Conto, Letra Vencida, 1882

Letra vencida

Texto-fonte:

 Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 31/10/1882 a 30/11/1882.

CAPTULO
PRIMEIRO

Eduardo B. embarca amanh
para a Europa. Amanh quer dizer 24 de abril de 1861, pois estamos a 23,
 noite, uma triste noite para ele, e para Beatriz.

-- Beatriz! repetia ele, no
jardim, ao p da janela donde a moa se debruava
estendendo-lhe a mo.

De cima, -- porque a janela
ficava a cinco palmos da cabea de Eduardo, -- de cima respondia a
moa com lgrimas, verdadeiras lgrimas de dor. Era a
primeira grande dor moral que padecia, e, contando apenas dezoito anos,
comeava cedo. No falavam alto; poderiam chamar a
ateno da gente da casa. Note-se que Eduardo despedira-se da
famlia de Beatriz naquela mesma noite, e que a me dela e o pai,
ao v-lo sair, estavam longe de pensar que entre onze horas e meia-noite,
voltaria o moo ao jardim para fazer uma despedida mais formal.
Alm disso, os dois ces da casa impediriam a entrada de algum intruso.
Se tal supuseram  que no advertiram na tendncia
corruptora do amor. O amor peitou o jardineiro, e os ces foram
recolhidos modestamente para no interromper o ltimo
dilogo de dois coraes aflitos.

ltimo? No 
ltimo; no pode ser ltimo. Eduardo vai completar os
estudos, e tirar carta de doutor em Heidelberg; a famlia vai com ele,
disposta a ficar algum tempo, um ano, em Frana; ele voltar
depois. Tem vinte e um anos, ela dezoito: podem esperar. No, no
 o ltimo dilogo. Basta ouvir os protestos que eles
murmuram, baixinho, entre si e Deus, para crer que esses dois
coraes podem ficar separados pelo mar, mas que o amor os uniu
moralmente e eternamente. Eduardo jura que a levar consigo, que
no pensar em outra coisa, que a amar sempre, sempre,
sempre, de longe ou de perto, mais do que aos prprios pais.

-- Adeus, Beatriz!

-- No, no
v j!

Tinha batido uma hora em alguns
relgios da vizinhana, e esse golpe seco, soturno, pingando de
pndula em pndula, advertiu ao moo de que era tempo de
sair; podiam ser descobertos. Mas ficou; ela pediu-lhe que no fosse
logo, e ele deixou-se estar, cosido  parede, com os ps num
canteiro de murta e os olhos no peitoril da janela. Foi ento que ela
lhe desceu uma carta; era a resposta de outra, em que ele lhe dava certas
indicaes necessrias  correspondncia
secreta, que iam continuar atravs do oceano. Ele insistiu verbalmente
em algumas das recomendaes; ela pediu certos esclarecimentos. O
dilogo interrompia-se; os intervalos de silncio eram suspirados
e longos. Enfim bateram duas horas: era o rouxinol? Era a cotovia? Romeu
preparou-se para ir embora; Julieta pediu alguns minutos.

-- Agora, adeus, Beatriz;
 preciso! murmurou ele dali a meia hora.

-- Adeus! Jura que no
se esquecer de mim?

-- Juro. E voc?

-- Juro tambm, por
minha me, por Deus!

-- Olhe, Beatriz!
Acontea o que acontecer, no me casarei com outra; ou com
voc, ou com a morte. Voc  capaz de jurar a mesma coisa?

-- A mesma coisa; juro pela
salvao de minh'alma! Meu marido  voc; e
Deus que me ouve h de ajudar-nos. Cr em Deus, Eduardo; reza a
Deus, pede a Deus por ns.

Apertaram as mos. Mas um
aperto de mo era bastante para selar to grave escritura?
Eduardo teve a idia de trepar  parede; mas faltava-lhe o ponto
de apoio. Lembrou-se de um dos bancos do jardim, que tinha dois, do lado da
frente; foi a ele, trouxe-o, encostou-o  parede, e subiu; depois
levantou as mos ao peitoril; e suspendeu o corpo; Beatriz inclinou-se,
e o eterno beijo de Verona conjugou os dois infelizes. Era o primeiro. Deram
trs horas; desta vez era a cotovia.

-- Adeus!

-- Adeus!

Eduardo saltou ao cho;
pegou do banco, e foi rep-lo no lugar prprio. Depois tornou
 janela, levantou a mo, Beatriz desceu a sua, e um
enrgico e derradeiro aperto terminou essa despedida, que era
tambm uma catstrofe. Eduardo afastou-se da parede, caminhou
para a portinha lateral do jardim, que estava apenas cerrada, e saiu. Na rua, a
vinte ou trinta passos, ficara de vigia o obsequioso jardineiro, que unira ao
favor a discrio, colocando-se a distncia tal, que
nenhuma palavra pudesse chegar-lhe aos ouvidos. Eduardo, embora j lhe
houvesse pago a cumplicidade, quis deixar-lhe ainda uma lembrana de
ltima hora, e meteu-lhe na mo uma nota de cinco mil-ris.

No dia seguinte verificou-se o
embarque. A famlia de Eduardo compunha-se dos pais e uma irm de
doze anos. O pai era comerciante e rico; ia passear alguns meses e fazer
completar os estudos do filho em Heidelberg. Esta idia de Heidelberg parecer um pouco estranha nos projetos de um homem, como Joo B.,
pouco ou nada lido em coisas de geografia cientfica e
universitria; mas sabendo-se que um sobrinho dele, em viagem na Europa,
desde 1857, entusiasmado com a Alemanha, escrevera de Heidelberg algumas cartas
exaltando o ensino daquela Universidade, ter-se- compreendido essa
resoluo.

Para Eduardo, ou Heidelberg ou
Hong-Kong, era a mesma coisa, uma vez que o arrancavam do nico ponto do
globo em que ele podia aprender a primeira das cincias, que era
contemplar os olhos de Beatriz. Quando o paquete deu as primeiras rodadas na
gua e comeou a mover-se para a barra, Eduardo no
pde reter as lgrimas, e foi escond-las no camarote.
Voltou logo acima, para ver ainda a cidade, perd-la pouco a pouco, por
uma iluso da dor, que se contentava de um retalho, tirado 
purpura da felicidade moribunda. E a cidade, se tivesse olhos para v-lo,
podia tambm despedir-se dele com pesar e orgulho, pois era um esbelto
rapaz, inteligente e bom. Convm dizer que a tristeza de deixar o Rio de
Janeiro tambm lhe doa no corao. Era fluminense,
no sara nunca deste ninho paterno, e a saudade local vinha
casar-se  saudade pessoal. Em que propores, no
sei. H a uma anlise difcil, mormente agora, que
no podemos mais distinguir a figura do rapaz. Ele est ainda na
amurada; mas o paquete transps a barra, e vai perder-se no horizonte.

CAPTULO
II

Para que hei de dizer que Beatriz
deixou de dormir o resto da noite? Subentende-se que as ltimas horas
dessa triste noite de 23 de abril foram para ela de viglia e desespero.
Direi somente que tambm foram de devoo. Beatriz, logo
que Eduardo transps a porta do jardim, atirou-se  cama
soluando e sufocando os soluos, para no ser ouvida.
Quando a dor amorteceu um pouco, levantou-se e foi ao oratrio de suas
rezas noturnas e matinais; ajoelhou-se e encomendou a Deus, no a
felicidade, mas a consolao de ambos.

A manh viu-a to
triste como a noite. O sol, na forma usual, mandou um dos seus raios mais
jucundos e vivos ao rosto de Beatriz, que desta vez o recebeu sem ternura nem
gratido. De costume, ela dava a esse raio amado todas as
expanses de uma alma nova. O sol, pasmado da indiferena,
no interrompeu todavia o seu curso; tinha outras Beatrizes que saudar,
umas risonhas, outras lacrimosas, outras apticas, mas todas
Beatrizes... E l se foi o D. Joo do azul, espalhando no ar um
milho daquelas missivas radiosas.

No menos pasmada ficou a
me ao almoo. Beatriz mal podia disfarar os olhos
cansados de chorar; e sorria,  verdade, mas um sorriso to
forado, to de obsquio e dissimulao, que
realmente faria descobrir tudo, se desde alguns dias antes, as maneiras de
Beatriz no tivessem revelado tal ou qual alterao. A
me supunha alguma molstia; agora, sobretudo, que os olhos da
moa tinham um ar febril, pareceu-lhe que era caso de doena
incubada.

-- Beatriz, voc
no est boa, disse ela  mesa.

-- Sinto-me assim no
sei como...

-- Pois tome s
ch. Vou mandar vir o doutor...

-- No 
preciso; se continuar amanh, sim.

Beatriz tomou ch, nada
mais do que ch. Como no tinha vontade de outra coisa, tudo se
combinou assim, e a hiptese da doena foi aparentemente
confirmada. Ela aproveitou-a para meter-se no quarto o dia inteiro, falar pouco,
no fazer toilette, etc. No chamaram o mdico, mas
ele veio por si mesmo, o Tempo, que com uma de suas velhas poes
abrandou a vivacidade da dor, e tornou o organismo ao estado anterior, tendo de
mais uma saudade profunda, e a imortal esperana.

Realmente, s sendo imortal
a esperana, pois tudo conspirava contra ela. Os pais de ambos os
namorados tinham a seu respeito projetos diferentes. O de Eduardo meditava para
este a filha de um fazendeiro, seu amigo, moa prendada, capaz de o
fazer feliz, e digna de o ser tambm; e no meditava s
consigo, porque o fazendeiro nutria iguais idias. Joo B.
chegara mesmo a insinu-lo ao filho, dizendo-lhe que na Europa iria
v-lo algum que provavelmente o ajudaria a concluir os estudos.
Este foi, com efeito, o plano dos dois pais; seis meses depois, iria o
fazendeiro com a famlia  Alemanha, onde casariam os filhos.

Quanto ao pai de Beatriz, os seus
projetos eram ainda mais definitivos, se  possvel. Tratava de
aliar a filha a um jovem poltico, moo de futuro, e to
digno de ser marido de Beatriz, como a filha do fazendeiro era digna de ser
mulher de Eduardo. Esse candidato, Amaral, freqentava a casa, era aceito
a todos, e tratado como pessoa de famlia, e com um tal respeito e
carinho, um desejo to intenso de o mesclar ao sangue da casa, que
realmente faria rir ao rapaz, se ele prprio no estivesse
namorado de Beatriz. Mas estava-o, e grandemente namorado; e tudo isso
aumentava o perigo da situao.

No obstante, a
esperana subsistia no corao de ambos. Nem a distncia,
nem os cuidados diversos, nem o tempo, nem os pais, nada diminua o
vio dessa flor misteriosa e constante. No disseram outra coisa
as primeiras cartas, recebidas por um modo to engenhoso e to
simples, que vale a pena cont-lo aqui, para uso de outros
desgraados. Eduardo mandava as cartas a um amigo; este passava-as a uma
irm, que as entregava a Beatriz, de quem era amiga e companheira de
colgio. Geralmente as companheiras de colgio no se
recusam a estes pequenos obsquios, que podem ser recprocos; em
todo o caso, -- so humanos. As duas primeiras cartas, assim
recebidas, foram a transcrio dos protestos feitos naquela noite
de 23 de abril de 1861; transcrio feita com tinta, mas no
menos valiosa e sincera do que se o fora com sangue. O mar, que deixou passar
essas vozes concordes de duas almas violentamente separadas, continuou o
perptuo movimento da sua instabilidade.

CAPTULO
III

Beatriz voltou aos hbitos
anteriores, aos passeios, saraus e teatros do costume. A tristeza, de aguda que
era e manifesta, tornou-se escondida e crnica. No rosto era a mesma
Beatriz, e tanto bastava  sociedade. Naturalmente no tinha a
mesma paixo da dana, nem a mesma vivacidade de maneiras; mas a
idade explicava a atenuao. Os dezoito anos estavam feitos; a
mulher completara-se.

Quatro meses depois da partida de
Eduardo, entendeu a famlia da moa apressar o casamento desta; e
eis aqui as circunstncias da resoluo.

Amaral cortejava a moa
ostensivamente, dizia-lhe as finezas usuais, freqentava a casa, ia onde
ela fosse; punha o corao em todas as aes e
palavras. Beatriz entendia tudo e no respondia a nada. Usou duas
polticas diferentes. A primeira foi mostrar-se de uma tal
ignorncia que o pretendente achasse mais razovel
esquec-la. Pouco durou esta; era improfcua, tratando-se de um
homem verdadeiramente apaixonado. Amaral teimou; vendo-se desentendido, passou
a linguagem mais direta e clara. Ento comeou a segunda
poltica; Beatriz mostrou que entendia, mas deixou ver que nada era
possvel entre ambos. No importa; ele teimou ainda mais. Nem por
isso venceu. Foi ento que o pai de Beatriz interveio.

-- Beatriz, disse-lhe o pai,
tenho um marido para ti, e estou certo que vais aceit-lo...

-- Papai...

-- Mas ainda que, a
princpio recuses, no por ser indigno de ns; no
 indigno, ao contrrio;  pessoa muito
respeitvel... Mas, como ia dizendo, ainda que a tua primeira palavra
seja contra o noivo, previno-te que  desejo meu e h de
cumprir-se.

Beatriz fez um movimento de
cabea, rpido, espantado. No estava acostumada
quele modo, no esperava a intimao.

-- Digo-te que  um
moo srio e digno, repetiu. Que respondes?

-- Nada.

-- Aceitas ento?

-- No, senhor.

Desta vez foi o pai que teve um
sobressalto; no por causa da recusa; ele esperava-a, e estava resolvido
a venc-la, segundo a avisou desde logo. Mas o que o espantou foi a
prontido da resposta.

-- No? disse ele
da a um instante.

-- No, senhor.

-- Sabes o que ests
dizendo?

-- Sei, sim, senhor.

-- Veremos se no,
bradou o pai levantando-se, e batendo com a cadeira no cho; veremos se
no! Tem graa! No, a mim! Quem sou eu? No! E por
que no? Naturalmente, anda a algum petimetre sem presente nem
futuro, algum bailarino, ou estafermo. Pois veremos...

E ia de um lado para outro,
metendo as mos nas algibeiras da cala, tirando-as, passando-as
pelos cabelos, abotoando e desabotoando o palet, fora de si, irritado.

Beatriz deixara-se estar sentada
com os olhos no cho, tranqila, resoluta. Em certo momento, como o
pai lhe parecesse exasperado demais, levantou-se e foi a ele para
aquiet-lo um pouco; mas ele repeliu-a.

-- V-se embora,
disse-lhe; v refletir no seu procedimento, e volte quando estiver
disposta a pedir-me perdo.

-- Isso j;
peo-lhe perdo j, papai... No quis
ofend-lo; nunca o ofendi... Perdoe-me; vamos, perdoe-me.

-- Mas recusas?

-- No posso aceitar.

-- Sabes quem ?

-- Sei: o Dr. Amaral.

-- Que tens contra ele?

-- Nada;  um
moo distinto.

O pai passou a mo pelas
barbas.

-- Gostas de outro.

Beatriz calou-se.

-- Vejo que sim; est
bem. Quem quer que seja, no ter nunca a minha
aprovao. Ou o Dr. Amaral, ou nenhum mais.

-- Nesse caso, nenhum mais,
respondeu ela.

-- Veremos.

CAPTULO
IV

No percamos tempo. Beatriz
no casou com o noivo que lhe davam; no aceitou outro que
apareceu no ano seguinte; mostrou uma tal firmeza e deciso, que encheu
o pai de assombro.

Assim se passaram os dois
primeiros anos. A famlia de Eduardo voltou da Europa; este ficou, para
tornar quando acabasse os estudos. "Se me parecesse, ia j (dizia
ele em uma carta  moa), mas quero conceder isto, ao menos, a
meu pai: concluir os estudos."

Que ele estudava,  certo,
e no menos certo  que estudava muito. Tinha vontade de saber,
alm do desejo de cumprir, naquela parte, as ordens do pai. A Europa
oferecia-lhe tambm alguns recreios de diversa espcie. Ele ia
nas frias  Frana e  Itlia, ver as
belas-artes e os grandes monumentos. No  impossvel que,
algumas vezes, inclusse no captulo das artes e na classe dos
monumentos algum namoro de ordem passageira; creio mesmo que 
negcio liquidado. Mas, em que  que essas pequenas
excurses em terra estranha lhe faziam perder o amor da ptria,
ou, menos figuradamente, em que  que essas expanses
midas do sentimento diminuam o nmero e a paixo
das cartas que mandava a Beatriz?

Com efeito, as cartas eram as
mesmas de ambos os lados, escritas com igual ardor s das primeiras
semanas, e nenhum outro mtodo. O mtodo era o de um
dirio. As cartas eram compostas dia por dia, como uma nota dos
sentimentos e dos pensamentos de cada um deles, confisso de alma para
alma. Parecer admirvel que este uso fosse constante no
espao de um, dois, trs anos; que diremos cinco anos, sete anos!
Sete, sim, senhora; sete, e mais. Mas fiquemos nos sete, que  a data do
rompimento entre as duas famlias.

No importa saber por que
brigaram as duas famlias. Brigaram;  o essencial. Antes do
rompimento desconfiaram os dois pais que os filhos tinham-se jurado alguma coisa
antes da separao, e no estavam longe de concordar em
que se casassem. Os projetos de cada um deles tinham naufragado; eles
estimavam-se; nada havia mais natural do que aliarem-se mais intimamente. Mas
brigaram; veio no sei que incidente estranho, e a amizade converteu-se
em dio.

Naturalmente um e outro pensaram
logo na possibilidade do consrcio dos filhos, e trataram de
afast-los. O pai de Eduardo escreveu a este, j diplomado,
dizendo que o esperasse na Europa; o de Beatriz inventou um pretendente, um
rapaz desambicioso que jamais pensaria em pedi-la, mas que o fez, animado pelo
pai.

-- No, foi a resposta
de Beatriz.

O pai ameaou-a; a
me pediu-lhe por tudo o que havia de mais sagrado, que aceitasse o
noivo; mostrou-lhe que eles estavam velhos, e que ela precisava ficar amparada.
Foi tudo intil. Nem esse pretendente nem outros que vieram, uns por
mo do pai, outros por mo alheia. Beatriz no iludia
ningum, ia dizendo a todos que no.

Um desses pretendentes chegou a
crer-se vencedor. Tinha qualidades pessoais distintas, e ela no
desgostava dele, tratava-o com muito carinho, e pode ser que sentisse algum
princpio de inclinao. Mas a imagem de Eduardo vencia
tudo. As cartas dele eram o prolongamento de uma alma querida e amante; e
aquele candidato, como os outros, teve de recuar vencido.

-- Beatriz, vou morrer dentro
de poucos dias, disse-lhe um dia o pai; por que me no ds o
gosto de deixar-te casada?

-- Qual, morrer!

E no respondia 
outra parte das palavras do pai. Eram j passados nove anos da
separao. Beatriz tinha ento vinte e sete. Via chegar os
trinta com tranqilidade e a pena na mo. No seriam
j dirias as cartas, mas eram ainda e sempre pontuais; se algum
paquete no as trazia ou levava, a culpa era do correio, no
deles. Realmente, a constncia era digna de nota e
admirao. O mar separava-os, e agora o dio das
famlias; e alm desse obstculo, deviam contar com o
tempo, que tudo afrouxa, e as tentaes que eram muitas de um e
outro lado. Mas apesar de tudo, resistiam.

O pai de Beatriz morreu dali a
algumas semanas. Beatriz ficou com a me, senhora achacada de
molstias, e cuja vida naturalmente no iria tambm muito
longe. Esta considerao deu-lhe nimo para tentar os ltimos
esforos, e ver se morria deixando a filha casada. Empregou os que
pde; mas o resultado no foi melhor.

Eduardo na Europa sabia tudo. A
famlia dele trasladou-se para l, definitivamente, para o fim de
o reter, e tornar impossvel o encontro dos dois. Mas, como as cartas
continuavam, ele sabia tudo o que se passava no Brasil. Teve notcia da
morte do pai de Beatriz, e dos esforos empregados por ele e depois pela
mulher, viva, para estabelecer a filha; e soube (pode imaginar-se com
que satisfao) da resistncia da moa. O juramento
da noite de 23 de abril de 1861 estava de p, cumprido, observado
 risca, como um preceito religioso, e, o que  mais, sem que
lhes custasse mais do que a pena da separao.

Na Europa, morreu a me de
Eduardo; e o pai teve um instante idias de voltar ao Brasil; mas era
odiento, e a idia de que o filho podia ento casar com Beatriz,
fixou-o em Paris.

"Verdade  que ela
no deve estar muito tenra..." dizia ele consigo.

Eram ento passados quinze
anos. Passaram-se mais alguns meses, e a me de Beatriz morreu. Beatriz
ficou s, com trinta e quatro anos. Teve idia de ir para Europa,
com alguma dama de companhia; mas Eduardo contava ento vir ao Rio de
Janeiro arranjar alguns negcios do pai, que estava doente. Beatriz
esperou; mas Eduardo no veio. Uma amiga dela, confidente dos amores,
dizia-lhe:

-- Realmente, Beatriz,
voc tem uma pacincia!

-- No me custa nada.

-- Mas esperar tanto tempo!
Quinze anos!

-- Nada mais natural,
respondia a moa; eu suponho que estamos casados, e que ele anda em
viagem de negcios.  a mesma coisa.

Essa amiga estava casada; tinha
j dois filhos. Outras amigas e companheiras de colgio tinham
casado tambm. Beatriz era a nica solteira, e solteira abastada
e pretendida. Agora mesmo, no lhe faltavam candidatos; mas a fiel
Beatriz conservava-se como dantes.

Eduardo no veio ao Brasil,
segundo contava, nem naquele nem no ano seguinte. As doenas do pai
agravaram-se, tornaram-se longas; e nisto correram mais dois anos. S
ento o pai de Eduardo morreu, em Nice, no fim de 1878. O filho arranjou
os primeiros negcios e embarcou para o Rio de Janeiro.

-- Enfim!

Tinham passado dezoito anos. Posto
que eles tivessem trocado os retratos, mais de uma vez durante esse lapso de
tempo, acharam-se diferentes do que eram na noite da separao.
Tinham passado a idade dos primeiros ardores; o sentimento que os animava era
brando, embora tenaz.

Vencida a letra, era
razovel pagar; era mesmo obrigatrio. Trataram dos
papis; e dentro de poucas semanas, nos fins de 1878, cumpriu-se o juramento
de 1861. Casaram-se, e foram para Minas, donde voltaram trs meses
depois.

-- So felizes?
perguntei a um amigo ntimo deles, em 1879.

-- Eu lhe digo, respondeu
esse amigo observador. No so felizes nem infelizes; um e outro
receberam do tempo a fisionomia definitiva, apuraram as suas qualidades boas e
no boas, deram-se a outros interesses e hbitos, colheram o
fastio e a marca da experincia, alm da surdina que os anos
trazem aos movimentos do corao. E no viram essa
transformao operar-se dia por dia. Despediram-se uma noite, em
plena florescncia da alma, para encontrarem-se carregados de fruto,
tomados de ervas parasitas, e com certo ar fatigado. Junte a isto o despeito de
no achar o sonho de outrora, e o de o no trazer consigo; pois
cada um deles sente que no pode dar a espcie de cnjuge
que alis deseja achar no outro; pense mais no arrependimento
possvel e secreto de no terem aceitado outras alianas,
em melhor quadra; e diga-me se podemos diz-los totalmente felizes.

-- Ento infelizes?

-- Tambm no.
Vivem, respeitam-se; no so infelizes, nem podemos dizer que
so felizes. Vivem, respeitam-se, vo ao teatro...
