Conto, Casa, no casa, 1875

Casa, no casa

Texto-fonte:

Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 12/1875 a 01/1876.

CAPTULO
PRIMEIRO

Se alguma das minhas leitoras
morasse na Rua de S. Pedro da cidade nova, h coisa de quinze anos, e estivesse
 janela na noite de 16 de maro, entre uma e duas horas, teria ocasio de
presenciar um caso extraordinrio.

Morava ali, entre a Rua Formosa e
a Rua das Flores, uma moa de vinte e dois anos, bonita como todas as heronas
de romances e contos, a qual moa na sobredita noite de 16 de maro, entre uma
e duas horas, levantou-se da cama e a passo lento foi at  sala com uma luz na
mo.

No estando as janelas fechadas, a
leitora, caso morasse defronte, veria a nossa herona pousar a vela sobre um
aparador, abrir um lbum, tirar um retrato, que no saberia se era de homem ou
de mulher, mas que eu lhe afirmo ser de mulher.

Tirado o retrato do lbum, pegou a
moa na vela, desceu a escada, abriu a porta da rua e saiu. A leitora ficaria
naturalmente assombrada com tudo isto; mas que no diria quando a visse seguir
pela rua acima, voltar a das Flores, ir at  do Conde, e parar  porta de uma
casa?

Justamente  janela dessa casa
estava um homem, rapaz ainda, vinte e sete anos, olhando para as estrelas e
fumando um charuto.

A moa parou.

O moo espantou-se do caso, e
vendo que ela parecia querer entrar, desceu a escada, com uma vela acesa e abriu
a porta.

A moa entrou.

 Isabel! exclamou o rapaz
deixando cair a vela no cho.

Ficaram s escuras no corredor.
Felizmente trazia o moo fsforos na algibeira, acendeu outra vez a vela e
fitou os olhos na recm-chegada.

Isabel (tal era o seu verdadeiro
nome) estendeu o retrato ao rapaz, sem dizer palavra, com os olhos fitos no ar.

O rapaz no pegou logo no retrato.

 Isabel! exclamou ele outra vez
mas j com a voz sumida.

A moa deixou cair o retrato no
cho, voltou as costas e saiu. O dono da casa ainda mais aterrado ficou.

 Que  isto? dizia ele; estar
louca?

Ps a vela sobre um degrau da
escada, saiu  rua, fechou a porta e seguiu lentamente atrs de Isabel, que foi
pelo mesmo caminho at entrar em casa.

O mancebo respirou quando viu
Isabel entrar na casa; mas ficou ali alguns instantes, a olhar para a porta,
sem nada compreender e ansioso por que chegasse o dia. Todavia era foroso
voltar para a Rua do Conde; lanou um ltimo olhar s janelas da casa e
retirou-se.

Ao entrar em casa apanhou o
retrato.

 Lusa! disse ele.

Esfregou os olhos como se
duvidasse do que via, e ficou parado na escada a olhar largos minutos para o
retrato.

Era preciso subir.

Subiu.

 Que querer isto dizer? disse
ele j em voz alta como se falasse a algum. Que audcia foi essa de Isabel?
Como  que uma moa, filha de famlia, sai assim de noite para... Mas estarei
eu sonhando?

Examinou o retrato, e viu que
tinha nas costas as seguintes linhas:

 minha querida amiga Isabel, como
lembrana de eterna amizade. Lusa.

Jlio (era o nome do rapaz) no
pde descobrir nada por mais que parafusasse, e parafusou muito tempo, j
deitado no sof da sala, j encostado  janela.

E na verdade quem seria capaz de
descobrir o mistrio daquela visita a semelhante hora? Tudo parecia antes uma
cena de drama ou romance ttrico, do que um ato natural da vida.

O retrato... O retrato tinha certa
explicao. Jlio andava quinze dias antes a trocar cartas com o original, a
formosa Lusa, moradora no Rocio Pequeno, hoje Praa Onze de Junho.

Todavia, por mais agradvel que
lhe fosse receber o retrato de Lusa, como admitir a maneira por que lho
levaram, e a pessoa, e a hora, e as circunstncias?

 Sonho ou estou doido! concluiu
Jlio depois de longo tempo.

E chegando  janela, acendeu outro
charuto.

Nova surpresa o esperava.

Vejamos qual foi ela.

CAPTULO
II

No havia fumado ainda uma tera
parte do charuto, quando viu dobrar a esquina um vulto de mulher, caminhando
lentamente, e parar  porta da casa dele.

 Outra vez! exclamou Jlio. Quis
descer logo; mas as pernas comeavam a tremer-lhe. Jlio no era tipo de
extrema valentia; creio at que se lhe chamarmos medroso no estaremos longe da
verdade.

O vulto, entretanto, estava 
porta; era foroso tir-lo dali, a fim de evitar um escndalo.

Desta vez, pensou ele pegando na
vela, hei de interrog-la; no a deixo sair sem me dizer o que h. Infeliz.
Parece-me que est doida!

Desceu; abriu a porta.

 Lusa! exclamou.

A moa estendeu-lhe um retrato;
Jlio pegou nele com nsia e murmurou consigo: Isabel!

Era efetivamente o retrato da
primeira moa que a segunda lhe trazia. No ser preciso dizer ou repetir que
Jlio namorava tambm a Isabel, e a leitora compreende facilmente que tendo
ambas descoberto o segredo uma da outra, ambas foram mostrar ao namorado que
estavam cientes da sua duplicidade.

Mas por que motivo tais coisas se
davam assim revestidas de circunstncias singulares e tenebrosas?

No era mais natural mandarem-lhe
os retratos dentro de uma sobrecarta?

Tais eram as reflexes que Jlio
fazia, com o retrato numa das mos e a vela na outra, enquanto j de volta
entrava em casa.

No ser preciso dizer que o nosso
Jlio no dormiu o resto da noite. Chegou a ir  cama e a fechar os olhos;
tinha o corpo modo e necessidade de sono; mas a imaginao velava, e a
madrugada veio ach-lo acordado e aflito.

No dia seguinte foi visitar
Isabel; achou-a triste; falou-lhe; mas quando quis dizer-lhe alguma coisa do
sucesso, a moa afastou-se dele, talvez porque adivinhasse o que ia ele
dizer-lhe, talvez, porque j estivesse aborrecida de o ouvir.

Jlio foi  casa de Lusa, achou-a
no mesmo estado, as mesmas circunstncias se deram.

 claro que descobriram o segredo
uma da outra, dizia ele consigo. No h remdio seno desfazer a m impresso
de ambas. Mas como se me no querem ouvir? Ao mesmo tempo desejava explicao
do ato atrevido que ontem praticaram, salvo se foi sonho meu, o que  bem
possvel. Ou ento estarei doido...

Antes de ir adiante, e no ser
longe porque a histria  pequena, convm dizer que este Jlio no tinha paixo
real por nenhuma das duas moas. Comeou o namoro com Isabel por ocasio de uma
ceia de Natal, e travou relaes com a famlia que o recebera muito bem. Isabel
correspondeu um pouco ao namoro de Jlio, sem todavia lhe dar grandes
esperanas porque ento andava tambm  corda de um oficial do exrcito que
teve de embarcar para o Sul. S depois que ele embarcou foi que Isabel de todo
se voltou para Jlio.

Ora, o nosso Jlio j ento
lanara as suas baterias contra a outra fortaleza, a formosa Lusa, amiga de
Isabel, e que desde princpio aceitou o namoro com ambas as mos.

Nem por isso rejeitou a corda que
lhe dava Isabel; manteve-se entre as duas sem saber qual delas devia preferir.
O corao no tinha a este respeito opinio assentada. Jlio no amava, repito;
era incapaz de amar... Seu fim era casar com uma moa bonita; ambas o eram,
restava-lhe saber qual delas lhe convinha mais.

As duas moas, como vimos pelos
retratos, eram amigas, mas falavam-se de longe em longe, sem que nessas poucas
vezes houvessem comunicado os segredos atuais do seu corao. Ocorreria isso
agora e seria essa a explicao da cena dos retratos? Jlio pensou efetivamente
que elas haviam enfim comunicado o seu namoro com ele; mas custava-lhe a crer
que to atrevidas fossem ambas, que sassem da casa naquela singular noite. 
proporo que o tempo se passava, Jlio inclinava-se a crer que o fato no
passasse de uma iluso sua.

Jlio escreveu uma carta a cada
uma das duas moas, quase do mesmo teor, pedindo a explicao da frieza que
ambas ultimamente lhe mostravam. Cada uma das cartas terminava perguntando se
era to cruelmente que se devia pagar um amor nico e delirante.

No teve resposta imediatamente
como esperava, mas dois dias depois, no do mesmo teor, mas no mesmo sentido.

Ambas lhe diziam que pusesse a mo
na conscincia.

No h dvida, pensou ele
consigo, estou pilhado. Como sairei eu desta situao?

Jlio resolveu atacar verbalmente
as duas fortalezas.

 Isto de cartas no  bom recurso
para mim, disse ele; encaremos o inimigo;  mais seguro.

Escolheu Isabel em primeiro lugar.
Haviam j passado seis ou sete dias depois da cena noturna. Jlio preparou-se
mentalmente com todas as armas necessrias ao ataque e  defesa e dirigiu-se
para casa de Isabel, que era como sabemos na Rua de S. Pedro.

Foi-lhe difcil achar-se a ss com
a moa; porque a moa que das outras vezes era a primeira a buscar ocasio de
lhe falar, agora esquivava-se a isso. O rapaz entretanto era teimoso; tanto fez
que pde pilh-la numa janela, e ali ex abrupto disparou-lhe esta
pergunta:

 No me dar a explicao dos
seus modos de hoje e da carta com que respondeu  minha ltima?

Isabel calou-se.

Jlio repetiu a pergunta, mas j
com um tom que exigia resposta imediata. Isabel fez um gesto de aborrecimento e
disse:

 Respondo o que lhe disse na
carta; ponha a mo na conscincia.

 Mas que fiz eu ento?

Isabel sorriu-se com um ar de
lstima.

 O que fez? perguntou ela.

 Sim, o que fiz?

 Deveras, ignora?

 Quer que lhe jure?

 Queria ver isto...

 Isabel, essas palavras!...

 So dum corao ofendido,
interrompeu a moa com amargura. O senhor ama a outra.

 Eu?...

Aqui desisto de descrever o gesto
de espanto de Jlio; a pena nunca o poderia fazer, nem talvez o pincel. Era o
agente mais natural, mais aparentemente espontneo que ainda se viu neste
mundo, a tal ponto que a moa vacilou, e atenuou as suas primeiras palavras com
estas:

 Pelo menos, parece...

 Mas como?

 Vi-o olhar com certo ar para a
Lusa, quando outro dia ela aqui esteve...

 Nego.

 Nega? Pois bem; mas negar
tambm que, vendo o retrato dela, no meu lbum, me disse:  to bonita esta
moa!

 Pode ser que o dissesse; creio
at que o disse... h coisa de oito dias; mas que prova isso?

 No sei se prova muito mas em
todo o caso foi bastante para fazer doer a um corao amante.

 Acredito, observou Jlio; seria
porm bastante para o audacioso passo que deu?

 Que passo? perguntou Isabel
abrindo muito os olhos.

Jlio ia explicar as suas
palavras, quando um primo de Isabel se aproximou do grupo e a conversa ficou
interrompida.

No foi porm sem algum resultado
o pouco tempo em que falaram, porque ao despedir-se Jlio no fim da noite,
Isabel apertou-lhe a mo com certa fora, indcio certo de que as pazes estavam
feitas.

 Agora a outra, disse ele saindo
da casa de Isabel.

CAPTULO
III

Lusa estava ainda como Isabel,
fria e reservada para com ele. Parece, entretanto, que suspirava por lhe falar;
foi ela a primeira que procurou uma ocasio de ficar a ss com ele.

 J estar menos cruel comigo? perguntou
Jlio.

 Oh! no.

 Mas que lhe fiz eu?

 Pensa ento que eu sou cega?
perguntou-lhe Lusa com olhos indignados; pensa que eu no vejo as coisas?

 Mas que coisas?

 O senhor anda de namoro com a
Isabel.

 Oh! que idia!

 Original, no ?

 Originalssima! Como descobriu
semelhante coisa? Conheo aquela moa h muito tempo, temos intimidade, mas no
a namoro nem tal idia tive, nunca na minha vida.

  por isso que lhe deita uns
olhos to ternos?...

Jlio levantou os ombros com um ar
to desdenhoso que a moa acreditou logo nele. No deixou de lhe dizer, como a
outra lhe dissera:

 Mas para que olhou outro dia com
tanta admirao para o retrato dela, dizendo at com um suspiro: Que moa
gentil!

  verdade isso, menos o suspiro,
respondeu Jlio; mas onde est o mal em achar uma moa bonita, se nenhuma me
parece mais bonita que voc, e sobretudo nenhuma  capaz de me prender como
voc?

Jlio disse ainda muito mais por
este teor velho e gasto, mas de efeito certo; a moa estendeu-lhe a mo
dizendo:

 Ento era engano meu?

 Oh! meu anjo! engano profundo!

 Est perdoado... com uma
condio.

 Qual?

  que no h de cair em outra.

 Mas se eu no ca nesta!

 Jure sempre.

 Pois juro... com uma condio.

 Diga.

 Por que razo no tendo plena
certeza de que eu amava a outra (e se a tivesse no me falava mais decerto),
por que razo, pergunto eu, foi voc naquela noite...

 O ch est na mesa; vamos tomar
ch! disse a me de Lusa aproximando-se do grupo.

Era foroso obedecer; e nessa
noite no houve mais ocasio de explicar o caso.

Nem por isso Jlio saiu menos
contente da casa de Lusa.

Esto ambas vencidas e
convencidas, disse ele consigo; agora  preciso escolher e acabar com isto.

Aqui  que estava a dificuldade.
J sabemos que ambas eram igualmente belas, e Jlio no procurava outra
condio. No era fcil escolher entre duas criaturas igualmente dispostas para
ele.

Nenhuma delas tinha dinheiro,
condio que podia fazer pender a balana posto que Jlio fosse indiferente
nesse ponto. Tanto Lusa como Isabel eram filhas de funcionrios pblicos que
apenas lhes deixavam um escasso montepio. Sem uma forte razo que fizesse
pender a balana, era difcil a escolha naquela situao.

Alguma leitora dir que por isso
mesmo que eram de igual condio e que ele as no amava de corao, era fcil a
escolha. Bastava-lhe fechar os olhos e agarrar a primeira que lhe ficasse 
mo.

Erro manifesto.

Jlio podia e era capaz de fazer
isso. Mas no mesmo instante que escolhesse Isabel ficava com pena de no ter
escolhido Lusa, e vice-versa, donde se v que a situao era para ele
intricada.

Mais de uma vez levantou-se ele da
cama com a resoluo assentada:

 Vou pedir a mo da Lusa.

A resoluo durava-lhe s at o almoo.
Acabado o almoo, ia ver (pela ltima vez) Isabel e logo afrouxava com pena de
a perder.

H de ser esta! pensava ele.

E logo lembrava-se de Lusa e no
escolhia nem uma nem outra.

Tal era a situao do nosso Jlio,
quando se deu a cena que passo a referir no captulo seguinte.

CAPTULO IV

Trs dias depois da conversa de
Jlio com Lusa, foi esta passar o dia em casa de Isabel, acompanhada de sua
me.

A me de Lusa era de opinio que
a filha era o seu retrato vivo, coisa que ningum acreditava por mais que ela o
repetisse. A me de Isabel no ousava ir to longe mas afirmava que, no tempo
de sua mocidade, fora ela muito parecida com Isabel. Esta opinio era recebida
com incredulidade pelos rapazes e com resistncia pelos velhos. At o major
Soares, que fora o primeiro namorado da me de Isabel, insinuava que essa
opinio devia ser recebida com extrema reserva.

Oxal porm fossem as duas moas
como suas mes eram, dois coraes de pomba, que amavam estremecidamente as
filhas, e que eram com justia dois tipos de austeridade conjugal.

As duas velhas entregaram-se s
suas conversas e consideraes sobre arranjos de casa ou assuntos de pessoas
conhecidas, enquanto as duas moas tratavam de modas, msicas, e um pouco de
amores.

 Ento o teu tenente no volta do
Sul? disse Lusa.

 Eu sei! Parece que no.

 Tens saudades dele?

 E ter ele saudades de mim?

 Isso  verdade. Todos esses
homens so assim, disse Lusa com convico; muita festa quando se acham
presentes, mas ausentes so temveis... valem tanto como o nome que se escreve
na areia: vem a gua e lambe tudo.

 Bravo, Lusa! Ests poeta!
exclamou Isabel. J falas em areias do mar!

 Pois olha, no namoro nenhum
poeta nem homem do mar.

 Quem sabe?

 Sei eu.

  ento?...

 Um rapaz que tu conheces!

 J sei,  o Avelar.

 Deus nos acuda! exclamou Lusa.
Um homem vesgo.

 O Rocha?

 O Rocha anda todo cado pela
Josefina.

 Sim?

  uma lstima.

 Nasceram um para o outro.

 Sim, ela  uma moleirona como
ele.

As duas moas gastaram assim algum
tempo a tasquinhar na pele de pessoas que ns no conhecemos nem precisamos
disso, at que voltaram ao assunto capital da conversa.

 J vejo que no pode adivinhar
quem  o meu namorado, disse Lusa.

 Nem voc o meu, observou Isabel.

 Bravo! ento o tenente...

 O tenente est pagando.  muito
natural que as rio-grandenses o tenham encantado. Pois agente-se...

Enquanto Isabel dizia estas
palavras, Lusa ia folheando o lbum de retratos que estava sobre a mesa.
Chegando  folha onde sempre vira o seu retrato, a moa estremeceu. Isabel
notou-lhe o movimento.

 Que ? disse ela.

 Nada, respondeu Lusa fechando o
lbum. Tiraste o meu retrato daqui?

 Ah! exclamou Isabel, isso  uma
histria singular. O retrato foi passar s mos de terceira pessoa, a qual
afirma que fui eu que lho levei alta noite... Ainda no pude descobrir esse
mistrio...

Lusa j ouviu de p estas
palavras. Seus olhos, muito abertos, fitaram-se no rosto da amiga.

 Que ? disse esta.

 Sabes bem o que ests dizendo?

 Eu?

 Mas isso foi o que me aconteceu
tambm com o teu retrato... Naturalmente era zombaria comigo e contigo... Essa
pessoa...

 Foi o Jlio Simes, o meu
namorado...

Aqui devia eu pr uma linha de
pontos para significar o que se no pode pintar, o espanto das duas amigas, as
diferentes expresses que tomou a fisionomia de cada uma delas. No tardaram as
explicaes; as duas rivais reconheceram que o seu namorado comum era pouco
mais ou menos um patife, e que o dever de honra e de corao era tomar dele uma
vingana.

 A prova de que ele nos enganava
uma  outra, observava Isabel,  que os nossos retratos apareceram l e foi ele
naturalmente quem os tirou.

 Sim, respondeu Lusa, mas 
certo que eu sonhei alguma coisa que combina com a cena que ele alega.

 Tambm eu...

 Sim? Eu sonhei que me haviam
falado do namoro dele com voc, e que, tirando o retrato do lbum, fora lev-lo
 casa dele.

 No  possvel! exclamou Isabel.
O meu sonho foi quase assim, ao menos no final. No me disseram que ele tinha
namoro com voc; mas eu mesma vi e ento fui levar o retrato...

O espanto aqui foi ainda maior que
da primeira vez. Nem estavam s espantadas as duas amigas; estavam aterradas.
Embalde procuravam explicar a identidade do sonho, e mais que tudo a
coincidncia dele com a presena dos retratos em casa de Jlio e a narrao que
este fizera da noturna aventura.

Estavam assim nesta duvidosa e
assustadora situao, quando as mes vieram em auxlio delas. As duas moas,
estando  janela, ouviram-lhes dizer:

 Pois  verdade, minha rica Sr
Anastcia, estou no mesmo caso da senhora. Creio que a minha filha  sonmbula,
como a sua.

 Tenho uma pena com isto!

 E eu ento!

 Talvez casando-as...

 Sim, pode ser que banhos de
igreja...

Informadas assim as duas moas da
explicao do caso, ficaram um tanto abaladas; mas a idia de Jlio e suas
travessuras tomou logo o lugar que lhe competia na conversa das duas rivais.

 Que pelintra! exclamavam as duas
moas. Que velhaco! que prfido!

O coro de maldies foi ainda mais
longe. Mas tudo acaba neste mundo, principalmente um coro de maldies; o
jantar interrompeu aquele; as duas moas foram de brao dado para a mesa e
afogaram as suas mgoas num prato de sopa.

CAPTULO V

Jlio, sabendo da visita, no se
atreveu a ir encontrar as duas moas juntas. No p em que as coisas se achavam
era impossvel evitar que descobrissem tudo, pensava ele.

No dia seguinte porm foi de tarde
 casa de Isabel, que o recebeu com muita alegria e ternura.

Bom! pensou o namorado, nada
contaram uma  outra.

 Engana-se, disse Isabel
adivinhando pela alegria do rosto dele qual era a reflexo que fazia. Pensa
naturalmente que Lusa nada me disse? Disse-me tudo, e eu nada lhe ocultei...

 Mas...

 No me queixo do senhor,
continuou Isabel com indignao; queixo-me dela que devia ter percebido e
percebeu o que entre ns havia, e apesar disso aceitou a sua corte.

 Aceitou, no; posso dizer que
fui compelido.

 Sim?

 Agora posso falar-lhe com
franqueza; a sua amiga Lusa  uma namoradeira desenfreada. Eu sou rapaz; a
vaidade, a idia de passatempo, tudo isso me arrastou, no a namor-la, porque
eu era incapaz de esquecer a minha formosa Isabel; mas a perder algum tempo...

 Ingrato!

 Oh! no! nunca, minha boa
Isabel!

Aqui comeou uma renovao de
protestos da parte do namorado, que declarou amar mais que nunca a filha de D. Anastcia.

Para ele a coisa estava resolvida.
Depois da explicao dada e dos termos em que falara da outra, a escolha
natural era Isabel.

Sua idia foi no procurar mais a
outra. No o pde fazer  vista de um bilhete que no fim de trs dias recebeu
da moa. Pedia-lhe ela que fosse l instantemente. Jlio foi. Lusa recebeu-o
com um sorriso triste. Quando puderam falar a ss:

 Quero saber da sua boca o meu
destino, disse ela. Estarei definitivamente condenada?

 Condenada!

 Sejamos francos, continuou a
moa. Eu e a Isabel falamos no senhor; vim a saber que tambm a namorava. A sua
conscincia lhe dir que praticou um ato indigno. Mas enfim, pode resgat-lo
com um ato de franqueza. A qual de ns escolhe, a mim ou a ela?

A pergunta era de atrapalhar o
pobre Jlio, nada menos que por duas grandes razes: a primeira era ter de
responder em face; a segunda era ter de responder em face de uma moa bonita.
Hesitou alguns largos minutos. Lusa insistiu; mas ele no se atrevia a romper
o silncio.

 Bem, disse ela, j sei que me
despreza.

 Eu!

 No importa; adeus.

Ia a voltar as costas; Jlio
segurou-lhe na mo.

 Oh! no! Pois no v que este
meu silncio  de comoo e de confuso. Confunde-me realmente que descobrisse
uma coisa em que eu pouca culpa tive. Namorei-a por passatempo; no foi Isabel
nunca uma rival sua no meu corao. Demais, ela no lhe contou tudo;
naturalmente escondeu a parte em que a culpa lhe cabia. E a culpa  tambm
sua...

 Minha?

 Sem dvida. Pois no v que ela
tem interesse em separar-nos?... Se lhe referir, por exemplo, o que se est
passando agora entre ns fique certa de que ela h de inventar alguma coisa
para de todo separar-nos, contando depois com a sua beleza para cativar o meu
corao, como se a beleza de uma Isabel pudesse fazer esquecer a beleza de uma
Lusa.

Jlio ficou satisfeito com este
pequeno discurso, assaz astuto para enganar a moa. Esta, depois de algum tempo
de silncio, estendeu-lhe a mo:

 Jura-me o que est dizendo?

 Juro.

 Ento ser meu?

 Unicamente seu.

Assim celebrou Jlio os dois
tratados de paz, ficando na mesma situao em que se achava anteriormente. J
sabemos que a sua fatal indeciso era a causa nica da crise em que os
acontecimentos o puseram. Era foroso decidir alguma coisa; e a ocasio
ofereceu-se-lhe propcia.

Perdeu-a, entretanto; e dado que
quisesse casar, e queria, nunca estivera mais longe do casamento.

CAPTULO VI

Cerca de seis semanas foram assim
correndo sem resultado algum prtico.

Um dia, achando-se em conversa com
um primo de Isabel, perguntou-lhe se teria gosto em v-lo na famlia.

 Muito, respondeu Fernando (era
assim o nome do primo).

Jlio no deu explicao da
pergunta. Instado respondeu:

 Fiz-lhe a pergunta por uma razo
que saber mais tarde.

 Querer talvez casar com alguma
das manas?...

 No posso dizer nada por ora.

 Olha aqui, Teixeira, disse
Fernando, a um terceiro rapaz, primo de Lusa, e que nessa ocasio se achava em
casa de D. Anastcia.

 Que ? perguntou Jlio
assustado.

 Nada, respondeu Fernando, vou
comunicar ao Teixeira a notcia que o senhor me deu.

 Mas eu...

  nosso amigo, posso ser franco.
Teixeira, sabe o que me disse o Jlio?

 Que foi?

 Disse-me que vai ser meu
parente.

 Casando com alguma irm tua.

 No sei; mas disse isso. No te
parece motivo de congratulao?

 Sem dvida, concordou Teixeira,
 um perfeito cavalheiro.

 So obsquios, interveio Jlio;
e se eu alguma vez alcanasse a fortuna de entrar...

Jlio interrompeu-se; lembrou-se
que Teixeira podia ir contar tudo  prima Lusa, e fosse inibido de escolher
entre ela e Isabel. Os dois quiseram saber o resto; mas Jlio preferiu
convid-los a jogar o solo, e no houve meio de arrancar-lhe palavra.

A situao porm devia acabar.

Era impossvel continuar a vacilar
entre as duas moas, que ambas lhe queriam muito, e a quem ele queria com
perfeita igualdade no sabendo qual delas escolhesse.

Sejamos homem, disse Jlio
consigo. Vejamos: qual delas devo ir pedir? A Isabel. Mas a Lusa  to bonita!
Ser a Lusa. Mas  to formosa a Isabel! Que diabo! Por que razo no h de
uma delas ter um olho furado? ou uma perna torta!

E depois de algum tempo:

Vamos, Sr. Jlio, dou-lhe trs
dias para escolher. No seja tolo. Decida com isto por uma vez.

E enfim:

Verdade  que uma delas h de
odiar-me. Mas pacincia! fui eu mesmo que me meti nesta embrulhada; e o dio de
uma moa no pode doer muito. Avante!

No fim de dois dias ainda ele no
tinha escolhido; recebeu porm uma carta de Fernando concebida nestes termos:

Meu caro Jlio.

Participo-lhe que brevemente
casarei com a prima Isabel; desde j o convido para a festa; se soubesse como
estou contente! Venha c para conversarmos.

Fernando.

No  preciso dizer que Jlio foi
s nuvens. O passo de Isabel simplificava muito a situao dele; todavia, no
queria ser assim despedido como um tolo. Exprimiu a sua clera por meio de
alguns murros na mesa; Isabel, por isso mesmo que j no a podia possuir,
parecia-lhe agora mais bonita que Lusa.

 Lusa! Pois ser Lusa! exclamou
ele. Essa sempre me pareceu muito mais sincera que a outra. At chorou, creio
eu, no dia da reconciliao.

Saiu nessa mesma tarde para ir
visitar Lusa; no dia seguinte iria pedi-la. Em casa dela foi recebido como
sempre. Teixeira foi o primeiro a dar-lhe um abrao.

 Sabe, disse o primo de Lusa
apontando para a moa, sabe que vai ser a minha noiva?

No me atrevo a dizer o que se
passou na alma de Jlio; basta dizer que jurou no casar, e que morreu h pouco
casado e com cinco filhos.
