
apreciava-lhe a alta compreenso artstica, a natureza impetuosa e luminosa, os
deslumbramentos sbitos de raio. Venez, pre de la foudre! dizia-lhe
ele, mal o Artur assomava  porta. E o Artur, assim definido familiarmente pelo
grande artista, entrava no templo, palpitante da divindade, admirativo como
tinha de ser at  morte. Sim, at  morte. Gauthier foi uma das religies que
o consolaram. Sete dias antes de o perdermos, isto , a 14 deste ms, prostrado
na cama, rodo pelo dente cruel da tsica, escrevia-me ele a propsito de um
prato do jantar. O verde das couves espanejava-se em uma onda de piro, cor de
ouro. A palheta de Ruysdael, pelo incendido do ouro, no hesitaria um s
instante, em assinar esse piro mirabolante, como diria o grande, e
divino Teo... Grande e divino! Vede bem que esta admirao  de um moribundo,
refere-se a um morto, e fala na intimidade da correspondncia particular. Onde
outra mais sincera?

No escrevo uma biografia. A vida dele no  das que se
escrevem;  das que so vividas, sentidas, amadas, sem jamais poderem
converter-se  narrao; tal qual os romances psicolgicos, em que a urdidura
dos fatos  breve ou nenhuma. Ultimamente, exercia o professorado no Colgio de
Pedro II; mas a doena tomou-o entre as suas tenazes, para no o deixar mais.

No o deixou mais: comeu-lhe a seiva toda; desfibrou-o
com a pacincia dos grandes operrios. Ele, como vimos, prestes a tropear na
cova, regalava-se ainda das reminiscncias literrias, evocava a palheta de
Ruysdael, olhando para a vida que lhe ia sobreviver, a vida da arte que ele
amou com f religiosa, sem proveito para si, sem clculo, sem dios, sem invejas,
sem desfalecimento. A doena f-lo padecer muito; teve instantes de dor cruel,
no raro de desespero e de lgrimas; mas, em podendo, reagia. Encararia alguma
vez o enigma da morte? Poucas horas antes de morrer (perdoem-me esta recordao
pessoal;  necessria), poucas horas antes de morrer, lia um livro meu, o das Memrias
Pstumas de Brs Cubas, e dizia-me que interpretava agora melhor algumas de
suas passagens. Talvez as que entendiam com a ocasio... E dizia-me aquilo
serenamente, com uma fora de nimo rara, uma resignao de granito. Foi ao
sair de, uma dessas visitas, que escrevi estes versos, recordando os arrojos
dele comparados com o atual estado. No lhos mostrei; e dou-os aqui para os
seus amigos:

Sabes tu de um poeta enorme,

Que andar no usa

No cho, e cuja estranha musa,

Que nunca dorme,

Cala o p melindroso e leve,

Como uma pluma,

De folha e flor, de sol e neve,

Cristal e espuma;

E mergulha, como Leandro,

A forma rara

No P, no Sena, em Guanabara,

E no Escamandro;

Ouve a Tup e escuta a Momo,

Sem controvrsia,

E tanto adora o estudo, como

Adora a inrcia;

Ora do fuste, ora da ogiva

Sair parece;

Ora o Deus do Ocidente esquece

Pelo deus Siva;

Gosta do estrpito infinito,

Gosta das longas

Solides em que se ouve o grito

Das arapongas;

E se ama o rpido besouro,

Que zumbe, zumbe,

E a mariposa que sucumbe

Na flama de ouro,

Vaga-lumes e borboletas

Da cor da chama,

Roxas, brancas, rajadas, pretas,

No menos ama

Os hipoptamos tranqilos,

E os elefantes,

E mais os bfalos nadantes,

E os crocodilos,

Como as girafas e as panteras,

Onas, condores,

Toda a casta de bestas-feras

E voadores.

Se no sabes quem ele seja,

Trepa de um salto,

Azul acima, onde mais alto

A guia negreja;

Onde morre o clamor inquo

Dos violentos;

Onde no chega o riso oblquo

Dos fraudulentos.

Ento olha, de cima posto,

Para o oceano;

Vers num longo rosto humano

Teu mesmo rosto;

E hs de rir, no do riso antigo,

Potente e largo,

Riso de eterno moo amigo;

Mas de outro amargo,

Como o riso de um deus enfermo,

Que se aborrece

Da divindade, e que apetece

Tambm um termo...

Os amigos dele apreciaro o sentido desses versos. O
pblico, em geral, nada tem com um homem que passou pela terra sem o convidar para
coisa nenhuma, um forte engenho que apenas soube amar a arte, como tantos
cristos obscuros amaram a Igreja, e amar tambm aos seus amigos, porque era
meigo, generoso e bom.

A Serenssima Repblica

Este escrito, publicado primeiro na Gazeta de Noticias,
como outros do livro,  o nico em que h um sentido restrito:  as nossas
alternativas eleitorais. Creio que tero entendido isso mesmo, atravs da forma
alegrica.

Uma visita de Alcibades

Este escrito teve um primeiro texto, que reformei
totalmente mais tarde, no aproveitando mais do que a idia. O primeiro foi
dado com um pseudnimo e passou despercebido.

FIM
