Conto, Muitos Anos Depois, 1874

Muitos Anos Depois

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 10/1874 a 11/1874.

CAPTULO
PRIMEIRO

Tinha vinte e sete anos o Padre
Flvio, quando comeou a carreira de pregador para a qual se sentia arrastado por
uma vocao irresistvel. Teve a felicidade de ver comeada a sua reputao
desde as primeiras prdicas, que eram ouvidas com entusiasmo por homens e
mulheres. Alguns inimigos que a fortuna lhe dera por confirmao do seu mrito,
diziam que a eloqncia do padre era insossa e fria.  pena dizer que esses
adversrios do padre vinham da sacristia, e no da rua.

Bem pode ser que entre os
admiradores do Padre Flvio alguns fossem mais entusiastas das suas graas que
dos seus talentos  para ser justo, gostavam de ouvir a palavra divina
proferida por uma graciosa boca. Efetivamente o Padre Flvio era uma soberba
figura; a sua cabea tinha uma forma escultural. Se a imagem no ofende os
ouvidos catlicos, direi que parecia Apolo convertido ao Evangelho. Tinha
magnficos cabelos pretos, olhos da mesma cor, nariz reto, lbios finos, a
testa lisa e polida. O olhar ainda que sereno, tinha uma expresso de
severidade, mas sem afetao. Aliavam-se naquele rosto a graa profana e a
austeridade religiosa, como duas coisas irms, dignas igualmente da
contemplao divina.

O que o Padre Flvio era no
aspecto, era-o tambm no carter. Pode-se dizer que era cristo e pago ao
mesmo tempo. A sua biblioteca constava de trs grandes estantes. Numa estavam
os livros religiosos, os tratados de teologia, as obras de moral crist, os
anais da Igreja, os escritos dos Jernimos, dos Bossuets e dos Apstolos. A
outra continha os produtos do pensamento pago, os poetas e os filsofos das
eras mitolgicas, as obras de Plato, de Homero, de Epteto e Virglio. Na
terceira estante estavam as obras profanas que no se ligavam essencialmente
quelas duas classes, e com que ele se deleitava nas horas vagas que lhe
deixavam as outras duas. Na classificao dos seus livros, o Padre Flvio viu-se
algumas vezes perplexo; mas resolvera a dificuldade de um modo engenhoso. O
poeta Chnier, em vez de ocupar a terceira estante, foi colocado na classe do
paganismo, entre Homero e Tbulo. Quanto ao Telmaco de Fnelon, resolveu o
padre deix-lo sobre a mesa de trabalho; era um arcebispo catlico que falava
do filho de Ulisses; exprimia de algum modo a feio intelectual do Padre
Flvio.

Seria puerilidade supor que o
Padre Flvio, consorciando assim os escritos de duas inspiraes opostas,
fizesse dos dois cultos um s, e abraasse do mesmo modo os deuses do templo
antigo e as imagens da Igreja crist. A religio catlica era a da sua f,
ardente, profunda, inabalvel; o paganismo representava a sua religio
literria. Se encontrava no discurso da montanha consolaes para a
conscincia, tinha nas pginas de Homero deliciosos prazeres ao seu esprito.
No confundia as odes de Anacreonte com o Cntico dos cnticos, mas sabia ler
cada livro, a seu tempo, e tinha para si (coisa que mesma lhe perdoara o Padre
Vilela) que entre as duas obras havia alguns pontos de contato.

CAPTULO II

O Padre Vilela que entrou por
incidente no perodo acima, tinha uma grande parte na vida do Padre Flvio. Se
este abraara a vida religiosa foi por conselho e direo do Padre Vilela, e em
boa hora o fez porque, dos seus contemporneos, nenhum honrou melhor o hbito
sagrado.

Educado pelo Padre Vilela, Flvio
achou-se aos dezoito anos com todos os conhecimentos que podiam prepar-lo para
as funes religiosas. Contudo estava resolvido a seguir outra carreira, e
tinha j em vista o curso jurdico. O Padre Vilela esperava que o moo
escolhesse livremente a profisso, no querendo comprar mediante uma
condescendncia de rapaz o futuro arrependimento. Uma circunstncia que interessa
 histria fez com que Flvio abraasse a profisso sacerdotal a que j o
dispunham, no somente a instruo do esprito, mas tambm a severidade dos
costumes.

Quando num dia de manh,  mesa do
almoo, Flvio declarou ao padre que queria servir  Igreja, este que era
sincero servidor dela, sentiu imenso jbilo e abraou o moo com efuso.

 Eu no podia pedir, disse
Vilela, melhor profisso para o meu filho.

O nome de filho era o que lhe dava
o padre e com razo lhe dava, porque se Flvio no lhe devia o ser, devia-lhe a
criao e a educao.

Vilela fora muitos anos antes
vigrio em uma cidade de Minas Gerais; e a conhecera um lindo menino que uma
pobre mulher educava como podia.

  seu filho? perguntou-lhe o
padre.

 No, reverendssimo, no  meu
filho.

 Nem afilhado?

 Nem afilhado.

 Nem parente?

 Nem parente.

O padre no perguntou mais nada,
suspeitando que a mulher ocultava coisa que no podia dizer. Ou fosse por essa
circunstncia, ou porque o menino lhe inspirava simpatia, o fato  que o padre
no perdeu de vista aquela pobre famlia composta de duas pessoas. Naturalmente
caridoso, no poucas vezes o padre ajudava a mulher nas necessidades de sua
vida. A maledicncia no deixou de abocanhar a reputao do padre com respeito
 proteo que dava  mulher. Mas ele tinha uma filosofia singular: olhava por
cima do ombro os caprichos da opinio.

Como o menino j tivesse oito
anos, e no soubesse ler, quis o Padre Vilela comear a educao dele e a
mulher agradecida aceitou os obsquios do padre.

A primeira coisa que o mestre
admirou no discpulo foi a docilidade com que ele ouvia as lies e afinco e
zelo com que as estudava.  natural da criana preferir os brincos aos labores
do estudo. O menino Flvio fazia do aprender uma regra e do brincar uma
exceo, isto , primeiro decorava as lies que o mestre lhe dava, e s depois
de as ter sabidas  que se ia divertir com os outros rapazes seus companheiros.

Com este merecimento, tinha o
menino outro ainda maior, era o de uma inteligncia clara, e imediata
compreenso, de maneira que ia entrando nos estudos com pasmosa rapidez e
inteira satisfao do mestre.

Um dia, adoeceu a mulher, e foi
caso de verdadeira aflio para as duas criaturas a quem ela mais estimava, o
padre e o pequeno. Agravou-se a molstia a ponto de ser necessrio aplicarem-se
os sacramentos. Flvio, j ento de doze anos, chorava que fazia d. A mulher
expirou beijando o menino:

 Adeus, Flvio, disse ela, no te
esqueas de mim.

 Minha me! exclamou o pequeno
abraando a mulher.

Mas ela j o no podia ouvir.

Vilela ps-lhe a mo sobre o
corao, e voltando-se para Flvio disse:

 Est com Deus.

No tendo ningum mais neste mundo,
o menino ficara  merc do acaso, se no fosse Vilela que imediatamente o levou
consigo. Como j havia intimidade entre os dois, no foi difcil ao pequeno a
mudana; contudo nunca se lhe varria da memria a idia da mulher que ele, no
s chamava me, como at a tinha por isso, visto que no conhecera outra.

A mulher, na vspera de morrer,
mandou pedir ao padre lhe viesse falar. Quando ele chegou, mandou sair o
pequeno e disse-lhe:

 Vou morrer, e no sei o que h
de ser de Flvio. No ouso pedir-lhe, reverendssimo, que o tome para si; mas
quisera que fizesse alguma coisa por ele, que o recomende a algum colgio da
caridade.

 Descanse, respondeu Vilela; eu
me incumbo do rapaz.

A mulher olhou agradecida para
ele.

Depois fazendo um esforo tirou
debaixo do travesseiro uma carta lacrada e entregou-a ao padre.

 Esta carta, disse ela, foi-me
entregue com este menino;  escrita por sua me; tive ordem de lhe entregar
quando ele completasse vinte e cinco anos. No quis Deus que eu tivesse o gosto
de cumprir a recomendao. Quer V. Revm. incumbir-se dela?

O padre pegou na carta, leu o
sobrescrito que dizia assim: A meu filho.

Prometeu entregar a carta no prazo
indicado.

CAPTULO III

Flvio no desmentiu as esperanas
do padre. Os seus progressos eram espantosos. Teologia, histria, filosofia,
lnguas, literatura, tudo isso estudou o rapaz com pasmosa atividade e zelo.
No tardou que excedesse ao mestre, porquanto este era apenas uma inteligncia
medocre e Flvio possua um talento superior.

Como boa alma que era, o velho
mestre tinha orgulho na superioridade do discpulo. Conhecia perfeitamente que,
de certo tempo em diante, os papis estavam trocados: era ele quem teria de
aprender com o outro. Mas a prpria inferioridade fazia a sua glria.

 Os olhos que descobrem um
brilhante, dizia o padre consigo, no fulgem mais que ele, mas alegram-se com
t-lo achado e dado ao mundo.

No vem ao caso referir os
sucessos que deslocaram o padre da sua freguesia em Minas para a corte. Veio o
padre residir aqui quando Flvio contava j dezessete anos. Tinha alguma coisa
de seu e podia viver independente, em companhia de seu filho espiritual, nica
famlia sua, mas quanto bastava aos afetos do seu corao e aos hbitos intelectuais.

Flvio j no era ento o pobre
menino de Minas. Era um elegante rapaz, belo de feies, delicado e severo de
maneiras. A educao que tivera em companhia do padre dera-lhe uma gravidade
que realava a pureza de suas feies e a graa do seu gesto. Mas por cima de
tudo isso havia um vu de melancolia que tinha duas causas: o prprio carter
dele, e a lembrana incessante da mulher que o criara.

Vivendo em casa do padre, com a
subsistncia que permitiam as posses deste, instrudo, admirado, cheio de
esperanas e de futuro, Flvio recordava sempre a vida de pobreza que tivera em
Minas, os sacrifcios que a boa mulher fizera por ele, as lgrimas que algumas
vezes derramaram juntos quando chegava a faltar-lhes o po. No esquecera nunca
o amor que aquela mulher lhe consagrara at a morte, e o zelo extremo com que o
tratara. Em vo procurara na memria alguma palavra mais rspida da parte de
sua me: s conservava a lembrana de afagos e amores.

Apontando aqui estas duas causas
permanentes da sua melancolia, no quero exagerar o carter do rapaz. Pelo
contrrio, Flvio era um conversador ameno e variado. Sorria freqentemente,
com ingenuidade, com satisfao. Gostava da discusso; a sua palavra era quase
sempre animada; tinha entusiasmo na conversao. Havia nele uma feliz
combinao de dois sentimentos, por modo que nem a melancolia o tornava
enfadonho, nem a alegria insuportvel.

Profundamente observador, o
discpulo do Padre Vilela aprendeu cedo a ler estes livros que se chamam
coraes antes de os estimar e aplaudir. A sagacidade natural no estava ainda
apurada pela experincia e pelo tempo. Aos dezoito anos julga-se mais pelo
corao que pela reflexo. Nessa idade acontece sempre pintarmos um carter com
as cores dos nossos prprios afetos. Flvio no podia escapar absolutamente a
esta lei comum, que uns dizem ser m e outros querem que seja excelente. Mas o
moo ia-se pouco a pouco acostumando ao trato dos homens; a vida retirada que
vivera desenvolveu-lhe o gosto da solido. Quando comeou a travar relaes no
contava uma s que lhe fosse imposta por nenhuma intimidade passada.

O Padre Vilela, que tinha por si a
experincia da vida, gostava de ver no rapaz esse carter temperado de
entusiasmo e reserva, de confiana e receio. Parecia ao padre, em cujo esprito
j rolava a idia de ver o discpulo servo da Igreja, que o resultado daquilo
seria distanciar-se o rapaz do sculo e aproximar-se do sacerdcio.

Mas o Padre Vilela no contava com
esta crise necessria da juventude chamada amor, que o rapaz no conhecia
tambm a no ser pelos livros do seu gabinete. Quem sabe? Talvez esses livros
lhe fizessem mal. Acostumado a ver o amor, com a lente da fantasia,
deleitando-se com as sensaes poticas, com as criaes ideais, com a vida da
imaginao, Flvio no tinha a menor idia da coisa prtica tanto se absorvia
na contemplao da coisa ideal.

Semelhante ao homem que s
houvesse vivido no meio de figuras esculpidas em mrmore, e que supusesse nos
homens o original completo das cpias artsticas, Flvio povoava a sua
imaginao de Oflias e Marlias, ansiava por encontr-las, amava-as
antecipadamente, em solitrias chamas. Como era natural, o moo exigia mais do
que poderia dar a natureza humana.

Foi ento que se produziu a
circunstncia que lhe abriu mais depressa as portas da Igreja.

CAPTULO IV

No  preciso dizer de que
natureza foi a circunstncia; os leitores j o tero adivinhado.

Flvio fazia poucas visitas e no conhecia
gente. Ia de quando em quando a duas ou trs casas de famlia onde o padre o
apresentara e a passava algumas horas que no dizer das pessoas da casa eram
minutos. A hiprbole era sincera; Flvio possua o dom de conversar bem, sem
demasia nem parcimnia, equilibrando-se entre o que era ftil e o que era
pesado.

Uma das casas a que ia era a de
uma D. Margarida, viva de um advogado que enriquecera no foro e deixara 
famlia boa e larga riqueza. A viva tinha duas filhas, uma de dezoito anos, e
outra de doze. A de doze era uma criana querendo ser moa, um lindo prefcio
de mulher. Qual seria o livro? Flvio no fez nem respondeu a esta pergunta.

A que desde logo lhe chamou a
ateno foi a mais velha, criatura que lhe aparecia com todos os encantos
imaginados por ele. Chamava-se Laura; estava no pleno desenvolvimento da
mocidade. Era diabolicamente bela; o termo ser imprprio, mas exprime
perfeitamente a verdade. Era alta, bem formada, mais imponente que delicada,
mais soberana que graciosa. Adivinhava-se-lhe um carter imperioso; era dessas
mulheres que, emendando a natureza, que as no fez nascer no trono, fazem-se
rainhas por si mesmas. Outras possuem a fora da fraqueza; Laura no. Seus
lbios no eram feitos para a splica, nem seus olhos para a meiguice. Lhe
fosse preciso adquirir uma coroa  quem sabe?  Laura seria lady Macbeth.

Semelhante carter sem a beleza,
seria quase inofensivo. Laura era formosa, e sabia que o era. Sua beleza era
dessas que arrastam logo a primeira vista. Possua os mais belos olhos do
mundo, grandes e negros, olhos que despendiam luz e nadavam em fogo. Os cabelos, igualmente negros e abundantes, trazia-os penteados com arte especial, por
modo que lhe dessem  cabea uma espcie de diadema. Coroavam assim uma testa branca,
larga, inteligente. A boca, se o desdm no existisse, inventava-o certamente.
Toda a figura tinha uma expresso de desdenhosa gravidade.

Lembrara-se Flvio de ficar
namorado daquela Semramis burguesa. Como o seu corao era ainda virgem, caiu
logo do primeiro golpe, e no tardou que a serenidade da sua vida se
transformasse em tempestade desfeita. Tempestade  o verdadeiro nome, porque 
medida que os dias iam passando, o amor crescia, e crescia o receio de se ver
repelido ou talvez menoscabado.

Flvio no tinha nimo de se
declarar  moa, e esta parecia estar longe de lhe adivinhar os sentimentos.
No estava longe; adivinhara-o logo. Mas o mais que o seu orgulho concedeu ao
msero amador foi perdoar-lhe a paixo. No rosto nunca se lhe traiu o que
sentia. Quando Flvio olhava para ela, embebido e esquecido do resto do
universo, Laura sabia to bem disfarar que nunca traa a sua sagacidade.

Vilela reparou na tristeza do
rapaz; mas como ele no lhe dizia nada, teve a prudncia de lhe no perguntar
por isso. Imaginou que seriam amores; e como desejava v-lo no sacerdcio, a
descoberta no deixou de o aborrecer.

Havia porm uma coisa pior do que
no ser sacerdote, era ser infeliz, ou ter empregado mal o fogo do seu corao.
Vilela pensou nisto e mais aborrecido ainda ficou. Flvio andava cada vez mais
melanclico e at lhe pareceu que emagrecia, donde o bom padre concluiu
logicamente que devia ser paixo incurvel, atentas as relaes ntimas em que
esto a magreza e o amor, na teoria romntica.

Vendo aquilo, e prevendo que o
resultado podia ser funesto ao seu amigo, Vilela estabeleceu de si para si um
prazo de quinze dias, findo os quais, se Flvio no lhe fizesse confisso
voluntria do que sentia, ele lha arrancaria  fora.

CAPTULO V

Da a oito dias teve ele a ventura
inefvel de ouvir da prpria boca de Flvio que queria seguir a carreira
sacerdotal. O rapaz dizia aquilo com tristeza, mas resoluto. Vilela recebeu a
notcia como eu tive j ocasio e dizer aos leitores, e tudo se preparou para
que o nefito fizesse as primeiras provas.

Flvio resolvera adotar a vida
eclesistica depois que da prpria Laura teve o desengano. Repare a leitora que
eu no digo ouviu, mas teve. Flvio no ouviu nada. Laura no lhe falou quando
ele timidamente confessou que a adorava. Seria uma concesso. Laura no fazia
concesses. Olhou para ele, ergueu a ponta do lbio e comeou a contar as
varetas do leque. Flvio insistiu; ela retirou-se com um ar to frio e
desdenhoso, mas sem um gesto, sem nada mais que indicasse a menor impresso,
ainda que fora de ofensa. Era mais que despedi-lo, era esmag-lo. Flvio curvou
a cabea e saiu.

Agora saltemos a ps juntos alguns
pares de anos e vamos encontrar o Padre Flvio no princpio da sua carreira,
tendo justamente pregado o seu primeiro sermo. Vilela no cabia em si de
contente; os cumprimentos que Flvio recebia era como se ele os recebesse;
revia-se na sua obra; aplaudia-se no talento do rapaz.

 Minha opinio, reverendo 
dizia-lhe ele um dia ao almoo,   que irs longe...

  China? perguntou sorrindo o
outro.

 Longe  para cima; replicou
Vilela; quero dizer que hs de subir, e que ainda terei o gosto de te ver
bispo. No tens ambies?

 Uma.

 Qual?

 A de viver sossegado.

Esta disposio no agradava muito
ao reverendo padre Vilela, que, sendo pessoalmente despido de ambies,
desejava para o seu filho espiritual um elevado lugar na hierarquia da Igreja.
No quis porm combater o desprendimento do rapaz e limitou-se a dizer que no
conhecia ningum mais apto para ocupar uma sede episcopal.

No meio dos seus encmios foi
interrompido por uma visita; era um rapaz quase da mesma idade do Padre Flvio
e seu antigo companheiro de estudos. Atualmente tinha um emprego pblico, era
alferes porta-bandeira de um batalho da Guarda Nacional. A estas duas
qualidades juntava a de ser filho de um negociante de grosso trato, o Sr. Joo
Ayres de Lima, de cujos sentimentos polticos dissentia radicalmente, visto que
estivera no ano anterior com os revolucionrios de 7 de abril, enquanto que o
pai era muito inclinado aos restauradores.

Henrique Ayres no fizera grande
figura nos estudos; no fez sequer figura medocre. Era doutor apenas, mas bom
corao e rapaz de bons costumes. O pai quisera cas-lo com a filha de um
negociante seu amigo; mas Henrique tendo dado imprudentemente o corao  filha
de um escrivo de agravos, ops-se com todas as foras ao casamento. O pai, que
era bom homem, no quis obrigar o corao do rapaz, e desistiu da empresa.
Aconteceu ento que a filha do negociante casou com outro e a filha do escrivo
comeou a dar corda a um segundo pretendente com quem veio a casar pouco tempo
depois.

Estas particularidades so
necessrias para explicar o grau de intimidade entre Henrique e Flvio. Foram
eles naturalmente confidentes um do outro, e falaram (outrora) muito e muito
dos seus amores e esperanas com a circunstncia usual entre namorados que cada
um deles era o ouvinte de si mesmo.

Os amores foram-se; a intimidade
ficou. Apesar dela, desde que Flvio tomara ordens, e j antes nunca mais
Henrique lhe falara de Laura, conquanto suspeitasse que a lembrana da moa no
se lhe apagara no corao. Adivinhara at que a repulsa da moa o atirara ao
sacerdcio.

Henrique Ayres foi recebido como
um ntimo da casa. O Padre Vilela gostava dele, principalmente porque era amigo
de Flvio. Alm disso, Henrique Ayres era um rapaz alegre, e o Padre Vilela
gostava de rir.

Desta vez, entretanto, no vinha
alegre o alferes. Trazia os olhos desvairados e a cara sombria. Era um rapaz
bonito, elegantemente vestido  maneira do tempo. Contava um ano menos que o
Padre Flvio. Tinha o corpo muito direito, em parte porque a natureza o fizera
assim, em parte porque andava, ainda  paisana, como se levasse a bandeira na
mo.

Vilela e Flvio perceberam logo
que o recm-chegado tinha alguma coisa que o preocupava; nenhum deles,
entretanto, o interrogou. Trocaram-se algumas palavras friamente, at que
Vilela, percebendo que Henrique Ayres desejaria conversar com o amigo, deixou a
mesa e saiu.

CAPTULO VI

Henrique, apenas ficou s com
Flvio, atirou-se-lhe aos braos e pediu que o salvasse.

 Salvar-te! exclamou Flvio. De
qu?

Henrique sentou-se outra vez sem
responder e ps a cabea nas mos. O padre insistiu com ele para que dissesse o
que havia, fosse o que fosse.

 Cometeste algum...

 Crime? sim, cometi um crime,
respondeu Henrique; mas, descansa, no foi nenhum roubo nem morte; foi um crime
que felizmente se pode reparar...

 Que foi ento?

 Foi...

Henrique hesitou. Flvio instou
para que confessasse tudo.

 Eu gostava muito de uma moa e
ela de mim, disse enfim o alferes; meu pai que sabia do namoro, creio que o no
desaprovava. O pai dela, entretanto, opunha-se ao nosso casamento... Noutro
tempo tu j saberias destas coisas; mas agora, no me atrevi nunca a falar-te
nisso.

 Continua.

 O pai opunha-se; e apesar da
posio que meu pai ocupa, dizia  boca cheia que nunca me admitiria em sua
casa. Efetivamente nunca l entrei; falvamos poucas vezes, mas escrevamos a
mido. As coisas iriam assim at que o nimo do pai se voltasse a nosso favor.
Uma circunstncia, porm, ocorreu e foi o que me precipitou a um ato de
loucura. O pai queria cas-la com um deputado que chegou h pouco do Norte.
Ameaados disso...

 Ela fugiu contigo, concluiu
Flvio.

  verdade, disse Henrique sem
ousar encarar o amigo.

Flvio esteve algum tempo calado.
Quando abriu a boca foi para censurar o ato de Henrique, lembrando-lhe o
desgosto que iria causar a seus pais, no menos que  famlia da moa. Henrique
ouviu silenciosamente as censuras do padre. Afirmou-lhe que estava disposto a
tudo, mas que o seu maior desejo era evitar o escndalo.

Flvio pediu todas as informaes
precisas e disps-se a reparar o mal pelo melhor modo que pudesse. Soube que o
pai da moa era um juiz da casa da suplicao. Saiu logo a dar os passos
necessrios. O intendente da polcia tinha j as informaes do caso e corriam
agentes seus em todas as direes. Flvio obteve o auxlio do Padre Vilela, e
tudo andou to a tempo e com to boa feio, que antes das ave-marias as
maiores dificuldades ficaram aplanadas. Foi o Padre Flvio quem teve o gosto de
casar os dois jovens pssaros, depois do que dormiu em plena paz com a
conscincia.

Nunca o Padre Flvio tivera
ocasio de freqentar a casa do Sr. Joo Ayres de Lima, ou simplesmente do Sr.
Joo Lima, que era o nome corrente. Andara entretanto em todo aquele negcio
com tanto zelo e amor, mostrara tamanha gravidade e circunspeo, que o Sr.
Joo Lima ficou morrendo por ele. Se perdoou ao filho foi unicamente por causa
do padre.

 Henrique  um maroto, disse Joo
Lima, que devia assentar praa, ou ir ali viver alguns meses no Aljube. Mas no
podia escolher melhor advogado, e  por isso que eu lhe perdoei a tratantice.

 Verduras da mocidade, obtemperou
o padre Flvio.

 Verduras, no, reverendo;
loucuras  o verdadeiro nome. Se o pai da rapariga no queria dar-lhe, a
dignidade, no menos que a moralidade, o obrigava a um procedimento diverso do
que teve. Enfim, Deus lhe d juzo!

 H de dar, h de dar...

Conversavam assim os dois no dia
seguinte ao do casamento de Henrique e Lusa, que era o nome da pequena. A cena
passava-se na sala de visitas da casa de Joo Lima  Rua do Valongo, defronte
de uma janela aberta, ambos sentados em cadeiras de braos de jacarand, tendo
de permeio uma mesa pequena com duas xcaras de caf em cima.

Joo Lima era um homem sem
cerimnias e muito fcil de criar amizade a algum. Flvio pela sua parte era
extremamente simptico. A amizade criou razes dentro em pouco tempo.

Vilela e Flvio freqentavam a casa
de Joo Lima, com quem moravam o filho e a nora na mais doce intimidade.

Doce intimidade  uma maneira de
falar.

A intimidade durou apenas alguns
meses e no foi de toda a famlia. Uma pessoa havia em quem o casamento de
Henrique produziu desagradvel impresso; foi a me dele.

CAPTULO VII

Dona Mariana Lima era uma senhora
agradvel na conversa, mas nica e simplesmente na conversa. O corao era
esquisito;  o menos que se pode dizer. O esprito era caprichoso, voluntarioso
e ambicioso. Ambicionava um casamento mais elevado para o filho. Os amores de
Henrique e o seu imediato casamento foram um desastre para os planos de futuro.

Quer isto dizer que D. Mariana
desde o primeiro dia comeou a odiar a nora. Escondeu-o o mais que pde, e s
pde esconder durante os primeiros meses. Afinal o dio fez exploso. Foi
impossvel no fim de certo tempo viverem juntas. Henrique foi morar em casa
sua.

No bastava  senhora D. Mariana
odiar a nora e aborrecer o filho.

Era-lhe preciso mais.

Soube e viu a parte que teve o
Padre Flvio no casamento do filho, e no s o Padre Flvio como de algum modo
o Padre Vilela.

Naturalmente criou-lhes dio.

No o manifestou entretanto logo.
Ela era profundamente dissimulada; tratou de disfarar o mais que pde. Seu fim
era expeli-los de casa.

Eu disse que D. Mariana era
agradvel na conversa. Era-o tambm na fisionomia. Ningum diria que aquele
rosto amvel escondia um corao de ferro. Via-se que tinha sido formosa; ela
mesma falava da sua beleza passada com um resto de orgulho. A primeira vez que
o Padre Flvio a ouviu falar assim, teve m impresso. Notou-lhe D. Mariana e
no se conteve que lhe no dissesse:

 Reprova-me?

O Padre Flvio conciliou seu amor 
verdade com a considerao que devia  esposa do amigo.

 Minha senhora, murmurou ele, eu
no tenho direito para tanto...

 Tanto vale dizer que me reprova.

Flvio calou-se.

 Cuido, entretanto, continuou a
esposa de Joo Lima, que no me gabo de nenhum crime; ter sido bonita no 
coisa que ofenda a Deus.

 No , disse gravemente o Padre
Flvio; mas a austeridade crist pede que no faamos caso nem tenhamos orgulho
das nossas graas fsicas. As prprias virtudes no nos devem ensoberbecer...

Flvio estacou. Reparou que estava
presente Joo Lima e no quis continuar a conversa por extremo desagradvel.
Mas o marido de D. Mariana nadava em contentamento. Interveio na conversa.

 Continue, padre, disse ele; isso
no ofende e  justo. A minha santa Eva gosta de recordar o tempo da sua
beleza; j lhe tenho dito que  melhor deixar o louvor aos outros; e ainda
assim fechar os ouvidos.

D. Mariana no quis ouvir o resto;
retirou-se da sala.

Joo Lima deitou a rir.

 Assim, padre! nunca as mos lhe
doam.

Flvio estava profundamente
incomodado com o que se passara. No queria de nenhum modo contribuir para um
desaguisado de famlia. Demais, j percebera que a me de Henrique no gostava
dele, mas no podia atinar com a causa. Fosse qual fosse, julgou prudente
afastar-se da casa, e assim o disse ao padre Vilela.

 No creio que tenhas razo,
disse este.

 E eu creio que tenho, retorquiu
o Padre Flvio; em todo caso nada perdemos em afastarmo-nos por algum tempo.

 No, no me parece razovel,
disse Vilela; que culpa tem Joo Lima nisto? Como explicar a nossa ausncia?

 Mas...

 Demos tempo ao tempo, e se as
coisas continuarem do mesmo modo.

Flvio aceitou o alvitre do seu
velho amigo.

Costumavam eles passar quase todas
as tardes em casa de Joo Lima, onde tomavam caf e onde conversavam das coisas
pblicas ou praticavam de assuntos pessoais. s vezes dava-lhe Joo Lima para
ouvir filosofia, e nessas ocasies era o Padre Flvio quem falava
exclusivamente.

D. Mariana, desde a conversa que
acima deixo referida, mostrara-se cada vez mais fria com os dois padres.
Sobretudo com Flvio, as suas demonstraes eram mais positivas e solenes.

Joo Lima no reparava em nada. Era um bom homem que no podia supor houvesse algum a quem desagradassem os seus dois
amigos.

Um dia porm, ao sarem de l,
disse Flvio a Vilela:

 No lhe parece que o Joo Lima
est um pouco mudado hoje?

 No.

 Creio que sim.

Vilela abanou a cabea, e disse
rindo:

 Andas visionrio, Flvio!

 No sou visionrio; percebo as
coisas.

 As coisas que ningum percebe.

 Ver.

 Quando?

 Amanh.

 Pois verei!

No dia seguinte houve um
inconveniente que os impediu de ir  casa de Joo Lima. Foram em outro dia.

Joo Lima mostrou-se efetivamente
frio com o Padre Flvio; com o Padre Vilela no alterou o seu modo. Vilela
notou a diferena e deu razo ao amigo.

 Na verdade, disse ele ao sarem
os dois do Valongo, onde morava Joo Lima, pareceu-me que o homem hoje no te
tratou como de costume.

 Do mesmo modo que anteontem.

 Que haver?

Flvio calou-se.

 Dize, insistiu Vilela.

 Que nos importa isso? disse o
Padre Flvio depois de alguns instantes de silncio. Gostou de mim algum tempo;
hoje no gosta; no o censuro por isso, nem me queixo.  conveniente que nos
acostumemos s variaes do esprito e do corao. Pela minha parte no mudei a
seu respeito; mas...

Calou-se.

 Mas? perguntou Vilela.

 Mas no devo voltar l.

 Ah!

 Sem dvida. Acha bonito que
freqente uma casa onde no sou bem aceito? Seria afrontar o dono da casa.

 Bem; no iremos mais l.

 No iremos?

 Sim, no iremos.

 Mas por que razo h de Vossa
Reverendssima...

 Porque sim, disse resolutamente
o Padre Vilela. Onde tu no fores recebido com prazer, eu no posso
decentemente meter os ps.

Flvio agradeceu mais esta prova
de afeio que lhe dava o seu velho amigo; e procurou demov-lo do propsito em
que se achava; mas foi em vo; Vilela persistia na resoluo anunciada.

 Bem, disse Flvio, irei l como
dantes.

 Mas essa agora...

 No quero priv-los da sua
pessoa, padre-mestre.

Vilela procurou convencer ao amigo
de que no devia ir se tinha escrpulo nisso. Flvio resistiu a todas as razes.
O velho padre coou a cabea e depois de meditar algum tempo, disse.

 Pois bem, eu irei s.

  o melhor acordo.

Vilela mentia; sua resoluo era
no ir mais l, desde que o amigo no ia; mas ocultava esse plano, pois que era
impossvel faz-lo aceitar por ele.

CAPTULO VIII

Decorreram trs meses depois do
que acabo de narrar. Nem Vilela nem Flvio voltaram  casa de Joo Lima; este
foi uma vez  casa dos dois padres com a inteno de perguntar a Vilela porque
razo deixara de o visitar. Achou-o s em casa; disse-lhe o motivo da sua
visita. Vilela desculpou-se com o amigo.

 Flvio anda melanclico, disse;
e eu que sou to amigo dele, no o quero deixar s.

Joo Lima franziu o sobrolho.

 Anda melanclico? perguntou ele
no fim de algum tempo.

  verdade, continuou Vilela. No
sei que tem; pode ser molstia; em todo o caso no o quero deixar s.

Joo Lima no insistiu e
retirou-se.

Vilela ficou pensativo. Que quereria
dizer o ar com que o negociante lhe falara a respeito da melancolia do amigo?
Interrogou as suas reminiscncias; conjecturou  larga; nada concluiu nem
encontrou.

 Tolices! disse ele.

A idia porm no lhe saiu mais do
esprito. Tratava-se do homem a quem mais amava; era razo para que o
preocupasse. Dias e dias gastou em espreitar o misterioso motivo; mas nada
alcanou. Zangado consigo mesmo, e preferindo a tudo a franqueza, Vilela
resolveu ir diretamente a Joo Lima.

Era de manh. Flvio estava a
estudar no seu gabinete, quando Vilela lhe disse que ia sair.

 Deixa-me s com a minha carta?

 Que carta?

 A que me deu, a misteriosa carta
de minha me.

 Vais abri-la?

 Hoje mesmo.

Vilela saiu.

Ao chegar  casa de Joo Lima ia este
sair.

 Preciso falar-lhe, disse-lhe o
padre. Vai sair?

 Vou.

 Tanto melhor.

 Que ar srio  este? perguntou
Lima rindo.

 O negcio  srio.

Saram.

Sabe o meu amigo que eu no tenho
sossegado desde que desconfiei de uma coisa...

 De uma coisa!

 Sim, desde que desconfiei que o
meu amigo tem alguma coisa contra o meu Flvio.

 Eu?

 O senhor.

Vilela olhou fixamente para Joo
Lima; este baixou os olhos. Foram andando assim silenciosamente durante algum
tempo. Era evidente que Joo Lima queria ocultar alguma coisa ao padre-mestre.
O padre  que no estava disposto a que se lhe escondesse a verdade. Ao fim de
um quarto de hora Vilela rompeu o silncio.

 Vamos l, disse ele; diga-me
tudo.

 Tudo o qu?

Vilela fez um gesto de
impacincia.

 Para que procura negar que h
alguma coisa entre o senhor e o Flvio.  isso que eu desejo saber. Sou amigo
dele e seu pai espiritual; se ele errou desejo castig-lo; se o erro  seu,
peo licena ao senhor para castig-lo.

 Falemos de outra coisa...

 No; falemos disto.

 Pois bem, disse Joo Lima com
resoluo; dir-lhe-ei tudo, com uma condio.

 Qual?

  que h de ocultar tudo a ele.

 Para qu, se merecer corrigi-lo?

 Porque  necessrio. No desejo
que transpire nada desta conversa;  to vergonhoso isto!...

 Vergonhoso!

 Desgraadamente, 
vergonhosssimo.

  impossvel! exclamou Vilela
no sem alguma indignao.

 Ver.

Seguiu-se um novo silncio.

 Eu era amigo de Flvio e
admirador das suas virtudes como dos seus talentos. Era capaz de jurar que
nunca um pensamento infame lhe entraria no esprito...

 E ento? perguntou Vilela
trmulo.

 E ento, repetiu Joo Lima com placidez;
esse pensamento infame entrou-lhe no esprito. Infame seria em qualquer outro;
mas em quem traz vestes sacerdotais... No respeitar nem o seu carter, nem o
estado alheio; cerrar os olhos aos laos sagrados do matrimnio...

Vilela interrompeu a Joo Lima
exclamando:

 Est doido!

Mas Joo Lima no se molestou;
referiu placidamente ao padre-mestre que o seu amigo ousara desrespeitar-lhe a
esposa.

  uma calnia! exclamou Vilela.

 Perdo, disse Joo Lima,
disse-me quem podia asseverar.

Vilela no era naturalmente manso;
conteve-se a custo ao ouvir estas palavras do amigo. No lhe foi difcil
perceber a origem da calnia: era a antipatia de D. Mariana. Admirou-se que
descesse a tanto; no seu ntimo resolveu dizer tudo ao jovem sacerdote. No
deixou porm de observar a Joo Lima:

 Isso que me diz  impossvel;
houve certamente equvoco, ou... m vontade; acho que seria principalmente m
vontade. No hesito em responder por ele.

 M vontade por qu? perguntou
Joo Lima.

 No sei; mas alguma havia em que
eu j reparei ainda antes do que se deu ultimamente. Quer que seja inteiramente
franco?

 Peo-lhe.

 Pois bem, todos temos defeitos;
sua senhora, entre boas qualidades que possui, tem alguns e graves. No se
zangue se lhe falo assim; mas  preciso dizer tudo quando se trata de defender
como eu a inocncia de um amigo.

Joo Lima no dizia palavra. Ia
cabisbaixo ouvindo as palavras do Padre Vilela. Ele sentia que o padre no
estava longe da verdade; conhecia a mulher, sabia por onde pecava o seu
esprito.

 Eu creio, disse o Padre Vilela,
que o casamento de seu filho influiu na desafeio de sua esposa.

 Por qu?

 Talvez no fosse muito do agrado
dela, e ao Flvio se deve o bom desfecho que teve aquele negcio. Que lhe parece?

No respondeu o interlocutor. As
palavras de Vilela trouxeram-lhe  memria algumas que ouvira  mulher em
desabono do Padre Flvio. Era bom e fraco; arrependia-se facilmente. O tom
decisivo com que falou Vilela profundamente o abalou. No tardou que ele mesmo
dissesse:

 No desconheo que  possvel um
equvoco; o esprito suscetvel de Mariana podia errar, era mais natural que
ela se esquecesse de que tem um resto das suas graas para s se lembrar de que
 uma matrona... Perdo, falo-lhe como amigo; releve-me estas expanses em tal
assunto.

Vilela dirigiu a Joo Lima no
caminho em que entrava. No fim de uma hora estavam quase de acordo. Joo Lima
encaminhou-se para casa acompanhado de Vilela; iam j ento calados e
pensativos.

CAPTULO IX

Ao chegarem  porta quis Vilela
retirar-se. Souberam porm que Flvio estava em cima. Os dois olharam um para o outro, Vilela atnito, Joo Lima fulo de clera.

Subiram.

Na sala estavam D. Mariana e o
Padre Flvio; ambos de p, em frente um do outro, Mariana com as mos de Flvio
entre as suas.

Os dois estacaram  porta.

Seguiu-se um longo e profundo
silncio.

 Meu filho! meu amigo! exclamou
Vilela dando um passo para o grupo.

D. Mariana tinha soltado as mos do
jovem sacerdote e deixara-se cair numa cadeira; Flvio tinha os olhos baixos.

Joo Lima adiantou-se calado.
Parou em frente de Flvio e encarou-o friamente. O padre ergueu os olhos; havia
neles uma grande dignidade.

 Senhor, disse Lima.

D. Mariana levantou-se da cadeira
e atirou-se aos ps do esposo.

 Perdo! exclamou ela.

Joo Lima empurrou-a com um brao.

 Perdo;  meu filho!

Eu deixo ao leitor imaginar a
impresso deste lance de quinto ato de melodrama. Joo Lima esteve cerca de dez
minutos sem poder articular palavra. Vilela olhava espantado para todos.

Enfim rompeu a palavra o
negociante. Era natural pedir uma explicao; pediu-a; foi-lhe dada. Joo Lima
exprimiu toda a sua clera contra Mariana.

Flvio lastimara do fundo d'alma a
fatalidade que o levou a produzir aquela situao. No delrio de conhecer sua
me, no se lembrara de mais nada; apenas leu a carta que lhe fora entregue
pelo Padre Vilela, correra  casa de D. Mariana. Ali tudo se explicara; Flvio
preparava-se para sair e no voltar ali mais se fosse preciso, e em todo caso
no divulgar o segredo nem ao Padre Vilela, quando este e Joo Lima os
surpreenderam.

Tudo estava perdido.

D. Mariana recolheu-se ao Convento
da Ajuda onde faleceu no tempo da guerra de Rosas. O Padre Flvio obteve uma
vigaria no interior de Minas, onde veio a falecer de tristeza e saudade. Vilela
quis acompanh-lo, mas o jovem amigo no o consentiu.

 De tudo o que me poderias pedir,
disse Vilela,  isso o que mais me di.

 Pacincia! respondeu Flvio; eu
preciso da solido.

 T-la-s?

 Sim; preciso da solido para
meditar nas conseqncias que o erro de um pode trazer a muitas existncias.

Tal  a moralidade desta triste
histria.
