Conto, Um para o outro, 1879

Um para o outro

Texto-fonte:

Contos de Machados de
Assis: Relicrios e raisonns, de Mauro Rosso,

Editora PUC Rio, Edies
Loyola, Rio de Janeiro, 2008.

Publicado originalmente
em A Estao, de 30/07 a 15/10/1879.

I

 Vivam um para o outro, foi a ltima
palavra do coronel Trindade no leito da morte.

Ouviram-lhe, com religioso respeito,
seus dois filhos Henriqueta e Julio, ela de 18 anos, ele de 20; mas nada lhe
puderam responder. Cabia a vez ao soluo: a dor de perder o pai era mais que
tudo naquela ocasio.

Tambm nada mais disse o moribundo; foi
aquela a ltima palavra, se palavra se pode chamar um som mal expresso e j
tingido da descor da morte. Poucos minutos depois morreu o coronel, e morreu
sobre a tarde do dia 4 de outubro de 1862. A casa em que se finava era situada
no Engenho Velho, e fora mandada construir por ele mesmo, alguns anos antes.

 J sei que te pretendes casar,
disse-lhe por essa ocasio o mais galhofeiro de seus amigos, o desembargador
Tinoco.

 No, retorquiu ele; a minha vida 
cair com a casa  cairmos de velhos.

Mas a idia falhou, e o coronel morreu
com pouco mais de cinqenta anos, vivo qual era desde os quarenta, entre seus
dois filhos e alguns parentes, mais ou menos chegados. Julio e Henriqueta
deram ao morto as lgrimas do mais sincero desespero: no houve consolaes,
naquele lance, que pudessem entorpecer a dor ntima e profunda, nem
minguar-lhes a manifestao ruidosa; no as podia haver. Desde longos anos, o
velho coronel era para eles pai e me; era quem lhes substitua a esposa
extinta e nunca deslembrada. Acresce que a doena que levava o pai fora rpida,
e destrura em poucos dias um organismo que parecia destinado a enterrar ainda
muitos anos; e, ao cabo, o enterrado era ele, com todo o vigor de que dispunha.

No era pobre o coronel Trindade, mas
abastado, e sobre abastado, econmico; de maneira que, ao menos, no teve a dor
de deixar os filhos ao desamparo  e digo ao desamparo, porque Julio no
completara ainda os estudos, no tinha posio ou emprego, donde tirasse a
subsistncia, se precisasse de a ganhar. Estudava na Escola Central, diziam ser
bom estudante, e assim provou ser em todos os exames que fez, e dos quais se saiu
com aprovao plena, e no raras vezes com louvor. A esperana do coronel era
ver o filho engenheiro, louvado e procurado  o engenheiro Trindade  filho do
coronel Trindade; era a sua esperana e seria a sua glria. A realidade foi
outra  to certo  que a esperana  nada.

II

Um ano depois do acontecimento, apenas
indicado no outro captulo, recebeu Julio o seu diploma de engenheiro  e esse
remate de alguns anos de honrado labor, de estudos srios, no lhe deu a
alegria com que contava; faltava uma pessoa. A irm, que no menos do que ele
sentia aquela ausncia, buscou ainda assim dissimul-la; e ele, pela sua parte,
tratou de esconder o que sentia. Esses dois coraes possuam o melindre dos
sentimentos, a discrio das dores repartidas, que no desejam agravar-se
mutuamente, e portavam-se com a habilidade que a natureza no concede a muitos,
talvez a raros.

 Julio, disse Henriqueta trs dias
antes deste tomar o grau de engenheiro  tive uma idia.

 Que ?

 Quero primeiro que voc aprove.

 Mas que ?

 Aprova?

Julio sorriu.

 Se no  enforcar-me, aprovo, disse
ele.

 No  enforcar,  jantar;  jantar no
dia em que voc receber o seu diploma de engenheiro.

 Ora!

 Qual ora! J tenho a lista dos
convidados; so os nossos parentes.

 S?

S.

 Titia, que diz? perguntou Julio a uma
senhora idosa que estava na sala, a poucos passos, com um jornal na mo.

 Digo que Henriqueta pensa muito bem.

A tia de que se trata era-o por parte de
me; tinha os seus cinqenta anos, chamava-se D. Antonica; vivia com eles desde
a morte do irmo.

No havia remdio: Julio aceitou o
jantar; limitou-se, todavia, a pedir que no fosse lauto nem ruidoso; queria
uma coisa puramente de famlia, porque o acontecimento era de famlia.

J sabemos que Julio fora bom
estudante; sabemos tambm que era excelente rapaz; acrescentemos que no era
feio, antes bonito, gravemente bonito, msculo e srio. No se imagine um
jarreta, enfronhando a sua mocidade numa gravata de sete voltas; no: sabia ser
elegante, gostava de andar  moda; no usava, porm, pedir  moda todas as suas
extravagncias e excessos; era discreto at no vestir.

Henriqueta pertencia  classe de
mulheres que sabem ornar-se, qualquer que seja a qualidade do estofo ou o corte
do vestido; tinha a elegncia nativa. Era alta, cheia, musculosa, talhada com
amor no mais belo mrmore humano. Talvez no agradassem a alguns os olhos
pardos e pequeninos; mas o olhar que chispava deles devia por fora angariar
adoradores ou amigos; amigos sim, que eram da natureza dos que falam mais aos
sentimentos do que aos sentidos. Eram pequenos de si, e pequenos porque a testa
era larga, uma testa serena e pura; to pura e to serena como o pensamento que
ardia no interior. Nunca esse pensamento cogitara no mal; ignorava-o, que  o
melhor meio de o no atrair. A boca, que era delicadamente fendida sobre um
queixo macio e redondo, no conhecera ou no pronunciara jamais uma s palavra
de clera, porque a prpria travessura de Henriqueta, quando criana, era das
que se acomodam sem gritos nem lgrimas. Henriqueta era o tipo da complacncia,
da bondade, da resignao branda e modesta. Quem lho no lesse na figura e nas
maneiras, compreend-lo-ia no fim de alguns dias de trato.

A pontualidade com que ela obedeceu ao
desejo do irmo provava o que j sabemos  isto , que era de sua parte dcil,
e que tambm sentia a ausncia do chefe da famlia. O jantar foi simples,
modesto e tranqilo; nenhum tumulto, nenhuma excessiva alegria. Os donos da
casa deram o tom aos convivas; cada um destes compreendeu que faltava algum
pessoa e que era acertado no acord-lo do sono.

 Esteve a teu gosto? perguntou
Henriqueta de noite quando o ltimo convidado tinha sado.

 Tu s um anjo!

 Um anjo de cozinha, concluiu
Henriqueta rindo.

A casa em que moravam era a mesmo do
Engenho Velho. Tinham-na deixado logo depois da morte do coronel; mas trs
meses depois voltaram para ali, menos por motivo econmico que de piedade
filial. Queriam ter presente a lembrana do pai  agora que a dor podia
suport-la, havendo j o tempo feito a sua ao inevitvel e benfica. Julio
poucas semanas depois de receber o diploma de engenheiro, alcanou uma nomeao
do governo, que o obrigou a ir  provncia do Rio durante poucas semanas; dali
veio, tendo concludo a comisso mais depressa do que se esperava. Logo depois
obteve outra nomeao que o no obrigava a sair, mas a ficar na Corte. Era
muito melhor para ele e para ela; e nisto chegamos aos primeiros dias de 1864.

III

Naqueles primeiros dias de 1864, veio do
Norte um parente de Julio, que l estivera alguns anos como inspetor da
Alfndega, e agora tornava, exonerado a seu pedido, porque tinha de ir liquidar
uma herana em S. Paulo. No se demorou muito tempo nesta Corte, mas em um dos
poucos dias em que aqui esteve convidou Julio a jantar, e jantaram
efetivamente juntos, eles e mais um rapaz, tambm do Norte, que o acompanhava a
passeio e devia regressar no fim de poucas semanas. Era bacharel este rapaz,
exercera j um lugar de promotor pblico, no serto da Bahia, e tinha mais ou
menos desejo de vir para a Cmara dos Deputados: ambio que no destoava da
pessoa e dos talentos, antes parecera seu natural caminho.

 O Pimentel  o melhor orador que tenho
ouvido, disse o ex-inspetor da alfndega.

 Sim?, perguntou Julio com interesse e
cortejando o conviva.

 Pode ser, disse este, mas  porque
voc me ouviu sempre e com as orelhas do corao. A cabea, se me ouvisse,
seria de outro parecer.

O parente de Julio contestou
energicamente; Pimentel, vendo-se objeto de uma conversa laudatria, desviou
habilmente as atenes: dentro de poucos minutos falavam da situao poltica.
Como Julio empregasse uma comparao matemtica, a conversa descambou de
repente nas matemticas; depois, enveredaram pela literatura, e se no acaba o
jantar, no era impossvel que penetrassem na teologia. Ora, Pimentel, ainda
nos assuntos estranhos  cincia do Direito, mostrava-se discreto e lido, sem
afetao, nem temeridade, dizendo somente o que sabia, e dizendo-o com modesta
segurana do saber. Julio separou-se dele levando a melhor impresso do mundo;
ofereceu-lhe a casa; Pimentel ofereceu-lhe os seus servios na provncia.

 Deixa-nos breve?

 Daqui a um ms.

 Mas tornar como deputado? disse
Julio rindo.

 Isso...

 Isso h de ser certo, clamou o
ex-inspetor da alfndega.

Trs dias depois encontrou-os Julio no
teatro; num dos intervalos conversaram muito; noutro levou-os Julio ao
camarote, onde estavam a irm e a tia. A apresentao foi fcil, a conversa
interessante, a recproca impresso excelente. Uma semana mais tarde,
encontraram-se em uma loja da rua do Ouvidor, a famlia Trindade e o dr.
Pimentel; este noticiou que acompanhava o parente da famlia a S. Paulo, mas
que esperava voltar sozinho, para regressar  provncia natal. Na vspera de
sair, dirigiu-se ao Engenho Velho, e deixou l um carto de despedida.

Foi Henriqueta que o recebeu, e, para
ser sincero, devo dizer que o recebeu de m cara. Notem que no me refiro ao
bacharel, mas ao carto; o bacharel  provvel que tivesse agasalho mais
benigno. Talvez a razo da diferena esteja na circunstncia de que um carto,
por melhor que o litgrafo o atavie, no possui um par de olhos negros como os
que alumiavam o rosto de Pimentel, uns olhos que na noite do teatro pareceram a
Henriqueta singularmente graciosos e dignos de estima. Tambm se pode dizer que
um carto de visita, se  um sinal de ateno, no tem em si essa qualidade, ao
passo que o dr. Pimentel possua aquele gnero de ateno delicada, que melhor
fala ao esprito das mulheres. Enfim, o carto queria dizer despedida,
separao, ausncia; e Henriqueta confessava de si para si que a convivncia do
Pimentel devia ser muito agradvel ao... Julio.

Dizia isto, e no me  dado atribuir-lhe
outra coisa  ao menos por agora, que os olhos do Pimentel tiveram o mesmo
destino de, todos os olhos que passam depressa: a lembrana deles foi
amortecendo devagar, at que de todo se apagou. No fim de trs semanas estava
tudo acabado; foi justamente a ocasio em que o Pimentel desembarcou de Santos.

IV

 Sabes quem chegou hoje? perguntou
Julio a Henriqueta, um dia ao jantar.

 Quem?

 O Dr. Pimentel.

Henriqueta teve uma impresso leve, e
no duradoura; o ex-promotor estava esquecido. Contudo, no pde reprimir o sentimento
da curiosidade Julio, que nada percebera at ali, continuou a falar do
bacharel, com um entusiasmo, facilmente comunicativo. Henriqueta ouvia-o com
interesse; perguntou-lhe se no viera tambm o ex-inspetor da Alfndega, e,
dizendo-lhe ele que no, hesitou se devia indagar da demora do Pimentel; mas
cedeu, e perguntou:

 O Pimentel demora-se ou volta j para
o Norte?

 No sei;  provvel que volte.

 Estiveste com ele?

 No, mas hei de ir l amanh.

Tinham acabado de jantar; Henriqueta
sentiu que estava muito calor, mas em vez de ir para o porto da chcara, como
lhe propusera Julio, foi tocar piano; tocou meia valsa, depois meia sinfonia,
enfim, meio romance; no acabou nada.

 Que tens tu hoje? disse-lhe a tia.

 Nada; aborrece-me o piano.

 Queres ir ao teatro? perguntou Julio.

Henriqueta ia a dizer sim, mas recuou.

  tarde; iremos n'outro dia.

 Um passeio?

 Estou cansada.

 No  porque tocasses com os ps,
disse rindo o irmo.

Ouvindo esta palavra, Henriqueta ficou
amuada, como se a frase em si, e, quando no a frase, como se a inteno
pudesse ser-lhe ofensiva. Ficou amuada, sem que lho percebesse a famlia; e
porque a famlia no lho percebeu, recolheu-se  alcova dentro de poucos
minutos. Quando Julio no a viu, e soube que se recolhera, no pde dissimular
o espanto.

 Que tem Henriqueta? disse  tia.

 No sei; depois do jantar ficou assim.
Talvez esteja doente; vou ver o que .

D. Lcia (era este o seu nome), foi achar
a sobrinha, enterrada numa poltrona, com um livro nas mos, a ler, ou fingir
que lia; foi o que a tia pensou; mas a verdade  que Henriqueta iludia-se a si
mesma, supondo que lia alguma coisa; tinha os olhos na pgina, e at corriam de
palavra em palavra, e de linha em linha. Corriam somente; no apreendiam o
sentido do escrito, que l ficava, mudo, e quedo, e impenetrado.

No tinha D. Lcia a sagacidade que
fareja as comoes morais; para ela tudo era dores, nsias, calafrios, ou
quaisquer outros fenmenos de comoo fsica. Conseguintemente, no mentiu, no
dissimulou nada quando perguntou  sobrinha se lhe doa a cabea.

 Bastante, disse esta.

 Mas ento por que ls?

 Para distrair-me.

 Que idia! Isso  pior; d c o livro.

Tirou-lhe o livro das mos; depois
props-lhe fazer alguma mesinha, ao que Henriqueta se recusou, dizendo que era
melhor no fazer nada; havia de passar por si.

Tens febre?

 Ora, febre! disse Henriqueta rindo.

E rindo estendeu o pulso  tia, que lho
tomou com o ar mais doutoral que pde ter uma senhora; e foi rindo tambm que a
tia lhe declarou:

 Tens febre para amanh. Anda c fora;
aqui est muito abafado. O ar livre h de fazer-te bem.

No resistiu a moa; nem sequer cedeu de
m vontade. Ao contrrio, era aquilo mesmo o que queria, porque, tendo
obedecido a um impulso de mal cabido ressentimento, doa-lhe agora o que
fizera, e ardia, por ler nos olhos do irmo,  ou a ignorncia ou desculpa do
que se passara. Julio, que no percebera nada, acolheu a irm com a maior
naturalidade do mundo,  um pouco ansioso,  certo, por saber se estava doente,
mas quando ela lhe disse que era uma simples dor de cabea, j agora quase
extinta, abraou-a radiante, e a noite acabou numa palestra de famlia.

Vulgar  o episdio, simples  o
sentimento; nada a h que merea uma pgina de novela, nem que se imprima
fortemente no esprito; mas simples, mas vulgar, a vida dessas poucas horas
entre o jantar e o sono deu a Henriqueta uma srie de reflexes graves. A idia
de se ter mostrado ofendida com o irmo roeu-lhe cruelmente a conscincia. No
esqueamos que Henriqueta possua a docilidade entre as suas mais excelentes
virtudes. Por que motivo aquele arremesso e aquela injustia, onde no houvera ofensa
nenhuma? A esta pergunta, que a si mesma fazia, Henriqueta no achou que
responder,  ou antes no quis ach-lo, porque uma vaga recordao lhe alvejou
no pensamento, e ela repeliu-a irritada e envergonhada.

J ento era tarde; toda a famlia
dormia. Sentada ao p de uma janela aberta, com os olhos ao longe, no eterno
impenetrvel, Henriqueta relembrava, no s as ltimas horas, como os ltimos
dias, como as ltimas semanas; fazia uma espcie de exame de conscincia, sem
argies nem desculpas, mas friamente, como quem julga a outrem. Talvez a
imagem do pai lhe aparecesse nessa ocasio; pode ser tambm que lhe ouvisse a
voz; mas se lhe respondeu, no falou com os lbios, mas com o corao, e foram
de paz as palavras, porque de paz lhe foi o sono.

 Passou a dor de cabea? perguntou-lhe
a tia no dia seguinte de manh, quando Henriqueta lhe foi falar.

 Para sempre, foi a sua resposta.

V

Para sempre? dir consigo a leitora, que
de certo entendeu a dor de cabea de Henriqueta, e provavelmente duvidara da
cura. Velhas dores, eternas dores, que tu sentiste, ou sentes, ou virs a
sentir um dia  o que j mostravam aqueles dois versinhos que Voltaire aplicou
ao amor. Quem quer que sejas  dizia  teu senhor  este. II est, le fut ou
le doit tre.  o teu caso, morena ou loura que me ls, foi o caso de tua
av, era o da nossa Henriqueta; e  por isso que a leitora tem muita razo de
duvidar que to cedo lhe morresse a dor  ou ao menos, que morresse para
sempre.

No obstante, foi o que ela disse, e
mostrou galhardamente em todo esse dia e nos outros. Voltara a alegria habitual
 a princpio nimio ruidosa, como se a assoprasse um pouco de oculto propsito,
mas logo depois natural e sincera. Uma nuvem apenas  pesada, mas nuvem, e j
agora extinta.

Um dia, seis ou sete depois daquele
incidente, foi convidado o Pimentel a jantar em casa de Julio; l foi, l o
receberam com as mais sensveis mostras de afeto, e no houve outro caminho de
intimidade. A intimidade que vem s do costume  frouxa e facilmente
suspeitosa; a que se funda na afeio recproca  menos precria. Era o caso
dos dois rapazes: no tardou muito que se mostrassem quais eram e quais
desejariam que fossem.

Entretanto, o Pimentel devia voltar para
o Norte: transferiu muitas vezes a viagem, mas afinal era preciso realiz-la, e
no teve outro remdio se no ir  sabe Deus com que saudade! disse ele a
Julio.

 Por que no fica mais tempo?

 No posso; h razes de famlia; em
todo o caso, voltarei.

 Quando?

 Depois de alguns meses.

 Vinte ou trinta, no?

 Oh! No! Trs ou quatro.

 Promete?

 Prometo.

Henriqueta recebeu a notcia de outro
modo  uma grande tranqilidade, quase indiferena; e realmente seria bem
curioso, quem pretendesse saber as causas do ar sombrio com que Pimentel viu a
impresso que deixava  moa o motivo de sua partida. O mais que se pode saber
 que no disse nada: boliu com a corrente do relgio, consertou a gravata,
depois olhou para a ponta da botina; depois quis dizer alguma coisa, mas
provavelmente esquecera as palavras, e achou melhor sair, e foi o que fez da a
dois minutos.

Ora,  bem difcil que um homem se
contente com a indiferena alheia em coisas que parecem importar-lhe
grandemente; por esse ou por outro motivo, o Pimentel tornou  conversao, na
vspera da partida, acrescentando que ia acabrunhado.

 Por qu? disse Henriqueta.

 A Corte sempre deixa saudades,
ponderou ele.

 Isso  verdade; mas o senhor voltar
daqui a algum tempo; creio que j me falou em quatro meses.

 Quatro ou trs.

 Quase que era melhor no ir.

 Se pudesse ficar, ficava, disse
vivamente o Pimentel; mas h razes fortes....

 Quatro meses passam-se depressa.

 Conforme, disse o Pimentel olhando
para ela...

Henriqueta no respondeu nada, nem com a
boca, nem com os olhos; falou do ltimo espetculo, depois do enjo do mar, do
calor, e de Petrpolis. O Pimentel acompanhou-a por esse caminho; quis depois
tornar ao primeiro, que era para ele a estrada real; ela porm fugiu-lhe. No
insistiu o Pimentel; tratou de coisas estranhas, e procurou at coisas alegres;
mas s as achou de uma alegria violenta, como o cmico dos atores sem graa. De
noite, entrando no hotel, tirou essa mscara do rosto, e a ss consigo
recapitulou as ltimas horas, os ltimos dias e as ltimas semanas. Digo que
recapitulou, sem dizer primeiro que se despiu, porque assim mesmo como estava,
assim se atirou a um sof, com o chapu na cabea, e os olhos em nenhuma parte,
ou longe dali. A expresso do rosto era de abatimento, de despeito, de nsia;
coisa que ainda mais se acentuou, quando ele lanando fora o chapu, disse em
voz alta e rude:

 Perco o meu tempo! no me ama.

Julio foi acompanh-lo a bordo no dia
seguinte; pediu-lhe muito que voltasse e o mais cedo possvel.

 Lembre-se que j me prometeu.

 J.

 E cumpre?

 Cumpro.

 Palavra?

 Para que, se lhe digo que sim?
balbuciou o Pimentel.

Despediram-se; o vapor seguiu; Julio
veio para terra. Quando o vapor perdeu a vista da cidade, ningum ouviu, mas 
certo que o Pimentel olhando para a gua que batia no costado do navio, repetia
l no fundo do pensamento:

 Nem quatro meses, nem quatro anos.

VI

Henriqueta deixou-se estar, nem triste
nem alegre; indiferente. A vida da famlia tornou a ser o que era antes:
patriarcal e quieta. Alguns recreios ntimos, poucos externos, e nenhum que
excedesse da mediana discreta e honrada. Nessa parte, como em tudo mais, eram
harmnicos os caracteres dos dois irmos: no tinham mais nem menos exigncias.

 Seu irmo parece um urso, disse um dia
a Henriqueta uma moa da vizinhana, relacionada h pouco com eles.

 Por qu?

 Porque parece.

 Voc est enganada, disse Henriqueta.
 talvez um pouco assim, calado, metido consigo, mas havendo intimidade...

No outro dia, Henriqueta contou a Julio
o reparo da vizinha. Julio riu, sacudiu os ombros e no comentou de outro modo
o reparo.

 O que  certo que voc  assim mesmo.

 Assim como?

 Bicho do mato.

 Pode ser.

 Sabe voc o que se faz com um bicho?

 Que ?

 Foge-se.

 Ento, voc quer fugir-me?

 E j.

Henriqueta disse esta ltima palavra,
dando um passo para a porta; Julio foi ter com ela, pegou-lhe na mo, e
deu-lhe um bolo. Riram-se muito: sentaram-se depois; falaram de mil vrias
coisas. A tia foi ach-los ali e abanou a cabea, rindo.

 Vocs parecem dois namorados, disse
ela.

 E somos, no ? perguntou Julio.

 Apoiado, concordou Henriqueta.

Dois namorados  eis a verdadeira
definio: no havia outra melhor. Tinham as saudades, os arrufos, as
criancices dos namorados. A afeio que os ligava, tocante e profunda, era j
um vnculo bastante; mas outros vieram refor-lo mais. Assim, o costume da
vida comum, a ndole prpria, e afinal a memria do pai.  Vivam um para o
outro  foram as ltimas palavras do velho moribundo; eles no esqueceram essa
recomendao derradeira: ouviram-na como se fora um preceito da eternidade.
Viviam exatamente um para o outro; no tinham desejos diferentes, e quando os
tinham, chegavam facilmente a combin-los. Pode-se dizer que as impresses de
um eram as de outro, e que um mesmo crebro e um mesmo corao pensava e batia
por ambos. No seria isto exatamente; no era; alguma vez arrufavam-se, mas
essas divergncias no eram mais do que o perrexil do afeto, uma coisa que lhe
dava melhor sabor.

J vimos um desses arrufos. Poucos dias
depois da conversa da vizinha, Henriqueta lembrou a esta para irem a passeio 
Tijuca, um domingo de manha. Assentaram que sim. Henriqueta disse-o depois ao
irmo.

 Fizeste mal, disse este.

 Mal?

Julio conformou o dito com o gesto.

 Mas por qu?

 Ora, um passeio  Tijuca!

 J o temos feito noutras ocasies.

  verdade, mas somos ns e titia.
Agora, uma pessoa estranha...

 Sim, uma vizinha, que s d comigo.
Que tem?

Julio no respondeu.

 Pois bem, disse Henriqueta; vou mandar
dizer que no podemos ir. Deu um passo para a porta da sala; Julio, que a viu
um pouco sria, deteve-a.

 No, disse ele; no mandes dizer nada;
iremos.

 Por qu? se te incomoda?

 Iremos.

Henriqueta ainda insistiu, mas Julio
disse-lhe que j agora melhor era realizar o passeio. A tia, que assistiu ao
debate dos dois, concluiu rindo:

 Sabe o que , Henriqueta?

 No.

 O Julio tem cimes de voc; no quer
que voc se d com suas amigas.

 Sim? dise Henriqueta.

 Que idia!

VII

Henriqueta ficou um pouco abalada com as
palavras da tia. Esta saiu; ela dirigiu-se ao irmo:

 Cimes? perguntou.

Julio sorriu, e levantou os ombros.

 No v que titia est brincando? disse
ele.  uma maneira de explicar a minha hesitao em ir a esse passeio da
Tijuca. Pois eu havia de ter cimes de voc? D-se com quem quiser; voc sabe
que nunca lhe pus obstculo.

 Jura? disse Henriqueta depois de um
instante de silncio. Julio abanou a cabea.

 Patetinha! exclamou ele a rir.

A outra riu tambm, e tudo acabou do
melhor modo, alis do nico, pois bem singular seria que de tal incidente
sasse outra coisa, alm de muito riso. Saiu mais: saiu tambm o passeio 
Tijuca, que se efetuou no domingo prximo, indo Julio, Henriqueta, a amiga desta,
uma prima e o marido da prima.

 O urso vai?

 Vai.

A amiga de Henriqueta, que assim lhe
falou,  porta da casa, quando viu aparecer Julio, era uma moa de vinte anos,
alegre e inquieta como uma andorinha. Chamava-se Fernanda, era filha do comendador
Silva, que fora empregado antigo e conceituado, em um dos bancos da Corte, e
morrera dois anos antes. O comendador deixou alguma coisa  famlia, que podia
assim viver a coberto de necessidades; e, porque a me tinha economia e
prudncia, era difcil que tais necessidades sobreviessem nunca.

Fernandinha, que assim lhe chamavam a
famlia e as amigas, era mui graciosa e elegante. No tinha a beleza que impe,
nem a que eleva, nem a que faz cismar: o tipo era o da comum gentileza  um
pouco de beaut du diable. Mas, alm desta vantagem, que no era pouca,
tinha as qualidades morais, que eram boas e ss. Era dessas criaturas lpidas,
geis, que gostam de rir muito, e de picar tambm, mas picar sem veneno nem
dio, s para ter ocasio de agitar as asas de andorinha e dar trs giros no
ar. De aparncia galhofeira e frvola, escondia um corao bom, compassivo, e
at alguma coisa mais, porque lance houve em que ela deu mostras de muita
constncia e resoluo.

Era solteira, e dizia-se que um primo,
prestes a formar-se em S. Paulo, seria o marido dela. No se sabia bem disso:
mas dizia-se a coisa, e acreditava-se como todas as coisas que ningum sabe se
verdadeiramente existem; basta que cheire a mistrio, e se murmure ao ouvido.

 O Juca? disse ela um dia em que algum
lhe fez uma aluso a isso; pode ser.

 Ento ?

 Pode ser.

Imagina-se o que foi o passeio  Tijuca,
com semelhante companheira, e facilmente se acreditar que a excurso se
repetisse da a um ms ou seis semanas. Fernandinha usara de todas as
liberdades concedidas s pessoas estouvadas: embirrou com o ar srio de Julio
e no o deixou tranqilo muito tempo; dava-lhe o brao, seguia com ele, tornava
atrs, deixava-o, chamava-lhe urso. Julio sorria, e para no justificar muito
o dito da moa, buscava tambm ser estouvado e alegre. Alegre pode ser, mas
estouvado  que no: tinha uma agitao afetada e sem graa.

 Deixe-se disso, murmurou ela ao ouvido
de Julio;  melhor ficar sendo urso. Eu gosto dos ursos.

 J viu algum? perguntou ele.

 Sonho s vezes com um... No  com o
senhor, acrescentou a moa vivamente.

Henriqueta saboreou muito o passeio;
pareceu-lhe que conciliara Julio e Fernandinha. Disse-o em casa  tia, e a ele
mesmo.

 Conciliar? replicou o irmo. Creio que
no era impossvel.

 Mas difcil...

 Talvez difcil, porque a tua amiga 
simplesmente doida.

 Tem uns modos acrianados, concordou a
tia.

 No acha? disse Julio.

 Pode ser que tenha os modos, interveio
Henriqueta, mas s os modos;  muito boa moa, muito afetuosa, muito sincera e
bonita, e eu gosto de ver uma cara bonita.

No vidro da janela, a que se encostara,
Julio rufava com os dedos, olhando para fora, assim como que distrado ou
pensativo; da maneira que Henriqueta acabou o elogio sem contestao e sem
ouvintes. A tia retirara-se antes que ela acabasse de falar; e Julio no
atendeu ao resto.

VIII

Um dia, em casa de Julio, estando j
estreitadas as relaes entre as duas famlias, Fernandinha declarou ao irmo
de Henriqueta que descobrira uma coisa importante e ia revelar-lhe.

 Importante? disse ele.

 Im-por-tan-ts-si-ma, confirmou a moa
com o seu ar mais sonso.

 Que ?

 Descobri uma coisa que o senhor sente
a meu respeito.

E dizendo isto, Fernandinha chegou os
olhos ao rosto de Julio, que empalideceu. Ela no empalideceu, corou muito, e
calou-se um instante.

 Que sinto eu? V l, diga.

 O senhor odeia-me, concluiu a moa.

Julio riu-se, e pareceu desabafado de
uma opresso.

 No  verdade? perguntou ela.

 Pura verdade.

 Agora o que eu no sei  o motivo do
dio, continuou a moa; ao menos no me lembra que lhe tivesse feito nada.

 Nem eu, mas deve ter-me feito alguma
coisa, visto que lhe tenho dio, e dio de morte.

 No ser de morte, mas  dio...

Julio ouviu-a, mas sem comoo.
Fernandinha falou ainda largo tempo, mas o assunto tinha o defeito de ser
montono. Quando se separaram, Julio acompanhou-a com os olhos, calado e
pensativo; ao cabo de alguns minutos, murmurou:

 Por que me vens tu tentar, anjo
rebelde? Deixa-me s comigo, ou espera-me; guarda contigo essa chama que te
sinto luzir nos olhos, e talvez seja amor... talvez!

Fernandinha, que se afastara lentamente,
ia a revolver as palavras escutadas e a cavar o pensamento delas.

 Creio que me ama, dizia ela consigo;
pode ser que no, mas eu creio que me ama... Aquela palidez, aquele tremor da
voz... Ama-me; diga o que quiser, mas estou certa... creio.., afirmo.., espero
que me ame...

A impetuosidade de Fernandinha era s
nas coisas de pouca monta; tratando-se da maior questo da sua vida,
Fernandinha fez-se acanhada e medrosa. No mudou de todo, mas mudou bastante:
deixou de ser a moa frvola de costume, para se tornar s vezes sria e
meditativa. Notava-o Henriqueta, e logo que o notava, dizia-o; mas ento ela
voltava logo a ser o que era, e nenhuma suspeita penetrou no esprito da outra.

Julio manteve-se no terreno que
escolhera  o de uma impassibilidade branda e amvel. Tratava a moa com as
atenes do princpio, sorria com ela, e acompanhava-a nos recreios da famlia,
mas nada mais. s vezes Fernandinha deixava pousar nele uns olhos maviosos, que
o rapaz no via, ou no entendia, e ento a moa os recuava, e com eles um
suspiro, que chegava  flor dos lbios, e voltava depois ao corao.

 Mas deveras, no gostar de mim? Dizia
ela consigo, quando mais visvel lhe parecia a indiferena de Julio.

Um dia, estando todos na chcara,
Fernandinha parecia estouvada e alegre como nos seus melhores tempos. Julio
disse-lhe, e ela respondeu que a razo era simples: esperava um namorado, um
noivo. Ela estremeceu, mas dominou-se logo.

 Seu primo, no ? disse Henriqueta.

 No sei, um noivo, repetiu a moa com
um gesto nervoso e impaciente.

Julio encaminhou-se para o porto.
Nesse momento chegava o carteiro com uma carta do Norte. Julio abriu-a e leu:

 Uma notcia, disse ele; daqui a quinze
dias temos c o Pimentel.

Dessa vez foi Henriqueta quem
estremeceu, mas ningum a viu, e o efeito passou.

IX

A chegada do Pimentel veio complicar a
situao. Complicar no  a expresso exata; veio obscurec-la ainda mais.
Havia entre aquelas quatro pessoas um drama interior, que se desenrolava todo
na conscincia e no corao de cada um, sem nenhuma manifestao externa, sem
contraste visvel nem palpvel, e, a certos respeitos, sem notcia recproca.
Tal era a dificuldade.

Henriqueta, sentiu uma extraordinria
impresso ao saber da volta do Pimentel; mas se era principalmente de gosto,
era tambm de medo, de enfado, de alguma coisa que ela mal chegava a entender;
e ningum lha descobriu. Ao contrrio, graas  arte que possua de se dominar,
nem Fernandinha pde perceber nenhuma mudana; alis, Henriqueta no confiava 
outra os seus mais recnditos pensamentos.

Poder-se-ia notar, isso sim, que
Henriqueta se tornou durante aqueles quinze dias muito vigilante em relao 
amiga; buscava as ocasies de a ter em casa, iniciara alguns passatempos em que
tomava parte o irmo; e at, quando era possvel, deixava-os a ss. Fernandinha
estimava esses lances sugeridos pela amiga; mas saa deles mais desanimada.

 Qual! No me ama, pensava ela consigo.
Bem diz mame que no gosta de homens matemticos.

Henriqueta, pela sua parte, quando no
tinha presente a outra, tinha-lhe o nome e repetia-o muita vez, espreitando no
rosto de Julio, o sinal de uma comoo qualquer; mas o rosto dele era de
mrmore,  frio e duro  e Henriqueta perdia o tempo, e ficava como quem, alm
do tempo, perdesse as esperanas.

A chegada do Pimentel, vindo complicar a
situao, foi tambm uma diverso nos primeiros dias. Julio foi v-lo
imediatamente; levou-o no dia seguinte a jantar. Henriqueta recebeu-o com muita
afabilidade e nada mais. De vspera ensaiara-se a resistir  impresso do
primeiro encontro,  um ensaio de imaginao que lhe no valeu de cousa nenhuma
no dia seguinte. O que lhe valeu muito foi a presena do irmo; diante dele,
Henriqueta venceu-se.

 J no esperava por mim, aposto? disse
Pimentel, apertando a mo da moa, que estava um pouco fria.

Este modo jovial deu-lhe foras; ela
respondeu rindo que contava e muito; e acrescentou:

 Os senhores morrem pela Corte, no 
assim?

 Tambm no digo que no, concordou
ele; e posso afianar-lhe que agora, se a Corte  a vida, viverei cem anos.

 No vais mais? perguntou Julia.

 De visita; venho estabelecer-me aqui.

Pimentel estabeleceu-se efetivamente na
Corte; mobiliou uma casa no Rio Comprido, meteu-se dentro; e as relaes com a
famlia de Julio prosseguiram como d'antes, e at um pouco mais freqentes, se
no mais ntimas. Esta situao pareceu mortificar Henriqueta e tornar-lhe
quase importunas as visitas do Pimentel. Isto mesmo lhe notou Fernandinha.

 Que tem voc contra este moo?
perguntou-lhe um dia.

 Nada. Por qu?

 Parece que tem alguma coisa.

 Eu? disse Henriqueta rindo.

 Voc,  verdade; noto que fica, s
vezes, um pouco aborrecida quando ele est conosco. Ser porque eu estou
presente?

 Ora!

Fernandinha viu-a levantar os ombros com
to natural desdm, que acreditou na sinceridade da resposta.

 Se no  isso, continuou ela,  porque
ele lhe pareceu aborrecido. Henriqueta hesitou um instante.

 No digo que no, respondeu ela enfim.

E depois de um instante.

 O que me parece tambm  que voc...

 Acabe! disse Fernandinha ameaando-a
graciosamente com a mo.

 Acabo: gosta dele.

 Acertou.

O tom era de chasco, mas a idia
acordou-lhe outra,  uma idia m, pueril, de comdia,  uma idia de
simulao, para o fim de obter pela inveja o que no obtivera pela sugesto de
um afeto melhor. Como a esperana  um alimento eterno, Henriqueta viu luzir no
rosto da amiga uma certa expresso, que lhe pareceu de jbilo; viu, e perguntou
a si mesma  se deveras Fernandinha amava o outro; mas lembrou-lhe os dias
passados e abanou a cabea.

Isto passava-se de noite, pouco depois
de oito horas. s nove retirou-se Fernandinha. Henriqueta ficando s com o
irmo, ps-lhe as mos nos ombros, olhou longo tempo para ele, e disse rindo.

 Urso!

Julio olhou para ela espantado.

 Urso! repetiu a irm, e retirou-se
apressada.

X

Julio ficou muito impressionado com a
palavra da irm. Suspeitou que Fernandinha lhe houvesse feito alguma
confidncia, e que a repetio daquele nome fosse uma espcie de declarao
indireta. Era esta justamente a inteno de Henriqueta; e as coisas levariam
outro rumo, se fosse diferente o gnio de ambos.

No dia seguinte, ao encontrarem-se os
dois irmos, trocaram um olhar interrogativo, mas nenhum deles ousou responder
nada. Henriqueta lanou mo de um recurso; mandou dizer a Fernandinha que fosse
jantar com ela. Tinha idia de os lanar nos braos um do outro, no literalmente,
mas de um modo que chegariam, ao cabo de algum tempo, a esse resultado.
Infelizmente, o Julio no apareceu em casa; jantou na cidade com Pimentel.

O Pimentel
acompanhou-o depois  casa,  noite, seriam oito horas. Fernandinha estava
picada, com a ausncia de Julio, e recebeu-o de um modo arrufado e quase
triste. Ao contrrio, em relao a Pimentel, suas maneiras foram outras, outras
as palavras, outros o gesto e o tom. Nessa mesma diferena podia Julio ler
alguma coisa que lhe seria propcia; mas ele no conhecia o corao das
mulheres, no praticara jamais essa espcie de luta das afeies; viu naquilo
uma preterio.

O caso abalou-o; durante aquelas poucas horas dissimulou como pde, mas a nova fase das
coisas parecia feri-lo cruamente. Talvez Fernandinha lhe notou a impresso, porque recrudesceu de afabilidade com o Pimentel,
 fez-se o que era, graciosa, estouvada, alegre;  e se a nota intencional era um pouco mais forte do que seria a natural, no
deu por isso o irmo de Henriqueta; ele prprio padecia muito.

Mas
Henriqueta no padecia menos. Certo, ela via no rosto de Pimentel, ao lado de
Fernandinha, alguma coisa parecida com a benevolncia superior que se tem com
as crianas,  um certo ar que exclua qualquer interesse de natureza mais
ntima; alm disso, via os olhos do provinciano dirigirem-se muita vez para
ela, com a expresso que tinham alguns meses antes, e ela ento fugia com os
seus. No obstante, padecia; tinha o cime exclusivo que treme at dos mais
pueris afagos.

 Urso!
pensava ela olhando para o irmo.

E, ao v-lo
to severo, to grave, ao contemplar nele o chefe amante e amado da famlia,
sempre to desvelado e bom, lembrava-lhe a recomendao do pai:  Vivam um
para o outro;  e ia ter com ele, e como que o consolava e se consolava daquele
voluntrio abandono.

Uma palavra bastava para dar  situao um desenlace feliz e breve; ambos, porm, se
obstinavam no silncio; nenhum deles adivinhara o outro.

Essa
primeira noite foi amarga para os dois; as seguintes no o foram menos; logo depois o foram de todo. No fim de oito
dias, Henriqueta tentou sondar ainda uma vez o irmo; via-o triste, e suspeitou
a verdade; este, que no suspeitara nada, furtou-se  curiosidade da irm.

Henriqueta abanou a cabea, e depois de um instante de reflexo, disse resolutamente:

 Voc
gosta de Fernandinha!

Julio fez
uma careta de desdm; foi a sua nica resposta; Henriqueta contentou-se com
ela. Mas se se contentou com a resposta, no se contentou com a soluo;
era-lhe preciso,  fina fora, lev-los ao amor e ao casamento.

Passaram
mais oito dias. Uma noite, indo Henriqueta  casa de Fernandinha, achou l o
Pimentel, que j ali tinha estado uma vez ou duas. Achou-os bem; pareceu-lhe
sentir que era demais.

 Demais?
pensou ela com um gesto de orgulho.

Era demais. Pimentel e Fernandinha tinham aceitado, por despeito, uma situao dbia e
dissimulada; mas o corao, que nem sempre  bom calculista, trocara as
intenes, e eles comearam a sentir-se bem ao p um do outro, e a descobrir que eram bonitos, capazes de amar, e capazes de ser
amados. Da ao amor no distava um oceano, talvez um rio estreito; e esse rio
eles o transpuseram, numa noite de luar, ao p da janela,  tal qual numa
balada romntica.

Henriqueta
e Julio no gastaram muito tempo a compreender o verdadeiro estado das coisas;
e quando compreenderam tiveram um instante de despeito, arrependeram-se da
absteno, da resistncia, da dissimulao imposta aos sentimentos que havia
neles; mas lembravam-se um do outro, e
aprovavam-se.

Um dia tiveram notcia oficial de que ia
efetuar-se o casamento de Pimentel e Fernandinha. Julio recebeu-a com
impassibilidade; Henriqueta chorou muito durante a noite. No dia seguinte
viu-lhe Julio os olhos vermelhos.

 Voc chorou?

 No, murmurou a moa.

 Chorou, sim; porque foi?

Henriqueta calou-se.

 Porque foi, Henriqueta? insistiu
Julio assustado.

A resposta de Henriqueta foi lanar-lhe
os braos ao pescoo, e pousar-lhe a fronte no ombro. Julio levantou-lhe
brandamente a cabea; olhou para ela; teve uma sbita intuio da realidade.

 Henriqueta! disse ele. Voc.., voc o
amava?

A moa baixou os olhos; Julio entendeu
tudo; deixou-se cair numa cadeira, com o rosto nas mos. Foi a vez de
Henriqueta, que se chegou a ele, arredou-lhe as mos, viu-lhe a expresso
abatida do rosto; no lhe perguntou nada. Com as mos cingidas, os olhos para o
azul do cu, ficaram assim longo tempo a saborear a dor de seu voluntrio e
ocioso sacrifcio. Compreenderam que nenhum deles quisera ser o primeiro a
deixar a famlia, e da a inrcia e a dissimulao. Talvez nessa hora viam, ao
longe, a figura lvida do pai; talvez lhe escutassem a palavra ltima:  Vivam
um para o outro.
