TRADUO, Suplcio de uma uma mulher,1866

Os Trabalhadores do
  Mar

Texto-fonte:
Os Trabalhadores do
  Mar, Victor Hugo,
So
  Paulo: Editora Nova Cultural, 2002.

Publicado originalmente como Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.Traduo de Machado de
  Assis,
 Rio de Janeiro: Tipografia
  Perseverana, 1866.

NDICE

DEDICATRIA

PRLOGO

PRIMEIRA PARTE

LIVRO
  PRIMEIRO

CAPTULO PRIMEIRO

CAPTULO II

CAPTULO III

CAPTULO IV

CAPTULO V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

CAPTULO
  VIII

LIVRO SEGUNDO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

LIVRO
  TERCEIRO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

CAPTULO
  VIII

CAPTULO
  IX

CAPTULO
  X

CAPTULO
  XI

CAPTULO
  XII

CAPTULO
  XIII

LIVRO QUARTO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

LIVRO QUINTO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

CAPTULO
  VIII

CAPTULO
  IX

LIVRO SEXTO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

LIVRO STIMO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

SEGUNDA PARTE

LIVRO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

CAPTULO
  VIII

CAPTULO
  IX

CAPTULO
  X

CAPTULO
  XI

CAPTULO
  XII

CAPTULO
  XIII

LIVRO SEGUNDO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

CAPTULO
  VIII

CAPTULO
  IX

CAPTULO
  X

CAPTULO
  XI

LIVRO
  TERCEIRO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

LIVRO QUARTO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

CAPTULO
  VI

CAPTULO
  VII

TERCEIRA PARTE

LIVRO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

LIVRO SEGUNDO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

LIVRO
  TERCEIRO

CAPTULO
  PRIMEIRO

CAPTULO
  II

CAPTULO
  III

CAPTULO
  IV

CAPTULO
  V

DEDICATRIA

Dedico este
  livro ao rochedo de hospitalidade e de liberdade, a este canto da velha
  Normandia onde vive o nobre e pequeno povo do mar,  ilha de Guernesey, severa e
  branda, meu atual asilo, meu provvel tmulo.

V.H.

PRLOGO

A religio, a
  sociedade, a natureza: tais so as trs lutas do homem. Estas trs lutas so ao
  mesmo tempo as suas trs necessidades; precisa crer, da o tempo; precisa criar,
  da a cidade; precisa viver, da a charrua e o navio. Mas h trs guerras nestas
  trs solues. Sai de todas a misteriosa dificuldade da vida. O homem tem de
  lutar com o obstculo sob a forma superstio, sob a forma preconceito e sob a
  forma elemento. Trplice ananke pesa sobre ns, o ananke dos
  dogmas, o ananke das leis, o ananke das coisas. Na Notre-Dame
    de Paris, o autor denunciou o primeiro; nos Miserveis, mostrou o
  segundo; neste livro indica o terceiro.

A estas trs
  fatalidades que envolvem o homem, junta-se a fatalidade interior, o ananke supremo, o corao humano.

Hauteville-House,
  maro de 1866.

PRIMEIRA PARTE
O SR. CLUBIN

LIVRO PRIMEIRO
ELEMENTOS DE UMA M
  REPUTAO

CAPTULO PRIMEIRO
PALAVRA ESCRITA EM UMA PGINA
  BRANCA

O Christmas (Natal) de 1822... foi notvel em Guernesey. Caiu neve naquele
  dia. Nas ilhas da Mancha, inverno em que h neve  memorvel; a neve  um
  acontecimento.

Naquela manh
  de Christmas a estrada que orla o mar de Saint-Pierre-Port ao Vale
  assemelhava-se a um lenol branco: nevara desde a meia-noite at o romper do
  dia.

Pelas 9 horas,
  pouco depois de nascer o sol, como no era ainda ocasio de os anglicanos irem 
  Igreja de Saint-Sampson e os wesleyanos  Capela Eldad, o caminho estava
  quase deserto. Na parte da estrada compreendida entre a primeira volta e a
  segunda havia apenas trs viandantes, um menino, um homem e uma
  mulher.

Estes trs
  viandantes, caminhando separados uns dos outros, no tinham visivelmente relao
  alguma entre si. O menino, de cerca de oito anos, parara e olhava para a neve
  com curiosidade. O homem, seguindo atrs da mulher, uns cem passos, dirigia-se,
  como ela, para o lado de Saint-Sampson.

Era ele moo
  ainda e parecia ser operrio ou marinheiro. Vestia as roupas ordinrias, isto ,
  uma grossa camisa de pano escuro e uma cala de pernas alcatroadas, o que
  parecia indicar que, apesar da festa, no iria  igreja. Os grossos sapatos de
  couro cru e solas tacheadas de ferro deixavam sobre a neve uma marca, que mais
  se assemelhava a uma fechadura de priso que ao p de um homem.

A viandante,
  essa evidentemente trajava roupa de ir  igreja; envolvia-se em uma comprida
  manta acolchoada de estofo de seda preta, debaixo da qual apertava-lhe
  faceiramente o corpo um vestido de fazenda da Irlanda com listras brancas e
  cor-de-rosa, e, se no fossem as meias vermelhas, tom-la-iam por uma
  parisiense. Caminhava com desembarao e viveza; e pelo andar, que mostrava no
  lhe ter ainda pesado a vida, conhecia-se que era moa. Tinha aquela graa
  fugitiva que indica a mais delicada transio, a adolescncia, a mistura dos
  dois crepsculos, o princpio de uma mulher e o fim de uma menina.

O homem no
  reparava nela.

De sbito,
  perto de uma moita de azinheiras, que forma o ngulo de uma horta rstica, no
  lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moa, e esse movimento chamou a
  ateno do homem.

Parou, pareceu
  reparar nele um instante, abaixou-se, e o homem julgou v-la escrever com o dedo
  alguma coisa na neve. Levantou-se e ps-se de novo a caminho com passo mais
  apressado, voltou-se ainda, mas desta vez rindo, e desapareceu pela esquerda,
  seguindo o carreiro guarnecido de sebes, que leva ao castelo de Lierre. O homem,
  quando ela se voltou pela segunda vez, reconheceu Druchette, linda mocinha do
  lugar. Mas no sentia necessidade alguma de apressar o passo.

Alguns
  instantes depois estava junto  moita de azinheiras no ngulo da horta. J no
  pensava na passageira, e  provvel que, se nessa ocasio pulasse um golfinho no
  mar ou um cardeal nos arbustos, passaria com o olhar fixo no cardeal ou no
  golfinho. Casualmente, tinha os olhos baixos, e assim os levou maquinalmente ao
  lugar em que parara a menina. Dois pezinhos a estavam impressos e ao lado deles
  a palavra escrita por ela: Gilliatt.

Era este o nome
  dele.

Chamava-se
  Gilliatt.

Ficou por muito
  tempo imvel, contemplando o nome, os pezinhos, a neve; e depois continuou
  pensativo o seu caminho.

CAPTULO II
O TUTU DA RUA

Gilliatt
  residia na parquia de Saint-Sampson, onde no era estimado, e havia razes para
  isso.

Em primeiro
  lugar, morava em uma casa mal-assombrada.

Acontece
  algumas vezes em Jersey e Guernesey, no campo e at na cidade, que, ao passar
  por um lugar deserto ou por uma rua muito habitada, v-se uma casa cuja entrada
  est obstruda. O azevinho cresce  porta, as janelas do rs-do-cho esto
  fechadas por feios emplastros de tbuas pregadas; as dos andares superiores
  esto fechadas e abertas ao mesmo tempo: h ferrolhos, mas no h vidros. No
  ptio, se o h, alastra-se a erva e caem os muros; se h jardim, nascem a
  urtiga, o espinheiro, a cicuta; raros insetos esvoaam. Racham-se as chamins, o
  teto se abate; o que se v dos quartos est arruinado, a madeira podre, a pedra
  carcomida; cai o papel das paredes. Podem-se estudar a os antigos gostos do
  papel pintado, os grifos do Imprio, as sanefas em forma de crescente do
  Diretrio, os balastres e cipos de Lus XVI. A espessura das teias de aranha,
  cheias de moscas, indica a profunda tranqilidade em que vivem aqueles insetos.
  Algumas vezes v-se um pcaro quebrado sobre uma tbua.

 uma casa mal-assombrada. O diabo aparece l durante a noite.

A casa, como o
  homem, pode tornar-se cadver; basta que uma superstio a mate. Ento 
  terrvel.

Essas casas
  mortas no so raras nas ilhas da Mancha.

As populaes
  campesinas e martimas no vivem tranqilas a respeito do diabo. As da Mancha,
  arquiplago ingls e litoral francs, tm a respeito dele noes muito precisas.
  O diabo possui delegados por todo o mundo.  certo que Belphgor  embaixador do
  inferno na Frana, Hutgin na Itlia, Belial na Turquia, Thamuz na Espanha,
  Martinet na Sua e Mammon na Inglaterra. Satans  um imperador, como um outro
  qualquer. Satans Csar. A casa dele  muito bem servida: Dagon  o saquetrio;
  Succor Benoth, chefe dos eunucos; Asmodeu, banqueiro dos jogos; Kobal, diretor
  de teatro; Verdelet, gro-mestre de cerimnias, e Nybbas, bobo. Wierus, homem de
  cincia, bom estriglogo e demongrafo distinto, chama Nybbas  o grande
    parodista.

Os pescadores
  normandos da Mancha precisam aprecatar-se quando andam no mar, por causa das
  artes do diabo. Por muito tempo acreditou-se que So Maclou habitava o grande
  rochedo quadrado Ortach, situado ao largo entre Aurigny e Casquets, e muitos
  velhos marinheiros de outros tempos afirmavam t-lo visto no poucas vezes
  sentado e lendo um livro. Por isso os martimos, quando passavam, ajoelhavam-se
  muitas vezes diante do rochedo Ortach, at que um dia dissipou-se a fbula e
  esclareceu-se a verdade. Descobriu-se e sabe-se hoje que quem habita aquele
  rochedo no  um santo, mas sim um diabo, chamado Jochmus, que por muitos
  sculos teve a malcia de fazer-se passar por So Maclou. Demais, a prpria
  Igreja cai em tais enganos. Os diabos Raguhel, Oribel e Tobiel foram santos, at
  que em 745 o Papa Zacarias, tendo-lhes tomado o faro, deitou-os fora. Para fazer
  tais expulses, que so muito teis,  necessrio ser muito conhecedor de
  diabos.

Conta a gente
  velha da terra, mas estes casos pertencem ao sculo passado, que a populao
  catlica do arquiplago normando estivera outrora, bem a seu pesar, mais em
  comunicao com o diabo do que a populao huguenote. Ignoramos a razo, mas a
  verdade  que a minoria catlica andou outrora muito incomodada por
  ele.

Afeioara-se
  aos catlicos e procurava freqent-los, o que leva a crer que o diabo  antes
  catlico que protestante.

Uma de suas
  mais insuportveis liberdades era visitar a noite os leitos conjugais catlicos,
  quando os maridos dormiam de todo, e as mulheres, a meio. Disto resultavam
  equvocos. Patouillet pensava que Voltaire nascera assim. No  inverossmil. 
  caso perfeitamente conhecido e descrito nos formulrios de exorcismo sob o
  ttulo de erroribus nocturnis et de semine diabolorum.

O diabo fez
  violncias destas especialmente em Saint-Hlier, em fins do sculo passado: 
  provvel que para punio dos crimes da revoluo. As conseqncias dos excessos
  revolucionrios so incalculveis. Fosse como fosse, essa apario possvel do
  demnio durante a noite, quando reina a escurido e todos dormem, inquietava
  muitas mulheres ortodoxas. Dar nascimento a um Voltaire no  coisa agradvel.
  Uma delas, assustada, foi consultar o confessor sobre a maneira de desfazer-se
  em tempo o qiproqu.

O confessor
  respondeu:  Para saber se est com o diabo ou com seu marido, apalpe-lhe a
  cabea e, se encontrar pontas, pode estar certa.  De qu?  perguntou a
  mulher.

A casa em que
  morava Gilliatt tinha sido mal-assombrada e j no era; portanto, tornava-se
  mais suspeita;  sabido que, quando um feiticeiro vem habitar uma casa visitada
  pelo diabo, este, julgando-a bem guardada, tem a delicadeza de no voltar, salvo
  o caso de ser chamado, como mdico.

Chamava-se a
  casa O Tutu da Rua. Era situada na ponta de uma lngua de terra, ou antes, de
  rochedo que formava uma pequena angra de bastante profundidade na enseada de
  Houmet Paradis. A casa estava sozinha nessa ponta, quase fora da ilha, tendo
  apenas a terra suficiente para um pequeno jardim, s vezes inundado por ocasio
  das mars altas.

Entre o porto
  de Saint-Sampson e a enseada de Houmet Paradis h uma grande colina, sobre a
  qual levanta-se um amontoado de torres e de hera chamado o Castelo do Vale ou do
  Arcanjo, de sorte que de Saint-Sampson no se via O Tutu da Rua.

No so raros
  os feiticeiros em Guernesey. Exercem a profisso em certas parquias, apesar de
  vivermos no sculo XIX. Praticam aes verdadeiramente criminosas. Fazem ferver
  ouro. Colhem ervas  meia-noite. Olham de travs para o gado. Consultam-nos;
  eles mandam buscar em garrafas a gua dos doentes, e dizem em voz baixa: a gua parece bem triste. Afirmou um feiticeiro, em maro de 1857, que na gua de um doente havia sete diabos. So temidos e temveis. H pouco
  tempo um deles enfeitiou um padeiro e mais o forno. Outro tem a
  perversidade de fechar e lacrar uma poro de sobrecartas, sem haver nada
    dentro. Outro chega ao ponto de ter em casa, em cima de uma tbua, trs
  garrafas com um B em cada uma. Estes fatos monstruosos so conhecidos. Alguns
  feiticeiros so complacentes e, por 2 ou 3 guinus, incumbem-se de sofrer as
  nossas molstias. Rolam e gritam em cima da cama. Enquanto eles se estorcem, diz
  o doente: E esta! j estou bom! Outros curam todas as molstias amarrando um
  leno ao redor do corpo do doente.  um remdio to simples que admira no se
  ter ainda ningum lembrado dele.

No sculo
  passado o tribunal real de Guernesey colocava-os sobre uma poro de achas de
  lenha e queimava-os vivos. Presentemente condena-os a oito semanas de priso,
  quatro a po e gua e quatro no segredo, alternando. Amant alterna
    catenoe.

A ltima queima
  de feiticeiros em Guernesey foi em 1747, sendo teatro do espetculo a praa de
  Bordage, que, de 1565 a 1700, viu queimarem-se onze feiticeiros. Em geral esses
  culpados confessavam seus crimes: eram para isso ajudados pela
  tortura.

A praa Bordage
  prestou servios  sociedade e  religio. Queimaram-se a os herticos. No
  tempo de Maria Tudor, entre outros huguenotes, queimou-se uma me e duas filhas:
  a me chamava-se Perrotine Massy. Uma das filhas estava grvida e teve o sucesso
  sobre o braseiro.

A crnica diz:
  Arrebentou-lhe o ventre. Saiu desse ventre um menino vivo; o recm-nascido
  rolou na fogueira, um tal House apanhou-o. O bailio, Hlier Grosselin, bom
  catlico, mandou atirar a criana ao fogo.

CAPTULO III
PARA TUA MULHER, QUANDO TE
  CASARES

Voltemos a
  Gilliatt.

Contava-se na
  terra que uma mulher, tendo consigo um menino, viera em fins da revoluo
  habitar Guernesey. Era inglesa, ou talvez francesa. O nome dela, qualquer que
  fosse, a pronncia guernesiana e a ortografia dos camponeses transformaram em
  Gilliatt. Vivia sozinha com o menino, que, diziam uns, era seu sobrinho, outros,
  filho, outros, neto, e outros, coisa nenhuma. Possua um dinheirinho, de que
  vivia pobremente. Comprara um pedao de terra na Sergente e outro em
  Roque-Crespel, perto de Rocquaine. A casa Tutu da Rua estava nesse tempo
  mal-assombrada. Havia mais de trinta anos que ningum morava nela. Caa aos
  pedaos. O jardim, sempre inundado pelo mar, j nada produzia.

Alm dos rudos
  noturnos e das luzes, a casa era particularmente aterradora por isto: se  noite
  se deixava sobre a lareira um novelo de l, agulhas e um prato cheio de sopa, no
  dia seguinte de manh encontrava-se a sopa comida, o prato vazio e um par de
  luvas feito. Ps-se  venda aquele pardieiro com o diabo que estava dentro, por
  algumas libras esterlinas. Aquela mulher comprou-o, evidentemente tentada pelo
  diabo. Ou pela barateza.

Fez mais do que
  compr-lo, foi morar l com o filho, e desde ento a casa sossegou. Esta casa
  achou o que queria, dizia a gente da terra. Cessaram as aparies. J se no
  ouviam gritos ao romper do dia. J no havia outra luz alm do sebo acendido 
  noite pela boa mulher. Vela de feiticeira vale a tocha do diabo.

Esta explicao
  satisfez o pblico.

A mulher
  utilizava o quarto de jeira de terra que possua. Tinha uma boa vaca, de cujo
  leite fazia manteiga. Colhia frutas e batatas Golden Drops. Vendia, como
  qualquer outra pessoa, ervas, cebolas e favas. No costumava ir ao mercado
  vender a sua colheita; mandava-a por Guilbert Falliot. O registro de Falliot
  mostra que ele vendeu para ela, uma vez, 12 alqueires de batatas chamadas de trs meses, das mais tempors. Fizeram-se na casa apenas os
  reparos necessrios para se poder habitar nela. S chovia nos quartos quando
  fazia muito mau tempo. Compunha-se de dois pavimentos, um rs-de-cho e um
  celeiro. No trreo havia trs salas; dormia-se em duas, comia-se na terceira.
  Subia-se ao celeiro por uma escada. A mulher cozinhava e ensinava a ler ao
  filho. Nunca ia  igreja, e isto, depois de muito considerado, serviu para que a
  declarassem francesa. No ir a parte alguma  coisa grave.

Em suma, era
  gente que nada inculcava.

 provvel que
  fosse francesa. Os vulces arrojam pedras, as revolues homens. Espalham-se
  famlias a grandes distncias, deslocam-se os destinos, separam-se os grupos
  dispersos s migalhas; cai gente das nuvens, uns na Alemanha, outros na
  Inglaterra, outros na Amrica. Pasmam os naturais dos pases. Donde vm estes
  desconhecidos? Foi aquele Vesvio, que fumega alm, que os expeliu de si. Do-se
  nomes a esses aerlitos, a esses indivduos expulsos e perdidos, a esses
  eliminados da sorte: chamam-nos emigrados, refugiados, aventureiros. Se ficam,
  toleram-nos: alegram-se quando eles vo embora. Algumas vezes so entes
  absolutamente inofensivos, estranhos, as mulheres ao menos, aos acontecimentos
  que os proscreveram, no tendo rancores nem clera, projteis contra a vontade,
  espantadssimos de o serem. Enrazam-se como podem. No fazem mal a ningum e
  no compreendem o que lhes acontece. Vi um dia uma pobre moita de ervas atirada
  aos ares pela exploso de uma mina. A Revoluo Francesa, mais do que nenhuma
  exploso, fez desses jatos longnquos.

A mulher, que
  em Guernesey era conhecida por Gilliatt, foi talvez aquela moita de
  erva.

Envelheceu a
  mulher. Cresceu o menino. Viviam ambos ss; todos fugiam deles, mas eles
  bastavam-se a si prprios. Loba e filhote lambem-se mutuamente. Foi esta uma das
  frmulas que lhes aplicou a benevolncia da vizinhana.

O menino
  tornou-se adolescente, o adolescente homem, e ento, devendo carem sempre as
  velhas crostas da vida, a me veio a falecer. Constava a herana das terras de
  Sergente e da Roque-Crespel, da casa mal-assombrada, e mais, diz o inventrio
  oficial, de 100 guinus de ouro, dentro de um p de meia. A casa estava
  mobiliada com duas arcas de carvalho, duas camas, seis cadeiras, uma mesa e os
  utenslios necessrios. Havia em cima de uma tbua uns poucos de livros e, a um
  canto, uma canastra, que nada tinha de misteriosa, e que devia ser aberta na
  ocasio do inventrio. A canastra era de couro ruivo, cheia de arabescos de
  pregos de cobre e estrelas de estanho, e continha um enxoval de mulher, novo e
  completo, de excelente linho de Dunquerque, camisa e saia, cortes de vestidos de
  seda e em cima de tudo um papel escrito pela finada: Para tua mulher, quando te
  casares.

A morte da me
  acabrunhou o filho. Era rstico, tornou-se feroz. Completou-se-lhe o deserto.
  Era isolamento, tornou-se vcuo. Quando h duas criaturas, a vida  possvel.
  Havendo uma s, parece que nem se pode arrast-la. Renuncia-se a ela.  a
  primeira forma de desespero. Mais tarde compreende-se que o dever  uma srie de
  aceites. Contempla-se a morte, contempla-se a vida, consente-se na ltima. Mas 
  um consentimento que sangra.

Gilliatt era
  moo, a ferida cicatrizou. Naquela idade as carnes do corao tornam a unir-se.
  A tristeza, dissipando-se-lhe a pouco e pouco, misturou-se  natureza em redor
  dele, tornou-se uma espcie de encanto, atraiu-o para perto das coisas e longe
  dos homens, e amalgamou cada vez mais aquela alma e a solido.

CAPTULO IV
IMPOPULARIDADE

J o dissemos.
  Gilliatt no era estimado na parquia. Antipatia natural. Sobravam motivos. O
  primeiro, acabamos de explic-lo, era a casa em que morava. Depois a origem
  dele. Quem era aquela mulher? E este menino? A gente no gosta de enigmas a
  respeito de estrangeiros. Depois, trajava uma roupa de operrio, tendo alis com
  que viver, embora no fosse rico. Depois, o jardim, que ele conseguia cultivar e
  donde colhia batatas, apesar dos ventos de equincio. Depois, os alfarrbios que
  ele lia.

Outras razes,
  ainda.

Por que motivo
  vivia solitrio? A casa mal-assombrada era uma espcie de lazareto; conservavam
  Gilliatt em quarentena; deste modo, era muito simples que o seu isolamento
  causasse espanto, e o responsabilizassem pela solido em que o
  deixavam.

Nunca ia 
  igreja. Saa muitas vezes  noite. Falava aos feiticeiros. Uma vez viram-no
  sentado sobre a relva com ar espantado. Freqentava o dlmen de Ancresse e as
  pedras fatdicas que existem espalhadas pelo campo. Havia quase certeza de
  terem-no visto cumprimentar polidamente a Rocha que Canta. Comprava todos os
  pssaros que lhe levavam, e soltava-os. Era civil para com as pessoas das ruas
  de Saint-Sampson, mas preferia dar uma volta para no passar por l. Pescava
  muitas vezes e sempre apanhava peixe. Trabalhava no jardim aos domingos. Tinha
  um bagpipe (gaita-de-foles), que comprara a uns soldados escoceses, ao
  passarem por Guernesey, e tocava nele sobre os rochedos,  beira do mar, ao cair
  da noite. Gesticulava como um semeador. Que vir a ser uma terra com um homem
  destes?

Quanto aos
  livros que haviam pertencido  mulher finada, esses eram assustadores. Quando o
  Reverendo Jaquemin Herodes, cura de Saint-Sampson, entrou na casa para
  encomendar a mulher, leu no lombo desses livros os ttulos seguintes: Dicionrio de Rosier, Cndido, por Voltaire; Aviso ao Povo acerca da
    Sua Sade, por Tissot. Dissera um fidalgo francs emigrado, retirado em
  Saint-Sampson, que aquele Tissot devia ser o que carregou a cabea da Princesa
  de Lamballe.

O reverendo
  notou, num dos livros, este ttulo verdadeiramente extravagante e ameaador: De Ruibarbaro.

Cumpre observar
  que, sendo a obra escrita em latim, como indica o ttulo, era duvidoso que
  Gilliatt, que no sabia latim, lesse aquela obra.

Mas so
  exatamente os livros que a gente no l os que mais condenam. A Inquisio da
  Espanha julgou esse caso, e p-lo fora de dvida.

Demais, o livro
  era o tratado do Doutor Tilingius Sobre o Ruibarbaro, publicado na
  Alemanha em 1679.

No havia
  certeza de que Gilliatt no fizesse bruxarias, filtros e sortilgios. Tinha
  frascos em casa.

Por que motivo
  ia ele passear, s vezes at a meia-noite, nos penhascos da costa? Era
  evidentemente para conversar com a gente maligna que anda  noite nas praias no
  meio das exalaes.

Ajudou ele uma
  vez a feiticeira de Torteval a desatolar a carroa. Era uma velha, por nome
  Moutonne Gahy.

Tendo-se feito
  um recenseamento na ilha, perguntou-se-lhe a profisso, e ele respondeu:
  Pescador, quando h peixe. Vejam l se a gente da ilha podia gostar de tais
  respostas.

Pobreza e
  riqueza so relativas. Gilliatt tinha terras e uma casa, e, comparado aos que
  no possuem coisa nenhuma, no era pobre. Um dia, para experiment-lo, e talvez
  para inculcar-se, porque h mulheres que estariam prontas a desposar o diabo
  rico, disse uma rapariga a Gilliatt: Quando se casa? A resposta dele foi:
  Casar-me-ei quando se casar a Rocha que Canta.

A Rocha que
  Canta era uma grande pedra colocada a pique numa horta rstica perto do Senhor
  Lemezurier de Fry. Esta pedra inspira desconfiana. No se sabe o que ela faz
  ali. Ouve-se cantar um galo invisvel, coisa extremamente desagradvel.
  Verificou-se que a pedra foi posta ali por uns fantasmas.

De noite,
  quando troveja, se aparecem homens a voar entre as nuvens avermelhadas, so os
  tais fantasmas. H uma mulher que mora no Grande Mielles e que os conhece. Uma
  noite, em que havia fantasmas numa encruzilhada, essa mulher, vendo um
  carroceiro que no sabia por onde seguir, gritou-lhe: Pergunte-lhes o caminho;
   gente benfica, e bem-educada, com quem se pode conversar  Aquela mulher 
  com certeza feiticeira.

O judicioso e
  sbio Rei Jacques I mandava ferver ainda vivas as mulheres dessa espcie,
  provava o caldo e, pelo gosto, dizia:  feiticeira, ou: No 
  feiticeira.

 para lamentar
  que os reis hoje no tenham daqueles talentos, que faziam compreender a
  utilidade da instituio.

Gilliatt, no
  sem motivos srios, tinha fama de feiticeiro.

Num temporal, 
  meia-noite, estando Gilliatt sozinho no mar, dentro de uma lancha, do lado da
  Someilleuse, ouviram-no perguntar:

 H lugar para
  passar?

Respondeu-lhe
  uma voz de cima dos penhascos:

 Pois no!
  nimo.

A quem falaria
  ele seno a algum que lhe respondia? Parece-nos que isto  uma
  prova.

Outra noite de
  temporal, to negro que nada se via pertinho da Catiau-Roque, que  uma dupla
  fileira de rochedos onde os feiticeiros e as cabras vo danar  sexta-feira,
  houve quem reconhecesse a voz de Gilliatt no meio deste terrvel
  dilogo:

 Como est
  Vsin Brovard? (Era um pedreiro que tinha cado de um telhado.)

 Vai
  sarando.

 Deveras! pois
  caiu de um lugar to alto como aquela estaca. Admira no ficar
  despedaado.

 Bom tempo foi
  a semana passada para a colheita das praias.

 Melhor do que
  hoje.

 Decerto! no
  haver muito peixe no mercado.

 O vento 
  rijo.

 No se podem
  deitar as redes.

 Como vai a
  Catarina?

 Est
  embruxada.

A Catarina era
  evidentemente alguma feiticeira.

Gilliatt, ao
  que parecia, trabalhava de noite. Ao menos, ningum duvidava disso.

Viam-no,
  algumas vezes, espalhar pelo cho a gua de um pcaro. Ora, a gua espalhada
  pelo cho traa a forma dos diabos.

Existem na
  estrada de Saint-Sampson trs pedras dispostas em forma de escada. Na plataforma
  houve em outro tempo uma cruz, e, se no foi cruz, era forca. Aquelas pedras so
  malignas.

Muita gente
  esperta, e digna de crdito, afirmava ter visto, perto dessas pedras, Gilliatt
  conversando com um sapo. Ora, no h sapos em Guernesey; Guernesey tem todas as
  cobras, e Jersey todos os sapos. Aquele sapo veio naturalmente de Jersey, a
  nado, para falar a Gilliatt. A conversa era amigvel.

Todos estes
  fatos estavam averiguados; e a prova disso  que as trs pedras l esto. Quem
  duvidar pode ir v-las, e mesmo a alguma distncia h uma casa em cuja esquina
  l-se isto: Mercador de gato morto e vivo, cordas velhas, ferros, ossos e fumo
  de mascar;  pronto na paga e na ateno.

S de m-f se
  pode contestar a existncia daquelas pedras e daquela casa. Tudo isso fazia mal
  a Gilliatt.

S os
  ignorantes no sabem que o maior perigo dos mares da Mancha  o que se chama Rei dos Auxcriniers. No h personagem martimo mais temvel. Quem o v
  naufraga logo entre uma e outra Saint-Michel.  pequeno e surdo, por ser ano e
  rei. Sabe o nome de quantos morreram no mar, e em que lugar esto. Conhece a
  fundo o cemitrio Oceano. Cabea larga em baixo e estreita em cima, corpo cheio,
  barriga viscosa e disforme, nodosidades no crnio, pernas curtas, braos
  compridos, barbatanas em vez de ps, garras em vez de mos, cara larga e verde,
  tal  aquele rei. As garras so achatadas, as barbatanas tm unhas. Imaginem um
  peixe com cara de homem e forma de espectro. Para venc-lo  preciso
  exorcism-lo ou pesc-lo. Fora disso,  sinistro. V-lo  perigoso. Descobrem-se
  acima das ondas e do marulho, atravs da espessura do nevoeiro, umas feies de
  gente; testa curta, nariz esborrachado, orelhas chatas, boca imensa e sem
  dentes, beios esverdeados, sobrancelhas angulosas, olhos vivos e grandes. O rei
  torna-se vermelho quando o relmpago  lvido, descorado quando o relmpago 
  vermelho. Tem barba gotejante e rgida, cortada em quadro, que lhe cai sobre uma
  membrana em forma de mantu de peregrino; o mantu  adornado de catorze
  conchas, sete na frente, sete nas costas. As conchas so extraordinrias para os
  que conhecem conchas. O rei s  visvel no mar violento.  o danarino lgubre
  da tempestade. V-se a forma dele esboada no nevoeiro e na chuva. O umbigo 
  hediondo. Uma casca de escamas guarda-lhe os quadris  semelhana de colete. O
  rei levanta-se de p, sobre as vagas que irrompem  presso dos ventos e vo
  rolar-se como os cavacos que saem do rabote do marceneiro. Conserva-se todo fora
  da espuma, e, quando avista ao longe os navios em perigo, entra a bailar,
  descorado na sombra, com a face iluminada por um vago sorriso, feio e demente no
  aspecto. Mau encontro esse.

Na poca em que
  Gilliatt era uma das preocupaes de Saint-Sampson, as ltimas pessoas que
  tinham visto o rei da Mancha declaravam que j no havia no mantu mais de treze
  conchas. Treze; era mais perigoso ainda. Mas onde foi parar a outra concha?
  Deu-a a algum? A quem seria? Ningum podia diz-lo, todos se limitavam s
  conjecturas. O que  certo  que o Sr. Lupin Matier, do lugar de Godaines, homem
  de posio, proprietrio taxado em catorze bairros, estava pronto a jurar que
  vira uma vez, nas mos de Gilliatt, uma concha muito esquisita.

No raras vezes
  se ouviam os campnios conversarem entre si:

 Vizinho, no
   verdade que este boi  magnfico?

 Inchado,
  vizinho.

 Homem, 
  verdade.

 Tem mais sebo
  do que carne.


  Deveras!

 Estais certo
  de que Gilliatt no lhe ps os olhos em cima?

Gilliatt parava
  nos campos, ao p dos lavradores, e nos jardins, ao p dos jardineiros, e
  dizia-lhes palavras misteriosas:

 Quando
  florescer a escabiosa, semeia o centeio.

 O freixo
  enfolha, acaba-se a neve.

 Solstcio de
  vero, cardo em flor.

 Se no chover
  em junho, o trigo h de espigar. Tomem cuidado com as plantas
  nocivas.

 A cerejeira
  est dando frutos, desconfia da lua cheia:

 Se o tempo,
  no sexto dia da lua, conservar-se como no quarto dia ou como no quinto, h de
  ser o mesmo em toda a lua, nove vezes em doze no primeiro caso, e onze vezes em
  doze no segundo.

 Vigia o teu
  vizinho com quem andas em processo. Cautela com as espertezas. Porco que bebe
  leite quente estoura. Vaca que leva alho nos dentes no come.

 O peixe est
  gerando, guarda-te das febres.

 As rs
  aparecem, semeia os meles.

 A anmona
  enflora, semeia a cevada.

 A tlia
  enflora, ceifa os campos.

 O choupo
  enflora, fecha as estufas.

E, coisa
  terrvel, quem seguisse os seus conselhos ach-los-ia muito bons.

Uma noite de
  junho, em que ele tocava o bagpipe, sobre os cabedelos da praia, do lado
  da Damie de Fontenelle no se pde pescar uma s cavala.

Outra noite,
  vazando a mar aconteceu tombar na praia, em frente da casa mal-assombrada, uma
  carreta cheia de sargao. Gilliatt receou naturalmente ser chamado  justia,
  pois atirou-se a levantar a carreta, pondo-lhe outra vez toda a carga que se
  espalhara no cho.

Uma menina da
  vizinhana tinha muitos piolhos; Gilliatt foi a Saint-Pierre-Port, trouxe de l
  um ungento e o esfregou  cabea da pequena; tirou-lhe os piolhos, o que prova
  que foi ele quem lhos deitou.

Sabe toda a
  gente que h feitio para fazer criar piolhos na cabea dos outros.

Dizia-se que
  Gilliatt olhava para os poos, o que  perigoso quando  mau-olhado; e o caso 
  que um dia, nos Arculons, a gua de um poo tornou-se doentia. A dona do poo
  disse a Gilliatt: Veja esta gua. E apresentou-lhe um copo cheio. Gilliatt
  confessou: A gua est grossa, disse ele;  exato. A boa mulher, que
  desconfiava, disse-lhe: Pois cure-a. Gilliatt perguntou-lhe se ela tinha algum
  curral, se o curral tinha esgoto, e se o rego do esgoto passava perto do poo. A
  boa mulher disse que sim. Gilliatt entrou no curral, desviou o rego do esgoto, e
  a gua do poo ficou boa. Ora, pensava a gente da terra, nenhum poo fica
  insalubre, nem  curado depois, sem motivo; a doena do poo no  natural; 
  difcil no acreditar que Gilliatt tenha enguiado a gua.

De uma vez,
  tendo ido a Jersey, foi alojar-se em So Clemente, em uma rua cujo nome quer
  dizer almas do outro mundo.

Nas aldeias,
  colhem-se os indcios, comparam-se: o total faz a reputao de um
  homem.

Aconteceu um
  dia que Gilliatt foi surpreendido a deitar sangue pelo nariz. Coisa grave. Um
  patro de lancha, grande viajante, que fez quase a volta do mundo, afirmou que
  havia uma terra, onde todos os feiticeiros deitam sangue pelo nariz. Quando um
  homem deita sangue pelo nariz, j toda a gente sabe como se haver com ele.
  Todavia, algumas pessoas de juzo observaram que aquilo que caracteriza os
  feiticeiros em uma terra pode no caracteriz-los em outra.

Nos arredores
  de Saint-Michel, viu-se Gilliatt parado em uma horta dos Huriaux, ao p da
  estrada real de Videclins. Gilliatt assobiou, e pouco depois veio um corvo, e
  depois uma pega. O fato foi atestado por um homem notvel que pertenceu depois a
  uma comisso encarregada de fazer um novo livro de medidas.

No Hamel, h
  mulheres velhas que diziam estar certas de ter ouvido, ao romper da manh, umas
  andorinhas chamando por Gilliatt.

A isto deve
  acrescentar-se que Gilliatt no era bom.

Um dia um pobre
  homem batia num asno, que tinha empacado. Deu-lhe algumas tamancadas na barriga,
  o animal caiu. Gilliatt correu para levant-lo, estava morto. Gilliatt
  esbofeteou o pobre homem.

Noutra ocasio,
  vendo um rapaz descer de uma rvore com um ninho de passarinhos ainda implumes,
  Gilliatt tirou o ninho do rapaz, e levou a crueldade ao ponto de restitu-lo ao
  seu lugar na rvore.

Uns viandantes
  censuraram-no por isto: Gilliatt no fez mais do que apontar para o pai e a me
  dos passarinhos, que guinchavam por cima da rvore e voltavam para o ninho.
  Tinha queda pelos pssaros.  um sinal esse que faz conhecer geralmente os
  bruxos.

Os rapazes
  gostam de tirar os ninhos de cotovias e goelanos no penedio das costas. Trazem
  consigo grande poro de ovos azuis, amarelos e verdes, para armar com eles a
  frente das lareiras. Como os penedos esto a pique, aconteceu-lhes s vezes
  escorregarem, carem e morrerem. Nada mais lindo que uma varanda adornada com
  ovos de pssaros do mar. Gilliatt j no sabia que inventar para fazer mal aos
  rapazes. Trepava, com risco de vida, ao cimo das rochas marinhas, e pendurava a
  molhos de feno, com chapus velhos em cima e tudo quanto pudesse servir de
  espantalho, para arredar os pssaros e, por conseqncia, as
  crianas.

Por tudo isto
  Gilliatt ia sendo a pouco e pouco odiado por todos. No precisava tanto para
  s-lo.

CAPTULO V
OUTROS PONTOS AMBGUOS DE
  GILLIATT

No estava fixa
  a opinio acerca de Gilliatt.

Geralmente era
  tido por marcou. Outros acreditavam mesmo que fosse filho do
  diabo.

Quando uma
  mulher tem, do mesmo homem, sete filhos machos consecutivos, o stimo  marcou. Mas, para isso,  necessrio que nenhuma filha venha interromper
  a srie dos rapazes.

O marcou tem uma flor-de-lis impressa em uma parte do corpo, donde resulta que aproveita
  tanto aos escrofulosos como aos reis da Frana. Na Frana h marcous em
  toda parte, especialmente na provncia de Orlans. Cada aldeia do Gtinais tem o
  seu marcou. Para curar os doentes basta que o marcou sopre nas
  chagas ou lhes faa tocar a flor-de-lis. O remdio  eficaz, principalmente
  quando aplicado na noite de Sexta-Feira Maior. H uma dezena de anos, o marcou d'Ormes, no Gtinais, apelidado o Formoso Marcou, e consultado por
  toda a Beauce, era um tanoeiro, chamado Foulon, que tinha cavalo e carruagem.
  Para pr cobro aos seus milagres foi preciso intervir a polcia. Tinha ele a
  flor-de-lis embaixo do peito esquerdo. Outros marcous tm-na em lugar
  diverso.

H marcous em Jersey, em Aurigny e em Guernesey. Parece que isto procede dos
  direitos que tem a Frana sobre o ducado da Normandia. A no ser assim, por que
  haveria ali a flor-de-lis?

Como h tambm
  nas ilhas da Mancha muitos escrofulosos, os marcous so
  necessrios.

Em um dia,
  estando Gilliatt a banhar-se no mar diante de algumas pessoas, julgaram estas
  ter-lhe visto no corpo a flor-de-lis. Interrogado a esse respeito, por nica
  resposta ps-se a rir. Gilliatt ria s vezes como os outros homens. Mas desde
  esse dia nunca mais o viram tomar banho. Comeou ento a banhar-se em lugares
  solitrios e perigosos. Provavelmente  noite, e em noites de luar; o que, ho
  de convir,  coisa um tanto suspeita.

Os que se
  obstinavam em cr-lo filho do diabo (cambiou) enganavam-se,
  evidentemente. Deviam saber que s os h na Alemanha. Mas o Vale e Saint-Sampson
  eram h cinqenta anos pases ignorantes.

Acreditar em
  Guernesey que algum  filho do diabo, por fora que h nisso
  exagerao.

Por isso mesmo
  que Gilliatt inquietava o populacho, era muito consultado. Os campnios,
  aterrorizados, iam conversar com ele acerca dos seus achaques. Aquele terror
  equivalia a meia confiana, e no campo, quanto mais suspeito  o mdico, mais
  eficaz  o remdio que ele d. Gilliatt tinha medicamentos propriamente seus,
  herdados da finada velha. Dava-os a quem lhos pedia, e no recebia dinheiro.
  Curava os panarcios com aplicaes de ervas; o lquido de um dos seus frascos
  cortava a febre; o qumico de Saint-Sampson, que chamaramos farmacutico na
  Frana, pensava que era uma decoco de quina. Os menos benvolos convinham em
  que Gilliatt era excelente diabo para os doentes, quando se tratava de seus
  remdios ordinrios; mas, como marcou, no queria ouvir nada: se algum
  escrofuloso pedia-lhe para tocar a flor-de-lis, a resposta de Gilliatt era
  fechar-lhe a porta na cara; recusava fazer milagres, coisa ridcula em um
  feiticeiro. No sejas feiticeiro, mas, se o s, faze o teu oficio.

Havia uma ou
  duas excees nesta antipatia universal. O Sr. Landoys do Clos-Lands era
  escrivo da parquia de Saint-Pierre-Port, encarregado das escrituras e guarda
  dos registros dos nascimentos, casamentos e bitos. Jactava-se o escrivo de
  descender do tesoureiro da Bretanha, Pedro Landoys, enforcado em
  1485.

Estando uma vez
  a banhar-se, o Sr. Landoys afastou-se da praia, e quase se afogou; Gilliatt
  atirou-se  gua, afogou-se quase, mas salvou Landoys. Desde esse dia Landoys
  no falou mal de Gilliatt. Aos que se admiravam disso, respondia ele: Como hei
  de aborrecer um homem que no me faz mal, e at me prestou um servio? O
  escrivo chegou mesmo a ser amigo de Gilliatt. No era homem de preconceitos.
  No acreditava em feiticeiros. Mofava dos que acreditavam em almas do outro
  mundo.

Tinha uma
  canoa, pescava nas horas de descanso para divertir-se, e nunca viu coisa alguma
  extraordinria, a no ser em certa noite de luar, um vulto branco de mulher, que
  pulava na gua, e ainda assim no estava muito certo. Moutonne Gahy, feiticeira
  de Torteval, dera-lhe um saquinho para atar debaixo da gravata, a fim de
  afugentar os espritos; Landoys zombava do saco, e no sabia o que havia dentro;
  mas sempre andava com ele, e sentia-se assim mais seguro.

Algumas pessoas
  audazes, acompanhando o Sr. Landoys, arriscaram-se a reconhecer em Gilliatt
  certas circunstncias atenuantes, algumas aparncias de qualidades, a
  sobriedade, a abstinncia do gim e do tabaco, e chegavam s vezes a fazer dele
  este belo elogio: No bebe, no fuma, nem masca.

Mas a
  sobriedade  uma qualidade quando o indivduo possui outras.

Gilliatt
  inspirava a averso pblica.

Fosse o que
  fosse, como marcou, Gilliatt podia prestar servios. Em uma Sexta-Feira
  Maior,  meia-noite, dia e hora usados para esses curativos, todos os
  escrofulosos da ilha, por inspirao, ou combinao, foram em massa  casa
  mal-assombrada, e, com as mos postas, pediram a Gilliatt que os curasse.
  Gilliatt recusou. Reconheceu-se nisto a sua perversidade.

CAPTULO VI
A PANA

Tal era
  Gilliatt.

As raparigas
  achavam-no feio.

Gilliatt no
  era feio. Era talvez bonito. Tinha um perfil semelhante ao do brbaro antigo.
  Quieto, parecia um Dcio da coluna trajana. As orelhas eram pequenas, delicadas,
  lisas, de uma admirvel forma acstica. Tinha entre os olhos a soberba ruga
  vertical do homem audacioso e perseverante. Caam-lhe os dois cantos da boca; a
  testa era de uma curva nobre e serena; o olhar saa-lhe firme de dentro da
  plpebra franca, posto que ele tivesse aquele piscar de olhos que os pescadores
  adquirem com a reverberao das vagas. O riso era pueril e delicioso. No havia
  marfim mais alvo que os seus dentes. Entretanto, Gilliatt, tisnado pelo sol, era
  quase negro. No se afronta impunemente o oceano, a tempestade e a noite; aos
  trinta anos, mostrava 45. Tinha a sombria mscara do vento e do mar.

Puseram-lhe a
  alcunha de Finrio.

Diz uma fbula
  da ndia: Um dia Brama perguntou  Fora: Quem  mais forte que tu? A Fora
  respondeu:  a Astcia Diz um provrbio chins: Quanto no poderia o leo,
  se fosse macaco?

Gilliatt no
  era nem leo nem macaco; mas as coisas que ele fazia apoiavam o provrbio chins
  e a fbula indiana. De estatura comum e fora ordinria, Gilliatt, to inventiva
  e poderosa era a sua destreza, conseguia levantar fardos de gigante e realizar
  prodgios de atleta.

Era um pouco
  ginasta; servia-se tanto da mo direita como da esquerda. No caava, pescava.
  Poupava os pssaros, no os peixes. Ai dos que so mudos!

Era nadador
  excelente.

A solido faz
  homens de talento ou idiotas. Gilliatt tinha os dois aspectos. s vezes mostrava
  o ar espantado, de que falamos, e dissera-se um bruto. Outras vezes
  mostrava uma certa profundidade no olhar. A antiga Caldia teve homens assim: a
  certas horas, a opacidade do pastor tornava-se transparente e deixava ver o
  mago.

Em suma, era
  apenas um pobre homem sabendo ler e escrever.  provvel que estivesse no limite
  que separa o sonhador do pensador. O pensador impe, o sonhador obedece. A
  solido domina os nimos smplices, complica-os, enche-os de horror sagrado. A
  sombra em que entrava o esprito de Gilliatt compunha-se, em partes quase
  iguais, de dois elementos, obscuros ambos, mas diferentes; dentro dele, a
  ignorncia  enfermidade; fora dele, o mistrio  imensidade.

 fora de
  trepar aos rochedos, de escalar os declives, de navegar no arquiplago, qualquer
  que fosse o tempo, de manobrar a primeira embarcao que aparecesse, de
  arriscar-se dia e noite nos canais mais difceis, tornou-se, sem tirar lucro
  disso, e s por fantasia e satisfao, um admirvel homem do mar.

Nasceu piloto.
  O verdadeiro piloto  o marinheiro que navega mais no fundo que na superfcie. A
  vaga  um problema exterior, continuamente complicado pela configurao
  submarina dos lugares em que sulca o navio. Parecia, ao ver Gilliatt vogar nos
  baixios e atravs dos arrecifes do arquiplago normando, que ele tinha debaixo
  da abbada do crnio um mapa do fundo do mar. Sabia tudo e afrontava
  tudo.

Conhecia as
  balizas melhor do que os corvos-marinhos que l se vo empoleirar. As diferenas
  imperceptveis que distinguem as quatro balizas do Creux, do Alligande, de
  Tremies e da Sardrette eram perfeitamente claras para ele, ainda no meio de
  nevoeiro. No hesitava sobre a estaca de cabea oval, de Anfr, nem sobre o
  chuo tridente, de Rousse, nem a bola branca, de Corbette, nem a bola preta, de
  Longue-Pierre, e no havia temer que confundisse a cruz de Gubeau com a espada
  fincada no cho, de Platte, nem a baliza-martelo, de Barbes, com a baliza cauda
  de andorinha, de Moulinet.

Mostrou
  singularmente a sua rara cincia de martimo num dia em que houve em Guernesey
  uma dessas justas que se chamam regatas.

A questo era
  esta: ir s em uma embarcao de quatro velas; lev-la de Saint-Sampson  ilha
  de Herm, distante 1 lgua, e traz-la de novo de Herm a Saint-Sampson. Manobrar
  sozinho um barco de quatro velas, no h pescador que o no faa, e a diferena
  no  grande; mas eis o que agravava o caso: primeiramente, a embarcao era uma
  dessas chalupas de outro tempo, com grande bojo,  moda de Roterdo, que os
  marinheiros do sculo passado apelidavam panas holandesas. Acha-se ainda
  algumas vezes no mar essa velha construo da Holanda, bojuda e chata, tendo a
  bombordo e a estibordo duas asas que se vo abatendo alternadamente, conforme o
  vento, e suprem a quilha. A segunda dificuldade era a volta de Herm, volta
  complicada por um pesado lastro de pedras.

O prmio da
  justa era a chalupa. De antemo estava dada ao vencedor. A pana servira de
  barco-piloto; o piloto que navegara nela durante vinte anos era o mais robusto
  marinheiro da Mancha; quando morreu no houve ningum que quisesse governar o
  barco e decidiram fazer dele um prmio de regata. A pana, embora no tivesse
  coberta, tinha qualidades boas e podia tentar um manobrista. Era mastreada na
  frente, o que aumentava a fora de trao do velame. Outra vantagem, o mastro
  no impedia a carga. Era uma concha slida; pesada, mas vasta, e suportando bem
  o mar. Houve empenho em disput-la; a luta era rude, mas o prmio era magnfico.
  Apresentaram-se sete ou oito pescadores, os mais vigorosos da ilha. Tentaram um
  por um; nenhum deles pde ir a Herm. O ltimo que lutou era conhecido por ter
  passado a remos, com tempo mau, o terrvel redemoinho que h entre Serk e
  Brecq-Hou. Escorrendo em suor, trouxe ele a pana e disse:   impossvel.  Foi
  ento que Gilliatt entrou no barco; empunhou primeiramente o remo, e depois a
  grande escota, e fez-se ao largo. Depois, sem atar a escota, o que seria
  imprudncia, e sem larg-la, o que lhe dava o domnio da vela grande, deixando a
  escota rolar  feio do vento sem descair, segurou com a mo esquerda a cana do
  leme. Dentro de trs quartos de hora estava em Herm. Trs horas depois, posto
  que soprasse ento um forte vento do sul, atravessando a barra, a pana,
  governada por Gilliatt, entrava em Saint-Sampson, com o carregamento de pedras.
  Gilliatt trouxe, por luxo e bravata, alm do carregamento, um pequeno canho de
  bronze de Herm, com que a gente da ilha salvava todos os anos, a 5 de novembro,
  em regozijo pela morte de Guy Fawkes.

Guy Fawkes,
  digamo-lo de passagem, morreu h 260 anos; foi uma grande satisfao.

Gilliatt, assim
  carregado e estafado, embora trouxesse o canho na barca, e o vento sul na vela,
  voltou a Saint-Sampson.

Vendo isto,
  Mess Lethierry exclamou:  Ora, aqui est um marinheiro atrevido!

E estendeu a
  mo a Gilliatt.

Tornaremos a
  falar de Mess Lethierry.

A pana foi
  entregue a Gilliatt.

Esta aventura
  no lhe destruiu a alcunha de Finrio.

Algumas pessoas
  declararam que a coisa no era para admirar, visto que Gilliatt escondera no
  barco um galho de nespereira silvestre. Mas ningum pde provar isso.

Desde esse dia
  Gilliatt no teve outra embarcao. Naquela pesada chalupa  que ele ia  pesca.
  Amarrava-a no excelente ancoradourozinho que tinha s para seu uso, debaixo do
  muro da casa mal-assombrada. Ao cair da noite, atirava a rede s costas,
  atravessava o jardim, galgava o parapeito de pedras secas, rolava de rochedo em
  rochedo, e saltava na barca. Da fazia-se ao mar.

Pescava muito
  peixe, mas afirmava-se que o galho de nespereira estava sempre atado  chalupa.
  Ningum o viu nunca, mas toda a gente acreditava.

No vendia,
  dava o peixe que lhe sobrava.

Os pobres
  aceitavam o peixe, sem deixarem de lhe querer mal por causa do ramo embruxado.
  No se deve trapacear com o mar.

Era pescador,
  mas no era s isso. Tinha aprendido, por instinto ou para distrair-se, trs ou
  quatro ofcios. Era marceneiro, ferreiro, fabricante de carros, calafate, e at
  um pouco mecnico. Ningum consertava uma roda como ele. Fabricava, de um modo
  especial, todos os seus instrumentos de pesca. Tinha em um canto da casa uma
  pequena forja e uma bigorna, e, no tendo a chalupa mais que uma ncora, fez-lhe
  outra, ele s. Excelente ncora era essa; a argola tinha a fora requerida, e
  Gilliatt, sem que ningum lho ensinasse, achou a dimenso exata que devia ter o
  cepo da ncora para que ela no voltasse.

Substituiu com
  toda a pacincia os pregos das bordas por cavilhas, tornando assim impossvel a
  ferrugem.

Deste modo
  aumentou muito as boas qualidades da pana. Aproveitava-se dela para ir de
  quando em quando passar um ou dois meses em alguma ilhota solitria como Chousey
  ou Casquets. Dizia-se ento: Olhem, Gilliatt est fora. Ningum se incomodava
  por isso.

CAPTULO VII
CASA EMBRUXADA, MORADOR
  VISIONRIO

Gilliatt era o
  homem do sonho. Vinham da as suas audcias e as suas hesitaes. Tinha idias
  propriamente suas.

Havia talvez
  nele a ligao do alucinado e do iluminado. A alucinao entra na cabea de um
  campnio como Martin, do mesmo modo que na cabea de um rei como Henrique IV. O
  Desconhecido faz surpresas ao esprito do homem. Rasga-se bruscamente a sombra,
  deixa ver o invisvel; depois fecha-se. Tais vises so s vezes
  transfiguradoras; de um condutor de camelos faz Maom, de uma cabreira faz Joana
  d'Arc. A solido desprende uma certa quantidade de desvario sublime.  o fumo da
  sara ardente. Resulta da um misterioso estremecer de idias: o doutor
  dilata-se at o vidente, o poeta at o profeta; resulta Horeb, Cdron, Ombos, a
  embriaguez do louro mastigado da Castlia, as revelaes do ms Busion; resulta
  Pelia em Dodona, Femnoe em Delfos, Trofnio em Lebadia, Ezequiel no Kebar,
  Jernimo na Tebaida. Na maior parte dos casos o estado visionrio abate o homem,
  e o embrutece. O embrutecimento sagrado existe. O faquir carrega a sua viso,
  como o habitante alpino a sua papeira. Lutero falando aos diabos no celeiro de
  Wurtemberg, Pascal tapando o inferno com o biombo de seu gabinete, o obi negro,
  dialogando com o deus branco chamado Bossum,  o mesmo fenmeno diversamente
  produzido, segundo a fora e a dimenso de cada crebro. Lutero e Pascal so e
  ficam sendo grandes; o obi negro  imbecil.

Gilliatt no
  era tanto, nem to pouco. Era um pensativo. Nada mais. Contemplava a natureza de
  um modo singular.

Tinha visto
  algumas vezes, na gua do mar, completamente lmpida, animais inesperados, de
  grandes dimenses, de formas diversas, os quais, fora da gua, assemelhavam-se a
  cristal mole, e, tornados  gua, confundiam-se com ela, pela identidade de
  transparncia e de cor; disto conclua ele que, se a gua era habitada por
  transparncias vivas, bem podia ser que o ar fosse habitado por transparncias
  igualmente vivas. Os pssaros no so os habitantes, so os anfbios do ar.
  Gilliatt no acreditava no ar deserto. Dizia ele: se o mar est cheio de
  criaturas, por que motivo a atmosfera ser vazia? Criaturas cor do ar podem
  escapar aos nossos olhos por causa da luz; quem nos prova que essas criaturas
  no existem? A analogia indica que o ar deve ter os seus peixes, como o mar; os
  peixes do ar sero talvez difanos, benefcio da providncia criadora, tanto a
  nosso favor, como a favor deles; deixando passar a luz atravs da sua forma, e
  no fazendo sombra, ficam ignorados de ns, e nada poderemos saber. Gilliatt
  imaginava que, se se pudesse esvaziar a atmosfera, pescando-se no ar como num
  tanque, achar-se-ia uma poro de criaturas surpreendentes. E, acrescentava ele,
  na sua cisma, muitas coisas se explicariam.

A cisma, que 
  o pensamento no estado nebuloso, confina com o sono e preocupa-se a respeito
  dele, como de sua prpria fronteira. O ar habitado por transparncias vivas
  seria o comeo do Desconhecido; alm abre-se a vasta porta do possvel. Outros
  seres e outros fatos. Nada sobrenatural; mas a continuao oculta da natureza
  infinita. Gilliatt, no cio laborioso que compunha a sua existncia, era um
  observador estranho e fantstico. Chegava a observar o sono. O sono est em
  contato com o possvel, que tambm chamamos o inverossmil. O mundo noturno  um
  mundo. A noite  um universo. O organismo material humano, sobre o qual pesa uma
  coluna atmosfrica de 15 lguas de altura, chega  noite fatigado, cai de
  fraqueza, deita-se, repousa; fecham-se os olhos da carne; ento, naquela cabea
  adormecida, menos inerte do que se cr, abrem-se outros olhos, aparece o
  Desconhecido. As coisas sombrias do mundo ignorado tornam-se vizinhas do homem,
  ou porque haja verdadeira comunicao, ou porque as distncias do abismo tenham
  crescimento visionrio; parece que as criaturas invisveis do espao vm
  contemplar-nos curiosas a respeito da criatura da terra; uma criao fantasma
  sobe ou desce para ns, no meio de um crepsculo; ante a nossa contemplao
  espectral, uma vida que no  a nossa agrega-se e dissolve-se, composta de ns
  mesmos e de um elemento estranho; e aquele que dorme, nem completo vidente, nem
  completo inconsciente, entrev as animalidades estranhas, as vegetaes
  extraordinrias, as cores lvidas, terrveis ou risonhas, as larvas, as
  mscaras, os rostos, as hidras, as confuses, os luares sem lua, as obscuras
  decomposies do prodgio, o crescer e o decrescer no meio da espessura turvada,
  a flutuao de formas nas trevas, todo esse mistrio que chamamos sonho, e que
  no  mais do que a aproximao de uma realidade invisvel. O sonho  o aqurio
  da noite.

Assim sonhava
  Gilliatt.

CAPTULO VIII
A CADEIRA GILD-HOLM
  'UR

Quem procurasse
  hoje a casa de Gilliatt no a encontraria, nem o jardim, nem a enseada onde ele
  guardava a chalupa. A casa mal-assombrada j no existe. A pennsula onde essa
  casa estava edificada caiu  picareta dos demolidores, e foi conduzida, s
  carradas, para os navios dos alborcadores de rochedos e comerciantes de granito.
  A pennsula fez-se cais, igreja e palcios na capital. Toda aquela crista de
  rochedos partiu h muito para Londres.

Aqueles
  prolongamentos de rochas no mar, com aberturas e recortes, so verdadeiras
  cadeias de pequenas montanhas; vendo-as, recebe-se a mesma impresso que teria
  um gigante contemplando as cordilheiras. O idioma local chama-os bancos. H os
  de diversas figuras. Uns assemelham-se a uma espinha dorsal, cada rochedo  uma
  vrtebra; outros a uma espinha de peixe; outros a um crocodilo bebendo
  gua.

Na extremidade
  da pennsula da casa mal-assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do
  Hommet chamavam Corne de la Bte. Essa rocha, espcie de pirmide,
  assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pinculo de Jersey. Nas mars
  cheias, o mar separava-a da pennsula e a Corne de la Bte ficava isolada. Nas
  vazantes ia-se at l por um istmo de rochas praticveis. A curiosidade do
  rochedo era, do lado do mar, uma espcie de cadeira natural cavada pelas guas e
  polida pela chuva. Era prfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente
  arrastada at ali pela beleza da vista; parava por amor da perspectiva,
  como se diz em Guernesey; o encanto dos grandes horizontes retinha l o
  observador curioso.

A cadeira
  oferecia-se logo aos olhos dele; era uma espcie de nicho na fachada a pique do
  rochedo; trepar quele nicho era coisa fcil; o mar que o talhara tinha feito
  embaixo uma espcie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o abismo
  tem destas atenes, desconfia sempre da sua cortesia; a cadeira tentava, a
  gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto
  e arredondado pela escuma, e por braos duas anfratuosidades que pareciam feitas
  de propsito; por encosto toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente
  admirava sem pensar na impossibilidade de escal-la; era simples esquecer-se
  sentado naquela poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios
  entrar e sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela at mergulhar-se alm
  dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gozava-se;
  sentia-se o afago da brisa e do mar; h em Caiena um vespertlio, que adormece a
  gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento  esse morcego
  invisvel; quando no devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o
  vento, at que vinha o letargo do xtase. Quando os olhos se enchem de um
  excesso de beleza e de luz, fech-los  voluptuosidade. Acordava-se de sbito.
  Era tarde. A mar crescera a pouco e pouco. A gua cingia o rochedo.

Estava-se
  perdido.

Tremendo
  bloqueio  o mar que sobe!

A mar cresce
  insensivelmente ao princpio, depois com violncia. Chegando s rochas,
  encoleriza-se, escuma. Nem sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes
  nadadores morreram afogados naquele lugar.

Em certos
  pontos, a certas horas, contemplar o mar  sorver um veneno. E o que acontece,
  s vezes, olhando para uma mulher.

Os
  antiqussimos habitantes de Guernesey chamavam outrora quele nicho talhado na
  rocha pela vaga a Cadeira Gild-Holm-'Ur ou Kidormur. Palavra
  cltica, dizem, no entendida pelos que sabem cltico, e entendida pelos que
  sabem francs. Quem-dorme-morre. (Qui-dort-ineurt.) Tal  a
  traduo rstica. Pode-se escolher entre esta traduo Quem-dorme-morre e
  a traduo dada em 1819, creio eu, no Armoricano, por Mr. Athenas.
  Segundo este conhecedor da lngua cltica, Gild-Holm-'Ur quer dizer Alta-dos-bandos-de-pssaros.

H em Aurigny
  outra cadeira deste gnero que se chama Cadeira do Frade, tambm
  arranjada pelo mar, e com uma salincia de pedra ajustada to a propsito que se
  pode dizer que o mar teve a complacncia de pr um tamborete debaixo dos nossos
  ps.

Nas mars
  cheias, no se podia ver a Cadeira Gild-Holm-'Ur. A gua cobria-a
  inteiramente.

A Cadeira
  Gild-Holm-'Ur era vizinha da casa mal-assombrada. Gilliatt ia l sentar-se
  muitas vezes. Meditava? No. J o dissemos, Gilliatt sonhava. No se deixava
  surpreender pela mar.

LIVRO SEGUNDO
MESS LETHIERRY

CAPTULO PRIMEIRO
VIDA AGITADA E CONSCINCIA
  TRANQILA

Mess Lethierry,
  o homem notvel de Saint-Sampson, era um marinheiro terrvel. Tinha navegado
  muito. Foi grumete, gajeiro, timoneiro, contramestre, mestre de equipagem,
  piloto, arrais. Agora era armador. Ningum conhecia o mar como ele. Era
  intrpido para salvar gente. Quando havia temporal, Mess Lethierry ia passear 
  praia, com os olhos no horizonte. Que  aquilo l ao longe?  algum que est em
  perigo.  um barco de Weymouth, ou de Aurigny, ou de Courseulle,  o iate de um
  lorde, um ingls, um francs, um pobre, um rico,  o diabo, fosse quem fosse,
  ele saltava dentro da lancha, chamava dois ou trs homens valentes,
  dispensava-os quando no tinha, equipava ele s, desatava a amarra, travava do
  remo, fazia-se ao largo, subia e descia nas cavas das ondas, mergulhava no
  furaco, ia ao perigo. Viam-no assim de longe, no meio das lufadas do vento, de
  p sobre a embarcao, gotejante de chuva, confundido com os relmpagos, face de
  leo e juba de espuma. Passava assim s vezes um dia inteiro no perigo, e nas
  vagas  saraiva e ao vento, costeando os navios que soobravam, salvando homens,
  salvando cargas, disputando com a tempestade. Voltava  noite para casa, e tecia
  um par de meias.

Passou esta
  vida cinqenta anos, desde os dez at os sessenta, enquanto foi moo. Aos
  sessenta anos, viu que j no podia levantar com um brao a bigorna da forja de
  Varclin; pesava aquela bigorna 300 libras; foi atacado repentinamente de
  reumatismo. Teve de deixar o mar. Passou da idade herica  idade patriarcal. J
  no era mais que um bonacho.

Mess Lethierry
  alcanou a um tempo o reumatismo e a abastana. Esses dois produtos do trabalho
  acompanhavam-se voluntariamente. Quem chega a ser rico, fica inutilizado.  a
  coroa da vida.

Diz-se ento:
  vamos gozar agora.

Nas ilhas como
  Guernesey, a populao  composta de homens que passaram a vida a andar  roda
  do campo, e de homens que passaram a vida a viajar  roda do mundo. So duas
  espcies de lavradores, uns da terra, outros do mar. Mess Lethierry era dos
  ltimos. Conhecia, porm, a terra. Tinha trabalhado muito. Viajara no
  continente. Foi algum tempo carpinteiro de navio em Rochefort, depois em
  Cette.

Falamos nas
  viagens  roda do mundo; Mess Lethierry viajou a Frana toda como carpinteiro.
  Trabalhou nos aparelhos para esgoto das salinas de Franche-Comt. Aquele honrado
  homem teve uma vida de aventureiro. Na Frana aprendeu a ler, a pensar, a
  querer. Fez tudo, e de quanto fez extraiu a probidade. O fundo da sua natureza
  era o marinheiro. A gua lhe pertencia. Os peixes esto em minha casa, dizia
  ele. Em suma, toda a sua existncia, com exceo de dois ou trs anos, foi
  consagrada ao oceano; atirada  gua, dizia ele. Navegara nos grandes mares,
  no Atlntico e no Pacfico; mas preferia a Mancha. Aquele  que  rude,
  exclamava ele com amor. Nasceu ali, ali queria morrer. Depois de ter feito duas
  ou trs vezes a volta do mundo, e sabendo o que devia escolher, voltou a
  Guernesey, e no se mexeu dali. As suas viagens, ento, eram Granville e
  Saint-Malo.

Mess Lethierry
  era guernesiano, isto , normando, ingls, francs. Tinha essa ptria qudrupla,
  imersa e como que afogada na sua grande ptria, o oceano. Durante a sua vida, e
  em toda parte, conservou os costumes de pescador normando.

Isso, porm,
  no tolhia que ele abrisse de quando em quando um alfarrbio, gostasse de ler um
  livro, de saber os nomes dos filsofos e poetas, e taramelar em vascono um
  pouquinho de cada lngua.

CAPTULO II
UMA PREFERNCIA DE MESS
  LETHIERRY

Gilliatt era um
  selvagem. Mess Lethierry era outro.

Este, porm,
  era um selvagem elegante.

Era exigente a
  respeito de mos de mulheres.

Ainda moo,
  quase menino, estando entre marinheiro e grumete, ouviu dizer ao bailio de
  Suffren: Bonita rapariga, mas que grandes mos vermelhas que ela tem! Um dito
  de almirante impe, em qualquer assunto que seja. Acima de um orculo est uma
  senha. A exclamao do bailio de Suffren fez com que Mess Lethierry se tornasse
  delicado e exigente acerca de mos alvas. A dele era uma larga esptula, escura
  na cor; na agilidade era uma clava, nas carcias uma torqus; quebrava um seixo
  com um soco.

No era casado.
  No quis ou no encontrou mulher. Naturalmente, o marinheiro queria mos de
  duquesa. No se encontram mos dessas nas pescadoras de Port-Bail.

Conta-se
  entretanto que em Rochefort (Charente) achou ele um dia uma grisette que
  realizava o seu ideal. Linda moa e lindas mos. Detraa e arranhava. Afront-la
  era perigoso. As suas unhas, extremamente asseadas, tornavam-se garras
  destemidas, quando era necessrio. To belas unhas encantaram Mess Lethierry;
  mas depois, receando que viesse a perder a autoridade sobre a amante, resolveu
  no levar aquele namorico  presena do senhor maire.

De outra feita,
  em Aurigny, gostou de uma rapariga. J cuidava dos esponsais, quando um
  residente do lugar lhe disse: Dou-lhe os meus parabns. Leva uma boa
  esterqueira. Lethierry pediu explicaes deste elogio. Em Aurigny h uma moda.
  Apanha-se esterco de vaca e deita-se s paredes. Depois de seco, cai o esterco e
  serve para aquecer a gente. Ningum casa com uma rapariga, seno quando  boa
  esterqueira. Esta habilidade afugentou Mess Lethierry.

Demais, em
  assunto de amor ou namoro, tinha ele uma boa filosofia rstica, uma cincia de
  marinheiro: apanhado sempre, encadeado nunca. Lethierry gabava-se de ter-se
  deixado vencer sempre pela vasquinha, no tempo da sua mocidade. O que
  hoje se chama crinolina chamava-se, ento, vasquinha. Significa mais e menos que
  uma mulher.

Os rudes
  marinheiros do arquiplago normando so inteligentes. Quase todos sabem ler.
  Vem-se, aos domingos, rapazitos de oito anos, assentados em um grande rolo de
  cabos, com um livro na mo. Os marinheiros normandos foram sempre sardnicos, e
  sabem dizer coisas chistosas. Foi um deles, o atrevido piloto Queripel, quem
  atirou a Montgomery, refugiado em Jersey depois da funesta lanada contra
  Henrique II, esta apstrofe: Cabea doida feriu a cabea vazia. Outro
  marinheiro, por nome Touzeau, arrais em Saint-Brelade, fez o trocadilho
  filosfico atribudo ao Bispo Camus: Aprs la mort les papes deviennent
    papillons et les sires deviennent cirons (Depois da morte tornam-se os
  papas borboletas, e os reis ouos.)

CAPTULO III
A VELHA LNGUA DO
  MAR

Os marinheiros
  das Channel-Islands so puros gauleses. Estas ilhas, que se vo fazendo
  inglesas, conservaram-se muito tempo autctones. O campons de Serk fala a
  lngua de Lus XIV.

H quarenta
  anos, achava-se ainda na boca dos marinheiros de Jersey e de Aurigny o idioma
  martimo clssico. Fazia crer que estvamos em plena marinha do sculo XVII. Um
  arquelogo especialista poderia ir estudar ali a antiga linguagem de manobra e
  de batalha esbravejada por Jean Bart naquele porta-voz que aterrava o Almirante
  Hidde.

O vocabulrio
  martimo dos nossos pais, quase inteiramente renovado hoje, era ainda usado em
  Guernesey, em 1820. O navio que suporta o vento era bon boulinier (bom de
  bolina); dizia-se do navio que se afeioa ao vento, por si mesmo, apesar das
  velas de proa e do leme, vaisseau ardent (navio que se agua); entrar em
  movimento era prendre aire (tomar o vento); pr-se  capa era capeyer (capear); apanhar o vento por cima era faire chapelle (tocar em vento); agentar bem sobre a amarra era faire teste; estar em
  confuso a bordo era tre en pantenne; ter o vento nas velas era porter-pain (levar em cheio).

Hoje nada disto
  se diz. Diz-se hoje louvoyer (bolinar); dizia-se leauvoyer; diz-se naviguer (navegar), dizia-se nager; diz-se virer vent
    devant (virar por d'avante), dizia-se vidonner vent devant; diz-se aller de l'avant (seguir avante), dizia-se tailler de l'avant;
  diz-se tirer d'accord (alar  uma), dizia-se haller daccord;
  diz-se draper (arrancar o ferro), dizia-se dplanter; diz-se embraquer (tesar), dizia-se abraquer; diz-se taquets (cunhas), dizia-se billons; diz-se burins (passadores), dizia-se tappes; diz-se balancines (amantilhos), dizia-se valancines; diz-se tribord (estibordo), dizia-se stribord;
  diz-se les hommes de quart  bbord (homens de quarto a bombordo),
  dizia-se les basbourdis.

Tourville
  escrevia a Hocquincourt: Nous avons singl (singramos). Em
    vez de la rafale (a lufada), le raffal; em vez de bossoir (turcos), boussoir; em vez de drosse (bossa), drousse; em
    vez de loffer (arribar), faire une olofe; em vez de elonger (alongar), alonger; em vez de forte brise (vento
    fresco), survent; em vez de sout (paiol), fosse; em vez de jouail (cepo de ncora), jas; tal era, no comeo deste sculo, a
    lngua de bordo nas ilhas da Mancha. Ouvindo falar um marinheiro de Jersey, Ango
    ficaria abalado. Enquanto no resto do mundo as velas faseyaint (panejavam), barbeyaient nas ilhas da Mancha. Saute-de-vent (cambar o vento) era follevente. S ali se empregavam os dois modos
    gticos de amarrao, a valturre e a portuguesa. S ali se davam ordens destas: Tour-et-choque!  Bosse et Bitte!  J um marinheiro de Granville
    dizia le clan (o gorne); e ainda o marinheiro de Saint-Aubin ou de
    Saint-Sampson dizia le canal de pouliot. O que era bout-d'alonge (postura) em Saint-Malo, era em Saint-Hlier oreille d'ne. Mess
    Lethierry, como o Duque de Vivonne, chamava o tosado de convs la
      tonture.

Foi com este
  idioma extravagante que Duquesne bateu Ruyter, que Duguay-Trouin bateu Wasnaer,
  e Tourville em 1681 atravessou em pleno dia a primeira galera que bombardeou
  Argel. Hoje  lngua morta. A gria do mar  outra. Duperr no poderia entender
  Suffren.

No menos se
  transformou a lngua dos sinais; e h grande distncia entre as flmulas
  encarnada, branca, azul e amarela de Labourquedonnaye e os dezoito pavilhes de
  hoje, arvorados dois a dois, trs a trs e quatro a quatro, do para as
  necessidades da combinao distante, 70.000 combinaes, suprem tudo, e, por
  assim dizer, prevem o imprevisto.

CAPTULO IV
VULNERABILIDADE POR
  AMOR

Mess Lethierry
  tinha o corao nas mos; mos largas e corao grande. O defeito dele era a
  admirvel qualidade da confiana. Tinha uma maneira especial de contrair uma
  obrigao; era solene: Dou a minha palavra de honra a Deus. Dito isto, cumpria
  a promessa. Acreditava em Deus, e nada mais. Ia poucas vezes  igreja, e isso
  mesmo, por cortesia. No mar, era supersticioso.

Nunca houve,
  porm, tempestade que o fizesse recuar;  que ele era pouco acessvel 
  contradio. No a tolerava, nem num homem, nem no oceano. Queria ser obedecido;
  tanto pior para o mar se resistia; tinha de lutar com ele. Mess Lethierry no
  cedia nunca. Vaga que se empinasse, vizinho que contendesse, nada lhe detinha a
  mo. O que dizia estava dito, o que planeava estava feito. No se curvava, nem
  diante de uma objeo, nem diante de uma tempestade. No, para ele, era
  palavra que no existia, nem na boca de um homem, nem no ribombo de uma nuvem.
  Passava adiante. No consentia que se lhe recusasse nada. Da vinha a sua
  pertincia na vida e a sua intrepidez no oceano.

Era ele prprio
  quem temperava a sua sopa de peixe; sabia que poro de sal, pimenta e ervas era
  preciso, e gostava tanto de faz-la como de com-la.

Criatura que um
  riso transfigura, e um casaco embrutece, assemelhando-se, com os cabelos soltos,
  a Jean Bart, e, com o chapu redondo, a Jocrisse, acanhado na cidade, estranho e
  temvel no mar, espdua de carregador, sem imprecaes, quase sem clera, voz
  doce e meiga que o porta-voz transforma em trovo, campnio que leu a
  Enciclopdia, guernesiano que viu a revoluo, ignorante instrudo, ermo de
  carolice, dado s vises, mais f na Dama Branca que na Santa Virgem, lgica de
  ventoinha, vontade de Cristvo Colombo, um tanto de touro e um tanto de
  criana, nariz quase rombo, faces grossas, boca com todos os dentes, rosto
  enrugado, cara que parece ter sido feita pelo mar, beijada pelos ventos durante
  quarenta anos, ar de tempestade na fronte, carnao de rocha em pleno mar; pe
  agora um olhar bom neste rosto agreste, e ters Mess Lethierry.

Mess Lethierry
  tinha dois amores: Durande e Druchette.

LIVRO TERCEIRO
DURANDE E
  DRUCHETTE

CAPTULO PRIMEIRO
GARRULICE E
  EFLVIOS

O corpo humano
   talvez uma simples aparncia, escondendo a nossa realidade, e condensando-se
  sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade  a alma. A bem dizer, o
  rosto  uma mscara. O verdadeiro homem  o que est debaixo do homem. Mais de
  uma surpresa haveria se se pudesse v-lo agachado e escondido debaixo da iluso
  que se chama carne. O erro comum  ver no ente exterior um ente real. Tal
  criaturinha, por exemplo, se pudssemos v-la como realmente , em vez de moa,
  mostrar-se-ia pssaro.

Pssaro com
  forma de moa, que h a de mais delicado? Imagina que a tens em casa. Supe que
   Druchette. Deliciosa criatura! D vontade de dizer: Bom dia, mademoiselle
  alvloa. No se lhe vem as asas, mas ouve-se-lhe o gorjeio. Canta s vezes. Na
  tagarelice est abaixo do homem; no canto, est acima dele. Tem mistrios aquele
  canto; uma virgem  o invlucro de um anjo. Feita a mulher, desaparece o anjo;
  volta, porm, depois trazendo uma alma de criana  me. Esperando a vida,
  aquela que h de ser me algum dia, conserva-se muito tempo criana, a menina
  persiste na moa;  uma calhandra. Pensa-se, ao v-la: que boa que ela  em no
  bater as asas para ir-se embora!

A meiga e
  familiar criatura acomoda-se em casa, de ramo em ramo, isto , de quarto em
  quarto, entra, sai, acerca-se, afasta-se, alisa as penas, ou penteia os cabelos,
  faz toda espcie de rumores delicados, murmura um no sei qu de inefvel aos
  teus ouvidos. Quando ela interroga, responde-se-lhe; interrogada, gorjeia.
  Tagarela-se com ela. A tagarelice serve para descansar de falar. H uma poro
  celeste nessa menina. E um pensamento azul misturado ao teu pensamento negro.
  Alegras-te por v-la to esquiva, to ligeira, to fugitiva; agradeces-lhe a
  bondade de no ser invisvel, ela, que poderia, creio eu, ser impalpvel. Neste
  mundo o lindo  o necessrio. H mui poucas funes to importantes como esta de
  ser encantadora. Que desespero na floresta se no houvesse o colibri! Exalar
  alegrias, irradiar venturas, possuir no meio das coisas sombrias uma transudao
  de luz, ser o dourado do destino, a harmonia, a gentileza, a graa, 
  favorecer-te. A beleza basta ser bela para fazer bem. H criatura que tem
  consigo a magia de fascinar tudo quanto a rodeia; s vezes nem ela mesmo o sabe,
  e  quando o prestgio  mais poderoso; a sua presena ilumina, o seu contato
  aquece; se ela passa, ficas contente; se pra, s feliz; contempl-la  viver; 
  a aurora com figura humana; no faz nada, nada que no seja estar presente, e 
  quanto basta para edenizar o lar domstico; de todos os poros sai-lhe um
  paraso;  um xtase que ela distribui aos outros, sem mais trabalho que o de
  respirar ao p deles. Ter um sorriso que  ningum sabe a razo  diminui o peso
  da cadeia enorme arrastada em comum por todos os viventes, que queres que te
  diga?  divino. Druchette tinha esse sorriso. Mais ainda, era o prprio
  sorriso. H alguma coisa mais parecida que o nosso rosto,  a nossa fisionomia;
  e outra mais parecida que a nossa fisionomia,  o nosso sorriso. Druchette,
  risonha, era Druchette.


  particularmente sedutor o sangue de Jersey e de Guernesey. As mulheres, as
  raparigas, sobretudo, tm uma beleza florida e cndida.  a combinao da alvura
  saxnia com a frescura normanda. Faces rosadas e olhos azuis. Falta-lhes brilho
  nos olhos. A educao inglesa amortece-os. Sero irresistveis aqueles olhos
  lmpidos no dia em que tiverem a profundeza do olhar parisiense. A parisiense
  ainda no se fez inglesa, felizmente. Druchette no era parisiense, mas tambm
  no era guernesiana. Nascera em Saint-Pierre-Port, mas Mess Lethierry foi quem a
  educou. Educou-a para ser mimosa, a menina o era.

Druchette
  tinha o olhar indolente e agressivo, sem que o soubesse. No conhecia talvez o
  sentido da palavra amor e fazia com que a gente se apaixonasse por ela. Mas era
  sem m inteno. Druchette nem pensava em casamento. O velho fidalgo emigrado
  que fora residir em Saint-Sampson dizia: Esta rapariga seduz a
  matar.

Druchette
  tinha as mais lindas mozinhas deste mundo, e ps iguais s mos, quatro
  pezinhos de mosca, dizia Mess Lethierry. Tinha em si a bondade e a doura; o
  tio Lethierry era toda a sua famlia e riqueza; o trabalho dela era deixar-se
  viver; tinha por talento algumas canes, por cincia a beleza, por esprito a
  inocncia, por corao a ignorncia; tinha a graciosa indolncia crioula,
  mesclada de travessura e de viveza, a jovialidade traquinas da infncia com um
  pendor  melancolia, vesturios um pouco insulares, elegantes, mas incorretos,
  chapus de flores todo o ano, fronte ingnua, pescoo flexvel e tentador,
  cabelos castanhos, pele branca com alguns toques arruivados no vero, boca
  grande e s, e nessa boca o adorvel e perigoso esplendor do sorriso. Eis o que
  era Druchette.

Algumas vezes,
   noite, aps o pr-do-sol, no momento em que a noite se mistura com o mar, 
  hora em que o crepsculo d uma espcie de terror s vagas, via-se entrar na
  barra de Saint-Sampson, ao tumulto sinistro das ondas, uma certa massa informe,
  uma coisa monstruosa que silvava e cuspia, que roncava como uma besta e fumegava
  como um vulco, uma espcie de hidra babando espuma e arrastando um nevoeiro,
  atirando-se sobre a cidade com um horrvel movimento de barbatanas e uma goela
  donde as chamas irrompiam. Era Durande.

CAPTULO II
A ETERNA HISTRIA DA
  UTOPIA

Era uma
  prodigiosa novidade o aparecimento de um navio a vapor nas guas da Mancha em
  1822... Toda a costa normanda esteve por muito tempo assombrada. Hoje dez ou
  doze vapores cruzam-se em sentido inverso no horizonte do mar, sem atrair os
  olhos de ningum. Quando muito, algum observador especialista distingue, pela
  cor da fumaa, se o carvo que consome o navio  de Gales ou de Newcastle.
  Passam;  quanto basta. Se partem: Boa viagem!; se chegam:
  Welcome!

No era to
  grande a calma a respeito de tais invenes no primeiro quarto do nosso sculo,
  e estas mquinas fumegantes eram particularmente suspeitas entre os insulares da
  Mancha. Neste arquiplago puritano onde a rainha da Inglaterra foi censurada por
  violar a Bblia[i] narcotizando-se para dar  luz, o navio
  a vapor teve como primeiro cumprimento o ser batizado com este nome: Devil-Boat  Navio-Diabo.

A esses bons
  pescadores de ento, outrora catlicos, agora calvinistas, e sempre beatos,
  pareceu-lhes aquilo o inferno flutuante. Um pregador da terra tratou da questo:
  Temos ns o direito de fazer trabalhar juntos o fogo e a gua que Deus
  separou?[ii] Aquele animal de ferro e fogo no era
  a imagem de Leviat? No era isso refazer o homem, a seu modo, o primitivo caos?
  No  a primeira vez que acontece qualificar a ascenso do progresso de
  retrogradao ao caos.

Idia louca,
  erro grosseiro, absurdo: tal foi o veredicto da Academia das Cincias
  consultada por Napoleo no comeo deste sculo, acerca do vapor. Os pescadores
  de Saint-Sampson tm desculpa de se acharem, em matria cientfica, ao nvel dos
  gemetras de Paris; e, em matria religiosa, uma pequena ilha como Guernesey no
  tem obrigao de ser mais ilustrada que um grande continente como a Amrica. Em
  1807, quando o primeiro navio de Fulton, patrocinado por Livingston, provido da
  mquina de Watt mandada da Inglaterra, e tripulado, alm da equipagem, por dois
  franceses, somente, Andr Michaux e outro, fez a sua primeira viagem de Nova
  York a Albany, deu-se o caso de acontecer isso no dia 17 de agosto. Esta
  coincidncia deu origem a que o metodismo tomasse a palavra, e em todas as
  capelas os pregadores amaldioaram a mquina, declarando que o nmero dezessete
  era o total das dez antenas e das sete cabeas da besta do Apocalipse. Na
  Amrica invocava-se contra o vapor a besta do Apocalipse; na Europa a besta do
  Gnesis. Nisto consistia toda a diferena.

Os sbios
  haviam rejeitado o vapor como impossvel; os padres, a seu turno, rejeitavam-no
  como mpio. A cincia condenava, a religio anatematizava. Fulton era uma
  variante de Lcifer. Os habitantes simplrios das costas e dos campos aderiam 
  reprovao pelo incmodo que lhes causava a novidade. Na presena do vapor, o
  ponto de vista religioso era este: a gua e o fogo so um divrcio. Este
  divrcio  ordenado por Deus. No se deve desunir o que Deus uniu, nem unir o
  que ele desuniu. O ponto de vista do campons era: isto mete-me medo.

Para cometer,
  naquela poca remota, a empresa de uma navegao a vapor entre Guernesey e
  Saint-Malo, nada menos era preciso que um homem como Mess Lethierry. S ele
  podia conceb-la na qualidade de livre pensador, e realiz-la na qualidade de
  marinheiro atrevido. O seu eu francs concebeu a idia; o seu eu ingls executou-a.

Em que ocasio?
Digamo-lo.

CAPTULO III
RANTAINE

Quarenta anos
  antes da poca em que se passam os fatos que narramos, havia em um arrabalde de
  Paris, entre a Fosse-aux-Loups e a Tombe Issoire, um albergue suspeito. Era uma
  casinha isolada e baixa. Morava a, com a mulher e o filho, uma espcie de
  burgus bandido, antigo escrevente de tabelio no Chtelet, e ao depois ladro
  descarado. J havia fgurado no tribunal criminal. O apelido da famlia era
  Rantaine. No referido pardieiro, em cima de uma cmoda de mogno, viam-se duas
  xcaras de porcelana pintada: em uma delas lia-se em letras douradas o seguinte
  dstico: Lembrana de Amizade; na outra: Sinal de Estima. A
  criana vivia ali na lama de parceria com o crime. Como o pai e a me pertenciam
   burguesia mediana, o menino aprendia a ler: educavam-no. A me, plida, quase
  esfarrapada, dava maquinalmente educao a seu filho: ensinava-o a soletrar; e
  interrompia o trabalho, ora para ajudar o marido em alguma emboscada, ora para
  entregar-se ao primeiro viandante. Durante esse tempo a Cruz de Jesus,
  aberta no lugar em que a deixavam, ficava sobre a mesa, e ao p do livro o
  menino pensativo.

O pai e a me,
  presos em algum flagrante delito, desapareceram na noite penal. A criana
  desapareceu tambm. Lethierry, em suas excurses, encontrou um aventureiro como
  ele, livrou-o, no se sabe de que aperto, prestou-lhe servios, afeioou-se-lhe,
  chamou-o a si, levou-o para Guernesey, achou-o inteligente para a navegao
  costeira, e deu-lhe sociedade. Era o pequeno Rantaine feito homem.

Rantaine, como
  Lethierry, tinha uma cabea robusta, espduas largas e possantes e quadris de
  Hrcules Farnese. Lethierry e ele tinham o mesmo ar e a mesma aparncia;
  Rantaine era mais alto. Quem os via, pelas costas, passear ao lado um do outro,
  dizia: l esto os dois irmos. De frente, o caso era diverso. Havia tanto de
  franco em Lethierry, como de reservado em Rantaine. Rantaine era circunspecto.
  Rantaine era esgrimista, tocava harmnica, espevitava uma vela com uma bala a
  vinte passos, dava um soco magnfico, recitava versos da Henrada, e
  adivinhava sonhos. Sabia de cor os Tmulos de So Denis, por Treneuil;
  dizia ter tido amizade com o sulto de Calicut  a quem os portugueses chamam
  Camorim. Se se pudesse folhear a carteira de lembranas que andava sempre no
  bolso dele, ter-se-iam encontrado, entre outras notas, algumas do gnero desta:
  Em Lio, numa das frestas da parede do calabouo de So Jos, h uma lima
  escondida. Falava com uma lentido discreta. Dizia-se filho de um cavalheiro de
  So Lus. A sua roupa era toda misturada e marcada com iniciais diferentes.
  Ningum mais suscetvel em coisas de honra. Batia-se e matava.

A fora
  servindo de invlucro  astcia, tal era Rantaine.

A beleza de um
  soco aplicado por ele numa feira, sobre uma cabeza de moro,
  conquistara-lhe outrora a simpatia de Lethierry.

Suas aventuras
  eram completamente ignoradas em Guernesey. Variavam muito. Se os destinos tm um
  traje, o destino de Rantaine vestia a moda de arlequim. Tinha visto o mundo:
  tinha trabalhado muito. Era um circunavegador. Teve inumerveis ofcios. Foi
  cozinheiro em Madagascar, criador de pssaros em Sumatra, general em Honolulu,
  jornalista religioso nas ilhas de Galpagos, poeta em Oomrawuttee e
  pedreiro-livre no Haiti. Neste ltimo emprego pronunciara no Grande Goave uma
  orao fnebre de que os jornais locais conservaram este fragmento: Adeus,
  pois, bela alma! na abbada azulada dos cus onde agora desferes o vo,
  encontrars sem dvida o bom Padre Leandro Crameau do Pequeno Goave. Dize-lhe
  que, graas a dez anos de esforos gloriosos, terminaste a igreja de
  Anse--Veau! Adeus! gnio transcendente, maom modelo! A mscara de
  pedreiro-livre no lhe impedia, como se v, trazer o nariz catlico. A primeira
  conciliava-o com os homens do progresso; o segundo com os homens da ordem.
  Apregoava-se branco de raa pura, odiava os negros: apesar disso teria admirado
  a Soluque. Em Bordeaux, em 1815, foi ele verdet. Naquela poca a fumaa
  de seu realismo saa-lhe pela cabea fora, na forma de um imenso penacho branco.
  Passava a vida a fazer eclipses, aparecendo, desaparecendo e tornando a
  aparecer. Era um velhaco a girar como uma rodinha de fogo. Sabia o turco: em vez
  de guilhotinado, dizia neboiss. Fora escravo em Trpoli, na casa
  de um thaleb, e a aprendera o turco  fora de bengaladas; tinha por
  obrigao ir  noite  porta das mesquitas ler em alta voz diante dos fiis o
  Alcoro, escrito em pranchas de madeira ou em omoplatas de camelo. Provavelmente
  era renegado.

Era capaz de
  tudo e mais alguma coisa.

Ria a
  gargalhadas e enrugava as sobrancelhas, a um tempo. Dizia: Em poltica, s
  estimo as pessoas inacessveis s influncias. Dizia: Sou pelos costumes.
  Dizia:  preciso repor a pirmide na base. Era mais alegre e cordial que outra
  coisa. A forma da boca desmentia-lhe o sentido das palavras. As suas narinas
  eram antes ventas de animal. Tinha no canto dos olhos uma encruzilhada de rugas
  onde toda a sorte de pensamentos obscuros davam entrevista. A  que se podia
  decifrar o segredo da fisionomia dele. Assemelhavam-se as tais rugas a uma garra
  de abutre. O crnio era chato em cima e largo nas tmporas. A orelha disforme e
  embrenhada de cabelos parecia dizer: No fales ao animal que est aqui neste
  antro.

Rantaine
  desapareceu um dia de Guernesey.

O scio de
  Lethierry raspou-se, deixando vazia a caixa da sociedade.

Havia dinheiro
  dele na caixa,  certo; mas havia tambm 50.000 francos de Lethierry.

Lethierry
  ganhara uns 100.000 francos em quarenta anos de indstria e de probidade, no seu
  ofcio de navegador costeiro e carpinteiro de navio; Rantaine levou-lhe
  metade.

Lethierry, meio
  arruinado, no cedeu, e tratou imediatamente de levantar-se. Aos homens de boa
  tmpera arruna-se a fortuna, no a coragem. Comeava-se ento a falar do vapor.
  Lethierry teve a idia de tentar a mquina de Fulton, to contestada, e ligar
  por meio de um vapor o arquiplago normando  Frana. Jogou tudo nessa idia.
  Aplicou-lhe os restos da fortuna. Seis meses depois da fuga de Rantaine a gente
  de Saint-Sampson viu estupefata sair daquele porto um navio deitando fumo, e
  produzindo o efeito de um incndio no mar: foi o primeiro vapor que sulcou as
  guas da Mancha.

Aquele navio,
  alcunhado Galeota de Lethierry, pelo desdm e dio de todos, foi
  anunciado para fazer a carreira de Guernesey a Saint-Malo.

CAPTULO IV
CONTINUAO DA HISTRIA DA
  UTOPIA

Compreende-se
  que a coisa fosse muito mal recebida. Todos os proprietrios de navios de
  carreira entre a ilha guernesiana e a costa francesa clamaram imediatamente.
  Denunciaram aquele atentado feito s Santas Escrituras e ao monoplio. Alguns
  templos fulminaram. Um reverendo, por nome Elihu, chamou ao vapor uma libertinagem. O barco  vela foi declarado ortodoxo. Viu-se distintamente
  que eram pontas do diabo as pontas dos bois que o vapor trazia e desembarcava.
  Durou o protesto um bom par de dias. Mas a pouco e pouco foram vendo que os tais
  bois chegavam menos estafados, e vendiam-se melhor, por ser a carne mais tenra;
  que tambm para os homens eram menores os riscos do mar; que a passagem, menos
  dispendiosa, era segura e mais curta; que eram fixas as horas da sada e da
  chegada; que o peixe, viajando mais depressa, chegava mais fresco, e que se
  podia levar aos mercados franceses as sobras das grandes pescas, to freqentes
  em Guernesey; que a manteiga das admirveis vacas de Guernesey fazia mais
  rapidamente o trajeto no Devil-Boat que nas chalupas  vela, e no perdia
  na qualidade, de maneira que afluam as encomendas de Dinan, de Saint-Brieuc e
  de Rennes; finalmente que, graas ao que se chamava Galeota de Lethierry,
  havia segurana de viagem, regularidade de comunicao, trfego fcil e pronto,
  aumento de circulao, multiplicao de mercados, extenso de comrcio; em suma,
  que era preciso aproveitar o Devil-Boat que violava a Bblia e enriquecia
  a ilha. Alguns espritos fortes arriscaram-se a aprovar o vapor com certa
  precauo. O Sr. Landoys, o escrevente, votou ao navio a sua estima. Era
  imparcialidade, porque ele no gostava de Lethierry: primeiro, porque Lethierry
  era mess, e Landoys era apenas senhor; depois porque, embora escrevente
  em Saint-Pierre-Port, Landoys era paroquiano de Saint-Sampson; ora, na parquia,
  s havia dois homens sem preconceitos, Lethierry e Landoys; o menos que podia
  acontecer era que um detestasse o outro. A bordo do mesmo navio distanciam-se
  duas criaturas.

Contudo, o Sr.
  Landoys teve o cavalheirismo de aprovar o vapor. Outras pessoas o imitaram.
  Insensivelmente, o fato foi subindo; os fatos so como as mars; e, com o tempo,
  com o sucesso continuado e crescente, com a evidncia do servio prestado, o
  aumento da comodidade pblica, l veio um dia em que,  exceo de alguns homens
  de juzo, toda a gente admirou a Galeota de Lethierry.

Hoje seria
  menos admirada. Aquele vapor de h quarenta anos faria sorrir os nossos atuais
  construtores. Era uma maravilha disforme, um prodgio raqutico.

Entre os nossos
  grandes paquetes transatlnticos de hoje e o navio de rodas e fogo que Dionsio
  Papin fez manobrar na Fulde em 1707, no h menor distncia que entre a nau Montebello, de 200 ps de comprimento, 50 de largura, com uma verga de
  115 ps, arqueando 2.000 toneladas, levando 1.100 homens, 120 peas, 10.000
  balas e 160 volumes de metralha, deitando 3.300 litros de ferro por banda e
  desenrolando ao vento em viagem 5.600 metros de lona, e o dromon dinamarqus do II sculo, que se achou cheio de pedras, arcos e clavas, nos
  atoleiros de Wester-Satrup, e depositado na municipalidade de
  Flensburgo.

Cem anos
  justos, 1707-1807, separam o primeiro barco de Papin do primeiro navio de
  Fulton. A Galeota de Lethierry era decerto um progresso sobre aqueles
  dois esboos, mas era esboo tambm. Nem por isso deixava de ser uma obra-prima.
  Todo embrio de cincia tem este duplo aspecto: monstro, como feto; maravilha,
  como germe.

CAPTULO V
O NAVIO-DIABO

A Galeota de
  Lethierry no era mastreada no ponto vlico, e no era isso defeito, porque
   uma das leis da construo naval; demais, sendo o fogo o propulsor do navio, o
  velame era simplesmente acessrio; um navio de rodas  quase insensvel ao
  velame que se lhe pe. A Galeota era demasiado curta e arredondada;
  grande bochecha e largos quadris; Lethierry no teve a ousadia de faz-la mais
  ligeira. A Galeota tinha alguns dos inconvenientes e das qualidades da
  pana: arfava pouco, mas rangia muito. A caixa das rodas era muito alta. A viga
  da coberta era maior do que comportava o comprimento. A mquina, que era
  massuda, atravancava o navio, e, para torn-lo capaz de um grande carregamento,
  foi preciso levantar muito a amurada, o que deu  Galeota, mais ou menos,
  o defeito das naus de 74, que s arrasando-as podem navegar e
  combater.

Sendo curta,
  devia girar depressa, visto que o tempo empregado em uma evoluo est na razo
  do comprimento do navio; mas o peso tirava-lhe a vantagem que lhe provinha de
  ser curta. O pontal era muito largo, o que lhe atrasava a marcha, porque a
  resistncia da gua  proporcional  maior seo imergida e  velocidade do
  navio. A proa era vertical, o que no seria defeito hoje, mas naquele tempo era
  uso inclin-la uns 45 graus. Todas as curvas do casco estavam bem emparelhadas,
  mas no eram suficientemente longas para a obliqidade e paralelismo com o lume
  da gua, que deve ser rechaada lateralmente. No mau tempo, calava muita gua,
  ora na proa, ora na popa, o que mostrava ter vcio de construo no centro de
  gravidade. No estando o carregamento no lugar prprio, por causa do peso da
  mquina, acontecia que o centro de gravidade passava s vezes para trs do
  mastro grande, e ento era preciso contar s com o vapor, e desconfiar da vela
  grande, porque o efeito da vela grande nesses casos fazia antes arribar que
  sustentar o vento. O recurso era, ao aproximar-se do vento, soltar a grande
  escota; deste modo o vento fixava-se na proa, pela amurada, e a vela grande
  fazia o efeito de uma vela de popa. A manobra era difcil. O leme era o leme
  antigo, no de roda como hoje, mas de cana, voltando sobre os eixos firmados no
  cadaste, e movido por uma trave horizontal que passava por cima da cava da
  culatra.

Tinha duas
  faluas suspensas. O navio era de quatro ncoras, a ncora grande, a segunda
  ncora, que  a que trabalha, workinganchor, e duas ncoras de amarra.
  Essas quatro ncoras, atadas por correntes, eram manobradas, segundo as
  ocasies, pelo grande cabrestante da popa e o pequeno cabrestante da proa. Tendo
  apenas duas ncoras de amarra, uma a estibordo; outra a bombordo, o navio no
  podia ancorar em cruz, o que o desarmava quando sopravam certos ventos. Mas
  neste caso podia usar da segunda ncora. As bias eram normais, e construdas de
  maneira a suportar um cabo da ncora, ficando sempre  flor da gua. A chalupa
  tinha as dimenses teis. A novidade do navio  que era, em parte, aparelhado
  com correntes; o que no lhe diminua a mobilidade nem a teno das
  manobras.

A mastreao,
  posto que secundria, no era incorreta; era fcil o manejo dos ovns. As peas
  de madeira eram slidas, mas grosseiras, pois que o vapor no exige madeiras to
  delicadas como exigem as velas. Tinha aquele navio uma velocidade de 2 lguas
  por hora. Quando panejava, afeioava-se bem ao vento. A Galeota de
    Lethierry suportava bem o mar, mas no tinha boa quilha para dividir o
  lquido, nem se podia dizer que fosse airosa. Via-se que, em ocasio de perigo,
  cachopo ou tromba, no poderia ser bem manobrada. Tinha o ranger de uma coisa
  informe. Fazia na gua o rudo que fazem as solas novas.

Era navio de
  comrcio e no de guerra, e por isso mais exclusivamente disposto para a
  arrumao das cargas. Admitia poucos passageiros. O transporte do gado tornava
  difcil e especial a arrumao das cargas. Punham-se os bois no poro, o que
  complicava muito. Hoje os bois ficam no convs. As caixas das rodas do Devil
    Boat Lethierry eram pintadas de branco, o casco at o lume da gua de
  vermelho, e o resto de preto, segundo o uso assaz feio deste sculo.

Vazio, calava 7
  ps; carregado, 14.

Quanto 
  mquina, era poderosa. Tinha a fora de um cavalo por 3 toneladas, o que  quase
  a fora de um rebocador. As rodas estavam bem colocadas, um pouco adiante do
  centro de gravidade do navio. A mquina tinha a presso mxima de 2 atmosferas.
  Gastava muito carvo. O ponto de apoio era instvel, mas remediava-se, como
  ainda hoje se faz, por meio de um duplo aparelho alternado de duas manivelas
  fixas nas extremidades da rvore de rotao, e dispostas de maneira que uma
  estivesse no ponto forte quando a outra estava no ponto inerte. Toda a mquina
  repousava em uma s placa fundida; de modo que, mesmo em caso de grande avaria,
  nenhum lano do mar lhe tirava o equilbrio, e o casco disforme no podia
  deslocar a mquina. Para torn-la ainda mais slida, puseram a redoua principal
  perto do cilindro, o que transportava do meio  extremidade o centro de
  oscilao do pndulo. Inventaram-se depois os cilindros oscilantes que suprimem
  a redoua antiga; mas naquele tempo parecia que o sistema usado era a ltima
  palavra da mecnica.

A caldeira era
  dividida, e tinha a bomba competente. As rodas eram grandes, o que diminua a
  perda de fora, e o cano alto, o que aumentava a extrao da fornalha; mas o
  tamanho das rodas dava azo s vagas, e a altura do cano dava azo ao vento. Raios
  de pau, fateixas de ferro, cubos de metal; eis o que eram as rodas bem
  construdas (o que admira) podendo ser desmontadas. Havia sempre trs rodzios
  mergulhados; a velocidade do centro da roda no passava de um sexto da
  velocidade do navio; era esse o defeito. Alm disso, a trave da manivela era
  muito comprida, e o vapor era distribudo no cilindro com demasiado atrito.
  Naquele tempo a mquina parecia e era admirvel.

Foi ela feita
  na Frana, nas forjas de Bercy. Mess Lethierry delineou-a; o maquinista que a
  construiu morreu; de modo que aquela mquina era nica e impossvel de ser
  substituda. Existia o desenhista, mas faltava o construtor.

Custou a
  mquina 40.000 francos.

Lethierry
  construiu a Galeota na grande estiva coberta que fica ao lado da primeira
  torre entre Saint-Pierre-Port e Saint-Sampson. Empregou nessa construo tudo o
  que sabia em carpintaria do mar, e mostrou os seus talentos na construo do
  costado, cujas costuras eram estreitas e iguais, untadas de sarangousti,
  betume da ndia, melhor que alcatro. O forro estava bem pregado. Para remediar
  a rotundidade do casco, ajustou ele um botals ao gurups, o que lhe permitia
  acrescentar  cevadeira uma cevadeira falsa. No dia do lanamento ao mar, disse
  Lethierry: Estou na gua! E realmente a Galeota foi
  bem-sucedida.

Por acaso ou de
  propsito, a Galeota caiu ao mar no dia 14 de julho. Nesse dia Lethierry,
  de p sobre o convs, entre as duas caixas das rodas, olhou fixamente para o mar
  e exclamou: Agora tu! Os parisienses tomaram a Bastilha; agora tomamos-te
  ns!

A Galeota de
  Lethierry fazia, uma vez por semana, a viagem de Guernesey a Saint-Malo.
  Partia na quinta-feira e voltava na sexta  tarde, vspera do mercado, que era
  no sbado. Era uma massa de madeira mais volumosa que as maiores chalupas
  costeiras do arquiplago, e, sendo a sua capacidade na razo das dimenses, uma
  s das suas viagens valia por quatro viagens de um cter ordinrio. Tirava por
  isso grandes lucros. A reputao de um navio depende da sua arrumao de cargas,
  e Lethierry era admirvel neste mister. Quando ficou impossibilitado de
  trabalhar no mar, ensinou um marinheiro para substitu-lo. No fim de dois anos,
  o vapor dava lquidas umas 705 libras esterlinas por ano. A libra esterlina de
  Guernesey vale 24 francos, a da Inglaterra 25, e a de Jersey 26. Estas
  fantasmagorias so menos fantasmagricas do que parecem; os bancos  que lucram
  com elas.

CAPTULO VI
LETHIERRY ENTRA NA
  GLRIA

Prosperava a Galeota. Mess Lethierry via chegar o dia em que ele seria gentleman. Em Guernesey no se pode ser gentleman da noite para o
  dia. H uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degrau  o
  nome simplesmente, Pedro, suponhamos; depois, vizinho Pedro; terceiro degrau,
  pai Pedro; quarto degrau, Senhor (Sieur) Pedro; quinto degrau, Mess
  Pedro; ltimo degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.

Esta escada,
  que sai da terra, interna-se pelo cu acima. Entra nela toda a hierarquia
  inglesa. Eis os degraus mais luminosos; acima de senhor (gentleman) h
  esq. (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalcio), depois o
  baronete (sir hereditrio), depois o lorde (laird na Esccia), depois o
  baro, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marqus, depois o duque, depois o par da Inglaterra,
  depois o prncipe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo 
  burguesia, da burguesia ao baronato, do baronato ao pariato, do pariato 
  realeza.

Graas aos seus
  triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess Lethierry j era algum. Para
  construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em
  Bremen e em Saint-Malo, mas ia amortizando a dvida todos os anos.

Lethierry
  comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e
  cal, novazinha, entre o mar e o jardim; no ngulo estava este nome: Braves. A
  casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notvel por duas fileiras
  de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flores, ao sul, do lado do
  mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades,
  outra para as rosas.

As fachadas
  pareciam feitas para os dois moradores: Mess Lethierry e Miss
  Druchette.

Era popular a
  casa de Lethierry, porque ele prprio acabou sendo popular. A popularidade
  nascia em parte da bondade, da educao e da coragem dele, parte dos homens que
  ele salvara de perigos iminentes, em grande parte do bom xito da Galeota, e tambm por ter dado ao porto de Saint-Sampson o privilgio das
  partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil-Boat era um
  bom negcio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry
  conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal. Daqui  que eu fui
  lanado ao mar, dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.

A qualidade de
  proprietrio e contribuinte fazia dele o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degraus,
  dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quase gentleman, e quem sabe mesmo se no passaria da? Quem sabe se algum dia
  no se havia de ler no almanaque de Guernesey, no captulo Gentry and
    Nobility, esta inscrio inaudita e soberba: Lethierry esq. Mess
  Lethierry, porm, desdenhava, ou antes, ignorava o que era a vaidade das coisas.
  Sentia-se til, era a satisfao dele; ser popular comovia-o menos que ser
  necessrio. J o dissemos, tinha dois amores, e, por conseqncia, duas
  ambies: Durande e Druchette.

Fosse como
  fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte
  grande.

A sorte grande
  era Durande navegando.

CAPTULO VII
O MESMO PADRINHO E A MESMA
  PADROEIRA

Depois de criar
  o vapor, Lethierry batizou-o, deu-lhe o nome de Durande. No lhe daremos
  daqui em diante seno este nome. Seja-nos lcito igualmente, qualquer que seja o
  uso tipogrfico, escrever Durande sem ser em grifo, conformando-nos nisto ao
  pensamento de Mess Lethierry, para quem Durande era quase uma pessoa.

Durande e
  Druchette  o mesmo nome. Druchette  o diminutivo.  muito usado esse
  diminutivo no oeste da Frana.

No campo, os
  santos tm muitas vezes o seu nome com todos os diminutivos e aumentativos.
  Parece que h muitas pessoas e  s uma. Essa identidade de padroeiros e
  padroeiras com diferentes nomes no  rara; Lise, Lisette, Lisa, Elisa, Isabel,
  Lisbeth, Betsy, tudo isto  Elisabeth.  provvel que Mahout, Machut, Malo e
  Magloire sejam o mesmo santo. Mas no fazemos cabedal disso.

Santa Durande 
  uma santa de Angoumois e da Charente. Ser correto? Isso  l com os
  bolandistas. Correto ou no, esta santa tem muitas igrejas.

Estando em
  Rochefort, e sendo ainda rapaz, Lethierry tomou conhecimento com aquela santa,
  provavelmente na pessoa de alguma formosa charentesa, talvez a rapariga das
  unhas bonitas. Restou-lhe recordao bastante para dar aquele nome s duas
  coisas que ele amava; Durande  Galeota, Druchette  menina.

Lethierry era
  pai de uma e tio da outra.

Druchette era
  filha de um irmo que ele teve. Morreram-lhe os pais. Lethierry adotou a criana
  e substituiu o pai e a me.

Druchette no
  era somente sobrinha, era tambm afilhada de Lethierry. Foi ele quem a levou 
  pia, dando-lhe por padroeira Santa Durande, e por nome Druchette.

Druchette, j
  o dissemos, nasceu em Saint-Pierre-Port. Estava inscrita no registro da
  parquia.

Enquanto a
  sobrinha foi criana e o tio pobre, ningum se importou com o nome Druchette;
  mas, quando a mocinha chegou a miss e o marinheiro a gentleman,
  Druchette comeou a desagradar a todos. Perguntavam a Mess
  Lethierry:

 Por que lhe
  d esse nome?

  um nome
  assim  respondia ele.

Tentaram
  mudar-lhe o nome. Lethierry no quis. Uma senhora da alta sociedade de
  Saint-Sampson, mulher de um ferreiro abastado, e que j no trabalhava, disse um
  dia a Mess Lethierry:

 Daqui em
  diante chamarei Nancy  sua filha.

 Por que no
  lhe chamar Lons-le-Saulnier?  disse ele.

A bela senhora
  no desistiu e, no dia seguinte, disse-lhe:


  Decididamente, no queremos que ela se chame Druchette. Achei um lindo nome:
  Marianne.

 Lindo nome,
  realmente  disse Mess Lethierry , mas composto de dois animais bem ruins, um mari (marido) e um ne (asno).

Lethierry
  manteve o nome de Druchette.

Enganar-se-ia
  aquele que conclusse pelas ltimas palavras de Lethierry que ele no queria
  casar a sobrinha. Queria cas-la, decerto, mas ao seu modo. Queria um marido da
  sua tmpera, muito trabalhador, de maneira que Druchette no fizesse nada.
  Gostava das mos tostadas do homem e das mos alvas da mulher. Para que
  Druchette no estragasse as lindas mos que tinha, dava-lhe ocupaes
  elegantes, mestre de msica, piano, biblioteca, e bem assim alguma linha e
  agulhas em uma cestinha de costura.

Druchette lia
  mais do que cosia, cantava e tocava mais do que lia. Mess Lethierry queria isso
  mesmo. No lhe pedia nada mais que o encanto e a fascinao. Educou-a mais para
  ser flor do que para ser mulher. Quem tiver estudado os marinheiros h de
  compreender isto. As rudezas amam as delicadezas. Para que a sobrinha realizasse
  o ideal do tio, era preciso que fosse opulenta. Era isso o que Mess Lethierry
  compreendia perfeitamente. A mquina do mar trabalhava com esse fim. Durande
  devia dotar Druchette.

CAPTULO VIII
A MELODIA BONNY
  DUNDEE

Druchette
  ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas janelas, moblia de mogno, cama de
  cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a colina
  onde est o castelo do Vale. Do outro lado desta colina  que estava o Tutu da
  Rua.

Druchette
  tinha no quarto a msica e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a cano de
  sua preferncia, a melanclica melodia escocesa Bonny Dundee; a noite
  encerra-se toda naquela ria, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto
  produzia inslito contraste. Dizia-se: Miss Druchette est ao piano; e os que
  passavam ao sop da colina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para
  ouvir aquele canto to fresco e aquela cano to triste.

Druchette era
  a alegria perpassando a casa toda, e fazendo ali uma eterna primavera. Era
  formosa, porm, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar
  aos velhos pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uma cano de
  soldados e marujos, to bela que passava por tal no regimento.

 Druchette
  tem um cabo de cabelos  dizia Mess Lethierry.

Era lindssima
  desde a infncia. Receou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a
  pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que no
  adquiriu defeito algum at tornar-se moa; o nariz nem ficou comprido nem curto;
  e, chegando  juventude, Druchette conservou-se encantadora.

Dava o nome de
  pai ao tio.

Mess Lethierry
  concedia-lhe algumas funes de jardineira e mesmo de dona de casa. A moa
  regava os canteiros de malvasco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava
  oxlida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, to hospitaleira s
  flores. Tinha, como toda a gente, alos plantado no cho, e, o que  mais
  difcil, fazia pegar a potentilha de Nepal. Tinha uma horta habilmente
  arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve-flor
  da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as em julho; nabos para agosto,
  chicria para setembro, pastinaca para o outono, e rapncio para o inverno. Mess
  Lethierry consentia em tudo isso, contanto que no trabalhasse muito com a p e
  o ancinho, e sobretudo que no fosse ela prpria quem estrumasse a terra.
  Deu-lhe duas criadas, uma chamada Graa, e a outra Doce, nomes usados em
  Guernesey. Graa e Doce faziam o servio da casa e do jardim, e tinham o direito
  de andar com as mos vermelhas.

O quarto de
  Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contguo  sala grande do
  rs-do-cho, onde havia a porta de entrada e onde iam ter as diversas escadas da
  casa. A moblia do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um cronmetro, uma
  mesa, uma cadeira e um cachimbo. O teto, construdo com vigas, era caiado, bem
  como as paredes;  direita da porta estava pregado o arquiplago da Mancha, bela
  carta martima, onde se lia a seguinte inscrio: W. Faden, 5, Charing Cross,
  Geographer to His Majesty; e  esquerda estava pendurado um desses grandes
  lenos de algodo que trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo,
  tendo nos quatro cantos os estandartes da Frana, da Rssia, da Espanha e dos
  Estados Unidos da Amrica, e no centro a Union Jack da Inglaterra.

Doce e Graa
  eram duas criaturas ordinrias, devendo tomar-se esta palavra  boa parte. Doce
  no era m e Graa no era feia. No lhes ficavam mal to perigosos nomes. Doce,
  que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra
  como a coisa. As duas criadas faziam o servio com uma espcie de lentido
  prpria  domesticidade normanda no arquiplago. Graa, faceira e bonita,
  contemplava constantemente o horizonte com uma inquietao de gato. Era porque,
  tendo tambm o seu amante, tinha, de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro,
  cuja volta receava. Mas ns no temos nada com isto. A diferena entre Graa e
  Doce  que, numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada de
  servir e Graa subiria  posio de criada-grave. Os talentos possveis de Graa
  eram nulos para uma moa cndida como Druchette. Demais, os amores de Doce e
  Graa eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada salpicava
  sobre Druchette.

A sala baixa do
  rs-do-cho, com chamin, e rodeada de bancos e mesas, servira no sculo passado
  para as reunies de um conventculo de refugiados franceses protestantes. A
  parede de pedra nua no tinha ornamento algum a no ser um quadro de madeira
  preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas de Benigno Bossuet, bispo
  de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquele gnio, perseguidos por ele na ocasio
  da revocao do Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquele
  quadro na parede como um testemunho.

Quem podia
  decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia naquele cartaz os seguintes fatos
  pouco conhecidos: A 29 de outubro de 1685, demolio dos templos de Morcef e de
  Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux. A 2 de abril de 1686,
  priso de Cochard pai e filho por motivo de religio, a requerimento do Sr.
  Bispo de Meaux. Foram soltos por terem abjurado. A 28 de outubro de 1699 o Sr.
  Bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memria expondo a necessidade
  de transportar as Sras. de Chalandes e de Neuville, donzelas da religio
  reformada, para a casa das Novas-Catlicas de Paris. A 7 de julho de 1703
  executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no
  hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus catlicos, de
  Fublaines.

No fundo da
  sala, ao p da porta do quarto de Mess Lethierry, havia uma pequena diviso de
  tbuas, que tinha sido tribuna huguenote, e era ento, graas a uma grade
  arranjada, o office do vapor, isto , escritrio da Durande ocupado por
  Mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as
  pginas cotadas. Deve e H de Haver, substitua a Bblia.

CAPTULO IX
O HOMEM QUE ADIVINHOU QUEM ERA
  RANTAINE

Mess Lethierry
  governou a Durande enquanto pde navegar, e nunca teve outro piloto nem outro
  capito; mas l chegou um dia em que ele foi obrigado a deixar o mar. Escolheu
  para substitu-lo o Sr. Clubin, de Torteval, homem silencioso. O Sr. Clubin
  tinha, em toda a costa, fama de severa probidade. Era o alter ego e o
  vigrio de Mess Lethierry.

O Sr. Clubin,
  embora desse mais ares de tabelio que de marinheiro, era um martimo capaz e
  raro. Tinha todos os talentos que exige o perigo perpetuamente transformado. Era
  arrumador hbil, gajeiro meticuloso, contramestre desvelado e perito, timoneiro
  robusto, piloto instrudo e atrevido capito. Era prudente e algumas vezes
  levava a prudncia ao ponto de ousar, o que  uma grande qualidade na vida
  martima. Tinha o receio do provvel temperado pelo instinto do possvel. Era um
  desses marinheiros que afrontam o perigo em uma proporo conhecida deles,
  sabendo triunfar em todas as aventuras. Toda a certeza que o mar pode deixar a
  um homem, ele a tinha. Era, alm disso, nadador de fama; pertencia a essa raa
  de homens exercitados na ginstica da vaga, que se conservam na gua o tempo que
  se quer, e que, partindo de Havre-des-Pas, dobram a Colette, fazem a volta de
  Ermitage e a do Castelo Elisabeth e voltam ao cabo de duas horas ao ponto de
  partida. Era de Torteval e dizia-se que fizera muitas vezes a nado o temvel
  trajeto desde Manois at a ponta de Plaintmont.

Uma das coisas
  que mais recomendaram o Sr. Clubin a Mess Lethierry foi que, conhecendo ou
  penetrando Rantaine, assinalou a Mess Lethierry a improbidade daquele homem, e
  disse-lhe: Rantaine h de roub-lo. Verificou-se a profecia. Mais de uma vez,
  em negcios pouco importantes,  verdade, Mess Lethierry experimentou a
  escrupulosa honestidade do Sr. Clubin, e descansava nele. Mess Lethierry dizia:
  Conscincia quer confiana.

CAPTULO X
NARRATIVAS DE VIAGENS DE LONGO
  CURSO

Mess Lethierry, que se no
  acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo, preferindo mesmo a
  japona de Mess Lethierry,
    que se no acomodava de outro modo, vestia sempre a sua roupa de bordo,
    preferindo mesmo a japona de marinheiro  japona de piloto. Druchette torcia o
    nariz por isso. Nada  to belo como uma caretazinha da formosura em clera.
    Druchette ralhava e ria: Bom paizinho, dizia ela, est cheirando a
    alcatro.  E dava uma palmadinha na larga espdua do marinheiro.

Aquele velho
  heri do mar trouxe das suas viagens narrativas maravilhosas. Viu em Madagscar
  plumas de pssaro das quais bastavam trs para cobrir uma casa. Viu na ndia
  hastes de azedinhas de 9 ps de altura. Viu na Nova Holanda bandos de perus e de
  patos dirigidos e guardados por um co de pastor, que naquela terra  um pssaro
  e chama-se galinha-silvestre. Viu cemitrios de elefantes. Viu na frica uma
  espcie de homens-tigres de 7 ps de altura. Conhecia os costumes de todos os
  macacos, desde o macaco bravo at o macaco barbado. No Chile viu uma bugia
  comover os caadores apresentando-lhes o filho.

Viu na
  Califrnia um tronco de rvore oco, no interior do qual um homem a cavalo podia
  andar 150 passos. Viu em Marrocos os mozabitas e os biskris baterem-se
  com matraks e barras de ferro, os biskris por terem sido tratados
  de kelb, que quer dizer ces, e os mozabitas por terem sido tratados de khamsi, que quer dizer gente da quinta seita. Viu na China cortarem em
  pedacinhos o pirata Chanh-thong-quan-harh-Quoi, por ter assassinado o p de uma
  aldeia. Em Thudanmot, viu um leo arrebatar uma mulher velha do meio do mercado
  da cidade. Assistiu  chegada da grande cobra mandada de Canto a Saigon, para
  celebrar, no Pagode de Choeen, a festa de Quan-nam, deusa dos navegantes.
  Contemplou na terra dos Moi o grande Quan-Su.

No Rio de
  Janeiro, viu as senhoras brasileiras colocarem nos cabelos pequenas bolas de
  gaze contendo cada uma delas um vaga-lume, o que lhes fazia uma coifa de
  estrelas. Destruiu no Uruguai os formigueiros, e no Paraguai um certo bichinho,
  que ocupa com as patas um dimetro de um tero de vara, e ataca o homem por meio
  dos prprios plos, que lhe atira em cima, e que se cravam na carne, produzindo
  pstulas. No rio Arinos, afluente do Tocantins, nas matas virgens do norte de
  Diamantina, verificou a existncia do terrvel povo-morcego, os murcilagos,
  homens que nascem com os cabelos brancos e os olhos vermelhos, habitam os
  bosques sombrios, dormem de dia, acordam de noite e pescam e caam nas trevas,
  vendo melhor do que quando h lua.

Perto de
  Beirute, no acampamento de uma expedio de que fazia parte, foi roubado de uma
  tenda um pluvimetro; ento um feiticeiro vestido de duas ou trs faixas de
  couro, assemelhando-se a um homem vestido com os prprios suspensrios, agitou
  to furiosamente uma campainha na ponta de um chifre que apareceu logo uma hiena
  trazendo o pluvimetro. A hiena  que o tinha roubado.

Estas histrias
  verdadeiras assemelhavam-se tanto a histrias da carochinha que divertiam
  Druchette.

A boneca de
  Durande era o elo entre o vapor e a moa. Chama-se boneca nas ilhas normandas a
  figura talhada na proa, esttua de madeira mais ou menos esculpida. Da vem que,
  para dizer navegar, a gente das ilhas usa desta locuo: estar entre popa
  e boneca (poupe et poupe).

A boneca de
  Durande tinha as predilees de Mess Lethierry. Ele encomendara ao carpinteiro
  que a fizesse parecida com Druchette. Parecia-se como obra feita a machado. Era
  uma acha de lenha esforando-se por ser moa bonita.

Mas a coisa,
  embora disforme, iludia Mess Lethierry. Contemplava-a como um crente. Estava de
  boa-f diante daquela figura. Reconhecia nela a imagem de Druchette. E mais ou
  menos assim que o dogma se parece com a verdade, e o dolo com Deus.

Mess Lethierry
  tinha duas grandes alegrias por semana; uma na tera-feira e outra na sexta.
  Primeira alegria, ver partir Durande; segunda alegria, v-la chegar.
  Encostava-se  janela, contemplava a sua obra, era feliz. H alguma coisa assim
  no Gnesis: Et vidit quod esset bonum.

Na sexta-feira,
  a presena de Mess Lethierry na janela era um sinal. Quem o via chegar  janela
  da casa de Braves, acender o cachimbo, dizia logo: Ah! o vapor est a chegar.
  Uma fumaa anunciava a outra.

A Durande,
  entrando no porto, atava amarra debaixo das janelas de Mess Lethierry, numa
  grande argola de ferro. Nessas noites Lethierry gozava um admirvel sono na sua
  maca, sentindo de um lado Druchette adormecida, do outro Durande
  amarrada.

O ancoradouro
  de Durande era perto do porto. Diante da casa de Lethierry havia um pequeno
  cais.

O cais, a casa,
  o jardim, as marinhas, orladas de sebes, a maior parte das casas vizinhas, nada
  existe hoje. A explorao do granito de Guernesey fez vender os terrenos todos.
  Aquele lugar est hoje ocupado por estncias de quebradores de pedra.

CAPTULO XI
LANCE DE OLHOS AOS MARIDOS
  EVENTUAIS

Druchette ia
  crescendo e no se casava.

Mess Lethierry
  f-la uma moa de mozinhas alvas, mas tornou-a exigente. Educaes daquelas
  voltam-se sempre contra os pais.

Ele prprio era
  mais exigente ainda que a filha. Imaginava um marido para Druchette que fosse
  tambm marido de Durande. Queria de um lance prover as duas filhas. Queria que o
  companheiro de uma fosse o piloto da outra. Que  um marido?  o capito de uma
  viagem. Por que motivo no dar um s capito ao navio e  filha? O casal obedece
  s mars. Quem sabe guiar uma barca sabe guiar uma mulher. Ambas so sujeitas 
  lua e ao vento. O Sr. Clubin, tendo apenas quinze anos menos que Mess Lethierry,
  no podia ser para Durande seno um capito provisrio; era preciso um piloto
  moo, um capito definitivo, um verdadeiro sucessor do inventor, do criador. O
  piloto de Durande seria o genro de Mess Lethierry. Por que motivo no fundir os
  dois genros em um s?

Lethierry
  afagava esta idia. Via aparecer-lhe em sonhos um noivo. Um gajeiro possante e
  tostado, um atleta do mar, eis o seu ideal. No era esse o ideal de Druchette,
  o sonho da moa era mais cor-de-rosa.

Fosse como
  fosse, o tio e a sobrinha pareciam estar de acordo em no ter pressa. Quando
  viram Druchette tornar-se herdeira provvel, apresentaram-se pedidos aos
  centos. Estas solicitudes nem sempre so de boa qualidade. Mess Lethierry sentia
  isso, e dizia entre dentes: Moa de ouro, noivo de cobre. E despedia os
  pretendentes. Esperava. Ela tambm.

Coisa singular,
  Lethierry no fazia cabedal da aristocracia. Por esse lado era um ingls
  inverossmil. Dificilmente se acreditar que ele chegou a recusar um Ganduel, de
  Jersey, e um Bugnet-Necolin, de Serk. Houve mesmo quem ousasse afirmar, mas ns
  no acreditamos, que ele recusou uma proposta da aristocracia de Aurigny,
  indeferindo o pedido de um membro da famlia Edou, que evidentemente descende de
  Edouard, o Confessor.

CAPTULO XII
EXCEO NO CARTER DE
  LETHIERRY

Mess Lethierry
  tinha um defeito, e grande. Odiava, no uma pessoa, mas uma coisa, o padre.
  Lendo um dia, em Voltaire  costumava ler e lia Voltaire , estas palavras: os
  padres so gatos, Mess Lethierry ps o livro de parte, e ouviram-no murmurar
  baixinho: sinto-me co.

Cumpre no
  esquecer que os padres luteranos, calvinistas e catlicos atacaram-no vivamente
  e perseguiram-no docemente, por causa da construo do Devil-Boat local.
  Ser revolucionrio em navegao, tentar introduzir um progresso no arquiplago
  normando, impor  pobre ilha de Guernesey os esboos de uma inveno nova era,
  conforme dissemos, uma temeridade condenvel. Lethierry no escapou a uma certa
  condenao. No se esqueam que falamos do clero antigo, diferente do clero
  atual, que, em quase todas as igrejas locais, tem uma tendncia liberal para o
  progresso. Pearam-no de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obstculos
  que pode haver nas prdicas e nos sermes. Odiado pelos homens da Igreja,
  Lethierry aborrecia-os tambm. O dio dos outros era a circunstncia atenuante
  do dio dele.

Mas a sua
  averso pelos padres era idiossincrtica. Para odi-los no precisava ser
  odiado. Como ele prprio dizia, era o co daqueles gatos. Era contra eles pela
  idia, e, o que  mais irredutvel, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos
  padres, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, confessemo-lo, e nem
  sempre a propsito.  erro no distinguir. No so bons os dios absolutos. Nem
  mesmo o vigrio saboiano mereceria as simpatias de Lethierry. No  certo que
  para ele houvesse um bom padre.  fora de filosofar, ia perdendo a
  circunspeco. Existe a intolerncia dos tolerantes, como existe o furor dos
  moderados. Mas Lethierry era to boa alma que no podia ser odiento. Antes
  repelia que atacava. Fugia dos homens da Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry
  limitava-se a no querer-lhes bem. A diferena entre o dio dos outros e o dele
   que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.

Guernesey,
  apesar de ilha pequena, tem lugar para duas religies. Existem nela a religio
  catlica e a religio protestante. Devemos acrescentar que a no entram as duas
  religies na mesma igreja. Cada culto tem a sua capela ou o seu templo. Na
  Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa arranja-se menos escrupulosamente;
  divide-se uma igreja; metade para So Pedro, metade para Calvino; entre as duas
  h um tabique para prevenir os murros e pescoes; partes iguais; os catlicos
  tm trs altares; os huguenotes tm trs altares; como as horas do oficio so
  sempre as mesmas, o sino comum chama na mesma ocasio para os dois servios.
  Convoca a um tempo os fiis para Deus e para o diabo. Simplificao.

A fleuma alem
  acomoda-se com estas propinqidades. Mas, em Guernesey, cada religio tem casa
  prpria. H parquia ortodoxa e parquia hertica. Pode-se escolher. Nem uma nem
  outra foi a escolha de Mess Lethierry.

Aquele
  marinheiro, aquele operrio, aquele filsofo, aquele parvenu do trabalho,
  simples na aparncia, no o era em substncia. Tinha l as suas contradies e
  pertincias. Era inabalvel a respeito do padre. Daria quinaus a
  Montlosier.

Costumava dizer
  chufas muito descabidas. Tinha expresses prprias dele, extravagantes, mas sem
  deixar de ter um sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a
    conscincia. Os poucos estudos que tinha, pouqussimos, feitos aqui e ali,
  entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia. Tinha tambm erros
  de pronncia, nem sempre ingnuos. Quando se fez a paz entre a Frana de Lus
  XVIII e a Inglaterra de Wellington, Mess Lethierry disse: Bourmont foi o traitre d'union (traidor por trao) entre os dois campos. Lethierry
  escreveu uma vez a palavra papado (papaut) do seguinte modo: pape
  t (papa arrancado). No acreditamos que ele fizesse isto de
  propsito.

Este
  antipapismo no o conciliava com os anglicanos. Os presbteros protestantes no
  o estimavam mais que os curas catlicos. Ante os mais graves dogmas,
  ostentava-se quase sem reservas a irreligio de Lethierry. Deu-se o acaso de ser
  levado a ouvir um sermo acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin
  Herodes, sermo magnfico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas
  eternas, os suplcios, os tormentos, as condenaes, os castigos inexorveis, os
  fogarus sem fim, as maldies inextinguveis, as cleras do Onipotente, os
  furores celestes, as vinganas divinas, coisas incontestveis; Lethierry ouviu o
  sermo e, ao sair com um dos fiis, disse-lhe baixinho: Ora, quer ver? Eu c
  tenho uma idia ratona. Suponho que Deus  bom.

Adquiriu este
  germe de atesmo quando residiu na Frana.

Posto que fosse
  guernesiano, e de raa pura, chamavam-no na ilha o francs, por causa de
  seu esprito improper. Nem ele o ocultava; estava impregnado de idias
  subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil-Boat, provava bem
  isto.

Lethierry
  costumava dizer: Eu mamei o leite 89. Mau leite.

E que
  despropsitos fazia! E difcil viver intato nos lugares pequenos. Na Frana, guardar as aparncias, na Inglaterra, ser respeitvel  quanto
  basta para passar a vida tranqilo. Ser respeitvel  coisa que implica uma
  imensidade de observncias, desde o domingo bem santificado at a gravata bem
  atada.

No te faas
  apontar com dedo, eis uma lei terrvel. Ser apontado  o diminutivo de antema.
  As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, so exmias nesta malignidade
  isoladora, que  a maldio vista ao invs do culo. Os mais intrpidos
  arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha, afronta-se o furaco, recua-se diante
  da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que lgico. Mas debaixo dessa
  presso dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava gua no vinho, locuo
  prenhe de concesses latentes e s vezes inconfessveis. Afastava-se dos homens
  do clero, mas no lhes fechava resolutamente a porta. Nas ocasies oficiais e
  nas pocas das visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presbtero
  luterano como o capelo papista. Acontecia-lhe de quando em quando acompanhar 
  parquia anglicana a menina Druchette, que, alis, s ia l nas quatro grandes
  festas do ano.

Em resumo,
  esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-no, e, longe de inclin-lo
  para os homens da Igreja, aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem
  azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. No havia meio de
  emend-la.

De fato, e sem
  remisso, era esse o temperamento de Lethierry.

Aborrecia todos
  os cleros. Tinha a irreverncia revolucionria. Distinguia pouco entre duas
  formas de culto. Nem mesmo fazia justia a este grande progresso: no acreditar
  na presena real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto de no ver a
  diferena entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um
  reverendo padre. Wesley no vale mais que Loiola, dizia ele. Quando via passar
  um pastor protestante de brao com a mulher, desviava os olhos. Padre casado!,
  dizia ele, com o acento absurdo que essas duas palavras tinham na Frana naquela
  poca. Contava que na viagem  Inglaterra tinha visto a bispa de Londres. A
  sua revolta contra essas unies ia at a clera. Vestido no casa com
  vestido!, exclamava ele. O sacerdote fazia-lhe efeito de um sexo. No teria
  dvida em dizer: Nem homem nem mulher: padre. Aplicava com mau gosto tanto ao
  clero anglicano como ao papista os mesmos eptetos desdenhosos; enrolava as duas
  sotainas na mesma fraseologia; e no se dava ao trabalho de variar, a propsito
  de padres, quaisquer que fossem, catlicos e luteranos, as metonmias
  soldadescas usadas naquele tempo.

 Casa-te com
  quem quiseres  dizia ele a Druchette , contanto que no seja com algum
  padreco.

CAPTULO XIII
O DESLEIXO FAZ PARTE DA
  GRAA

Dita uma coisa,
  Mess Lethierry no a esquecia mais; dita uma coisa, Miss Druchette esquecia-a
  logo. Esta era a diferena entre o tio e a sobrinha.

Druchette,
  educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. H mais
  um perigo latente numa educao tomada muito a srio. Querer tornar felizes os
  filhos, antes do tempo,  talvez uma imprudncia.

Druchette
  acreditava que, estando ela contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre
  quando ela estava alegre. As suas idias eram pouco mais ou menos as mesmas de
  Mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo  parquia quatro
  vezes por ano. J a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana
  no sabia coisa alguma. Tinha disposies para amar um dia loucamente. Enquanto
  no chegava esse dia, era menina folgaz.

Druchette
  cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforo, soltava uma palavra e
  passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade
  inglesa. Na Inglaterra as crianas andam ss, as meninas so senhoras de si, a
  adolescncia vai  rdea solta. Tais so os costumes. Mais tarde, as moas
  livres fazem-se mulheres escravas. Tomem  boa parte estas duas expresses:
  livres no crescimento, escravas no dever.

Druchette
  acordava todos os dias com a inconscincia das suas aes da vspera. Bem
  embaraado ficaria quem lhe perguntasse o que ela havia feito na semana
  anterior. Isto, porm, no impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma
  indisposio misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida
  no seu desabrochamento e na sua jovialidade.

H nuvens
  dessas nos cus como aquele; mas passavam depressa. Druchette voltava a si com
  uma gargalhada, sem saber nem por que estivera triste, nem por que estava
  serena.

Brincava com
  tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caoava com os rapazes. No
  escaparia o prprio diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo
  tempo to inocente que abusava de si prpria. Dava um sorriso como um gatinho d
  um bofete. Tanto pior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia
  de ontem no existia para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que  a
  excessiva felicidade. Naquela moa a lembrana dissipava-se como neve que se
  funde.

LIVRO QUARTO
O BAGPIPE

CAPTULO PRIMEIRO
PRIMEIROS RUBORES DE AURORA OU DE
  INCNDIO

Gilliatt no
  trocara nunca uma palavra com Druchette.

Conhecia-a por
  t-la visto de longe, como se conhece a estrela da manh.

Na poca em que
  Druchette encontrou Gilliatt, no caminho de SaintPierre-Port ao Vale, e fez-lhe
  a surpresa de traar na neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na
  vspera Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

 Deixa-te de
  seres travessa; ests moa feita.

O nome
  Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma profundidade
  desconhecida.

Que eram as
  mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia diz-lo. Quando encontrava alguma,
  causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. S na ltima extremidade falava s
  mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava s em um
  caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou
  metia-se em uma moita e ia-se embora. At das velhas fugia. S tinha visto uma
  parisiense. Parisiense de arribao, estranho acontecimento em Guernesey
  naqueles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os
  seus infortnios: Estou muito maada, caram-me uns chuviscos no chapu, esta
  cor  muito sujeita a ficar manchada.

Tendo
  encontrado, tempo depois, entre as folhas de um livro uma antiga gravura de
  modas representando uma dama da calada de Antin em grande toalete, pregou-a na
  parede como lembrana dessa apario. Nas noites de estio, escondia-se atrs das
  rochas de Houmet Paradis para ver as camponesas banharem-se no mar. Um dia,
  atravs de uma cerca, viu a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha
  cado. Provavelmente Gilliatt era virgem.

Naquela manh
  de Natal em que Druchette escrevera rindo o nome dele, Gilliatt voltou para
  casa no sabendo j por que motivo tinha sado.

No dormiu de
  noite. Pensou em mil coisas: de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim;
  que no tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido
  alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em flor, coisa rara naquela
  estao.

Gilliatt nunca
  soubera com certeza que parentesco havia entre ele e a velha que morrera em
  casa; disse consigo que devia ser sua me e pensou nela com redobrada ternura.
  Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o
  Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de
  Saint-Pierre-Port, e que a parquia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o
  dia seguinte ao de Natal seria o 27 dia de lua, e que por conseqncia a mar
  enchente seria s 3 horas e 21 minutos, a mdia s 7 horas e 15 minutos, a
  vazante s 9 horas e 36 minutos. Recordou at nas menores particularidades, o
  vesturio de highlander que lhe vendera o bagpipe, bon enfeitado
  com um cardo  claymore, a casaca de abas curtas e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o
  alfinete feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o belts, a
  espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta
  de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos nus do soldado, as
  meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquilo tornou-se
  espectro, perseguiu-o, deu-lhe febre at que ele adormeceu.

Gilliatt
  acordou quando o sol j ia alto e o seu primeiro pensamento foi
  Druchette.

Adormeceu no
  dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escocs. Sonhou tambm com o
  velho cura Jaquemin Herodes. Quando acordou pensou outra vez em Druchette e
  teve contra ela uma violenta clera; lamentou no ser criana para ir atirar
  pedras nas vidraas da moa.

Depois
  lembrou-se de que, se fosse criana, teria ainda sua me, e entrou a
  chorar.

Projetou ir
  passar uns trs meses em Chausey ou em Minquiers, mas no partiu.

No tornou a
  pr os ps na estrada de Saint-Pierre-Port ao Vale. Imaginava que o seu nome
  ficara gravado na terra e que todos os viandantes deviam olhar para
  ele.

CAPTULO II
GILLIATT VAI ENTRANDO PASSO A
  PASSO NO DESCONHECIDO

Gilliatt ia
  todos os dias ver a casa de Lethierry. No o fazia de propsito, mas
  encaminhava-se para esse lado. Acontecia ento passar sempre pelo caminho que
  costeava o muro do jardim de Druchette.

Estando um dia
  naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado, que falava a outra, e vinha da
  casa de Lethierry: Miss Lethierry gosta muito de sea kales.

Gilliatt fez no
  jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea kales. O sea kale 
  uma couve que tem o sabor de aspargo.

O muro do
  jardim da casa de Druchette era baixinho; podia-se pular facilmente. Esta idia
  pareceu terrvel a Gilliatt. Mas quem passava no podia deixar de ouvir as vozes
  das pessoas que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt no escutava, mas
  ouvia. De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Graa e Doce. Como o rumor
  vinha daquela casa, soou-lhe como se fosse msica.

De outra vez,
  distinguiu uma voz que no era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de
  Druchette. Deitou a correr.

As palavras que
  ouviu  moa ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada
  instante. Essas palavras eram: Faz favor de me dar a vassoura?

Gilliatt foi
  ousando a pouco e pouco. J se atrevia a ficar parado. Aconteceu uma vez que
  Druchette, que no podia ser vista de fora, embora tivesse a janela aberta,
  estava ao piano e cantava. Cantava a cano Bonny Dundee. Gilliatt
  empalideceu, mas levou a firmeza at ouvir a cano toda.

Chegou a
  primavera. Gilliatt teve uma viso: abriu-se o cu. Gilliatt viu Druchette
  regando uns ps de alface.

Da a pouco j
  ele fazia mais do que parar. Observava os hbitos da moa, notava as horas em
  que ela aparecia, e esperava.

Tinha cuidado
  de no ser visto por ela.

A pouco e
  pouco, ao tempo em que as noites se enchem de borboletas e de rosas, imvel e
  mudo horas inteiras sem ser visto por ningum, retendo a respirao, Gilliatt
  acostumou-se a ver Druchette andar pelo jardim.  fcil acostumar-se ao
  veneno.

Do lugar em que
  se escondia, Gilliatt ouvia Druchette conversar com Mess Lethierry, debaixo de
  um espesso caramancho feito de canio, dentro do qual havia um banco. As
  palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.

Quanto j no
  tinha andado! Chegou at a espiar e prestar ouvido. Ah! o corao humano  um
  velho espio!

Havia outro
  banco visvel e prximo, no fim de uma alameda. Druchette assentava-se ali
  algumas vezes.

Pelas flores
  que ele via Druchette colher e cheirar, adivinhou as preferncias da moa a
  respeito de perfumes.

A moa preferia
  antes de tudo a campnula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o
  jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lrios, olhava para eles, mas
  no os cheirava.  vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu
  pensamento. Cada cheiro significava para ele uma perfeio. S a idia de falar
  a Druchette fazia-lhe arrepiar os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por
  esse motivo ia algumas vezes  rua que costeava o muro do jardim de Druchette,
  veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquele muro e a sua
  devoo por aquele lugar deserto. Ligaria ela a presena daquele homem 
  possibilidade de uma mulher que estivesse atrs do muro? Descobriria esse vago
  fio invisvel? Restava-lhe acaso, na sua decrepitute mendicante, um pouco de
  mocidade para lembrar-se de alguma coisa dos belos tempos, e saberia ela, j no
  inverno e na noite, que coisa  o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas parece
  que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinela, dirigiu para o
  lado dele toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre
  as gengivas: Aquece, aquece!

Gilliatt ouviu
  a palavra, que lhe fez impresso, e murmurou com um ponto de interrogao
  interior: Aquece? Que quer dizer a velha?

Repetiu
  maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas no chegou a
  compreend-la.

Estando um dia
   janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram
  banhar-se por pagode na angra de Houmet Paradis. Brincavam ingenuamente na gua,
  a cem passos dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou ento que uma
  mulher nua causava-lhe horror.

CAPTULO III
A CANO BONNY DUNDEE ACHA UM
  ECO NA COLINA

Atrs do muro
  do jardim, em um ngulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de
  urtigas, com um p de malva silvestre arborescente e um grande verbasco do mato
  que brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o vero. Ficava ali
  inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam acostumando a Gilliatt,
  aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O vero foi luminoso e suave. Gilliatt
  tinha sobre a cabea as nuvens que perpassavam no cu. Assentava-se na relva.
  Tudo estava cheio de um rumorejar de pssaros. Punha a cabea nas mos e
  perguntava a si prprio: Mas por que escreveu ela o meu nome na
  neve?

O vento do mar
  soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longnquas
  de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes
  de que ia rebentar uma mina. No se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a
  ponta dos mastros por cima das rvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt
  ouvira dizer a sua me que as mulheres podem amar os homens, e que isso
  acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo:  isso.
  Compreendo. Druchette ama-me. Sentia-se profundamente triste. Dizia ele: Mas
  tambm ela pensa em mim; faz bem. Pensava em que Druchette era rica, e ele
  pobre. Pensava que o vapor era uma inveno execrvel. No podia lembrar nunca
  em que dia do ms estava. Contemplava vagamente os grandes zanges negros, de
  lombo amarelo e asas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das
  paredes.

Druchette
  recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da janela para fech-la. A noite
  estava escura. De repente, Druchette aplicou o ouvido. Havia uma msica no meio
  daquela noite profunda. Algum que provavelmente estava na vertente da colina,
  ou ao p das torres do castelo do Vale, ou talvez mais longe, executava uma
  cano num instrumento. Druchette reconheceu a sua melodia favorita Bonny
    Dundee tocada em bagpipe. No compreendeu nada.

Desde ento,
  ouviu ela muitas vezes a mesma coisa,  mesma hora, especialmente nas noites
  escuras.

Druchette no
  gostava muito daquilo.

CAPTULO IV

Pour l'oncle et
  le tuteur, bons hommes taciturnes,
Les srnades
  sont des tapages nocturnes.
(Versos de uma
  comdia indita).

Passaram-se
  quatro anos.

Druchette
  aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

J algum
  escreveu algures: Uma idia fixa  uma verruma. Vai-se enterrando de ano para
  ano. Para extirp-la no primeiro ano  preciso arrancar os cabelos; no segundo
  rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos.
  Gilliatt estava no quarto ano.

No tinha
  trocado uma s palavra com Druchette. Pensava nela; era tudo.

Aconteceu-lhe
  uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Druchette conversando com Mess
  Lethierry diante da porta da casa que dava para a calada do porto. Gilliatt
  arriscou-se a aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando ele
  passou. No era coisa impossvel.

Druchette
  continuava a ouvir de tempos em tempos o bagpipe.

Tambm Mess
  Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persistncia desta msica perto da
  janela de Druchette. Msica terna, circunstncia agravante. No lhe agradavam
  namorados noturnos. Queria casar Druchette com dia claro, quando ela e ele
  quisessem e simplesmente, sem romance e sem msica. Exasperado, procurou
  descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Meteu as unhas na barba em
  sinal de clera e disse: Por que motivo vem aquele animal sanfonear-me  porta?
  Ama Druchette,  claro. Perde o tempo. Quem quiser Druchette deve vir
  falar-me, e sem msica.

Previsto desde
  muito, veio a realizar-se um acontecimento importante. Anunciou-se que o
  Reverendo Jaquemin Herodes fora nomeado delegado do bispo de Winchester, decano
  da ilha e cura de Saint-Pierre-Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois
  de instalar o seu sucessor.

Estava a chegar
  o novo cura. Era ele gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe
  Ebenezer Caudray.

A respeito dele
  havia circunstncias que a benevolncia e a malevolncia comentavam em sentido
  inverso. Diziam que era moo e pobre, mas a mocidade era temperada por muita
  doutrina, e a pobreza por muita esperana. Na lngua especial criada para a
  herana e a riqueza, a morte chama-se esperana. Era sobrinho e herdeiro do
  velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr.
  Ebenezer Caudray era bem aparentado; tinha quase direito  qualidade de honorable. Quanto  sua doutrina, era julgada diversamente. Era
  anglicano, mas, segundo a expresso do Bispo Tilleston, era muito
    libertino, isto , muito severo. Repudiava o farisasmo; ligava-se antes ao
  presbitrio que ao episcopado. Sonhava com a Igreja primitiva, onde Ado tinha o
  direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hierpolis, raptava uma moa
  para ser mulher dele, dizendo aos pais: Ela quer e eu quero, j no sois nem
  pai nem me, eu sou o anjo de Hierpolis, e esta  minha esposa. O pai  Deus.
  A dar crdito aos boatos, o Sr. Ebenezer Caudray subordinava o texto: Honrai
  pai e me ao texto, segundo ele, superior: A mulher  a carne do homem. A
  mulher deixar pai e me para acompanhar o marido. Mas, afinal de contas, esta
  tendncia para circunscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente
  todos os modos de formar o vnculo conjugal  prpria a todo o protestantismo,
  particularmente na Inglaterra e singularmente na Amrica.

CAPTULO V
JUSTA VITRIA  SEMPRE
  MALQUISTA

Eis o balano
  de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto. Durande cumpriu o que
  prometera. Mess Lethierry pagou as dvidas, reparou os prejuzos, satisfez as
  letras de Bremen, fez face aos vencimentos de SaintMalo. Exonerou a casa em que
  morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas sobre a casa. Era
  possuidor de um grande capital produtivo, a Durande. O rendimento lquido do
  navio era ento de 1.000 libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande
  era toda a fortuna dele. Era tambm a fortuna da terra. O transporte dos bois
  era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumao a bordo, e
  facilitar a entrada e sada do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi
  talvez imprudncia. A Durande veio a ter apenas a chalupa.  verdade que a
  chalupa era excelente.

J havia dez
  anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.

A prosperidade
  de Durande tinha um lado fraco,  que no inspirava confiana; acreditava-se que
  era puro acaso. A situao de Mess Lethierry era aceita como exceo. Dizia-se
  que ele fizera uma loucura feliz. Quis algum fazer o mesmo em Cowes, na ilha de
  Wight, e teve mau xito na tentativa. A tentativa arruinou os acionistas. Dizia
  Lethierry:  que a mquina foi mal construda. Mas os outros abanavam a testa.
  As novidades tm contra si o dio de todos; o menor erro
  compromete-as.

Consultado
  acerca de um negcio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos
  orculos comerciais do arquiplago normando:  uma converso o que me
  propondes. Converso de dinheiro em fumo. Entretanto, os navios de vela achavam
  sempre quantas comanditas fossem precisas. Os capites teimavam em estar do lado
  da lona contra a caldeira. Em Guernesey a Durande era um fato, mas o vapor no
  era um princpio. Tal era a pertincia da navegao diante do progresso.
  Dizia-se de Lethierry: Fez coisa boa, mas no h de meter-se em outra. Longe
  de animar, o exemplo dele causava medo. Ningum ousaria arriscar segunda
  Durande.

CAPTULO VI
FORTUNA DOS NUFRAGOS ENCONTRANDO
  A CHALUPA

Cedo anuncia-se
  o equincio na Mancha.  um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde
  fevereiro comeam ali os ventos do oeste sacudindo as guas em todos os
  sentidos. A navegao torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de
  sinal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar aparece como
  uma emboscada; invisvel clarim troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas
  lufadas abalam o horizonte;  terrvel o vento. A sombra silva e sopra. Na
  profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade intumesce as
  bochechas.

O vento  um
  perigo; o nevoeiro outro.

Os nevoeiros
  causam sempre medo aos navegadores. H nevoeiros que trazem suspensos prismas
  microscpicos de gelo, aos quais Mariotte atribui as aurolas, os parlios e os
  parasselenes. Os nevoeiros tempestuosos so compsitos; vapores diversos de peso
  especfico desigual combinam-se com o vapor da gua e surperpem-se em uma ordem
  que divide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira
  formao.

Embaixo fica o
  iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o
  fsforo.

Isto, em certa
  proporo, deduzindo a tenso eltrica e magntica, explica muitos fenmenos, o
  santelmo de Colombo e de Magalhes, as estrelas volantes de que fala Sneca, as
  duas chamas, Castor e Plux, de que fala Plutarco, a legio romana que a Csar
  pareceu ver arderem os dardos, a lana do castelo do Duno no Frioul, que a
  sentinela acendia tocando com o ferro da sua lana, e talvez mesmo as
  fulguraes que os antigos chamavam relmpagos terrestres de Saturno.

No equador,
  imensa bruma permanente parece cingir o globo,  o Cloud-ring, anel de
  nuvens.

O Cloud-ring
  resfria o trpico, do mesmo modo que o Gulf Stream aquece o plo. Debaixo do
  Cloud-ring o nevoeiro  fatal. So essas as latitudes dos cavalos, Horse
    latitude; os navegadores dos ltimos sculos, quando passavam ali, atiravam
  os cavalos ao mar, em ocasio de temporal para alijar o navio, em tempo de calma
  para economizar a gua.

Dizia Colombo:
  Nube abajo es muerte. (Nuvem baixa,
    morte certa.) Os etruscos, que so para a meteorologia o que os caldeus so para
    a astronomia, tinham dois pontificados  o pontificado do trovo e o pontificado
    da nuvem: uns observavam o relmpago, outros o nevoeiro. O colgio dos ugures
    de Tarqnia era consultado pelos trios, fencios e pelsgicos, e de todos os
    navegadores primitivos do antigo Marinterno. O modo de gerao das tempestades
    era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de gerao dos nevoeiros, e, a bem
    dizer,  o mesmo fenmeno. Existem no mesmo oceano trs regies de brumas, uma
    equatorial, duas polares; os marinheiros do-lhe um s nome  le pot au
      noir.

Em todas as
  paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equincio so mui perigosos.
  Fazem anoitecer de sbito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando no  muito
  cerrado,  impedir que se reconhea a mudana de fundo pela mudana da cor da
  gua; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parcis. O navegador
  aproxima-se de um escolho sem ser advertido.

Muitas vezes os
  nevoeiros no deixam ao navio em marcha outro recurso que no seja pr-se  capa
  ou ancorar. H tantos naufrgios causados pelo nevoeiro como pelo
  vento.

Entretanto,
  aps uma violentssima borrasca que sucedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashmere chegou perfeitamente da Inglaterra. Entrou em Saint-Pierre-Port
  aos primeiros raios do dia, no momento em que o castelo Cornet salvava o sol com
  um tiro. Iluminava-se o horizonte. A chalupa Cashmere era esperada como
  devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa,
  espalhou-se o boato de que encontrara  noite no mar outra chalupa com uma
  equipagem naufragada.

CAPTULO VII
BOA FORTUNA DE APARECER A
  TEMPO

Naquela noite,
  Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a pescar, sem afastar-se muito da
  costa.

Na volta,
  estando a mar a encher, pelas 2 horas da tarde, e fazendo um sol esplndido,
  quando Gilliatt passou por diante da Corne de la Bte para entrar na angra em
  que ficava a pana, pareceu-lhe ver na projeo da Cadeira Gild-Holm-'Ur uma
  sombra que no era a do rochedo. Deixou a pana chegar at ali e reconheceu que
  um homem estava assentado na Cadeira Gild-Holm-'Ur. O mar j estava alto, a
  rocha estava cercada pela gua, no era possvel ao homem voltar para terra.
  Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou imvel. Gilliatt aproximou-se. O
  homem estava adormecido.

Tinha ele
  vesturio preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Aproximou-se ainda mais e viu
  um rosto de adolescente.

No conheceu
  quem era.

A rocha
  felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt costeou a muralha. A mar
  levantava a barca quanto bastava para que Gilliatt, pondo-se de p sobre a
  pana, pudesse tocar os ps do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e
  ergueu os braos. Se casse naquele momento,  duvidoso que tornasse a aparecer.
  A vaga batia entre a pana e o rochedo, era inevitvel ser esmagado.

Gilliatt puxou
  o p do homem adormecido.

 Ol, que faz
  a?

O homem
  acordou.

 Estou olhando
   disse ele.

Depois,
  acordando de todo, continuou:

 Cheguei h
  pouco  terra, vim passear aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita,
  estava cansado, adormeci.

 Dez minutos
  mais, afogar-se-ia  disse Gilliatt.


  Ah!

 Salte para a
  barca.

Gilliatt
  susteve a barca com o p, ps uma das mos no rochedo e estendeu a outra ao
  homem, que pulou lestamente na barca. Era um bonito rapaz.

Gilliatt tomou
  o leme; em dois minutos, a pana chegou  angra da casa
  mal-assombrada.

O moo tinha
  chapu redondo e gravata branca. Trazia abotoada at o pescoo a comprida
  sobrecasaca preta. Tinha cabelos loiros, rosto feminino, olhar puro, ar
  grave.

Entretanto a
  pana tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois
  voltou-se, e viu a mo do moo que lhe apresentou um soberano de
  ouro.

Gilliatt
  repeliu docemente a mo.

Houve um
  silncio. O moo falou:

 Salvou-me a
  vida  disse ele.

 Talvez 
  respondeu Gilliatt.

A pana estava
  amarrada. Saram da barca.

O moo
  continuou:

 Devo-lhe a
  vida, senhor.

 Que importa
  isso?

Essa resposta
  de Gilliatt foi acompanhada de novo silncio.

  desta
  parquia o senhor?  perguntou o mancebo.

 No 
  respondeu Gilliatt.

 De que
  parquia  ento?

Gilliatt
  levantou a mo direita, mostrou o cu e disse:


  Daquela.

O moo
  cumprimentou e foi caminhando.

Depois de
  alguns passos, voltou, meteu a mo no bolso, tirou um livro e voltou-se para
  Gilliatt.

 Consinta que
  lhe oferea isto.

Gilliatt tomou
  o livro.

Era uma
  Bblia.

Instantes
  depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava para o moo, que voltava o
  ngulo do caminho que ia ter a Saint-Sampson.

A pouco e pouco
  abateu a cabea, esqueceu o mancebo, no soube mais se existia a Cadeira
  Gild-Holm-'Ur, e tudo desapareceu, na imerso sem fundo do cismar. Gilliatt
  tinha um abismo, Druchette.

Tirou-o daquele
  abismo uma voz que lhe gritou:

 Ol,
  Gilliatt!

Reconheceu a
  voz e ergueu os olhos.

 Que h, Sr.
  Landoys?

Era com efeito
  o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem passos da casa, no seu faton, com
  um pequeno cavalo. Parou a fim de chamar Gilliatt  fala, mas parecia atarefado
  e apressado:

 H novidade,
  Gilliatt.


  Onde?

 Na casa de
  Mess Lethierry.

 O que
  h?

 Estou longe
  para lhe contar o caso.

Gilliatt
  estremeceu.

 Casa-se Miss
  Druchette?

 No.
  Mas...

 Que quer
  dizer?

 V l  casa
  dele, que h de saber.

E o Sr. Landoys
  chicoteou o cavalo.

LIVRO QUINTO
O REVLVER

CAPTULO PRIMEIRO
A PALESTRA NA POUSADA
  JOO

O Sr. Clubin
  era o homem que espera a ocasio.

Era baixo e
  amarelo, com a fora de um touro. O mar no podia com ele. Tinha uma carne que
  parecia cera. Era da cor de uma tocha e tinha nos olhos uma luz discreta. A sua
  memria tinha um qu de imperturbvel e especial. Ver um homem uma vez era
  conserv-lo como se fosse uma nota em um registro. O olhar lacnico apunhalava.
  A plpebra tirava a prova de um rosto, e conservava-o; no importava que o rosto
  envelhecesse depois, o Sr. Clubin no deixava de reconhec-lo. Era impossvel
  fugir quela memria tenaz. O Sr. Clubin era breve, sbrio e frio; no fazia
  gesto algum. Tinha uns ares de candura que prendiam logo. Muitas pessoas
  acreditavam-no simplrio; trazia no rosto uma certa ruga que indicava uma
  espantosa estupidez. No havia melhor marinheiro que ele. No havia reputao de
  religiosidade e integridade maior que a sua. Quem o suspeitasse  que era
  suspeito. Travara amizade com o Sr. Rebuchet, cambista em Saint-Malo, Rua de So
  Vicente, ao lado do armeiro, e o Sr. Rebuchet costumava dizer que confiaria a
  sua fbrica a Clubin. O Sr. Clubin era vivo. A mulher foi to honesta como ele.
  Morreu com a fama de uma virtude invencvel. Se o bailio lhe fizesse uma
  declarao ela iria cont-lo ao rei, e se Nosso Senhor se apaixonasse por ela
  iria cont-lo ao padre vigrio. O casal Clubin realizou em Torteval o ideal do
  epteto ingls respectable. A Sra. Clubin era o cisne; o Sr. Clubin era o
  arminho. Morreria se lhe pusessem uma ndoa. Nunca achou um alfinete que no
  fosse logo  cata do proprietrio. Era capaz de pr em almoeda uma caixa de
  fsforos, se acaso a tivesse achado na rua. Entrou uma vez em uma taberna em
  Saint-Servan e disse ao taberneiro: Almocei aqui h trs anos e voc enganou-se
  na conta. E, dizendo isto, restituiu ao taberneiro 75 cntimos. Era uma grande
  probidade, mordendo atentamente os beios.

Parecia estar
  sempre  espera. De quem? Provavelmente dos velhacos.

Todas as
  teras-feiras levava a Durande de Guernesey a Saint-Malo. Chegava a Saint-Malo
  na tera-feira  noite, demorava-se dois dias para fazer o carregamento e
  voltava a Guernesey na sexta-feira de manh. Havia ento em Saint-Malo uma
  pequena hospedaria, situada no porto, que se chamava a Pousada Joo.

A construo do
  cais atual fez demolir a pousada. Naquela poca vinha o mar at a porta de
  Saint-Vincent e a porta de Dinan; Saint-Malo e Saint-Servan comunicavam-se nas
  mars baixas por meio de carrinhos que rolavam e circulavam entre os navios em
  seco, evitando as bias, as ncoras e os massames, e arriscando-se s vezes a
  rasgar a coberta de couro em alguma verga baixa. No intervalo de duas mars, os
  cocheiros fustigavam os cavalos naquela mesma areia, onde, seis horas depois,
  vinha o vento chicotear as vagas. Na mesma praia andavam outrora os 24 ces,
  porteiros de Saint-Malo, que devoraram um oficial de marinha em 1770. Tamanho
  zelo fez suprimir os ces. J no se ouvem agora os latidos noturnos entre o
  pequeno e o grande Tallard.

O Sr. Clubin ia
   Pousada Joo. Era ali o escritrio francs da Durande. Os guardas da alfndega
  e os guardas da costa iam comer e beber na Pousada Joo. Faziam rancho  parte.
  Os guardas da alfndega de Binic encontravam-se, vantajosamente para o servio,
  com os guardas da alfndega de Saint-Malo.

Tambm l iam
  os mestres de navio, mas comiam em outra mesa.

O Sr. Clubin
  assentava-se ora numa, ora noutra, mas preferia a dos guardas  dos mestres. Era
  bem recebido em ambas.

As mesas eram
  bem servidas. Havia as mais apuradas bebidas estrangeiras para os martimos
  expatriados. Um marinheiro gamenho de Bilbau acharia ali um copo de helada. Bebia-se stout como em Greenwich, e gueuse como em
  Anturpia.

Capites de
  longo curso e armadores tomavam s vezes lugar na mesa dos mestres de navio.
  Trocavam-se a notcias:

 Como vai o
  acar?

 Pequenos
  lotes. Vende-se bem o acar bruto; 3.000 sacas de Bombaim e quinhentas barricas
  de Sagua.

 H de ver, o
  partido da direita ainda derruba o ministrio Villele.

 E o
  anil?

 Venderam-se
  apenas uns sete surres da Guatemala.

 A Nanine
  Julie ancorou. Lindo navio da Bretanha.

 As duas
  cidades do rio da Prata esto outra vez desavindas.

 Quando
  Montevidu engorda, Buenos Aires emagrece.

 Foi preciso
  deitar ao mar a carga do Regina Coeli, condenado em Calhao.

 O cacau vai
  andando; os sacos Caracas so cotados a 234, e os sacos Trindade a
  73.

 Parece que na
  revista do Campo de Marte ouviu-se gritar: abaixo os ministros.

 Os couros
  salgados, Saladeros, vendem-se o dos bois a 60 francos e o das vacas a
  48.

 J passaram o
  Balkan? O que faz Diebitsch?

 Em San
  Francisco h falta de anisete. O azeite Plagniol est calmo. O queijo de Gruyre
  est a 32 francos o quintal.

 Com que
  ento, Leo XII morreu?

 Etc., etc.,
  etc.

Todas estas
  coisas eram ditas e comentadas no meio de grande barulho.  mesa dos guardas da
  alfndega e dos guardas da costa falava-se menos.

A polcia das
  costas e dos portos quer menos sonoridade e menos clareza no dilogo.

A mesa dos
  mestres de navio era presidida por um velho capito de longo curso, o Sr.
  Gertrais-Gaboureau. No era homem, era um barmetro. Os hbitos do mar deram-lhe
  uma espantosa infalibilidade de prognstico. Ele decretava o tempo que devia
  haver no dia seguinte; auscultava o vento; tomava o pulso  mar. Dizia  nuvem:
  mostra-me a tua lngua. A lngua era o relmpago. Era o doutor da vaga, da brisa
  e da lufada. O oceano era o seu doente; fez uma viagem  roda do mundo como quem
  faz uma clnica, examinando todos os climas na sua boa e m sade; sabia a fundo
  a patologia das estaes. Enunciava fatos como este: o barmetro desceu uma vez
  em 1796 a trs linhas abaixo da tempestade. Era marinheiro por amor. Odiava a
  Inglaterra tanto quanto estimava o mar. Estudou cuidadosamente a marinha inglesa
  para conhecer os seus lados fracos. Explicava em que ponto o Sovereign de
  1637 diferia do Royal William de 1670 e do Victory de 1755.
  Comparava os castelos de popa. Lamentava as torres no tombadilho e os cestos de
  gvea afunilados do Great Harry de 1514, provavelmente no ponto de vista
  da bala francesa que se aninhava perfeitamente naquelas superfcies. Para ele as
  naes s existiam por suas instituies martimas; fazia sinnimos
  extravagantes. Chamava a Inglaterra Trinity House, a Esccia Northern
    Commissioners, e a Irlanda Ballast Board. Abundava de informaes;
  era alfabeto e almanaque. Sabia de cor a portagem dos faris, principalmente
  ingleses; 1 penny por tonelada ao passar diante deste, 1 farthing ao passar diante daquele. Dizia: o Farol de Smalt Rock, que consumia apenas 200
  gales de azeite, consome agora 500. Achando-se muito doente um dia, a bordo, a
  tripulao, que j o tinha por defunto, estava  roda de sua maca, quando ele
  interrompeu os soluos da agonia para dar ao mestre carpinteiro uma ordem
  relativa a um conserto do navio.

Era raro que o
  assunto de conversa fosse sempre o mesmo na mesa dos capites e na mesa dos
  guardas. Apresentou-se, porm, o seguinte caso nos primeiros dias do ms de
  fevereiro, em que se passam os fatos que estamos contando. A galera Tamaulipas, Capito Zuela, vinda do Chile, e prestes a voltar, chamava a
  ateno das duas mesas. Na mesa dos mestres falou-se do carregamento, e na mesa
  dos guardas falou-se dos ares suspeitos do navio.

O Capito
  Zuela, de Copiap, era chileno, um pouco colombiano; tinha feito com
  independncia as guerras da independncia, acompanhando ora Bolvar, ora
  Morillo, conforme os lucros a haver. Tinha-se enriquecido obsequiando a toda a
  gente. No havia homem mais bourbnico, mais bonapartista, mais absolutista,
  mais liberal, mais ateu e mais catlico. Ele pertencia a este grande partido que
  se pode chamar o Partido Lucrativo. De tempos a tempos fazia aparies
  comerciais na Frana; e, a acreditar-se nos boatos, dava passagem a bordo aos
  fugitivos, bancarroteiros ou proscritos polticos, fossem quem fossem, contanto
  que pagassem. O meio de embarc-los era simples. O fugitivo esperava num ponto
  deserto da costa, e, no momento de aparelhar, Zuela destacava um escaler, que ia
  busc-lo. Foi deste modo que na sua precedente viagem fez evadir um homem
  implicado no processo Berthon, e desta vez contava levar pessoas comprometidas
  na questo da Bidassoa. A polcia, j avisada, estava com o olho
  nele.

Era um tempo de
  fugas aquele. A restaurao era uma reao; ora, as revolues trazem
  emigraes, e as restauraes arrastam proscries. Durante os sete ou oito
  primeiros anos, depois da entrada dos Bourbons, espalhou-se o terror em tudo,
  nas finanas, na indstria, no comrcio, que sentiam tremer a terra e viam
  multiplicar-se as falncias. Havia um salve-se quem puder na poltica.
  Lavalette fugira. Lefebvre Desnouettes fugira; Delon fugira. Os tribunais de
  exceo trabalhavam; depois veio Trestaillon. Fugia-se  ponte de Saumur, 
  esplanada de Reole, ao muro do observatrio de Paris,  torre de Taurias
  d'Avignon, tudo isso que se conserva de p na histria, vestgios da reao,
  aonde se distingue ainda a sua mo sanguinolenta.

Em Londres, o
  processo Thistlewood, ramificado na Frana, em Paris o processo Trogoff,
  ramificado na Blgica, na Sua e na Itlia, multiplicaram os motivos da
  inquietao e desaparecimento, e aumentaram essa profunda derrota subterrnea,
  que deixava vazios os mais altos lugares da ordem social de ento. Pr-se em
  segurana era a preocupao universal. O esprito dos tribunais prebostais
  sobrevivera  instituio. As condenaes eram feitas por complacncia. Fugiam
  para o Texas, para o Peru, para o Mxico. Os homens da Loire, salteadores ento,
  paladinos hoje, tinham fundado o campo de Asilo. Dizia uma
    cano de Branger:

Sauvages, nous
  sommes franais;
Prenez piti de
  notre gloire.

Expatriar-se
  era o recurso; porm nada menos simples que fugir; este monosslabo encerra
  abismos. Tudo  obstculo para quem se esquiva. Fugir  disfarar-se. Pessoas
  importantes, e at ilustres, viram-se reduzidas aos expedientes dos malfeitores.
  E ainda assim saam-se mal. Eram inverossmeis. Os seus hbitos de franqueza
  tornavam-lhes difcil resvalar pelas malhas da evaso. Um gatuno fugitivo
  mostrava-se mais correto aos olhos da polcia do que um general. Imaginem a
  inocncia constrangida a disfarar-se, a virtude contrafazendo a voz, a glria
  mascarando o rosto. Algum indivduo que passasse com ar suspeito, era uma
  reputao  cata de um passaporte falso. O ar embaraado de um fugitivo no
  provava que ele deixasse de ser um heri. Traos fugazes e caractersticos dos
  tempos, que a histria regular esquece, mas que o verdadeiro pintor de um sculo
  deve rememorar. Atrs dos homens honestos, fugiam os tratantes, menos vigiados,
  menos suspeitos. Um tratante obrigado a eclipsar-se aproveitava-se da confuso,
  fazia parte dos proscritos, e muitas vezes, graas a uma arte apurada, parecia
  naquele crepsculo mais honesto que o honesto. Que h a mais acanhado que a
  probidade diante da justia? Nada entende, nada finge. Um falsrio escapa-se
  mais facilmente que um convencional.

Coisa estranha!
  Especialmente em relao aos tratantes, quase se pode dizer que a evaso fazia
  subir o indivduo. A quantidade de civilizao que um velhaco levava de Paris ou
  de Londres valia-lhe por dote nos pases primitivos ou brbaros, recomendava-o e
  fazia dele um iniciador. Era fcil que um aventureiro, escapando ao cdigo,
  chegasse depois ao sacerdcio. Havia fantasmagoria na desapario, e mais de uma
  evaso tinha os resultados de um sonho. Uma fuga deste gnero levava ao
  desconhecido e ao quimrico. Tal bancarroteiro saa da Europa e aparecia mais
  tarde gro-vizir em Mogol ou rei na Tasmnia.

Ajudar as
  evases era uma indstria, e visto a freqncia do fato, uma indstria
  lucrativa. Esta especulao completava certos gneros de comrcio. Quem queria
  fugir para a Inglaterra dirigia-se aos contrabandistas; quem queria fugir para a
  Amrica dirigia-se aos trapaceiros de longo curso, tais como Zuela.

CAPTULO II
CLUBIN DESCOBRE
  ALGUM

Zuela ia comer,
  algumas vezes,  Pousada Joo. O Sr. Clubin conhecia-o de vista.

E o Sr. Clubin
  no era soberbo; no se desprezava de conhecer de vista um tratante. s vezes
  chegava mesmo a conhec-los de fato, dando-lhes a mo em plena rua. Falava
  ingls com o smogler e engrolava o espanhol com o
  contrabandista.

A este respeito
  tinha ele as seguintes mximas:

 Pode-se
  adquirir o bem pelo conhecimento do mal.  O monteiro conversa proveitosamente
  com o ladro de caa.  O piloto deve sondar o pirata; o pirata  um escolho. 
  Trata de provar um velhaco como o mdico prova o veneno.

No tinha
  rplica. Todos davam razo ao Capito Clubin. Era aprovado por no ter
  escrpulos tolos. Quem ousaria dizer mal dele? Tudo quanto fazia era para bem
    do servio. Nele tudo era simples. Nada podia compromet-lo. O cristal
  querendo manchar-se no pode. Esta confiana era a justa recompensa de uma longa
  honestidade e  essa a excelncia das reputaes firmes. Fizesse o que fizesse o
  Sr. Clubin, todos lhe viam malcia no sentido da virtude; tinha adquirido a
  impecabilidade; e de mais a mais dizia-se que era muito esperto; deste ou
  daquele encontro que com outra pessoa seria suspeito, a sua probidade saa
  sempre com um relevo de habilidade. A fama de habilidade combinava-se
  harmoniosamente com a fama de ingenuidade, sem contradio alguma. Ingnuo hbil
   coisa que existe.  uma das variedades do homem honesto e das mais apreciadas.
  O Sr. Clubin era desses homens que, encontrados em conversa ntima com um
  larpio ou um bandido, so recebidos, compreendidos, e mais respeitados, e tm
  ainda por si o piscar de olhos satisfeitos da estima pblica.

O Tamaulipas tinha completado o carregamento. Estava prximo a partir e ia
  aparelhar.

Em uma
  tera-feira  tarde, ainda com sol, chegou a Durande a Saint-Malo. O Sr. Clubin,
  de p no passadio e dirigindo a manobra da entrada, descobriu perto de Petit
  Bey, na praia, entre dois rochedos, em um lugar muito solitrio, dois homens
  conversando. Deitou-lhes o culo e reconheceu um dos homens. Era o Capito
  Zuela. Parece que reconheceu tambm o outro.

O outro era
  alto, um pouco grisalho. Trazia o chapu largo e o vesturio grave dos Amigos.
  Era provavelmente um quaker. Baixava os olhos com modstia.

Chegando 
  Pousada Joo, o Sr. Clubin soube que o Tamaulipas ia aparelhar dentro de
  dez dias.

Soube-se depois
  que ele tomara outras informaes.

 noite, entrou
  em casa do armeiro da Rua de So Vicente, e disse-lhe:

 Sabe o que 
  um revlver?

 Sei 
  respondeu ele ,  americano.

  uma pistola
  que renova sempre a conversao.

 Na verdade,
  ela tem pergunta e resposta.

 E
  rplica.

  justo, Sr.
  Clubin. O cano  girante.

 E cinco ou
  seis balas.

O armeiro
  levantou o cantinho do beio e fez ouvir aquele estalo de lngua, que,
  acompanhado de um movimento de cabea, exprime a admirao.

 A arma  boa,
  Sr. Clubin. Creia que h de vir a ser universal.

 Eu queria um
  revlver de seis tiros.

 No tenho
  desses.

 Pois que, o
  senhor no  armeiro?

 Mas ainda no
  tenho desse. Bem v que  coisa nova. Na Frana s se fazem pistolas.


  Diabo!

  coisa que
  ainda no est no comrcio.


  Diabo!

 Tenho
  pistolas excelentes.

 Quero um
  revlver.

 Convenho que
   melhor. Mas espere, Sr. Clubin.

 O que
  ?

 Creio que h
  um em Saint-Malo.


  Revlver?


  Sim.

 Para
  vender?


  Sim.


  Onde?

 Creio que
  sei. Hei de informar-me.

 Quando me d
  a resposta?

 O revlver 
  bom.

 Quando devo
  voltar?

 Se eu lhe
  arranjo um revlver,  porque  bom.

 Quando me d
  a resposta?

 Na sua
  primeira viagem.

 No diga que
   para mim.

CAPTULO III
CLUBIN LEVA UNS OBJETOS E NO OS
  TRAZ

O Sr. Clubin
  fez o carregamento da Durande, embarcou o gado e alguns passageiros, e, como de
  costume, saiu de Saint-Malo para Guernesey na sexta-feira de manh.

Nesse mesmo
  dia, quando o navio j estava ao largo, o que permite ao capito ausentar-se do
  tombadilho alguns momentos, Clubin entrou no seu camarote, fechou-se, pegou em
  um saco de viagem que tinha, meteu alguma roupa no compartimento elstico,
  biscoitos, latas de conserva, algumas libras de cacau, um cronmetro e um culo
  no compartimento slido, e passou pelas argolas uma maroma preparada para i-lo
  se fosse preciso. Depois desceu ao poro, entrou no depsito dos cabos e
  viram-no subir com uma dessas cordas armadas de um gancho que servem aos
  calafates no mar e aos ladres em terra. Essas cordas facilitam a
  escalada.

Chegando a
  Guernesey, Clubin foi a Torteval. Passou a 36 horas. Levou o saco e a corda,
  mas no voltou com eles.

Digamo-lo uma
  vez por todas, o Guernesey de que se trata neste livro  o antigo Guernesey que
  j no existe e seria impossvel ach-lo hoje, a no ser no campo.  a que ele
  existe vivo, mas nas cidades morreu. A observao que fazemos a respeito de
  Guernesey deve ser feita a respeito de Jersey. Saint-Hlier vale Dieppe;
  Saint-Pierre-Port vale Lorient. Graas ao progresso, graas ao admirvel
  esprito de iniciativa daquele valente povo insular, transformou-se tudo em
  quarenta anos no arquiplago da Mancha. Onde havia sombra h luz. Dito isto,
  continuemos. Naqueles tempos que, pelo afastado, j so histricos, o
  contrabando ativava-se no mar da Mancha. Abundavam os navios trapaceiros,
  principalmente na costa oeste de Guernesey. As pessoas demasiado informadas e
  que sabem em todas as mincias o que se passava h quase meio sculo chegam a
  citar os nomes de muitos desses navios quase todos asturianos. O que  fora de
  dvida  que no se passava semana, sem que aparecesse um ou dois, ora na baa
  dos Santos, ora em Plainmont. Parecia um servio regular. Havia uma cava de mar
  em Serk que se chamava e ainda se chama a loja, porque era nessa gruta que a
  gente da terra ia comprar aos contrabandistas as suas mercadorias de importao.
  Para as necessidades desse comrcio falava-se na Mancha uma espcie de lngua
  contrabandista, esquecida hoje, e que estava para o espanhol como o levantino
  para o italiano.

Em muitos
  pontos do litoral ingls e francs o contrabando estava em boa harmonia com o
  negcio lcito. Entrava na casa de mais de um financeiro de alta classe, s
  escondidas,  verdade; e dilatava-se subterraneamente na circulao comercial e
  por todas as vias de indstria. Negociante em pblico, contrabandista s
  escondidas, eis a histria de muitas fortunas. Seguin dizia isto de Bourguin.
  Bourguin dizia isto de Seguin. No garantimos o dito de ambos. Talvez se
  caluniassem um ao outro. Fosse como fosse, o contrabando perseguido pela lei
  estava, sem contestao, muito aparentado no comrcio. Carteava-se com a gema da
  sociedade. A caverna onde Maudrin acotovelava outrora o Conde de Charolais era
  honesta exteriormente e tinha uma fachada irrepreensvel para o lado da
  sociedade.

Daqui
  resultaram muitas convenincias necessariamente mascaradas. Tais mistrios
  exigiam sombra impenetrvel. Um contrabandista sabia de muitas coisas e devia
  guardar segredo; a sua lei era uma f inviolvel e rgida. A primeira qualidade
  de um trapaceiro era a lealdade. Sem discrio no h contrabando. Havia o
  segredo da fraude como h o segredo da confisso.

Esse segredo
  era imperturbavelmente guardado. O contrabandista jurava no dizer nada e
  mantinha a sua palavra. Ningum inspirava mais confiana que um contrabandista.
  O juiz alcaide de Oyarzun apanhou um dia um contrabandista e ps-lhe a questo
  para obrig-lo a declarar quem era o seu caixa de fundos. O contrabandista no
  confessou quem era o caixa de fundos. O caixa de fundos era o juiz alcaide. Dos
  dois cmplices, juiz e contrabandista, o primeiro devia, para cumprir a lei aos
  olhos de todos, ordenar a tortura,  qual o segundo resistia para cumprir o
  juramento.

Os dois mais
  famosos contrabandistas que andavam em Plainmont naquela poca eram Blasco e
  Blasquito. Eram tocaios. Parentesco espanhol e catlico que consiste em ter o
  mesmo patro no paraso, coisa no menos digna de considerao que ter o mesmo
  pai na terra.

Quem estava
  pouco mais ou menos ao fato do furtivo itinerrio do contrabando e queria falar
  a esses homens, era isso a coisa mais fcil e mais difcil. Bastava no ter
  preconceitos noturnos, ir a Plainmont e afrontar o misterioso ponto de
  interrogao que ali se levanta.

CAPTULO IV
PLAINMONT

Plainmont,
  perto de Torteval,  um dos trs ngulos de Guernesey. H, na extremidade do
  cabo, uma coroa de relva que domina o mar. O cume  deserto. Tanto mais deserto
  quanto h ali uma casa. Aquela casa aumenta o horror da solido. Dizem que 
  mal-assombrada. Assombrada ou no, o aspecto  medonho.  feita de granito, tem
  um s andar e est no meio da relva. No tem aspecto de runa. E perfeitamente
  habitvel. As paredes so grossas e o teto slido. No falta uma s pedra s
  paredes, nem uma s telha ao telhado. Tem uma chamin de tijolo. A casa est de
  costas para o mar. A fachada do lado do mar  apenas uma parede. Examinando bem
  essa parede v-se uma janela murada. H trs trapeiras, uma a leste, duas a
  oeste, muradas todas. A frente da casa tem uma s porta e janelas. A porta 
  murada e as duas janelas de baixo tambm. No primeiro andar, e  isso que
  espanta logo ao princpio, h duas janelas abertas; mas as janelas tapadas so
  menos assustadoras que as janelas abertas. Por estarem abertas, aparecem negras
  em pleno dia. No tm vidros nem caixilhos. Abrem para as trevas do interior.
  Dir-se-ia umas rbitas vazias de olhos arrancados. Nada h naquela casa. V-se
  pelas janelas abertas o descalabro de dentro. Nem retbulos, nem entalhos de
  madeira, pedra nua. Parece um sepulcro com janelas para deixar que os espectros
  olhem para fora. As chuvas aluem os alicerces do lado do mar. Algumas urtigas
  agitadas pelo vento beijam a barra das paredes. No horizonte, nenhuma habitao
  humana. Aquela casa  uma coisa vazia e silenciosa. Mas quem pra e pe o ouvido
   parede ouve confusamente um bater de asas assustadas.

Por cima da
  porta tapada, na pedra que faz a arquitrave, esto gravadas estas letras: ELM 
  PBILG, e esta data: 1780.

De noite o luar
  lgubre penetra na casa.

Todo o mar est
  em roda da casa. A situao  magnfica, e, por conseqncia, sinistra. A beleza
  do lugar torna-se um enigma. Por que motivo aquela casa no  habitada por
  nenhuma famlia humana? O lugar  bonito, a casa  boa. Donde procede esse
  abandono? s perguntas da razo ajuntam-se as perguntas da superstio. O campo
   cultivvel, por que motivo est inculto? No h dono. A porta, murada. Que
  tem, pois, esse lugar? Por que foge o homem? Que se faz aqui? Se no h nada por
  que  que no h ningum? Quando todos dormem h algum acordado? A lufada
  tenebrosa, o vento, as aves de rapina, os animais escondidos, os entes
  ignorados, aparecem ao pensamento e misturam-se quela casa. A que passageiros
  serve ela de hospedaria? A gente imagina trevas de granizo e de chuva metendo-se
  pela janela dentro. H na parte interior uns vagos sinais de chuva que gotejou.
  Os quartos fechados e abertos so visitados pelo furaco.

Cometer-se-ia
  algum crime ali? Parece que aquela casa,  noite, entregue s trevas, deve
  chamar por socorro. Ser muda? Saem vozes de dentro? Que faz ela na solido? O
  mistrio das horas negras existe ali facilmente. A casa assusta ao meio-dia; que
  ser ela  meia-noite? Contemplando-a, contempla-se um segredo. Pergunta-se 
  porque a superstio tem a sua lgica e o possvel a sua inclinao  o que ser
  aquela casa entre o crepsculo da noite e o crepsculo da manh. A imensa
  disperso da vida extra-humana tem acaso naquele cume deserto um vnculo em que
  ela pra, e que a obriga a fazer-se visvel e a descer? O espao vai redemoinhar
  ali? O impalpvel vai ali condensar-se? Enigmas. Sai daquelas pedras o horror
  sagrado. A treva que est nesses quartos defesos  mais do que treva;  o
  desconhecido. Depois do sol posto voltam barcos de pescadores para terra,
  calam-se os pssaros, o cabreiro que est atrs do rochedo vai-se com as suas
  cabras, as fendas das pedras daro passagem aos rpteis mais animados, as
  estrelas comearo a olhar, soprar o vento, far-se- plena escurido, as duas
  janelas estaro ali escancaradas. Abrem-se para o sonho; e  por aparies,
  larvas, fantasmas mal distintos, sombras cobrindo luzes, misteriosos tumultos de
  almas e espectros, que a crena popular estpida e profunda traduz as sombrias
  intimidades daquela casa com a noite.

A casa 
  mal-assombrada, esta palavra explica tudo.

Os espritos
  crdulos do a sua explicao; mas os espritos positivos do outra. Nada mais
  simples do que essa casa, dizem eles.  um antigo posto de observao, do tempo
  das guerras da revoluo e do imprio e dos contrabandos. Foi construda para
  isso. Acabada a guerra, foi abandonado o posto. No se demoliu a casa porque
  pode tornar-se til. Taparam-se a porta e as janelas do rs-do-cho contra os
  estercorrios humanos, e para que ningum pudesse entrar; taparam-se as janelas
  do lado do mar, por causa do vento do sul e do vento do oeste. Eis
  tudo.

Os ignorantes e
  os crdulos insistem. Em primeiro lugar a casa no foi construda no tempo das
  guerras da revoluo. Traz a data de 1780, anterior  revoluo. Depois, no foi
  construda para ser posto; tem as letras ELM  PBILG, que so o duplo monograma
  de duas famlias, e que indicam, segundo o uso, que a casa foi construda para
  algum jovem casal. Portanto foi habitada. Por que no o  agora? Se se tapou a
  porta e as janelas para que ningum entrasse, por que motivo deixaram-se abertas
  duas janelas? Deviam tapar tudo ou nada. Por que no h vidros, nem caixilhos,
  nem postigos? Por que fech-las de um lado, sem fech-las de outro? A chuva no
  entra pelo sul, mas entra pelo norte.

Os crdulos no
  tm razo,  certo; mas os positivos tambm no a tm. O problema
  persiste.

O que  certo 
  que dizem ter sido a casa mais til que nociva aos contrabandistas.

Quando o medo
  cresce, os fatos perdem a verdadeira proporo. No h dvida que muitos
  fenmenos noturnos, entre aqueles de que a pouco e pouco se comps o assombramento da casa, poderiam explicar-se por presenas fugitivas e
  obscuras, curtas estaes de homens logo embarcados, j pelas precaues, j
  pela ousadia de certos comerciantes suspeitos, escondendo-se para fazer mal, e
  deixando-se entrever para causar medo.

Naquela poca
  j remota, muitas audcias eram possveis. A polcia, sobretudo, nos lugares
  pequenos, no era o que  hoje.

Ajunte-se a
  isto que, se a casa era cmoda aos contrabandistas, as suas entrevistas ali
  deviam ser francas, exatamente porque a casa era malvista. O ser malvista
  impedia que fosse denunciada. Ningum pede  polcia socorro contra os
  espectros. Os supersticiosos persignam-se, mas no fazem processo. Vem ou
  acreditam ver, fogem e calam. Existe uma conivncia tcita involuntria, mas
  real, entre os que fazem medo e os que tm medo. Os assustados sentem que
  fizeram mal em se assustarem, imaginam ter surpreendido um segredo, receiam
  agravar a posio misteriosa para eles, e enfadar as aparies. Isto f-los
  discretos. E ainda, fora deste clculo, o instinto dos crdulos  o silncio; o
  medo  mudo; os aterrorizados falam pouco; parece que o horror diz: silncio!

Devem
  recordar-se que isto remonta  poca em que os camponeses guernesianos
  acreditavam que o mistrio do prespio era repetido todos os anos pelos bois e
  pelos asnos; poca em que ningum, na noite de Natal, ousaria penetrar em uma
  estrebaria com receio de encontrar os animais ajoelhados.

Se se deve
  acreditar nas legendas locais e narrativas dos camponeses, a superstio chegou
  a suspender nas paredes da casa de Plainmont, em pregos de que ainda existem
  vestgios, ratos sem ps, morcegos sem asas, arcabouos de animais mortos, sapos
  esmagados entre as pginas de uma Bblia, febras de tremoos amarelos, estranhos
  ex-votos pendurados por viandantes imprudentes que acreditavam ver alguma coisa,
  e por meio desses presentes contavam obter perdo e conjurar o mau humor das
  estriges, das larvas e dos duendes. Houve sempre quem acreditasse em congressos
  de feitiaria, e alguns desses crdulos altamente colocados. Csar consultava
  Sagana, e Napoleo Mademoiselle Lenormand. H conscincias to inquietas que
  chegam a procurar indulgncias do diabo. Faa-o Deus, mas no o desfaa
  Satans, era uma das oraes de Carlos V.

H espritos
  mais timoratos ainda. Esses chegam a persuadir-se de que o mal pode ter razo
  contra eles. Ser irrepreensvel para com o demnio  uma das suas preocupaes.
  Da vm as prticas religiosas voltadas para a imensa malcia obscura.  uma
  carolice como qualquer outra. Os crimes contra o demnio existem em certas
  imaginaes doentias; violar a lei do inimigo  uma coisa que faz sofrer os
  estranhos casustas da ignorncia; h escrpulos para com as regies das trevas.
  Crer na eficcia da devoo aos mistrios do Brocken e de Armuyr, imaginar que
  se peca contra o inferno recorrendo a penitncias quimricas por infraes
  quimricas, confessar a verdade ao esprito da mentira; fazer o mea culpa diante do pai da Culpa, confessar-se em sentido inverso, tudo isto existe ou
  existiu. Os processos de magia provam-no em cada uma de suas pginas. Vai at
  esse ponto o sonho humano. Quando o homem comea a assustar-se, no pra mais.
  Sonha culpas imaginrias, sonha purificaes imaginrias, e faz limpar a sua
  conscincia com a vassoura das feiticeiras.

Fosse como
  fosse, se aquela casa teve aventuras,  coisa que l ficou; pondo de parte
  alguns acasos e algumas excees, ningum subiu a ver o que era; a casa ficou
  s; ningum gosta de arriscar-se aos encontros infernais.

Graas ao
  terror que a cerca e afasta dali todo aquele que pudesse observar e testemunhar,
  fcil foi em todos os tempos entrar de noite naquela casa por meio de uma escada
  de corda ou simplesmente por meio da primeira tranqueira que se achasse nas
  hortas vizinhas. Levava-se um rancho de vveres, o que dava lugar a esperar ali
  com toda segurana a eventualidade de um embarque furtivo. Conta a tradio que
  h quarenta anos um fugitivo, dizem uns que da poltica outros que do comrcio,
  l esteve algum tempo escondido, e dali embarcou num barco de pesca para a
  Inglaterra. Da Inglaterra  fcil passar  Amrica.

A mesma
  tradio afirma que as provises depositadas naquele albergue l se conservam
  sem que ningum as toque, visto como Lcifer e os contrabandistas tm interesse
  em que a pessoa que l as pe v busc-las.

Do lugar em que
  existe aquela casa, v-se ao sudoeste, a 1 milha da costa, o escolho de
  Hanois.

 clebre
  aquele escolho. Fez todas as ms aes que um rochedo pode fazer. Era um dos
  mais temveis assassinos do mar. Esperava perfidamente os navios  noite.
  Entulhou os cemitrios de Torteval e de Rocquaine.

Em 1862 ps-se
  ali um farol.

Hoje o escolho
  de Hanois alumia a navegao que ele prprio extraviava outrora; a emboscada
  traz agora um archote na mo. Procura-se hoje como protetor e guia o rochedo do
  qual fugia-se outrora como de um malfeitor. O escolho tranqiliza aqueles vastos
  espaos noturnos onde outrora inspirava o medo. Assemelha-se a um salteador
  feito soldado de polcia.

H trs Hanois:
  o grande Hanois, o pequeno Hanois e a Mauve. No pequeno Hanois  que existe hoje
  o Red Light.

O escolho faz
  parte de um grupo de picos, uns submarinos, outros acima da gua. Domina-os.
  Como se fora uma fortaleza, tem baterias avanadas; do lado do mar alto, um
  cordo de treze rochas; ao norte, dois cachopos, Hautes-Fourquies e Aiguillons e
  um banco de areia, Heronce; ao sul trs rochedos, Cat-Rock, Perse e
  Roque-Herpin; depois a South Boue e a Boue Mouet, e alm disso em frente de
  Plainmont,  flor da gua, o Tas-de-Pois-d'Aval.

Atravessar a
  nado o estreito de Hanois a Plainmont  coisa incmoda, mas no impossvel. O
  leitor lembra-se de que era essa uma das proezas do Sr. Clubin. O nadador que
  conhece os baixios tem duas estaes em que pode descansar, a Roque redonda, e,
  mais longe, obliquando um pouco  esquerda, a Roque vermelha.

CAPTULO V
OS FURTA-NINHOS

Pouco mais ou
  menos naquele dia de sbado em que o Sr. Clubin esteve em Torteval, deu-se um
  fato singular, pouco assoalhado em princpio e que s transpirou muito depois.
  Como dissemos, h muitas coisas que ficam desconhecidas, mesmo por causa do medo
  que inspiram s suas prprias testemunhas.

Na noite de
  sbado ao domingo (precisamos o dia e cremo-lo exato), trs meninos escalaram o
  rochedo de Plainmont. Voltavam  vila. Vinham do mar. Eram o que, na lngua
  local, chamam deniquoiseaux: leia-se denicheoiseaux (furta-ninhos). Onde quer que haja penhascos na praia e fendas de rochedos acima
  do mar h furta-ninhos em abundncia. J falamos deles. O leitor lembra-se de
  que Gilliatt preocupava-se com isto, por causa dos pssaros e por causa das
  crianas.

Os furta-ninhos
  so espcies de gaiatos do oceano, pouco tmidos.

A noite era
  escura. Espessas superposies de nuvens escondiam o znite. Trs horas da manh
  soavam no sino de Torteval, que  redondo e pontudo, semelhante a um chapu de
  mgico.

Por que
  voltavam to tarde aqueles pequenos? Nada mais simples. Tinham ido  caa dos
  ninhos de cotovias no Tas-de-Pois-d'Aval.

Como a estao
  tinha sido amena, comearam cedo os amores dos pssaros. Os pequenos espreitando
  os machos e as fmeas  roda dos ninhos, e distrados pela tenacidade da empresa
  tinham esquecido as horas. Foram cercados pela mar. No puderam voltar a tempo
  para a canoa e tiveram que esperar que o mar se retirasse, assentados em uma das
  pontas de Tas-de-Pois. Tal foi o motivo da volta noturna. Estas voltas so
  esperadas sempre pela febril inquietao das mes que, uma vez tranqilas,
  manifestam a alegria por meio da clera, e lacrimosas dissipam o terror a
  cachaes. Por isso os pequenos apressavam-se, mas iam assustados.
  Apressavam-se, mas de boa vontade se demorariam, era um certo desejo de no
  chegar nunca. Tinham em perspectiva um beijo complicado de sopapo.

S um dos
  meninos nada receava; era um rfo. Era francs e ia bem contente de no ter
  naquele dia nem pai nem me. No tendo ningum que se interessasse por ele,
  escapava  bordoada. Os outros dois eram guernesianos e da parquia de
  Torteval.

Escaladas as
  rochas, os trs furta-ninhos chegaram  planura onde estava a casa
  mal-assombrada.

Comearam por
  ter medo, dever de todo o viandante, sobretudo crianas, quela hora e naquele
  lugar.

Quiseram fugir
  e quiseram parar a fim de contemplar a casa.

Pararam.

Contemplaram a
  casa.

Era negra e
  formidvel.

Era, naquele
  deserto, um monto escuro, uma excrescncia simtrica e hedionda, uma alta massa
  quadrada de ngulos retilneos, uma coisa semelhante a um enorme altar de
  trevas.

O primeiro
  pensamento dos meninos tinha sido fugir; o segundo foi aproximar-se. Nunca
  tinham visto aquela casa quela hora. A curiosidade de ter medo existe. Havia
  entre eles um francs, donde resultou que os pequenos aproximaram-se da
  casa.

 sabido que os
  franceses no acreditam em coisa alguma.

Demais, quando
  so muitos, todos se tranqilizam; o medo dividido por trs d
  animao.

E depois, eram
  curiosos; eram crianas, somada a idade dos trs no dava trinta anos; era a
  idade de perscrutar, de escavar, esquadrinhar as coisas ocultas; deve-se acaso
  parar no meio? Mete-se a cabea neste buraco, por que no met-la no outro? A
  caa arrasta; andar em uma descoberta  o mesmo que se meter em um moinho. Ter
  olhado para o ninho dos pssaros d vontade de olhar um pouco para o ninho dos
  espectros. Investigar o inferno, por que no?

De caa em
  caa, chega-se ao demnio. Depois dos pardais os diabretes. H vontade de saber
  o que  esse medo inspirado pelos pais. Andar na pista dos contos da carocha  o
  que h mais resvaladio. Saber tanto como as contadeiras de histrias  coisa
  que tenta.

Todo este
  amlgama de idias no estado de confuso e instinto, na cabea dos rapazes, deu
  em resultado a temeridade deles. Caminharam para a casa.

Demais, o
  pequeno que lhes servia de apoio nesta bravura era digno disso. Era um rapaz
  resoluto, aprendiz de calafate, uma dessas crianas que j so homens, dormindo
  no estaleiro em cama de palha, ganhando a vida, tendo uma voz grossa, trepando
  s rvores e s paredes sem escrpulos a respeito das frutas que encontrava,
  tendo trabalhado em consertos de navios de guerra, filho do acaso e do
  bambrrio, rfo alegre, nascido na Frana, sem saber em que ponto, duas razes
  para ser atrevido, dando sem reparar aos pobres, muito mau, muito bom, loiro
  rastejando a ruivo, tendo j falado aos parisienses. Agora ganhava 1 xelim por
  dia calafetando os barcos dos pescadores. Dando-lhe a veneta punha-se em frias
  e ia tirar os ninhos dos pssaros. Tal era o francs.

A solido do
  lugar tinha um no sei qu de fnebre. Sentia-se a inviolabilidade ameaadora.
  Era medonho. Aquela planura silenciosa e nua escondia no precipcio a sua curva
  em declive. Embaixo calava-se o mar. No havia vento. As ervas no se
  mexiam.

Os furta-ninhos
  avanavam devagar, com o francs  frente, contemplando a casa.

Um deles,
  contando depois o fato, ou o pouco que lhe restava na memria, acrescentava: A
  casa no dizia nada.

Aproximavam-se
  retendo a respirao, como quem se aproxima de um animal feroz.

Tinham subido o
  cmoro que fica atrs da casa, e que vai ter a um pequeno istmo de rochedos
  pouco praticvel; estavam perto da casa; mas viam apenas a fachada do sul, que 
  toda murada; no tinham ousado voltar  esquerda, o que os teria exposto a ver a
  outra fachada em que h apenas duas janelas, o que  terrvel. Entretanto
  atreveram-se, porque o aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: Viremos de
  bombordo; daquele lado  que  bonito;  preciso ver as duas janelas
  negras.

Viraram de
  bombordo e chegaram ao outro lado da casa.

As duas janelas
  estavam iluminadas.

Os meninos
  fugiram.

Quando estavam
  longe, voltou-se o francs.

 Olhem  disse
  ele  j no h luz.

Com efeito, no
  havia luz nas janelas. A casa desenhava-se na lividez difusa do cu.

O medo no se
  foi, mas a curiosidade voltou. Os furta-ninhos aproximaram-se.

De repente
  apareceram as luzes outra vez.

Os dois rapazes
  de Torteval tornaram a pr sebo s canelas. O pequeno Satans francs no
  avanou, mas no recuou. Ficou imvel em frente da casa olhando para
  ela.

Extinguiu-se a
  luz, depois brilhou de novo. Nada mais horrvel. O reflexo fazia um vago
  rastilho de fogo na relva mida pelo orvalho. Em certo momento o claro desenhou
  na parede interior da casa grandes perfis negros que se mexiam e sombras de
  cabeas enormes.

Demais a casa
  no tinha teto nem tabiques, e, tendo apenas as quatro paredes e o telhado, uma
  janela no pode ser iluminada sem que a outra o seja.

Vendo que o
  aprendiz de calafate ficava, os outros dois voltaram trmulos, curiosos. O
  aprendiz de calafate disse-lhes baixinho: H almas do outro mundo na casa. Vi o
  nariz de uma delas. Os dois pequenos agruparam-se atrs do francs, e
  levantando-se sobre a ponta dos ps, por cima do ombro, abrigados por ele,
  fazendo dele um escudo, opondo-o  casa, tranqilizados por t-lo entre si e a
  viso, olharam tambm.

A casa a seu
  turno parecia olhar para eles. Tinha, naquela vasta obscuridade muda, duas
  rbitas vermelhas. Eram as janelas. A luz eclipsava-se, reaparecia, eclipsava-se
  ainda, como essas luzes costumam fazer. Estas intermitncias sinistras
  representavam provavelmente as alternativas do inferno. Abre-se, fecha-se. O
  respiradouro do sepulcro tem efeitos de lanterna surda.

De repente uma
  escurido opaca com forma humana levantou-se em uma das janelas, como se viesse
  de fora, depois mergulhou no interior da casa. Parece que algum
  chegava.

Entrar pela
  janela era o hbito dos visitantes.

O claro
  apareceu um momento mais vivo, depois apagou-se e no reapareceu mais. A casa
  tornou-se escura. Ento ouviram-se rumores. Esses rumores pareciam vozes. 
  sempre assim. Quando se v, no se ouve; quando no se v, ouve-se.

O mar tem 
  noite uma taciturnidade particular. O silncio da sombra  a mais profundo que
  em qualquer outra parte. Quando no h nem vento nem marulho, naquela agitada
  extenso de guas, onde de ordinrio no se ouvem as guias voar, ouvir-se-ia
  voar uma mosca. Aquela paz sepulcral dava um relevo lgubre aos rumores que
  saam da casa.

 Vejamos 
  disse o francs.

E deu um passo
  para a casa.

Os outros dois
  tinham tal medo que se decidiram a acompanh-lo. No ousavam fugir ss. Acabavam
  de passar um grande monto de lenha que, sem que o saibamos, os animava naquela
  solido, quando de uma moita voou uma coruja. As corujas tm uns vos tortos, de
  assustadora obliqidade. Aquela passou de travs pelos rapazes, fixando neles os
  olhos claros no meio da treva.

Houve um certo
  estremecimento no grupo atrs do francs.

O francs
  clamou contra a coruja.

 Tarde vens,
  coruja. J no  tempo. Quero ver.

E
  avanou.

O ranger dos
  seus sapatos grossos e ferrados no lhes impedia ouvir os rumores da casa que se
  elevavam e baixavam, com a acentuao calma e a continuidade de um
  dilogo.

Momentos depois
  acrescentou o francs:

 Demais, s os
  tolos podem crer em almas do outro mundo.

A insolncia no
  perigo rene os retardados e impele-os para a frente.

Os dois rapazes
  de Torteval puseram-se a caminho atrs do aprendiz de calafate.

A casa
  mal-assombrada fazia-lhes o efeito de crescer desmesuradamente. Nesta iluso de
  ptica do medo, havia realidade. A casa crescia realmente porque eles
  aproximavam-se dela.

Entretanto, as
  vozes que estavam na casa tornavam-se mais distintas. Os rapazes paravam,
  ouviam. O ouvido tem os seus aumentos. No era murmrio, era mais que um
  cochichar, menos que um alarido. De quando em quando destacava-se uma ou duas
  palavras claramente articuladas. Essas palavras, impossveis de compreender,
  soavam estranhamente. Os rapazes paravam, ouviam e depois continuavam a
  andar.

  a conversa
  das almas do outro mundo, mas eu no creio em almas do outro mundo  disse o
  aprendiz de calafate.

Os pequenos de
  Torteval tinham vontade de esconder-se atrs da lenha; mas j estavam longe, e o
  amigo francs continuava a andar para a casa. Temiam ir com ele, e no ousavam
  deix-lo.

Acompanhavam-no,
  a passo e passo e perplexos.

O aprendiz de
  calafate voltou-se para eles e disse-lhes:

 Bem sabem que
  no  verdade. No existe nenhuma.

A casa
  tornava-se cada vez mais alta.

Aproximavam-se.

Aproximando-se,
  reconheciam que havia na casa uma luz abafada. Era um claro vago, um desses
  efeitos de lanterna surda, indicados h pouco, e que abundam na iluminao das
  feitiarias.

Quando se
  acharam ao p da casa, pararam de todo.

Um dos rapazes
  de Torteval arriscou esta observao:

 No so almas
  do outro mundo, so fantasmas.

 Que  aquilo
  que pende ali  janela?  perguntou o outro.

 Parece uma
  corda.

  uma
  serpente.

  corda de
  enforcado  disse o francs com autoridade.  Serve-lhes. Mas eu no
  creio.

E mais em trs
  pulos que em trs passos o francs estava ao p da parede da casa. Havia febre
  naquele atrevimento.

Os outros,
  trmulos, imitaram-no, e foram colocar-se ao p dele, encostando-se um 
  direita, outro  esquerda. Os rapazes aplicaram o ouvido  parede. Continuava-se
  a falar dentro da casa.

Eis o que
  diziam os fantasmas:

 Assim pois,
  est entendido?


  Entendido.


  Dito?


  Dito.

 Aqui esperar
  um homem e partir depois para a Amrica com Blasquito?


  Pagando?


  Pagando.

 Blasquito
  tomar o homem na barca.

 Sem indagar
  de que terra ele ?

 No temos
  nada com isso.

 Sem lhe
  perguntar o nome?

 No se pede o
  nome, pede-se a bolsa.

 Bem. O homem
  esperar nesta casa.

 Tendo o que
  comer.


  Ter.


  Onde?

 Neste saco
  que trago.

 Muito
  bem.

 Posso deixar
  o saco aqui?

 Os
  contrabandistas no so ladres.

 E os senhores
  quando vo?

 Amanh de
  manh. Se o seu homem est pronto poder vir conosco.

 No est
  pronto.

  l com
  ele.

 Quantos dias
  esperar aqui?

 Dois, trs,
  quatro dias. Mais ou menos.

  certo que
  Blasquito vir?


  Certo.

 Aqui, a
  Plainmont?

 A
  Plainmont.

 Em que
  semana?

 Na
  prxima.

 Em que
  dia?

 Sexta, sbado
  ou domingo.

 No pode
  faltar?

  meu
  tocaio.

 Vir com
  qualquer tempo?

 Qualquer. No
  tem medo. Eu sou Blasco, ele  Blasquito.

 Assim no
  deixar de ir a Guernesey?

 Eu venho num
  ms, ele vir noutro.


  Entendo.

 A contar de
  sbado prximo, de hoje a oito dias no se passaro cinco dias sem que venha
  Blasquito.

 Mas se o mar
  estiver muito mau?

 Mau
  tempo?


  Sim.

 No vir to
  depressa, mas vir.

 Donde
  vir?

 De
  Bilbau.

 Para onde
  ir?

 Para
  Portland.


  Bem.

 Ou para Tor
  Bay.


  Melhor.

 O seu homem
  pode ficar tranqilo.

 Blasquito no
  ser traidor?

 Os covardes
  so traidores. Somos valentes. O mar  a igreja do inverno. A traio  a igreja
  do inferno.

 Ningum nos
  ouve?

  impossvel
  ouvir-nos ou ver-nos. O medo faz isto deserto.


  Sei.

 Quem se
  atreveria a escutar?

 
  verdade.

 Mesmo que
  escutassem no poderiam entender. Falamos uma lngua que ningum conhece. Desde
  que voc a sabe,  dos nossos.

 Eu vim para
  arranjarmos os negcios.


  Bem.

 E agora
  vou-me embora.

 Pois
  sim.

 Diga-me c,
  homem. Se o passageiro quiser que Blasquito v a outro lugar que no Portland ou
  Tor Bay?

 Traga
  onas.

 Blasquito
  far o que o homem quiser?

 Blasquito
  far o que as onas quiserem.

  preciso
  muito tempo para ir a Tor Bay?

 Depende do
  vento.

 Oito
  horas?

 Mais ou
  menos.

 Blasquito
  obedecer ao passageiro?

 Se o mar
  obedecer a Blasquito.

 H de ser bem
  pago.

 Ouro  ouro.
  Vento  vento.

 
  justo.

 O homem faz o
  que pode com o ouro. Deus com o vento faz o que quer.

 O homem que
  quer ir com Blasquito aqui vir sexta-feira.


  Bem.

 A que horas
  chega Blasquito?

  noite.
  Chega-se  noite, sai-se  noite. Temos uma mulher que se chama gua salgada, e
  uma irm que se chama noite. A mulher pode enganar, a irm nunca.

 Est dito
  tudo. Adeus, homens.

 Boas tardes.
  Um gole de aguardente?


  Obrigado.

  melhor que
  xarope.

 Tenho a sua
  palavra.

 O meu nome 
  Pundonor.

 Deus seja
  convosco.

 Se  fidalgo,
  eu sou cavalheiro.

Era claro que
  s diabos podiam falar assim. Os rapazes no ouviram mais, e desta vez fugiram
  deveras, at o francs, que convencido ento corria mais depressa que os
  outros.

Na seguinte
  tera-feira, o Sr. Clubin estava de volta a Saint-Malo trazendo a
  Durande.

O Tamaulipas continuava ancorado.

O Sr. Clubin,
  entre duas baforadas de fumo, perguntou ao dono da Pousada Joo:

 Ento, quando
  sai o Tamaulipas?

 Depois de
  amanh, quinta-feira  respondeu o estalajadeiro.

Nessa noite,
  Clubin ceou  mesa dos guardas das costas, e, contra o costume, saiu logo depois
  de cear. Resultou desta sada que no pde estar presente no escritrio da
  Durande, e faltou ao carregamento. Foi isto reparado por ser ele um homem to
  exato.

Parece que ele
  conversou alguns instantes com o seu amigo cambista.

Voltou duas
  horas depois que Noguette tocou a recolher. O sino brasileiro soa s 10 horas.
  Era, pois, meia-noite.

CAPTULO VI
A JACRESSARDE

H quarenta
  anos Saint-Malo possua uma viela chamada viela Coutanchez. Essa viela j no
  existe: foi compreendida nos melhoramentos da cidade.

Era uma dupla
  fileira de casas de pau inclinadas umas para as outras, e deixando no centro
  lugar suficiente para correr um rego que se chamava rua. Andava-se ali com as
  pernas abertas dos dois lados da gua lamacenta, abalroando com a cabea e o
  cotovelo as casas da direita e da esquerda.

As velhas
  choupanas da Idade Mdia normanda tm perfis quase humanos. De albergue a
  feiticeiro a distncia no  grande. Os andares entrantes, as paredes
  inclinadas, os alpendres circunflexos e o embrenhado de ferros velhos simulam
  lbios, queixos, nariz e sobrancelhas. A trapeira  o olho, zarolho. A face  a
  parede rugosa e herptica. Tocam-se as paredes como se conspirassem uma ao
  inqua. Todos estes nomes da antiga civilizao, quebra-cabeas e quebra-ventas,
  prendem-se quela arquitetura.

Uma das casas
  da viela Coutanchez, a maior, a mais famosa ou a mais afamada, chamava-se a
  Jacressarde.

A Jacressarde
  era a habitao daqueles que no tm habitao.

Em todas as
  cidades, e especialmente nos portos de mar, h, abaixo da populao, um resduo.
  Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, qumicos de espcie larpio,
  pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras
  de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existncias em bancarrota, as
  conscincias que j fizeram balano, os que abortaram no assalto e no
  arrombamento de portas (porque os ladres trabalham por baixo e por cima), os
  operrios e as operrias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrpulos
  rasgados e os cotovelos rotos, os tratantes chegados  indigncia, os malvolos
  mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados,
  os ganha-pouco do crime, os miserveis, na dupla e lamentvel acepo da
  palavra, tal  o pessoal. Ali  bestial a inteligncia humana.  o monto de
  imundcies das almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando em
  quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a
  Jacressarde.

O que se
  encontra nessas espeluncas no so os grandes criminosos, os bandidos, os
  grandes produtos da ignorncia e da indigncia. Se o assassino  representado
  ali,  por algum bbado brutal; ali o roubo no vai alm da ratonice.  antes o
  escarro que o vmito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador no. Todavia no
  h que fiar. Aquele ltimo degrau dos bomios pode ter extremidades malvadas. Um
  dia, lanando a rede no Epi-Sci, que era em Paris o que a Jacressarde  em
  Saint-Malo, a polcia apanhou Lacenaire.

Tudo entra
  naqueles albergues. A queda  um nivelamento. As vezes a honestidade esfarrapada
  escoa-se por ali. A virtude e a probidade tm aventuras. No se deve,  primeira
  vista, estimar os Louvres nem condenar as gals. O respeito pblico e a
  reprovao universal devem ser descascados. Quantas surpresas no se do! Um
  anjo no lupanar, uma prola no monturo  no  impossvel este sombrio e
  deslumbrante achado.

A Jacressarde
  era mais ptio que casa, e mais poo que ptio. No tinha andares para a rua. A
  fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho,
  empurrava-se a porta, entrava-se em um ptio.

No meio desse
  ptio havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nvel do cho.
  Era um poo. O ptio era pequeno, e o poo era grande. Em roda do bocal do poo
  o cho era mal calado.

O ptio,
  quadrado, tinha construes por trs lados. Do lado da rua, nada; mas diante da
  porta,  direita e  esquerda, havia aposentos.

Quem,  noite,
  entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respiraes
  juntas, e se houvesse bastante luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos
  obscuros, eis o que veria:

O ptio. O
  poo. Em roda do ptio, em frente  porta, uma palhoa figurando uma espcie de
  ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com teto de vigas,
  sustentada por pilares de pedra desigualmente espaados; no centro, o poo; 
  roda do poo, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosrio circular,
  viam-se solas de sapato umas direitas, outras acalcanhadas, dedos aparecendo
  pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos nus, ps de homem, ps de mulher,
  ps de criana. Todos esses ps dormiam.

Depois desses
  ps, penetrando o olhar na penumbra da palhoa, distinguiam-se corpos, formas,
  cabeas adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma
  promiscuidade no monturo, um sinistro jazido humano. Era um quarto de dormir
  para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana. Os ps tocavam no poo. Nas noites
  de tempestade, chovia sobre os ps; nas noites de inverno, caa neve sobre os
  corpos.

Quem eram
  aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de noite e saam de manh. A ordem
  social anda misturada com aquelas larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e
  no pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vcios, todas as abjees,
  todas as suposies, todas as misrias, o mesmo sono de prostrao no mesmo
  leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa vizinhana. Fnebre
  entrevista em que se remexiam e se amalgamavam no mesmo miasma os cansaos, os
  desfalecimentos, as borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia
  sem um pedao de po e sem um bom pensamento, as noites lvidas e sonolentas,
  remorsos, cobias, cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez,
  das bocas da treva. A podrido humana fermentava naquela tina. Eram atiradas
  quele albergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na vspera, por
  uma sada de priso, pelo acaso, pela noite. O destino vazava ali, todos os
  dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falava quem ousava.
  Era prprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de
  esquecer-se no sono, visto que no podiam perder-se na sombra. Tiravam  morte
  aquilo que podiam. Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas as noites
  comeava. Donde saam? Da sociedade, porque eram a misria; da vaga, porque eram
  a espuma.

Nem todos
  tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no cho; deitavam-se estafados;
  erguiam-se anquilosados. O poo sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha
  30 ps de profundidade. Caa ali a chuva, escorriam as imundcies, filtravam
  todos os escoamentos do ptio. A caamba para tirar gua ficava a um lado. Quem
  tinha sede bebia. Quem estava aborrecido afogava-se. Do sono do monturo
  passava-se ao sono do poo. Em 1819 tirou-se dali um menino de catorze
  anos.

Para no correr
  risco naquela casa era preciso ser da laia. Os estranhos eram
  malvistos.

Conheciam-se
  acaso entre si aquelas criaturas? No; farejavam-se.

A dona da casa
  era uma mulher moa, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada
  s vezes com gua do poo e tendo uma perna de pau.

Desde madrugada
  esvaziava-se o ptio; iam-se embora os fregueses.

Havia no ptio
  um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O ptio
  era atravessado por um barrote horizontal, colocado sobre postes, figura de
  forca, que no estava ali em terra estranha. Via-se s vezes estendido no
  barrote, no dia seguinte s noites chuvosas, um vestido de seda molhado e
  enlameado, pertencente  mulher da perna de pau.

Acima da
  palhoa e circulando o ptio havia um andar superior e acima do andar um
  celeiro. Subia-se at l por uma escada de madeira podre que furava o teto;
  escada vacilante por onde subia com estrpito a mulher coxa.

Os locatrios
  de arribao, por semana ou por noite, moravam no ptio; os locatrios
  residentes moravam na casa.

Janelas, nem um
  caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras, nem um fogo; era a casa.
  Passava-se de um quarto a outro indiferentemente por um buraco quadrado e
  comprido que fora porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas
  pilastras do tabique. A calia cada cobria o assoalho. No se sabia como aquela
  casa estava em p. O vento no a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta e
  escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como gua em
  esponja. A abundncia das aranhas tranqilizava os moradores contra o
  desmoronamento imediato. Moblia nenhuma. Dois ou trs enxerges nos cantos,
  rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e ali uma bilha e um
  alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro inspido e hediondo.

As janelas
  davam sobre o ptio. De cima o ptio assemelhava-se a um carro de lama. As
  coisas, sem contar os homens que ali apodreciam e enferrujavam-se, eram
  indescritveis. Os destroos fraternizavam: caam paredes, caam criaturas. Os
  trapos semeavam entulhos.

Alm da
  populao flutuante alojada no ptio, a Jacressarde tinha trs inquilinos, um
  carvoeiro, um trapeiro e um fabricante de ouro. O carvoeiro e o trapeiro
  ocupavam dois enxerges no primeiro andar; o fabricante de ouro, qumico, morava
  nas guas-furtadas, que tambm se chamavam sto. No se sabia em que lugar
  dormia a mulher. O fabricante de ouro era um tanto poeta. Habitava debaixo das
  telhas, num quarto em que havia uma trapeira estreita e uma grande chamin de
  pedra, golfo onde ia rugir o vento. A trapeira no tinha caixilhos; o
  fabricante de ouro pregou em cima um pedao de ferro em folha, proveniente de um
  rasgo de navio. A folha deixava passar pouca luz e muito frio. O carvoeiro
  pagava a casa com um saco de carvo de quando em quando; o trapeiro pagava com
  um cestrio de gros para as galinhas, cada semana; o fabricante de ouro no
  pagava nada. Entretanto, ia queimando a casa. J tinha arrancado a pouca
  madeira, e a cada instante tirava da parede, ou do teto, uma ripa para aquecer a
  caldeira do ouro. No tabique acima do grabato do trapeiro viam-se em duas
  colunas algarismos feitos com greda, escritos pelo trapeiro todas as semanas,
  uma coluna de trs e uma coluna de cinco, conforme o cestrio de gro custasse 3
  liardes ou 5 cntimos. A caldeira do qumico era uma velha bomba quebrada
  promovida por ele ao cargo de caldeira, e que lhe servia para combinar os
  ingredientes. A transmutao absorvia-o. Algumas vezes falava nisso aos
  maltrapilhos do ptio, que deitavam a rir. Dizia ele: Aquela gente est cheia
  de preconceitos. Estava resolvido a no morrer sem atirar a pedra filosofal s
  vidraas da cincia. O forno com que trabalhava comia muita lenha. J o patamar
  da escada tinha desaparecido. Ia-se toda a casa paulatinamente. Dizia a
  hoteleira: Neste andar s me fica o casco. O qumico abrandava-lhe a clera
  fazendo-lhe versos.

Tal era a
  Jacressarde.

O criado da
  casa era um menino, talvez ano, contando doze anos ou sessenta de idade, cheio
  de borbulhas, e trazendo sempre uma vassoura na mo.

Os
  freqentadores entravam pela porta do ptio; o pblico entrava pela porta da
  loja. O que era a loja?

A alta parede
  que dava para a rua tinha  direita da entrada do ptio uma abertura feita em
  esquadria, que era a um tempo porta e janela, tendo postigo e caixilhos; o
  postigo era o nico da casa que tinha eixos e fechaduras, o caixilho era o nico
  que tinha vidros. Por trs da janela que abria sobre a rua havia um pequeno
  quarto que tomava uma parte do telheiro de dormir. Lia-se na porta da rua este
  dstico feito com carvo: Aqui encontram-se as curiosidades. A palavra j
  corria mundo. Sobre trs tbuas que fingiam prateleiras colocadas por trs de
  vidraas, viam-se alguns potes de porcelana falsa, sem asa, um chapu de sol
  chins feito de pergaminho delgado, ornado de figuras, furado em diversos
  pontos, impossvel de abrir e fechar, cadinhos de ferro, loua informe, chapus
  de homem e mulher estragados, trs ou quatro conchas, alguns embrulhos de botes
  de osso e de cobre j velhos, uma boceta com o retrato de Maria Antonieta, e um
  volume truncado da lgebra de Boisbertrand.

Tal era a loja.
  Aquele sortimento era a curiosidade. A loja comunicava por uma porta do fundo
  com o ptio onde estava o poo. Tinha uma mesa e um escabelo. A mulher da perna
  de pau era a moa do balco.

CAPTULO VII
COMPRADORES NOTURNOS E VENDEDOR
  TENEBROSO

Clubin no foi
   Pousada Joo, nem na noite de tera-feira, nem na noite de
  quarta-feira.

Nesta noite, ao
  escurecer, dois homens entraram pela viela Coutanchez; pararam diante da
  Jacressarde. Um deles bateu na vidraa. Abriu-se a porta da loja. Entraram
  ambos. A mulher da perna de pau deu-lhes o sorriso reservado aos burgueses.
  Havia uma vela sobre uma mesa.

Os dois homens
  eram efetivamente burgueses.

O homem que
  tinha batido na vidraa disse:

 Boa noite,
  mulher. Venho por aquilo.

A mulher da
  perna de pau sorriu segunda vez e saiu pela porta que dava para o ptio. Minutos
  depois abriu-se de novo a porta, e apareceu um homem pela fresta, trazendo bon
  e blusa, debaixo da qual havia um objeto volumoso. Tinha uns fios de palha nas
  dobras da blusa e pelos olhos via-se que acabava de acordar.

O homem
  avanou. Olharam-se todos. O homem da blusa tinha um ar turvado e
  esperto.

 O senhor  o
  armeiro?  disse ele.

O homem que
  tinha batido respondeu:

 Sim. O senhor
   o Parisiense?

 Chamado
  Peaurouge. Sim.

 Deixe
  ver.

 Aqui
  est.

O homem tirou
  debaixo da blusa um instrumento muito raro na Europa naquela poca, um
  revlver.

O revlver era
  novo e brilhante. Os dois burgueses examinaram-no. O que pareceu conhecer a casa
  e a quem o homem da blusa chamou armeiro fez mover o mecanismo. Entregou depois
  a arma ao outro burgus, que parecia no ser morador na cidade, e que se
  conservava com as costas voltadas para a luz.

O armeiro
  perguntou:

 Quanto
  custa?

O homem da
  blusa respondeu:

 Venho da
  Amrica. H pessoas que trazem macacos, papagaios, animais, como se os franceses
  fossem selvagens. Eu trouxe isto.  uma inveno til.

 Quanto custa?
   perguntou de novo o armeiro.

  uma pistola
  que faz molinete.

 Quanto
  custa?

 Paf. Primeiro
  tiro. Paf. Segundo tiro. Paf...  uma saraivada! Isto faz obra.

 Quanto
  custa?

 Tem seis
  canos.

 Mas quanto
  custa?

 Seis canos
  so 6 luses.

 Quer 5
  luses?

 Impossvel.
  Um lus por cada bala.  o preo.

 Quer fazer
  negcio, seja razovel.

 J disse o
  preo. Examine-me esta obra, senhor arcabuzeiro.

 J
  examinei.

 O molinete
  anda de roda como o Sr. Talleyrand. Podiam pr este molinete no dicionrio das
  ventoinhas.  uma jia.

 J
  vi.

 Os canos so
  de fbrica espanhola.

 J
  reparei.

 So lavrados.
  A coisa arranja-se assim. Deita-se na forja uma alcofa de ferros velhos, cravos,
  ferraduras quebradas...

 E velhas
  lminas de foices.

 Ia diz-lo,
  senhor armeiro. Depois deita-se em cima uma boa poro de fogo, e sai disto tudo
  um magnfico instrumento de ferro.

 Sim, mas pode
  ter gretas e buraquinhos; pode sair esconso.

 Sim. Mas tudo
  se arranja.

 O senhor  do
  ofcio?

 Tenho todos
  os ofcios.

 Os canos so
  brancos.

  beleza,
  senhor armeiro. Faz-se isto com borra de antimnio.

 Dizamos ns
  que isto custa 5 luses.

 Tomo a
  liberdade de observar que eu tive a honra de dizer 6 luses.

O armeiro
  abaixou a voz.

 Oua,
  Parisiense. Aproveite a ocasio. Desfaa-se disto. Isto para vocs no vale
  nada. Chama a ateno.

 Na verdade 
  disse Parisiense ,  um tanto vistoso.  melhor para um burgus.

 Quer 5
  luses?

 No, 6. Um
  por cada buraco.

 Pois bem, 6
  napolees.

 Quero 6
  luses.

 No 
  bonapartista. Prefere um lus a um napoleo?

Parisiense
  sorriu.

 Napoleo 
  melhor  disse ele , mas lus vale mais.

 Seis
  napolees.

 Seis luses.
   para mim uma diferena de 80 francos.

 Ento no
  fazemos nada.

 Pois sim.
  Guardo o revlver.


  Guarde.

 Abater o
  preo! pois no! no se dir que eu me desfiz sem mais nem menos de uma inveno
  destas!

 Ento, boa
  noite.

  um
  progresso sobre a pistola, que os ndios chesapeakes chamam
  Nortay-u-Hoh.

 Cinco luses
   vista,  ouro.

 Nortay-u-Hoh
  quer dizer espingarda pequena. Muitas pessoas ignoram isto.

 Quer 5 luses
  e mais 1 escudo?

 Eu j disse
  que custa 6.

O homem que
  estava de costas para a luz, e que ainda no tinha falado, fazia mover o
  mecanismo. Aproximou-se do armeiro e disse-lhe ao ouvido:

 A arma 
  boa?


  Excelente.

 Eu dou os 6
  luses.

Cinco minutos
  depois, enquanto Parisiense apertava em um buraco feito na manga da blusa os 6
  luses de ouro que acabava de receber, o armeiro e o comprador, levando no bolso
  da cala o revlver, saram da viela Coutanchez.

CAPTULO VIII
CARAMBOLA DA BOLA VERMELHA E DA
  BOLA PRETA

No dia
  seguinte, que era quinta-feira, a pouca distncia de Saint-Malo, perto da ponta
  do Decoll, num lugar em que as rochas das praias so altas, e o mar profundo,
  passou-se uma coisa trgica.

Nada mais
  freqente na arquitetura do mar que uma lngua de rochedos em forma de lana,
  que se prende  terra por um istmo estreito, prolonga-se na gua e acaba-se a
  bruscamente em forma de rochedo a pique. Para chegar ao alto desse rochedo, indo
  da praia, segue-se um plano inclinado cuja subida  s vezes assaz
  difcil.

No alto de um
  rochedo desse gnero, achava-se em p, pelas 4 horas da tarde, um homem
  embrulhado em uma larga capa de uniforme, e provavelmente armado, o que era
  fcil de reconhecer por certas dobras retas e angulosas do manto. O stio em que
  estava esse homem era uma plataforma assaz vasta semeada de cubos  semelhana
  de seixos imensos, deixando entre si estreita passagem. Esta plataforma onde
  brotava uma ervazinha estreita e curta terminava do lado do mar por um espao
  livre, que ia dar a um despenhadeiro, de uns 60 ps de altura, acima do mar, e
  parecia talhado com um prumo. Entretanto, o ngulo da esquerda ia-se arruinando
  e oferecia uma dessas escadas naturais prprias aos granitos marinhos, cujos
  degraus pouco cmodos exigem s vezes pernas de gigante ou pulos de clowns.
  Descia perpendicularmente ao mar e mergulhava nas guas. Era um quebra-costas.
  Podia-se, contudo, a rigor, ir por ali embarcar na muralha da lngua de
  rochas.

Soprava uma
  brisa. O homem, apertado na capa, firme nas pernas, com o cotovelo direito na
  mo esquerda, piscava um olho e aplicava ao outro um culo. Parecia absorto em
  uma ateno sria. Aproximou-se da borda do rochedo, e ali estava imvel com o
  olhar imperturbavelmente fito no horizonte. A mar estava cheia. A vaga batia
  por baixo dele no sop do rochedo.

O que o homem
  observava era um navio ao largo que fazia manobras singulares.

Esse navio, que
  apenas uma hora antes sara de Saint-Malo, tinha parado por trs dos
  Banquetiers. Era uma galera. No tinha deitado ncora, talvez porque o fundo no
  lho permitisse, e porque o navio teria prendido a ncora debaixo do gurups.
  Limitou-se a pr-se  capa.

O homem, que
  era guarda-costa, como o uniforme indicava, espiava todas as manobras do navio e
  parecia tomar nota mentalmente. O navio tinha atravessado: era o que indicava a
  vela r alada a barlavento, e as de proa largas por mo; tinha braceado o pano
  de r o mais que lhe foi possvel, de forma que neutralizava a fora dos de
  proa. Deste modo, caindo a sotavento, no perdia mais de milha e meia por
  hora.

O dia ainda
  estava claro, sobretudo em pleno mar e no alto das rochas. Mas ao p das costas
  comeava a escurecer.

O guarda-costa,
  entregue ao seu trabalho, e espionando conscienciosamente ao largo, no tinha
  pensado em examinar o rochedo ao lado e embaixo. Dava as costas para a escada
  pouco praticvel que punha em comunicao a plataforma com o mar. No reparou
  que alguma coisa andava ali em movimento. Havia nessa escada, por trs da
  anfratuosidade, alguma pessoa, um homem escondido ali, segundo parecia, antes da
  chegada do guarda-costa. De tempos a tempos na sombra, aparecia uma cabea por
  baixo da rocha, olhava para cima e espiava o espio. Essa cabea coberta por um
  largo chapu americano era a cabea do quaker, que uns dez dias antes
  falara nas pedras do Petit Bey ao Capito Zuela.

De repente
  pareceu redobrar a ateno do guarda-costa.

Limpou
  rapidamente com a manga o vidro do culo e firmou-o com energia sobre o
  navio.

Destacara-se um
  ponto negro.

O ponto negro,
  semelhante a uma formiga no mar, era uma barcaa. A barcaa parecia querer
  ganhar a terra. Era tripulada por alguns marinheiros que remavam
  vigorosamente.

J obliquava a
  pouco e pouco e dirigia-se para a ponta do Decoll.

A espreita do
  guarda-costa chegou ao seu maior grau de fixidez. Ele no perdia nenhum dos
  movimentos da barcaa. Aproximou-se mais ainda da borda do rochedo.

Neste momento
  um homem de alta estatura, o quaker, surgiu por trs do guarda-costa, no
  alto da escada. O espio no viu o quaker.

Parou este
  alguns instantes, com os braos cados e os punhos crispados, e, com o olhar do
  caador que aponta, olhou para as costas do espio.

Quatro passos
  apenas o separavam do guarda-costa; adiantou um p, depois parou; deu outro
  passo e parou outra vez; o nico movimento que fazia era andar, o resto do corpo
  era esttua; o p firmava-se na relva sem rumor; deu terceiro passo e parou;
  estava quase tocando o guarda-costa, sempre imvel, com o culo fixo. O homem
  ajuntou as duas mos fechadas na altura das suas clavculas, depois,
  bruscamente, abateram-se os antebraos, e os dois punhos, como que soltos por
  uma mola, bateram nos ombros do guarda-costa. O choque foi sinistro. O
  guarda-costa nem teve tempo de soltar um ai. Caiu de cabea no mar. Viram-se-lhe
  os ps durante o tempo de um relmpago. Foi uma pedra na gua. A gua cerrou-se
  depois, descrevendo dois ou trs grandes crculos.

Ficou apenas o
  culo escapo s mos do guarda-costa e cado no cho. O quaker inclinou-se  borda das rochas, viu acalmar-se a gua, esperou alguns minutos,
  depois endireitou-se, cantando entre os dentes:

Monsieur de a
  police est mort
En perdant a
  vie.

Inclinou-se
  outra vez. Nada reapareceu. Somente no lugar onde o guarda-costa tinha cado,
  formou-se na superfcie da gua uma espcie de espessura negra, que se alargava
  no movimento da vaga. Era provvel que o guarda-costa tivesse quebrado o crnio
  em alguma rocha submarina. O sangue subira e fazia aquela mancha na
  espuma.

O quaker, contemplando aquela mancha, continuou:

Un quart
  d'heure avant sa mort,
Il tait
  encore...

No
  acabou.

Ouviu atrs de
  si uma voz doce que lhe dizia:

 Ora viva,
  Rantaine. Acaba o senhor de matar um homem. Ele voltou-se, e viu a quinze
  passos, no intervalo de dois rochedos, um homem baixo que tinha um revlver na
  mo.

Respondeu:

 Como v. Bom
  dia, Sr. Clubin.

O homem baixo
  estremeceu.


  Reconheceu-me?

 No me
  reconheceu o senhor?  disse Rantaine.

Entretanto,
  ouviu-se um rumor de remos no mar. Era a barcaa observada pelo guarda-costa que
  se aproximava.

O Sr. Clubin
  disse a meia-voz como se falasse consigo:

 A coisa foi
  rpida.

 Em que
  precisa de mim?  perguntou Rantaine.

 Pouca coisa.
  H quase dez anos que nos no vemos. O senhor h de ter feito bons negcios.
  Como est de sade?

 Bem  disse
  Rantaine.  E o senhor?

 Perfeitamente
   respondeu Clubin.

Rantaine deu um
  passo para o Sr. Clubin.

Um pequeno som
  chegou aos seus ouvidos. Era o Sr. Clubin que armava o revlver.

 Rantaine,
  estamos a quinze passos.  uma boa distncia. Fique onde est.

 Ah! Mas o que
  quer o senhor de mim?

 Venho
  conversar.

Rantaine no se
  mexeu. O Sr. Clubin continuou:

 O senhor
  matou agora mesmo um guarda-costa.

Rantaine
  levantou a aba do chapu e respondeu:

 J me fez a
  honra de diz-lo.

 Em termos
  menos precisos. Disse h pouco: um homem; agora digo: um guarda-costa. O
  guarda-costa tinha o nmero 619. Era um pai de famlia. Deixa mulher e cinco
  filhos.

 Deve ser
  assim  disse Rantaine. Houve um imperceptvel tempo de silncio.

 So homens
  escolhidos esses guarda-costas  disse Clubin. Quase todos antigos
  martimos.

 Notei que em
  geral deixam mulher e cinco filhos.

Clubin
  continuou:

 Adivinhe
  quanto me custou este revlver.

  um lindo
  instrumento  respondeu Rantaine.

 Quanto
  vale?

 Vale
  muito.

 Custou-me 144
  francos.

 Comprou
  naturalmente na loja de armas da Rua Coutanchez.

Clubin
  continuou.

 O
  guarda-costa nem gritou. A queda corta a voz.

 Sr. Clubin,
  h de ventar esta noite.

 Eu sou o
  nico que sei do segredo.

 Continua a
  morar na Pousada Joo?

 Sim. Vive-se
  bem ali.

 J l comi
  muito boa couve fermentada.

 Rantaine, o
  senhor deve ser excessivamente forte. Tem cada espdua! No seria eu quem lhe
  levaria um piparote. Era to raqutico quando vim ao mundo, que nem se sabia se
  me poderiam criar.

 Felizmente
  criou-se.

 Sim, e
  continuo a morar na Pousada Joo.

 Sabe por que
  motivo eu o reconheci, Sr. Clubin? Porque o senhor me tinha reconhecido. Disse
  comigo: s Clubin pode reconhecer-me. E adiantou um passo.

 Fique onde
  estava, Rantaine. Rantaine recuou e disse  parte:

 A gente
  torna-se criana diante destes instrumentos.

O Sr. Clubin
  continuou.

 Situao.
  Temos aqui  direita, do lado de Saint-Enogat, a trezentos passos, outro
  guarda-costa, nmero 618, que est vivo, e  esquerda, do lado de Saint-Lunaire,
  um posto de alfndega. Sete homens armados que podem estar aqui dentro de cinco
  minutos. O rochedo ficar cercado. O desfiladeiro ficar guardado. Impossvel
  fugir. H um cadver ao p da rocha.

Rantaine deitou
  um olhar oblquo ao revlver.

 Como diz,
  Rantaine.  um lindo instrumento. Talvez esteja carregado com plvora seca. Mas
  que importa? Basta um tiro para fazer correr a fora armada. Tenho seis
  tiros.

O choque
  alternativo dos remos tornava-se mais distinto. A barcaa no estava
  longe.

O homem alto
  olhava estranhamente para o homem baixo. O Sr. Clubin falava com um ar cada vez
  mais tranqilo e doce.

 Rantaine, os
  homens da barcaa que vai chegar, sabendo o que fez h pouco, ajudar-me-iam a
  prend-lo. O senhor paga 10.000 francos de passagem ao Capito Zuela. Entre
  parnteses, a passagem ficaria mais barata se tratasse com os contrabandistas de
  Plainmont, mas estes s o levariam para Inglaterra, e demais o senhor no pode
  arriscar-se a ir a Guernesey, onde h quem tenha a honra de conhec-lo. Volto 
  situao. Se eu disparar, prendem-no. Nesse caso pagar a Zuela 10.000 francos
  de fuga. J lhe deu 5.000 francos; Zuela guardar esses 5.000 francos e vai-se
  embora.  isto, Rantaine, acho-o bem rebuado. Esse chapu, esse casaco e essas
  polainas disfaram-no. Esqueceram-lhe os culos. Fez bem em deixar crescer as
  suas.

Rantaine sorriu
  como quem range os dentes. Clubin continuou:

 Rantaine, o
  senhor tem uma cala americana com duas algibeiras. Numa delas tem o seu
  relgio. Guarde-o.

 Obrigado, Sr.
  Clubin.

 Na outra h
  uma caixinha de ferro batido, que abre e fecha por molas.  uma velha boceta de
  marinheiro. Tire-a do bolso e atire-a para c.

 Mas isto  um
  roubo!

 Pode chamar a
  guarda.

E Clubin fixou
  os olhos em Rantaine.

 Olhe, Mess
  Clubin...  disse Rantaine dando um passo e estendendo a mo aberta.

Mess era
  uma lisonja.

 Fique onde
  est, Rantaine.

 Mess Clubin,
  arranjemos as coisas. Ofereo-lhe metade.

Clubin executou
  um cruzar de braos, mostrando a boca do revlver.

 Rantaine, que
  pensa que eu sou? Sou um homem honrado. E acrescentou, depois de uma
  pausa:

 Quero
  tudo.

Rantaine disse
  entre dentes:

  temvel
  este.

Entretanto,
  acenderam-se os olhos de Clubin. A voz tornou-se cortante como o ao. Disse
  ele:

 Creio que se
  engana. O seu nome  que  Roubo, o meu  Restituio. Oua, Rantaine. H dez
  anos saiu o senhor de Guernesey  noite, tomando da caixa de uma sociedade
  50.000 francos que lhe pertenciam e esquecendo de l deixar 50.000 francos que
  pertenciam a outro. Esses 50.000 francos roubados ao seu scio, o excelente e
  digno Mess Lethierry, fazem hoje, com os juros acumulados de dez anos, 80.666
  francos e 66 cntimos. O senhor entrou ontem na casa de um cambista. Reluchet
  chama-se ele, Rua de So Vicente. Deu-lhe 76.000 francos em bilhetes de banco
  franceses e em troca deu-lhe ele trs bank-notes da Inglaterra de 1.000
  libras esterlinas cada uma, e mais uns trocos. O senhor ps essas bank-notes na boceta de ferro e a boceta de ferro na algibeira direita.
  As 3.000 libras esterlinas fazem 75.000 francos. Em nome de Mess Lethierry
  contento-me com isso. Parto amanh para Guernesey, e vou levar-lhos. Rantaine, a
  galera que ali est  capa  o Tamaulipas. O senhor embarcou ali esta
  noite as malas misturadas com os sacos e canastras da equipagem. Quer sair da
  Frana. Tem suas razes para isso. Vai a Arequipa. A barcaa vem busc-lo. Est
   espera dela. Ela a vem. J a estamos ouvindo. Depende de mim deix-lo partir
  ou obrig-lo a ficar. Basta de palavras. Atire c a boceta de ferro.

Rantaine abriu
  a bolsa, tirou uma caixinha de ferro e atirou-a a Clubin. A caixinha foi rolar
  aos ps de Clubin.

Clubin
  inclinou-se sem abaixar a cabea, e apanhou a boceta, tendo dirigidos contra
  Rantaine os dois olhos e os seis canos do revlver.

Depois
  disse:

 Meu amigo,
  volte as costas.

Rantaine voltou
  as costas.

O Sr. Clubin
  ps o revlver debaixo do brao e apertou a mola da caixinha. A caixinha
  abriu-se.

Havia dentro
  quatro bank-notes, trs de 1.000 libras, e uma de 10 libras.

Clubin dobrou
  as trs notas de 1.000 libras, p-las outra vez na caixinha, fechou-a e meteu-a
  no bolso.

Depois apanhou
  no cho uma pedra. Embrulhou a pedra no bilhete de 10 libras e disse:

 Volte para
  c.

Rantaine
  voltou-se.

O Sr. Clubin
  continuou:

 Disse-lhe que
  me contentava com as 3.000 libras. Aqui vo as 10 libras.

E atirou a
  Rantaine o bilhete e mais o lastro de pedra.

Rantaine, com
  um pontap, deitou o bilhete e a pedra ao mar.

 Como queira 
  disse Clubin.  Vamos l, o senhor h de estar rico. Estou tranqilo.

O rumor dos
  remos que se tinha aproximado durante o dilogo cessou. Indicava isto que a
  barcaa estava ao p das rochas.

 Est embaixo
  o seu carro. Pode ir, Rantaine.

Rantaine
  dirigia-se para a escada e desceu.

Clubin foi com
  precauo at a borda do rochedo e adiantando a cabea, viu descer
  Rantaine.

A barcaa tinha
  parado ao p do ltimo degrau do rochedo, no mesmo lugar em que tinha cado o
  guarda-costa.

Vendo descer
  Rantaine, Clubin murmurou:

 Bom nmero
  619! Pensava que estava s. Rantaine pensava que eram apenas dois. S eu sabia
  que ramos trs.

Clubin viu no
  cho o culo do guarda-costa; apanhou-o.

Comeou o rudo
  dos remos. Rantaine acabou de pular na barcaa e esta tomava o largo.

Quando Rantaine
  achou-se na barca, indo-se j afastando dos rochedos, levantou-se bruscamente, a
  face tornou-se-lhe monstruosa; mostrou o punho e gritou:

 Ah! o prprio
  diabo  um canalha!

Instantes
  depois, Clubin do alto das rochas e fixando o culo na barcaa, ouviu
  distintamente estas palavras, articuladas por uma voz grossa, no meio do rumor
  do mar:

 O Sr. Clubin
   um homem honrado, mas consinta que eu escreva a Lethierry para participar-lhe
  o fato, e aqui vai nesta barcaa um marinheiro de Guernesey que  da equipagem
  do Tamaulipas, que se chama Ahier-Tortevin, e que h de voltar a
  Saint-Malo, na prxima viagem de Zuela e que ser testemunha de que eu lhe
  entreguei para Mess Lethierry a soma de 3.000 libras esterlinas.

Era a voz de
  Rantaine.

Clubin era o
  homem das coisas bem-feitas. Imvel como estivera o guarda-costa, e no mesmo
  lugar, com o culo no olho, no perdeu de vista a barcaa. Viu diminurem-se os
  remos, desaparecer, reaparecer, aproximar-se a barcaa do navio; e pde
  reconhecer a alta corpulncia de Rantaine no tombadilho do Tamaulipas.

Quando a
  barcaa foi iada, o Tamaulipas entrou a preparar-se. A brisa soprava de
  terra, o navio abriu as velas todas, o culo de Clubin continuava fixo no
  lineamento cada vez mais simplificado e, meia hora depois, o Tamaulipas era apenas um ponto negro que ia a diminuir-se, a diminuir-se, a diminuir-se no
  cu amarelo do crepsculo.

CAPTULO IX
INFORMAO TIL S PESSOAS QUE
  ESPERAM OU RECEIAM CARTAS DE ALM-MAR

Nessa noite, o Sr. Clubin
  recolheu-se tarde.

Uma das causas da sua demora  que
  antes de recolher-se foi ele at a porta Dinan, onde havia tavernas. Tinha
  comprado em uma dessas tavernas, onde no era conhecido, uma garrafa de
  aguardente que ps em uma larga algibeira da japona como se quisesse escond-la;
  depois, devendo a Durande sair no dia seguinte de manh, foi a bordo para ver se
  tudo estava em ordem.

Quando o Sr. Clubin entrou na
  Pousada Joo, j no havia na sala baixa seno o velho capito de longo curso,
  Gertrais-Gaboureau, bebendo e fumando cachimbo.

O Capito Gertrais-Gaboureau
  cumprimentou o Sr. Clubin entre um gole e uma baforada.

 Goodbye,
  Capito Clubin.

 Boa noite,
  Capito Gertrais.

 Com que
  ento, l se foi o Tamaulipas.

 Ah! 
  disse Clubin , no reparei.

O Capito Gertrais-Gaboureau
  cuspiu e disse:

 Raspou-se
  o Zuela.

 Quando?

 Esta
  noite.

 Aonde
  vai?

 Vai ao
  diabo.

 Sim, mas
  aonde?

 A
  Arequipa.

 No sabia
   disse Clubin.

Acrescentou:

 Vou
  dormir.

Acendeu a vela, caminhou para a
  porta e voltou.

 J foi a
  Arequipa, Capito Gertrais?

 Sim. H
  anos.

 Onde se
  costuma a arribar?

 Em
  diversos portos. Mas o Tamaulipas no arribar em parte alguma. O Sr.
  Gertrais-Gaboureau deitou na borda de um prato a cinza do cachimbo e
  continuou:

 Conhece o Cheval-de-Troie e o Trentemousin, que foram a Cardiff. No opinei
  a favor da partida por causa do tempo. Voltaram em belo estado. Cheval-de-Troie levava terebintina e abriu gua, e fazendo trabalhar as
  bombas perdeu no meio da gua todo o carregamento. Quanto ao Trentemousin, ficou bem estragado; quebrou-se-lhe o cepo da ncora, o
  botals, ovns; no sofreu o mastro de mezena, mas teve um forte abalo. Caiu o
  ferro do gurups, que alis no s ficou machucado, mas completamente nu. Veja o
  que resulta de no ouvir conselhos.

Clubin tinha posto a vela na mesa,
  e ps-se a pregar de novo uma poro de alfinetes que tinha na
  japona.

Disse:

 No dizia,
  capito, que o Tamaulipas no arriba em porto algum?

 No. Vai
  direito ao Chile.

 Neste caso
  no pode mandar notcia alguma em caminho.

 Perdo,
  Capito Clubin. Primeiramente pode entregar despachos a todos os navios que
  encontrar em caminho para a Europa.

 
  justo.

 Depois,
  tem a caixa de cartas do mar.

A que chama o senhor caixa de
  cartas do mar?

 No sabe,
  Capito Clubin?

 No.

  quando
  se passa pelo estreito de Magalhes.

 Que h
  ento?

 Neva em
  toda a parte, temporal sempre, ruins ventos, mar de trezentos diabos.

 Depois?

 Quando se
  dobra o cabo Monmouth.

 Bem.
  Depois?

 Depois,
  dobra-se o cabo Valentin.

 E
  depois?

 Depois
  dobra-se o cabo Isidoro.

 E
  depois?

 Dobra-se a
  ponta Ana.

 Bem. Mas o
  que  que chama caixa das cartas do mar?

 Chegamos 
  caixa. Montanhas  direita, montanhas  esquerda. De todos os lados aves
  marinhas. Terrvel stio! Ah! com um milho de diabos! que chusma e que
  matinada! A borrasca ali no precisa de auxlio. Toca a vigiar a cinta da popa!
  toca a diminuir as velas! Da vela grande passava ao joanete! Lufada sobre
  lufada! Quatro, cinco, seis dias de capa. Quantas vezes de um velame novinho em
  folha no nos fica seno o fio. Que dana! furaces capazes de fazer saltar uma
  galera como fosse uma pulga. J vi num brigue ingls, o True Blue, um
  grumete ocupado com o pau da giba ser levado por um milheiro de ventos, com pau
  e tudo. Anda-se no ar como borboletas! Vi o contramestre da Revenue ser
  arrancado do navio e morrer: A cinta do meu navio quebrou-se, e todas as peas
  de madeira do convs ficaram despedaadas. A gente sai dali com as velas
  comidas, at fragatas de cinqenta fazem gua como se fossem cestos. E a
  endiabrada costa!  o que h de mais danado. Rochedos retalhados como por
  criancice. Aproxima-se a gente de Porto Fome. A  pior que pior. So as lminas
  mais agudas que tenho visto. Paragens do inferno. De repente vem-se estas duas
  palavras escritas com tinta vermelha: Post-Office.

 Que quer
  dizer, Capito Gertrais?

 Quero
  dizer, Capito Clubin, que logo depois de dobrar o cabo Ana v-se em uma pedra
  de 100 ps de altura um grande pau.  um poste com uma barrica no alto. Essa
  barrica  a caixa das cartas. Os ingleses escreveram em cima: Post-Office. Por que se meteram eles nisto? Aquilo  o correio do oceano;
  no pertence a esse honrado gentleman, o rei da Inglaterra. A caixa das
  cartas  comum. Pertence a todas as bandeiras. PostOffice, h nada mais
  chins! Parece uma xcara de ch que o diabo oferece em pleno oceano. Eis como
  se faz o servio. Todos os navios que passam expedem ao poste um escaler com os
  seus despachos. O navio que vem do Atlntico envia cartas para a Europa, e o
  navio que vem do Pacfico manda cartas para a Amrica. O oficial que comanda o
  escaler pe na barrica o mao de cartas e tira o mao que l encontra. Toma-se
  conta dessas  espera que o prximo navio tome conta das cartas que se deixam.
  Como se navega em sentido contrrio, o continente donde o senhor vem  aquele
  para onde eu vou. Levo as suas cartas, o senhor leva as minhas. A barrica est
  presa ao poste por uma corrente de ferro. E chove! E neva! Mar dos diabos! O Tamaulipas ficar a. A barrica tem uma tampa mas sem fechadura nem
  cadeado. Bem v que se pode escrever aos amigos. As cartas chegam ao seu
  destino.

 
  esquisito  murmurou Clubin, pensativo.

O Capito Gertrais-Gaboureau
  voltou-se para a bebida.

 Suponhamos
  que o brejeiro do Zuela me escreva, meta as suas garatujas na barrica de
  Magalhes, e dentro de quatro meses tenho as cartas do patife. Diga-me l,
  Capito Clubin, sai amanh?

Clubin, absorto em uma espcie de
  sonambulismo, no ouviu. O Capito Gertrais repetiu a pergunta.

Clubin despertou.

 Sem
  dvida, Capito Gertrais.  o dia marcado. Devo sair amanh de manh.

 Pois olhe,
  eu no saa. Capito Clubin, os ces tm o plo molhado. As aves marinhas andam
  h duas noites  roda do farol. Mau sinal. Tenho um storm-glass que faz
  das suas. Estamos no segundo quarto da lua;  o mximo da umidade. Vi h pouco
  pimpinelas que fechavam as folhas e um campo de trevo cujas hastes estavam
  retesadas. Os vermes saem do cho, as moscas mordem, as abelhas no se afastam
  dos cortios, os pardais consultam-se. Ouve-se o som dos sinos de longe. Eu ouvi
  hoje o sino de Saint-Lunaire dar ave-marias. E ao pr-do-sol havia muitas nuvens
  no horizonte. Amanh h de haver grande nevoeiro. No lhe digo que parta. Receio
  mais o nevoeiro que o furaco. Grande sonso o nevoeiro.

LIVRO SEXTO
O TIMONEIRO BRIO E O CAPITO
  SBRIO

CAPTULO PRIMEIRO
OS ROCHEDOS
  DOUVRES

Cerca de 5 lguas, em pleno mar,
  ao sul de Guernesey, em face da ponta de Plainmont, entre as ilhas da Mancha e
  Saint-Malo, h um grupo de cabeos chamados rochedos Douvres. Funesto lugar
  esse.

Esta denominao Douvre (Dover)
  pertence a muitos cachopos e rochedos. H especialmente perto das costas do
  norte uma rocha Douvre na qual se constri agora mesmo um farol, escolho
  perigoso, mas que no deve ser confundido com este.

O ponto da Frana mais prximo do
  rochedo Douvres  o cabo Brehant. O rochedo Douvres  um pouco mais longe da
  costa da Frana que a primeira ilha do arquiplago normando. A distncia desse
  escolho a Jersey mede-se pouco mais ou menos pela grande diagonal de Jersey. Se
  a ilha de Jersey se voltasse sobre a Corbire como sobre um eixo, a ponta de
  Santa Catarina iria quase bater nos Douvres. E uma distncia de quase 4
  lguas.

Nesses mares da civilizao os
  rochedos mais selvagens so raramente desertos. Encontram-se contrabandistas em
  Hagot, guardas da alfndega em Binic, cultivadores de ostras em Cancale,
  caadores de coelhos em Csambre, ilha de Csar, apanhadores de caranguejos em
  Brecq-Hou, pescadores de rede em Minquiers e Ecr-Hou. Nos rochedos Douvres,
  ningum.

As aves marinhas esto ali em sua
  casa.

No h pior encontro. Os Casquets,
  onde dizem que se perdeu a Blanche Nef, o banco Calvados, as pontas da
  ilha de Wight, a Ronesse que faz a costa de Beaulieu to perigosa, os baixios de
  Prel que tornam to angustiosa a entrada de Merquel e que obrigam a deitar a
  umas 20 braas a baliza vermelha, as proximidades prfidas de tables e de
  Plouha, as duas druidas de granito do sul de Guernesey, o velho Anderlo e o
  pequeno Anderlo, a Corbire, os Hanois, a ilha de Ras, recomendada ao medo por
  este provrbio: Quando passares o Ras, se no morreres, tremers; as Mortes
  Femmes, a passagem do Boue e de Frouquie, a Deroute entre Guernesey e Jersey, a
  Hardent entre os Minquiers e Chausey, o Mauvais-Cheval entre o Boulay-Bay e
  Berneville, so mal afamados. Vale mais afrontar todos os cachopos do que o
  Douvres uma s vez.

Em todo o perigoso mar da Mancha
  que  o mar Egeu do Ocidente, o rochedo Douvres s tem um rochedo igual no
  terror que inspira,  o escolho Pater Noster entre Guernesey e Serk.

E ainda no Pater Noster pode-se
  fazer um sinal; quem est ali em perigo pode ser socorrido. V-se ao norte a
  ponta Dicard ou de caro, ao sul, Gros-Nez. Do rochedo Douvres no se v
  nada.

O vento, a gua, a nuvem, o
  ilimitado, o inabitado.

S se passa ali perdido. Os
  granitos so de uma estatura brutal e hedionda. Avultam as rochas escarpadas.
  Severa inospitalidade do abismo.

E mar alto. A gua  profunda. Um
  escolho absolutamente isolado, como o rochedo Douvres, atrai e abriga os animais
  que precisam afastar-se dos homens.  uma espcie de vasta madrpora submarina.
   um labirinto afogado. H ali, em profundezas que dificilmente alcanam os
  mergulhadores, antros, cavas, cavernas, cruzamentos de ruas tenebrosas. Pululam
  as espcies monstruosas. Devoram-se umas s outras. Os caranguejos comem os
  peixes, e so devorados tambm. Formas medonhas, feitas para no serem vistas
  por olhos humanos, andam vivas naquela obscuridade. Vagos lineamentos de goelas,
  antenas, tentculos, barbatanas, bocas abertas, escamas, garras, unhas flutuam,
  tremem, engrossam, decompem-se e desfazem-se na transparncia sinistra.
  Tremendos nadadores andam ali na labutao.  uma colmia de hidras.

Ali o horrvel  ideal.

Imagina, se podes, um formigueiro
  de holotrias.

Ver o interior do mar  ver a
  imaginao do Ignoto. E v-la do lado terrvel. O golfo  anlogo  noite.
  Tambm a h sono, sono aparente ao menos, da conscincia da criao. Cometem-se
  ali em plena segurana os crimes da irresponsabilidade. Os esboos da vida,
  fantasmas quase, completos demnios, vagam ali, em medonha paz, nas sombrias
  ocupaes da sombra.

H quarenta anos, duas rochas de
  forma extraordinria assinalavam de longe o escolho Douvres aos viandantes do
  oceano. Eram duas pontas verticais e recurvadas, tocando-se quase no cume.
  Parecia ver-se irrompendo do mar dois dentes de um elefante engolido. Mas eram
  dentes de tamanhos de torres que s poderiam pertencer a elefantes do tamanho de
  uma montanha. Essas duas torres naturais da obscura cidade dos monstros no
  deixavam entre si mais que uma passagem estreita onde a vaga se atirava. Essa
  passagem, tortuosa e de alguns cvados de comprimento, parecia um pedao de rua
  entre duas paredes. A essas duas rochas gmeas chamavam-se as duas Douvres.
  Havia a grande Douvre e a pequena Douvre; uma tinha 60 ps de altura, a outra
  40. O vaivm das ondas fez na base dessas torres um aspecto de serra, e o
  violento furaco do equincio de 26 de outubro de 1859 derrubou uma delas. A que
  ficou, a pequena, est mutilada e gasta.

Um dos mais estranhos rochedos do
  grupo Douvres chama-se o Homem. Esse ainda existe. No sculo passado alguns
  pescadores, perdidos naqueles cachopos, acharam um cadver. Ao p do cadver
  havia uma poro de conchas vazias. Tinha naufragado ali um homem, refugiou-se
  naqueles rochedos, alimentou-se algum tempo de conchas, at que morreu. Veio da
  chamar-se Homem ao rochedo.

So singulares as solides da
  gua.  o tumulto e o silncio. O que a se faz j nada tem com o gnero humano.
  E a utilidade desconhecida. Tal  o isolamento do rochedo Douvres. Em derredor,
  a perder de vista, o imenso tormento das vagas.

CAPTULO II
CONHAQUE
  INESPERADO

Na sexta-feira de manh, um dia
  depois da partida do Tamaulipas, a Durande partiu para
  Guernesey.

Deixou Saint-Malo s 9
  horas.

Claro estava o tempo, no havia
  nevoeiro; parece que o velho Capito Gertrais-Gaboureau tinha
  delirado.

As preocupaes do Sr. Clubin
  fizeram com que embarcasse pouco carregamento. Apenas meteu a bordo alguns
  fardos de Paris para as lojas de Saint-Pierre-Port, trs caixas para o hospital
  de Guernesey, uma de sabo amarelo, outra de velas e a terceira de couro de sola
  e cordavo fino. Levava tambm, da precedente viagem, uma caixa de acar crushed e trs caixas de ch conjou, que a alfndega francesa no
  quis receber. O Sr. Clubin embarcou pouco gado; alguns bois apenas. Os bois
  foram postos no poro e bem mal arranjados.

Havia a bordo seis passageiros: um
  guernesiano, dois maloenses vendedores de animais, um turista, como j se dizia
  nesse tempo, um parisiense meio burgus, provavelmente turista do comrcio, e um
  americano distribuidor de Bblias.

A Durande, sem contar com Clubin,
  tinha sete homens de tripulao; um timoneiro, um carvoeiro, um marinheiro
  carpinteiro, um cozinheiro, manobrista quando era preciso, dois trabalhadores da
  mquina e um grumete. Um dos penltimos era tambm mecnico. Era um valente e
  inteligente negro holands, evadido das fbricas de acar do Suriname;
  chamava-se Imbrancam. O negro Imbrancam compreendia e servia admiravelmente a
  mquina. Nos primeiros tempos, contribuiu ele no pouco, quando aparecia na
  fornalha, para dar um ar diablico  Durande.

O timoneiro, jerseiano de
  nascimento, originrio da costa, chamava-se Tangrouille. Tangrouille era de alta
  nobreza.

 verdade isto. As ilhas da Mancha
  so, como a Inglaterra, pases hierrquicos. Ainda existem castas nessas ilhas.
  As castas tm as suas idias, que so os seus dentes. Essas idias so as mesmas
  em toda a parte, na ndia, como na Alemanha. A nobreza conquista-se pela espada
  e perde-se pelo trabalho. Conserva-se pela ociosidade. No fazer coisa alguma 
  viver fidalgamente; quem no trabalha  reverenciado. Ofcio faz decair. Na
  Frana de outrora s se excetuavam os operrios de vidro. Sendo glria para os
  fidalgos esvaziar garrafas, faz-las no era desonra alguma.

Nas ilhas da Mancha, assim como na
  Gr-Bretanha, quem quiser ser nobre deve conservar-se opulento. Um workman no pode ser gentleman. Ainda que o tenha sido, j no o 
  mais. Tal marujo descende de cavalheiros e  apenas marujo. H trinta anos, em
  Aurigny, um Georges autntico, que ao que parece tinha direitos  senhoria de
  Georges confiscada por Filipe Augusto, apanhava sargao com os ps nus. H em
  Serk um Carteret que  carreiro. Existe em Jersey um mercador de panos, e em
  Guernesey um sapateiro, que tem o nome de Gruchy, que se declaram Grouchy e
  primos do marechal de Waterloo. Os antigos registros do bispado de Coutances
  mencionam uma senhoria de Tangroville, parenta evidente de Tancarville no
  Baixo-Sena, que  Montmorency. No sculo XV Johan de Heroudeville, besteiro e
  afim do Sr. de Tangroville, levava sempre consigo justilhos e arneses. Em maio
  de 1371, em Pontorson, o Sr. Tangroville fez o seu dever como cavalheiro. Nas
  ilhas normandas quem cai em pobreza  logo eliminado da fidalguia. Basta uma
  mudana de nome. De Tangroville faz Tangrouille, e tudo se
  arranja.

Foi o que aconteceu ao timoneiro
  da Durande.

H em Saint-Pierre-Port, no
  Bordage, um mercador de ferros chamado Ingrouille, que  provavelmente
  Ingroville. No reinado de Lus, o Gordo, os Ingroville possuam trs parquias
  em Valognes. Fez um padre Trigan a Histria Eclesistica da Normandia.
  Este cronista Trigan era cura de Digoville. O Sr. de Digoville, se casse no
  populacho, chamar-se-ia Digouille.

Tangrouille, Tancarville provvel
  e Montmorency possvel, tinha esta antiga qualidade de fidalgo, defeito grave
  num timoneiro: embriagava-se.

O Sr. Clubin teimava em
  conserv-lo. Respondia por ele a Mess Lethierry.

O timoneiro Tangrouille no saa
  nunca do navio e dormia a bordo.

Na vspera da partida, quando o
  Sr. Clubin foi, j a horas mortas, visitar o navio, Tangrouille estava na sua
  maca e dormia. Acordou de noite. Era-lhe isso costume antigo. Quando o bbado
  no  senhor de si tem um esconderijo. Tangrouille tinha o seu, a que chamava
  despensa. A despensa secreta de Tangrouille era no poro onde se guardava a
  gua. P-la a para torn-la inverossmil. Estava certo de que s ele conhecia
  aquele esconderijo. O Capito Clubin era severo, porque era sbrio. O pouco rum
  e gim, que o timoneiro podia subtrair  vigilncia do capito, punha de reserva
  naquele misterioso cantinho, no fundo de uma selha de sonda, e quase todas as
  noites tinha entrevista amorosa com aquela despensa. Era rigorosa a vigilncia,
  pobre devia ser a orgia, e de ordinrio os excessos noturnos de Tangrouille
  limitavam-se a dois ou trs goles furtivamente bebidos. Muitas vezes a despensa
  estava vazia. Nessa noite Tangrouille achou l uma garrafa de aguardente
  inesperada. Alegrou-se muito, e espantou-se ainda mais. De que cus lhe caiu
  aquela garrafa? No pde lembrar-se nem quando nem como levou-a para o navio.
  Bebeu-a imediatamente. Em parte f-lo por prudncia; tinha medo que a aguardente
  fosse descoberta e confiscada. Atirou a garrafa ao mar. No dia seguinte, quando
  tomou a cana do leme, Tangrouille tinha certa oscilao.

Todavia governou o barco quase
  como nos outros dias.

Quanto a Clubin, sabe-se que
  voltou a dormir na Pousada Joo.

Clubin trazia sempre debaixo da
  camisa um cinto de couro, de viagem, onde guardava uns 20 guinus, e que s
  tirava  noite. No interior do cinto estava escrito o nome dele, escrito por ele
  mesmo no couro bruto com tinta litogrfica, que  indelvel.

Ao levantar, antes de partir, ps
  no cinto a caixinha de ferro contendo 75.000 francos em notas de banco, depois
  atou o cinto como costumava,  roda do corpo.

CAPTULO III
PALESTRA
  INTERROMPIDA

Foi alegre a partida. Os
  passageiros, apenas arranjadas as malas por baixo e em cima dos bancos,
  passaram, ao navio, essa revista que nunca falta, e que parece obrigatria, tal
   o costume. Dois passageiros, o turista e o parisiense, nunca tinham visto
  vapores, e, desde os primeiros movimentos da roda, contemplaram a espuma, depois
  o fumo. Examinaram pea por pea, e quase fio por fio, na coberta e entreponte,
  todos os aparelhos martimos, argolas, ganchos, fateixas, cilindros, que, 
  fora de preciso e justeza, so uma espcie de colossal ourivesaria;
  ourivesaria de ferro dourado com ferrugem pela tempestade. Circularam o pequeno
  canho de rebate atado na coberta, com uma corrente de co de sentinela,
  observou o turista, e coberto com blusa de linho alcatroado para impedir as
  constipaes, acrescentou o parisiense. Afastando-se de terra, trocaram-se as
  observaes do costume acerca da perspectiva de Saint-Malo; um passageiro emitiu
  o axioma de que as perspectivas do mar iludem, e que, a 1 lgua da costa, nada
  se parece mais com Ostende como Dunquerque. Completou-se o que havia a dizer de
  Dunquerque, observando-se que os seus navios de vigia, pintados de vermelho,
  chamam-se um Ruytingue e o outro Mardyck.

Saint-Malo foi diminuindo at que
  desvaneceu-se de todo.

O aspecto do mar era o vasto
  calmo. O rasto do navio fazia no oceano uma rua franjada de espuma que se
  prolongava quase sem toro a perder de vista.

Guernesey est no centro de uma
  linha reta tirada de Saint-Malo na Frana, e Exeter na Inglaterra. A linha reta
  no mar nem sempre  a linha lgica. Entretanto, os vapores tm, at certo ponto,
  o poder de seguir a linha reta que no podem seguir os navios de
  vela.

O mar e o vento formam um composto
  de foras. O navio  um composto de mquinas. As foras so mquinas infinitas,
  as mquinas so foras limitadas. Entre os dois organismos, um inesgotvel,
  outro inteligente, trava-se o combate que se chama navegao.

Uma vontade no mecanismo faz
  contrapeso ao infinito. Tambm o infinito encerra um mecanismo. Os elementos
  sabem o que fazem e para onde vo. No h fora cega. Cabe ao homem espreitar as
  foras e descobrir-lhes o itinerrio.

Enquanto se no descobre a lei,
  prossegue a luta, e nessa luta a navegao a vapor  uma espcie de vitria
  perptua que o gnio humano vai ganhando a todas as horas do dia em todos os
  pontos do mar. A navegao a vapor  admirvel porque disciplina o navio.
  Diminui a obedincia ao vento e aumenta a obedincia ao homem.

Nunca a Durande trabalhou no mar
  como naquele dia. Andava maravilhosamente.

Pelas 11 horas, soprando uma
  fresca brisa de nor-nordeste, achou-se a Durande do lado de Minquiers,
  trabalhando com pouco vapor, navegando a oeste e conchegada ao vento. Claro e
  belo estava o cu. Todavia iam voltando para terra todos os
  pescadores.

A pouco e pouco, como se todos
  pensassem em ancorar nos portos, ia-se o mar limpando de navios.

No se podia dizer que a Durande
  estivesse no caminho do costume. A tripulao no se preocupava com isso, era
  absoluta a confiana no capito; entretanto, talvez por culpa do timoneiro,
  havia algum desvio. A Durande parecia antes ir para Jersey que para Guernesey.
  Pouco depois das 11 horas, o capito retificou a direo e aproou para o lado de
  Guernesey. Perdeu-se algum tempo. Nos dias curtos o tempo perdido tem
  inconvenientes. Fazia um belo sol de fevereiro.

Tangrouille, no estado em que
  estava, j no tinha nem ps nem braos firmes. Resultava da que o bravo
  timoneiro desviava-se da costa e atrasava a marcha.

O vento ia amainando.

O passageiro guernesiano, que
  tinha um culo na mo, firmava-o de tempos a tempos para um floco de espuma
  coada pelo vento no extremo horizonte de oeste, assemelhando-se a um pouco de
  algodo, empoeirado em roda.

O Capito Clubin tinha o aspecto
  puritano do costume. Parecia redobrar de ateno.

Tudo estava calmo e quase risonho
  a bordo da Durande; os passageiros conversavam.

Fechando os olhos, no meio de uma
  viagem, pode-se avaliar do estado do mar pelo trmulo da conversa. A plena
  liberdade de esprito dos passageiros corresponde  perfeita tranqilidade da
  gua.

 impossvel, por exemplo, que
  houvesse uma conversa, como esta que se segue, em mar que no fosse
  calmo.

 Veja
  aquela bonita mosca verde e encarnada.

 Perdeu-se
  no mar e descansa no navio.

 As moscas
  no se cansam muito.

 Pudera!
  So to leves. Carrega-as o prprio vento.

 J se
  pesou 1 ona de moscas e, contadas depois, viu-se que eram 6 268.

O guernesiano do culo tinha-se
  chegado aos maloenses mercadores de gado, e a conversa deles era pouco mais ou
  menos esta:

 O boi de Aubrac tem o tronco
  redondo e bojudo, as pernas curtas, o plo amarelo.  demorado no trabalho por
  causa da pequenez das pernas.

 Neste
  ponto, o Salers vale mais que o Aubrac.

 Vi dois
  magnficos bois em minha vida. O primeiro tinha as pernas curtas, o joelho
  espesso, alcatra grossa, as ndegas largas, bom comprimento da nuca  garupa,
  boa altura no garrote, manejo fcil, pele boa de arrancar-se. O segundo
  apresentava todos os sinais de um engordamento judicioso, tronco reforado,
  pescoo robusto, pernas leves, pele branca e vermelha, alcatra cada.

 Isso 
  raa da costa.

 Sim, mas
  com certa semelhana com o touro Angus ou o touro Suffolk.

 Acredite
  se quiser, no meio-dia h concurso de bestas.

 De
  bestas?

 De bestas.
  Como tenho a honra de lhe dizer. E as feias  que so bonitas.

 Ento so
  como as jumentas. As feias  que so boas.

 Justamente. A jumenta deve ter
  barriga grossa e pernas grossas.

 A melhor
  jumenta deste mundo  uma barrica sobre quatro estacas.

 A beleza
  dos animais no  como a beleza dos homens.

 E
  sobretudo das mulheres.

 Justo.

 Eu c,
  quero que a mulher seja bonita.

 Prefiro-a
  bem trajada.

 Sim,
  limpa, asseada, esticadinha.

 Ares de
  mocidade. Uma rapariga deve parecer que sai do joalheiro.

 Volto aos
  bois. Vi vender os tais bois no mercado de Thouars.

 Conheo o
  mercado. Os Bonneau de la Rochelle, e os Bahu, os mercadores de trigo de Marans,
  no sei se ouviu falar deles, devem ter ido a esse mercado.

O turista e o parisiense
  conversavam com o americano das Bblias; a conversao a era como nos outros
  grupos.

Dizia o turista:

 Eis a
  tonelagem flutuante do mundo civilizado: Frana, 716.000 toneladas; Alemanha, 1
  milho; Estados Unidos, 5 milhes; Inglaterra, 5 milhes e meio. Acrescente-se o
  contingente das pequenas bandeiras. Total: 12 904 000 toneladas distribudas por
  145 000 navios na gua do globo.

O americano
  interrompeu:

 Os Estados
  Unidos  que tm 5 milhes e meio.

 Convenho 
  disse o turista.  O senhor  americano?

 Sim,
  senhor.

Houve um silncio; o americano
  missionrio perguntou a si mesmo se era ocasio de oferecer uma
  Bblia.

 Ser
  verdade  continuou o turista  que os senhores l na Amrica gostam tanto das
  alcunhas a ponto de as pr em todos os homens clebres? Ser verdade que
  chamaram ao famoso banqueiro do Missouri, Thomas Benton, a velha barra de
  ouro?

 Do mesmo
  modo que chamamos ao Zacharias Taylor o velho Zach?

 E o
  General Harrison, o velho Tip? E o General Jackson, o  velho
  Hickory?

 Sim,
  porque Jackson  duro como pau hickory e Harrison bateu os
  peles-vermelhas em Tippecanoe.

  um costume bizantino
  esse.

  costume
  nosso. Chamamos Van Buren o feiticeirinho; Seward, que mandou fazer bilhetes
  midos do banco, o bilhete mido; e Douglas, o senador democrata do IIlinois,
  que tem 4 ps de altura e uma grande eloqncia, o gigantinho. Percorra do
  Texas ao Maine, no encontrar ningum que diga esse nome: Cass; todos dizem: o
  grande Michigantier; nem este nome: Clay; dizem todos: o rapaz do moinho
  acutilado. Clay  filho de um moleiro.

 Eu prefiro
  Clay ou Cass  observou o parisiense ,  mais curto.

 Pois
  estaria fora do uso. Ns chamamos Corwin, que  secretrio do Tesouro, o rapaz
  da carreta. Daniel Webster  o negro Dan. Quanto a Winfield Scott, como a sua
  primeira idia, depois de bater os ingleses em Chippeway, foi assentar-se 
  mesa, chamamo-lo D-c-um-prato-de-sopa-depressa.

Tinha se agigantado o floco de
  neve. Ocupava no horizonte um segmento de cerca de 15 graus. Dissera-se uma
  nuvem arrastada  flor da gua por falta de vento. No havia um sopro de brisa
  sequer. Embora fosse apenas meio-dia, o sol ia empalidecendo. Alumiava, mas j
  no aquecia.

 Creio 
  disse o turista  que o tempo vai mudar.

 Talvez
  haja chuva  disse o parisiense.

 Ou
  nevoeiro  disse o americano.

 Na Itlia
   continuou o turista  o lugar em que cai menos chuva  Molfetta, e onde cai
  mais  em Tolmezzo.

Ao meio-dia, segundo o uso do
  arquiplago, tocou a sineta para jantar. Jantou quem quis. Alguns passageiros
  levavam comida consigo e comeram no convs. Clubin no jantou.

Ao jantar, a palestra
  continuou.

O guernesiano, tendo o faro das
  Bblias, aproximou-se do americano. O americano disse-lhe:

 Conhece
  este mar?

 Sem
  dvida, sou filho dele.

 E tambm
  eu  disse um dos maloenses.

O guernesiano aderiu com um
  cumprimento, e continuou:

 Agora
  estamos ao largo mas no me agradava nada ter nevoeiro enquanto estvamos ao p
  dos Minquiers.

O americano disse ao
  maloense:

Os insulares so mais homens do
  mar que a gente da costa.

  exato,
  ns, os filhos da costa, temos apenas metade do mar. Que coisa  essa dos
  Minquiers?  continuou o americano.

O maloense respondeu:

 So umas
  pedras ruins.

 H tambm
  os Grelets  disse o guernesiano.

 Ora! 
  disse o maloense.

 E os
  Chouas  acrescentou o guernesiano.

O maloense deu uma
  gargalhada.

 Dessa
  forma  disse ele , temos tambm os Sauvages.

 E os Maine
   observou o guernesiano.

 E o Canard
   disse o maloense.

O senhor tem resposta para tudo 
  disse o guernesiano com rapidez.

 Maloense,
  malicioso.

Dando esta resposta, o maloense
  piscou o olho.

O turista interps uma
  pergunta:

 Dar-se- o
  caso que vamos atravessar toda essa pedraria de que os senhores
  falam?

 Qual!
  Deixamo-la a sudoeste. J ficou atrs de ns.

E o guernesiano
  continuou:

Entre grandes e pequenos os
  Grelets tm 57 pontas de rocha.

 E os
  Minquiers 48  disse o maloense.

Aqui o dilogo concentrou-se entre
  o maloense e o guernesiano.

 Parece-me,
  senhor de Saint-Malo, que h trs rochedos que o senhor deixou de
  contar.

 Contei
  tudo.

 A Dere da
  Maitre-Ile?

 Sim.

 E Maisons
  tambm?

 Que so
  sete rochas no meio dos Minquiers. Sim.

 J vejo
  que conhece os cachopos.

 Quem no
  os conhece no  de Saint-Malo.

 Causa
  gosto ouvir o raciocnio dos franceses.

O maloense cumprimentou, e
  disse:

 Sauvages
  so trs rochedos.

 E Maines
  so dois.

 Canard 
  um.

 Basta
  dizer Canard; j se sabe que  um.

 No,
  porque a Suarde so quatro rochedos.

 Que  a
  Suarde?  perguntou o guernesiano.

 Chamamos
  Suarde ao que o senhor chama Chouas.

 No  bom
  passar entre Chouas e Canard.

 S os
  pssaros podem passar a.

 E os
  peixes.

 Nem
  sempre. Quando h mau tempo, os peixes esbarram-se nas rochas.

 H areia
  em Minquiers.

 A roda de
  Maisons.

 Vem-se
  oito rochedos de Jersey.

 Da praia
  de Azette,  justo. No so oito, so sete.

 Nas
  vazantes pode-se passear entre os Minquiers.

 Sem
  dvida, h espao.

 E
  Dirouilles?

 Dirouilles
  no tem nada com Minquiers.

 Quero
  dizer que  perigoso.

  do lado
  de Granville.

V-se que, como ns, os senhores
  de Saint-Malo gostam de navegar nestes mares.

 Sim 
  disse o maloense , com a diferena de que ns dizemos: estamos acostumados, e
  os senhores dizem: gostamos.

 So bons
  marinheiros os senhores.

 Eu sou
  mercador de gado.

 Quem  que
  foi tambm de Saint-Malo?

 Surcouf.

 No,
  outro.

 Duguay-Trouin.

Aqui o viajante parisiense
  interrompeu.

Duguay-Trouin? Foi apanhado pelos
  ingleses. Era to amvel quo valente. Agradou a uma jovem inglesa. Foi ela quem
  lhe quebrou os ferros.

Neste momento uma voz tremenda
  gritou:

 Ests
  bbado!

CAPTULO IV
MOSTRAM-SE TODAS AS QUALIDADES DO
  CAPITO CLUBIN

Voltaram-se todos.

Era o Capito Clubin que
  interpelava o timoneiro.

O Sr. Clubin no tratava ningum
  por tu. Para que ele atirasse a Tangrouille semelhante apstrofe era preciso que
  estivesse colrico ou quisesse mostrar-se assim.

Uma expresso de clera, vindo a
  propsito, demite a responsabilidade, e algumas vezes deita-a para as costas de
  outrem.

O capito, de p no lugar de
  comando, entre as caixas das rodas, olhava fixamente para o timoneiro. Repetiu
  entre dentes: Beberro! O honesto Tangrouille abaixou a cabea.

Desenvolvia-se o nevoeiro. J
  ocupava metade do horizonte. Avanava em todos os sentidos ao mesmo tempo; o
  nevoeiro parece-se com a gota de leo. A bruma alargava-se insensivelmente. O
  vento soprava-a sem pressa e sem rumor. A pouco e pouco ia ele apoderando-se do
  oceano. Vinha de nordeste e o navio estava com ela pela proa. Era um vasto
  penedio movedio e vago. Cortava-se no mar como se fosse uma muralha. Havia um
  ponto preciso em que a gua imensa entrava por baixo do nevoeiro e
  desaparecia.

Este ponto de entrada no nevoeiro
  estava ainda a meia lgua de distncia. Se o vento mudasse, podia-se evitar a
  imerso na bruma; mas era preciso que mudasse logo. A meia lgua de intervalo
  enchia-se e diminua a olhos vistos; a Durande caminhava, o nevoeiro tambm. O
  nevoeiro ia para o navio, o navio para o nevoeiro.

Clubin mandou aumentar o vapor e
  obliquar a leste.

Deste modo costeou-se algum tempo
  o nevoeiro, mas ele avanava sempre. Todavia o navio continuava a andar em pleno
  sol.

Perdia-se o tempo naquelas
  manobras que dificilmente podiam dar bom resultado. Anoitece cedo em
  fevereiro.

O guernesiano contemplava a bruma.
  Disse aos maloenses:

  atrevido
  este nevoeiro.

Desasseio do mar  observou um dos
  maloenses.

O outro acrescentou:

 Isto
  atrasa a viagem.

O guernesiano aproximou-se de
  Clubin.

 Capito
  Clubin, receio que sejamos envolvidos pelo nevoeiro. Clubin
  respondeu:

Eu queria ficar em Saint-Malo, mas
  aconselharam-me que partisse.

 Quem?

 Veteranos
  do mar.

 Fez bem em
  partir  continuou o guernesiano.  Quem sabe se no haver tempestade amanh.
  Nesta estao espera-se o pior.

Alguns minutos depois a Durande
  entrava no nevoeiro.

Foi singular esse momento. Toda a
  gente que estava na popa ficou de repente sem ver a gente que ia na proa. Tnue
  tabique cinzento cortou o navio ao meio.

Depois, todo o navio mergulhou na
  bruma. O sol parecia uma lua. Sbito todos comearam a tiritar. Os passageiros
  vestiram as capas, e os marinheiros as japonas. O mar, quase sem uma dobra,
  tinha a fria ameaa da tranqilidade. Parece que h conluio neste excesso de
  calma. Tudo estava plido e enfiado. O negro cano e a fumaa negra lutavam
  contra a lividez que cercava o navio.

A derivao a leste j no tinha
  razo de ser. O capito aproou de novo sobre Guernesey e aumentou o
  vapor.

O passageiro guernesiano, andando
   roda da mquina, ouviu o negro Imbrancam que falava a um dos companheiros. O
  passageiro prestou ouvidos. Dizia o negro:

 Quando
  havia sol, amos devagar; agora que h nevoeiro vamos depressa.

O guernesiano foi ter com o Sr.
  Clubin.

 Capito
  Clubin, no h cuidado; mas no acha que vamos depressa demais?

 Que quer,
  senhor?  preciso ganhar o tempo perdido por culpa daquele bbado.

  verdade,
  Capito Clubin.

E Clubin acrescentou:

 Quero
  chegar quanto antes. J basta o nevoeiro; com a noite ficaramos
  asseados.

O guernesiano foi ter com os
  maloenses e disse-lhes:

 Temos um
  excelente capito.

De quando em quando ondas grandes
  de bruma, que pareciam cardadas, passavam e escondiam o sol. Depois o sol
  reapareceu mais plido e como que enfermo. O pouco cu que se via assemelhava-se
  s faixas de ar sujas e manchadas de uma velha decorao de teatro.

A Durande passou junto de um cter
  que tinha ancorado por prudncia. Era o Shealtiel, de Guernesey. O patro
  do cter notou a rapidez com que ia a Durande. Pareceu-lhe que no estava no
  caminho exato; afigurou-se-lhe que obliquava a oeste. Vendo aquele navio,
  andando a todo vapor no meio do nevoeiro, o homem pasmou.

Pelas 2 horas a bruma era to
  espessa, que o capito foi obrigado a deixar o lugar do costume, e a
  aproximar-se do timoneiro. O sol desmaiara, tudo era nevoeiro. Havia na Durande
  uma espcie de escurido branca. Navegava-se na palidez difusa. J se no via
  nem o cu nem o mar.

No ventava.

A ancoreta da terebintina suspensa
  em uma argola ao p da caixa das rodas j no tinha oscilao.

Os passageiros tornaram-se
  silenciosos.

Contudo o parisiense cantarolava
  entre dentes a cano de Branger Un Jour le Bon Dieu
    s'veillant*.

Um dos maloenses dirigiu-lhe a
  palavra:

 O senhor
  vem de Paris?

 Sim, senhor. Il mit la tte  la fentre**.

 Que se faz
  por l?

 Leur
  plante a pri peut-tre. L em Paris tudo anda
    mal.

 Ento 
  tanto l em terra como aqui no mar.

 Realmente,
  este nevoeiro  o diabo.

 E pode
  causar desgraas.

O parisiense exclamou:

 Mas por
  que desgraas? A propsito de qu? De que servem desgraas?  o caso do incndio
  do Odeon! Ficou uma poro de famlias reduzidas  misria!  justo isto? Olhe
  c, eu no sei qual  a sua religio, mas digo-lhe que no estou
  contente.

 Nem eu 
  disse o maloense.

 Tudo o que
  se passa neste mundo  continuou o parisiense  parece um desconcerto. Creio que
  Deus no entra nisto.

O maloense coou o alto da cabea,
  como quem procura compreender. O parisiense continuou:

 Deus est
  ausente. Devia-se lavrar um decreto para obrig-lo a residir aqui. Anda l na
  sua casa de campo e no se importa conosco. E tudo vai torto e mal encaminhado.
   evidente, meu bom senhor, que Deus j no est no governo, est em frias, e 
  o vigrio, algum anjo seminarista, algum becio com asas de pardal, quem dirige
  os negcios.

O Capito Clubin, que se
  aproximara, ps a mo no ombro do parisiense.

Silncio  disse ele.  Cuidado
  nas palavras. Estamos no mar.

Ningum mais falou.

No fim de cinco minutos o
  guernesiano, que tudo ouvira, murmurou aos ouvintes:

  um
  capito religioso.

No chovia e todos estavam
  molhados. S se reparava no caminho que o navio descrevia por uma espcie de
  mal-estar. Parecia que se entrava na tristeza. O nevoeiro emudece o oceano,
  adormenta a vaga e sopita o vento. Naquele silncio, o rumor da Durande tinha um
  no sei qu de inquieto e lamentoso.

J se no encontravam navios. S
  ao longe, quer do lado de Guernesey, quer do lado de Saint-Malo, alguns navios
  estavam no mar, fora do nevoeiro; para esses a Durande, submergida na bruma, no
  era visvel, e a sua longa fumaa, presa a coisa nenhuma, parecia-lhes um cometa
  negro no cu branco.

De repente Clubin
  exclamou:

 Com
  seiscentos! Ests dirigindo mal. Olha que me avarias o barco. Mereces bem que te
  ponha a ferros. Vai-te, bbado!

E tomou a cana do leme.

O timoneiro humilhado refugiou-se
  na cordoalha da proa.

Disse o guernesiano:

 Estamos
  salvos.

A marcha continuou
  rpida.

Pelas 3 horas, a orla inferior do
  nevoeiro comeou a levantar-se e viu-se o mar.

 Mau! 
  disse o guernesiano.

S o sol ou o vento deve levantar
  a bruma. Quando  o sol,  bom sinal; quando  o vento, no  to bom sinal. Era
  tarde j para ser o sol. s 3 horas, em fevereiro, o sol est fraco. No era
  coisa desejvel a volta do vento naquela situao crtica. Muitas vezes anuncia
  o furaco.

Verdade seja que se havia brisa,
  mal se sentia.

Clubin, com o olhar na bitcula,
  governando o leme, mastigava algumas palavras que chegavam aos passageiros; era
  isto mais ou menos:

No h tempo a perder. Aquele
  bbado demorou a viagem.

O seu rosto, porm, no tinha
  expresso alguma.

O mar estava menos adormecido. J
  se enxergavam algumas vagas. Luzes geladas flutuavam na gua. Essas placas de
  claro nas ondas preocupam os marinheiros. Indicam que o vento faz buracos por
  cima do nevoeiro. A bruma levantava-se e tornava a cair mais densa. As vezes a
  opacidade era completa. O navio estava numa verdadeira montanha de nevoeiro. De
  quando em quando aquele crculo tremendo abria-se como uma tenaz, deixava ver o
  horizonte, e fechava-se depois.

O guernesiano, armado de um culo,
  estava como uma vedeta, na frente do navio.

Clareou, depois escureceu outra
  vez.

O guernesiano voltou-se assustado:

 Capito
  Clubin!

 Que
  ?

Vamos direto aos cachopos de
  Hanois.

 engano  disse Clubin
  friamente.

O guernesiano insistiu:

 Estou
  certo.

 Impossvel.

 Vi uma
  pedra no horizonte.

 Onde?

 Ali!

  ao
  largo. Impossvel.

E Clubin continuou a pr o navio
  no ponto indicado pelo passageiro.

O guernesiano travou do
  culo.

Minutos depois correu para o
  capito.

 Capito!

 Que
  ?

 Vire de
  bordo.

 Por
  qu?

 Vi uma
  rocha muito alta e muito perto.  o grande Hanois.

 H de ser
  algum nevoeiro mais escuro.

 E o grande
  Hanois. Vire de bordo, em nome do cu!

Clubin deu uma volta  cana do
  leme.

CAPTULO V
CLUBIN LEVA A ADMIRAO AO
  CMULO

Ouviu-se um estalo. O rasgamento
  do flanco de um navio, em um cachopo, em mar alto,  um dos sons mais lgubres
  que se pode imaginar. A Durande parou.

Com o choque muitos passageiros
  caram e rolaram no tombadilho.

O guernesiano levantou as mos
  para o cu.

 Nos
  Hanois! Eu bem dizia!

Longo grito soou no
  navio.

 Estamos
  perdidos!

A voz de Clubin, seca e breve,
  dominou o grito.

 Ningum
  est perdido! E silncio!

O corpo negro de Imbrancam, nu at
  a cintura, saiu do espao da mquina.

O negro disse com
  calma:

Capito, a gua est entrando. A
  mquina vai apagar-se.

Terrvel foi o momento.

O choque assemelhava-se a um
  suicdio. Se fosse de propsito, no seria mais terrvel. A Durande atirou-se
  como se atacasse o rochedo. Uma ponta da rocha penetrou no navio como um prego.
  Mais de 1 toesa quadrada de vergas rebentou, rompeu-se a roda de proa, fracassou
  a quilha, partiu-se o gurups, o casco aberto bebia gua aos borbotes. Era uma
  chaga por onde entrava o naufrgio. A reao foi to violenta que quebrou na
  popa a caixa do leme, que ficou solto e oscilante. O cachopo arrancara o fundo e
   roda do navio no se via nada, alm do nevoeiro espesso e compacto e agora
  quase negro. Chegava a noite.

A Durande mergulhava pela proa.
  Era o cavalo que tem nas entranhas a ponta do touro. Estava morta.

Sentia-se no mar a hora da
  mar.

Tangrouille estava desperto da
  embriaguez; ningum fica bbado em um naufrgio; desceu abaixo, subiu e
  disse:

 Capito, a
  gua enche o poro. Dentro de dez minutos est nos embornais.

Os passageiros corriam no
  tombadilho fora de si, torcendo os braos, inclinando-se na amurada, olhando
  para a mquina, fazendo todos os movimentos inteis do terror. O turista
  desmaiou.

Clubin fez um sinal com a mo,
  calaram-se todos. Interrogou Imbrancam:

 Quanto
  tempo pode a mquina trabalhar ainda?

 Cinco ou
  seis minutos.

Depois interrogou o passageiro
  guernesiano:

 Eu estava
  ao leme. O senhor observou o rochedo. Em qual dos Hanois estamos ns?

 Na Mauve.
  Reconheci ainda agora, com um pouco de claridade.

 Sendo a
  Mauve  continuou Clubin  temos o grande Hanois a bombordo e o pequeno Hanois a
  estibordo. Estamos a 1 milha de terra.

A equipagem e os passageiros
  escutavam, trmulos de ansiedade e de ateno, com os olhos fixos no
  capito.

Alijar o navio era intil e,
  demais, impossvel. Para pr a carga ao mar, era preciso abrir as portinholas e
  aumentar as probabilidades de entrar gua. Atirar a ncora era intil; estavam
  pregados. Demais podia ficar presa. No estava avariada a mquina, e continuando
   disposio do navio enquanto o fogo no estava apagado, isto , por alguns
  minutos, podia-se,  fora de rodas e de vapor, recuar e arrancar o navio do
  escolho. Nesse caso iria ao fundo imediatamente. O rochedo, at certo ponto,
  tapava o rombo e tolhia a passagem da gua. Servia de obstculo. Desobstruda a
  abertura, seria impossvel impedir a entrada da gua. Quem retira o punhal de
  uma ferida no corao, mata logo o ferido. Sair do cachopo era ir ao
  fundo.

Os bois, atacados pela gua,
  comeavam a mugir.

Clubin ordenou:

 A chalupa
  ao mar.

Imbrancam e Tangrouille
  precipitaram-se e desataram as amarras. O resto da tripulao olhava
  petrificado.

 Todos 
  obra  gritou Clubin.

Desta vez obedeceram
  todos.

Clubin, impassvel, continuou a
  dar ordens, naquela velha lngua do mar, que os marinheiros de hoje no
  compreenderiam.

A chalupa estava no
  mar.

No mesmo instante, as rodas da
  Durande pararam, cessou o fumo, a fornalha estava cheia de gua.

Os passageiros, resvalando ao
  longo da escada ou pendurando-se nas enxrcias, deixavam-se antes cair que
  descer na chalupa. Imbrancam apanhou o turista desmaiado, levou-o para a
  chalupa, depois subiu ao navio.

Os marinheiros atiravam-se aps os
  passageiros. O grumete rolou; eles pisavam o rapaz. Imbrancam barrou a
  passagem:

 Ningum
  antes do moo  disse ele.

Afastou com os braos negros os
  marinheiros, apanhou o grumete, e estendeu-o ao passageiro guernesiano, que, de
  p na chalupa, recebeu o rapaz.

O grumete salvo, Imbrancam deu
  caminho e disse:

 Passem.

Entretanto, o Sr. Clubin foi ao
  seu camarote e fez um embrulho dos papis de bordo e dos instrumentos. Tirou a
  bssola da bitcula. Entregou os papis e os instrumentos a Imbrancam e a
  bssola a Tangrouille, e disse-lhes:

 Desam 
  chalupa.

Eles desceram. A tripulao
  tinha-os precedido. A chalupa estava cheia. Estava quase rasa.

 Agora 
  disse Clubin  vo embora.

 E o
  senhor, capito?

 Fico.

As pessoas que naufragam tm pouco
  tempo de deliberar e ainda menos de enternecer-se. Entretanto, os que estavam na
  chalupa, e relativamente em segurana, tiveram uma comoo que no era por eles.
  Todas as vozes insistiram ao mesmo tempo:

 Venha
  conosco, capito.

 Fico.

O guernesiano, que conhecia o mar,
  replicou:

 Oua,
  capito. O senhor naufragou nos Hanois. A nado h apenas 1 milha at Plainmont.
  Mas na chalupa s se pode abordar na Rocquaine, e so 2 milhas. H cachopos e
  nevoeiro. Esta chalupa no chega  Rocquaine antes de 2 horas. No tarda a
  anoitecer. Enchendo a mar, refresca o vento. Est prxima a borrasca. E nosso
  desejo vir busc-lo depois, mas se romper o temporal, no ser possvel. Se fica
  est perdido. Venha.

O parisiense interveio:

 A chalupa
  est cheia, e cheia demais,  verdade, e um homem de mais seria ainda pior. Mas
  ns somos treze,  mau nmero para a barca, e  melhor sobrecarreg-la de um
  homem que de algarismo.

Tangrouille
  acrescentou:

 A culpa 
  minha, no  sua. No  justo que o senhor fique.

 Fico 
  disse Clubin.  O navio ser despedaado pela tempestade hoje de noite. No o
  deixarei. Quando o navio se perde, morre o capito. Dir-se- de mim que eu
  cumpri o meu dever. Perdo-te, Tangrouille.

E cruzando os braos,
  gritou:

 Ateno s
  ordens. Larguem a banda da amarra. Partam!

Abalou-se a chalupa. Imbrancam
  tomou o leme. Todas as mos que no remavam voltaram-se para o capito. Todas as
  bocas gritaram: Hurrah para o Capito Clubin!

 Eis um
  homem admirvel  disse o americano.

 o mais honrado homem do mar 
  respondeu o guernesiano.

Tangrouille chorava.

 Eu devia
  ter ficado com ele.

A chalupa internou-se por entre o
  nevoeiro, e desapareceu.

No se viu mais nada.

O rumor dos remos diminuiu e
  perdeu-se.

Clubin estava s.

CAPTULO VI
ALUMIA-SE O INTERIOR DE UM
  ABISMO

Quando aquele homem achou-se
  naquele rochedo debaixo daquela nuvem, no meio daquela gua, longe do contato
  humano, deixado por morto, sozinho entre o mar que subia e a noite que descia,
  teve profundo jbilo.

Alcanara o que queria.

Realizara-se-lhe o sonho. Estava
  paga a letra de longo prazo que ele sacou sobre o destino.

Para ele, ficar abandonado, era
  ficar livre. Estava no Hanois, a 1 milha de terra; tinha 75.000 francos. Nunca
  se realizou mais acertado naufrgio. Nada falhou;  verdade que tudo estava
  previsto. Desde a juventude, Clubin teve uma idia; fazer da honestidade uma
  parada no jogo da roleta da vida, passar por homem probo, e partir da,
  esperando que a sorte corresse; no apalpar, segurar; fazer um lance, mas s um,
  agarrar tudo, e deixar atrs os papalvos. Assentava que devia alcanar de uma
  vez aquilo que os larpios tolos deixam de agarrar vinte vezes, e, enquanto
  estes vo ter  forca, ele iria  fortuna. O encontro de Rantaine foi o raio de
  luz. Construiu imediatamente o plano: obrigar Rantaine  restituio; quanto s
  suas revelaes possveis, anul-las desaparecendo; passar por morto, que  a
  melhor desapario do mundo; para isso fazer naufragar a Durande. O naufrgio
  era necessrio. Alm de tudo, ir-se embora deixando boa fama, era fazer da sua
  existncia uma obra-prima. Quem pudesse ver Clubin naquele naufrgio acreditaria
  ver um demnio feliz.

Viveu toda a sua vida naquele
  minuto.

Toda a sua pessoa exprimia esta
  palavra: enfim! Tremenda serenidade empalideceu aquela fronte obscura. Os olhos
  embaciados, no fundo dos quais parecia haver um tabique, tornaram-se profundos e
  terrveis. O abrasamento interno daquela alma reverberou-se neles.

O foro ntimo, como a natureza
  externa, tem a sua tenso elstica. Uma idia  um meteoro; no momento do
  triunfo, entreabrem-se as meditaes acumuladas que o preparam, e jorra uma
  fasca; ter em si uma garra do mal, e sentir nela uma presa, ventura  esta que
  tem a sua irradiao; mau pensamento que triunfa e ilumina o rosto daquele que o
  concebeu; certas combinaes triunfantes, certos desejos realizados, certas
  felicidades ferozes fazem aparecer e desaparecer nos olhos dos homens lgubres e
  luminosas dilataes.  a tempestade jubilosa,  a aurora ameaadora. Tudo isso
  sai da conscincia, que se faz sombria e enevoada.

Foi esse fulgor que iluminou
  aqueles olhos.

Relmpago que no se parecia com
  coisa alguma do que se pode ver no cu e na terra.

O velhaco comprimido que havia em
  Clubin fez exploso.

Clubin fitou a imensa obscuridade,
  e no pde reter uma gargalhada baixa e sinistra.

Estava livre! Estava
  rico!

Achara a incgnita. Resolvera o
  problema.

Clubin tinha tempo de cuidar de
  si. A mar enchia e por conseguinte sustentava a Durande e afinal devia p-la a
  nado. Mas o navio aderia solidamente ao rochedo; no havia perigo de soobrar.
  Alm disso, era preciso deixar  chalupa o tempo de afastar-se, perder-se
  talvez; Clubin contava com isso.

De p sobre a Durande naufragada,
  cruzou os braos, saboreando aquele abandono nas trevas.

A hipocrisia pesou quele homem
  durante trinta anos. Era o mal, e consorciou-se com a probidade. Odiava a
  virtude com um dio de mal casado. Teve sempre uma premeditao malvada; desde
  que se fizera homem, trazia aquela armadura rgida, a aparncia. Era monstro
  internamente; vivia em uma pele de homem de bem, com um corao de bandido. Era
  o pirata ameno. Era prisioneiro da honestidade, estava fechado naquele caixo de
  mmia, a inocncia; tinha nas costas asas de anjo, esmagadoras para um velhaco.
  Pesava-lhe demais a estima pblica. Passar por homem honrado  duro! Manter
  constante equilbrio, pensar mal e falar bem, que labutao! Clubin era o
  fantasma da retido, sendo o espectro do crime. Este contra-senso foi o destino
  dele. Era-lhe preciso mostrar ares apresentveis, escumar por baixo do nvel,
  sorrir em vez de ranger. A virtude, para ele, era coisa que esmagava. Passou a
  vida a ter vontade de morder aquela mo que lhe tapava a boca.

E querendo mord-la foi obrigado a
  beij-la.

Ter mentido  ter sofrido. O
  hipcrita  um paciente na dupla acepo da palavra; calcula um triunfo e sofre
  um suplcio. A premeditao indefinida de uma ao ruim, acompanhada por doses
  de austeridade, a infmia interior temperada de excelente reputao, enganar
  continuadamente, no ser jamais quem , fazer iluso,  uma fadiga. Compor a
  candura com todos os elementos negros que trabalham no crebro, querer devorar
  os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar
  constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma
  beleza, fabricar uma perfeio com a perversidade, fazer ccegas com o punhal,
  pr acar no veneno, velar na franqueza do gesto e na msica da voz, no ter o
  prprio olhar, nada mais difcil, nada mais doloroso. O odioso da hipocrisia
  comea obscuramente no hipcrita. Causa nuseas beber perpetuamente a impostura.
  A meiguice com que a astcia disfara a malvadez repugna ao malvado,
  continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e h momentos de enjo em
  que o hipcrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva  coisa
  horrvel. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o
  hipcrita se estima. H um eu desmedido no impostor. O verme resvala como o
  drago e como ele retesa-se e levanta-se. O traidor no  mais que um dspota
  tolhido que no pode fazer a sua vontade seno resignando-se ao segundo papel. 
  a mesquinhez capaz da enormidade. O hipcrita  um tit-ano.

Clubin imaginava de boa-f que
  tinha sido oprimido. Por que razo no nascera rico? O que ele queria era que os
  pais lhe houvessem deixado 100 000 libras de renda. Por que no as tinha? No
  era culpa dele. Por que motivo, no lhe dando todos os gozos da vida,
  foraram-no a trabalhar, isto , a enganar, a trair, a destruir? Por que motivo
  condenaram-no assim a essa tortura de adular, de rastejar, de comprazer, de
  fazer-se amar e respeitar, e trazer dia e noite no rosto um rosto que no era
  dele? Dissimular  uma violncia imposta. Odeia-se diante de quem se mente.
  Soara enfim a hora. Clubin vingava-se.

De quem? De todos e de
  tudo.

Lethierry no lhe fez seno bem:
  queixava-se demais; vingava-se de Lethierry.

Vingava-se de todos aqueles ante
  quem foi obrigado a constranger-se. Desforrava-se. Quem quer que pensasse bem
  dele, era seu inimigo, porque ele foi cativo desse homem.

Clubin achava-se livre.
  Realizava-se a fuga. Estava fora dos homens. O que se tinha por morte, era vida;
  ele ia comear agora. O verdadeiro Clubin despojava-se do falso Clubin. De um
  lance dissolveu tudo. Empurrou, com o p, Rantaine ao espao, Lethierry  runa,
  a justia humana s trevas, a opinio ao erro, a humanidade inteira para longe
  de si. Tinha eliminado o mundo.

Quanto a Deus, Clubin curava pouco
  dessa palavra de quatro letras. Passou como religioso. Que importa?

H cavernas no hipcrita ou,
  antes, o hipcrita  uma caverna.

Quando Clubin ficou s,
  abriu-se-lhe o antro. Teve um instante de delcias; arejou a alma.

Respirou largamente o seu
  crime.

O fundo do mal tornou-se visvel
  naquele rosto. Clubin abriu-se. Nesse momento o olhar de Rantaine ao p daqueles
  olhos pareceria um olhar de recm-nato.

Arrancar a mscara, que
  livramento! A conscincia de Clubin alegrou-se por ver-se hediondamente nua, e
  por tomar livremente um banho ignbil no mal. O constrangimento de um longo
  respeito humano acaba por inspirar um gosto violento  impudncia. Chega-se a
  uma certa lascvia na perversidade. Existe nessas tremendas profundezas morais
  to pouco sondadas uma no sei que ostentao atroz e agradvel, que  a
  obscenidade do crime. A insipidez da falsa reputao d apetite de vergonha.
  Desdenham-se os homens a ponto tal que se deseja o desprezo deles. Ser estimado
  aborrece. Admira-se a franqueza da degradao. Olha-se cobiosamente a torpeza
  que se mostra to a seu gosto na ignomnia. Os olhos obrigados a baixar-se tm
  muitas vezes destes olhares oblquos. Nada se aproxima tanto de Messalina como
  Maria Alacoque. Vede Cadire e a religiosa de Louviers.

Clubin vivera debaixo do vu. O
  descaramento foi sempre a sua ambio. Invejava a mulher pblica e a fronte de
  bronze do oprbrio aceito; sentia-se mais mulher pblica do que ela e tinha
  desgosto em passar por virgem. Foi o Tntalo do cinismo. Enfim, naquela solido,
  podia ser franco; era-o. Que volpia no  sentir-se sinceramente abominvel!
  Todos os xtases possveis no inferno teve-os Clubin naquele momento; foram-lhe
  pagos todos os atrasados da dissimulao; a hipocrisia  um adiantamento;
  Satans embolsou-o, Clubin embriagou-se de desfaamento, pois que os homens
  tinham desaparecido e apenas ficara o cu. Disse consigo: Sou um pcaro! E
  ficou satisfeito.

Jamais houve coisa igual em uma
  conscincia humana.

Erupo de um hipcrita, no h
  rompimento de cratera igual a esse.

Achava-se feliz por no haver ali
  ningum, e no desgostaria que algum o visse. Teria prazer em ser medonho 
  vista de uma testemunha.

Teria prazer em dizer ao gnero
  humano: s idiota!

A ausncia de homens
  assegurava-lhe o triunfo, mas diminua-o. S ele era o espectador da sua
  glria.

H certo encanto em estar de
  golilha. Toda a gente v que s infame.

Obrigar a multido a examinar-te 
  reconhecer a tua fora. Um gal sobre um estrado, com uma coleira de ferro ao
  pescoo,  o dspota de todos os olhares que ele obriga a voltarem-se para si.
  Aquele cadafalso  ao mesmo tempo pedestal. Que mais belo triunfo do que esse de
  ficar no centro de convergncia para a ateno geral? Obrigar o olhar pblico 
  uma das formas de supremacia. Os que tm o mal por ideal acham no oprbrio uma
  aurola. Domina-se da. Olha-se de cima de alguma coisa. Mostra-se com
  soberania. Um poste,  vista de todo o universo, tem alguma analogia com um
  trono.

Estar exposto  ser
  contemplado.

Um mau reinado tem evidentemente
  jbilos do pelourinho. Nero incendiando Roma, Lus XIV tomando traioeiramente o
  Palatinado, o Regente Jorge matando lentamente Napoleo, Nicolau assassinando a
  Polnia em face da civilizao, deviam sentir um pouco daquela volpia sonhada
  por Clubin. A imensidade do desprezo parece grandeza ao desprezado.

Ser desmascarado  uma derrota,
  mas desmascarar-se  uma vitria.  a ebriedade,  a imprudncia insolente e
  satisfeita,  uma nudez transportada que insulta tudo diante de si. Suprema
  felicidade.

Estas idias em um hipcrita
  parecem contradio, e no so. Toda a infmia  conseqente. O mel  fel.
  Escobar confina no Marqus de Sade. Prova: Lotade. O hipcrita, sendo perverso
  completo, tem em si os dois plos da perversidade. De um lado  padre, do outro
  corteso. O seu sexo de demnio  duplo. O hipcrita  o horrvel hermafrodita
  do mal. Fecunda-se a si prprio; gera-se, transforma-se. Queres v-lo formoso?
  Olha-o. Queres v-lo horrvel? Vira-o.

Clubin tinha em si toda esta
  sombra de idias confusas. Pouco as percebia, mas gozava-as muito.

Uma poro de fascas do inferno,
  atravessando a noite, era a sucesso dos pensamentos naquela alma.

Clubin conservou-se pensativo
  algum tempo; olhava para a sua honestidade com o ar com que a serpente contempla
  a pele que despiu.

Toda a gente acreditou naquela
  honestidade, ele prprio acreditou um bocadinho nela.

Deu segunda gargalhada.

Iam pensar que ele estava morto, e
  estava vivo.

Pensavam que estava perdido, e
  estava salvo. Que boa caada  tolice universal!

E nessa tolice universal
  contava-se Rantaine. Clubin pensava em Rantaine com um desdm sem limites.
  Desdm da fuinha para com um tigre. Tinha conseguido o que falhara a Rantaine.
  Rantaine retirara-se enfiado, e Clubin triunfante. Tomou o lugar de Rantaine no
  leito da sua m ao, e foi ele quem teve a boa fortuna.

Quanto ao futuro, Clubin no tinha
  plano. Possua os bilhetes do banco na boceta de ferro atada  cintura;
  bastava-lhe esta certeza. Mudaria de nome. H pases onde 60 000 francos valem
  600 000. No seria m soluo ir para um desses lugares viver honestamente com o
  dinheiro apanhado ao ladro Rantaine. Especular, entrar em um grande negcio,
  engrossar o capital, tornar-se seriamente milionrio tambm no era
  mau.

Por exemplo, em Costa Rica, como
  era o comeo do grande comrcio do caf, podia ganhar tonis de ouro. Veria
  isso.

Demais, pouco importava. Clubin
  tinha tempo de pensar nessas coisas. O mais difcil estava feito. Despojar
  Rantaine, desaparecer com a Durande era o mais importante. Estava feito. O resto
  era simples. No havia obstculo possvel. Nada a temer. No podia acontecer
  nada. Nadaria para a costa, abordaria a Plainmont, de noite, galgaria as rochas
  da praia, iria  casa mal-assombrada, entraria facilmente por meio da corda de
  ns escondida de antemo no buraco do rochedo; acharia na casa a mala contendo
  roupa e vveres, dentro de oito dias l estavam os contrabandistas da Espanha,
  Blasquito provavelmente; por alguns guinus, far-se-ia transportar, no a Tor
  Bay, como disse a Blasco para iludir, mas a Pasages ou a Bilbau. Da iria a Vera
  Cruz ou a Nova Orleans. J era tempo de atirar-se ao mar, a chalupa estava
  longe, uma hora a nado era coisa nenhuma para Clubin, s 1 milha o separava da
  terra, pois que estava no Hanois.

Neste ponto dos seus clculos,
  rasgou-se uma fresta do nevoeiro. O formidvel rochedo Douvres surgiu aos seus
  olhos.

CAPTULO VII
INTERVM O
  INESPERADO

Clubin olhou espantado.

Era o medonho escolho
  isolado.

No era possvel a iluso a
  respeito daquela configurao disforme. As duas Douvres gmeas campeavam
  horrveis deixando ver entre si, como uma armadilha, a garganta de que falamos.
  Dissera-se um quebra-costas do oceano.

Estavam perto dele as rochas
  Douvres; o nevoeiro, como cmplice, escondera-as.

Clubin errara o caminho por causa
  do nevoeiro. Apesar de toda a ateno, aconteceu-lhe o mesmo que a dois grandes
  navegadores, a Gonzlez, que descobriu o cabo Branco, e a Fernndez, que
  descobriu o cabo Verde. A bruma desencaminhou-o. Pareceu-lhe excelente para a
  execuo do projeto, mas tinha os seus perigos. Clubin desviou-se para o oeste e
  enganou-se. O passageiro guernesiano, acreditando ver o Hanois, determinou o
  movimento do leme final; Clubin cuidou que se atirava ao Hanois.

A Durande, arrombada por um dos
  bancos do escolho, estava separada das Douvres apenas por algumas centenas de
  braas.

A 200 braas mais longe via-se um
  macio cubo de granito. Descobriam-se nas faces escarpadas desta rocha algumas
  estrias e relevos apropriados para galg-la.

Os cantos retilneos dessas rudes
  muralhas de ngulo reto faziam pressentir no cume uma planura.

Era o Homem.

A rocha Homem era mais alta ainda
  que as Douvres. A sua plataforma dominava as pontas inacessveis das duas
  rochas. Essa plataforma, abatendo-se pelas bordas, tinha uma cimalha e mostrava
  uma certa regularidade arquitetural. No se podia imaginar nada mais triste e
  funesto. As vagas iam dobrar as suas tranqilas toalhas nas faces quadradas
  daquele enorme rochedo negro, espcie de pedestal para os espectros imensos do
  mar e da noite.

Tudo aquilo estava mudo e morto.
  Havia apenas um sopro no ar e uma ruga nas ondas. Debaixo daquela superfcie
  muda da gua adivinhava-se a vasta vida afogada das profundezas.

Clubin vira muitas vezes de longe
  o escolho Douvres.

Convenceu-se bem que eram ali as
  Douvres.

No podia duvidar.

Sbita e terrvel mudana. As
  Douvres em vez de Hanois. Em vez de 1 milha, 5 lguas do mar! O impossvel. A
  rocha Douvres, para o nufrago solitrio,  a presena visvel e palpvel dos
  ltimos momentos.  impossvel chegar  terra.

Clubin estremeceu. Tinha se metido
  na goela da sombra. No havia outro refgio alm do rochedo Homem. Era provvel
  que a tempestade sobreviesse de noite, e que a chalupa da Durande,
  sobrecarregada, soobrasse. Nenhum aviso do naufrgio chegaria  terra. No se
  saberia mesmo que Clubin ficara no rochedo Douvres. No havia outra perspectiva
  seno a morte por frio e fome. Os seus 75.000 francos nem mesmo lhe davam um
  bocado de po. Tudo quanto ele construra deu em resultado aquela cilada; foi
  ele prprio o arquiteto laborioso de sua emboscada. Nenhum recurso. Nenhuma
  soluo possvel. O triunfo fazia-se precipcio. Em vez da liberdade, a captura.
  Em vez de um futuro prspero e longo, a agonia. De um relance esboroou-se-lhe o
  edifcio. O paraso sonhado por aquele demnio retomou a sua verdadeira figura:
  o sepulcro.

Entretanto, soprava o vento. O
  nevoeiro, sacudido, furado, repuxado, desfazia-se no horizonte em grandes lanhos
  informes. Reapareceu o mar.

Os bois, cada vez mais invadidos
  pela gua, continuavam a berrar no poro.

Aproximava-se a noite;
  provavelmente a tempestade.

A Durande, a pouco e pouco
  levantada pelo mar, oscilava da direita para a esquerda, depois da esquerda para
  a direita, e comeava a girar sobre o escolho como sobre um eixo.

Podia-se pressentir o momento em
  que uma vaga arrancaria o navio e o levaria gua abaixo.

Havia menos obscuridade do que no
  momento do naufrgio. Apesar da hora ser j avanada, estava mais claro. O
  nevoeiro levou consigo uma parte da escurido. O oeste limpou-se de nuvens. O
  crepsculo  um vasto cu branco. Essa vasta claridade alumiava o
  mar.

A Durande naufragara em plano
  inclinado de popa a proa. Clubin trepou  proa que estava quase fora da gua.
  Fitou no horizonte os olhos.

 prprio da hipocrisia ater-se 
  esperana. O hipcrita  o homem que espera. A hipocrisia  uma esperana
  horrvel: o fundo dessa mentira  feito desta virtude, tornada vcio.

Coisa estranha de dizer, h
  confiana na hipocrisia. O hipcrita confia-se a certa indiferena do
  desconhecido, que consente no mal.

Clubin olhava para a
  extenso.

A situao era desesperada: aquela
  alma sinistra no desesperou.

Dizia consigo que depois daquele
  longo nevoeiro os navios conservados na bruma,  capa ou ancorados, iam
  continuar viagem, e algum passaria no horizonte.

E, com efeito, apareceu uma
  vela.

Vinha de leste e ia para
  oeste.

Aproximando-se, desenhava-se o
  navio; tinha apenas um mastro, e estava armado em goleta. O gurups era quase
  horizontal.

Antes de meia hora devia passar
  por perto do escolho Douvres.

Clubin disse consigo: Estou
  salvo.

Em momentos semelhantes, pensa-se
  primeiro na vida.

O cter era quase estrangeiro.
  Quem sabe se no era um dos contrabandistas que iam a Plainmont? Quem sabe se
  no era Blasquito? Nesse caso, no somente salvava a vida como a fortuna; e o
  encontro do rochedo Douvres, apressando a concluso, suprimindo a espera na casa
  mal-assombrada, dando desfecho  aventura em pleno mar, seria um incidente
  feliz.

Toda a certeza do bom xito entrou
  freneticamente naquele esprito sombrio.

Estranha coisa  ver com que
  facilidade os tratantes acreditam que devem ser bem-sucedidos.

Cumpria fazer apenas uma
  coisa.

A Durande, metida nos rochedos,
  misturava a sua configurao  deles, confundia-se com os seus recortes, sobre
  os quais parecia apenas um lineamento, ficava indistinta e perdida, e no
  bastava, com o pouco dia que havia, para atrair a ateno da embarcao que ia
  passar.

Mas uma figura humana,
  desenhando-se na alvura crepuscular, de p na planura do rochedo Homem, e
  fazendo sinais de perigo, seria vista, sem dvida alguma. Mandariam um escaler
  para recolher o nufrago.

O rochedo Homem ficava a 200
  braas. Era simples atingi-lo a nado, fcil trepar por ele.

No havia tempo a
  perder.

Estando a proa da Durande sobre a
  rocha, era do alto da popa e do ponto em que estava que Clubin devia atirar-se
  ao mar.

Comeou por deitar uma sonda, e
  reconheceu que havia ao p da popa muito fundo. As conchas microscpicas de
  foraminferos e de policistinceos que a sonda trouxe consigo estavam intactas,
  o que indicava que havia ali profundas cavas de rocha, onde a gua, qualquer que
  fosse a agitao da superfcie, era sempre tranqila.

Despiu-se, deixando as roupas no
  tombadilho. Acharia roupa no cter. Conservou apenas o cinto de
  couro.

Depois de despir-se, levou a mo
  ao cinto, apertou-o bem, apalpou a caixinha de ferro, estudou rapidamente com o
  olhar a direo que devia seguir no meio dos parcis e das vagas para alcanar o
  rochedo Homem; depois, precipitou-se de cabea para baixo.

Como caiu de alto, mergulhou
  muito.

Chegou ao fundo do mar, tocou-o.
  Costeou alguns instantes as rochas submarinas, depois fez um movimento para
  subir  superfcie.

Nesse momento sentiu-se agarrado
  pelo p.

LIVRO STIMO
IMPRUDNCIA DE INTERRROGAR UM
  LIVRO

CAPTULO
  PRIMEIRO
A PROLA NO FUNDO DO
  PRECIPCIO

Minutos depois do curto colquio
  com o Sr. Landoys, Gilliatt estava em Saint-Sampson.

Gilliatt ia inquieto at 
  ansiedade. Que teria acontecido?

Saint-Sampson tinha um rumor de
  colmeia assustada. Toda a gente estava s portas. As mulheres exclamavam. Muitas
  pessoas contavam alguma coisa fazendo gestos; as outras agrupavam-se  roda
  dessas. Ouviam-se estas palavras: Que desgraa!. Alguns sorriam. Gilliatt no
  interrogou ningum. No era prprio dele fazer perguntas. Demais ia demasiado
  comovido para falar a indiferentes. Desconfiava das narraes, preferia saber
  logo tudo; foi  casa de Lethierry.

A sua ansiedade era tal que nem
  mesmo teve medo de entrar naquela casa.

Demais, a porta da sala baixa
  estava escancarada. Na soleira havia um formigueiro de homens e mulheres. Todos
  entravam; ele entrou.

Entrando, achou encostado  porta
  o Sr. Landoys, que lhe disse a meia-voz:

 Ento, j
  sabe do sucesso?

 No.

 Eu no
  quis dizer-lhe h pouco do meio da rua. Pareceria correio de
  desgraas.

 Que foi
  ento?

 Perdeu-se
  a Durande.

Havia muita gente na
  sala.

Os grupos falavam baixo, como no
  quarto de um doente.

Os assistentes, que eram os
  vizinhos, os viandantes, os curiosos, estavam amontoados ao p da porta, com uma
  espcie de receio, e deixavam vazio o fundo da sala onde estava, ao lado de
  Druchette lacrimosa e assentada, Mess Lethierry de p.

Lethierry estava encostado ao
  tabique do fundo. O bon de marujo caa-lhe nas sobrancelhas; uma mecha de
  cabelos grisalhos prendia-se-lhe na face. No dizia nada. Os braos no tinham
  movimento, a boca parecia no ter alento. Parecia uma coisa encostada 
  parede.

Ao v-lo, sentia-se um homem
  dentro de quem se extinguira a vida. Deixando de existir a Durande, Lethierry j
  no tinha razo de ser. Tinha uma alma no mar, e essa alma acabava de perecer.
  Que faria ele agora? Levantar-se de manh, deitar-se de noite. J no podia
  esperar a Durande, nem v-la partir nem voltar. O que  um resto de existncia
  sem objeto? Beber, comer, e depois? Aquele homem tinha coroado os seus trabalhos
  com uma obra-prima, e as dedicaes com um progresso. Abolira-se-lhe o
  progresso, morrera-lhe a obra-prima. Para que viver ainda alguns anos vazios?
  No tinha mais nada que fazer. Naquela idade no  possvel recomear; de mais a
  mais estava arruinado. Pobre velho!

Druchette, assentada ao p dele e
  chorando, tinha entre as suas duas mos a mo de Mess Lethierry. As dela estavam
  postas, a de Lethierry apertada. Via-se nisso a diferena daqueles dois
  abatimentos. As mos postas ainda tm esperana; a apertada nenhuma.

Mess Lethierry abandonava-lhe o
  brao sem resistncia. Estava passivo. Tinha em si apenas aquela poro de vida
  que pode haver depois do raio.

H certas descidas ao fundo do
  abismo que retiram um homem do meio dos vivos. As pessoas que andam em roda so
  confusas e indistintas; acotovelam-no e no lhe chegam. De parte a parte ficam
  inacessveis. A ventura e o desespero no so os mesmos centros respirveis; o
  desesperado assiste  vida dos outros, mas de muito longe; ignora quase a sua
  presena; perde o sentimento da prpria existncia; que importa ser de carne e
  osso, o desesperado j se no sente real; j no  ele prprio,  apenas um
  sonho.

Mess Lethierry tinha o olhar dessa
  situao.

Cochichavam os grupos.

Cada qual dizia o que
  sabia.

Eis as notcias:

A Durande perdera-se na vspera
  nos rochedos Douvres, com o nevoeiro, uma hora antes do pr-do-sol.  exceo do
  capito, que no quis deixar o navio, toda a gente salvou-se na chalupa. Uma
  borrasca, vinda do sudoeste, depois do nevoeiro, quase fez naufragar a chalupa,
  e carregou-a para o mar largo, alm de Guernesey. De noite tiveram os nufragos
  a boa fortuna de encontrar o Cashmere, que os recolheu e levou a
  Saint-Pierre-Port. O culpado de tudo foi o timoneiro Tangrouille, que j estava
  preso. Clubin mostrou-se magnnimo.

Os pilotos que abundavam nos
  grupos pronunciavam estas palavras escolho Douvres de um modo particular. M
  hospedaria aquela!, dizia um deles.

Viam-se na mesa uma bssola e um
  mao de registros e notas; eram sem dvida a bssola da Durande e os papis de
  bordo entregues por Clubin a Imbrancam e a Tangrouille no momento de partir a
  chalupa; magnfica abnegao desse homem, salvando at os papis no momento em
  que ia morrer; minuciazinha cheia de grandeza, esquecimento sublime de si
  prprio.

Todos eram unnimes em admirar
  Clubin, e igualmente unnimes em julg-lo salvo. O cter Shealtiel chegara poucas horas depois do Cashmere, e esse cter trazia as ltimas
  informaes. Esteve 24 horas nas mesmas guas da Durande. Parou e bordejou
  durante o nevoeiro e a tempestade. O patro do Shealtiel estava tambm na
  sala de Lethierry.

No momento em que Gilliatt entrou,
  acabava ele de fazer a sua narrao a Mess Lethierry. Era um verdadeiro
  relatrio. De manh, tendo cessado a borrasca e acalmado o vento, o patro do Shealtiel ouviu mugido de bois em pleno mar. Este rumor prprio das
  campinas, ouvido ali nas vagas, surpreendeu o patro. Descobriu a Durande nos
  rochedos Douvres. A calma era suficiente para que ele pudesse acercar-se dos
  rochedos. Chamou o navio  fala. S lhe respondeu o mugido dos bois que se
  afogavam no poro. O patro do Shealtiel estava certo de que no havia
  ningum a bordo da Durande. O casco estava completamente preso; e por mais
  violenta que fosse a borrasca, devia ter passado a noite de bordo. No era homem
  de desanimar facilmente. No estava de bordo. Logo estava salvo.

Muitos sloops e lugres de
  Granville e Saint-Malo, desprendendo-se do nevoeiro, era fora de dvida que
  deviam ter costeado as Douvres. Evidentemente algum deles recolheu o Capito
  Clubin. Devem lembrar-se que a chalupa da Durande estava cheia ao deixar o
  navio, ia correr perigos, mais um homem poderia faz-la soobrar, e foi isso
  sobretudo o que resolveu Clubin a ficar na Durande; mas, cumprido esse dever, se
  aparecesse um navio salvador, Clubin no teria dificuldade de aproveitar-se
  dele. Deve-se ser heri, no se deve ser pasccio. Um suicdio seria tanto mais
  absurdo quanto que Clubin portara-se com dignidade. O culpado era Tangrouille,
  no Clubin. Tudo isto era conseqente; o patro do Shealtiel tinha razo
  e toda a gente esperava ver Clubin de um momento para outro. Premeditava-se
  receb-lo em triunfo.

Da narrao do mestre resultavam
  duas certezas: Clubin salvo e a Durande perdida.

Quanto  Durande, estava decidido
  que a catstrofe era irremedivel. O patro do Shealtiel assistira 
  ltima fase do naufrgio. O grandssimo rochedo em que naufragara a Durande
  resistira ao choque da tempestade, como se quisesse guardar consigo o navio; mas
  de manh, no momento em que o Shealtiel, verificando que no havia
  ningum para salvar, afastava-se da Durande, houve um desses movimentos de mar
  que so como os ltimos arrancos da clera das tempestades. Essa onda levantou
  furiosamente a Durande, arrancou-a do cachopo, e com a rapidez e a retido de
  uma flecha disparada, atirou-a entre as duas rochas Douvres. Ouviu-se um estalo
  diablico, dizia o patro. A Durande, levada pela vaga a uma certa altura,
  meteu-se entre as rochas. Estava outra vez pregada, mas desta vez mais
  solidamente que no escolho submarino. Ficou a deploravelmente suspensa, exposta
  a todo o vento e a todo mar.

A Durande, no dizer da equipagem
  do Shealtiel, j estava quase toda despedaada. Teria soobrado, com
  certeza, de noite, se o cachopo no a sustivesse. O patro do Shealtiel com o seu culo estudou o casco. Descreveu o desastre com preciso martima; o
  lado de estibordo estava roto; os mastros truncados, o velame sem tralhas, as
  correntes dos ovns quase todas cortadas, as sangadilhas cortadas o mais rente
  possvel desde o meio do mastro at acima; o lugar dos vveres arrombado, os
  cavaletes da chalupa destrudos, a rvore do leme rota, os cabos despregados, os
  paveses arrasados, as abitas levadas pelo vento, a antena do mesmo modo, o
  cadaste quebrado. Era a devastao frentica da tempestade. Quanto ao guindaste
  do carregamento, preso ao mastro de proa, j no existia, no havia notcia
  dele, completamente limpo, levaram-no os diabos, com todas as roldanas, pols e
  correntes. A Durande estava deslocada; a gua comeava agora a despeda-la.
  Dentro de alguns dias nada mais restaria dela.

E contudo a mquina, coisa
  notvel, e que provava a sua perfeio, sofreu pouco com a tempestade. O patro
  do Shealtiel afirmava que a manivela no teve avaria grave. Os mastros do
  navio cederam, mas o cano da mquina resistiu. Os baluartes de ferro do lugar do
  comando estavam apenas torcidos; as caixas das rodas sofreram, mas as rodas
  pareciam no ter um s raio de menos. A mquina estava intacta. Era a convico
  do patro do Shealtiel. O maquinista Imbrancam, que estava entre os
  grupos, partilhava esta convico. Aquele negro, mais inteligente que muitos
  brancos, era o admirador da mquina. Levantava os braos abrindo os dez dedos
  das suas mos negras, e dizia a Lethierry mudo: Meu amo, a mquina est
  viva.

O salvamento de Clubin parecia
  coisa segura; o casco da Durande estava sacrificado; a conversao dos grupos
  recaiu sobre a mquina. Interessavam-se por ela, como se fosse uma pessoa. Todos
  admiravam o bom procedimento da mquina. Slida comadre aquela, dizia um
  marinheiro francs.  magnfica!, exclamava um pescador guernesiano. Deve ter
  sido muito astuciosa, acrescentava o patro, para escapar apenas com alguns
  arranhes.

A pouco e pouco tornou-se a
  mquina a preocupao nica. Animou as opinies pr e contra. Tinha amigos e
  inimigos. Mais de um, que tinha algum velho cter de vela, e esperava apanhar a
  freguesia da Durande, alegrou-se por ver o escolho Douvres fazer justia  nova
  inveno. O cochicho tornou-se algazarra. Discutia-se com barulho. Era contudo
  um rumor discreto, que de quando em quando se calava sob a presso do silncio
  sepulcral de Lethierry.

Do colquio havido em todos os
  pontos resultava isto:

A mquina era o essencial. Refazer
  o navio era possvel, no a mquina. Era nica. Para fabricar outra faltavam o
  dinheiro e o fabricante. Lembram-se de que o construtor tinha morrido. Custou 40
  000 francos. Ningum arriscaria agora aquele capital naquela eventualidade;
  tanto mais quanto acabava de provar-se que os vapores naufragam como navios de
  vela; o acidente atual da Durande metia a pique o seu passado sucedimento. E era
  doloroso pensar que naquele momento a mquina ainda estava em bom estado, e que,
  antes de cinco ou seis dias, ficaria despedaada como o navio. Enquanto existia
  a mquina, podia dizer-se que no havia naufrgio. S a perda da mquina era
  irremedivel. Salvar a mquina era reparar o desastre.

Salvar a mquina  fcil diz-lo.
  Mas quem ousaria? Era acaso possvel? Dizer e executar so coisas diferentes, e
  a prova  que  fcil formular uma aspirao e difcil execut-la. Ora, se houve
  jamais um sonho impraticvel e insensato era este: salvar a mquina encalhada
  nas Douvres. Mandar trabalhar naquelas rochas um navio e uma equipagem seria
  absurdo; no se devia pensar nisso. Era a estao dos temporais: ao primeiro que
  houvesse, rasgavam-se as correntes das amarras nas pontas submarinas e o navio
  despedaava-se. Era mandar um naufrgio em socorro do primeiro. Na espcie de
  buraco da planura superior onde se abrigara o nufrago legendrio morto de fome,
  mal havia lugar para um homem. Era preciso, pois, que, para salvar essa mquina,
  fosse um homem aos rochedos Douvres, e que fosse sozinho, s naquele mar, s
  naquele deserto, s a 5 lguas da costa, naquele medo, s durante semanas
  inteiras, s diante do previsto e do imprevisto, sem vitualhas nas angstias da
  privao, sem socorro nos incidentes da desgraa, sem outro vestgio humano que
  o do antigo nufrago morto ali, sem outro companheiro alm daquele
  finado.

E como salvaria ele a mquina? Era
  preciso que fosse, no somente marujo, seno tambm ferreiro. E quantas
  dificuldades! O homem que o tentasse seria mais que um heri. Seria um louco.
  Porquanto, em certos cometimentos desproporcionados, onde parece necessrio o
  sobre-humano, a bravura tem acima de si a demncia. E, com efeito, sacrificar-se
  por um pouco de ferro no era extravagante? No, ningum iria aos rochedos
  Douvres. Devia-se renunciar  mquina do mesmo modo que ao navio. O salvador que
  era preciso no aparecia. Onde encontrar esse homem?

Isto, dito de outro modo, era o
  fundo das conversas murmuradas daquela multido.

O patro do Shealtiel, que
  era um antigo piloto, resumiu o pensamento de todos exclamando em alta
  voz:

 No! Est
  acabado. No existe um homem capaz de ir buscar a mquina!

 Se eu no
  vou  disse Imbrancam   que  impossvel ir.

O patro do Shealtiel sacudiu a mo esquerda com aquele arrebatamento que exprime a convico do
  impossvel, e repetiu:

 Se
  existisse.

Druchette voltou a
  cabea.

 Casava-me
  com ele.

Houve um silncio.

Um homem plido saiu do meio dos
  grupos e disse:

 A senhora
  casava-se com ele, Miss Druchette?

Era Gilliatt.

Entretanto, todos levantaram os
  olhos. Mess Lethierry endireitou-se. Tinha nos olhos uma luz
  estranha.

Tirou o bon e lanou ao cho,
  depois olhou solenemente para a frente sem ver pessoa alguma e disse:

 Druchette
  casava-se com esse homem. Dou a minha palavra de honra a Deus.

CAPTULO II
GRANDE ESPANTO NA COSTA
  OESTE

A noite desse dia, das 10 horas em
  diante, devia ser noite de luar. Todavia, qualquer que fosse a boa aparncia da
  noite, do vento e do mar, nenhum pescador estava disposto a sair nem de Hougue
  la Perre, nem de Bordeaux, nem de Houmet Benet, nem de Platon, nem de Port-Grat,
  nem da baa Vason, nem de Perelle Bay, nem de Pezeris, nem de Tielles, nem da
  baa dos Santos, nem de Petit B, nem de nenhum outro porto ou angra de
  Guernesey. E isso por uma razo simples: o galo tinha cantado ao
  meio-dia.

Quando o galo canta a uma hora
  extraordinria, no h peixe.

Nesse dia, pois, ao cair da tarde,
  um pescador que voltava a Omptolle teve uma surpresa. Na altura de Houmet
  Paradis, alm de Brayes e Grunes, tendo  esquerda a baliza de Plattes Fougres,
  que representa um funil virado, e  direita a baliza de Saint-Sampson, que
  representa uma figura de homem, o pescador acreditou ver uma terceira baliza.
  Que baliza era essa? Quando foi posta ali? Que banco indicava ela? A baliza
  respondeu logo a estas interrogaes; mexeu-se; era um mastro. No diminuiu o
  espanto do pescador. Baliza era para admirar; mastro ainda mais. No havia pesca
  possvel. Quando todos voltavam, por que saa aquele? Quem era? Por
  qu?

Dez minutos depois, o mastro,
  caminhando lentamente, chegou a pouca distncia do pescador de Omptolle. Este
  no pde reconhecer o barco. Ouviu remar. O rudo era de dois remos.
  Provavelmente era um homem s. O vento era norte; o homem navegava evidentemente
  para ir tomar o vento alm da ponta Fontenelle. A era natural que abrisse a
  vela. Contava pois dobrar o Ancresse e o monte Crevel. Que queria dizer
  aquilo?

O mastro passou; o pescador foi
  para terra.

Nessa mesma noite, na costa oeste
  de Guernesey, observadores de ocasio disseminados e isolados fizeram alguns
  reparos a horas diversas e em diversos pontos.

O pescador de Omptolle acabava de
  amarrar o barco, quando um condutor de sargao, a meia milha distante,
  chicoteando os animais na estrada deserta de Clotures, perto do Cromleche, nos
  arredores dos martelos 6 e 7, viu no mar, um tanto longe, em lugar pouco
  freqentado, porque  preciso conhec-lo bem, do lado da Roque-Nord e da
  Sablonneuse, um barco iando uma vela. Deu pouca ateno, pois que era homem de
  carro e no de barco.

Meia hora depois, um estucador que
  voltava da cidade e contornava a lagoa de Pele achou-se repentinamente quase em
  face de um barco que penetrara audaciosamente entre as rochas do Quenon, da
  Rousse de Mer, e da Gripe de Rousse. A noite era negra, mas o mar estava claro,
  efeito que se produz muitas vezes, e podia-se distinguir ao largo os navegantes.
  S havia no mar aquele barco.

Mais abaixo e mais tarde, um
  pescador de lagostas, dispondo as suas tendas no areal que separa o Port Soif do
  Port Enfer, no compreendeu o que faria um barco que passava entre a Boue
  Corneille e a Moulrette. Era preciso ser bom piloto e ter pressa de chegar a
  algum lugar para arriscar-se a passar ali.

Sendo 8 horas no Catel, o
  taverneiro de Cobo Bay observou, com algum espanto, uma vela alm da Boue do
  Jardim e das Grunettes, mui perto da Suzanne e dos Grunes do Oeste.

No longe do Cobo Bay, na ponta
  solitria do Houmet da baa Vason, estavam dois namorados a despedir-se e a
  reter-se um ao outro; foram distrados do ltimo beijo por um vasto barco que
  passou por perto deles e dirigia-se para as Menellettes.

O Sr. Le Peyre des Norgiots,
  morador em Catellon Pipet, estava examinando, s 9 horas da noite, um buraco
  feito por larpios na cerca da sua horta, e ao mesmo tempo que averiguava os
  estragos, no pde deixar de observar um barco dobrando temerariamente o
  Croce-Point quela hora.

No dia seguinte ao de uma
  tempestade, com o resto de agitao que sempre fica no mar, aquele itinerrio
  era pouco seguro, a menos que se no saiba de cor todos os passos. s 9 horas e
  meia, no Equerrier, um pescador levando a rede, parou algum tempo para ver entre
  Colombelle e Soufleresse alguma coisa que devia ser um barco e que se expunha
  muito ao tempo. H ventos perigosos nesse lugar. A rocha Soufleresse  assim
  chamada porque sopra constantemente os barcos que passam.

Ao levantar da lua, estando a mar
  cheia, e havendo pleno mar no estreito de Li-Hou, o guarda solitrio da ilha de
  Li-Hou assustou-se ao ver passar entre a lua e ele uma longa forma negra. Esta
  forma ia resvalando lentamente por cima das espcies de paredes que formam os
  bancos da rocha. O guarda de Li-Hou pensou ver a Dama Negra.

A Dama Branca habita o Tau de Pez
  d'Amont, a Dama Cinzenta habita o Tau de Pez d'Aval, a Dama Vermelha habita a
  Lilleuse ao norte do Banc-Marquis, e a Dama Negra habita o Grand-Etacr ao leste
  de Li-Houmet. Ao claro da lua todas essas damas saem e encontram-se s
  vezes.

Rigorosamente essa forma negra
  podia ser uma vela. As longas fileiras de rochas sobre as quais parecia que a
  vela andava podiam com efeito esconder o casco de um barco vogando atrs de si,
  deixando ver apenas a vela. Mas o guarda perguntou a si prprio que barco
  ousaria arriscar-se quelas horas entre Li-Hou e a Pecheresse, e as Angullires
  e Lere-Point. E com que fim? Pareceu-lhe mais provvel que fosse a Dama
  Negra.

Estando a lua j acima da torre de
  Saint-Pierre-du-Bois, o sargento de Rocquaine levantou metade da escada da ponte
  levadia e distinguiu na foz da baa, mais perto que a Sambule, um barco  vela
  que parecia descer de norte a sul.

Existe na costa sul de Guernesey,
  atrs do Plainmont, no fundo de uma baa, toda precipcios e muralhas, cortado a
  pique na onda, um porto singular que um francs, residente na ilha desde 1844,
  talvez o mesmo que escreve agora estas linhas, batizou com o nome de porto do
  quarto andar, nome geralmente adotado hoje. Esse porto que ento se chamava a
  Moie,  uma planura de rocha meio natural, meio talhada, de 40 ps de altura
  acima da gua, e comunicando com as vagas por duas grandes pranchas em plano
  inclinado. Os barcos iados  fora de braos por correntes e roldanas, saem ao
  mar e descem ao longo dessas pranchas que so dois trilhos. Para os homens h
  uma escada. Esse porto era ento muito freqentado pelos contrabandistas. Sendo
  pouco praticvel, era-lhes cmodo.

Pelas 11 horas, alguns
  trapaceiros, talvez os mesmos com quem Clubin contava, estavam com os seus
  fardos na Moie. Quem trapaceia, espia; eles espiavam. Admiraram-se de ver uma
  vela desembocando repentinamente alm das linhas negras do cabo Plainmont. O
  luar estava claro. Os contrabandistas espreitavam a vela, receando que fosse
  algum guarda-costa colocar-se de emboscada atrs do grande Hanois, mas a vela
  passou os Hanois, deixou atrs de si a noroeste a Boue Blondil, e mergulhou-se
  ao largo nas brumas lvidas do horizonte.

 Aonde
  diabo vai aquela barca?  disseram os contrabandistas.

Na mesma noite, pouco depois de
  pr o sol, ouviu-se algum bater na porta da casa mal-assombrada em que morava
  Gilliatt. Era um rapaz vestido de escuro, com meias amarelas, o que indicava ser
  sacristo. A casa estava fechada, porta e postigos. Uma velha pescadora de
  frutos do mar, passeando pelo banco, com uma lanterna na mo, chamou o rapaz, e
  trocaram-se estas palavras entre eles:

 Que quer
  voc?

 O
  hhhhhhooomem daqui.

 No est
  aqui.

 Onde
  est?

 No
  sei.

 Vir
  amanh?

 No
  sei.

 Foi-se
  embora daqui?

 No
  sei.

  que o
  novo cura da parquia, o Reverendo Ebenezer Caudray, queria fazer-lhe uma
  visita.

 No
  sei.

 O
  reverendo mandou-me saber se o homem estava em casa amanh de manh.

 No
  sei.

CAPTULO III
NO TENTEIS A
  BBLIA

Nas 24 horas que se seguiram, Mess
  Lethierry no dormiu nem comeu, nem bebeu, beijou a testa de Druchette,
  informou-se de Clubin, do qual ainda no havia notcias, assinou um papel
  declarando que no pretendia dar queixa, e fez soltar Tangrouille.

Ficou, todo o dia seguinte, meio
  encostado  mesa do escritrio da Durande, nem assentado nem de p, respondendo
  com brandura a quem lhe falava. Demais, estando satisfeita a curiosidade, ficou
  solitria a casa de Lethierry. H muitos desejos de observar na solicitude de
  lamentar. Fechara-se a porta; deixava-se Lethierry com Druchette. O relmpago
  que passara nos olhos de Lethierry estava extinto; voltara-lhe o olhar lgubre
  do comeo da catstrofe.

Druchette, assustada, foi
  caladinha, conselho de Graa e Doce, colocar ao lado dele, na mesa, um par de
  meias que Lethierry tecia quando a triste notcia chegou.

Lethierry sorriu amargamente e
  disse:

 Ento
  pensam que no tenho juzo?

Depois de um quarto de hora de
  silncio, acrescentou:

 Estas
  manias so boas quando a gente  feliz.

Druchette tirou o par de meias, e
  aproveitou a ocasio para tirar tambm a bssola e os papis de bordo, que Mess
  Lethierry contemplava demasiadamente.

De tarde, um pouco antes da hora
  do ch, a porta abriu-se e entraram dois homens, vestidos de preto, um velho, e
  outro moo.

O moo j foi visto no curso desta
  narrao.

Tinham ambos um ar grave, mas de
  gravidade diferente; o velho tinha aquilo que se pode chamar gravidade de
  profisso; o mancebo tinha a gravidade da natureza. A primeira vem do hbito, a
  segunda nasce do pensamento.

Eram, como indicava o traje, dois
  padres, pertencendo ambos  religio estabelecida.

O que se notava desde logo no
  mancebo era que a gravidade, profunda no olhar, e resultando do esprito, no
  nascia absolutamente da pessoa. A gravidade admite a paixo, exala-a,
  purificando-a, mas aquele mancebo era, antes de tudo, lindo. Sendo padre, devia
  ter ao menos 25 anos; parecia ter dezoito. Apresentava uma harmonia e um
  contraste, isto , tinha uma alma que parecia feita para a paixo e um corpo que
  parecia feito para o amor. Era loiro, rosado, fresco, delicado e flexvel,
  apesar do vesturio severo, com faces de donzela e mos delicadas; embora
  reprimido, tinha o gesto vivo e natural. Tudo nele era encanto, elegncia e
  quase volpia. A beleza de seu olhar corrigia esse excesso de graa. O sorriso
  sincero, que deixava ver uns dentes de criana, era pensativo e religioso. Era a
  gentileza de um pajem e a dignidade de um bispo.

Debaixo dos espessos cabelos
  loiros, to dourados que pareciam garridos, tinha ele um crnio elevado, cndido
  e bem-feito. Uma leve ruga de inflexo dupla, entre as duas sobrancelhas,
  despertava confusamente a idia da ave do pensamento pairando, com as asas
  abertas, no meio daquela fronte.

Sentia-se, ao v-lo, uma dessas
  criaturas benvolas, inocentes e puras, que progridem em sentido inverso da
  humanidade vulgar, a quem a iluso torna sbias e a experincia
  entusiastas.

A mocidade transparente deixava
  ver a maturidade interior. Comparado ao padre de cabelos grisalhos que o
  acompanhava,  primeira vista, parecia filho, reparando-se bem, parecia
  pai.

Era este o Dr. Jaquemin Herodes. O
  Dr. Jaquemin Herodes pertencia  alta Igreja, que  pouco mais ou menos um
  papismo sem papa. O anglicanismo nessa poca era agitado pelas tendncias que
  depois se afirmaram e condensaram no pusesmo. O Dr. Jaquemin Herodes era desse
  matiz anglicano, que  quase uma variao romana. Era alto, correto, delgado e
  superior. O raio visual interior mal se distinguia de fora. O seu esprito era
  cingir-se  letra. De mais a mais era altivo. Enchia com a sua pessoa o lugar
  que ocupava. Parecia menos um reverendo que um monsenhor. A casaca era talhada 
  moda de sotaina. Em Roma  que ele estaria bem. Nascera para ser prelado da
  Cmara. Parecia ter sido criado expressamente para ser ornamento do papa, e ir
  atrs da cadeira gestatria, com toda a corte pontifcia, in abito
    paonazzo. O acidente de ter nascido ingls e uma educao teolgica mais
  voltada para o Antigo Testamento que para o Novo fizeram com que lhe falhasse
  esse destino. Todos os seus esplendores resumiram-se nisto: ser cura de
  Saint-Pierre-Port, decano da ilha de Guernesey e sub-rogado do bispo de
  Winchester. No h dvida que era glria tudo isso.

Essa glria no impedia que o Sr.
  Jaquemin Herodes fosse um bom homem.

Como telogo, dispunha da estima
  dos conhecedores e fazia quase autoridade em Arches, que  a Sorbonne da
  Inglaterra.

Tinha um ar douto, um piscar de
  olhos apto e exagerado, narinas cabeludas, dentes visveis, o lbio inferior
  fino e o lbio superior espesso, muitos diplomas, uma gorda prebenda, amigos
  bares, a confiana do bispo, e continuamente trazia uma Bblia na
  algibeira.

Mess Lethierry estava to
  completamente absorto, que tudo quanto pde produzir nele a entrada dos dois
  padres foi um imperceptvel enrugar de sobrancelhas.

O Sr. Jaquemin Herodes
  aproximou-se, cumprimentou, recordou em poucas palavras, sobriamente altivas, a
  sua recente promoo e disse que vinha, segundo o uso, apresentar aos notveis,
  e a Mess Lethierry especialmente, o seu sucessor na parquia, o novo cura de
  Saint-Sampson, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray que da em diante seria o pastor
  de Mess Lethierry.

Druchette levantou-se.

O padre moo, que era o Reverendo
  Ebenezer, inclinou-se.

Mess Lethierry olhou para o Sr.
  Ebenezer Caudray, e mastigou entre dentes estas palavras: Mau
  marinheiro.

Graa apresentou cadeiras. Os dois
  reverendos assentaram-se perto da mesa.

O Dr. Herodes comeou um speech. Tinha sabido de um acontecimento. Naufragara a Durande. Vinha,
  como pastor, trazer consolao e conselho. O naufrgio era uma desgraa, mas era
  tambm uma felicidade. Sondemo-nos; no nos inchava a prosperidade? As guas da
  felicidade so perigosas. No se deve tomar as desgraas  m parte. Os caminhos
  do Senhor so desconhecidos. Mess Lethierry estava arruinado. Pois ser opulento
   estar em perigo. Aparecem amigos falsos. A pobreza afasta-os. Fica-se isolado. Solus eris. A Durande dizem que dava 1 000 libras esterlinas por ano. Era
  demais para um filsofo. Fujamos s tentaes, desdenhemos o ouro. Aceitemos com
  reconhecimento a runa e o abandono. O isolamento d frutos. Ganha-se nele as
  graas do Senhor. Foi na solido que Aia achou as guas quentes conduzindo os
  asnos de Sebeo, seu pai. No nos revoltemos contra os impenetrveis decretos da
  Providncia. O santo homem J, depois da sua misria, cresceu em riquezas. Quem
  sabe se a perda da Durande no teria compensaes, mesmo temporais? Tambm ele,
  Herodes, empregara capitais em uma magnfica operao que se realizava em
  Sheffield; se Mess Lethierry, com os fundos que lhe restavam, quisesse entrar
  nesse negcio, podia refazer a fortuna; era um grande fornecimento de armas ao
  czar para reprimir a Polnia. Ganharia 300 por cento.

A palavra czar pareceu despertar
  Lethierry, que interrompeu o Dr. Herodes:

 No quero
  nada com o czar.

O Reverendo Herodes
  respondeu:

 Mess
  Lethierry, os prncipes so aceitos por Deus. Deus escreveu: Dai a Csar o que
   de Csar. O czar  Csar.

Lethierry, meio absorto na cisma,
  murmurou:

 Quem 
  Csar? No conheo.

O Reverendo Herodes continuou a
  exortao. No insistiu por Sheffield. No aceitar Csar era ser republicano. O
  reverendo compreendia que um homem fosse republicano. Nesse caso, compreendia
  que Mess Lethierry se voltasse para uma repblica. Mess Lethierry podia
  estabelecer a fortuna nos Estados Unidos; melhor do que na Inglaterra. Se
  quisesse decuplicar o que lhe restava, bastava-lhe tomar aes na grande
  companhia de explorao das plantaes do Texas, que empregava mais de 20 000
  negros.

 No quero
  nada com a escravido, disse Lethierry.

 A
  escravido  replicou o Reverendo Herodes   de instituio sagrada. Est
  escrito: Se o senhor bater o escravo, nada lhe ser feito, porque bate o seu
  dinheiro.

Graa e Doce, na soleira da porta,
  ouviam com uma espcie de xtase as palavras do reverendo doutor.

O reverendo continuou. Era, em
  suma, como dissemos, um bom homem; e quaisquer que pudessem ser os seus
  sentimentos de casta ou de pessoa com Mess Lethierry, vinha-lhe sinceramente dar
  o auxlio espiritual, e mesmo temporal, de que dispunha.

Se Mess Lethierry estava arruinado
  ao ponto de no poder cooperar, com fruto, numa especulao qualquer, russa ou
  americana, por que no entrava no governo e nas funes assalariadas? So nobres
  empregos esses, e o reverendo estava pronto a introduzir Mess Lethierry. Vagara
  em Jersey o lugar de deputado-visconde. Mess Lethierry era amado e estimado, e o
  Reverendo Herodes, decano de Guernesey, podia obter para Mess Lethierry o
  emprego de deputado-visconde de Jersey. O deputado-visconde  um funcionrio
  considervel, assiste, como representante de Sua Majestade, aos atos jurdicos,
  aos debates da plebe e s execues de sentenas.

Lethierry fixou os olhos no Dr.
  Herodes.

 No gosto
  de enforcamentos  disse ele.

O Dr. Herodes, que at ento
  pronunciara todas as palavras com a mesma inflexo, teve um acento de severidade
  e uma inflexo nova:

 Mess
  Lethierry, a pena de morte  ordenada por Deus, Deus entregou a espada ao homem.
  Est escrito: Olho por olho, dente por dente.

O Reverendo Ebenezer aproximou
  imperceptivelmente a sua cadeira da cadeira do Reverendo Jaquemin, e disse-lhe
  de modo que no fosse ouvido seno por ele:

 O que este
  homem diz -lhe ditado.

Por quem?  perguntou no mesmo tom
  o Reverendo Herodes.

 Pela
  conscincia.

O Reverendo Herodes meteu a mo no
  bolso, tirou um grosso volume em 18, encadernado com fechos, p-lo na mesa e
  disse em voz alta:

 A
  conscincia  isto.

O livro era a Bblia.

Depois foi-se abrandando o Dr.
  Jaquemin. O seu desejo era ser til a Mess Lethierry, que considerava ser um
  homem forte. Como pastor, tinha ele direito e dever de aconselhar; todavia Mess
  Lethierry tinha a liberdade de aceitar ou recusar o conselho.

Mess Lethierry, caindo outra vez
  na absoro e no abatimento, j no ouvia. Druchette, assentada ao p dele, e
  pensativa tambm, no levantava os olhos, e dava quela prtica pouco animada a
  poro de acanhamento que resulta de uma presena silenciosa. Uma testemunha que
  no diz palavra  uma espcie de peso indefinvel. Mas o Dr. Herodes no parecia
  senti-lo.

Como Lethierry no respondia, o
  Dr. Herodes deu largas  palavra. O conselho vem do homem, a inspirao vem de
  Deus. H inspirao no conselho do padre.  bom aceitar os conselhos e perigoso
  rejeit-los. Schoth foi agarrado por onze diabos por ter desdenhado das
  exortaes de Nataniel. Tiburiano foi atacado de lepra por ter posto fora de
  casa o apstolo Andr. Barjesus, apesar de mgico, ficou cego por ter zombado
  das palavras de So Paulo. Elxai e suas irms Marta e Martena esto no inferno a
  esta hora por terem desprezado as advertncias de Valencianus, que lhes provava,
  claro como o dia, que o Jesus Cristo deles, de 38 lguas de comprimento, era um
  demnio. Oolibama, que tambm se chama Judite, obedecia aos conselhos. Rubem e
  Feniel ouviam os conselhos do cu; bastam os nomes deles para indic-los; Rubem
  significa filho da viso, e Feniel significa face de Deus.

Mess Lethierry deu um soco na
  mesa.

 Mas a
  culpa  minha!

 Que que
  dizer?  perguntou Jaquemin Herodes.

 Digo que a
  culpa  minha.

 Culpa de
  qu?

 Por ter
  mandado vir a Durande  sexta-feira.

O Sr. Jaquemin Herodes murmurou ao
  ouvido do Sr. Ebenezer Caudray:

 Este homem
   supersticioso.

Continuou depois, e em tom de
  mestre:

 Mess
  Lethierry,  pueril acreditar na sexta-feira. No se deve acreditar em fbula. A
  sexta-feira  um dia como qualquer outro. s vezes  data feliz. Melendez fundou
  a cidade de Santo Agostinho em sexta-feira; foi numa sexta-feira que Henrique
  VII deu a sua comisso a John Cabot; os peregrinos do Mayflower chegaram
  a Province-Town em sexta-feira. Washington nasceu na sexta-feira, 22 de
  fevereiro de 1732; Cristvo Colombo descobriu a Amrica na sexta-feira, 12 de
  outubro de 1492.

Dizendo isto,
  levantou-se.

Ebenezer, que tinha ido com ele,
  levantou-se tambm.

Graa e Doce, adivinhando que os
  reverendos iam despedir-se, abriram as portas.

Mess Lethierry no via nem ouvia
  nada.

O Sr. Jaquemin Herodes disse em
  aparte ao Sr. Ebenezer Caudray:

 Nem nos
  cumprimenta. No  tristeza,  embrutecimento. Devemos crer que ele est
  doido.

Entretanto, pegou na Bblia e
  colocou-a entre as mos abertas, como quem segura um pssaro com receio que
  fuja. Esta atitude criou entre os personagens presentes uma certa espera. Graa
  e Doce esticaram a cabea.

A voz de Herodes fez quanto pde
  para ser majestosa.

 Mess
  Lethierry, no nos separemos sem ler uma pgina do livro santo. As situaes da
  vida so esclarecidas pelos livros; os profanos tm as sortes virgilianas, os
  crentes tm as advertncias bblicas. O primeiro livro, apanhado ao acaso,
  aberto ao acaso, d um conselho; a Bblia, aberta ao acaso, faz uma revelao. 
  sobretudo boa para os aflitos. O que a Santa Escritura respira indubitavelmente
   um lenitivo s dores. Diante dos aflitos deve-se consultar o santo livro sem
  escolher o lugar, e ler com candura o passo encontrado. O que o homem no
  escolhe, escolhe-o Deus. Deus sabe o que precisamos. O seu dedo invisvel aponta
  o passo inesperado que ns lemos. Qualquer que seja a pgina, rebenta-lhe luz.
  No busquemos outro.  a palavra do cu. O nosso destino  revelado
  misteriosamente no texto evocado com confiana e respeito. Ouamos e obedeamos.
  Mess Lethierry, o senhor tem uma aflio, este  o livro da consolao; est
  enfermo, este  o livro da sade.

O Reverendo Jaquemin Herodes abriu
  a mola do fecho, meteu o dedo ao acaso entre duas pginas, ps a mo no livro
  aberto, e concentrou-se; depois, abaixando os olhos com autoridade, leu em alta
  voz.

Eis o que leu:

Isaac passeava no caminho que vai
  ter ao poo chamado Poo daquele que vive e v.

Rebeca, vendo Isaac, disse: `Quem
   este homem que vem andando para mim?'

Ento Isaac f-la entrar na sua
  tenda, e tomou-a por mulher, e grande foi o amor que lhe teve.

Ebenezer e Druchette olharam um
  para o outro.

SEGUNDA
  PARTE
O ENGENHEIRO
  GILLIATT

LIVRO
  PRIMEIRO
O
  ESCOLHO

CAPTULO
  PRIMEIRO
INCMODA CHEGADA, DIFCIL
  SADA

J os leitores tero adivinhado
  que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em
  horas diversas, era a pana. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se
  abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho direto. Tomar o
  mais curto foi o cuidado dele. Os nufragos no esperam. O mar  coisa urgente,
  uma hora de demora podia ser irreparvel. Queria chegar depressa para socorrer a
  mquina.

Saindo de Guernesey, uma das
  preocupaes de Gilliatt era no despertar a ateno. Saiu como quem fugia.
  Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa de leste como se achasse
  intil passar  vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre-Port; resvalou
  silenciosamente ao longo da costa oposta, que  relativamente inabitada. Nos
  bancos teve de remar; mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hidrulica:
  tomar a gua sem choque e impeli-la devagar; desse modo pde nadar na
  obscuridade com a maior fora e o menor rumor possveis. Parecia que ia cometer
  uma ao feia.

A verdade  que, atirando-se de
  olhos fechados a um cometimento que parecia impossvel, e arriscando a vida com
  todas as probabilidades contra ele, receava a concorrncia.

Como o dia comeava a despontar,
  os olhos ignotos que esto talvez abertos no espao puderam ver no meio do mar,
  num ponto em que h mais solido e ameaa, duas coisas entre as quais ia
  diminuindo o intervalo, sendo que uma aproximava-se da outra. Uma, quase
  imperceptvel no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca
  havia um homem; era a pana levando Gilliatt. A outra, imvel, colossal, negra,
  tinha, sobranceira s vagas, uma surpreendente figura. Dois altos pilares
  amparavam acima da gua, no vcuo, uma espcie de travesso horizontal, que era
  como que uma ponte entre as duas cumeadas. O travesso, to informe de longe que
  seria impossvel adivinhar o que era, fazia corpo com os dois pilares. Parecia
  uma porta. Por que haveria uma porta naquela abertura de todos os lados do mar?
  Dissera-se um dlmen titnico plantado ali, em pleno oceano, por uma fantasia
  magistral, e construdo por mos que tm o hbito de apropriar ao abismo as suas
  construes. Aquela medonha forma levantava-se na claridade do cu.

A luz da manh ia crescendo a
  leste; a alvura do horizonte aumentava a negrido do mar. Do lado oposto,
  declinava a lua.

Os dois pilares eram as Douvres. A
  espcie de massa apertada entre eles como uma arquitrave era a
  Durande.

Apertando assim a sua vtima, e
  deixando-a ver, o escolho era horrvel. A atitude daqueles rochedos era uma
  espcie de repto. Parecia esperar.

Nada mais altivo e arrogante como
  tudo aquilo; o navio vencido, o abismo vitorioso. Os dois rochedos, ainda
  gotejantes da tempestade da vspera, pareciam dois combatentes em suor. Tinha
  acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; adivinhava-se que havia  flor
  da gua alguns bancos onde os penachos de escuma caam com graa; de longe vinha
  um murmrio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nvel, menos as duas
  Douvres, levantadas e tesas como duas colunas negras. Os flancos escarpados
  tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta.
  Compreendia-se que elas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquilo
  uma espcie de onipotncia trgica.

De ordinrio, o mar oculta os seus
  lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incomensurvel sombra guarda tudo
  para ele.  raro que o mistrio renuncie ao segredo. H um qu de monstro na
  catstrofe, mas em quantidade ignota. O mar  patente e secreto; esconde-se, no
  quer divulgar as suas aes. Produz um naufrgio e abafa-o; engolir  o seu
  pudor. A vaga  hipcrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois
  abranda-se.

Nada semelhante nas Douvres. Os
  dois rochedos, levantando acima das ondas o cadver da Durande, tinham um ar de
  triunfo. Dissera-se dois braos saindo do golfo, e mostrando s tempestades o
  cadver daquele navio. Era uma coisa igual ao assassino que se vangloria do
  crime.

A isto acrescentava-se o horror
  sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza misteriosa que se compe de um
  resto de sonho e de um comeo de pensamento. Nesse momento turvado, como que
  flutua ainda um pouco de espectro. A espcie de imenso H maisculo formado pelas
  duas Douvres com a Durande no centro aparecia no horizonte no meio de uma certa
  majestade crepuscular.

Gilliatt vestia a roupa do mar,
  camisa de l, meias de l, sapatos tacheados, japona de l, cala de pano grosso
  mal tecido, com bolsos, e na cabea um daqueles barretes de l vermelha usados
  ento na marinha, e que se chamavam, no sculo passado, galriennes.

Reconheceu o escolho e
  avanou.

A Durande estava ao contrrio de
  um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.

No havia mais estranho
  cometimento que o de salvar a mquina daquele navio.

Era dia claro quando Gilliatt
  chegou s guas do escolho.

Como dissemos, havia pouco mar. A
  gua tinha apenas a quantidade de agitao que lhe dava a estreiteza entre os
  rochedos. H sempre marulho nos espaos de gua como aquele, quer sejam grandes,
  quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.

Gilliatt no abordou ao Douvres
  sem precauo.

Deitou a sonda muitas
  vezes.

Gilliatt tinha de fazer um pequeno
  desembarque de matalotagem.

Afeito s ausncias, tinha sempre
  pronta em casa a matalotagem. Era um saco de biscoito, um saco de farinha de
  centeio, uma cesta de stockfish e de carne fumada, um grande pichel de
  gua doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas
  de l, grevas alcatroadas e uma pele de carneiro que ele punha de noite em cima
  da japona. Tinha posto tudo isso, s carreiras, na pana e mais um bocado de po
  fresco. Com a pressa no levou outra ferramenta mais que o martelo da forja, o
  machado e a picareta, uma serra e uma corda de ns armada de fateixa. Com uma
  escada desta ordem e a maneira de servir dela, as subidas escabrosas tornam-se
  praticveis nos mais rudes declives.

Pode-se ver na ilha de Serk a
  vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante
  corda.

As redes e as linhas e todo o
  arsenal de pescaria estavam na barca. P-los dentro por costume, e
  maquinalmente, porquanto, tendo de tentar at o ltimo esforo, talvez se
  demorasse algum tempo no arquiplago de cachopos, e o aparelho da pescaria 
  intil em tais stios.

No momento em que Gilliatt abordou
  o escolho o mar baixava, circunstncia favorvel. As vagas decrescentes
  descobriram, ao p da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas,
   semelhana de arpus carregando um pavimento. Essas superfcies, umas
  estreitas, outras largas, encadeando e elevando-se, com espaos desiguais, ao
  longo do monlito vertical, prolongava-se em cornija at debaixo da Durande, que
  abarcava o espao entre os dois rochedos. Estava apertada ali como um
  tornilho.

Eram cmodas aquelas plataformas
  para desembarcar e observar. Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o
  carregamento da pana. Mas era preciso apressar-se, porque elas estariam fora da
  gua pouco tempo. Quando a mar enchesse, ficariam outra vez
  cobertas.

Foi para essas rochas, umas
  chatas, outras declives, que Gilliatt impeliu e fez parar a pana.

Uma espessura de sargao, mida e
  escorregadia, cobria essas rochas, e a obliqidade de algumas delas mais
  escorregadias as tornava.

Gilliatt descalou-se, saltou
  sobre o limo e amarrou a pana em uma ponta do rochedo.

Depois aproximou-se o mais devagar
  que pde sobre a estreita cornija de granito, chegou debaixo da Durande,
  levantou os olhos e contemplou-a.

A Durande estava presa, suspensa,
  e como que ajustada entre os dois penedos, 20 ps acima das vagas. Era preciso
  que fosse atirada ali por uma furiosa violncia do mar.

To impetuoso empurro no faz
  pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de janeiro de 1840, no
  golfo de Stora, uma tempestade, j expirante, fez saltar um brigue, de um s
  pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Marne e incrustou-o, com
  o gurups  frente, entre dois penedios.

Demais, nas Douvres apenas havia
  um resto da Durande.

O navio arrancado s vagas foi de
  algum modo desenraizado da gua pelo furaco. O turbilho do vento tinha-o
  torcido, o turbilho do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso
  pelas duas mos da tempestade, quebrou-se como se fora uma ripa. O pedao da
  popa, com a mquina e as rodas, arrebatado das guas e impelido por toda a fria
  do ciclone para a garganta das Douvres, l ficou. O vento foi acertado; para
  meter aquele casco entre os dois rochedos, o furaco transformou-se em maa. A
  proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.

O poro, que estava arrombado,
  esvaziara no mar os bois, mortos.

Um grande pedao da amurada da
  proa ainda estava preso ao casco, mas pendurado nas caixas das rodas por algumas
  lascas, fceis de quebrar com um machado.

Viam-se aqui e ali, nas
  anfratuosidades longnquas do escolho, barrotes, tbuas, pedaos de vela,
  pedaos de correntes, todos os destroos, tranqilos nos rochedos.

Gilliatt contemplava com ateno a
  Durande. A quilha era o teto que lhe ficava sobre a cabea.

O horizonte, onde a gua iluminada
  apenas se mexia, estava sereno. O sol saa esplendidamente daquela vasta massa
  azul.

De tempos a tempos uma gota de
  gua destacava-se do navio e caa no mar.

CAPTULO II
AS PERFEIES DO
  DESASTRE

As Douvres eram diferentes de
  forma como de altura

Na pequena Douvre, recurvada e
  aguda, viam-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha cor de
  tijolo relativamente tenra, que fechava com as suas lminas o interior do
  granito. Nessas lminas avermelhadas havia, de espao a espao, fendas prprias
  para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi to bem trabalhada
  pelos arremessos do mar, que tornou-se uma espcie de nicho, onde podia
  guardar-se uma esttua. O granito da pequena Douvre era arredondado na
  superfcie e macio como pedra de toque, o que no lhe tirava a dureza que tinha.
  A pequena Douvre terminava em ponta como um chifre. A grande Douvre, polida,
  unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um s jato e
  parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ela
  era impossvel; no podia servir nem  fuga de um criminoso, nem ao ninho de um
  pssaro. No cume havia, como no rochedo Homem, uma plataforma; era, porm,
  inacessvel.

Podia-se trepar pela pequena
  Douvre, mas no ficar l, podia-se ficar na grande Douvre, mas no se podia
  subir.

Gilliatt, depois de lanar os
  olhos por tudo aquilo, voltou  pana, descarregou-a na mais larga das cornijas
   flor da gua, fez de todo o carregamento, alis pequeno, uma espcie de
  pacote, atou-o num pano alcatroado, depois iou-o por meio de um cabo at um
  ponto da rocha onde o mar no podia chegar; feito isto, abraou-se  pequena
  Douvre e, com ps e mos, de fenda em fenda, trepou por ela at a Durande, que
  estava no ar.

Chegando  altura das caixas das
  rodas, saltou dentro.

O interior do navio era
  lgubre.

A Durande apresentava todos os
  vestgios de um arrombamento medonho. Era a violao tremenda da tempestade. A
  tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um atentado
  que-um naufrgio. Nuvens, trovo, chuva, vagas, tufes, rochedos, horrvel
  multido de cmplices  esta.

No meio daqueles destroos,
  pensava-se em alguma coisa semelhante ao tripdio furioso dos espritos do mar.
  Tudo eram vestgios de raiva. As tores estranhas de certos ferros indicavam a
  ao impetuosa dos ventos. O convs assemelhava-se  clula de um louco; tudo
  estava despedaado.

Nenhum animal estrangula uma pedra
  como o ar. A gua regurgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga  um
  queixo.  um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual 
  pata do leo.

O descalabro da Durande
  apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma espcie de terrvel
  descascamento. Muitas coisas pareciam feitas de propsito. Que maldade!, podia
  dizer-se. As fraturas das amuradas eram feitas com arte. Este gnero de
  destruio  prprio do ciclone. Retalhar e adelgaar tal  o capricho desse
  devastador enorme. O ciclone usa das averiguaes do carrasco. Os seus desastres
  parecem suplcios. Dissera-se que algum rancor o anima;  requintado como um
  selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufrgio, vinga-se, diverte-se; 
  mesquinhamente cruel.

Raros so os ciclones em nossos
  climas, e tanto mais terrveis quanto que so inesperados. Um rochedo encontrado
  pode fazer andar  roda a tempestade.  provvel que a borrasca tivesse feito
  espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do
  escolho, o que explicava o salto do navio a tamanha altura naquelas rochas.
  Quando o ciclone sopra, um navio pesa tanto como a pedra de uma
  funda.

A Durande tinha a chaga que fica
  ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de
  destroos semelhante a entranhas. O cordoame flutuava e estremecia; as correntes
  balanavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nus e pendiam no
  ar. O que no estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco
  assemelhava-se a uma almofada eriada de pregos; em tudo havia a forma de runa;
  uma barra de p-de-cabra no era menos que um simples pedao de ferro; uma sonda
  era apenas um pedao de chumbo; uma dria era apenas uma ponta de cnhamo; uma
  talha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentvel da
  destruio; nada havia que no estivesse despregado, desenganchado, rachado,
  rodo, recurvado, aniquilado; nenhuma adeso naquele feio monto de destroos;
  em tudo o deslocamento e a rutura, esse aspecto de inconsistente e lquido que
  caracteriza todas as confuses, desde as refregas dos homens, que se chamam
  batalhas, at as refregas dos elementos, que se chamam caos. Tudo esboroava,
  tudo caa, e uma torrente de tbuas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas
  tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar
  tudo ao mar. O que restava daquela poderosa carena to triunfante outrora, toda
  aquela parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cair, tudo estava
  roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do
  navio.

Debaixo cuspia a espuma sobre
  aquela coisa miservel.

CAPTULO III
S, MAS NO
  SALVA

Gilliatt no esperava achar
  somente metade do navio. Nas indicaes, alis to precisas, do capito Shealtiel, nada fazia pressentir aquela diviso pelo meio. Foi talvez na
  ocasio em que o navio partiu-se, debaixo da imensa espessura da espuma, que
  houve aquele estalo diablico ouvido pelo capito do Shealtiel. O
  capito afastava-se sem dvida no momento do ltimo sopro do vento, e no viu
  que era uma tromba que impelia o navio. Mais tarde, aproximando-se para observar
  o desastre, viu apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo
  rochedo o lado fraturado donde se rompera metade do navio.

Exceto isto, o capito do Shealtiel disse tudo exato. O casco estava perdido, a mquina estava
  intacta.

So freqentes estes acasos nos
  naufrgios como nos incndios. No se pode compreender a lgica do
  desastre.

Os mastros quebrados tinham cado;
  o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo
  manteve-o intacto e completo. O revestimento de tbuas das rodas estava
  destrudo como as lminas de uma persiana; mas atravs das fendas viam-se as
  rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.

Alm da mquina, tinha resistido o
  grande cabrestante da popa. Tinha ainda a corrente, e graas ao seu robusto
  encaixe em um quadro de tabues, ainda podia prestar servios, uma vez que se
  no rompesse a prancha. O pedao do casco metido entre as Douvres estava firme,
  j o dissemos, e parecia slido.

A conservao da mquina tinha um
  qu de irrisrio e acrescentava a ironia  catstrofe. A sombria malcia do
  desconhecido mostra-se, s vezes, nessas espcies de zombarias amargas. A
  mquina estava salva, o que no impedia que estivesse perdida. O oceano
  guardava-a para demoli-la aos poucos. Divertimento de gato.

A mquina ia agonizar e
  desfazer-se pea por pea. Ia diminuir dia a dia e, por assim dizer,
  derreter-se. Ia servir de brinco s selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquele
  pesado monto de mecanismos e encaixes, macio e delicado a um tempo, condenado
   imobilidade por seu peso, entregue na solido s foras demolidoras, posto
  pelo cachopo  discrio do vento e do mar, pudesse, sob a presso daquele lugar
  implacvel, escapar  destruio lenta era at loucura imagin-lo.

A Durande estava prisioneira das
  Douvres.

Como tir-la dali? Como
  libert-la?

A evaso de um homem  difcil;
  mas que problema no  este: a evaso de uma mquina!

CAPTULO IV
PRVIO EXAME
  LOCAL

Gilliatt estava cercado de
  urgncias. O mais urgente era achar ancoradouro para a pana, e depois abrigo
  para si.

A Durande estava mais carregada a
  bombordo, que a estibordo, e, por isso, a roda direita ficava mais elevada que a
  da esquerda.

Gilliatt subiu  caixa das rodas
  da direita. Da dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas
  alinhadas em ngulos por trs das Douvres fizesse muitos cotovelos, Gilliatt
  pde estudar o plano geomtrico do escolho.

Comeou por a.

As Douvres, como indicamos, eram
  duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos
  perpendiculares na frente. No  raro achar nas formaes submarinas primitivas
  esses corredores singulares feitos como que a machado.

Aquele, que era tortuoso, nunca
  estava a seco, mesmo nas mars baixas. Uma corrente agitada atravessava-o
  sempre. A impetuosidade do redemoinho era boa ou m, segundo o rumo do vento
  reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cair; ora exasperava-a. Este ltimo
  caso era o mais freqente; o obstculo encoleriza a vaga e leva-a aos excessos;
  a espuma  a exagerao da vaga.

O vento da tempestade, naqueles
  estrangulamentos entre duas rochas, sofre a mesma compresso e adquire a mesma
  malignidade.  a tempestade no estado de estranguria. O sopro imenso fica
  imenso, mas faz-se agudo.  ao mesmo tempo maa e dardo. Fura e esmaga. Imaginai
  o furaco fazendo-se vento coado.

As duas cadeias de rochedos,
  deixando entre si essa espcie de rua do mar, terminavam em degraus mais baixos
  que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma
  certa distncia. Havia a outra foz menos elevada que as das Douvres, porm mais
  estreita ainda e que era a entrada, a leste, daquela garganta. Adivinhava-se que
  o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da gua
  at o rochedo Homem, colocado como uma cidadela quadrada na outra extremidade do
  escolho.

Nas mars baixas, e era nessa
  ocasio que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus
  dorsos, alguns a seco, todos visveis, e coordenando-se sem
  interrupo.

O Homem limitava e resguardava no
  levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas
  Douvres.

Todo o escolho, visto a vo de
  pssaro, apresentava um rosrio recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as
  Douvres e na outra o Homem.

O escolho Douvres, visto em seu
  conjunto, era apenas a imerso de duas gigantescas lminas de granito tocando-se
  quase e caindo verticalmente, como uma crista de montes que esto no fundo do
  oceano. H, fora do abismo, essas esfoliaes imensas. A lufada e a onda tinham
  recortado essa crista como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que
  a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a
  Durande era o centro dessas duas lminas colossais.

Essa viela, em ziguezague como o
  relmpago, tinha quase em todos os pontos a mesma largura. O oceano f-la assim.
  O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe da gua uma
  geometria.

De um cabo a outro da garganta, as
  duas muralhas da rocha faziam-se face paralelamente a uma distncia que a
  Durande media quase com exatido entre as duas Douvres; o esvaziamento da
  pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar s caixas das rodas. Em qualquer
  outro lugar as caixas ficariam quebradas.

A dupla fachada interna do escolho
  era hedionda. Quando na explorao do deserto de gua chamado Oceano chega-se s
  coisas ignotas do mar, torna-se tudo surpreendente e disforme. Aquilo que
  Gilliatt, do alto do casco, podia ver na garganta fazia horror. H muitas vezes
  nas gargantas granticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufrgio.
  A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os xidos da
  rocha davam-lhe aqui e ali umas vermelhides imitando placas de sangue coalhado.
  Era uma espcie de transudao sangrenta de um matadouro. Havia um ar de aougue
  naqueles parcis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela
  decomposio dos amlgamas metlicos misturados  rocha, ali pelo bolor,
  ostentava vermelhides hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma
  idia de morte e de extermnio. Acreditava-se ver uma parede ainda no enxuta do
  quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aqueles os vestgios de um
  despedaamento de homens; a rocha ngreme tinha um cunho de agonias acumuladas.
  Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e
  parecia impossvel apoiar o dedo sem tir-lo sangrento. Por toda a parte
  aparecia uma ferrugem de morticnio. Ao p do duplo declive paralelo, esparso 
  flor da gua ou debaixo da vaga, ou a seco nas escavaes, monstruosos seixos
  redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanas de
  vsceras; acreditava-se ver pulmes frescos ou fgados ptridos. Dissera-se que
  ali se tinham esvaziado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se
  poderiam tomar por destilaes fnebres, riscavam o granito de alto a
  baixo.

Esses aspectos so freqentes nas
  cavernas do mar.

CAPTULO V
UMA PALAVRA A RESPEITO DAS
  COLABORAES SECRETAS DOS ELEMENTOS

A forma de um escolho no  coisa
  indiferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condenados 
  habitao temporria de um escolho no oceano.

H o escolho Pirmide, um cimo
  fora da gua; h o escolho crculo, coisa semelhante a uma roda de pedras
  grandes; h o escolho corredor. O escolho corredor  o pior de todos. No
  somente por causa da angstia das ondas entre as rochas e do tumulto das guas
  apertadas, mas tambm por causa das propriedades meteorolgicas que parecem
  desprender-se do paralelismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes retas
  so um verdadeiro aparelho de Volta.

Orienta-se o escolho corredor, e
  isso  importante. Resulta da uma primeira ao sobre o ar e a gua. O escolho
  corredor atua na gua e no vento mecanicamente, pela forma, galvanicamente, pela
  atrao diversa dos seus planos verticais, massas sobrepostas e contrariadas
  umas pelas outras.

Esta espcie de escolhos atrai
  todas as foras furiosas esparsas no furaco, e tem sobre a borrasca uma
  singular fora de concentrao.

Donde resulta que nas paragens
  desses cachopos h uma certa acentuao da tempestade.

Cumpre saber que o vento 
  compsito. Acredita-se que o vento  simples; engano. Essa fora no  somente
  dinmica,  qumica; no  somente qumica,  magntica. Tem alguma coisa que 
  inexplicvel.

O vento  to eltrico como areo.
  Certos ventos coincidem com auroras boreais. O vento do banco da Anguila rola
  vagas de 100 ps de altura, espanto de Dumont d'Urville. A corveta, disse ele,
  no sabia a quem havia de atender.

Debaixo das lufadas austrais,
  verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se to horrvel que
  os selvagens fogem para no v-lo.

As lufadas boreais so outras;
  misturam-se de pontas de gelo e esses furaces irrespirveis impelem para a neve
  os trens dos esquims. Outros ventos queimam.  o simum da frica,  o tufo da
  China e o samiel da ndia. Simum, Tufo, Samiel; parece que so demnios estes
  nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulco de
  Toluca. Este vento quente, turbilho cor de tinta atirando-se sobre as nuvens
  encarnadas, fez dizer aos vedas: Eis a o Deus negro que vem roubar as vacas
  encarnadas. Sente-se em tudo isto a presso do mistrio eltrico.

O vento  cheio desse mistrio. Do
  mesmo modo o mar. Tambm ele  complicado; debaixo das suas vagas de guas, que
  se vem, h outras vagas de foras, que se no vem. Compem-se de tudo. De
  todas as misturas, a do oceano  a mais invisvel e a mais profunda.

Tentai conhecer esse caos, to
  enorme que vai ter ao nada.  o recipiente universal, reservatrio para as
  fecundaes, cadinho para as transformaes. Amassa, depois dispersa; acumula,
  depois semeia; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e
  aferrolha-os.  slido no banco, lquido na gua, fluido no eflvio. Como
  matria  massa, e como fora  abstrao. Iguala e consorcia os fenmenos.
  Simplifica-se no infinito pela combinao.  a fora da mescla e da turvao que
  chega  transparncia. A diversidade solvel prende-se na sua unidade. Tem
  tantos elementos diversos que  idntico. Uma das suas gotas  todo ele. Como 
  cheio de tempestades, torna-se equilbrio. Plato via danar esferas; coisa
  estranha, mas real na colossal evoluo terrestre  roda do Sol, o oceano, com o
  seu fluxo e refluxo,  o pndulo do globo.

No fenmeno do mar, todos os
  fenmenos esto presentes. O mar  aspirado pelo turbilho como um sifo; uma
  tempestade  um corpo de bomba; o raio vem da gua como do ar; nos navios
  sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sai do poo das correntes.
  O oceano ferve. O diabo ps o mar na sua caldeira, dizia Ruyter.

Em certas tempestades que
  caracterizam os movimentos das estaes e as entradas em equilbrio das foras
  genesacas, os navios batidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flamas de
  fsforo correm pelo cordoame, to misturadas aos cabos que os marinheiros
  estendem a mo e procuram apanhar esses pssaros de fogo. Depois do terremoto de
  Lisboa, um hlito de fornalha impeliu para a cidade uma vaga de 60 ps de
  altura. A oscilao ocenica liga-se ao estremecimento terrestre.

Essas energias incomensurveis
  tornam possveis todos os cataclismos.

No fim de 1864, a 100 lguas das
  costas de Malabar, soobrou uma ilha, como se fosse um navio. Os pescadores que
  tinham sado de manh voltaram  noite e no acharam nada; apenas puderam ver as
  suas aldeias debaixo da gua; e desta vez foram os barcos que assistiram ao
  naufrgio das casas.

Na Europa, onde parece que a
  natureza sente-se constrangida em respeito  civilizao, tais acontecimentos
  so raros at  impossibilidade presumvel.

Todavia Jersey e Guernesey fizeram
  parte da Glia; e, no momento em que escrevemos, um vento equincio acaba de
  demolir na fronteira da Inglaterra e da Esccia o penedio da praia chamado
  Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.

Em parte alguma essas foras
  pnicas aparecem mais formidavelmente amalgamadas do que no surpreendente
  estreito boreal chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord  o mais temvel dos
  escolhos-bocais do oceano. A a demonstrao  completa. E o mar da Noruega, a
  vizinhana do tremendo golfo Stavanger, o 59 grau de latitude. A gua  pesada
  e negra com uma febre de tempestade intermitente.

Nessa gua, no meio da solido, h
  uma grande rua sombria. No  rua para pessoa alguma. Ningum passa ali; nenhum
  navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de 10 lguas de comprido, entre duas
  muralhas de 3 000 ps de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovelos e
  ngulos como todas as ruas do mar, que nunca so retas, pois que so feitas pela
  toro da vaga.

No Lyse-Fiord, a vaga  quase
  sempre tranqila; o cu  sereno; lugar terrvel. Onde est o vento? No est em
  cima. Onde est o trovo? No est no cu. O vento est debaixo do mar; o trovo
  est debaixo da rocha.

De tempos a tempos h um
  estremecimento debaixo da gua. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer
  no ar, no meio da altura do penedio vertical, a 1 000 ou 1 500 ps acima das
  vagas, mais do lado do sul que do norte, o rochedo reboa subitamente, rompe da
  um relmpago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos que se
  alongam e contraem nas mos das crianas; tem contraes e ampliaes esse
  relmpago, fere a rocha oposta, entra outra vez, torna a aparecer, recomea,
  multiplica as suas cabeas e as suas lnguas, eria-se, fere onde pode, recomea
  ainda, at que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de pssaros. Nada  to
  misterioso como essa artilharia saindo do invisvel. Um rochedo ataca outro.
  Fulminam entre si os cachopos.  uma guerra que nada tem com os homens. dio de
  dois penedos no golfo.

No Lyse-Fiord o vento torna-se
  eflvio, a rocha desempenha as funes de nuvem, e o trovo tem arrojos de
  vulco.  uma pilha aquele estranho estreito; tem por elementos as suas duas
  filas de rochas.

CAPTULO VI
CAVALARIA PARA O
  CAVALO

Gilliatt era sabedor de cachopos e
  no tomava as Douvres ao srio. Antes de tudo, j o dissemos, tratou ele de pr
  a pana em segurana.

A dupla fileira de arrecifes que
  se prolongava sinuosamente por trs das Douvres fazia grupo com os outros
  rochedos, e adivinhavam-se cavas e sacos saindo da viela, e prendendo-se 
  garganta principal como ramos a um tronco.

A parte inferior dos escolhos
  estava tapetada de sargao e a parte superior de lquen. O nvel uniforme do
  sargao em todas as rochas marcava a linha da flutuao da mar
  cheia.

As pontas que a gua no atingia
  tinham o prateado e o dourado que d aos granitos marinhos o lquen branco e o
  lquen amarelo.

Cobria a rocha em certos pontos
  uma lepra de conchas corrodas.

Em outros pontos, nos ngulos
  reentrantes, onde se acumulara uma areia fina, ondeada na superfcie antes pelo
  vento que pela vaga, havia tufos de cardo azul.

Nos redentes pouco batidos pela
  espuma, reconheciam-se as pequenas covas furadas pelos ursos-do-mar. Este
  urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraa
  compe-se de mais de 10 000 peas artisticamente ajustadas e soldadas, o
  urso-marinho, cuja boca se chama, ningum sabe por que, lanterna de Aristteles,
  cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas
  alvolas  que os pescadores de frutos do mar do com ele. Cortam-no em quatro
  partes e comem-no cru como ostra. Alguns metem o po naquela carne mole. Da o
  nome de ovo do mar.

As cumeadas dos bancos descobertas
  pela mar que vazava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma espcie de
  angra murada quase por todos os lados. Havia ali evidentemente um ancoradouro
  possvel. Gilliatt observou a angra. Tinha a forma de uma ferradura e abria-se
  de um s lado, ao vento leste, que  o menos mau daquelas paragens. O vento ali
  estava preso e quase adormecido. Era segura aquela baiazinha. Nem Gilliatt tinha
  muito onde escolher.

Se Gilliatt quisesse aproveitar a
  mar vazante, devia apressar-se.

O tempo continuava a ser
  magnfico. Estava de bom humor aquele insolente mar.

Gilliatt tornou a descer, calou
  os sapatos, desatou a amarra, entrou na barca e navegou para fora. Costeava com
  o remo a parte externa do cachopo.

Chegando perto do Homem, examinou
  a entrada da angra.

Um certo ondeado na mobilidade da
  gua, ruga imperceptvel a qualquer que no fosse marinheiro, desenhava aquele
  passo.

Gilliatt estudou alguns instantes
  a curva, lineamento quase indistinto na vaga, depois tomou ao largo, a fim de
  virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um s movimento de remo, entrou na
  angra.

Sondou.

Era excelente o
  ancoradouro.

A pana estaria protegida ali
  quase contra todas as eventualidades da estao.

Os mais temveis arrecifes tm
  desses recantos tranqilos. Os portos que se acham nos escolhos assemelham-se 
  hospitalidade do beduno; so honestos e seguros.

Gilliatt arranjou a pana o mais
  perto do Homem que lhe foi possvel, em ponto que no pudesse perder-se, e ps
  ao mar as duas ncoras. Feito isto, cruzou os braos e refletiu.

A pana estava abrigada; era um
  problema resolvido; mas apresentava-se o segundo. Onde abrigar-se
  Gilliatt?

Ofereciam-se dois pontos; o
  primeiro era a prpria pana, com o seu camarote mais ou menos habitvel; o
  segundo era o cimo do rochedo Homem, fcil de escalar.

De qualquer destes dois ngulos
  podia-se ir a p nas vazantes, saltando-se de rocha em rocha, at Douvres, onde
  estava a Durande.

Mas a vazante dura apenas um
  momento, e no resto do tempo ficava ele separado, ou do asilo ou da Durande, por
  umas 200 braas. Nadar no mar de um escolho a outro  difcil; com qualquer
  agitao  impossvel.

Era preciso desistir da pana e do
  Homem.

Nenhuma estao possvel nos
  rochedos vizinhos.

Os cimos inferiores desaparecem
  duas vezes por dia debaixo da enchente da mar.

Os cimos superiores eram
  constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. Inspita lavagem.

Restava o casco da Durande.

Podia-se viver ali?

Gilliatt teve essa
  esperana.

CAPTULO VII
QUARTO PARA O
  VIAJANTE

Meia hora depois, Gilliatt, de
  volta  Durande, subia e descia no interior do tombadilho ao poro, aprofundando
  o exame sumrio de sua pequena visita.

Com auxlio do cabrestante, tinha
  ele iado  Durande o pacote que fez do carregamento da pana. O cabrestante
  comportara-se bem. No faltava onde meter o carregamento. Gilliatt tinha, no
  meio daqueles destroos, muito onde escolher.

Achou entre as runas um escopro
  cado sem dvida da selha de carpinteiro e com o qual aumentou ele a
  ferramenta.

Alm disso, como tudo serve onde
  no h abundncia, tinha consigo a faca.

Gilliatt trabalhou o dia no casco,
  limpando, consolidando, simplificando. A tardinha se conheceu isto:

Todo o casco tiritava ao vento,
  tremia a cada passo de Gilliatt. S era estvel e firme a parte do casco metida
  entre os rochedos, que continha a mquina e ficava poderosamente presa ao
  granito.

Instalar-se na Durande era
  imprudente. Era sobreposse; e, longe de dar peso ao navio, cumpria torn-lo mais
  leve.

Carregar sobre o casco era o
  contrrio do que cumpria fazer.

Aquela runa queria melhores
  tratos. Era uma espcie de doente que expira. Havia bastante vento para
  maltrat-la.

J era mau ter de trabalhar nela.
  A poro de trabalho que o casco devia suportar naturalmente talvez o fatigasse
  mais do que comportavam as suas foras.

Alm disso, se sobreviesse algum
  acidente noturno durante o sono de Gilliatt, estar no navio era soobrar com
  ele. Nenhum auxilio possvel; tudo ficava perdido. Para socorrer o navio, era
  preciso estar fora dele.

Fora dele e junto dele, tal era o
  problema.

Complicava-se a
  dificuldade.

Onde achar um abrigo em tais
  condies?

Gilliatt pensou.

S restavam as duas Douvres.
  Pareciam pouco habitveis.

Via-se, debaixo, no plat superior
  da grande Douvre, uma espcie de excrescncia.

As rochas em p, com a parte
  superior chata, como a grande Douvre e o Homem, so penedos decapitados, abundam
  nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram
  em mar largo, tm entranhas como se foram rvores golpeadas. Parecem ter
  recebido um golpe de machado. Com efeito, essas rochas andam sujeitas ao vaivm
  do furaco, que  o lenhador do mar.

Existem outras causas de
  cataclismo mais profundas ainda. Da vem que h tantas feridas em todos esses
  velhos granitos. Alguns desses colossos tm a cabea cortada.

s vezes a cabea, sem que se
  possa explicar, no cai e fica mutilada, no cume do rochedo. No  rara essa
  singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Table, no vale de Annweiler,
  apresentam nas mais surpreendentes condies esse estranho enigma
  geolgico.

Provavelmente tinha acontecido 
  grande Douvre alguma coisa semelhante.

Se a intumescncia que havia no
  plat no era natural, era necessariamente algum fragmento que ficara da
  decapitao.

Talvez houvesse alguma escavao
  nesse pedao de rocha.

Buraco para meter-se um homem; era
  o que Gilliatt queria.

Mas como chegar at l. Como
  trepar por aquela coluna vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de
  uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superfcie
  ensaboada?

Gilliatt tirou da caixa da
  ferramenta a corda de ns, prendeu-a  cintura e ps-se a escalar a pequena
  Douvre.  proporo que ia subindo, tornava-se mais difcil a ascenso.
  Esquecera-se de tirar os sapatos, o que aumentava a dificuldade. No sem custo
  chegou  ponta. Chegando  ponta, ps-se de p sobre ela. Havia apenas lugar
  para os ps. Fazer disso um lugar para descansar e dormir era difcil. Um
  estilita contentara-se; Gilliatt, mais exigente, queria coisa melhor.

A pequena Douvre curvava-se para a
  grande, e de longe parecia cumpriment-la, e o intervalo das duas Douvres, que
  era de uns 20 ps embaixo, era apenas de 8 ou 10 ps em cima.

Da ponta, onde trepara, Gilliatt
  viu mais distintamente a intumescncia que cobria a plataforma da grande
  Douvre.

Essa plataforma elevava-se umas 3
  toesas acima da cabea dele.

Separava-o dela um
  precipcio.

O declive da pequena Douvre
  desaparecia debaixo dele.

Gilliatt desprendeu da cintura a
  corda de ns, tomou rapidamente com o olhar as dimenses e atirou a ponta da
  corda sobre a plataforma.

O gancho arranhou a rocha e
  resvalou. A corda de ns que tinha o gancho na extremidade caiu aos ps de
  Gilliatt ao longo da pequena Douvre.

Gilliatt recomeou, lanando a
  corda mais longe e visando a protuberncia grantica onde via
  buracos.

O lano foi to destro e to firme
  que o gancho segurou.

Gilliatt puxou.

Desprendeu-se a corda, e veio
  bater na coluna abaixo de Gilliatt.

Gilliatt lanou a corda pela
  terceira vez.

Desta vez no caiu.

Gilliatt puxou a corda. A corda
  resistiu. O gancho estava seguro. Ficara seguro em alguma anfratuosidade da
  plataforma que Gilliatt no podia ver.

Tratava-se de confiar a vida
  quela desconhecida priso do gancho.

Gilliatt no hesitou.

Urgia tudo. Era preciso ir quanto
  antes.

Alm de que, descer ao tombadilho
  da Durande para procurar qualquer outro meio era coisa impossvel. O
  resvalamento era provvel e a queda quase certa. Sobe-se, no se
  desce.

Tinha Gilliatt, como todos os bons
  marinheiros, movimento de previso. Nunca perdia fora. Vinham da os prodgios
  de vigor que ele executava com msculos ordinrios; tinha as foras comuns, mas
  uma grande coragem. Ao lado da fora, que  fsica, tinha a energia, que 
  moral.

Devia praticar ali um ato
  tremendo.

Galgar, suspenso quele fio, o
  intervalo das duas Douvres; tal era a questo.

So freqentes nos atos de
  dedicao ou de dever esses pontos de interrogao que parecem postos pela
  morte.

Fars isto?, diz a
  sombra.

Gilliatt executou uma segunda
  trao de ensaio sobre o gancho; o gancho resistiu.

Gilliatt embrulhou a mo esquerda
  no leno, apertou a corda com a mo direita coberta pela mo esquerda, depois
  tendo um p adiante, e empurrando com o outro p a rocha a fim de que o vigor do
  impulso impedisse a rotao da corda, precipitou-se do alto da pequena Douvre
  sobre a coluna da grande.

Duro foi o choque.

Apesar da precauo tomada por
  Gilliatt a corda volteou, e foi o ombro dele que bateu no rochedo.

Por sua vez os punhos bateram na
  rocha. Desatara-se o leno. As mos ficaram arranhadas; admirou que no ficassem
  esmagadas.

Gilliatt conservou-se algum tempo
  aturdido e suspenso.

Mas ainda assim, bastante senhor
  de si para no largar a corda.

Decorreu algum tempo em oscilao
  e sobressaltos antes que pudesse agarrar a corda com os ps, mas conseguiu
  afinal.

Voltando a si e conservando a
  corda entre as mos, Gilliatt olhou para baixo.

No se assustava a respeito do
  comprimento da corda que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda,
  com efeito, arrastava na Durande.

Gilliatt, certo de poder descer,
  comeou a trepar.

Em poucos momentos chegou ao
  cume.

Ningum, a no ser os pssaros,
  tinha posto ali o p. A plataforma estava coberta de esterco de pssaros. Era um
  trapzio irregular, lasca daquele colossal granito chamado grande Douvre. No
  meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.

Gilliatt conjeturara com exatido.
  Via-se no ngulo meridional do trapzio uma superposio de rochedos, destroos
  provveis do descalabro do cimo. Esses rochedos, espcie de monte de pedras
  desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que ali tivesse trepado para
  passar. Equilibravam-se no meio da confuso; tinham os interstcios de um monto
  de grabatos. No havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses
  podia admitir Gilliatt.

O fundo desse buraco era de relva
  e musgo. Gilliatt estaria ali como se fosse em casa.

A alcova na entrada tinha 2 ps de
  altura. Estreitava-se para o fundo. H tmulos de pedra que tm essa forma. O
  monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de
  Gilliatt ficava garantida das guas, mas aberta ao vento do norte.

Gilliatt achou que isso era
  bom.

Os dois problemas estavam
  resolvidos, a pana tinha um porto, ele tinha casa.

A excelncia da casa era ficar
  perto da Durande.

O gancho da corda tinha cado
  entre dois pedaos de rocha e ficou solidamente preso. Gilliatt imobilizou-o
  pondo em cima uma grossa pedra. Depois entrou imediatamente em livre prtica com
  a Durande.

J estava em casa.

A grande Douvre era a casa, e
  Durande era a oficina.

Ir e vir, subir e descer, nada
  mais simples.

Atirou-se vivamente pela corda
  abaixo at o tombadilho.

O dia foi bom, a coisa comeava
  bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.

Desatou o cesto de provises,
  abriu a faca, cortou um pedao de carne fumada, trincou o po de rala, bebeu um
  gole do pichel de gua doce e ceou admiravelmente.

Trabalhar bem e comer bem so duas
  alegrias. O estmago cheio assemelha-se a uma conscincia satisfeita.

Acabada a ceia, ainda havia sol.
  Gilliatt aproveitou a claridade para comear a aliviar o navio, que era
  urgente.

Tinha passado uma parte do dia a
  separar os destroos. Ps de lado, no compartimento slido, onde estava a
  mquina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era
  intil deitou ao mar.

O carregamento da pana, iado
  pelo cabrestante at o tombadilho, era, embora sumrio, um estorvo. Gilliatt viu
  a espcie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que ele podia tocar
  com a mo. Vem-se muitas vezes nos rochedos esses armrios naturais, no
  fechados,  verdade. Pensou que era possvel confiar o depsito quele nicho.
  Ps no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vesturio, os dois sacos, o
  centeio e o biscoito, e na frente, demasiado chegado  borda, por no haver mais
  lugar, o cesto das provises.

Teve cuidado de retirar da caixa
  das roupas a pele de carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.

Para impedir que o vento desse na
  corda de ns, prendeu a ponta em uma porca da Durande.

A porca era muito curva e prendia
  a corda to bem como se fosse uma mo fechada.

Restava a parte superior da corda.
  Prender a extremidade de baixo era fcil, mas no cimo da coluna, no lugar onde a
  corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fosse a pouco e pouco
  gasta pelo ngulo do rochedo.

Gilliatt investigou o monto de
  destroos que reservara, apanhou alguns pedaos de lona e alguns fios de carreta
  achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.

Qualquer marujo adivinhava logo
  que ele ia forrar com a lona e os fios o pedao da corda na altura do ngulo do
  rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.

Feita a proviso dos trapos, ps
  as grevas nas pernas, vestiu a japona, prendeu ao pescoo a pele de carneiro, e
  assim vestido, com essa panplia completa, agarrou a corda, robustamente presa
  ao flanco da grande Douvre, e subiu por aquela sombria torre do mar.

Gilliatt, apesar de ter as mos
  arranhadas, chegou rapidamente  plataforma.

Os ltimos clares do poente
  iam-se apagando. Fazia noite no mar. O alto da Douvre conservava alguma
  claridade.

Gilliatt aproveitou o resto da
  claridade para forrar a corda. Aplicou no cotovelo que ela fazia no rochedo uma
  ligadura de muitos pedaos de vela, fortemente atada em cada pedao. Era pouco
  mais ou menos o forro que costumam pr nos joelhos as atrizes para as agonias e
  splicas do 5 ato.

Terminado o forro, Gilliatt
  levantou-se.

Desde alguns instantes, enquanto
  esteve forrando a corda, ouvia ele confusamente no ar um estremecimento
  singular.

Assemelhava-se, no silncio da
  noite, ao rumor que fizesse o bater das asas de um morcego.

Gilliatt levantou os
  olhos.

Um grande crculo negro
  volteava-lhe por cima da cabea no cu profundo e alvo do crepsculo.

Costuma-se ver, nos velhos
  quadros, crculos iguais sobre a cabea dos santos. A diferena  que so de
  ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais estranho.
  Dissera-se a aurola noturna da grande Douvre.

O crculo abaixava-se e
  levantava-se; estreitava-se e alargava-se.

Eram gaivotas, goelanos, corvos,
  cotovias, uma nuvem de pssaros do mar, espantados.

 provvel que a grande Douvre
  fosse a hospedaria deles, e que eles fossem buscar a o repouso. Gilliatt
  tinha-lhes tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.

Nunca tinham visto esse homem
  ali.

Durou algum tempo aquele voar
  assustado.

Os pssaros pareciam esperar que
  Gilliatt se fosse embora. Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os
  olhos.

O turbilho volante acabou por
  tomar uma resoluo, o crculo desfez-se em espiral, e a nuvem de pssaros foi
  cair do outro lado do escolho, no rochedo Homem.

A pareceram consultar e
  deliberar. Gilliatt, estendendo-se no seu buraco de granito, e pondo debaixo da
  cabea uma pedra como travesseiro, ouviu por muito tempo a conversa dos
  pssaros, que guinchavam cada um por sua vez.

Depois calaram-se, e tudo dormiu,
  os pssaros em uma rocha e Gilliatt em outra.

CAPTULO
  VIII
IMPORTUNAE QUE
  VOLUCRES

Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu
  frio, e por isso acordou vrias vezes. Tinha naturalmente os ps colocados no
  fundo do buraco, e a cabea  borda. No teve o cuidado de tirar daquele leito
  uma poro de seixos agudos que no lhe davam melhor sono.

De quando em quando entreabria os
  olhos.

Ouvia em certos instantes
  detonaes profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um
  rudo de canho.

Tudo ali em roda apresentava o
  extraordinrio da viso; Gilliatt tinha a quimera  roda de si. O meio espanto
  da noite contribua para que ele se visse mergulhado no impossvel. Gilliatt
  dizia consigo: Estou sonhando.

Depois tornava a dormir e,
  sonhando ento, achava-se na casa dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia
  cantar Druchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar acordado e
  viver; quando acordava, pensava dormir.

Com efeito, era um sonho
  aquilo.

L pelo meio da noite, ouviu-se um
  vasto rumor no cu. Gilliatt teve confusamente conscincia disso atravs do
  sono. Era provvel que fosse o vento.

De uma vez que ele acordou, com um
  estremecimento de frio, abriu as plpebras mais do que at ento. Havia largas
  nuvens no znite; a lua fugia e uma grande estrela ia atrs dela.

Gilliatt tinha o esprito cheio da
  difuso dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens
  da noite.

De madrugada estava gelado e
  dormia profundamente.

A aurora tirou-o daquele sono
  talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol
  nascente.

Gilliatt bocejou, espreguiou-se e
  levantou-se do buraco.

Dormira to bem que no
  compreendeu nada.

A pouco e pouco foi-lhe voltando o
  sentimento da realidade, e ele exclamou: Almocemos!

O tempo estava calmo, o cu estava
  frio e sereno, no havia nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol
  levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que comeava. Gilliatt sentiu-se
  alegre.

Tirou a japona, envolveu-a na pele
  de carneiro, atou tudo e meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma
  chuva eventual.

Depois fez a cama, isto , ps
  fora os seixos agudos.

Feita a cama, deixou-se rolar ao
  longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera
  o cesto de provises.

No achou o cesto; como estava
  muito  beira, o vento da noite atirou-o ao mar.

Isto anunciava uma inteno de
  luta.

Era preciso que houvesse no vento
  uma certa vontade e malcia para ir buscar o cesto.

Era um comeo de hostilidades.
  Gilliatt compreendeu isso.  difcil, quando se vive em familiaridade com o mar,
  no ver no vento e nas rochas criaturas e personagens.

S restava a Gilliatt, alm do
  biscoito e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o
  nufrago morto de fome no rochedo Homem.

A pesca era impossvel. O peixe,
  inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes;
  as pontas da rocha s servem para rasgar as redes.

Gilliatt almoou alguns mariscos
  que arrancou da pedra com dificuldade, escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito
  este guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou.

Era o bando de goelanos e gaivotas
  que caa sobre uma das rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando.
  Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas saqueava alguma
  coisa.

Essa coisa era o cesto de
  Gilliatt.

O cesto, lanado sobre um banco
  pelo vento, rasgou-se. Os pssaros correram logo. Levaram no bico toda a espcie
  de pedaos de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfish.

Era a vez de entrarem tambm em
  luta os pssaros. Faziam represlias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles
  tomavam-lhe a comida.

CAPTULO IX
O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SERVIR
  DELE

Passou-se uma semana.

Embora fosse a estao das chuvas,
  no chovia, o que alegrava Gilliatt.

Mas o que ele empreendia estava
  acima da fora humana, em aparncia ao menos. O sucesso era de tal modo
  inverossmil que a tentativa parecia louca.

As operaes encaradas de perto
  mostram os seus empecilhos e perigos. Basta comear para ver como  difcil
  concluir. Todo comeo resiste. O primeiro passo que se d  um revelador
  inexorvel. A dificuldade que se toca fere como um espinho.

Gilliatt teve logo de contar com o
  obstculo.

Para salvar a mquina da Durande,
  para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela
  estao, parecia que seria necessrio uma grande poro de homens. Gilliatt era
  s; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e maquinista, e
  Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martelo; precisava
  ter uma boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt no tinha nada disso; precisava
  ter provises e vveres. Gilliatt no tinha po.

Algum que, durante essa primeira
  semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, no saberia o que pretendia ele.
  Parecia no pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava ocupado com o que
  havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroos do
  naufrgio. Aproveitava as mars baixas, para limpar os recifes de tudo o que o
  naufrgio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar a
  depusera: pedaos de velame, pedaos de corda, pedaos de ferro, tbuas
  rasgadas, vergas destrudas, aqui um barrete, ali uma corrente, alm uma
  roldana.

Ao mesmo tempo estudava todas as
  anfratuosidades do escolho. Nenhum deles era habitvel, com grande decepo de
  Gilliatt, que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e
  desejaria achar melhor pousada.

Duas dessas anfratuosidades eram
  assaz espaosas, posto que o cho de rocha natural fosse quase geralmente
  oblquo e desigual, podia-se andar ali de p. A chuva e o vento entravam ali a
  gosto, mas as altas mars no lhes chegavam. Eram vizinhas da pequena Douvre e
  fceis de trepar a qualquer hora. Gilliatt decidiu que uma seria um depsito e a
  outra uma forja.

Com todos os cabos que pde
  recolher fez pacotes dos restos do naufrgio, ligando os destroos em molhos e
  as lonas em embrulhos. Apertou tudo cuidadosamente.  proporo que a mar
  enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastava-os atravs dos recifes at o
  depsito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia
  levantar mesmo os grossos pedaos de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os
  numerosos pedaos de corrente esparsos nos escolhos.

Gilliatt era tenaz e admirvel
  nesse trabalho. Fazia quanto queria. Nada resiste a um encarniamento de
  formiga.

No fim da semana, Gilliatt tinha
  nesse depsito de granito todo o arsenal de objetos destrudos pela tempestade.
  Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas no estavam misturadas com
  as drias; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que
  tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do
  papa-figo, as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma vez que
  no estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos
  diferentes; tudo quanto era de carpintaria estava  parte; de cada vez que era
  possvel, as tbuas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas s outras; no
  havia confuso de rises com viradores, nem pateraces com enxrcias, nem amuradas
  com precintas; um dos recantos era reservado  tabuiga da Durande que apoiava os
  ovns do cesto de gvea e as gabundonas. Cada destroo tinha o seu lugar. Todo o
  naufrgio estava ali classificado e com o rtulo competente. Era uma coisa
  semelhante ao caos armazenado.

Uma vela de estais, presa por
  pedras, cobria, alis rota, o que a chuva podia estragar.

Por mais quebrada que estivesse a
  proa da Durande, Gilliatt conseguiu salvar os dois cepos da ncora, com as trs
  rodas de pol.

Achou o gurups, e teve muito
  trabalho em desvencilh-lo das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo
  seco. Gilliatt, porm, tirou-as porque o massame podia ser-lhe til.

Recolheu igualmente a pequena
  ncora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar a
  encalhara.

Achou no que fora camarote de
  Tangrouille um pedao de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade
  de fazer algumas marcas.

Uma selha de couro para incndio e
  algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.

O resto de carvo que havia na
  Durande foi levado para o armazm.

Em oito dias o salvamento dos
  destroos estava acabado; o escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco
  s restava a mquina.

O pedao da amurada que ainda
  aderia ao resto no fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada
  embaixo por uma salincia de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e no
  podia ficar no armazm. Parecia uma jangada aquele pedao de madeira. Gilliatt
  deixou-o onde estava.

Gilliatt, profundamente pensativo
  neste labor, procurou em vo a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a
  onda tinha levado para sempre, Gilliatt para ach-la daria os seus dois braos,
  se no precisasse tanto deles.

Na entrada do armazm, e fora,
  viam-se dois montes de rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para
  queimar.

Gilliatt trabalhava desde a
  madrugada. Fora do tempo do sono, no descansava nunca.

Os corvos-marinhos, voando aqui e
  ali, contemplavam-no a trabalhar.

CAPTULO X
A FORJA

Feito o depsito, Gilliatt fez a
  forja.

A segunda anfratuosidade escolhida
  por Gilliatt oferecia um refgio, espcie de garganta, assaz profunda. Gilliatt
  teve a princpio a idia de dormir a, mas o vento, renovando-se constantemente,
  era to contnuo e teimoso nesse corredor que ele teve de renunciar  morada. O
  vento deu-lhe idia de fazer a forja. Se a caverna no podia ser quarto, podia
  ser oficina. Utilizar o obstculo  um grande passo para o triunfo. O vento era
  o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu lacaio.

O que se diz de certos homens:
  prprios para tudo, bons para nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. No do
  o que oferecem. Tal cava de rochedo  uma banheira, mas deixa escapar a gua;
  outra  um leito de musgo, porm molhado; outra  uma cadeira, mas de
  pedra.

A forja que Gilliatt queria
  estabelecer estava esboada pela natureza; mas domar esse esboo, at torn-lo
  apropriado, e transformar a caverna em laboratrio, nada mais spero e difcil.
  Com trs ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda
  estreita, o acaso fizera ali um vasto fole informe, muito melhor que os antigos
  foles de 14 ps de comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar.
  Aquilo era outra coisa. As propores de operao no se calculam.

O excesso de fora era incmodo;
  era difcil regularizar aquele sopro.

A caverna tinha dois
  inconvenientes; o ar e a gua atravessavam de um lado para o outro.

No era a onda, era um pequeno
  esgoto perptuo, mais semelhante a uma destilao que a uma torrente.

A espuma, continuamente lanada
  pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de 100 ps no ar, acabara por
  encher de gua do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a
  escavao. A abundncia de gua nesse reservatrio fazia, um pouco atrs, no
  declive, uma pequena queda-d'gua, de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5
  toesas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem
  de passagem derramava algumas gotas naquele reservatrio inesgotvel e sempre
  transbordando.

A gua era salobra, no potvel,
  mas lmpida, embora salgada. A queda escorria graciosamente nas extremidades dos
  filamentos verdes como nas pontas de uma cabeleira.

Gilliatt pensou em servir-se dessa
  gua para disciplinar o vento. Por meio de um funil de dois ou trs tubos de
  tbuas, arranjados  pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta
  como reservatrio inferior, sem contrapeso, Gilliatt, que era, como dissemos, um
  pouco ferreiro e um pouco mecnico, conseguiu compor, para substituir o fole da
  forja, que no tinha, um aparelho menos perfeito do que aquele que se chama hoje cagniardelle, porm menos rudimentar do que o que se chamava outrora nos
  Pireneus uma trompa.

Tinha farinha de centeio, fez
  cola, tinha corda branca, fez estopa. Com essa estopa e essa cola e alguns
  pedacinhos de pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um
  bico, feito com um pedao de espoleta que achou na Durande e que servira  pedra
  de sinal. O bico ficava horizontalmente dirigido contra uma larga pedra onde
  Gilliatt ps a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando
  fosse preciso.

Depois disto, Gilliatt ajuntou
  carvo e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no prprio rochedo,
  fez cair a fasca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e
  o carvo.

Experimentou o fole. Era
  admirvel.

Gilliatt sentiu essa altivez de
  ciclope, senhor do ar, da gua e do fogo.

Senhor do ar, deu ao vento uma
  espcie de pulmo, criou no granito um aparelho respiratrio, e fez um fole;
  senhor da gua, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flama
  daquele rochedo inundado.

Estando a escavao quase toda
  aberta, o fumo saa livremente, enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que
  parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.

Gilliatt tomou por bigorna um
  seixo multicor oferecendo a forma e as dimenses que se quisesse. Era uma
  perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades
  do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna
  conide, mas faltava a bigorna piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos
  trogloditas. A superfcie polida pela gua tinha a rigidez do ao.

Gilliatt lastimava no ter trazido
  a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava
  achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente colocada no poro da
  proa. Ora, era exatamente a proa que faltava.

As duas escavaes, conquistadas
  no escolho por Gilliatt, eram vizinhas uma da outra. O depsito e a forja
  comunicavam-se.

Todas as noites, acabado o
  trabalho, Gilliatt ceava um pedao de biscoito molhado em gua, um ursozinho da
  gua, ou algumas castanhas do mar, caa nica daquele rochedo, e, tiritando como
  a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.

A espcie de abstrao em que
  Gilliatt vivia aumentava-se pela materialidade das suas ocupaes. A realidade
  era em alta dose. O trabalho corporal com os seus pormenores inumerveis no
  diminua a estupefao que sentia de achar-se ali, e de fazer o que estava
  fazendo. Ordinariamente o cansao material  um fio que puxa para terra; mas a
  prpria singularidade do trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um
  trabalho de regio ideal e crepuscular. Parecia-lhe s vezes estar dando
  marteladas nas nuvens. Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram
  armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que ele repelia ou
  prevenia. Tecer massame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar
  mquinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por
  assemelhar-se a precaues contra as agresses inteligentes, mui pouco
  dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt no sabia as palavras que exprimem
  as idias, mas percebia as idias. Sentia-se cada vez menos operrio e cada vez
  mais pelejador.

Entrou ali como um domador.
  Compreendia isso quase. Estranha ampliao para o seu esprito.

Alm disso, tinha  roda de si, a
  perder de vista, o imenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do
  que ver manobrar a difuso das foras no insondvel e no ilimitado. Procuram-se
  os fins. O espao sempre em movimento, a gua infatigvel, as nuvens que parecem
  afadigadas, o vasto esforo obscuro, toda essa convulso  um problema. Que faz
  este perptuo tremor? Que constroem estes ventos? Que levantam estes abalos? Em
  que se ocupam os choques, os soluos, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O
  fluxo e refluxo dessas questes  eterno como a mar. Gilliatt sabia o que
  fazia; mas a agitao da extenso era um enigma que o aturdia confusamente. Sem
  querer, mecanicamente, imperiosamente, por presso e penetrao, sem outro
  resultado mais que uma fascinao inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo
  ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho intil do mar. Na verdade, como
  no impressionar-se e sondar, ali  vista, o mistrio da tremenda vaga
  laboriosa? Como no meditar, na proporo da meditao que se tem, a oscilao
  da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptvel do rochedo, o
  esfalfamento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento no  o
  recomear perptuo, o oceano poo, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para
  coisa nenhuma!

Para coisa nenhuma, no; s o
  Ignoto o sabe!

CAPTULO XI
DESCOBERTA

Um escolho prximo da costa 
  algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria
  buscar a? No  uma ilha. No se pode contar com vitualhas, nem rvores com
  fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes de gua potvel.  uma nudeza numa
  solido.  uma rocha, com declives fora da gua e pontas debaixo da gua. Nada
  se encontra a a no ser o naufrgio.

Essa espcie de escolhos, que a
  velha lngua marinha chama os Isolados, so, como dissemos, lugares estranhos.
  S h o mar. O mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma apario terrestre o
  perturba. O homem assusta o mar; o mar desconfia dele; esconde-lhe o que  e o
  que faz. No escolho est seguro; l no vai o homem. No ser perturbado o
  monlogo da onda. A gua trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, agua-lhe
  as pontas, eria-o, conserta-o. Empreende a abertura do rochedo, desconjunta a
  pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remexe, fura,
  esburaca, canaliza, pe os intestinos em comunicao, enche o escolho de
  clulas, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o
  exterior.

Nessa montanha, que lhe pertence,
  o mar faz para si antros, santurios, palcios; tem uma vegetao hedionda e
  esplndida; compe-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se enrazam;
  mete na sombra da gua essa horrvel magnificncia. No escolho isolado, ningum
  o espreita, nem o incomoda; o mar desenvolve a a gosto o seu lado misterioso e
  inacessvel ao homem. Depe a as secrees vivas e horrveis. Acha-se ali todo
  o ignorado do mar.

Os promontrios, os cabos, os
  cachopos, os arrecifes, so verdadeiras construes. A formao geolgica 
  pouca coisa comparada  formao ocenica. Os escolhos, casas de vaga, pirmides
  da espuma, pertencem  arte misteriosa que o autor deste livro chamou algures a
  Arte da Natureza, e tm uma espcie de estilo enorme. Ali o fortuito parece
  intencional. Essas construes so multiformes. Tm o embaraado do plipo, a
  sublimidade da catedral, a extravagncia do pagode, a amplido da montanha, a
  delicadeza da jia, o horror do sepulcro. Tm alvolos como uma colmia,
  latbulos como um ptio de bichos, tneis como um combro de toupeiras, crceres
  como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tm portas, mas tapadas colunas,
  mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaadas. Os seus
  compartimentos so inextrincveis; isto  s para os pssaros; aquilo  s para
  os peixes. No se passa. A figura arquitetural transforma-se, desconcerta-se,
  afirma e nega a esttica, quebra-se, detm-se, comea em arquivolta, acaba em
  arquitrave; seixo sobre seixo. Enclado  o pedreiro. Uma dinmica
  extraordinria ostenta ali os seus problemas resolvidos. Terrveis abbadas
  pendentes ameaam cair, mas no caem. Ningum sabe como se seguram estes
  edifcios vertiginosos. Declives, lacunas, suspenses insensatas; desconhece-se
  a lei desse babelismo. O Ignoto, imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue;
  os rochedos, construdos confusamente, compem um monumento monstro; nenhuma
  lgica, um vasto equilbrio.  mais do que a solidez,  a eternidade.  a
  desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um
  escolho  a tempestade petrificada. Nada mais impressvel para o esprito do que
  essa medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de p. Tudo ali se ajuda e
  se contraria.  um combate de linhas donde resulta um edifcio. Reconhece-se a
  colaborao dessas duas querelas, o oceano e o furaco.

Arquitetura que tem terrveis
  obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.

Esse foi construdo e aperfeioado
  pelo mar com um amor formidvel. Lambia-o a gua rabugenta. Era hediondo,
  prfido, obscuro; cheio de cavas.

Tinha um sistema de veias que eram
  fendas submarinas, ramificando-se em profundezas insondveis. Muitos orifcios
  desse rasgo inextrincvel ficavam a seco nas vazantes.

Podia-se entrar, ento, com
  risco.

Gilliatt, pela necessidade do
  trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser
  temvel. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimenses exageradas do
  oceano, aquele aspecto de matadouro e aougue estranhamente imitado do centro
  das Douvres. Quem no viu as escavaes desse gnero, na parede do eterno
  granito, esses horrveis frescos da natureza, no pode fazer uma idia do que
  .

Eram dissimuladas essas grotas
  ferozes, era inconveniente demorar-se nelas. A mar enchente invadia-as at o
  teto.

Abundavam os mariscos e os frutos
  do mar.

Estavam cheias de seixos rolados e
  amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as
  propores e de todas as cores, a maior parte pareciam ensangentados, alguns,
  cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes
  focinhando no rochedo.

Muitas dessas cavas terminavam
  como um forno. Outras, artrias de uma circulao misteriosa, prolongavam-se no
  rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golfo. Essas fendas
  estreitavam-se constantemente de modo a no deixar passar um homem. Um brando
  aceso deixava ver obscuridades gotejantes.

Gilliatt aventurou-se uma vez numa
  dessas fendas. A hora da mar prestava-se a isso. Era um belo dia de calma e de
  sol. No havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse complicar o
  perigo.

Duas necessidades, como dissemos,
  levavam Gilliatt a essas exploraes: procurar os destroos teis e achar
  lagostas para comer. J lhe faltavam conchas nas Douvres.

A fenda era estreita e a passagem
  quase impossvel. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforo, espremeu-se
  como pde e entrou at onde lhe foi possvel.

Achou-se, sem pensar, no interior
  do rochedo da ponta do qual Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava
  debaixo dessa ponta. O rochedo abrupto exteriormente, e inacessvel, era vazio
  no interior. Tinha galerias, poos e quartos como o tmulo de um rei do Egito.
  Aquele ddalo era dos mais complicados, trabalho da gua, infatigvel solapa do
  mar. As divises daquele subterrneo submarino comunicavam provavelmente com a
  gua imensa do exterior por mais de uma sada, umas abertas ao nvel da gua,
  outras profundos funis invisveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que
  Clubin atirou-se ao mar.

Gilliatt, naquela fisga de
  crocodilos, onde na verdade no havia medo de ach-los, serpenteava,
  arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o p, encontrava o
  cho, avanava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, apareceu uma
  meia-luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinria.

CAPTULO XII
O INTERIOR DE UM EDIFCIO DEBAIXO
  DO MAR

A luz vinha a
  propsito.

Um passo mais, Gilliatt estaria em
  uma gua talvez sem fundo. As guas das cavas tm um tal resfriamento e uma
  paralisia to sbita, que l ficam muitas vezes os mais fortes
  nadadores.

Demais, no havia meio de subir e
  agarrar s rochas entre as quais ficaria preso. Gilliatt parou.

A grota, donde ele sara, ia ter a
  mesma salincia estreita e viscosa, espcie de vulco na muralha a pique.
  Gilliatt encostou-se  muralha e olhou.

Estava numa grande cava. Tinha
  acima de si alguma coisa semelhante ao interior de um crnio dissecado. E
  parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do rochedo
  imitavam na abbada as fibras dentadas de uma bola. Por teto, a pedra; por
  assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota pareciam
  vastos ladrilhos flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma
  trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz vinha de baixo,
  atravs da gua. Era um resplendor tenebroso.

Gilliatt, cujas pupilas se
  dilataram durante o trajeto obscuro do corredor, distinguia tudo naquele
  crepsculo.

Conhecia, por l ter ido mais de
  uma vez, as cavas de Pleinmont em Jersey, o Croux-Maill em Guernesey, as
  Boutiques em Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali depunham
  as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era comparvel ao quarto
  subterrneo e submarino onde penetrara.

Gilliatt via diante dele, debaixo
  da vaga, uma espcie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada
  pela onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e negras. Era por
  aquele prtico submergido que entrava na caverna a claridade do alto-mar. Luz
  estranha que vinha por um buraco na gua.

Essa claridade esvazava-se debaixo
  da gua como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios retilneos,
  cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou
  escurecendo de uma anfratuosidade a outra, imitavam interposies de lminas de
  vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. J no era a nossa luz. Podia-se crer
  que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde claro
  da pupila de uma esfinge. A cava figurava o interior de uma cabea enorme; a
  esplndida abbada era o crnio, e a arcada era a boca; no havia buracos dos
  olhos. A boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em pleno
  meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.

Certos entes, inteligentes e maus,
  assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquele prtico obstrudo de
  uma espessura vidrenta da gua do mar, tornava-se verde como um raio de
  Aldebar. A gua, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fuso. Um
  reflexo de gua-marinha de incrvel delicadeza tingia brandamente toda a
  caverna.

A abbada, com os seus lbulos
  quase cerebrais e as suas ramificaes semelhantes a nervos, tinha um fraco
  reflexo de crispraso. O chamalote da onda, reverberado no teto, decompunha-se e
  recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com
  um movimento de dana misteriosa. Saa dali uma impresso espectral; o esprito
  podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia to alegremente
  aquele magnfico filete de fogo vivo. Nos relevos da abbada e nas asperidades
  da rocha pendiam longas e finas vegetaes banhando provavelmente as razes
  atravs do granito em alguma toalha de gua superior, e desbagando, nas pontas,
  uma gota de gua, uma prola. Essas prolas caam no golfo com um pequeno
  rumor. Todo esse conjunto era inexprimvel. No se podia imaginar nada mais
  lindo nem mais lgubre. Era ali o palcio da Morte, alegre.

CAPTULO
  XIII
O QUE SE V E O QUE SE
  ENTREV

Sombra que deslumbra, tal era
  aquele stio surpreendente.

A palpitao do mar fazia-se
  sentir naquela cava. A oscilao externa inchava e deprimia a toalha de gua
  interior com a regularidade de uma respirao. Cuidava-se ver uma alma
  misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e abaixando-se em
  silncio.

A gua era magicamente lmpida, e
  Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estaes imersas, superfcies de
  rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram
  provavelmente insondveis.

Dos dois lados do prtico
  submarino esboos de cmbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas
  cavas laterais, pontos inferiores da caverna central, acessveis talvez na poca
  das mars extremamente baixas.

Essas anfratuosidades tinham tetos
  em plano inclinado, em ngulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas,
  descobertas pelas escavaes do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas
  obliquidades.

Longas ervas espessas, de mais de
  1 toesa, ondulavam debaixo da gua como um balancear de cabelos ao vento.
  Entreviam-se florestas de sargao.

Fora da gua, e dentro da gua,
  toda a muralha da cava, de alto a baixo, desde a abbada at ao desaparecimento
  no invisvel, era tapetada dessas prodigiosas florescncias do oceano, to
  raramente visveis ao olho humano, que os velhos navegadores espanhis chamaram praderias del mar. Espesso musgo, com todos os matizes da azeitona,
  escondia e ampliava as exostoses de granito. De todos os declives rompiam os
  delgados loros lavrados do sargao com que os pescadores fazem barmetros. O
  hlito obscuro da caverna agitava essas correias luzentes.

Debaixo dessas vegetaes
  escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras jias do escrnio do
  oceano, os martins, as mitras, os elmos, as prpuras, os bzios, os
  estrutiolrios, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a
  barracas microscpicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas
  ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. No podendo os seixos de
  mariscos entrar facilmente nessa grota, a se refugiavam as conchas. As conchas
  so grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil
  contato do populacho das pedras. A flgida reunio das conchas fazia debaixo da
  gua, em certos lugares, inefveis irradiaes atravs das quais entrevia-se um
  grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da gua.

Na parede da caverna, um pouco
  acima da linha de flutuao da mar, uma planta magnfica e singular prendia-se
  como um debrum  tapearia do sargao, continuava-o e terminava-o. Essa planta,
  fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar
  largas toalhas embaraadas e obscuras, ornadas em toda a extenso de numerosas
  florinhas cor de lpis-lazli. Na gua parecia que essas flores acendiam-se, e
  cuidava-se ver brasas azuis. Fora da gua eram flores, dentro da gua eram
  safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota,
  revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbnculos.

A cada enchimento da vaga tmida
  como um pulmo, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento
  apagavam-se; melanclica semelhana com o destino. Era a aspirao, que  a
  vida; era a expirao, que  a morte.

Uma das maravilhas daquela caverna
  era a rocha. Essa rocha, ora muralha, ora cmbrio, ora pilastra, era em alguns
  lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturais.
  Um no sei qu, alis de esprito, misturava-se  estupidez macia da pedra. Que
  artista no  o abismo! Tal pedao de parede, cortado em quadro, e cheio de
  altos e baixos representando atitudes, figurava um vago baixo-relevo; ante essa
  escultura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometeu
  esboando para Miguel ngelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o gnio
  poderia acabar o que o gigante comeara. Em outros lugares a rocha era embutida
  como um broquel sarraceno ou traada como uma florentina. Tinha almofadas que
  pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra
  rnica tinha sinais de unha obscuros e improvveis. Plantas com ramos torcidos
  em forma de verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de filigranas.
  Era um antro e um alhambra. Era o encontro da selvajaria e da ourivesaria na
  augusta e disforme arquitetura do acaso.

O magnfico bolor do mar aveludava
  os ngulos de granito. As pedras estavam adornadas de lianas grandifloras, to
  destras que no caam, e pareciam inteligentes to bem adornavam
  elas.

Parietrias com estranhos
  ramalhetes mostravam os seus tufos a propsito e com gosto. Havia a a
  casquilhice possvel numa caverna. A surpreendente luz ednica que vinha de
  baixo da gua, a um tempo penumbra marinha e radiao paradisaca, esfumava
  todos os lineamentos em unia espcie de difuso visionria. Cada vaga era um
  prisma. O contorno das coisas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o
  cromatismo das lentes de ptica demasiado convexas; espectros solares flutuavam
  debaixo da gua.

Acreditar-se-ia ver torcer-se
  nessa diafaneidade auroreal pedaos de arco-ris afogados. Em outros lugares
  havia na gua um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para
  fazer um qu de cego e de noturno. Nada mais impossvel e enigmtico do que
  aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegetao
  fantstica e a estratificao informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era
  de belo efeito aquele consrcio de coisas medonhas. Penduravam-se as
  ramificaes parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o afago da rocha
  selvagem e da flor ruiva.

Pilares macios tinham, por
  capitis e por ligaduras, frgeis e trmulas grinaldas; parecia ver-se dedos de
  fada fazendo ccegas nas patas de um hipoptamo, e o rochedo sustentava a planta
  e a planta abraava o rochedo com uma graa monstruosa.

Resultava dessa deformidade
  misteriosamente ajustada uma beleza soberana. As obras da natureza, no menos
  supremas que as obras do gnio, contm o absoluto e impem-se. O inesperado
  delas faz-se obedecer imperiosamente pelo esprito; sente-se uma premeditao
  que fica fora do homem, e elas no so mais surpreendentes do que quando fazem
  subitamente sair o delicado do terrvel.

Aquela grota estava, por assim
  dizer, e se tal expresso  admissvel, sideralizada. Sentia-se ali o imprevisto
  do espanto. O que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. No havia certeza
  de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de
  impossvel. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difcil
  crer.

Era luz aquilo que jorrava daquela
  janela debaixo da gua? Era gua aquilo que tremia naquela bacia obscura?
  Aqueles cmbrios e prticos no eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que
  pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio no ia desconjuntar-se e tornar-se
  fumo? Que joalheria de conchas era aquela que se entrevia? Que distncia havia
  dali  vida,  terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado quelas
  trevas? Comoo inaudita, quase sagrada,  qual misturava-se a doce inquietao
  das ervas no fundo da gua.

Na extremidade da cava, que era
  oblonga, debaixo de uma arquivolta ciclpica singularmente correta, em um buraco
  quase indistinto, espcie de antro no antro, espcie de tabernculo no
  santurio, atrs de uma toalha de luz verde, interposta como um vu de templo,
  descobria-se fora da gua uma pedra de ngulos cortados em quadro com uma
  parecena de altar. A gua circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha
  descido dali. Era impossvel deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima
  daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente pensativa, que a entrada de
  um homem tinha feito fugir. Era difcil conceber aquela clula augusta sem uma
  viso dentro dela; a apario, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um
  rorejar de casta luz sobre espduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de
  alvores, um oval de rosto olmpico, uns misteriosos seios arredondados, uns
  braos pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inefveis, modelados
  em luz plida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de
  virgem, uma Vnus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que
  forosamente assaltava a imaginao. Era inverossmil que no estivesse antes um
  fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente
  ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um xtase
  inexprimvel, imaginava-se uma alvura, viva e de p. O esprito criava, no meio
  da adorao muda daquela caverna, uma Anfitrite; uma Ttis, alguma Diana que
  pudesse amar, esttua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com
  meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade,
  espcie de perfume-luz sado daquele corpo-estrela. A fascinao daquele
  fantasma j no estava ali; j se no via a figura, feita para ser vista somente
  pelo invisvel, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que  uma
  volpia. A deusa estava ausente, mas a divindade estava presente.

A beleza do antro parecia feita
  para aquela presena. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos ncares, dessa
  rainha das brisas, dessa graa nascida das vagas, era por causa dela, ao menos
  supunha-se isto, que o subterrneo estava religiosamente murado, a fim de que
  nada perturbasse nunca, em derredor daquele divino fantasma, a obscuridade que 
  um respeito, o silncio que  uma majestade.

Gilliatt, que era uma espcie de
  vidente da natureza, cismava, confusamente comovido.

De sbito, alguns palmos abaixo
  dele, na transparncia encantadora daquela gua, que eram pedras preciosas
  dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexprimvel. Uma espcie de longo
  andrajo movia-se na oscilao das vagas. Esse andrajo no flutuava, vogava;
  tinha a forma de um cetro de truo com pontas; essas pontas tinham reflexos;
  parecia que uma poeira impossvel de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que
  horrvel, era nojento. Tinha um qu de quimrico; era um ente, a menos que no
  fosse uma aparncia. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se
  ali. As espessuras da gua tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou
  e desapareceu. Sinistra.

LIVRO
  SEGUNDO
O
  TRABALHO

CAPTULO
  PRIMEIRO
OS RECURSOS DAQUELE QUE NO TEM
  RECURSOS

A cava no soltava facilmente quem
  l ia. A entrada era pouco cmoda, a sada foi ainda pior. Gilliatt entretanto
  safou-se, mas no voltou l. Nada encontrou do que procurava, e no tinha tempo
  para ser curioso.

Ps imediatamente a forja em
  atividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.

Tinha por combustvel os
  destroos, a gua por motor, o vento por fole, uma pedra por bigorna, por arte o
  instinto, por fora a vontade.

Gilliatt entrou ardentemente nesse
  trabalho sombrio.

O tempo mostrava-se complacente.
  Continuava belo, e o menos equinocial possvel. Chegara o ms de maro, mas
  tranqilamente. Os dias tornavam-se compridos. O azul do cu, a vasta doura dos
  movimentos da extenso, a serenidade do meio-dia, pareciam excluir qualquer
  inteno m. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um afago prvio tempera as
  traies. A gua marinha no  avara desses afagos. Com aquela mulher  preciso
  desconfiar do sorriso.

Havia pouco vento; a hidrulica
  soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.

Gilliatt tinha uma serra; fabricou
  uma lima; com a serra atacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as
  duas mos do ferreiro, uma tenaz e uma pina: a tenaz agarra, a pina maneja;
  uma trabalha como a mo, a outra como o dedo. A ferramenta  um organismo. A
  pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construa as suas armaduras. Com
  um pedao de ferro em folha fez uma antepara na forja.

Um dos seus primeiros cuidados foi
  a separao e a reparao das roldanas. Consertou as caixas e as rodas das
  pols. Cortou a esfoliao de todos os barrotes quebrados e aplainou as
  extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria grande
  cpia de peas de madeira armazenadas, e aparelhadas, segundo as formas, as
  dimenses e as essncias, o carvalho de um lado, o pinheiro de outro, as peas
  curvas, como as porcas, separadas das peas direitas, como as que ligam as
  escotilhas. Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia
  precisar em um momento dado.

Quem quer construir um guindaste
  deve munir-se de traves e pols, mas no basta isso,  preciso corda. Gilliatt
  restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as velas rasgadas, e conseguiu extrair
  excelente fio com que comps uma sarja, e cerziu o cordoame. Mas essas costuras
  eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt
  apenas pde fazer o massame sem ter alcatro.

Consertou as cordas, consertou as
  correntes.

Pde, graas  ponta lateral da
  bigorna, fazer anis grosseiros, mas slidos; com esses anis, prendeu uns aos
  outros os pedaos de correntes quebrados, e fez correntes compridas.

Forjar s e sem auxlio  mais do
  que incmodo. Contudo, Gilliatt conseguiu faz-lo.  certo que s teve de
  trabalhar na forja peas de pequeno volume; podia mene-las com uma mo e
  martelar com a outra.

Cortou em pedaos as barras de
  ferro redondas do lugar do comando; forjou nas duas extremidades de cada pedao,
  de um lado uma ponta, do outro uma larga cabea chata, e desse modo fez grandes
  pregos de palmo e meio. Esses pregos, muito usados em trabalhos martimos, so
  teis para fixar os paus nas pedras.

Por que motivo Gilliatt tomava
  todo este trabalho? Ver-se-.

Teve de refazer muitas vezes o fio
  da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima
  triangular.

Servia-se tambm do cabrestante da
  Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliatt fez outra.

Com ajuda da pina e da tenaz e
  servindo-se da faca como de um virador empreendeu desmontar as duas rodas do
  navio; conseguiu.  preciso no esquecer que isso era exeqvel; essa era a
  particularidade da construo das rodas. As caixas que as tinham coberto
  serviram-lhes de capas; com as tbuas das caixas, Gilliatt arranjou dois
  caixotes onde meteu pea por pea, as duas rodas, cuidadosamente
  numeradas.

O pedao de giz serviu-lhe para
  essa numerao.

Arranjou os dois caixotes na parte
  mais slida do convs da Durande.
Terminados estes preliminares,
  Gilliatt achou-se diante da dificuldade suprema. Surgiu a questo da
  mquina.

Desmontar as rodas foi possvel;
  desmontar a mquina, no.

Primeiramente, Gilliatt conhecia
  mal aquele mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconserto
  irreparvel. Depois, mesmo para tentar desmont-la pea por pea, se tivesse
  esta imprudncia, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que ele podia
  fazer numa caverna por oficina, com o vento por fole, e uma pedra por bigorna.
  Tentando desmontar a mquina arriscava-se a despeda-la.

Aqui podia-se crer que estava
  diante do impraticvel.

Afigurou-se-lhe que estava ao p
  deste muro: o impossvel.

Que fazer?

CAPTULO II
DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE
  ENCONTRAR-SE COM SQUILO

Gilliatt tinha uma
  idia.

Desde aquele carpinteiro de
  Salbris que, no VI sculo, na infncia da cincia, muito antes que Amontons
  tivesse achado a primeira frico, Lahire a segunda, e Coulomb a terceira, sem
  conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho dele, com uma
  ferramenta informe resolveu em massa, arriando o grande relgio da igreja de
  Charit-sur-Loire, cinco ou seis problemas de esttica e de dinmica, todos
  juntos, como as rodas de carros embaraados; desde esse trabalhador extravagante
  que achou meio de, sem quebrar um fio de lato e sem desfazer um encaixe, arriar
  de uma s vez, por uma simplificao prodigiosa, do segundo andar da torre ao
  primeiro, aquela macia gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma
  guarita, com o seu movimento, cilindros, tambores, ganchos, mostrador, pndulo
  horizontal, ncoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quais um
  pesava 500 libras, tmpano, carrilho; desde esse homem que fez esse milagre, e
  cujo nome j se no sabe, jamais houve nada igual  empresa que Gilliatt
  cometia.

A operao de Gilliatt era talvez
  pior, isto , mais bela ainda que a outra.

O peso, a delicadeza, o conjunto
  das dificuldades, no eram menores na mquina da Durande que no relgio de
  Charit-sur-Loire.

O carpinteiro gtico tinha um
  auxiliar, o filho; Gilliatt era s.

Havia uma populao vinda de
  Menug-sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de
  necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e anim-lo com os seus rumores
  benvolos; Gilliatt s tinha  roda de si o rumor do vento e a multido das
  ondas.

Nada se compara  timidez da
  ignorncia, a no ser a sua temeridade. Quando a ignorncia comea a ousar  que
  tem uma bssola consigo. Essa bssola  a intuio da verdade, mais clara s
  vezes num esprito simples que num esprito complicado.

Ignorar convida a tentar. A
  ignorncia  um devaneio e o devaneio curioso  uma fora. Saber, desconcerta s
  vezes, e desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse, recuaria ante o cabo
  das Tormentas. Se Cristvo Colombo fosse bom cosmgrafo, no teria descoberto a
  Amrica.

O segundo que subiu ao monte
  Branco foi um sbio, Saussure; o primeiro foi um pastor, Balmat.

Tais casos, digamo-lo de passagem,
  so a exceo, e tudo isto no tira nada  cincia, que fica sendo a regra. O
  ignorante pode achar, s o sbio inventa.

A pana continuava a estar
  ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranqila. Gilliatt, como se
  sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre prtica com a barca. Foi ali e
  mediu-a em diversos pontos. Depois voltou  Durande e mediu o grande dimetro da
  mquina. O grande dimetro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto 2 ps
  que o espao da pana. Portanto, a mquina podia entrar na barca. Mas como
  met-la a?

CAPTULO III
A OBRA-PRIMA DE GILLIATT AJUDA A
  OBRA-PRIMA DE LETHIERRY

Alguns dias depois, o pescador que
  fosse assaz tonto para ir perlustrar aquelas paragens, em semelhante estao,
  teria pago a sua ousadia com a viso de uma coisa singular entre as
  Douvres.

Veria isto o pescador: quatro
  robustas pranchas com espaos iguais entre si, indo de uma Douvre a outra, e
  como que foradas entre os rochedos o que  a melhor solidez deste mundo. Do
  lado da pequena Douvre, as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas
  da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido
  violentamente espetadas na coluna com um martelo por um robusto trabalhador
  trepado na prpria prancha. Essas pranchas eram um pouco mais longas que o
  intervalo das Douvres; da, a segurana e o plano inclinado em que estavam
  formando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em ngulo agudo e a pequena em
  ngulo obtuso. Era suave o declive, mas desigual, o que se tornava defeito. A
  essas quatro pranchas prendiam-se quatro pols guarnecidas todas de corda e
  boa, e tendo esta singularidade e ousadia, que a pol de rodas estava em uma
  extremidade da prancha e a pol simples na extremidade oposta. Este desvio de
  arte, tamanho que era perigoso, era provavelmente exigido pela necessidade da
  operao. As pols compostas eram fortes e as smplices eram slidas. A essas
  prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho areo
  de guindastes e tbuas, o macio casco da Durande parecia suspenso a esses
  fios.

Ainda no estava suspensa.
  Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no
  casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da mquina, e mais oito debaixo
  dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convs, depois
  saam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e
  da mquina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e, subindo,
  atravessando o convs, voltavam a prender-se nos quatro guindastes das pranchas,
  onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo nico podendo ser dirigido
  por um s brao. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o
  cabo nico completavam o aparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta
  combinao obrigava as quatro pols a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de
  foras pendentes, leme de dinmica na mo do piloto da operao, mantinha a
  manobra em equilbrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das
  qualidades simplificadoras do guindaste Weson de hoje, e do antigo polipastono
  de Vitrvio. Gilliatt descobriu isso, sem conhecer Vitrvio, que j no existe,
  nem Weson, que no existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o
  desigual declive das pranchas e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram
  perigosas, o massame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas
  as correntes no poderiam passar com facilidade nas pols.

Tudo isso, cheio de defeitos, mas
  feito por um s homem, era surpreendente.

Demais, abreviemos a explicao.
  Compreender-se- que omitimos muitos pormenores que tornariam a coisa clara para
  as pessoas do ofcio, e obscura para as outras.

O cimo do cano da mquina passava
  por entre as duas pranchas do meio.

Gilliatt, sem dar por isso,
  plagirio inconsciente do desconhecido, refez, a trs sculos de distncia, o
  mecanismo do carpinteiro de Salbris, mecanismo rudimentar e incorreto,
  assustador para quem ousasse manobr-lo.

Digamos aqui que os defeitos mais
  grosseiros no impedem que um mecanismo funcione. O obelisco da praa de So
  Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da esttica. O coche do Czar
  Pedro era construdo de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto,
  andava. Quantas deformidades na mquina de Marly. Tudo ali era malfeito. Nem por
  isso deixou de dar de beber a Lus XIV.

Fosse como fosse, Gilliatt tinha
  confiana. Contava at com o sucesso ao ponto de fixar na borda da pana, no dia
  em que l foi, dois pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dois
  lados da barca, nos mesmos espaos que as quatro argolas da Durande s quais se
  prendiam as quatro correntes do cano.

Gilliatt tinha evidentemente um
  plano muito completo e definitivo. Tendo contra si todas as probabilidades,
  queria pr todas as precaues do seu lado.

Fazia coisas que pareciam inteis,
  sinal de uma premeditao atenta. A sua maneira de proceder desafiava um
  observador, e mesmo um conhecedor.

Uma pessoa que o visse, por
  exemplo, com esforos inauditos e em risco de quebrar o pescoo, pregar com um
  martelo oito ou dez grandes pregos que ele forjou, no esvazamento das duas
  Douvres, na entrada da garganta do escolho, compreenderia dificilmente o motivo
  desses pregos, e perguntaria provavelmente por que razo fazia todo aquele
  trabalho.

Se visse Gilliatt medir o pedao
  da amurada da proa que ficara pendurada, depois prender uma forte corda na borda
  superior desta pea, cortar com um machado as madeiras descoladas que a
  retinham, arrast-las fora da garganta, com auxlio da mar que descia, e enfim
  prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de tbuas e vigas, mais
  larga que a entrada da garganta, aos pregos metidos na base da pequena Douvre, o
  observador compreenderia menos ainda, e diria que se Gilliatt quisesse, para
  facilidade da manobra, desimpedir o intervalo das Douvres, bastava deixar cair
  aquele pedao de tbuas na mar que o levaria  flor da gua.

Gilliatt provavelmente tinha l as
  suas razes.

Gilliatt, para fixar os pregos na
  base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as
  quando era preciso, e metia ao princpio tocos de paus, nos quais introduzia
  depois os pregos. Emboou a mesma preparao nas duas rochas que se levantavam
  noutra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de pau
  todos os buracos, como se as quisesse ter prontas para receber ganchos; mas isso
  pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt no meteu pregos nessas fendas.
  Compreende-se que, por prudncia na sua penria, ele no podia gastar materiais
  seno  proporo que tivesse necessidade, e no momento em que a necessidade se
  manifestasse. Era mais uma complicao no meio de tantas
  dificuldades.

Acabado um primeiro trabalho,
  surgia um segundo. Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava
  resolutamente esse pulo de gigante.

CAPTULO IV
SUBRE

O homem que fazia estas coisas
  tornara-se medonho.

Gilliatt, naquele trabalho
  mltiplo, gastava todas as suas foras; dificilmente as refazia.

Privaes de uma parte, cansao de
  outra. Gilliatt tinha emagrecido. Cresceram-lhe as barbas e cabelos. Exceto uma
  camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os ps nus, porque o vento
  levara-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaos da bigorna rudimentar, e mui
  perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mos e nos braos pequenas
  chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram
  superficiais, mas irritadas pelo ar vivo e pela gua salgada.

Tinha fome, tinha sede, tinha
  frio.

O pichel de gua doce estava
  vazio. A farinha de centeio fora j comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe
  um pouco de biscoito.

No tendo gua para molh-lo,
  Gilliatt quebrava-o com os dentes.

Dia a dia iam-lhe escasseando as
  foras.

Aquele temvel rochedo
  esgotava-lhe a vida.

Beber era uma questo; comer era
  uma questo; dormir era uma questo.

Gilliatt comia quando apanhava
  algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um pssaro descer a
  alguma ponta da rocha. Trepava ento e achava numa cava um pouco de gua doce.
  Bebia depois do pssaro, s vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas j estavam
  acostumadas a ele, e no fugiam quando ele se aproximava. Gilliatt, mesmo na
  maior fome, no lhes fazia mal. Sabemos que ele tinha a superstio dos
  pssaros. Os pssaros, como os cabelos de Gilliatt estivessem eriados e
  horrveis, e a barba longa, j lhe no cobravam medo; a mudana do aspecto
  tranqilizava-os; j no viam naquilo um homem, acreditavam-no bicho.

Os pssaros e Gilliatt eram agora
  bons amigos. Todos aqueles pobres ajudavam-se uns aos outros. Enquanto Gilliatt
  teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os pssaros
  indicavam-lhe em que lugar havia gua.

Comia as conchas cruas; as
  conchas, em certa proporo, so refrigerantes. Quanto aos caranguejos,
  cozia-os; no tendo vasilha prpria, cozia-os entre duas pedras abrasadas ao
  fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.

Declarou-se, entretanto, um pouco
  de equincio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas
  longos chuviscos, finos, gelados, que atravessavam-lhe a roupa at a pele, e a
  pele at os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.

Avara de auxlio, prdiga de
  misria, tal era aquela chuva, indigna do cu. Gilliatt apanhou-a toda, durante
  uma semana, de noite e de dia. Era uma m ao l de cima.

De noite, no seu buraco do
  rochedo, s dormia por cansao. Os grandes mosquitos do mar iam mord-lo.
  Acordava coberto de pstulas.

Tinha febre, que o sustentava; a
  febre  um amparo, que mata. Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as
  folhas de cocleria selvagem, magras produes das fendas secas do rochedo. Mas
  ocupava-se bem pouco com o sofrimento. No tinha tempo de distrair-se do
  trabalho para cuidar de si. A mquina da Durande estava de sade. Era o que
  bastava.

A cada momento, para as
  necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava p. Entrava
  na gua e saa, como se passa de um quarto a outro.

As roupas j lhe no secavam.
  Estavam embebidas da gua da chuva que no parava, e da gua do mar que no seca
  nunca. Gilliatt vivia molhado.

Viver molhado  um hbito que se
  adquire. Os pobres grupos irlandeses, velhos, mes, raparigas, quase nuas,
  crianas, que passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns
  contra os outros nos ngulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem
  molhados.

Estar molhado e ter sede; Gilliatt
  suportava essa tortura estranha. De quando em quando mordia a manga da
  japona.

O fogo que ele acendia no o
  aquecia; o fogo no meio de um grande espao arejado  um meio socorro; seca-se
  de um lado, umedece-se de outro.

Gilliatt suava e
  tiritava.

Tudo lhe resistia em roda dele
  numa espcie de silncio terrvel. Ele sentia o inimigo.

As coisas tm um sombrio Non
  possumus.

A inrcia delas  uma lgubre
  advertncia.

Imensa m vontade cercava
  Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o
  fogo, gelava-o a gua, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a
  fome minava-lhe o estmago. Ele suportava a opresso em um conjunto fatigante. O
  obstculo, tranqilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade,
  mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt.
  Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe.
  Era quase uma entidade. Gilliatt tinha a conscincia de um desprezo sombrio e de
  um dio que fazia esforo por diminu-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que
  ficava, tinha de lutar com hostilidade impenetrvel. No podendo p-lo fora
  dali, punham-no debaixo dos ps. Quem? O Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no,
  tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisvel. Cada dia, a
  misteriosa verruma entrava um pedao.

A situao de Gilliatt naquele
  medonho lugar assemelhava-se a um duelo equvoco com um traidor.

Cercava-o a coalizo das foras
  obscuras. Ele sentia uma resoluo de algum para expuls-lo dali.  assim que a
  geleira expele a massa errtica.

Quase sem parecer que o tocava,
  essa coalizo latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos,
  e, por assim dizer, fora de combate antes do combate. Nem por isso deixava ele
  de trabalhar, e sem cessar, mas,  proporo que a obra se fazia, ia-se
  desfazendo o operrio. Dissera-se que aquela feroz natureza, receando a alma,
  resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt afrontava, e esperava. O abismo
  comeava por cans-lo. Que faria depois o abismo?

A dupla Douvres, drago de granito
  e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A
  admisso assemelhava-se  hospitalidade de um sorvedouro aberto.

O deserto, a extenso, o espao
  onde h para o homem tantos recursos, a inclemncia muda dos fenmenos seguindo
  o seu curso, a grande lei geral implacvel e passiva, o fluxo e o refluxo, o
  escolho, pliada negra onde cada ponto  uma estrela de turbilhes, centro de
  uma irradiao de correntes, a conspirao da indiferena das coisas contra a
  tenacidade de um ente, o inverno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt,
  apertavam-no lentamente, fechavam-se sobre ele, e o separavam dos vivos, como um
  crcere que fosse subindo  roda de um homem. Tudo contra ele, nada a favor
  dele; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.

Gilliatt tinha esgotado as
  provises, as ferramentas j estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de
  noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo supuraes, buracos nas
  roupas e na carne, mos dilaceradas, ps sangrentos, membros magros, rosto
  lvido, uma flama nos olhos.

Flama soberba essa, era a vontade
  visvel. O olho do homem  feito de modo que se lhe v por ele a virtude. A
  nossa pupila diz que quantidade de homens h dentro de ns. Afirmamo-nos pela
  luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas conscincias piscam o olho, as
  grandes lanam raios. Se no h nada que brilhe debaixo da plpebra,  que nada
  h que pense no crebro,  que nada h que ame no corao. Quem ama quer, e
  aquele que quer relampeja e cintila. A resoluo enche os olhos de fogo;
  admirvel fogo que se compe da combusto de pensamentos tmidos.

Os teimosos so os sublimes. Quem
   apenas bravo tem s um assomo, quem  apenas valente tem s um temperamento,
  quem  apenas corajoso tem s uma virtude; o obstinado na verdade tem a
  grandeza. Quase todo o segredo dos grandes coraes est nesta palavra:
  perseverando. A perseverana est para a coragem como a roda para a alavanca; 
  a renovao perptua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no cu o alvo da
  vontade, a questo  ir a esse alvo; no primeiro caso,  Colombo, no segundo
  caso,  Jesus. Insensata  a cruz; vem da a sua glria. No deixar discutir a
  conscincia, nem desarmar a vontade,  assim que se obtm o sofrimento e o
  triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair no exclui o pairar. Da queda sai a
  ascenso. Os medocres deixam-se perder pelo obstculo especioso; no assim os
  fortes. Parecer  o talvez dos fortes, conquistar  a certeza deles. Podes dar a
  Estvo todas as boas razes para que ele no se faa apedrejar. O desdm das
  objees razoveis cria a sublime vitria vencida que se chama o
  martrio.

Todos os esforos de Gilliatt
  pareciam agarrados ao impossvel, o xito era mesquinho ou lento, e cumpria
  gastar muito para obter pouco; isso  que o fazia magnnimo, isso  que o fazia
  pattico.

Que para fazer um andaime de
  quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte
  que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com
  os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas
  apalpadelas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a
  misria do trabalho solitrio. Fatalidade na causa, necessidade no efeito.
  Gilliatt fez mais do que aceitar essa misria; qui-la. Temendo um concorrente,
  porque um concorrente poderia ser um rival, no procurou auxiliar. A esmagadora
  empresa, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento
  possvel do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo
  isso tomou ele para si s. Teve este egosmo.

Gilliatt estava debaixo de uma
  espcie de mquina pneumtica. A vitalidade ia-se retirando dele a pouco e
  pouco. E ele mal o sentia.

A perda das foras no esgota a
  vontade. Crer  apenas a segunda potncia; a primeira  querer; as montanhas
  proverbiais que a f transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O
  que Gilliatt perdia em vigor reavia em tenacidade. A diminuio do homem fsico
  debaixo da ao repelente daquela natureza selvagem produzia o engrandecimento
  do homem moral.

Gilliatt no sentia a fadiga, ou,
  para melhor dizer, no consentia nela. O consentimento da alma recusado ao
  desfalecimento do corpo  uma fora imensa.

Gilliatt via os progressos do
  trabalho, e no via nada mais. Era miservel sem sab-lo. O seu alvo, que ele
  tocava quase, alucinava-o, sofria todos os sofrimentos sem ter outra idia que
  no fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe  cabea. Vontade embriagada. O
  homem pode embriagar-se com a prpria alma. Essa embriaguez chama-se
  herosmo.

Gilliatt era uma espcie de J do
  Oceano.

Mas um J que lutava, um J que
  combatia e afrontava os flagelos, um J que conquistava, e se tais palavras no
  so demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de caranguejos e de
  lagostas, um J Prometeu.

CAPTULO V
SUB
  UMBRA

s vezes, alta noite, Gilliatt
  abria os olhos e olhava para a sombra.

Sentia-se extremamente
  comovido.

Olhar aberto sobre trevas.
  Situao lgubre; ansiedade.

Existe a presso da
  sombra.

Inexprimvel teto de tnebras;
  alta obscuridade sem mergulhador possvel; luz mesclada  obscuridade, mas uma
  luz vencida e sombria; claridade reduzida a p;  semente?  cinza? milhes de
  fachos, claridade nula; vasta ignio que no diz o seu segredo, uma difuso de
  fogo em poeira que parece um bando de fascas paradas, a desordem do turbilho e
  a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipcio, o
  enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a
  escurido, eis a noite. Pesa no homem esta superposio.

Esse amlgama de todos os
  mistrios a um tempo, do mistrio csmico e do mistrio fatal, abate a cabea
  humana.

A presso da sombra atua em
  sentido inverso nas diferentes espcies de almas. O homem, diante da noite,
  reconhece-se incompleto. V a obscuridade e sente a enfermidade. O cu negro  o
  homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha-se, prosterna-se,
  roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a
  essa presena informe do desconhecido.

Pergunta o que ; treme, curva-se,
  ignora; s vezes quer ir l.

Aonde?

L.

L? O que ? Que h l?

Essa curiosidade  evidentemente a
  das coisas defesas, porque para aquele lado todas as pontes  roda do homem
  esto cortadas. Mas o desejo atrai, porque  golfo. Onde no vai o p, vai o
  olhar, onde o olhar pra, pode continuar o esprito. No h homem que no tente,
  por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza,
  investiga ou espera diante da noite. Para uns  um rechaamento, para outros 
  uma dilatao. O espetculo  sombrio. Mescla-se a ele o indefinvel.

Vai a noite serena?  um fundo de
  sombra. Vai tempestuosa?  um fundo de fumaa. O ilimitado recusa-se e
  oferece-se ao mesmo tempo, fechado  experincia, aberto  conjetura. Infinitas
  picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbnculos,
  cintilaes, astros. Presenas verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir
  tocar esses clares. So estacas da criao no absoluto; so marcos de distncia
  l onde j no h distncia;  uma espcie de numerao impossvel, e todavia
  real, do canal das profundezas. Um ponto microscpico que fulge, depois outro,
  mais outro, mais outro;  o imperceptvel,  o enorme. Essa luz  um foco, esse
  foco  uma estrela, essa estrela  um sol, esse sol  um universo, esse universo
   nada. Todo o nmero  zero diante do infinito.

Esses universos, que nada so,
  existem. Verificando-os, sente-se a diferena que vai entre ser nada, e no
  ser.

O inacessvel ligado ao
  inexplicvel, eis o cu.

Dessa contemplao solta-se um
  fenmeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.

O medo sagrado  prprio do homem;
  a besta ignora esse medo. A inteligncia acha nesse terror augusto o seu eclipse
  e a sua prova.

A sombra  una: vem da o seu
  horror. , ao mesmo tempo, complexa: vem da o terror. A sua unidade pesa no
  nosso esprito e saca-lhe a vontade de resistir.

A complexidade faz com que se olhe
  para todos os lados; parece que se devem recear assaltos sbitos. O homem
  rende-se e defende-se. Fica em presena de Tudo, da vem a submisso, e de
  Muitos, da vem a desconfiana. A unidade da sombra contm um mltiplo. Mltiplo
  misterioso, visvel na matria, sensvel no pensamento. Faz silncio, razo de
  mais para espreitar.

A noite  j o disse algures quem
  escreve estas linhas   o estado prprio, normal da criao especial de que
  fazemos parte. O dia, breve na durao como no espao,  apenas uma proximidade
  de estrela.

O prodgio noturno universal no
  se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal mquina so as contuses da
  vida. Os atritos da mquina,  o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade
  o mal, desmentido latente da ordem divina, blasfmia implcita do fato rebelde
  ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabeas ao vasto conjunto
  csmico. O mal est presente em tudo para protestar.  furaco e atormenta a
  marcha de um navio,  caos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a
  unidade, o Mal tem a ubiqidade. O mal desconcerta a vida, que  uma lgica. Faz
  devorar a mosca pelo pssaro, e o planeta pelo cometa. O mal  um borro na
  natureza.

A obscuridade noturna peja-se de
  uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. No h fadiga
  comparvel a esse exame de trevas.  o estudo de um apagamento.

No h lugar definitivo para
  pousar o esprito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das
  solues contraditrias, todos os ramos da dvida a um tempo, a ramificao dos
  fenmenos esfoliando-se sem limite sob uma impulso indefinida, mistura de todas
  as leis, uma promiscuidade insondvel que faz com que a mineralizao vegete,
  com que a vegetao viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie e a
  gravitao ame; a imensa frente de ataque de todas as questes desenvolvendo-se
  na obscuridade sem limites; o entrevisto esboando o ignorado; a simultaneidade
  csmica em plena apario, no para o olhar, mas para a inteligncia, no espao
  indistinto; o invisvel tornado viso.  a sombra. O homem est embaixo. No
  conhece os pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu esprito,
  o peso monstruoso do conjunto. Esta obsesso impelia os pastores caldeus 
  astronomia. Saem dos poros da criao revelaes involuntrias; faz-se por si
  mesma uma transudao de cincia e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnao
  misteriosa torna-se o solitrio, muitas vezes sem ter conscincia, um filsofo
  natural.

A obscuridade  indivisvel. 
  habitada. Habitada sem deslocao pelo absurdo; habitada tambm com deslocao.
  Move-se ali dentro alguma coisa, o que  para assustar. Uma formao sagrada
  desenvolve ali as suas fases. Premeditaes, potncias, destinos intencionais
  laboram a em comum uma obra desmedida. Vida terrvel e horrvel  o que existe
  ali dentro. H vastas evolues de astros, a famlia estelar, a famlia
  planetria, o plen zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos eflvios,
  das polarizaes e das alteraes; h o amplexo e o antagonismo, um magnfico
  fluxo e refluxo da anttese universal, o impondervel em liberdade no meio dos
  centros; h a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o tomo errante, o germe
  esparso, curvas de fecundao, encontros de ajuntamento e de combate, profuses
  inauditas, distncias que parecem sonhos, circulaes vertiginosas, mergulhos de
  mundos no incalculvel, prodgios perseguindo-se nas trevas, um maquinismo
  definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sente andarem, existe e
  esconde-se;  inexpugnvel, fora de alcance. Fica-se convencido at  opresso.
  Tem-se em si uma evidncia negra. Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o
  impalpvel.

Por toda a parte o
  incompreensvel: em parte alguma o inteligvel.

E a tudo isto acrescentai a
  terrvel questo: esta Imanncia  um Ser?

Est-se debaixo da sombra.
  Olha-se. Escuta-se.

Entretanto a terra sombria caminha
  e rola, as flores tm conscincia desse movimento enorme; a silena abre-se s 11
  horas da noite e o hemerocale s 5 horas da manh. Impressvel
  regularidade.

Em outras profundidades a gota de
  gua faz-se mundo, o infusrio pulula, a fecundidade gigante sai do animlculo,
  o imperceptvel ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade
  manifesta-se; uma diatomia produz em uma hora 1 milhar e 300 milhes de
  diatomias.

Que proposio de todos os enigmas
  ao mesmo tempo!

Est a o irredutvel.

Constrange-se-nos  f. Crer por
  fora, eis o resultado. Mas para estar tranqilo no basta ter f. A f tem uma
  estranha necessidade de forma. Da vm as religies. Nada  to opressivo como
  uma crena sem delineamento.

Qualquer que seja o pensamento e a
  vontade, qualquer que seja a resistncia interior, olhar a sombra no  olhar, 
  contemplar.

Que fazer desses fenmenos? Como
  mover-se debaixo de sua convergncia?  impossvel decompor esta presso. Que
  devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas
  revelaes abstrusas, simultneas, obscurecendo-se em sua prpria multido,
  espcie de balbuciar do verbo! A sombra  um silncio; mas esse silncio diz
  tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus  a noo incompreensvel.
  Essa noo est no homem. Os silogismos, as querelas, as negaes, os sistemas,
  as religies passam por cima sem diminu-la. A sombra inteira afirma aquela
  noo. Mas turva-se tudo o mais. Imanncia formidvel. A inexprimvel harmonia
  das foras manifesta-se pelo equilbrio dessa obscuridade. O universo pende;
  nada tomba. O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e sem
  fratura. O homem participa deste movimento de translao e  quantidade de
  oscilao que suporta chama le destino. Onde comea o destino? Onde acaba a
  natureza? Que diferena h entre um acontecimento e uma estao, entre um pesar
  e uma chuva, entre uma virtude e uma estrela? Uma hora no  uma onda? Continua
  o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revoluo impassvel. O cu
  estrelado  uma viso de rodas, de pndulas e de contrapesos.  a contemplao
  suprema forrada da suprema meditao.  toda a realidade e mais a abstrao.
  Nada alm da. O homem sente-se preso. Fica  discrio da sombra. No h evaso
  possvel. V-se ele naquele composto de rodas,  parte integrante de um Todo
  ignorado, sente o desconhecido que est fora dele. Isto  o anncio sublime da
  morte. Que angstia e, ao mesmo tempo, que fascinao! Aderir ao infinito e por
  essa aderncia atribuir-se uma imortalidade necessria, quem sabe? Uma
  eternidade possvel sentir na prodigiosa vaga desse silncio universal a
  obstinao insubmersvel do eu! Contemplar os astros e dizer: Sou uma alma como
  vs! Contemplar a obscuridade e dizer: Sou um abismo como tu.

Essas enormidades so a
  noite.

Tudo isso aumentado, pela solido,
  pesava em Gilliatt.

Compreendia-o ele? No. Sentia-o?
  Sim.

Gilliatt era um grande esprito
  turvado e um grande corao selvagem.

CAPTULO VI
GILLIATT COLOCA A PANA EM
  POSIO

O salvamento da mquina, meditado
  por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evaso e so conhecidas as
  pacincias da evaso. Tambm se conhecem as suas indstrias. A indstria chega
  ao milagre; a pacincia atinge a agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo,
  no monte So Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha
  em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou chumbo na plataforma de passeio
  da priso, no se sabe com que faca, fundiu-o no se sabe com que fogo, vazou-o
  numa frma feita de migalhas de po; com esse chumbo e essa frma fez uma chave
  e com essa chave abriu uma fechadura que ele apenas conhecia por ter-lhe visto o
  buraco. Gilliatt tinha essas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer
  o penedio Boisros. Era o Trenk de um destroo e o Latude de uma
  mquina.

O mar, que era o carcereiro,
  vigiava-o.

Demais, por ingrata e m que fosse
  a chuva, Gilliatt aproveitou-a. Refez com ela a sua proviso de gua doce; mas a
  sede era inextinguvel e Gilliatt esvaziava o pichel quase to rapidamente como
  o enchia.

Um dia, o ltimo de abril, creio,
  ou o 1 de maio, tudo estava pronto. O assoalho da mquina estava como que
  metido entre os oito-cabos das pols, quatro de um lado, quatro de outro. As
  dezesseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao
  tombadilho e  carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima,
  o forro com a faca e o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a
  mquina foi cortada em quadro e estava pronta para resvalar com a mquina
  sustentando-a. Todo esse grupo assustador s estava preso por uma corrente, a
  qual dependia s de um golpe de lima. To perto do remate, a pressa era
  prudncia.

A mar estava baixa, o momento era
  bom.

Gilliatt tinha conseguido
  desmontar a rvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstculo e
  impedir aquele levantar de ncora. Tinha conseguido amarrar verticalmente a
  pesada pea na prpria mquina.

Era tempo de acabar. Gilliatt,
  como dissemos, no estava cansado porque no queria, mas as suas ferramentas
  estavam. A forja tornava-se impossvel a pouco e pouco. A pedra que servia de
  bigorna tinha-se quebrado. O fole comeava a trabalhar mal. Como a pequena queda
  hidrulica era de gua marinha, formaram-se depsitos salinos nas junturas do
  aparelho e impediam-lhe o jogo.

Gilliatt foi  angra do Homem,
  passou revista  pana, assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as
  quatro argolas pregadas a bombordo e estibordo, levantou a ncora e remando
  voltou com a pana s duas Douvres.

O intervalo das Douvres podia
  admitir a pana. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu,
  desde o primeiro dia, que podia-se levar a pana at debaixo da
  Durande.

A manobra era contudo excessiva,
  exigia uma preciso de joalheiro e esta insero do barco no escolho era tanto
  mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessrio
  entrar pela popa com o leme na proa. Era necessrio que o mastro e os aparelhos
  da pana ficassem aqum do casco do vapor, do lado da entrada.

Este agravo na manobra tornou a
  operao difcil ao prprio Gilliatt. J no era, como na angra do Homem, uma
  questo de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puxar, remar e
  sondar. Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas
  conseguiu.

Em quinze ou vinte minutos a pana
  ficou colocada debaixo da Durande. Ficou quase atravessada. Gilliatt, por meio
  de duas ncoras, segurou a pana. A maior ficou colocada de modo a trabalhar com
  o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois, por meio de uma alavanca e
  de um cabrestante, Gilliatt passou para a pana as duas caixas, contendo as
  rodas desmontadas, cujos cabos de guindar estavam prontos. As duas caixas
  fizeram lastro.

Desembaraado das duas caixas,
  Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado
  a conter os guindastes.

Para a obra de Gilliatt os
  defeitos da pana tornavam-se qualidades; no tinha coberta, o carregamento
  achava mais fundo e podia pousar no poro. Era mastreada na proa, muito na proa
  talvez, o carregamento achava mais facilidade e o mastro ficava fora da mquina,
  de modo que nada impedia a sada; era uma espcie de concha, e nada mais estvel
  e slido no mar corno uma concha.

De repente Gilliatt viu que a mar
  enchia. Tratou de ver donde soprava o vento.

CAPTULO VII
SURGE UM
  PERIGO

Havia pouca brisa, mas vinha do
  oeste.  um mau costume do vento no equincio.

A mar enchente, conforme o vento
  que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda
  entra naquele corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a
  gua  boa e mole, se entra por oeste  furiosa. A razo disto  que o vento de
  leste, vindo de terra, tem pouco alento, enquanto que o vento de oeste, que
  atravessa o Atlntico, traz consigo o sopro da imensidade. Mesmo quando a brisa
   fraca assusta quando vem do oeste. Rola largas ondas da extenso ilimitada e
  cospe grossas vagas no estreito.

A gua que se engolfa  sempre
  terrvel. A gua  como a multido; uma multido  um lquido; quando a
  quantidade que pode entrar  menor que a quantidade que deseja entrar, a
  multido machuca-se e a gua convulsiona-se. Enquanto sopra o vento do poente,
  ainda a mais fraca brisa, h nas Douvres este assalto duas vezes por dia. A mar
  levanta-se, a rocha resiste, a abertura  pequena, a onda entrando  fora,
  salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viela.
  De modo que as Douvres, ao menor vento do oeste, oferecem este espetculo
  singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e
  circunscrito no  uma tormenta;  apenas uma revolta de vagas, mas terrvel.
  Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do
  escolho. A entrada por leste,  preciso lembr-lo, confina com o rochedo Homem;
  a abertura temvel do oeste fica na extremidade oposta exatamente entre as duas
  Douvres.

Nessa abertura de oeste  que se
  achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pana ancorada.

Parecia inevitvel uma catstrofe,
  esta catstrofe iminente tinha, embora pouco, o vento de que
  precisava.

Dentro de poucas horas o
  inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta, no estreito
  das Douvres. As primeiras vagas j comeavam a rugir. Inchamento esse, refluxo
  impetuoso de todo o Atlntico que teria atrs de si a totalidade do mar. Nenhuma
  borrasca, nenhuma clera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma
  fora de impulso que, partindo da Amrica para chegar  Europa, tinha 2 000
  lguas de jato. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiato do
  escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito,
  inchada pela mar, inchada pelo obstculo, repelida pelo rochedo, castigada pelo
  vento, faria violncia ao escolho, penetraria, com todas as tores do obstculo
  encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas,
  encontraria a pana e a Durande, e as estrangularia.

Era preciso um broquel contra essa
  eventualidade. Gilliatt tinha-o.

Cumpria impedir que a mar
  entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem
  recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, prevenir a compresso da onda
  na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupo pela introduo,
  conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquela fria a ser tranqila.
  Era preciso substituir ao obstculo que irrita, o obstculo que
  aplaca.

Gilliatt, com a destreza que
  tinha, mais forte que a fora, executando uma manobra de cabrito-monts na
  montanha ou de macaco na floresta, utilizando com saltos oscilantes e
  vertiginosos a menor salincia de pedra, pulando na gua, nadando nos
  redemoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martelo na mo,
  desatou o cabo que prendia  pequena Douvre o pedao da amurada de proa da
  Durande, fez com as pontas da maroma uma espcie de gonzos prendendo aquele
  pedao de madeira aos grandes pregos metidos no granito, fez voltar naqueles
  gonzos aquela armadura de tbuas semelhante ao alapo de um dique, exp-lo em
  flanco, como se faz com um leme,  onda que impelia, e aplicou essa extremidade
   grande Douvre, enquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra
  extremidade; operou na grande Douvre, por meio de pregos, postos de antemo, a
  mesma fixao que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao
  duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte numa
  couraa e, em menos de uma hora, levantou-se o obstculo contra a mar, e a
  viela do escolho ficou fechada como por uma porta.

Este robusto tapamento, pesada
  massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de p uma parede, foi, com
  auxlio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco.
  Podia-se dizer quase que a coisa foi feita antes que o mar se apercebesse
  disso.

Era um desses casos em que Jean
  Bart dizia o famoso dito que ele dirigia  vaga do mar, cada vez que esquivava
  um naufrgio: Apanhei-te, ingls! Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar
  o oceano chamava-o ingls.

Tapado o estreito, Gilliatt cuidou
  da pana. Dividiu o cabo nas duas ncoras para que ela pudesse subir com a mar.
  Operao anloga a que os antigos martimos chamavam: mouiller avec des
    embossures.

Em tudo isso Gilliatt no foi
  surpreendido, o caso estava previsto; um homem do oficio reconhec-lo-ia vendo
  as duas roldanas de guindar metidas por trs da pana, nas quais passavam dois
  pequenos cabos cujas pontas estavam presas s argolas das duas
  ncoras.

Entretanto, crescia a mar; j
  subira a metade;  nesse momento que os choques das ondas, mesmo plcidos, podem
  ser rudes. O que Gilliatt combinara realizou-se. A onda rolava violentamente
  para a porta, encontrava-a, inchava e passava por cima. Fora era o marulho.
  Dentro a infiltrao. Gilliatt imaginou alguma coisa semelhante s forcas
  caudinas do mar. A mar estava vencida.

CAPTULO
  VIII
MAIS PERCIA QUE
  DESENLACE

Chegara o tremendo
  instante.

Tratava-se agora de pr a mquina
  na pana.

Gilliatt ficou pensativo alguns
  momentos, tendo o cotovelo do brao esquerdo na mo direita, e a fronte na mo
  esquerda.

Depois subiu  Durande, cuja
  metade, que era a mquina, devia sair e cujo casco devia ficar.

Cortou os quatro cabos que
  prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda,
  bastou-lhe a faca.

As quatro correntes, livres,
  ficaram pendentes ao longo do cano.

Do navio subiu ele ao aparelho que
  construra, bateu com o p em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as
  pols, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame no
  estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava
  bambo, depois, pulando do alto das peas sobre o tombadilho, tomou posio, ao
  p do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o
  seu posto de trabalho.

Grave, sentindo somente a comoo
  til, lanou um ltimo olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e ps-se a
  cortar a corrente que sustentava tudo.

Ouvia-se o ranger da lima no meio
  do murmrio do mar.

A corrente do cabrestante, presa
  ao cabo regulador, ficava ao alcance da mo de Gilliatt.

De repente, houve um estalo. A
  argola que a lima cortava, j limada por metade, tinha-se quebrado; todo o
  aparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande
  cabo.

A corrente quebrada bateu no
  rochedo, os oito cabos retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada
  desprendeu-se do navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da
  mquina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.

Se Gilliatt no tivesse chegado a
  tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mo terrvel estava l; foi
  apenas uma descida.

Quando o irmo de Jean Bart,
  Pierre Bart, aquele bbado possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque
  que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron, perdida
  na baa de Ambleteuse, quando, para tirar aquela pesada massa flutuante dos
  cachopos da baa furiosa, amarrou a vela grande com juncos marinhos, quando ele
  quis que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se na
  rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente, foi a mesma estranha
  audcia coroada pela mesma vitria surpreendente.

A corda motora, segura por
  Gilliatt, operou admiravelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por
  fim diminuir as foras convertidas em uma s e reduzidas a um movimento de
  conjunto. Aquela corda tinha alguma relao com uma bolina; somente em vez de
  orientar uma vela, equilibrava um maquinismo.

Gilliatt, de p e com a mo no
  cabrestante, tinha por assim dizer a mo no pulso do aparelho.

Aqui a inveno de Gilliatt
  manifestou-se toda.

Produziu-se uma notvel
  coincidncia de foras.

Enquanto a mquina da Durande
  separada em massa, descia para a pana, a pana subia para a mquina. O navio
  naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam
  encontrando-se. Poupava-se, deste modo, metade do trabalho.

A mar, enchendo sem rumor entre
  as duas Douvres, levantava a embarcao e aproximava-a da Durande. A mar estava
  mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do
  maquinismo.

A vaga subindo, levantava a pana
  sem choque, brandamente, quase com precauo e como se ela fosse de
  porcelana.

Gilliatt combinava e proporcionava
  os dois trabalhos, o da gua e do aparelho, e, imvel, no cabrestante, espcie
  de esttua temvel, obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a
  lentido da descida pela lentido da subida.

Nenhum abalo na gua, nenhum
  balano nas pranchas. Era uma estranha colaborao de todas as foras naturais
  dominadas. De um lado a gravitao levava a mquina; do outro a mar trazia o
  barco. A atrao dos astros, que  o fluxo, e a atrao do globo, que  a
  gravidade, pareciam harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinao no
  tinha hesitao nem parada, e, debaixo da presso de uma alma, aquelas duas
  potncias passivas tornavam-se ativas auxiliares. A obra caminhava de minuto a
  minuto; o intervalo entre a pana e a Durande diminua insensivelmente. Fazia-se
  a aproximao em silncio e com uma espcie de terror pelo homem que estava ali.
  O elemento recebia uma ordem e executava-a.

Quase no momento em que a mar
  cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem comoo; as
  roldanas pararam. A mquina, como se fosse colocada a mo, assentou-se no fundo
  da pana. Estava direita, de p, imvel, slida. A placa que a sustentava
  apoiava-se com os seus quatro ngulos e a prumo no poro.

Estava pronto.

Gilliatt olhou atnito.

A pobre criatura no tinha tido
  muitas alegrias em sua vida. Sentiu o alquebramento de uma imensa felicidade.
  Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que no se perturbara
  at ento, comeou a tremer.

Contemplou a pana debaixo do
  navio e a mquina dentro da pana. Parecia no acreditar. Dissera-se que ele no
  contava com aquilo. Sara-lhe um prodgio das mos, e ele contemplava-o com
  espanto.

Mas esse espanto durou
  pouco.

Gilliatt teve o movimento de um
  homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado
  agora da pana apenas uns 10 ps, deu um salto, caiu dentro, pegou em um rolo de
  fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemo e prendeu por
  ambos os lados da pana as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda
  estavam presas na amurada da Durande.

Amarrada ao cano, Gilliatt
  desembaraou a parte superior da mquina. Um pedao do tombadilho da Durande
  ainda ali estava preso. Gilliatt despregou-o e limpou a pana daquela poro de
  tbuas e vergas que atirou sobre os rochedos. til alvio.

Demais, como  de prever, a pana
  sustentou com firmeza a carga da mquina. Mergulhou muito pouca coisa. A mquina
  da Durande, embora macia, era menos pesada que o monto de pedras e o canho
  trazido outrora de Herm pela pana.

Tudo estava acabado. S restava
  ir-se embora.

CAPTULO IX
INTERROMPE-SE O
  XITO

Nem tudo estava
  acabado.

Abrir a entrada das Douvres,
  fechada pelo pedao da amurada da Durande, e levar imediatamente a pana para
  fora do escolho, nada mais claro do que isto.

No mar todos os minutos so
  urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela
  noite. O mar era de rosas, mas o refluxo comeava; excelente momento para
  partir. Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a enchente para entrar
  em Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.

Mas apresentou-se um obstculo
  inesperado. Houve uma lacuna na previdncia de Gilliatt.

A mquina estava livre, o cano
  estava preso.

A mar, aproximando a pana da
  Durande, tinha diminudo os perigos da descida; mas essa diminuio do intervalo
  deixou a parte superior do cano metida na espcie de quadro que apresentava o
  bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro
  paredes.

O servio prestado pelo mar
  complicava-se com esta dissimulao. Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve
  uma segunda teno.

 verdade que aquilo que a
  enchente fizera ia desfaz-lo a vazante.

O cano, tendo mais de 3 toesas de
  altura, tinha uns 8 ps metidos na Durande; o nvel da gua a baixaria 12 ps;
  o cano, descendo com a pana, teria 4 ps de espao acima de si, e poderia
  sair.

Mas quanto tempo era preciso para
  isto? Seis horas.

Da a seis horas seria meia-noite.
  Que meio tentaria Gilliatt para sair quela hora, que canal tomaria atravs
  daqueles cachopos, j to inextrincveis de dia, e como arriscar-se no meio da
  noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?

Era fora esperar at o dia
  seguinte. Aquelas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze
  horas.

Era mesmo necessrio no adiantar
  trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso at a mar
  prxima.

Gilliatt devia
  repousar.

Cruzar os braos era a nica coisa
  que ele no tinha feito desde que estava no escolho Douvres.

Irritou-o, indignou-o quase, como
  se fosse culpa dele, aquele descanso. Disse consigo: Que pensaria de mim
  Druchette se me visse aqui sem fazer nada?

Contudo, no lhe era intil
  refazer as foras.

Estando a pana  sua disposio,
  Gilliatt resolveu passar a noite a bordo.

Foi buscar a pele de carneiro no
  alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou trs castanhas do
  mar, bebeu por ter muita sede os ltimos goles da gua doce do pichel quase
  vazio, embrulhou-se na pele cuja l deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um
  co de guarda ao p da mquina, abaixou o chapu sobre os olhos e
  adormeceu.

Dormiu profundamente. Tem-se
  daqueles sonos depois das obras acabadas.

CAPTULO X
AS ADVERTNCIAS DO
  MAR

No meio da noite, bruscamente, e
  como por mola, Gilliatt acordou.

Abriu os olhos.

As Douvres, acima da cabea dele,
  estavam iluminadas como pela reverberao de uma grande brasa branca. Havia em
  toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.

Donde vinha o fogo?

Da gua.

O mar estava
  extraordinrio.

Parecia que a gua incendiava-se.
  Onde os olhos alcanavam, no escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. No
  era uma flama vermelha; no se parecia com a grande flama viva das crateras e
  das fornalhas. Nenhuma crepitao, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum
  rudo. Rastilhos azulados imitavam na gua as dobras de uma mortalha. Um grande
  claro lvido estremecia na gua. No era incndio; era o espectro
  dele.

Era uma coisa semelhante ao
  abrasamento lvido do interior de um sepulcro por uma chama ideal.

Imaginai trevas acesas.

A noite, a vasta noite turva e
  difusa, parecia ser um combustvel daquele fogo gelado. Era uma claridade feita
  de cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.

Os marinheiros da Mancha conhecem
  todas essas indescritveis fosforescncias, que advertem o navegante. Em parte
  alguma so mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.

Diante desta luz as coisas perdem
  a realidade. Uma penetrao fantstica torna-as como que transparentes. Os
  rochedos so apenas lineamentos. Os cabos das ncoras parecem barras de ferro
  ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo da gua.
  Metade do remo  de bano, a outra metade debaixo da gua  de prata. Os pingos
  da gua que caem dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um
  cometa. Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem.
  Mergulha-se a mo no mar e sai calada de chama:  uma chama morta, no se
  sente. O brao parece um tio aceso. Vem-se as formas que esto no mar rolarem
  debaixo das vagas alumiadas. A espuma cintila. Os peixes so lnguas de fogo e
  uns pedaos de relmpago serpenteiam naquela plida profundidade.

Gilliatt acordou porque o claro
  atravessou-lhe as plpebras fechadas.

Acordou a tempo.

A mar tinha descido; comeava a
  encher de novo.

O cano da mquina, solto durante o
  sono de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.

Subia lentamente.

Mais palmo e meio, e o cano
  estaria dentro da Durande.

Para isso ainda havia meia hora.
  Gilliatt, se quisesse aproveitar a ocasio, tinha essa meia hora diante de
  si.

Levantou-se
  sobressaltado.

Por mais urgente que fosse a
  situao, ele no pde deixar de ficar alguns instantes de p, contemplando a
  fosforescncia e meditando.

Gilliatt conhecia o mar a fundo.
  Embora tivesse sido muito maltratado por ele, o mar era j de muito tempo
  companheiro de Gilliatt. Aquele ente misterioso que se chama oceano no podia
  ter nenhuma idia que Gilliatt no a adivinhasse. Gilliatt,  fora de
  observao, de cisma e de solido, tornara-se um vidente do tempo, aquilo que se
  chama, em ingls, um wheater wise.

Gilliatt correu s amarras e
  guindou-as; depois, j no estando retido pelas ncoras, travou do croque da
  pana e, apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas braas distante da
  Durande perto do tapamento de tbuas. Havia rang, corno dizem os
  martimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pana estava fora do casco. J
  no havia receio de que o cano pudesse ficar preso.

Entretanto, Gilliatt no se
  mostrava disposto a partir.

Contemplou ainda a fosforescncia
  e levantou as ncoras, mas no era para navegar, era para ancorar de novo a
  pana, e muito solidamente;  verdade que o barco ficou junto da
  porta.

At ento s tinha usado das duas
  ncoras da pana, e no tinha ainda empregado a pequena ncora da Durande,
  achada, como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as
  urgncias, num canto da pana entre maromas e pols, e juntamente o cabo
  guarnecido de boas. Gilliatt deitou ao mar essa terceira ncora, tendo cuidado
  de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da ncora,
  ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pana com trs
  ncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva preocupao e um redobrar
  de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria, nessa operao, alguma coisa
  semelhante a um deitar ferros obrigado, quando h a recear uma corrente que
  possa fazer garrar o navio.

A fosforescncia sobre a qual
  Gilliatt tinha os olhos fixos ameaava-o talvez, mas ao mesmo tempo servia-o. Se
  no fosse ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e vtima da morte. Ela no s o
  despertou, seno que o alumiava tambm.

Havia no escolho uma luz opaca.
  Mas esse claro, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe til
  porque tornou-lhe o perigo visvel e a manobra possvel.

Agora, quando Gilliatt quisesse
  abrir vela, a pana, carregando a mquina, estava livre.

Somente Gilliatt parecia pensar
  cada vez menos em partir. Ancorada a pana, foi ele buscar a mais forte corrente
  que tinha no depsito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas Douvres,
  fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes j protegido pelo lado de
  fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.

A fosforescncia ainda iluminava,
  mas ia diminuindo.  verdade que o dia comeava a romper.

De repente, Gilliatt prestou
  ouvidos.

CAPTULO XI
PARA UM BOM ENTENDEDOR MEIA
  PALAVRA BASTA

Pareceu-lhe ouvir, imensamente
  longe, um qu de fraco e indistinto.

As profundezas, em certas horas,
  tm um certo rugido.

Gilliatt atentou pela segunda vez.
  O rumor longnquo recomeou. Gilliatt sacudiu a cabea como quem sabia o que
  era.

Momentos depois, estava ele na
  outra extremidade da viela do escolho, na entrada de leste, livre at ali, e com
  grandes marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela abertura
  vizinha do rochedo Homem.

Os buracos desses rochedos estavam
  preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. O escolho
  desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pde meter a
  mais pregos ainda que no esvaziamento das Douvres.

Num momento dado, e como se lhe
  soprassem de cima, a fosforescncia apagou-se; o crepsculo, cada vez mais
  luminoso, substitua-a.

Metidos os pregos, Gilliatt
  arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos
  do trabalho, sem se distrair um momento, comeou a construir na abertura do
  Homem, com tbuas fixadas horizontalmente e presas por cabos, um desses
  tapamentos de clarabia, que a cincia j adotou, e qualifica de
  quebra-mar.

Os que viram, por exemplo, na
  Rocquaine em Guernesey, ou no Bouryd'eau na Frana, o efeito que fazem algumas
  estacas pregadas no rochedo, compreendem a fora desses trabalhos smplices. O
  quebra-mar  a combinao daquilo que na Frana se chama epi e daquilo
  que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar so os cavalos de frisa das
  fortificaes contra as tempestades. No se pode lutar contra o mar seno
  aproveitando a divisibilidade dessa fora.

Entretanto, levantara-se o sol,
  perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.

Gilliatt apressava o trabalho.
  Tambm ele estava calmo, mas na sua pressa havia ansiedade.

Passava, em grandes pulos, de
  rocha em rocha, do tapamento ao depsito e do depsito ao tapamento. Voltava
  puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se ento a
  necessidade daquele depsito de destroos. Era evidente que Gilliatt estava
  diante de uma eventualidade prevista.

Uma forte barra de ferro
  servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.

O trabalho executava-se to
  depressa que mais parecia um crescimento que uma construo. Quem no viu
  trabalhar um portageiro militar no pode fazer idia daquela rapidez.

A abertura de leste era ainda mais
  estreita que a de oeste. Tinha apenas 5 ou 6 ps de largura. A estreiteza
  ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espao que tinha de fortificar e fechar, a
  armadura seria mais slida e podia ser mais simples. Bastavam, pois, vigas
  horizontais; as peas verticais eram inteis.

Postos os primeiros travesses do
  quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.

O rugido tornava-se
  expressivo.

Gilliatt continuou a construo.
  Acrescentou-lhe dois cepos da Durande ligados s pontas das vigas com drias
  passadas nas trs rodas das pols. Ligou tudo com correntes.

Essa construo era nada menos que
  uma espcie de grade colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram
  os vimes.

Parecia entranado como parecia
  construdo.

Gilliatt multiplicou os laos e
  ps mais pregos onde era preciso.

Tendo muito ferro redondo na
  Durande, pde fazer uma grande proviso desses pregos.

Ao mesmo tempo que trabalhava ia
  mastigando biscoito. Tinha sede, mas no podia beber, por j no ter gua doce.
  Esgotara o pichel na noite anterior.

Acrescentou ainda quatro ou cinco
  tbuas, depois trepou em cima de tudo. Escutou.

Cessou o rumor ao longe e
  calava-se tudo.

O mar estava manso e soberbo;
  merecia todos os madrigais que lhe dirigem os burgueses quando esto contentes
  com ele  um espelho, um mar de rosas, um tanque, um mar de leite. O azul
  profundo do cu correspondia ao verde profundo do oceano. Aquela safira e aquela
  esmeralda podiam admirar-se ambas. No tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem
  em cima, nenhuma espuma embaixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o
  sol de abril. Era impossvel ver mais belo dia.

No extremo horizonte uma fila
  negra de aves de arribao atravessava o cu. Iam depressa. Dirigiam-se para a
  terra. Parecia uma fuga.

Gilliatt continuou a levantar o
  quebra-mar.

Levantou-o o mais que pde, to
  alto como lhe permitiu a curvatura dos rochedos.

Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe
  mais quente do que devia estar. Meio-dia  a hora crtica do dia. Gilliatt, de
  p na robusta clarabia que acabava de construir, entrou a contemplar a
  extenso.

O mar estava mais que tranqilo,
  estava estagnado. No se via uma vela. O cu estava lmpido; somente o azul
  tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horizonte, a oeste, havia uma
  manchazinha de aparncia ruim. Essa mancha estava imvel, mas crescia. Junto dos
  cachopos o mar palpitava brandamente.

Gilliatt fizera bem em construir o
  quebra-mar.

Aproximava-se uma
  tempestade.

O abismo resolvera dar
  batalha.

LIVRO
  TERCEIRO
A LUTA

CAPTULO
  PRIMEIRO
O EXTREMO TOCA O EXTREMO E O
  CONTRRIO ANUNCIA O CONTRRIO

Nada to ameaador corno o
  equincio que retarda.

H no mar um fenmeno medonho que
  se pode chamar a chegada dos ventos do largo.

Em todas as estaes,
  especialmente na poca das sizgias, no momento em que menos se espera, o mar
  apresenta uma sbita e estranha tranqilidade. Aplaca-se aquele prodigioso
  movimento contnuo; cai em madorna e languidez; parece que vai descansar;
  crer-se-ia que est fatigado. Todos os trapos marinhos, desde as flmulas de
  pesca, at s insgnias de guerra, pendem ao longo dos mastros. Os pavilhes
  almirantes, reais, imperiais, dormem todos.

De repente esses panos comeam a
  mexer-se discretamente.

 a hora, se h nuvens, de
  espreitar a formao dos cirros; se o sol se pe,  a hora de examinar a cor da
  tarde; se  de noite e h luar,  a hora de estudar as aurolas
  planetrias.

Nessa hora, o capito ou chefe de
  esquadra que tem a fortuna de possuir um desses vidros de tempestade, cujo
  inventor no se conhece, observa o vidro com o microscpio e toma as suas
  precaues contra o vento do sul, se a mistura tem aspecto de acar fundido; e
  contra o vento do norte, se a mistura se esfolha em cristalizaes semelhantes
  aos tufos de ervas ou aos bosques de pinheiro. Nessa hora, depois de ter
  consultado o gnomo misterioso gravado pelos romanos, ou pelos demnios, numa
  dessas estreitas pedras enigmticas que na Bretanha se chamam menires, e na
  Irlanda cruachs, o pobre pescador irlands ou breto retira a sua barca
  do mar.

Persiste entretanto a serenidade
  do cu e do oceano. A manh rompe radiosa e a aurora sorri, o que enchia de
  religioso horror os antigos poetas e os antigos adivinhos, assustados de que se
  pudesse crer na deslealdade do sol. Solem quis dicere falsum
    audeat?

A sombria viso do possvel
  latente  interceptada ao homem pela opacidade fatal das coisas. O mais temvel
  e o mais prfido aspecto  a mscara do abismo.

Diz-se: anguis in herba;
  devia dizer-se: borrasca na calma.

Assim se passam horas e, s vezes,
  dias. Os pilotos assestam os seus culos. O rosto dos velhos marinheiros tem um
  ar de severidade que se prende  clera secreta da expectao.

De sbito ouve-se um grande
  murmrio confuso. H uma espcie de dilogo misterioso no ar.

No se v coisa alguma.

A extenso fica
  impassvel.

Entretanto o rumor cresce,
  engrossa, eleva-se. Acentua-se o dilogo.

H algum por trs do
  horizonte.

Pessoa terrvel essa,  o
  vento.

O vento, isto , a populao de
  tits que chamamos Tufes.

Imensa plebe da sombra.

A ndia chamava-os Morouts, a
  Judia Querubins, a Grcia Aquiles. So os invisveis pssaros ferozes do
  infinito. Esses Breas precipitam-se.

CAPTULO II
OS VENTOS DO
  LARGO

Donde vm eles? Do incomensurvel.
  Os seus grandes vos exigem o dimetro do golfo. As suas asas desmedidas
  precisam das solides indefinidas. O Atlntico, o Pacfico, essas vastas
  aberturas azuis, eis o que lhes convm. Fazem-nas sombrias. Voam em bandos. O
  Comandante Page viu de uma vez, no mar alto, sete trombas a um tempo. A so
  medonhas. Premeditam os desastres. Tm por trabalho deles o intumescimento
  efmero e eterno dos vagalhes. Ignora-se o que eles podem, desconhece-se o que
  eles querem. So as esfinges do abismo; e Vasco da Gama  o seu dipo. Faces de
  nuvens aparecem nessa obscuridade da extenso sempre em movimento. Quem descobre
  os seus lineamentos lvidos nessa disperso que  o horizonte do mar sente-se em
  presena da fora irredutvel. Dissera-se que a inteligncia humana os assusta,
  e eriam-se contra ela. A inteligncia  invencvel, mas o elemento  indomvel.
  Que fazer contra a ubiqidade que se no sujeita! O vento faz-se massa e
  torna-se vento outra vez. Os ventos combatem esmagando e defendem-se
  esvaindo-se.

Quem depara com eles s pode
  lanar mo de expedientes. Eles frustram-nos pelo assalto diverso e repercutido.
  Tanto atacam como fogem. So os impalpveis tenazes. Como venc-los? A proa do
  navio Argo, esculpida em um carvalho de Dodona, ao mesmo tempo proa e piloto,
  costumava falar-lhes. Eles maltratavam aquela proa deusa. Cristvo Colombo,
  vendo-os vir de encontro  Pinta, subiu ao tombadilho e dirigiu-lhes os
  primeiros versculos do Evangelho de So Joo. Surcouf insultava-os. A vem a
  pandilha, dizia ele. Napier descarregava-lhes tiros em cima. Eles tm a
  ditadura do caos.

Tm o caos. Que fazem dele? Fazem
  uma coisa implacvel. A cova dos ventos  mais monstruosa que a cova dos lees.
  Quantos cadveres debaixo dessas dobras sem fundo! Os ventos empurram sem
  piedade a grande massa obscura e amarga. A gente os ouve sempre, mas eles no
  ouvem a ningum. Cometem coisas que parecem crimes. No se sabe sobre quem
  atiram eles os punhados brancos de espuma. Que ferocidade mpia no naufrgio!
  Que afronta  Providncia! s vezes parecem que cospem em Deus. So os tiranos
  dos lugares desconhecidos. Luoghi spaventosi, murmuravam os marinheiros de
  Veneza.

Os espaos trmulos suportam os
  seus ataques.  inexprimvel o que se passa nesses grandes abandonos. Mistura-se
   sombra um elemento eqestre. O ar faz um rumor de floresta. No se v nada,
  mas ouve-se um rudo de cavalos.  meio-dia, de sbito anoitece; passa um
  tornado;  meia-noite, de repente esclarece, acende-se o eflvio polar. Alternam
  em sentido inverso os turbilhes, espcie de dana hedionda, tripdio dos
  flagelos sobre o elemento. Quebra-se pelo meio uma pesada nuvem, e os pedaos
  vo precipitar-se no mar. Outras nuvens, purpureadas, iluminam e roncam, depois
  escurecem lugubremente; a nuvem, esvaziada de raio,  carvo apagado. Sacos de
  chuva rompem-se em bruma. Fornalha em que chove, onda que vomita luz. As nuvens
  do mar debaixo do aguaceiro iluminam surpreendentes quadros; desfiguram-se
  espessuras onde se reproduzern as semelhanas. Monstruoso umbigo vai rompendo as
  nuvens. Volteiam os vapores, saracoteiam as vagas; rolam embriagadas as niades;
  a perder de vista, o mar macio e mole move-se sempre sem jamais deslocar-se;
  tudo  lvido; desesperados gritos sobem desse palor.

No fundo da obscuridade
  inacessvel tremem grandes germes de sombra. De quando em quando h paroxismo. O
  rumor torna-se tumulto, do mesmo modo que a vaga se torna marulho. O horizonte,
  superposio confusa de vagas, oscilao sem fim, murmura continuamente; ali
  arrebentam estranhamente uns arremessos de fracasso; parece-se ouvir as hidras
  espirrando; sopram hlitos frios, seguem-se hlitos quentes. A trepidao do mar
  anuncia um medo que tudo espera. Inquietao. Angstia. Terror profundo das
  guas. Subitamente, o furaco, como uma besta, desce a beber no oceano; sorvo
  inaudito, a gua sobe para a boca invisvel, forma-se uma ventosa, incha o
  tumor;  a tromba, o Prester dos antigos, estalactite em cima, estalagmite
  embaixo, duplo cone inverso girante, uma ponta equilibrada em cima de outra,
  beijo de duas montanhas, uma montanha de espuma que se levanta, uma montanha de
  nuvem que desce; coito medonho da vaga e da sombra. A tromba, como a coluna da
  Bblia,  tenebrosa de dia e luminosa de noite. Diante da tromba cala-se o
  trovo. Parece que tem medo.

H uma escala, na vasta turvao
  das solides; temvel crescendo; a brisa, a lufada, a borrasca, o temporal, a
  tormenta, a tempestade, a tromba; as sete cordas da lira do vento, as sete notas
  do abismo. O cu  uma largura, o mar  um arredondado; passa um vento, j no
  h nada disso, tudo  fria e confuso.

Tais so aqueles severos
  stios.

Os ventos correm, voam, abatem-se,
  expiram, revivem, pairam, asso-viam, rugem, riem: frenticos, lascivos,
  desvairados, tomam conta da vaga irascvel. Tm harmonia esses berradores.
  Tornam sonoro todo o cu. Sopram nas nuvens como num metal; embocam o espao, e
  cantam no infinito, com todas as vozes amalgamadas dos clarins, buzinas e
  trombetas, uma espcie de tangeres prometeanos. Quem os ouve, ouve P. O que
  mais assusta  v-los assim. Tm uma colossal alegria composta de sombra. Fazem
  nas solides a batida dos navios. Sem trguas, noite e dia, em todas as
  estaes, no trpico, como no plo, tocando a trombeta delirante, vo eles, por
  meio do travamento da nuvem e da vaga, fazendo a grande caa negra dos
  naufrgios. So os donos das matilhas. Divertem-se. Fazem ladrar as ondas, que
  so os seus ces, contra as rochas. Combinam e desunem as nuvens. Amassam, como
  se tivessem milhes de mos, a flexibilidade da gua imensa.

A gua  flexvel porque 
  incompressvel. Resvala debaixo do esforo. Apertada por um lado, escapa por
  outro.  assim que a gua se faz onda. A vaga  a sua liberdade.

CAPTULO III
EXPLICAO DO RUMOR OUVIDO POR
  GILLIATT

A grande aproximao dos ventos
  para a terra faz-se nos equincios. Nessas pocas o grande balano do trpico e
  do plo e a colossal mar atmosfrica derramam o seu fluxo em um hemisfrio, e o
  refluxo em outro. H constelaes que significam esses fenmenos. Libra e
  Aqurio.  a hora das tempestades.

O mar espera
  silencioso.

s vezes o cu tem feio aspecto.
  Fica bao, e como que coberto por um grande pano obscuro; os marinheiros
  contemplam ansiosos o ar oprimido de sombra.

Mas o que eles temem  o ar
  alegre. Cu risonho no equincio  a tempestade com ps de l. Com cus desses,
  a Torre das Carpideiras de Amsterdo enchia-se de mulheres que examinavam o
  horizonte.

Quando se demora a tempestade
  invernal ou outonal  que est ajuntando uma massa ainda maior. Entesoura para
  destruir. Desconfia da acumulao de juros. Ango dizia: O mar  bom
  pagador.

Quando a demora  demasiado longa,
  o mar trai a sua impacincia pela calma. Somente a tenso magntica se manifesta
  naquilo que se pode chamar a inflamao da gua. Rompem clares da vaga. Ar
  eltrico, gua fosfrica. Os marinheiros sentem-se estafados.  uma hora
  especialmente perigosa para os encouraados; o casco de ferro pode produzir
  falsas indicaes da bssola e perd-los. Assim pereceu o paquete transatlntico
  Yowa.

Para os que esto familiarizados
  com o mar, o seu aspecto nesses momentos  estranho; dissera-se que o mar deseja
  e receia o ciclone. Certos himeneus, alis impostos pela natureza, so acolhidos
  assim. A leoa desejosa foge diante do leo. Tambm a gua tem o seu calor, e da
  lhe vem o estremecimento.

Vai realizar-se o imenso
  consrcio.

Este consrcio, como as npcias
  dos antigos imperadores, celebra-se com exterminaes.  uma festa temperada de
  desastres.

Ateno, a vem o fato
  equinocial.

Conspira a tempestade. A velha
  mitologia entrevia essas personalidades indistintas misturadas  grande natureza
  difusa. olo harmoniza-se com Breas. O acordo do elemento com o elemento 
  necessrio. Distribuem entre si a tarefa. H impulses para a vaga, para a
  nuvem, para o eflvio; a noite  um auxiliar; deve ser empregada. H bssolas
  para desviar, faris para apagar, estrelas para esconder.  preciso que o mar
  coopere. Todas as tempestades so precedidas de um murmrio. Por trs do
  horizonte h o cochicho prvio dos furaces.

 o que se ouve, na obscuridade,
  ao longe, por cima do silncio assustado do mar.

Gilliatt ouviu esse cochichar
  tremendo. A fosforescncia foi a primeira advertncia; o rumor foi a
  segunda.

Se existe o demnio Legio, esse
  demnio  o Vento, com certeza.

O vento  mltiplo, mas o mar 
  um.

Da esta conseqncia: toda
  tempestade  mista. A unidade de ar o exige.

Abismo implica tempestade. O
  oceano inteiro est numa borrasca. A totalidade das suas foras entra em linha e
  toma parte nela. Uma vaga  o golfo de baixo; um tufo  o golfo de cima.
  Lutar com uma tempestade  lutar com o mar inteiro e o cu inteiro.

Messier, o homem da marinha, o
  astrnomo pensativo da choa de Cluny, dizia: O vento de toda a parte est em
  todas as partes. Ele no acreditava nos ventos presos, mesmo nos mares
  fechados. Para ele no havia ventos mediterrneos. Dizia que os conhecia na
  passagem. Afirmava que em tal dia, a tal hora, o Fohn do lago de Constana, o
  antigo Favnio de Lucrcio, atravessara no horizonte de Paris; em outro dia era
  o Bora do Adritico; em outro era o Noto giratrio que se pretende estar
  encerrado nas Ccladas. Especificava os eflvios. No pensava que o vento que
  gira entre Malta e Tnis e o vento que gira entre a Crsega e as Baleares
  estivessem na impossibilidade de se libertarem. No admitia os ventos, como
  ursos, fechados em jaula. Dizia: Todas as chuvas vm do trpico, e todos os
  raios do plo. O vento, com efeito, satura-se de eletricidade na intercesso
  dos coluros, que marca as extremidades do eixo, e da gua no equador; traz-nos
  da linha o lquido e dos plos o fluido.

Ubiqidade  o vento.

No quer isto dizer que no
  existam as zonas dos ventos. Nada mais demonstrado que as correntes contnuas, e
  dia vir em que a navegao area, servida pelos navios do ar
  (air-navires) que chamamos, por mania de grego, aerscafos, utilizar as
  linhas principais. A canalizao do ar pelo vento  incontestvel: h rios de
  vento, ribeiros de vento, riachos de vento; somente ao invs das ramificaes da
  gua, so os riachos que saem dos ribeiros, e os ribeiros que saem dos rios, em
  vez de serem afluentes: em vez de concentrao, disperso.

Essa disposio  que faz a
  solidariedade dos ventos e a unidade da atmosfera. Uma molcula deslocada
  desloca outra molcula. Os ventos agitam todos juntos. A estas profundas causas
  do amlgama, acrescentai o relevo do globo, rasgando a atmosfera com todas as
  suas montanhas, fazendo ns e tores nas carreiras do vento e determinando em
  todos os sentidos as contracorrentes. Irradiao ilimitada.

O fenmeno do vento  a oscilao
  de dois oceanos um sobre outro; o oceano do ar, sobreposto ao oceano de gua,
  apia-se nessa fuga e vacila nessa vacilao.

O indivisvel no usa
  compartimentos. No h tabique entre uma onda e outra. As ilhas da Mancha sentem
  o empurro do cabo da Boa Esperana. A navegao universal faz frente a um
  monstro nico. Todo o mar  uma s hidra. As vagas cobrem o mar de uma espcie
  de escama. Oceano  Ceto.

Nessa unidade abate-se o
  inumervel.

CAPTULO IV
TURBA,
  TURMA

Para a bssola h 32 ventos, isto
  , 32 direes; mas essas direes podem subdividir-se indefinidamente. O vento,
  classificado por direes,  o incalculvel; classificado por espcie,  o
  infinito.

Homero recuaria ante esse
  recenseamento.

A corrente polar roa na corrente
  tropical. Eis o frio e o calor combinados, o equilbrio comea pelo choque, sai
  a onda dos ventos, inchada, esparsa e toda dilacerada em jorros medonhos. A
  disperso dos tufes sacode nos quatro cantos do horizonte o prodigioso
  esgadelhado do ar.

A esto todos os rumos; o vento
  da Gulf Stream, que despeja tanta nvoa na Terra Nova; o vento do Peru, regio
  de cu mudo onde jamais se ouviram trovoadas; o vento da Nova Esccia, onde voa
  o grande Auk, Alca impennis, de bico riscado; os turbilhes de Ferro dos mares
  da China; o vento de Moambique que maltrata os juncos; o vento eltrico do
  Japo denunciado pelo gongo; o vento da frica que habita entre a montanha da
  Mesa e a montanha do Diabo, e que se desencadeia da; o vento do equador que
  passa por cima dos ventos regulares, e traa uma parbola cujo cimo fica a
  oeste; o vento plutnico que sai das crateras e que  o temvel sopro das
  chamas; o estranho vento prprio do vulco Awu que faz sempre surgir do norte
  uma nuvem azeitonada; a mono de Java, contra a qual esto construdas aquelas
  casamatas chamadas casas do furaco; a brisa ramificada que os ingleses
  chamam busk, bebida; os gros arqueados do estreito de Malaca observados
  por Horsburgh; o possante vento de sudoeste, chamado Pampeiro no Chile, e Rebojo
  em Buenos Aires, que carrega o condor em pleno mar e o salva da cova onde o
  esperava, debaixo de uma pele de boi arrancada de fresco, o selvagem deitado de
  costas e retesando o arco com os ps; o vento qumico que, segundo Lemery, faz
  nas nuvens pedras de trovoadas; o Harmattan dos cafres; o sopra-nevespolar, que
  se prende aos eternos gelos e os arrasta; o vento do golfo de Bengala, que vai
  at Nijnii-Novogorod devastar o tringulo das barracas de pau onde se faz a
  feira da sia; o vento das cordilheiras, agitador das grandes vagas e das
  grandes florestas; o vento dos arquiplagos da Austrlia onde os caadores de
  mel arrancam as colmias silvestres escondidas nos galhos do eucalipto gigante;
  o siroco; o mistral; o hurricane; o vento de seca; os ventos de inundao; os
  diluvianos; os trridos; os que lanam nas ruas de Gnova a poeira das plancies
  do Brasil; os que obedecem  rotao diurna; os que a contrariam e fazem dizer a
  Herrera: Malo viento torna contra el sol; os que vo aos pares, para
  destruir, desfazendo um o que o outro faz; e aqueles ventos antigos que
  assaltaram Colombo na costa de Veraguas; e os que durante quarenta dias, desde
  21 de outubro a 28 de novembro de 1520, puseram em questo Magalhes abordando o
  Pacfico, e os que desfizeram a Armada, e sopraram sobre Filipe II.

Outros ventos mais, e como
  achar-lhes o fim? Os ventos carregadores de sapos e gafanhotos que sopram nuvens
  e bichos por cima do oceano; os que operam o que se chama salto de vento,
  e que tm por tarefa acabar com os nufragos; os que, com um sopro nico,
  deslocam a carga do navio e o obrigam a continuar viagem todo inclinado; os
  ventos que constroem os circum-cmulos; os ventos que constroem os
  circum-estratos; pesados ventos cegos, tmidos de chuva; os ventos do granizo;
  os ventos da febre; os ventos cuja aproximao faz ferver os salsos e os
  solfatrios da Calbria; os ventos que fazem brilhar o plo das panteras da
  frica andando nos espinheiros do cabo de Ferro; os que vm sacudindo fora da
  sua nuvem, como uma lngua trigonocfala, o temvel relmpago de forquilha; os
  que trazem neves negras. Tal  o exrcito.

O escolho Douvres, no momento em
  que Gilliatt construa o quebra-mar, ouvia-lhes o galope longnquo.

J o dissemos, o Vento compe-se
  de todos os ventos. Acercava-se toda aquela horda.

De um lado, essa
  legio.

Do outro, Gilliatt.

CAPTULO V
GILLIATT PODE
  ESCOLHER

As misteriosas foras escolheram
  bem o momento.

O acaso, se  que existe, 
  hbil.

Enquanto a pana esteve guardada
  na angra do Homem, enquanto a mquina esteve metida no casco da Durande,
  Gilliatt foi inexpugnvel. A pana estava em segurana, a mquina estava
  abrigada; as Douvres, que sustentavam a mquina, condenavam-na a uma destruio
  lenta, mas protegiam-na contra uma surpresa. Em todos os casos, ficava a
  Gilliatt um recurso. A mquina destruda no destrua a Gilliatt. Tinha a pana
  para salvar-se.

Mas esperar que a pana estivesse
  fora do ancoradouro, onde era inacessvel, deix-la por entre as Douvres,
  esperar que ela l estivesse presa tambm pelo escolho, consentir que Gilliatt
  operasse o salvamento e o transporte da mquina, no impedir esse maravilhoso
  trabalho, consentir nesse triunfo, esse era o lao. Via-se agora, como uma
  espcie de lineamento sinistro, a sombria astcia do abismo.

Agora, a mquina, a pana,
  Gilliatt, estavam todos reunidos na viela dos rochedos. Eram apenas um. A pana
  esmigalhada no escolho, a mquina metida a pique, Gilliatt, afogado, era negcio
  de um esforo nico num s ponto. Tudo podia ser desfeito de uma vez, ao mesmo
  tempo, e sem disperso; tudo podia ser destrudo de um lance.

No h situao mais crtica do
  que a de Gilliatt.

A esfinge possvel, que os
  sonhadores suspeitam estar no fundo da sombra, parecia propor-lhe este
  dilema.

Fica ou parte.

Partir era insensato, ficar era
  medonho.

CAPTULO VI
O
  COMBATE

Gilliatt trepou  grande
  Douvre.

Da via todo o mar.

Era surpreendente o oeste. Saa
  dele uma muralha. Muralha de nuvem, tapando a extenso, subia lentamente do
  horizonte para o znite. Essa muralha retilnea, vertical, sem um rombo no alto,
  sem um rasgo na orla, parecia feita a esquadro, e esticada a corda. Era a nuvem
  semelhante a granito. O declive dessa nuvem, completamente perpendicular na
  extremidade sul, dobrava-se um pouco para o norte, como dobra uma folha, e
  oferecia o vago aspecto de um plano inclinado. Alargava e crescia sem que a
  cimalha deixasse um instante de ser paralela  linha do horizonte, quase
  indistinta na obscuridade que se ia fazendo. Essa muralha do ar subia de uma s
  pea e silenciosamente. Nenhuma ondulao, nenhuma dobra, nenhuma salincia. Era
  lgubre aquela imobilidade em movimento. O sol, lvido por trs de uma certa
  transparncia mrbida, alumiava aquele lineamento de apocalipse. A nuvem invadia
  j quase metade do espao. Dissera-se o medonho talude do abismo. Era um como
  que levantar de montanha de sombra entre a terra e o cu.

Era, em pleno dia, a ascenso da
  noite.

Havia no ar um calor de fogo. Uma
  lixvia de estufa saa daquele amontoado misterioso. O cu, que de azul
  tornara-se branco, de branco tornou-se cinzento. Dissera-se uma grande ardsia.
  Embaixo o mar escuro e de chumbo era outra ardsia enorme. Nem um sopro, nem um
  rumor. Ao longe o mar deserto. Nenhuma vela. Os pssaros tinham-se escondido.
  Sentia-se a traio do infinito.

O crescimento de toda aquela
  sombra amplificava-se insensivelmente.

A montanha movedia de vapores que
  se dirigia para as Douvres era uma dessas nuvens que se podem chamar nuvens de
  combate. Nuvens vesgas. Atravs daqueles amontoados escuros, estranho estrabismo
  fita o homem.

Temvel era a
  aproximao.

Gilliatt examinou firmemente a
  nuvem e murmurou entre dentes: Tenho sede, vais dar-me gua.

Ficou alguns momentos imvel com
  os olhos fitos na nuvem. Parecia medir a tempestade.

Tinha o barrete no bolso, tirou-o
  e p-lo na cabea. Tirou do buraco onde por tanto tempo dormira o fato de
  reserva, e vestiu tudo, grevas e capoto, como um cavalheiro veste a armadura
  para entrar em combate. Sabem que perdera os sapatos, mas os ps descalos
  tinham-se endurecido nos rochedos.

Preparado o vesturio de guerra,
  contemplou ele o quebra-mar, empunhou vivamente a corda de ns, desceu da
  plataforma das Douvres, tomou p nas rochas de baixo, e correu ao depsito.
  Instantes depois trabalhava. A vasta nuvem muda pde ouvir-lhe os sons do
  martelo. Que fazia Gilliatt? Com o resto dos pregos, cordas e vigas, construa
  na abertura de leste uma segunda porta de 10 a 12 ps por trs da
  primeira.

Profundo era o silncio. Os talos
  de erva nas fendas do escolho nem mesmo tremiam.

Subitamente, o sol desapareceu.
  Gilliatt levantou a cabea.

A nuvem ascendente acabava de
  atingir o sol. Foi como que uma extino da luz substituda por uma reverberao
  mesclada e plida.

A muralha de nuvens mudara de
  aspecto. J no tinha unidade. Encrespara-se horizontalmente tocando o znite,
  pendendo em todo o resto do cu. Tinha agora divises. A formao da tempestade
  desenhava-se como uma seo dividida. Distinguiam-se as camadas da chuva e os
  jazigos do granizo. No havia relmpago mas um horrvel claro espesso; porque a
  idia do horror pode ligar-se  idia da luz. Ouvia-se o vago respirar da
  tempestade. Aquele silncio palpitava obscuramente. Gilliatt, tambm silencioso,
  via agruparem-se por cima dele todos aqueles montes de bruma e compor-se a
  deformidade das nuvens. No horizonte pesava e estendia-se uma faixa de nevoeiro
  cor de cinza, e no znite uma faixa cor de chumbo; lvidos farrapos pendiam das
  nuvens de cima sobre os nevoeiros de baixo. O fundo, que era a parede de nuvens,
  estava bao, leitoso, trreo, lvido, indescritvel. Uma delgada e alvacenta
  nuvem transversal, vinda no se sabe donde, cortava obliquamente, de norte a
  sul, a alta muralha sombria. Uma das extremidades dessa nuvem arrastava no mar.
  No ponto em que tocava na compresso das nuvens, via-se na obscuridade um
  abafamento de vapor vermelho. Por baixo da longa nuvem plida, pequenas nuvens,
  mui baixas e pretas, voavam em sentido inverso umas das outras, como se no
  soubessem para onde iriam. A possante nuvem do fundo crescia de todas as partes
  a um tempo, aumentava o eclipse, e continuava a sua interposio lgubre. A
  leste, por trs de Gilliatt, havia apenas um portal de cu claro que ia ser
  fechado. Sem a menor impresso de vento, passou uma estranha difuso de penugem
  cinzenta, esparsa em migalhas, como se algum pssaro gigantesco acabasse de ser
  depenado por trs daquele muro de tnebras. Formou-se um teto de negrume
  compacto que, no extremo horizonte, tocava no mar e misturava-se na noite.
  Sentia-se alguma coisa que se avanava. Era vasta e pesada e medonha. A
  obscuridade tornava-se mais espessa. De sbito, roncou imenso trovo.

Gilliatt sentiu o abalo. H sonho
  no trovo. Essa realidade brutal na regio visionria tem alguma coisa de
  terrfico. Acredita-se ouvir a queda de um mvel no aposento dos
  gigantes.

Nenhum flamejar eltrico
  acompanhara o som. Foi um trovo negro. Voltou o silncio. Houve uma espcie de
  intervalo como quando se toma posio. Depois um aps outro, e lentamente,
  romperam-se informes relmpagos. Eram todos mudos. Nem um rugido. Cada relmpago
  iluminava. A muralha de nuvens era agora um antro. Havia nela abbadas e
  arcarias. Viam-se traos. Esboavam-se monstruosas cabeas; distendiam-se
  pescoos; entreviam-se e desapareciam elefantes carregados de torres. Uma coluna
  de bruma, reta, redonda, negra, com uma fumaa branca em cima, simulava o cimo
  de um vapor colossal, engolido, bufando debaixo da vaga fumegante. Ondulavam
  toalhas de nuvem. Acreditava-se ver dobras de bandeiras. No centro, debaixo de
  vermelhas espessuras, mergulhava-se, imvel, um caroo de nevoeiro denso,
  inerte, impenetrvel s fascas eltricas, espcie de feto hediondo no ventre da
  tempestade.

Gilliatt sentiu subitamente que um
  vento lhe agitou os cabelos. Trs ou quatro largas aranhas de chuva
  despedaaram-se em roda dele na rocha. Depois houve um segundo trovo. Comeou o
  vento.

A espera da sombra chegara ao
  cmulo; o primeiro trovo agitara o mar, o segundo rachou a muralha de nuvens de
  alto a baixo, abriu-se uma fenda, toda a btega suspensa jorrou por esse lado, o
  buraco tornou-se uma boca aberta cheia de chuva, e o vmito da tempestade
  comeou. Tremendo foi o instante.

Aguaceiro, furaco, relmpagos,
  raios, vagas at s nuvens, espuma, detonaes, tores frenticas, gritos,
  roncos, assovios, tudo a um tempo. Desencadear de monstros.

O vento fulminava. A chuva no
  caa, desabava.

Para um pobre homem, metido, como
  Gilliatt, com um barco carregado, num intervalo de dois rochedos, em pleno mar,
  no h crise mais ameaadora. O perigo da mar de que Gilliatt triunfara nada
  era ao p do perigo da tempestade.

Eis a situao: Gilliatt, em volta
  de quem tudo era precipcio, descobriu no ltimo momento, e diante do risco
  supremo, uma estratgia engenhosa. Fez ponto de apoio no prprio inimigo;
  associou-se ao escolho; o rochedo Douvres, outrora seu adversrio, era agora o
  seu padrinho naquele imenso duelo. Gilliatt tinha-o debaixo de si. Fez daquele
  sepulcro uma fortaleza. Assestou-se naquele pardieiro formidvel do mar. Estava
  bloqueado, mas entrincheirado. Estava, por assim dizer, agregado ao escolho,
  face a face com o furaco. Pr barricadas ao estreito, essa rua das vagas. Era a
  nica coisa que podia fazer. Parece que o oceano, que  um dspota, pode ser
  tambm vencido pelas barricadas. A pana podia ser considerada segura por trs
  lados. Estreitamente apertada, entre as duas fachadas internas do escolho,
  triplicemente ancorada, estava abrigada ao norte pela pequena Douvre, ao sul
  pela grande, penedos selvagens, mais afeitos a produzir naufrgios que a
  impedi-los. A oeste era protegida pelo tapamento de barrotes atados e pregados
  aos rochedos, tapamento j provado que vencera o rude fluxo do alto-mar,
  verdadeira porta de cidadela tendo por ombreiras as prprias colunas do escolho,
  as duas Douvres. Nada havia que recear por esse lado. O perigo estava a
  leste.

A leste havia apenas o quebra-mar.
  Um quebra-mar  um aparelho de pulverizao. Precisa ao menos duas lumeeiras.
  Gilliatt teve apenas tempo de fazer uma. Construa a segunda mesmo com a
  tempestade.

Felizmente o vento chegava de
  nordeste. O mar tem descadas. Aquele vento, que era o galerno antigo, tinha
  pouco efeito nas Douvres. Assaltava o escolho de travs, e no impelia a onda
  nem sobre uma e nem sobre outra das aberturas da garganta, de modo que em vez de
  entrar em uma rua esbarrava-se numa muralha. A tempestade atacava
  mal.

Mas os ataques do vento so
  curvos, e devia esperar-se alguma viravolta sbita. Se essa viravolta se fizesse
  a leste, antes que a segunda clarabia do quebra-mar estivesse construda, o
  perigo seria grande. A invaso da viela de rochedos pela tempestade realizava-se
  e tudo estava perdido.

Crescia a vertigem da tempestade.
  A tempestade  golpe sobre golpe. Essa  a sua fora, esse  o seu defeito. A
  fora de ser uma raiva d lugar  inteligncia, e o homem defende-se; mas
  debaixo de que destruio! Nada mais monstruoso que isso. Nenhuma dilao,
  nenhuma interrupo, nenhuma trgua, nenhum descanso para tomar alento. H um
  no sei qu de covardia nessa prodigalidade do inesgotvel.

Toda a imensidade tumultuosa
  atirava-se sobre o escolho Douvres. Ouviam-se vozes sem nmero. Quem gritava
  assim? Estava ali o antigo terror pnico. De quando em quando, parecia que era
  algum que falava, como se fizesse um comando. Depois clamores, clarins,
  estranhas tremuras, e aquele grande e majestoso urro que os marinheiros dizem
  ser a chamada do oceano.

As espirais indefinidas e fugazes
  do vento assoviavam torcendo a onda; as vagas, tornadas discos debaixo daqueles
  torneamentos, eram atiradas contra os parcis como chapas gigantescas por
  atletas invisveis.

A enorme escuma eriava todas as
  rochas. Torrentes em cima, saliva embaixo. Depois redobravam os mugidos. Nenhum
  rumor humano ou bestial poderia dar idia dos fracassos misturados quelas
  deslocaes do mar. A nuvem canhoneava, a saraiva metralhava, o marulho
  escalava. Certos pontos pareciam imveis, em outros o vento fazia 20 toesas por
  segundo. O mar ao longe estava todo branco; 10 lguas de gua de sabo enchiam o
  horizonte. Abriam-se portas de fogo. Algumas nuvens pareciam queimadas por
  outras, e sobre montes de nuvens vermelhas, semelhantes s brasas,
  assemelhavam-se essas ao fumo.

Configuraes flutuantes
  esbarravam-se e amalgamavam-se, desfazendo-se umas por outras. Escorria uma gua
  incomensurvel, ouviam-se fogos de peloto no firmamento. Havia no meio do teto
  de sombra uma espcie de vasta alcofa virada, donde caam em confuso a tromba,
  a chuva, as nuvens, as cores rubras, os relmpagos, a noite, a luz, os raios,
  to formidveis so essas inclinaes do golfo!

Gilliatt parecia no atender a
  nada. Tinha a cabea inclinada no trabalho. A segunda clarabia comeava a
  levantar-se. A cada trovo respondia ele com uma martelada. Ouvia-se essa
  cadncia naquele caos. Estava com a cabea descoberta. Uma lufada levou-lhe o
  chapu.

Tinha uma sede ardente.
  Provavelmente estava com febre. Lagoinhas de chuva tinham-se formado  roda dele
  nas covas dos rochedos. De quando em quando tirava gua com a palma da mo e
  bebia. Depois, sem examinar em que ia a tempestade, continuava a
  obra.

Tudo podia depender de um
  instante. Sabia o que o esperava se no terminasse a tempo o quebra-mar. Por que
  motivo perder um minuto para ver aproximar-se a face da morte?

A desordem em torno dele era como
  uma caldeira fervendo. Havia fracasso e motim. s vezes o raio parecia descer
  uma escada. As percusses eltricas voltavam constantemente aos mesmos pontos do
  rochedo. Havia pedras de chuva da grossura de uma mo fechada. Gilliatt era
  obrigado a sacudir as dobras da japona. At as algibeiras tinham
  pedras.

O temporal estava j no oeste, e
  batia o tapamento das duas Douvres; mas Gilliatt tinha confiana nesse
  tapamento, e com razo. Esse tapamento, feito do grande pedao da proa da
  Durande, recebia sem dureza o choque da onda; a elasticidade  uma resistncia;
  os clculos de Stevenson estabelecem que, contra a vaga, por si prpria
  elstica, uma reunio de paus, com a dimenso desejada, ligada e amarrada de
  certo modo, faz melhor obstculo que um break water de madeira. O
  tapamento das Douvres preenchia essas condies; era, alm disso, to
  engenhosamente atado que a onda, batendo em cima, fazia como um martelo que mete
  o prego, apoiava-o ao rochedo e consolidava-o; para demoli-lo, era preciso
  derrubar as Douvres. A lufada apenas conseguiu atirar  pana, por cima do
  obstculo, alguns jorros de espuma. Por esse lado, graas ao tapamento, a
  tempestade tornava-se cuspo. Gilliatt voltava as costas a esse esforo. Sentia
  tranqilamente atrs de si essa raiva intil.

Os flocos de espuma, saindo de
  todos os lados, assemelhavam-se a l. A gua, vasta e irritada, afogava os
  rochedos, trepava por eles, entrava dentro, penetrava na rede de fendas
  internas, e saa das massas granticas por fendas estreitas, espcies de bocas
  inesgotveis que faziam naquele dilvio pequenas fontes plcidas. Filetes de
  gua caam graciosamente daqueles buracos no mar.

A clarabia de reforo do
  tapamento de leste estava quase concluda. Mais umas voltas de cordas e
  correntes e aproximava-se o momento de tambm lutar esse tapamento.

De sbito, fez-se um grande
  claro, a chuva cessou, as nuvens separaram-se, era o vento que mudava, uma
  espcie de janela grande crepuscular abriu-se no znite, e apagaram-se os
  relmpagos; pareceu que estava acabado. Era o comeo.

O vento mudou de sudoeste para
  nordeste.

A tempestade ia recomear com uma
  nova matilha de furaces. Vinha do norte, violento assalto. Os marinheiros
  chamam a isso o vento de esboroar. O vento do sul tem mais gua, o vento do
  norte tem mais raios.

Vindo do nordeste, a agresso ia
  dirigir-se ao ponto fraco.

Desta vez Gilliatt parou o
  trabalho e olhou. Colocou-se de p sobre uma salincia de rochedo inclinado por
  trs da segunda clarabia quase terminada. Se a primeira chapa do quebra-mar
  fosse afundada, desabaria a segunda, ainda no consolidada, e debaixo dessa
  demolio esmagaria Gilliatt. Gilliatt, no lugar que escolhera, seria achatado
  antes de ver a pana e a mquina e toda a sua obra abismar-se no golfo. Tal era
  a eventualidade. Gilliatt aceitou-a, e, terrvel, ele a queria.

Nesse naufrgio de todas as suas
  esperanas, morrer primeiro convinha-lhe a ele; morrer primeiro, porque a
  mquina fazia-lhe o efeito de uma pessoa. Levantou com a mo esquerda os cabelos
  colados nos olhos pela chuva, apertou o martelo, inclinou-se para trs
  ameaante, e esperou.

No esperou muito.

Um ribombo deu o sinal, fechou-se
  a abertura plida do znite, precipitou-se uma rajada de chuva, tudo tornou-se
  escuro, e no houve outro facho mais que o relmpago. Comeava o sombrio
  ataque.

Possante vagalho, visvel entre
  os relmpagos, levantou-se a leste alm do rochedo Homem. Parecia um grande rolo
  de vidro. Era verde e sem escuma nem ondas. Inchava aproximando-se; era um largo
  cilindro de trevas rolando no oceano. A trovoada roncava surdamente.

Esse vagalho chegou ao rochedo
  Homem, partiu-se em dois e continuou. Os dois pedaos juntos tornaram a
  ligar-se, e fizeram uma grande montanha de gua, e, de paralela que estava ao
  quebra-mar, tornou-se perpendicular. Era uma vaga com a forma de uma
  viga.

Atirou-se ao quebra-mar aquele
  arete. Rugiu o choque. Tudo desapareceu em espuma.

No se pode imaginar o que so
  essas avalanchas de neve que o mar ajunta, e debaixo das quais engole rochedos
  de mais de 100 ps de altura, tais, por exemplo, como o grande Anderlo, em
  Guernesey, e o Pinculo, em Jersey. Em Santa Maria de Madagscar, saltam por
  cima da ponta de Tintingue.

Durante alguns instantes o rolo de
  mar tapou tudo. S ficou visvel um monto furioso, uma escuma imersa, a alvura
  de um sudrio flutuando no vento do sepulero, uma mistura de rudo e de
  tempestade debaixo da qual trabalhava o extermnio.

Dissipou-se a escuma. Gilliatt
  estava de p.

O tapamento resistira. Nem uma
  corrente arrebentou, nem um prego saiu. O tapamento mostrou  prova as duas
  qualidades do quebra-mar; foi flexvel como um canio e slido como uma parede.
  O vagalho dissolveu-se em chuva.

A espuma escorrendo ao longo dos
  ziguezagues do estreito foi morrer debaixo da pana.

O homem que fizera aquele aaimo
  ao oceano no repousou.

A tempestade divagou felizmente
  durante algum tempo. O encarniamento das vagas voltou-se para as partes muradas
  do escolho. Foi uma trgua. Gilliatt aproveitou-a para completar a clarabia de
  trs.

O dia expirou nesse trabalho. A
  tormenta continuava as suas violncias no flanco do escolho com uma solenidade
  lgubre. A urna de gua e a urna de fogo que existe nas nuvens esvaziavam-se sem
  esgotar nunca. As ondulaes altas e baixas do vento pareciam movimentos de um
  drago.

Quando a noite chegou, j havia
  noite; no se pde reparar nela.

Mas no era obscuridade completa.
  As tempestades iluminadas e cegas pelo relmpago tm intermitncias de visvel e
  invisvel. Tudo est claro, depois tudo fica escuro. Assiste-se  sada das
  vises e  entrada das trevas.

Uma zona de fsforo, cor da aurora
  boreal, flutuava como um farrapo de flama espectral por trs das espessuras de
  nuvens. Resultava uma vasta palidez. As chapas de chuva eram
  luminosas.

E esses clares ajudavam Gilliatt
  e o dirigiam. Ele voltou-se para o relmpago e disse: Segura-me a
  vela!

Com o auxlio dessa claridade pde
  ele levantar a clarabia de trs, ainda mais acima da da frente. O quebra-mar
  estava quase completo. Quando Gilliatt amarrava ao ponto culminante um cabo de
  reforo, o vento soprou-lhe na cara em cheio. Isto fez-lhe levantar a cabea. O
  vento voltara bruscamente para nordeste. O assalto da abertura de leste
  recomeava. Gilliatt olhou para o mar. O quebra-mar ia ser atacado outra vez.
  Vinha um novo vagalho.

Esse foi rudemente vibrado; depois
  veio outro, mais outro, mais outro, cinco ou seis em tumulto, quase juntos;
  finalmente um ltimo e tremendo.

Este, que era um como que total de
  foras, tinha a figura de uma coisa viva. No era difcil imaginar, naquela
  intumescncia e naquela transparncia, inauditos aspectos com escamas.
  Achatou-se e partiu-se no quebra-mar. A sua forma quase animada dilacerou-se num
  esguicho. Naquele monto de rochedos e tbuas, foi uma espcie de esmagamento de
  hidra. A onda morrendo devastava. Profundo tremor agitou o escolho. Misturava-se
  a isso um grunhir de animal. A espuma assemelhava-se  saliva de um
  leviat.

A espuma que caa deixava ver uma
  devastao. O vagalho fez obra. Dessa vez o quebra-mar sofreu um pouco. Uma
  longa e pesada viga, arrancada da clarabia da frente, foi lanada por cima do
  tapamento de trs, sobre a rocha inclinada, escolhida por Gilliatt para o lugar
  do combate. Felizmente desta vez no estava ele a. Ficaria morto.

Houve na queda da viga uma
  singularidade que, impedindo qualquer movimento da prancha, salvou Gilliatt de
  qualquer sobressalto perigoso. Foi ainda til por outro modo, como se vai
  ver.

Entre a salincia da rocha e o
  declive interno da garganta, havia um intervalo, um grande hiato semelhante ao
  encaixe de um machado ou  alvola de um canto. Uma das extremidades da prancha,
  atirada ao ar pela vaga, caiu no meio dessa abertura. A abertura
  alargou-se.

Gilliatt teve uma
  idia.

Pesar na outra
  extremidade.

A prancha, presa por uma ponta na
  fenda do rochedo que alargara, saa da como um brao estendido. Essa espcie de
  brao alargava-se, paralelamente  faixa interna da garganta, e a extremidade
  livre da prancha afastava-se desse ponto de apoio cerca de 18 ou 20 polegadas.
  Boa distncia para fazer o esforo.

Gilliatt estreitou com os ps, os
  joelhos e os braos o rochedo e meteu ombros  enorme viga. A viga era comprida,
  o que aumentava a fora do peso. A rocha j estava abalada. Contudo, Gilliatt
  teve de tentar a coisa quatro vezes. Caa-lhe dos cabelos mais suor do que
  chuva. O quarto esforo foi frentico. Houve um estalo na rocha, a abertura
  abriu-se como uma boca e a pesada massa caiu no estreito intervalo com um rudo
  terrvel, rplica aos troves.

Caiu direita, se esta expresso 
  possvel, isto , sem quebrar-se.

Imaginai um menir precipitado todo
  inteiro.

A viga acompanhou o rochedo, e
  Gilliatt, cedendo ao mesmo tempo, escapou de cair tambm.

O fundo estava muito atravancado,
  e tinha pouca gua. O monlito, numa agitao de espuma, que foi respingar em
  Gilliatt, deitou-se entre as duas grandes rochas paralelas da garganta e fez uma
  parede transversal, espcie de linha de unio dos dois rochedos. Tocavam as duas
  pontas; era um pouco mais longo, e o cume, que era de rocha macia, ficou
  esmigalhado. Resultou dessa queda uma espcie de beco sem sada que ainda hoje
  pode ser visto. A gua, por detrs dessa barra de pedra,  quase sempre
  tranqila.

Era um baluarte aquele ainda mais
  invencvel que a amurada da Durande ajustada entre as duas Douvres.

Esse tapamento interveio a
  propsito.

Os vagalhes tinham continuado. A
  vaga teima sempre contra o obstculo. A primeira clarabia comeava a
  desarticular-se. Uma malha de quebra-mar desfeita  uma grande avaria. 
  inevitvel o alargamento do buraco, e nenhum meio pode remediar logo. A vaga
  carregaria o trabalhador.

Uma descarga eltrica, que
  iluminou o escolho, descobriu a Gilliatt o estrago que se fazia no quebra-mar,
  as vigas soltas, as cordas e correntes comeando a flutuar ao vento, um rasgo
  no centro do aparelho. A segunda clarabia estava intata.

O penedo, to poderosamente
  lanado por Gilliatt no intervalo das rochas, por trs do quebra-mar, era a mais
  slida barreira, mas tinha um defeito: era demasiado baixo. As vagas no podiam
  romp-lo, mas podiam galg-lo.

Era impossvel faz-lo crescer. S
  massas da rocha podiam ser utilmente sobrepostas quele tapamento de pedra; mas
  como arrancar essas massas, como arrast-las, como levant-las, como coloc-las,
  como fix-las? Pregam-se tbuas, no se pregam rochedos.

Gilliatt no era
  Enclado.

A pouca elevao daquele pequeno
  istmo de granito preocupava Gilliatt.

Breve fez-se sentir o defeito. Os
  ventos j no deixavam o quebra-mar; j se no encarniavam, parecia que se
  aplicavam. Ouvia-se naquela construo abalada uma espcie de escoiceamento
  regular.

De repente, um pedao de pea de
  viga, destacado da deslocao, pulou por cima da segunda clarabia, voou por
  cima da rocha transversal, e foi cair na garganta do rochedo, onde a gua a
  levou pelas sinuosidades da viela.  provvel que fosse esbarrar na pana.
  Felizmente, no interior do escolho, a gua, fechada por todos os lados, mal se
  ressentia da agitao exterior. Havia pouco marulho, e o choque no devia ser
  forte. Gilliatt nem teve tempo de ocupar-se com essa avaria, se avaria houve;
  todos os perigos se erguiam a um tempo, a tempestade concentrava-se no ponto
  vulnervel, a iminncia estava diante dele.

Profunda foi, por alguns
  instantes, a escurido, interrompeu-se o relmpago, conivncia sinistra; a nuvem
  e a vaga eram a mesma coisa; houve um golpe surdo.

Depois um fracasso.

Gilliatt adiantou a cabea. A
  clarabia que tapava a frente estava deslocada. Viam-se as pontas de vigas
  saltar na vaga. O mar servia-se do primeiro quebra-mar para atacar o
  segundo.

Gilliatt sentiu o que sentiria um
  general vendo voltar a vanguarda.

A segunda tapagem resistiu ao
  choque. A armadura de trs estava fortemente ligada. Mas a clarabia despedaada
  era pesada, estava  disposio das vagas que a atiravam e tomavam, as ligaduras
  que lhe restavam impediam-na de partir-se em pedaos e mantinham-lhe todo o
  volume, e as qualidades que Gilliatt lhe dera como aparelho de defesa faziam
  agora daquilo uma excelente ferramenta de destruio. De broquel tornara-se
  maa. Alm disso, as fraturas eriavam-na, saam-lhe pontas em toda ela,
  cobriam-na de dentes e esporas. Nenhuma arma contundente mais temvel e prpria
  para ser manejada pela tempestade do que aquela.

Era o projtil, e o mar a
  catapulta.

Sucediam-se os golpes com uma
  espcie de regularidade trgica. Gilliatt, pensativo por trs daquela porta
  tapada por ele, ouvia esse bater da morte querendo entrar.

Ele refletiu amargamente que, se
  no fosse o cano da Durande to fatalmente retido no casco, estaria quela hora,
  e desde manh, em Guernesey, e no porto, com a pana abrigada e a mquina
  salva.

Realizou-se o tremendo perigo.
  Fez-se a efrao. Foi como uma agonia de moribundo. Todo o madeiramento do
  quebra-mar, as duas armaduras confundidas e despedaadas juntas, foi numa
  tromba-d'gua rolar no tapamento de pedra, como um caos numa montanha, e parou.
  Foi um travamento informe de paus embrenhados, penetrvel s vagas, mas
  pulverizando-as ainda. Aquele baluarte vencido agonizava heroicamente. O mar
  quebrou-o, ele quebrava o mar. Derrubado, ainda ficava um pouco eficaz. A rocha
  que servia de tapagem, obstculo sem recurso possvel, retinha-o pelo p. A
  garganta, naquele ponto, era muito estreita; a tempestade vitoriosa tinha
  empurrado, misturado e empilhado todo o quebra-mar naquele lugar angustioso; a
  violncia da impulso, misturando a massa, e metendo as fraturas umas nas
  outras, fez daquela demolio uma coisa slida. Estava destrudo e inabalvel.
  S algumas peas de pau ficaram destacadas. Dispersou-as a vaga. Uma passou no
  ar, perto de Gilliatt. Ele sentiu o ar agitado pela tbua na fronte.

Mas algumas vagas, essas grossas
  vagas que nos temporais voltam sempre, com uma periodicidade imperturbvel,
  saltavam por cima das runas do quebra-mar. Caam na garganta, e, a despeito dos
  cotovelos que a viela tinha, chegavam a levantar a gua. A onda do estreito
  comeava a agitar-se de um modo feio. Acentuava-se o beijo obscuro das vagas nas
  rochas.

Como impedir agora que essa
  agitao se propagasse at a pana?

No precisava muito tempo para que
  toda a gua interior ficasse tempestuosa, e, com algumas ondas, a pana seria
  estripada, e a mquina iria a pique.

Gilliatt cismava
  trmulo.

Mas no se desconcertou. Para
  aquela alma no havia derrota possvel.

O furaco engolfava-se agora
  freneticamente entre as duas muralhas do estreito.

De sbito, ressoou e prolongou-se
  a alguma distncia por trs de Gilliatt um estalo mais assustador que tudo
  quanto Gilliatt at ento ouvira. Era do lado da pana.

Passava-se ali alguma coisa
  funesta.

Gilliatt correu.

Do lado do leste, onde se achava,
  no podia ele ver a pana por causa dos ziguezagues da viela. Na ltima volta
  parou e esperou o relmpago. Rompeu o relmpago e mostrou-lhe a
  situao.

 vaga da abertura de leste,
  correspondeu um tufo na abertura de oeste. Esboava-se um desastre.

A pana no tinha avaria visvel;
  ancorada como estava, dava pouco flanco, mas o casco da Durande estava em risco
  de cair.

Aquela runa, em semelhante
  tempestade, apresentava uma vtima. Estava toda fora da gua, no ar, oferecida
  ao temporal. O buraco que Gilliatt praticara para extrair a mquina enfraquecera
  o casco. O barrote da quilha estava cortado. O esqueleto tinha a coluna
  vertebral despedaada.

Soprara em cima o
  furaco.

No precisou mais. A amurada
  dobrou-se como um livro que se abre. Fez-se o desmembramento. Foi esse estalo
  que, no meio da tempestade, chegara aos ouvidos de Gilliatt.

O que ele viu ao chegar parecia
  quase irremedivel.

A inciso operada por ele
  tornara-se uma chaga. Dessa abertura fez o vento uma fratura. O corte
  transversal separava em duas a Durande. A parte posterior, a que ficava em
  frente de Gilliatt, vizinha da pana, ficara slida nos rochedos. A parte
  anterior, que fazia face a Gilliatt, estava pendurada. Uma fratura  um gonzo.
  Aquela massa oscilava sobre as suas fendas, e o vento balanava-a, com um
  tremendo rumor.

Felizmente a pana j no estava
  embaixo.

Mas o balano abalava a outra
  metade do casco, ainda presa e imvel entre as duas Douvres. Do abalo  queda, a
  distncia era pequena. Com a teima do vento, a parte deslocada podia subitamente
  arrastar a outra que tocava quase na pana, e tudo, pana e mquina, ficaria
  engolido.

Gilliatt tinha isso diante dos
  olhos.

Era a catstrofe.

Como desvi-la?

Gilliatt era daqueles que tiram
  recurso do prprio perigo. Refletiu um momento.

Depois, foi ao depsito e tirou o
  machado.

O martelo trabalhara muito; era
  chegada a vez do machado.

Gilliatt subiu  Durande.
  Firmou-se na parte do navio, que ainda estava segura, e, inclinado sobre o
  precipcio do intervalo das Douvres, ps-se a cortar as tbuas quebradas e tudo
  quanto ainda prendia o pedao de casco pendente.

Consumar a separao dos dois
  pedaos do casco, libertar a metade slida, deitar ao mar aquilo que o vento
  destrura, dar o quinho  tempestade, tal era a operao. Era mais perigosa que
  difcil. A metade pendente do casco, empuxada pelo vento e pelo peso, aderia
  apenas por alguns pontos. O conjunto do casco assemelhava-se a um dptico,
  partido em dois pedaos, e batendo ambos um no outro. Cinco ou seis peas
  apenas, vergadas e arrebatadas, mas no completamente soltas, ainda sustentavam
  o casco. As fraturas guinchavam e alargavam-se a cada sopro do vento, e o
  machado apenas ajudava. Esta circunstncia, que tornava fcil o trabalho,
  tornava-o arriscado tambm. Tudo podia esboroar ao mesmo tempo debaixo de
  Gilliatt.

A tempestade atingiu o paroxismo.
  At ento fora terrvel, agora fez-se horrvel. A convulso do mar reproduziu-se
  no cu. A nuvem at ento fora soberana, parecia executar a sua vontade, dava o
  impulso, derramava s vagas a loucura, conservando sempre uma lucidez sinistra.
  Embaixo havia demncia, em cima clera. O cu era o sopro, o oceano era apenas a
  espuma. Da vem a autoridade do vento. O furaco  gnio. Entretanto, a
  embriaguez de seu prprio horror tinha-o perturbado. Agora era o turbilho. Era
  a cegueira produzindo a noite. H nos temporais um momento insensato;  para o
  cu urna espcie de sangue que sobe  cabea.

O abismo j no sabe o que faz.
  Fulmina s apalpadelas.

Nada mais horrendo. E a hora
  hedionda. Chegara ao cmulo o tremor do escolho. A tempestade tem um plano
  misterioso; mas nesse instante perde-o.  a m hora da tempestade. Nesse
  instante, o vento, dizia Thoinas Fuller,  um doido furioso. E nesse
  instante que as tempestades fazem essa despesa contnua de eletricidade que
  Piddington chama a cascata de relmpagos.  nesse instante que aparece nas
  nuvens mais negras, no se sabe por que e como que para espiar o terror
  universal, aquele crculo azul que os velhos marinheiros espanhis chamavam o
  olho da tempestade, el ojo de ia tempestad. Esse olho lgubre fitava
  Gilliatt.

Gilliatt, de seu lado, contemplava
  a nuvem. Levantou a cabea. Dava uma machadada e levantava-se altivo. Estava, ou
  parecia estar demasiado perdido, para que no tivesse orgulho. Desesperava? No.
  Ante o supremo acesso de raiva do oceano, Gilliatt era to prudente quanto
  audaz. Em cima do casco, s pisava o ponto slido. Arriscava-se e preservava-se.
  Tambm ele chegara ao paroxismo. Decuplicou-se-lhe o vigor. Estava desvairado de
  intrepidez. Os golpes de machado soavam como desafios. Parecia ter ganho o que
  tinha perdido a tempestade. Conflito pattico. De um lado o inesgotvel, do
  outro o infatigvel. Estavam a ver qual dos dois venceria. As nuvens terrveis
  modelavam na imensidade mscaras de grgonas, produzia-se toda a intimidao
  possvel, a chuva surgia das vagas, a espuma tombava das nuvens, curavam-se os
  fantasmas dos ventos, faces de meteoro avermelhavam-se e eclipsavam-se, e a
  obscuridade, aps tantos desmaios, era monstruosa; havia um s derramamento,
  vindo por todos os lados ao mesmo tempo; tudo era ebulio; a sombra em massa
  transbordava; cmulos carregados de granizo, esfarelados, cor de cinza, pareciam
  andar num frenesi giratrio, havia no ar um rumor de gros secos, sacudidos numa
  peneira, as eletricidades inversas observadas por Volta faziam de nuvem em nuvem
  os fulminantes disparos, os prolongamentos do raio eram terrficos, os
  relmpagos aproximavam-se em torno de Gilliatt. O abismo parecia espantado.
  Gilliatt andava na Durande fazendo tremer o tombadilho debaixo dos ps, batendo,
  cortando, rachando, machado em punho, lvido diante dos relmpagos,
  esguedelhado, descalo, roto, com a face coberta dos escarros do mar, grande
  naquela sentina de troves.

Contra o delrio das foras, s a
  destreza pode lutar. A destreza era o triunfo de Gilliatt. Ele queria uma queda
  de todo o destroo deslocado. Por isso enfraqueceu as fraturas sem romp-las
  completamente, deixando algumas fibras que sustentavam o resto. Subitamente,
  parou com o machado no ar, a operao estava acabada. Todo o pedao destacou-se.
  Essa metade do casco rolou entre as duas Douvres abaixo de Gilliatt, que ficou
  em p noutra metade, inclinado e olhando; mergulhou-se perpendicularmente,
  arrombou os rochedos e parou na garganta antes de chegar ao fundo. Ficou uma
  parte fora da gua, tanto quanto era suficiente para dominar a onda mais de 12
  ps; foi mais uma barricada entre as duas Douvres; bem como a rocha atirada no
  estreito, deixava apenas filtrar um pouco de espuma nas suas extremidades, e foi
  essa a quinta barricada improvisada por Gilliatt, contra a tempestade, naquela
  rua do mar.

O furaco, cego, trabalhava a
  ltima.

Foi uma felicidade que o
  angustiado das paredes internas impedisse de ir ao fundo aquela tapagem.
  Dava-lhe mais altura; demais a gua podia passar por baixo do obstculo, o que
  afetava a fora das ondas. Aquilo que passa por baixo no salta por cima.  esse
  em parte o segredo de quebra-mar flutuante.

Doravante, houvesse o que
  houvesse, j no havia que recear nem quanto  pana, nem quanto  mquina. A
  gua j no podia agitar-se  roda delas. Entre a tapagem das Douvres que as
  cobria a oeste e o navio, tapamento que as protegia a leste, nenhuma onda,
  nenhum vento poderia atingi-las.

Gilliatt tirara da catstrofe a
  salvao. Ajudara-o a tempestade.

Feito isto, apanhou um punhado de
  gua da chuva, bebeu e disse  nuvem: Cntaro!

 uma alegria irnica para a
  inteligncia combatente atestar a vasta estupidez das foras furiosas concluindo
  por prestar servios, e Gilliatt sentiu essa imemorial necessidade de insultar o
  inimigo, que remonta aos heris de Homero.

Gilliatt desceu  pana e
  aproveitou os relmpagos para examin-la. Era tempo que a pobre barquinha fosse
  socorrida; tinha sido muito sacudida e comeava a arquear. Gilliatt, com aquele
  olhar sumrio, no viu nenhuma avaria. Contudo, era certo que ela devia ter
  recebido violentos choques. Acalmada a gua, endireitou o casco; as ncoras
  portaram-se bem; quanto  mquina, as quatro correntes mantiveram-na
  admiravelmente.

Quando Gilliatt acabava a revista,
  uma coisa branca passou por ele e mergulhou na sombra. Era uma
  gaivota.

No h melhor apario nas
  tempestades. Quando os pssaros chegam,  que a tempestade vai-se
  embora.

Outro sinal excelente: o trovo
  redobrava.

As supremas violncias da
  tempestade desorganizavam-na. Todos os marinheiros o sabem, a ltima prova 
  rude mas curta. O excesso do raio anuncia-lhe o fim.

A chuva parou repentinamente.
  Depois houve apenas um rudo nas nuvens. O temporal cessou como uma prancha que
  cai no cho. Quebrou-se por assim dizer. Desfez-se a imensa mquina das nuvens.
  Uma fenda de cu claro disjungiu as trevas. Gilliatt ficou espantado; era dia
  claro.

A tempestade durara quase vinte
  horas.

O vento que a trouxera levou-a. Um
  desabamento de escurido depressa encheu o horizonte. As brumas rotas e
  fugitivas amontoaram-se em tumulto, houve de uma ponta  outra da linha do
  horizonte um movimento de retirada, ouviu-se um longo rumor decrescente, caram
  algumas gotas ltimas de chuva, e toda aquela sombra cheia de troves foi-se
  como uma turba de carros terrveis.

Bruscamente, fez-se azul o
  cu.

Gilliatt reparou que estava
  cansado. O sono abate-se sobre a fadiga como uma ave de rapina. Gilliatt
  deixou-se cair na barca sem escolher lugar e dormiu. Ficou assim algumas horas
  inerte e estendido, pouco distinto das pranchas e barrotes entre os quais
  adormecera.

LIVRO QUARTO
O FORRO DO
  OBSTCULO

CAPTULO
  PRIMEIRO
QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM
  TENHA

Quando Gilliatt acordou, teve
  fome.

Acalmava-se o mar. Havia, porm,
  alguma agitao ao largo, que impedia a partida imediata. Demais, o dia j
  estava adiantado. Com o carregamento da pana, para chegar a Guernesey antes da
  meia-noite, era preciso sair de manh.

Embora a fome urgisse, Gilliatt
  comeou por despir-se, nico meio de aquecer-se.

As roupas estavam molhadas da
  chuva, mas a gua da chuva lavara a gua do mar, o que fez com que agora
  pudessem secar as roupas.

Gilliatt apenas ficou com as
  calas, que arregaou at os joelhos.

Estendeu, com pesos em cima, nas
  salincias do rochedo, todo o resto da roupa.

Depois pensou em comer.

Gilliatt recorreu  faca que teve
  o cuidado de afiar e t-la em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos.
  Comeu-os crus. Mas, depois de tantos trabalhos, fraca era a pitana. J no
  tinha biscoito. Quanto  gua, no lhe faltava. Estava mais que saciado, estava
  inundado.

Aproveitou a vazante para
  perlustrar os rochedos  cata de lagostas. J havia muita rocha descoberta;
  podia apanhar boa caa.

Somente no refletia ele que j
  no podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao depsito, veria tudo derrubado
  pela chuva. O pau e o carvo estavam encharcados e da proviso de estopa que lhe
  servia de isca, no tinha um fio que no estivesse molhado. No havia meio de
  sacar fogo.

De resto, o fole estava
  desorganizado; a tempestade saqueou-lhe o laboratrio. Com o resto da
  ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, no de
  forja. Mas Gilliatt, naquele momento, no pensava na oficina.

Empuxado pelo estmago, sem mais
  reflexo, entrou a procurar comida. Errava, no na garganta do escolho, mas
  fora, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes,
  esbarrara nas pedras.

Para a caa que Gilliatt fazia, o
  exterior da viela valia mais que o interior. Os caranguejos, nas guas baixas,
  tm costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aqueles entes disformes.
   uma coisa estranha a sada deles em plena luz. Quase indigna-se a gente com
  eles. Quando os vemos, com seu aspecto oblquo, subir pesadamente, um por um, os
  andares inferiores dos rochedos como degraus de uma escada, acreditamos por
  fora que o oceano tambm tem os seus piolhos.

Desses piolhos vivia Gilliatt h
  dois meses.

Contudo nesse dia os caranguejos e
  as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrara aqueles solitrios para
  os seus esconderijos, e ainda no se animavam a sair. Gilliatt tinha na mo a
  faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargao.
  Comia andando.

No devia estar longe do lugar
  onde se perdera o Sr. Clubin.

Quando Gilliatt j se resignara
  aos ourios e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus ps. Um grande
  caranguejo, assustado com a presena dele, tinha pulado na gua. O caranguejo
  no mergulhou tanto que Gilliatt no o visse.

Gilliatt comeou a correr atrs do
  caranguejo no esvazamento da rocha. O caranguejo fugia.

De repente, no viu mais
  nada.

O caranguejo metera-se por algum
  buraco debaixo do rochedo.

Gilliatt atracou-se aos relevos da
  pedra e esticou o pescoo para ver se via alguma coisa.

Havia, com efeito, uma
  anfratuosidade. O caranguejo devia ter-se refugiado a.

Era mais que uma fenda, era um
  prtico.

O mar entrava por baixo desse
  prtico, mas no era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas
  pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca
  estavam a seco. Assemelhavam-se a cabeas de crianas com cabelos
  verdes.

Gilliatt ps a faca nos dentes,
  desceu do alto da rocha e saltou na gua. Teve gua quase at os ombros.
  Meteu-se pelo prtico. Achou-se num corredor gasto, com um esboo de abbada
  ogival por cima. As paredes eram polidas e lisas. J no via o caranguejo.
  Tomara p. Caminhava e diminua-se a luz. Comeou a no ver coisa
  alguma.

Depois de quinze passos, cessou a
  abbada. Estava fora do corredor. Havia mais espao, e por conseqncia mais
  luz; as pupilas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surpresa.

Acabava de entrar naquela cava
  estranha visitada por ele um ms antes. Somente desta vez entrou pelo
  mar.

Aquela arcaria que ele vira
  afogada era a mesma por onde agora passou. Em certas mars baixas era
  praticvel.

Os olhos iam-se acostumando ao
  lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefato. Tornava a achar aquele
  extraordinrio palcio da sombra, aquela abbada, aqueles pilares, aqueles
  rubros, aquela vegetao de pedras, e no fundo aquela cripta, quase santurio, e
  aquela pedra, quase altar.

No se lhe despertava muito os
  pormenores, mas tinha no esprito a idia do todo, e reconheceu.

Via diante dele, em certa altura,
  na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava
  agora, parecia inacessvel.

Tornara a ver, perto da arcaria
  ogival, as grotas baixas e obscuras, espcie de cavas na cava, que j observara
  de longe. A que ficava mais perto dele estava a seco e era fcil de se lhe
  chegar.

Mais perto ainda que essa
  descobriu ele, ao alcance da mo, uma fenda horizontal no granito. Provavelmente
  estava ali o caranguejo. Meteu a mo o mais que pde, e procurou s apalpadelas
  naquele buraco de trevas.

De repente, sentiu que lhe
  agarravam no brao.

O que ele experimentou, nesse
  momento, foi o horror indescritvel.

Uma coisa que era delgada, spera,
  chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra  roda de seu brao nu, e
  subia-lhe para o peito. Era a presso de uma correia, e o impulso de uma
  verruma. Em menos de um segundo, uma espcie de espiral tinha-lhe invadido o
  punho e o cotovelo e tocava-lhe o ombro. A ponta metia-se-lhe no
  sovaco.

Gilliatt atirou-se para trs, e
  mal pde faz-lo. Estava como que pregado. Com a mo esquerda que ficava livre
  pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa mo, que segurava a faca,
  apoiou-se no rochedo com um esforo desesperado para sacar o brao. S conseguiu
  inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexvel como o couro, slida
  como o ao, fria como a noite.

Outra correia, estreita e pontuda,
  saiu do buraco da rocha. Era uma espcie de lngua saindo de uma goela. Lambeu
  medonhamente o corpo nu de Gilliatt, e, de repente, esticando-se, desmedida e
  fina, aplicou-se-lhe na pele e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um sofrimento
  inaudito, sem comparao neste mundo, levantava os msculos de Gilliatt. Sentia
  que lhe abriam a pele em muitos pontos, de um modo horrvel. Parecia-lhe que
  inmeros lbios, pregados  carne, procuravam beber-lhe o sangue.

Terceira correia saiu fora do
  rochedo, apalpou Gilliatt e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal
  fixou-se como as outras.

A angstia, no paroxismo,  muda.
  Gilliatt no soltou um grito. Havia bastante luz para que ele pudesse ver as
  formas repelentes aplicadas ao corpo dele.

Quarta ligadura, esta rpida como
  uma echa, saltou-lhe em roda do ventre e enrolou-se-lhe.

Era impossvel cortar e nem
  arrancar aquelas correias viscosas que aderiam estreitamente ao corpo de
  Gilliatt e por muitssimos pontos. Cada um desses pontos era um foco de terrvel
  e estranha dor. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma
  poro de bocas pequeninas.

Quinta ligadura rompeu do tronco.
  Sobreps-se s outras e foi enroscar-se no diafragma de Gilliatt. A compresso
  ajuntava-se  ansiedade. Gilliatt mal podia respirar.

Aquelas ligaduras, pontudas na
  extremidade, iam alargando como lminas de espada para o punho. Todas cinco
  pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para
  Gilliatt. Ele sentia deslocarem-se essas presses obscuras que lhe pareciam
  bocas.

Bruscamente uma larga viscosidade
  redonda e chata saiu de dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras
  prendiam-se a ele, como raios a um eixo; distinguia-se do lado oposto daquele
  disco imundo o comeo de outros trs tentculos, presos no fundo do buraco. No
  meio dessa viscosidade havia dois olhos.

Olhavam eles para
  Gilliatt.

Gilliatt reconheceu que era uma pieuvre.

CAPTULO II
O
  MONSTRO

Para acreditar na pieuvre 
  preciso t-la visto.

Comparadas  pieuvre, as velhas
  hidras fazem sorrir.

Em certos momentos parece que o
  elemento fugitivo que flutua em nossos sonhos encontra na realidade ms aos
  quais esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras fices do sonho surgem
  criaturas. O ignoto dispe do prodgio e serve-se dele para compor o monstro.
  Orfeu, Homero e Hesodo s puderam fazer a quimera; Deus fez a
  pieuvre.

Quando Deus quer, excede no
  execrvel.

A razo desta vontade  o medo do
  pensador religioso.

Admitidos todos os ideais, se o
  terror  um fim, a pieuvre  uma obra-prima.

A baleia  enorme, a pieuvre 
  pequena; o hipoptamo tem uma couraa, a pieuvre  nua; a jararaca tem um silvo,
  a pieuvre  muda; o rinoceronte tem um chifre, a pieuvre no tem chifre; o
  escorpio tem um dardo, a pieuvre no tem dardo; o macaco tem uma cauda, a
  pieuvre no tem cauda; o tubaro tem barbatanas cortantes, a pieuvre no tem
  barbatanas; o vespertlio-vampiro tem asas com unhas, a pieuvre no tem asas; o
  porco-espinho tem espinhos, a pieuvre no tem espinho; o espadarte tem um
  gldio, a pieuvre no tem gldio; o torpedo tem um raio, a pieuvre no tem raio;
  o sapo tem um vrus, a pieuvre no tem vrus; a vbora tem veneno, a pieuvre no
  tem veneno; o leo tem garras, a pieuvre no tem garras; o gipaeto tem um bico,
  a pieuvre no tem bico; o crocodilo tem uma goela, a pieuvre no tem
  dentes.

A pieuvre no tem massa muscular,
  nem grito ameaador, nem couraa, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem
  barbatanas, nem asas, nem espinhos, nem espada, nem descarga eltrica, nem
  vrus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre , de todos os
  animais, o mais formidavelmente armado.

O que  a pieuvre?  a
  ventosa.

Nos escolhos em pleno mar, onde a
  gua mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos no
  visitadas, nas cavas desconhecidas onde abundam as vegetaes, os crustceos e
  as conchas, debaixo dos profundos prticos do oceano, o nadador que se arrisca,
  arrastado pela beleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse
  encontro, no sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sai-se
  apavorado.

Eis o que  esse encontro sempre
  possvel nas rochas do mar alto.

Uma forma cinzenta oscila na gua,
  da grossura de 1 braa e de meia vara de comprido;  um trapo; essa forma
  assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o
  homem. De repente abre-se, oito raios saem bruscamente da roda de uma face que
  tem dois olhos; esses raios vivem; flamejam ondeando;  uma espcie de roda
  desenrolada, tem 4 ou 5 ps de dimetro. Desenrolamento medonho. Atira-se ao
  infeliz.

A hidra arpoa o homem.

Este animal aplica-se  sua presa,
  cobre-a, envolve-a com os seus longos braos. Por baixo  amarelada, por cima 
  trrea; nada pode imitar esse inexplicvel matiz de poeira; dissera-se um animal
  feito de cinza, e morando na gua.  aracndeo pela forma,  cameleo pelo
  colorido. Irritada, torna-se roxa. Coisa horrvel,  flcida.

Os seus ns garroteiam; o seu
  contato paralisa.

Tem um aspecto de escorbuto e de
  gangrena.  a molstia feita monstruosidade.

No se pode arranc-la; agarra-se
  estreitamente  sua presa. Como? Pelo vcuo.

As oito antenas, largas na origem,
  vo estreitando-se e terminam como agulhas; debaixo de cada uma delas alongam-se
  paralelamente duas filas de pstulas decrescentes, as grossas perto da cabea,
  as pequenas na ponta, e cada fila tem 25. H cinqenta pstulas em cada antena,
  e todo o animal tem quatrocentas. Essas pstulas so ventosas.

As ventosas so cartilagens
  cilndricas e lvidas. Na grande espcie vo diminuindo de dimetro  desde uma
  moeda de 5 francos at a grossura de uma lentilha. Esses pedaos de tubos saem e
  entram no animal. Podem meter-se no corpo de um homem mais de 1
  polegada.

Este aparelho de suco tem a
  delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece  menor inteno do
  animal. As sensibilidades mais delicadas no igualam  contratibilidade dessas
  ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos
  incidentes externos. Este drago  uma sensitiva.

Este monstro  aquele que os
  marinheiros chamam polvo, que a cincia chama cefalpode e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros ingleses chamam-no devil-fish, o
  peixe-diabo. Chamam-no tambm blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas
  da Mancha chamam-na pieuvre.

 muito rara em Guernesey, muito
  pequena em Jersey, muito grande e freqente em Serk.

Uma estampa da edio de Buffon
  por Sonnini representa um cefalpode estreitando uma fragata. Dionsio Montfort
  pensa que na verdade o polvo das altas latitudes pode meter um navio a pique.
  Bory Saint-Vincent nega-o, mas atesta que nas nossas regies o polvo ataca o
  homem. Quem for a Serk ver perto de Brecq-Hou o buraco do rochedo onde uma
  pieuvre h anos agarrou, reteve e afogou um pescador de lagostas. Peron e
  Lamarck enganam-se quando duvidam que o polvo, no tendo barbatanas, possa
  nadar. Aquele que escreve estas linhas viu com seus prprios olhos, em Serk, na
  cova das Lojas, uma pieuvre perseguir, a nado, um homem que tomava banho. Foi
  morta e medida; tinha 4 ps ingleses de largura e pde-se contar quatrocentos
  chupadores. O bicho agonizante atirava-os para longe de si
  convulsamente.

Segundo Dionsio Montfort, um
  desses observadores, cuja alta intuio faz descer ou subir at o magismo, o
  polvo tem quase as paixes do homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo 
  odiar.

O disforme debate-se debaixo de
  uma necessidade de eliminao que o torna hostil.

A pieuvre nadando conserva-se, por
  assim dizer, na bainha. Nada com as antenas fechadas. Imaginem uma manga cosida
  com um punho dentro. Esse punho, que  a cabea, impele o lquido e avana com
  um vago movimento ondulatrio; os dois olhos, embora grandes, so pouco
  distintos por serem da cor da gua.

A pieuvre, quando espreita a caa,
  esquiva-se; diminui-se, condensa-se; reduz-se  mais simples expresso.
  Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo,
  exceto a coisa viva.

A pieuvre  o hipcrita. No se
  repara nela; repentinamente, abre-se.

Que h a de mais medonho que
  isso: uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amassado de dio.

 no mais belo azul da gua
  lmpida que surge essa hedionda estrela voraz do mar. O que  terrvel  que no
  se sente de longe. Quando a gente a v, j est agarrada.

Contudo,  noite, e
  particularmente na estao do desejo, a pieuvre  fosfrica; aquele pavor tem os
  seus amores. Aguarda o himeneu. Faz-se bela, ilumina-se, e, do alto de algum
  rochedo, pode-se v-la nas profundas trevas aberta numa irradiao, sol
  espectro.

A pieuvre anda; tambm nada.  um
  tanto peixe e um tanto rptil. Arrasta-se no fundo do mar. Utiliza as suas oito
  pernas. Roja-se como a lagarta.

No tem osso, nem sangue e nem
  carne.  flcida. No tem nada dentro.  uma pele. Pode-se virar-lhe os
  tentculos de dentro para fora, como dedos de uma luva.

Tem um s orifcio no centro dos
  oito raios.  fria toda ela.

Repelente bicho,  um do
  mediterrneo.  um contato hediondo, essa gelatina animada que envolve o
  nadador, onde as mos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem
  matar, e que se puxa sem tirar, espcie de criatura resvaladia e tenaz, que
  escorrega entre os dedos; mas nada iguala a sbita apario da pieuvre, Medusa
  servida por oito serpentes.

No h aperto igual ao do
  cefalpode.

 uma mquina pneumtica que
  ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma
  escarificao indizvel. Uma mordedura  temvel;  menos ainda que urna suco.
  A garra no iguala a ventosa. A garra  o animal que entra na carne; a ventosa 
  o homem que entra no bicho. Incham-se os msculos, torcem-se as fibras, rebenta
  a pele, debaixo de um peso imundo, jorra o sangue, e mistura-se horrivelmente 
  linfa do molusco. O bicho sobrepe-se ao homem por mil bocas infames; a hidra
  incorpora-se ao homem; o homem amalgama-se  hidra. Ficam sendo um s. Pesa
  aquele sonho. O tigre pode antes apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Puxa
  o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se
  lentamente esvaziado naquele terrvel saco, que  um monstro.

Alm do terrvel, que  ser comido
  vivo, h o inexprimvel, que  ser bebido vivo.

Essas estranhas animaes so ao
  princpio rejeitadas pela cincia, segundo o hbito de sua excessiva prudncia;
  depois estuda-as, descreve-as, classifica-as, inscreve-as, pe-lhes rtulos,
  procura exemplares; expe-nas em museus; elas entram na nomenclatura; ela os
  qualifica moluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um
  pouco alm os calamares, um pouco aqum os depirios; para estas hidras da gua
  salgada acham um anlago na gua doce, o argironete; divide-as em grande, mdia
  e pequena espcie; admite mais facilmente a pequena espcie que a grande, o que
  , em todas as regies, a tendncia da cincia, a qual  mais microscpica que
  telescpica; olha a sua construo e chama-os cefalpodes; conta as suas antenas
  e chama-os octpodes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a cincia os larga, a
  filosofia os retoma.

A filosofia estuda por sua vez
  esses entes. Ela vai menos longe e mais longe que a cincia. No os disseca,
  medita-os. Onde o escalpelo trabalhou, imerge a hiptese. Procura a causa final.
  Profundo tormento de pensador. Essas criaturas o inquietam quase sobre o
  criador. So as surpresas hediondas. So os perturbadores do contemplativo. Ele
  as verifica desvairado. So as formas intencionais do mal. Que fazer diante
  dessas blasfmias da criao contra si prpria? A quem deve ele
  queixar-se?

O possvel  uma matriz
  formidvel. O mistrio concentra-se em monstros. Lanhos de sombra saem deste
  penedo  a iminncia , rasgam-se, destacam-se, rolam, flutuam, condensam-se,
  enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarizaes desconhecidas, tomam
  vida, compem uma forma com obscuridade e uma alma com o miasma, e vo-se,
  larvas atravs da vitalidade.  alguma coisa semelhante s trevas feitas
  animais. Por qu? Para qu? Volta a questo eterna.

Esses animais so fantasmas e
  monstros, a um tempo. So provados e improvveis. Ser  o fato, no ser  o
  direito. So os anfbios da morte. A sua inverossimilhana complica a sua
  existncia. Tocam a fronteira humana e povoam o limite quimrico. Negais o
  vampiro, aparece a pieuvre. E uma certeza que desconcerta a nossa segurana. O
  otimismo, que  a verdade, perde-se quase diante deles. So a extremidade
  visvel dos crculos negros. Marcam a transio da nossa realidade a outra.
  Parecem pertencer a esse comeo de entes terrveis que o sonhador entrev
  confusamente na noite.

Esses prolongamentos de monstros,
  no invisvel ao princpio, no possvel depois, foram suspeitados, vistos talvez,
  pelo xtase severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos filsofos. Da a conjetura
  de um inferno. O demnio  o tigre do invisvel. A besta feroz das almas foi
  denunciada ao gnero humano por dois visionrios, um que se chama Joo, outro
  que se chama Dante.

Se, com efeito, os crculos da
  sombra continuam indefinidamente, se, depois de um anel h outro, se isto vai em
  progresso ilimitada, se existe a cadeia, de que estamos resolvidos a duvidar, 
  certo que a pieuvre numa extremidade prova Satans na outra.

 certo que o mau num limite prova
  a maldade no outro.

Todo animal feroz, como toda
  inteligncia perversa,  esfinge. Esfinge terrvel, propondo o enigma terrvel.
  O enigma do mal.

Essa perfeio do mal  que faz
  inclinar s vezes os grandes espritos para a crena do Deus duplo, para o
  tremendo bifronte dos maniqueus.

Uma rede chinesa, roubada na
  ltima guerra, no palcio do imprio da China, representa o tubaro comendo o
  crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a guia, a qual come a andorinha,
  a qual come a lagarta.

Toda a natureza devora ou 
  devorada. As presas mastigam-se umas s outras.

Entretanto os sbios que tambm
  so filsofos, e por conseqncia benvolos para a criao, acham ou acreditam
  achar a explicao disto. O fim destas coisas aparece, entre outros, a Bonnet de
  Genebra, aquele misterioso esprito exato, que foi oposto a Buffon, como mais
  tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicao dizem ser esta: a
  morte exige a inumao. Esses vorazes so coveiros.

Todas as criaturas entram umas nas
  outras. Podrido  alimentao. Assustadora limpeza do globo. O homem,
  carnvoro, tambm  coveiro. A nossa vida  feita de morte. Tal  a lei
  terrfica. Somos sepulcros.

No nosso mundo crepuscular, esta
  fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: por qu?  por isto.

Ser isto a explicao? Ser esta
  a resposta? Mas ento por que no ser outra a ordem? Reaparece a
  questo.

Vivamos, seja.

Mas faamos com que a morte nos
  seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.

Sigamos a conscincia que nos leva
  para l.

Porquanto, no o esqueamos nunca,
  o prefervel s  achado pelo melhor.

CAPTULO III
OUTRA FORMA DE COMBATE NO
  ABISMO

Tal era o animal a quem, desde
  alguns instantes, Gilliatt pertencia.

Aquele monstro era o habitante
  daquela grota. Era o medonho gnio do lugar. Espcie de sombrio demnio da
  gua.

Todas essas magnificncias tinham
  por centro o horror.

Um ms antes, no dia que pela
  primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a forma escura, entrevista por este
  nas dobras da gua secreta, era aquela pieuvre.

Estava ela em sua casa.

Quando Gilliatt, entrando pela
  segunda vez na caverna, em busca do caranguejo, viu o buraco onde pensou que o
  caranguejo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco 
  espreita.

Pode-se imaginar esta
  espera?

Nenhum pssaro ousaria chocar,
  nenhum ovo ousaria abrir, nenhuma flor ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria
  aleitar, nenhum corao ousaria amar, nenhum esprito ousaria voar, se se
  pensasse nas sinistras emboscadas do abismo.

Gilliatt metera o brao no buraco;
  a pieuvre agarrou-o.

Gilliatt estava preso.

Era a mosca daquela
  aranha.

Gilliatt tinha gua at a cintura,
  os ps agarrados nos seixos arredondados e resvaladios, com o brao direito
  atado pelas correias da pieuvre, e o tronco do corpo desaparecendo quase debaixo
  das dobras e cruzamentos daquela atadura horrvel.

Dos oitos braos da pieuvre, trs
  aderiam  rocha, cinco aderiam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por
  um lado e ao homem pelo outro, encadeavam Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em
  si 250 chupadores. Complicao de angstia e de enjo. Estava apertado dentro de
  uma grande mo, cujos dedos elsticos e do comprimento de 1 metro so
  inteiramente cheios de pstulas vivas que lhe fuavam na carne.

J o dissemos, no se pode
  arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ela aperta-se
  mais. O seu esforo cresce na razo do esforo do homem. Quanto maior  a
  sacudidela, maior  a constrio.

Gilliatt s tinha um recurso, a
  faca.

Tinha a mo esquerda livre; 
  sabido que ele usava dela poderosamente. Podia dizer-se que tinha duas mos
  direitas.

Nessa mo tinha ele a faca
  aberta.

No se cortam as antenas da
  pieuvre;  um couro impossvel de cortar, resvala debaixo da lmina; demais, a
  superposio  tal que um corte nessas correias iria at  carne.

O polvo  formidvel, h, contudo,
  uma maneira de venc-lo. Os pescadores de Serk o sabem; quem os viu executar no
  mar certos movimentos bruscos, tambm o sabe. Os ourios-do-mar tambm conhecem
  esse modo; tm uma maneira de morder a siba que lhe corta a cabea. Da vem que
  se encontram muitas sibas e pieuvres sem cabea no mar alto.

O polvo, na verdade, s 
  vulnervel na cabea.

Gilliatt no o
  ignorava.

Nunca tinha visto uma pieuvre
  daquele tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande espcie.
  Qualquer outro ter-se-ia perturbado.

H um momento para vencer a
  pieuvre, como o touro;  o instante em que o touro curva o pescoo,  o instante
  em que a pieuvre estica a cabea; instante rpido. Quem o deixa escapar est
  perdido.

Tudo o que acabamos de dizer
  passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a suco das 250
  ventosas.

A pieuvre  traidora. Procura
  apavorar a presa. Agarra e espera o mais que pode.

Gilliatt tinha a faca na mo. As
  suces aumentavam.

Ele olhava para a pieuvre, a
  pieuvre olhava para ele.

De repente, o bicho desprendeu do
  rochedo a sexta antena e, atirando-a sobre Gilliatt, procurou agarrar-lhe o
  brao esquerdo.

Ao mesmo tempo esticou vivamente a
  cabea. Mais um segundo e a sua boca aplicar-se-ia sobre o peito de Gilliatt.
  Gilliatt, sangrado no corpo e preso pelos braos, estaria morto.

Mas Gilliatt vigiava. Espreitado,
  espreitava.

Evitou a antena, e, no momento em
  que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mo armada abateu-se sobre o
  bicho.

Houve duas convulses em sentido
  inverso: a da pieuvre e a de Gilliatt. Foi luta de dois relmpagos.

Gilliatt mergulhou a ponta da faca
  na viscosidade chata e, com um movimento giratrio semelhante  toro de uma
  chicotada, fazendo um crculo  roda dos dois olhos, arrancou a cabea como quem
  arranca um dente.

Estava acabado.

O bicho caiu.

Parecia uma roupa que se
  desprende. Destruda a bomba aspirante, desfez-se o vcuo. As quatrocentas
  ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquele andrajo foi ao
  fundo da gua.

Gilliatt, ofegante da luta, pde
  ver a seus ps, em cima das pedras do fundo, dois montes gelatinosos e informes,
  a cabea de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque no se poderia
  dizer corpo.

Gilliatt, contudo, receando algum
  ataque convulsivo da agonia, colocou-se fora de alcance dos
  tentculos.

Mas o animal estava bem morto.
  Gilliatt fechou a faca.

CAPTULO IV
NADA SE ESCONDE, NADA SE
  PERDE

Era tempo de matar a pieuvre.
  Gilliatt estava quase sem flego; tinha o brao direito e o corpo roxos;
  esboavam-se neles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remdio
  para essas leses  a gua salgada; Gilliatt mergulhou na gua. Ao mesmo tempo
  esfregava-se com a palma da mo e os tumores desapareciam.

Recuando e mergulhando na gua,
  achou-se ele prximo da espcie de cava que ficava ao p do buraco onde a
  pieuvre o agarrou.

A cava prolongava-se obliquamente,
  e a seco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que ali se tinham
  ajuntado levantavam o fundo acima das mars ordinrias. Essa anfratuosidade era
  um largo cmbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde
  da caverna penetrava ali e iluminava-a fracamente.

Aconteceu que, esfregando a pele
  intumescida, Gilliatt levantou maquinalmente os olhos. Olhou para dentro da
  cava. Estremeceu.

Pareceu-lhe ver no fundo desse
  buraco, na sombra, uma espcie de cara rindo.

Gilliatt ignorava a palavra
  alucinao, mas conhecia a coisa. Os misteriosos encontros com o inverossmil
  que chamamos alucinaes existem na natureza. Iluses ou realidades, as vises
  aparecem. Quem est presente v-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um
  pensativo. Tinha a grandeza de ser s vezes alucinado como um profeta. No se 
  impunemente sonhador dos lugares solitrios.

Acreditou em uma dessas miragens
  das quais, homem noturno como era, mais de uma vez teve medo.

A anfratuosidade figurava
  exatamente um forno de cal. Era um nicho baixo, em forma de asa de cesto, cujas
  curvaturas abruptas iam estreitando-se at a extremidade da cripta onde os
  seixos e a abbada se juntavam e fechavam.

Gilliatt entrou e, inclinando a
  cabea, dirigiu-se para o que estava no fundo.

Era, com efeito, alguma coisa que
  ria. Era uma caveira.

No havia s a caveira, havia
  tambm o esqueleto. Um esqueleto humano estava deitado na cava.

O olhar de um homem audaz, em tais
  ocasies, quer saber das coisas a fundo.

Gilliatt olhou em roda de
  si.

Estava cercado de uma poro de
  caranguejos.

No se mexiam eles. Era o aspecto
  de um formigueiro morto. Todos os caranguejos estavam mortos. Estavam
  vazios.

Os grupos, semeados, faziam no
  cho de seixos que enchiam a cava constelaes disformes.

Gilliatt, com o olhar fito em
  outra parte, caminhara por cima sem reparar.

Na extremidade da cripta onde
  chegara Gilliatt, havia maior espessura. Era um monto imvel de antenas, de
  patas e de mandbulas. Pinas abertas conservavam-se direitas, e j se no
  fechavam. As caixas de ossos no se mexiam debaixo de sua crosta de espinhos;
  algumas viradas mostravam o interior lvido. Este amontoado parecia uma multido
  de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.

Debaixo desse monto estava o
  esqueleto.

Via-se, debaixo dessa poro de
  tentculos e escamas, o crnio com as estrias, as vrtebras, os fmures, as
  tbias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costelas estavam cheias de
  caranguejos. Tinha palpitado ali algum corao. Os buracos dos olhos estavam
  atopetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas
  fossas nasais. No havia nesse recanto da caverna nem sargaos, nem ervas, nem
  sopro de ar. Nenhum movimento. Os dentes riam.

O lado assustador do riso  a
  imitao que faz dele uma caveira.

Aquele maravilhoso palcio do
  abismo bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar revelava por fim o seu
  segredo. Era um covil, a pieuvre morava a; e era uma tumba, a jazia um
  homem.

A imobilidade espectral do
  esqueleto e dos moluscos oscilava vagamente, por causa da reverbero das guas
  subterrneas que tremia naquela petrificao. Os caranguejos, mistura medonha,
  pareciam ter acabado a sua refeio. Aquelas cascas pareciam comer aquele
  esqueleto. Nada mais estranho do que aquela bicharia morta, sobre aquele homem
  finado. Sombrias continuaes da morte.

Gilliatt tinha, diante de si, o
  armrio da pieuvre.

Viso lgubre, donde surgia o
  horror profundo das coisas. Os caranguejos tinham comido o homem, a pieuvre
  tinha comido os caranguejos.

No havia nenhum resto de roupa ao
  p do cadver. O homem devia ter sido agarrado nu.

Gilliatt, atento e examinando,
  comeou a tirar os caranguejos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadver
  estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparao de anatomia; toda a
  carne estava eliminada; j no restava nenhum msculo. Se Gilliatt fosse do
  ofcio, reconheceria isso. Os peristeos estavam brancos, polidos e como que
  lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e ali, seria marfim
  puro. As divises cartilaginosas estavam delicadamente afiladas. A tumba faz
  essas joalherias sinistras.

O cadver estava como que
  enterrado debaixo dos caranguejos mortos. Gilliatt desenterrava-o.

De repente, inclinou-se
  vivamente.

Acabava de ver,  roda da coluna
  vertebral, uma espcie de atilho. Era um cinto de couro, que evidentemente fora
  atado ao ventre do homem antes de morrer.

O couro estava cheio de mofo. A
  fivela estava enferrujada.

Gilliatt puxou o cinto; as
  vrtebras resistiram, e Gilliatt teve de quebr-las, para tirar o cinto. O cinto
  estava intato. Comeava a formar-se nele uma crosta de conchas.

Gilliatt apalpou o cinto, e sentiu
  um objeto duro de forma quadrada no interior. No era possvel abrir a fivela,
  Gilliatt cortou o couro com a faca.

O cinto continha uma caixinha de
  ferro e algumas moedas de ouro. Gilliatt contou 20 guinus.

A caixinha era uma velha boceta de
  marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola, completamente
  oxidada, j no funcionava.

A faca veio em auxlio de
  Gilliatt. Com a ponta da lmina, fez ele pular a tampa da boceta.

A boceta abriu-se.

S havia papel dentro
  dela.

Um macinho de folhas finas,
  dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam midas, mas no
  alteradas. A boceta, hermeticamente fechada, preservou-as. Gilliatt
  abriu-as.

Eram trs notas do banco de 1.000
  libras esterlinas cada uma, formando uma soma de 75.000 francos.

Gilliatt dobrou-as, p-las na
  caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os 20 guinus,
  e fechou a caixinha o melhor que pde.

Depois examinou o
  cinto.

O couro, outrora envernizado pela
  parte de fora, no o era no interior. A estavam traadas algumas letras com
  tinta gordurosa. Gilliatt decifrou as letras e leu: Sr. Clubin.

CAPTULO V
H LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO
  INTERVALO QUE SEPARA 6 POLEGADAS DE 2 PS

Gilliatt meteu outra vez a
  caixinha no cinto, e ps o cinto na algibeira da cala.

Deixou o esqueleto aos caranguejos
  com a pieuvre morta ao p.

Enquanto Gilliatt esteve com a
  pieuvre e o esqueleto, a mar enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt
  s pde sair mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe fcil; conhecia a sada, e
  era mestre nessas ginsticas do mar.

Adivinhava-se o drama que se
  passara ali dez semanas antes. Um monstro agarrara o outro. A pieuvre agarrara
  Clubin.

Foi isso, na sombra inexorvel, o
  que se poderia chamar o encontro das hipocrisias. Houve, no fundo do abismo, um
  embate dessas duas existncias feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a
  besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justias.

O caranguejo alimenta-se da carne
  morta, a pieuvre alimenta-se de caranguejos. A pieuvre apanha um animal que
  nada, uma lontra, um co, um homem se pode, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo
  da gua o corpo morto. Os caranguejos so escaravelhos necrforos do mar.
  Atrai-os a carne ptrida; eles aproximam-se, comem o cadver; a pieuvre os come
  depois. As coisas mortas desaparecem no caranguejo, o caranguejo desaparece na
  pieuvre. J indicamos esta lei.

Clubin foi o engodo da
  pieuvre.

A pieuvre reteve-o e afogou-o; os
  caranguejos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquela cava, no fundo da
  anfratuosidade onde Gilliatt o achou.

Gilliatt voltou, procurando nos
  rochedos outra coisa que no fosse caranguejos. Parecer-lhe-ia comer carne
  humana.

Demais, ele tratava de cear o
  melhor possvel antes de partir. J nada o retinha no rochedo. As grandes
  tempestades so sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias s vezes.
  Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no
  dia seguinte de manh. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da
  mar, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de
  madrugada essa tapagem, empurrar a pana para fora, e abrir vela para
  Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exatamente
  o vento que lhe era preciso.

Entrava o primeiro quarto de lua
  de maio; os dias eram longos.

Quando Gilliatt, terminada a
  pesquisa dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estmago, voltou para a
  garganta das Douvres, onde estava a pana, j o sol cara no poente, e o
  crespsculo redobrava com aquele meio luar que se pode chamar o luar do
  crescente; a mar, que tinha enchido completamente, comeava a vazar. O cano da
  mquina, de p acima da pana, estava coberto pela espuma da tempestade de uma
  camada de sal que a lua embranquecia.

Isto lembrou a Gilliatt que a
  tempestade deitara, dentro da pana, muita gua de chuva e do mar, e que, se
  quisesse partir no dia seguinte, era preciso esvaziar a barca.

Tinha verificado, ao deixar a
  pana para ir procurar caranguejos, que havia cerca de 6 polegadas de gua no
  poro. A p de esgoto bastaria para deitar essa gua fora.

Chegando  pana, Gilliatt teve um
  movimento de terror. Havia na pana perto de 2 ps de gua.

Incidente terrvel, a pana fazia
  gua.

Enchera-se pouco a pouco durante a
  ausncia de Gilliatt. Carregada como estava, 20 polegadas de gua eram
  sobreposse. Mais um pouco e a pana iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora
  mais tarde, s acharia fora da gua o casco e o mastro.

No podia perder um minuto em
  deliberao.

Era preciso procurar o buraco,
  tap-lo, depois esvaziar a barca, ou ao menos alivi-la. As bombas da Durande
  tinham-se perdido no naufrgio; Gilliatt estava reduzido  p de
  esgoto.

Procurar o buraco, antes de tudo.
  Era o mais urgente.

Gilliatt ps mos  obra, sem
  mesmo dar-se tempo de vestir, e todo trmulo. J no sentia fome, nem
  frio.

A pana continuava a encher.
  Felizmente no havia vento. O menor abalo da onda meteria a pana a
  pique.

A lua desaparecera.

Gilliatt, s apalpadelas, curvado,
  mergulhado mais de metade na gua, levou muito tempo na pesquisa. Afinal
  encontrou a avaria.

Durante a tempestade, no momento
  crtico em que a pana se arqueava, a robusta barca tinha batido violentamente
  contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fratura no
  casco, a estibordo.

Este buraco estava infelizmente,
  podia-se quase dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas
  porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedia Gilliatt, na revista
  obscura e rpida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.

A fratura assustava porque era
  larga, e tranqilizava porque, embora imersa neste momento pela enchente interna
  da gua, ficava acima do lume da gua.

No momento em que rompeu o buraco,
  a vaga era loucamente sacudida no estreito, e j no havia nvel de flutuao, a
  onda penetrara pela efrao na pana; a pana, com mais essa carga, mergulhou
  algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do lquido
  filtrado, fazendo levantar a linha de flutuao, manteve o buraco debaixo da
  gua. Da vinha a iminncia do perigo. A cheia aumentara de 6 polegadas a 20.
  Mas, conseguindo tapar o buraco, podia-se esvaziar a pana; esvaziada a pana,
  voltaria  flutuao normal, a fratura sairia da gua, e a seco, a reparao
  seria fcil, ou ao menos possvel. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a
  ferramenta de carpintaria em bom estado.

Mas quantas incertezas antes de
  chegar a isso! Quantos perigos! Quantas ms probabilidades! Gilliatt ouviu a
  gua correr inexoravelmente. Um empuxo e tudo iria a pique. Que desgraa!
  Talvez j no fosse tempo.

Gilliatt acusou-se amargamente.
  Deveria ter visto a avaria. As 6 polegadas de gua no poro deviam t-lo
  advertido. Foi estupidez atribuir as 6 polegadas de gua  chuva e  espuma.
  Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quase tambm
  a tempestade e a noite. Tudo era culpa dele.

Essas coisas duras, que ele dizia
  a si prprio, iam de envolta com o vaivm do trabalho e no o impediam de
  observar.

Achar o buraco era o primeiro
  passo; tap-lo era o segundo. No se podia mais agora. No se faz carpintaria
  debaixo da gua.

Havia uma circunstncia favorvel,
  era que o buraco do casco foi aberto no espao compreendido entre as duas
  correntes que prendiam a estibordo o cano da mquina. A estopa podia prender-se
  a essas correntes.

Entretanto, a gua subia. J
  passava de 2 ps.

Gilliatt tinha gua acima dos
  joelhos.

CAPTULO VI
DE PROFUNDIS AD
  ALTUM

Gilliatt tinha  sua disposio,
  na reserva do aparelho da pana, um grande pano alcatroado com as competentes
  cordas longas nas quatro pontas.

Pegou nesse pano, amarrou dois
  cantos pelos cabos s duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e
  atirou o pano por cima da borda. O pano caiu como uma toalha entre a pequena
  Douvre e a barca, e mergulhou. A gua, querendo entrar na pana, aplicou o pano
  ao casco sobre o buraco. Quanto mais a gua batia, mais aderia o pano. Foi
  colocado pela vaga sobre a fratura. A chaga da barca estava pensada.

A lona alcatroada interpunha-se
  entre o interior do poro e as vagas de fora. J no entrava nem gota de gua
  sequer.

O buraco estava tapado, mas no
  estopado.

Era uma espera.

Gilliatt comeou a esvaziar a
  pana. Era tempo de alivi-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a
  fadiga. Gilliat confessava que no iria ao fim e no chegaria a estancar o
  poro. Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhao de sentir-se
  extenuado.

Media o progresso dos trabalhos
  pela baixa do nvel da gua nos seus joelhos. A descida era lenta.

Alm disso, a entrada da gua
  estava apenas interrompida. O mal estava paliado, mas no reparado. O pano,
  empurrado na fratura pela vaga, comeava a fazer um tumor pelo lado de dentro.
  Parecia que havia uma mo fechada debaixo do pano, procurando romper o buraco. A
  lona, slida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tenso iam aumentando;
  no era certo que o pano no cedesse, e, de um momento para outro, o tumor
  poderia romper. Recomearia ento a irrupo da gua.

Em tal caso, as equipagens em
  perigo o sabem, no h outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de
  toda a espcie, o que se acha  mo, tudo quanto a lngua especial chama forro e
  mete-se o mais que se pode na fenda do tumor da lona.

Desse forro Gilliatt no tinha
  nenhum. Todos os panos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou
  dispersos pelo vento.

Podia achar alguns restos no
  rochedo, quando muito. A pana j estava bastante aliviada, e ele podia
  ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a
  escurido. J no havia lua; apenas o sombrio cu estrelado. Gilliatt no tinha
  fios secos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para
  acend-la, nem lanterna para abrig-la. Tudo estava confuso e indistinto na
  barca e no escolho. Ouvia a gua rumorejar  roda do casco ferido, nem sequer
  podia ver o buraco; foi com as mos que Gilliatt pde averiguar a tenso
  crescente do pano. Era impossvel fazer naquela obscuridade uma pesquisa til de
  pedaos de lona e massame esparsos nos cachopos. Como colher esses andrajos sem
  luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrelas e nem uma
  vela.

A massa lquida diminura na
  barca, a presso externa aumentara. Crescia o inchamento do pano. Intumescia-se
  cada vez mais. Era um abscesso prestes a abrir. A situao, um momento
  melhorada, tornava-se ameaadora.

Era imperiosamente necessrio um
  batoque.

Gilliatt apenas tinha as suas
  roupas.

Tinha-as posto a secar nas
  salincias do rochedo da pequena Douvre. Foi busc-las, e depositou-as na borda
  da pana.

Pegou no capote alcatroado e,
  ajoelhando-se na gua, meteu-o no buraco, empurrando o tumor do pano para fora,
  e portanto esvaziando-o. Depois meteu a pele de carneiro, depois a camisa de l,
  depois a japona. Tudo.

Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e
  com a cala engrossou e apertou o batoque. Estava pronto e no parecia
  insuficiente.

O batoque saa pelo buraco, tendo
  o pano por invlucro.

A gua querendo entrar, apertava o
  obstculo, alargava-o utilmente na fratura, e consolidava-o. Era uma espcie de
  compressa exterior.

No interior, tendo sido empurrado
  apenas o centro da lona, ficava  roda do buraco e do batoque em rolete circular
  do pano tanto mais aderente quanto que as desigualdades da fratura o retinham. A
  via da gua estava tapada.

Mas nada mais precrio do que
  aquilo. Os relevos agudos da fratura que fixavam o pano podiam fur-lo e, por
  esses buracos, entraria a gua. Gilliatt, na obscuridade, no descobria isso.
  Era pouco provvel que o batoque durasse at de manh. A ansiedade de Gilliatt
  mudou de forma, mas ele sentia-a crescer ao mesmo tempo que sentia
  quebrarem-se-lhe as foras.

Continuou a esvaziar o poro, mas
  os seus braos, no extremo esforo, apenas podiam levantar a p da gua. Estava
  nu e tremia.

Gilliatt sentia a aproximao
  sinistra da extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por
  acaso passasse nas guas de Douvres podia ajud-lo. Era chegado o momento em que
  se tornava necessrio um colaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria
  salvo. Sendo dois, esvaziava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem
  aquela sobrecarga lquida, voltaria ao nvel de flutuao, o buraco sairia da
  gua, o reparo seria exeqvel, podia-se imediatamente substituir o batoque por
  uma pea de madeira, e o aparelho provisrio por um conserto definitivo. Seno,
  era preciso esperar at de manh, esperar a noite toda! Funesta demora que podia
  ser a perdio. Gilliatt tinha a febre da urgncia. Se por acaso algum farol de
  navio estava  vista, Gilliatt poderia fazer sinais do alto da grande Douvre. O
  tempo estava calmo, no havia vento, no havia mar, um homem agitando-se no
  fundo estrelado do cu tinha a possibilidade de ser visto. Um capito de navio,
  e mesmo um patro de lancha, no anda de noite nas guas das Douvres sem pr o
  culo no escolho;  a precauo.

Gilliatt esperava que o
  vissem.

Escalou o casco da Durande,
  empunhou a corda e subiu  grande Douvre.

Nenhuma vela no horizonte. Nenhum
  farol.

A gua estava deserta a perder de
  vista.

Nenhuma assistncia possvel e
  nenhuma resistncia possvel. Gilliatt, coisa que at ento no sentira,
  sentiu-se desarmado.

A fatalidade obscura
  assenhoreara-se dele. Ele, com a barca, com a mquina da Durande, com o
  trabalho, com o bom xito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golfo. J no
  tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a mar e a noite? O
  batoque era o nico ponto de apoio. Gilliatt exaurira-se em comp-lo e
  complet-lo; fortific-lo  que j no podia; o batoque devia ficar assim e
  fatalmente tinha acabado todo o esforo. O mar tinha  sua discrio aquele
  aparelho prematuro aplicado ao buraco. Como resistiria aquele obstculo inerte?
  Chegara-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se
  o esprito. O intumescimento de uma onda bastava para abrir a fratura. Maior ou
  menor presso, a questo era essa.

O desfecho ia nascer por uma luta
  maquinal entre duas quantidades mecnicas. Gilliatt no podia agora, nem ajudar
  o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua
  morte. Aquele Gilliatt que tinha sido uma providncia foi substitudo no supremo
  instante por uma resistncia inconsciente.

Nenhuma das provas e dos pavores
  que Gilliatt atravessara era igual a esta.

Chegando ao escolho Douvres,
  viu-se cercado, como que agarrado pela solido. A solido fazia mais que
  cerc-lo, envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaas o desafiavam. O vento
  estava ali, prestes a soprar; ali estava o mar, prestes a rugir. Era impossvel
  amordaar a goela ao vento, era impossvel desarmar a boca do mar. E contudo
  tinha ele combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhara-se
  com a tempestade.

Tinha afrontado outras ansiedades
  e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem
  ferramenta, carregar fardos sem auxlio, resolver problemas sem cincia, comer e
  beber sem provises, dormir sem leito e sem teto.

Naquele rochedo, ecleo trgico,
  puseram-lhe a questo as diversas fatalidades inquas da natureza, me quando
  quer, algoz quando lhe apraz.

Venceu o isolamento, venceu a
  fome, venceu a sede, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o
  sono. Encontrou no caminho os obstculos coalizados. Depois da nudez, o
  elemento; depois da mar, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois
  do monstro, o espectro.

Lgubre ironia final. Naquele
  escolho donde Gilliatt contava sair triunfante, Clubin morto olhara rindo para
  ele.

Tinha razo o riso do espectro.
  Gilliatt via-se perdido. Via-se to morto como Clubin.

O inverno, a fome, a fadiga, o
  desaparelhar do casco, o transporte da mquina, o equincio, o vento, o trovo,
  a pieuvre, tudo isso nada era ao p do arrombamento da pana. Podia-se ter, e
  Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a
  sede, a chuva; contra as dificuldades, a indstria e a energia; contra a mar e
  a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento,
  nada.

O furaco deixava-lhe aquele adeus
  sinistro. ltima repetio, prfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao
  vencedor. A tempestade fugitiva lanava-lhe aquela flecha. A derrota olhava para
  trs e feria. Era o coup de Jarnac do abismo.

Combate-se a tempestade; mas como
  combater um esgoto?

Se o batoque cedesse, nada podia
  impedir que a pana fosse a pique. Era a ligadura da artria que se rompe. E
  apenas fosse ao fundo da gua, com a mquina dentro, no havia meio de
  arranc-la.

O magnnimo esforo de dois meses
  titnicos acabava por um aniquilamento. Recomear era impossvel. Gilliatt j
  no tinha nem forja, nem materiais. Talvez tivesse ele de ver, ao romper do dia,
  mergulhar-se lentamente e irremediavelmente toda a sua obra no
  golfo.

Coisa assustadora  sentir debaixo
  de si a fora sombria.

O golfo atraa-o.

Engolida a barca, restava-lhe
  morrer de fome e de frio como o nufrago do rochedo Homem.

Durante dois longos meses, as
  conscincias e as providncias que existem no invisvel tinham assistido a isto:
  de um lado a extenso, as vagas, os ventos, os relmpagos, os meteoros, do outro
  lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do
  outro um tomo. E houve batalha.

E abortava talvez aquele
  prodgio.

Assim chegou  impotncia o
  inaudito herosmo, acabava-se pelo desespero aquele formidvel combate, aquela
  luta de Nada contra Tudo, aquela Ilada de um.

Gilliatt, desvairado, contemplava
  o espao.

Nem mesmo tinha roupa, estava nu
  diante da imensidade.

Ento, no acabrunhamento de toda
  aquela enormidade desconhecida, no sabendo j o que queriam dele,
  confrontando-se com a sombra, em presena daquela obscuridade irredutvel, no
  rumor das guas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das
  nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta fora esparsa, debaixo daquele
  misterioso firmamento das asas, dos astros e das tumbas, debaixo da inteno
  possvel das coisas desmesuradas, tendo  roda de si e em baixo de si o oceano,
  e acima as constelaes, debaixo do insondvel, Gilliatt abateu-se, desistiu,
  deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrelas, vencido, e pondo
  as mos diante da profundeza terrvel, bradou ao infinito: Piedade!

Abatido pela imensidade, Gilliatt
  implorou.

Estava s naquela noite, em cima
  daquele rochedo, no meio daquele mar, cado de cansao, semelhante a um
  fulminado, nu como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abismo, em vez
  das feras as trevas, em vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das
  vestais as estrelas, em vez de Csar, Deus.

Pareceu-lhe que se dissolvia no
  frio, no cansao, na impotncia, na orao, na sombra e fecharam-se-lhe os
  olhos.

CAPTULO VII
H UM OUVIDO NO
  IGNOTO

Correram algumas horas.

O sol levantava-se
  deslumbrante.

O seu primeiro raio iluminou na
  plataforma da grande Douvre uma forma imvel. Era Gilliatt.

Continuava estendido em cima do
  rochedo.

J no estremecia aquela nudez
  gelada e endurecida. Estavam lvidas as plpebras fechadas. Era difcil dizer
  que no era um cadver.

O sol parecia
  contempl-lo.

Se aquele homem nu no estava
  morto, devia estar to perto disso que bastaria o menor vento frio para
  acab-lo.

Comeou a soprar o vento, tpido e
  vivificante; era o hlito vernal de maio.

Entretanto, o sol subia no
  profundo cu azul; o seu raio menos horizontal ia-se purpureando. A luz fez-se
  calor. Cingiu Gilliatt.

Gilliatt no se mexia. Se
  respirava, era uma respirao quase extinta que mal poderia embaciar um
  espelho.

O sol continuava a sua ascenso
  cada vez menos oblqua sobre Gilliatt. O vento, que era tpido ao princpio,
  tornou-se clido.

Aquele corpo rgido e nu
  continuava sem movimento; entretanto a pele parecia menos lvida.

O sol, acercando-se do znite,
  caa a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do cu uma
  prodigalidade de luz; juntava-se a ela a vasta reverberao do mar tranqilo, o
  rochedo comeava a ficar tpido e aquecia o homem.

O peito de Gilliatt levantou-se
  com um suspiro.

Vivia.

O sol continuava as suas carcias,
  quase ardentes. O vento, que j era o vento do meio-dia, e o vento de vero,
  aproximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando molemente.

Gilliatt fez um
  movimento.

Era inexprimvel a tranqilidade
  do mar, tinha um murmrio de ama ao p do filho. As vagas pareciam embalar o
  escolho.

As aves marinhas que conheciam
  Gilliatt voavam inquietas por sobre ele. J no era o medo selvagem do
  princpio. Era um qu de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam
  cham-lo; uma gaivota que o amava, sem dvida, teve a familiaridade de descer
  para junto dele. Comeou a falar-lhe. Ele no parecia ouvi-la.

Ela saltou-lhe sobre o ombro e
  comeou a brincar docemente com o bico nos seus lbios.

Gilliatt abriu os
  olhos.

Os pssaros, alegres e ariscos,
  voaram.

Gilliatt levantou-se e
  espreguiou-se como o leo acordando, correu a bordo da plataforma e olhou para
  o intervalo das Douvres.

A pana estava intata. O batoque
  resistira: provavelmente o mar maltratara-o pouco.

Tudo estava salvo.

Gilliatt j no estava cansado.
  Refizeram-se-lhe as foras. O desmaio foi um sono.

Esvaziou a pana, ps a avaria
  fora da flutuao, vestiu-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.

O buraco, examinado de dia,
  demandava mais trabalho do que Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt
  gastou o dia inteiro em repar-lo.

No dia seguinte, de madrugada,
  depois de desfazer a tapagem e abrir a sada do estreito, vestido com os
  andrajos que tinham vencido a avaria, tendo consigo o cinto de Clubin e os
  75.000 francos, em p na pana consertada, ao lado da mquina salva, com um
  vento de feio e mar admirvel, Gilliatt saiu do escolho Douvres.

Aproou sobre Guernesey.

No momento em que se afastava do
  escolho, algum que l estivesse t-lo-ia ouvido entoar a meia-voz a cano Bonny Dundee.

TERCEIRA
  PARTE
DRUCHETTE

LIVRO
  PRIMEIRO
NOITE E
  LUA

CAPTULO
  PRIMEIRO
O SINO DO
  PORTO

O Saint-Sampson de hoje  quase
  uma cidade; o Saint-Sampson de h quarenta anos era quase uma aldeia.

Chegando a primavera, e acabadas
  as viglias de inverno, deitavam-se todos cedo. Saint-Sampson era uma antiga
  parquia de tocar a recolher, tendo conservado o hbito de apagar cedo as luzes.
  Os habitantes deitavam-se e levantavam-se com o dia. As velhas aldeias normandas
  so voluntariamente galinheiros.

Digamos alm disso que
  Saint-Sarpson,  exceo de algumas ricas famlias,  uma populao de pedreiros
  e carpinteiros. O porto  um lugar de consertar navios. Durante o dia extraem-se
  pedras ou trabalham-se pranchas: aqui a picareta, alm o martelo. Perptuo
  meneio de pau e granito.  tarde tudo cai de cansao e dorme como chumbo. Os
  rudes trabalhos fazem os duros sonos.

Uma noite dos princpios de maio,
  depois de ter por alguns instantes contemplado o crescente da lua nas rvores e
  ouvido o passo de Druchette passeando sozinha, ao fresco da noite, no jardim de
  Braves, Mess Lethierry entrou para seu quarto situado sobre o porto e
  deitou-se. Doce e Graa estavam na cama. Exceto Druchette, tudo dormia na casa.
  Portas e postigos estavam fechados. Ningum andava nas ruas. Raras luzes,
  semelhantes ao piscar de olhos, que vo fechar-se, brilhavam aqui e ali nas
  janelas dos stos, anncio do deitar dos criados. J 9 horas tinham batido na
  velha torre romana, coberta de hera, que partilha com a Igreja de Saint-Brelade
  de Jersey a singularidade de ter por data quatro uns: 1111, o que significa mil
  cento e onze.

A popularidade de Mess Lethierry
  em Saint-Sampson vinha do bom xito da Durande. Acabado este, fez-se o vcuo.
  Parece que o enguio pega, e que as pessoas infelizes tm a peste consigo, to
  rpida  a quarentena em que as metem. Os lindos filhos-famlias evitavam
  Druchette. O isolamento em roda da casa de Lethierry era tal que nem mesmo se
  soube a o pequeno grande acontecimento local que nesse dia agitou
  Saint-Sampson. O cura da parquia, o Reverendo Joe Ebenezer Caudray, estava
  rico. O tio dele, o magnfico decano de Saint-Asaph, morrera em Londres. A
  notcia foi trazida pelo sloop de posta Cashmere, chegado da
  Inglaterra nessa manh, e cujo mastro via-se no porto de Saint-Sampson. O
  Cashmere devia voltar para Southampton no dia seguinte ao meio-dia, e dizia-se
  que devia levar o reverendo cura, chamado  Inglaterra sem demora para a
  abertura oficial do testamento, sem contar as outras urgncias de uma grande
  herana para recolher. Durante o dia Saint-Sampson dialogou confusamente. O Cashmere, o Reverendo Ebenezer, o tio morto, a riqueza, a partida, as
  promoes possveis no futuro foram o fundo do burburinho. S uma casa, que nada
  sabia, ficara silenciosa, a de Lethierry.

Mess Lethierry atirou-se  maca
  vestido.

Depois da catstrofe da Durande,
  atirar-se  maca era o recurso dele. Deitar-se no grabato  o recurso do
  prisioneiro, e Mess Lethierry era prisioneiro da tristeza. Deitava-se; era uma
  trgua, um descanso, uma suspenso de idias. Dormia? No. Velava? No.
  Propriamente falando, havia dois meses e meio  j dois meses e meio , Mess
  Lethierry estava em sonambulismo. No era ainda senhor de si. Andava nesse
  estado misto e difuso que costumam ter os que sofreram grandes abatimentos. As
  suas reflexes no eram pensamentos, o seu sono no era repouso. De dia no era
  um homem acordado, de noite no era um homem adormecido. Estava em p, estava
  deitado, eis tudo. Quando estava na maca, esquecia-se um pouco; a isso chamava
  ele dormir; as quimeras flutuavam nele e por sobre ele a nuvem noturna, cheia de
  faces confusas, atravessava-lhe o crebro; o Imperador Napoleo ditava-lhe as
  suas memrias, havia muitas Druchettes, estranhos pssaros pousavam nas
  rvores, as ruas de Lons-le-Saulnier tornavam-se serpentes. O pesadelo era o
  descanso do desespero. Passava as noites a sonhar e os dias a cismar.

As vezes ficava uma tarde inteira,
  imvel  janela do quarto que dava para o porto, com a cabea baixa, os
  cotovelos sobre o peitoril de pedra, as orelhas nas mos, as costas voltadas
  para o mundo inteiro, o olhar fito na velha argola de ferro pregada no muro da
  casa a alguns ps da janela, onde outrora amarrava a Durande. Contemplava a
  ferrugem que invadia a argola.

Mess Lethierry estava reduzido 
  funo maquinal de viver.

Os homens mais valentes, privados
  da sua idia realizvel, atingem a isto.  esse o efeito das existncias
  esvaziadas. A vida  a viagem, a idia  o itinerrio. Sem itinerrio, pra-se.
  Perdido o alvo, morre a fora. A sorte  um obscuro poder discricionrio. Pode
  bater com as suas vergastas o nosso ser moral. O desespero  quase a destituio
  da alma. S os grandes espritos resistem. E ainda assim...

Mess Lethierry meditava
  continuamente, se a absoro pode chamar-se meditao, no fundo de uma espcie
  de precipcio turvo. Escapavam-lhe palavras desoladoras como estas: S me resta
  pedir ao cu o meu bilhete de sada.

Notemos uma contradio nesta
  natureza, complexa como o mar, de que Mess Lethierry era, por assim dizer, o
  produto; Mess Lethierry no rezava.

Ser impotente  uma fora. Diante
  das nossas duas grandes cegueiras, o destino e a natureza,  na sua impotncia
  que o homem acha o ponto de apoio, a orao.

O homem socorre-se do prprio
  medo; pede auxlio ao pavor; a ansiedade aconselha o ajoelhar.

A orao, enorme fora prpria da
  alma,  da mesma espcie que o mistrio. A orao dirige-se  magnanimidade das
  trevas; a orao contempla o mistrio com os olhos da sombra, e, diante da
  fixidez poderosa desse olhar splice, sente-se um desarmamento possvel no
  ignoto.

Essa possibilidade entrevista  j
  uma consolao.

Mas Lethierry no
  orava.

No tempo em que era feliz, Deus
  existia para ele, pode dizer-se em carne e osso; Lethierry falava-lhe, dava-lhe
  a sua palavra, dava-lhe quase, de quando em quando, um aperto de mo. Mas no
  infortnio de Lethierry, fenmeno alis freqente, Deus eclipsava-se. Isto
  acontece a quem imagina um Deus bonacho.

No havia para Lethierry, no
  estado a que chegara, mais que uma viso pura, o sorriso de Druchette. Fora
  desse sorriso, tudo era negro.

Desde algum tempo, sem dvida por
  causa da perda da Durande, cujo choque ela sentia, tornou-se raro o delicioso
  riso de Druchette. Parecia preocupada. Extinguia-se-lhe a gentileza de pssaro
  e de criana. J ningum a via, ao tiro de pea da manh, fazer uma cortesia e
  dizer ao sol: Bom...jour!... queira entrar. Tinha s vezes um ar srio, coisa
  triste naquela doce criatura. Entretanto fazia esforo para rir a Mess
  Lethierry, e para distra-lo, mas a sua alegria apagava-se dia a dia, e
  cobria-se de poeira, como a asa de uma borboleta que um alfinete atravessou.
  Acrescentemos que, seja porque a tristeza do tio a fizesse triste, e h dores de
  reflexo, seja por outras razes, ela parecia agora inclinar-se muito para a
  religio. No tempo do antigo cura, Jaquemin Herodes, ela ia apenas quatro vezes
   igreja. Agora era muito assdua. No faltava a ofcio algum, nem aos domingos,
  nem s quintas-feiras. As almas piedosas da parquia viam com satisfao esta
  emenda. Porquanto  uma grande ventura para uma moa, que corre tantos perigos
  entre os homens, voltar-se para Deus.

Ao menos isso faz com que os pais
  fiquem tranqilos a respeito de namoricos.

De noite, sempre que o tempo
  permitia, passeava no jardim, uma ou duas horas. Andava quase to pensativa como
  Mess Lethierry, e sempre s. Druchette deitava-se por ltimo. Mas isto no
  impedia que Graa e Doce no a perdessem de vista, por este instinto de espionar
  que anda ligado  domesticidade; espionar desenfada de servir.

Quanto a Mess Lethierry, no estado
  obscurecido em que se achava o seu esprito, no percebia essas pequenas
  alteraes nos hbitos de Druchette. Demais, ele no nascera aio. Nem mesmo
  notava a pontualidade de Druchette aos ofcios da parquia. Tenaz no seu
  preconceito contra as coisas e os homens do clero, teria visto sem prazer essas
  freqncias  igreja.

No  que a sua situao moral no
  estivesse em caminho de modificar-se. O pesar  nuvem e muda de
  forma.

As almas robustas, como dissemos,
  so s vezes, em certas desgraas, destitudas quase, mas no de todo. Os
  caracteres viris, tais como Lethierry, reagem num tempo dado. O desespero tem
  graus ascendentes. Do acabrunhamento sobe-se ao abatimento, do abatimento 
  aflio, da aflio  melancolia. A melancolia  um crepsculo. A o sofrimento
  funde-se em sombria alegria.

A melancolia  a ventura de ser
  triste.

Essas atenuaes elegacas no
  eram feitas para Lethierry; nem a natureza do seu temperamento, nem o gnero da
  sua desgraa, comportavam essas variaes. Somente, no momento em que o
  encontramos, a cisma do seu primeiro desespero tendia a dissipar-se; sem estar
  menos triste, Lethierry estava menos inerte; continuava a estar sombrio, mas j
  no estava amortecido; voltava-lhe uma certa percepo dos fatos e dos
  acontecimentos; e comeava a sentir alguma coisa desse fenmeno que se poderia
  chamar a entrada na realidade.

Assim que, de dia, na sala baixa,
  no escutava as palavras, mas ouvia-as. Graa veio uma manh, triunfante, dizer
  a Druchette que Mess Lethierry rasgara o invlucro do seu jornal.

Esta meia aceitao da realidade 
  em si um bom sintoma.  a convalescena. As grandes desgraas aturdem. Sai-se do
  aturdimento por aquele modo. Mas essa melhora parece ao princpio um agravo. O
  estado do sonho anterior embotava a dor; antes via-se turvo, sentia-se pouco;
  agora a vista  clara, no se escapa a coisa alguma, sangra-se por tudo.
  Aviva-se a chaga. A dor acentua-se com todos os pormenores que se vem. Rev-se
  tudo na memria. Achar tudo,  lamentar tudo. H nesta volta  realidade todas
  as provas amargas. Fica-se melhor e pior.  o que Lethierry sentia. Sofria mais
  distintamente.

O que trouxera Mess Lethierry ao
  sentimento da realidade foi um abalo. Digamos qual foi ele.

Uma tarde, a 15 ou 20 de abril,
  ouviu-se na porta da sala baixa as duas pancadas que anunciavam o correio. Doce
  abriu a porta. Era uma carta.

Vinha do mar a carta. Era dirigida
  a Mess Lethierry. Trazia o selo de Lisboa.

Doce levou a carta a Mess
  Lethierry que estava fechado no quarto. Ele pegou na carta, p-la maquinalmente
  na mesa, e nem olhou. A carta ficou ali uma boa semana sem ser
  aberta.

Aconteceu, porm, que uma manh
  Doce disse a Mess Lethierry:

 Devo tirar a poeira de que est
  cheia a carta?

Lethierry pareceu
  acordar.

 Sim  disse ele.

E abriu a carta. Leu
  isto:

No mar, 10 de maro.

Mess Lethierry, de
  Saint-Sampson.

Receber o senhor com prazer
  notcias minhas.

Estou no Tamaulipas, em viagem
  para no voltar. H na equipagem um marujo Ahier-Tostevin, de Guernesey, que h
  de voltar a, e que lhe h de contar alguma coisa. Aproveito o encontro do navio
  Hernn Corts, com destino a Lisboa, para mandar-lhe esta carta.

Espante-se. Sou um homem
  honesto.

To honesto como o Sr.
  Clubin.

Devo crer que j sabe o que
  aconteceu; contudo, no ser mal que lhe lembre o caso.

Ei-lo:

Restitu-lhe os seus
  capitais.

Tomei-lhes emprestados, um pouco
  incorretamente, 50.000 francos. Antes de deixar Saint-Malo, entreguei, para o
  senhor, ao seu homem de confiana, o Sr. Clubin, trs notas do banco de 1.000
  libras cada uma, o que faz 75.000 francos. Creio que h de achar esse reembolso
  suficiente.

O Sr. Clubin tratou dos seus
  interesses, e recebeu o seu dinheiro com energia. Parece-me um homem zeloso; 
  por isso que o advirto.

O seu homem de confiana,
  RANTAINE.

Post scriptum.  O Sr.
  Clubin tinha um revlver, e foi por isso que no tive recibo.

Tocai um torpedo, tocai uma
  garrafa de Leyde carregada, e sentireis o mesmo que sentiu Mess Lethierry lendo
  esta carta.

Debaixo daquela sobrecarta,
  naquela folha de papel dobrada em quatro, a que, no primeiro momento, dera pouca
  ateno, havia uma comoo.

Lethierry reconheceu a letra,
  reconheceu a assinatura. Quanto ao fato, nada compreendeu ao
  princpio.

A comoo foi tal que lhe ps, por
  assim dizer, o esprito em p.

O fenmeno dos 75.000 francos que
  Rantaine confiara a Clubin era um enigma, e era por isso o lado til do abalo,
  visto que obrigava Lethierry a refletir. Fazer uma conjetura , para o
  pensamento, uma ocupao s. Acorda o raciocnio, convoca-se a
  lgica.

Desde algum tempo, a opinio
  pblica de Guernesey ocupava-se em julgar Clubin, o honrado homem que por tantos
  anos foi unanimemente admitido na circulao da estima. Interrogavam-se uns aos
  outros, duvidava-se, apostava-se pr e contra. Apareceram singulares
  esclarecimentos. Clubin comeava a aparecer em toda a luz, isto , tornava-se
  negro.

Houve em Saint-Maio uma devassa
  judiciria para saber onde parava o guarda-costa 619. A perspiccia legal
  enganara-se, o que lhe acontece muitas vezes. Partia da suposio de que o
  guarda-costa fora atrado por Zuela e embarcado no Tamaulipas para o
  Chile. Esta hiptese engenhosa trouxe consigo muitas aberraes. A miopia da
  justia no chegou a ver Rantaine. Mas no decurso da pesquisa os magistrados
  descobriram outros rastos; complicara-se o negcio que j era obscuro. Clubin
  entrava no enigma. Havia uma coincidncia, alguma relao talvez, entre a
  partida do Tamaulipas e a perda da Durande. Na taverna da porta Dinan,
  onde Clubin acreditava no ser conhecido, foi conhecido; o taverneiro falou;
  Clubin tinha comprado uma garrafa de aguardente. Para quem? O armeiro da Rua de
  So Vicente tambm falou; Clubin comprara um revlver. Contra quem? O dono da
  hospedaria Joo tambm falou: Clubin costumava ter ausncias inexplicveis. O
  Capito Gertrais-Gaboureau tambm falou; Clubin quis partir, apesar de avisado e
  sabendo que devia haver nevoeiro. A tripulao da Durande tambm falou. O
  carregamento era falho e mal arranjado, negligncia fcil de compreender, se o
  capito quer perder o navio. Tambm falou o passageiro guernesiano; Clubin
  cuidou ter naufragado nos Hanois. Tambm falou a gente de Torteval; Clubin foi
  ali alguns dias antes do naufrgio e dirigiu-se para Plainmont, vizinho dos
  Hanois. Levava uma mala, e no voltou com ela. Igualmente falaram os
  furta-ninhos; a histria deles parecia prender-se ao desaparecimento de Clubin,
  contanto que, em vez de almas do outro mundo, fossem contrabandistas. Finalmente
  a prpria casa mal-assombrada de Plainmont falou; algumas pessoas, resolvidas a
  se esclarecerem, tinham-na escalado, e o que acharam dentro? Exatamente a mala
  de Clubin.

Os magistrados de Torteval
  apreenderam a mala e abriram-na. Continha provises de boca, um culo, um
  cronmetro, roupas de homem e roupa branca marcada com as iniciais de Clubin.
  Tudo isso, nas conversas de Saint-Maio e Guernesey, ia-se acumulando, e j
  roava pela fraude. Comparavam-se sintomas confusos; averiguavam-se o desdm
  singular pelos conselhos, a afronta do nevoeiro, a negligncia na arrumao das
  cargas, a garrafa de aguardente, o timoneiro brio, a substituio do capito ao
  timoneiro, o movimento do leme, ao menos desastrado. O herosmo em ficar no
  navio tornava-se velhacaria. Demais, Clubin enganou-se no escolho. Admitida a
  inteno de fraude, compreendeu-se a escolha dos Hanois, a facilidade de nadar
  para a costa, e a residncia na casa mal-assombrada at chegar a ocasio de
  fugir. A mala acabava a demonstrao. Qual o elo que prendia esta aventura  do
  guarda-costa, ainda no se tinha descoberto. Adivinhava-se uma correlao; nada
  mais. Entrevia-se, quanto a esse homem, o guarda-costa 619, um drama trgico.
  Clubin talvez no representasse nele, mas descobriam-no nos
  bastidores.

Nem tudo se explicava pela fraude.
  Havia um revlver sem emprego. O revlver entrou talvez no caso do
  guarda.

O faro do povo  fino e acertado.
  O instinto pblico  hbil nestas restauraes da verdade feitas de pedaos
  soltos. Somente, nesses fatos, de que resultava uma fraude verossmil, havia
  srias incertezas.

Tudo concordava; mas no havia
  base.

No se perde um navio pelo gosto
  de perd-lo. No se correm os riscos do nevoeiro, do escolho, do nadar, do
  refgio e da fuga, sem um interesse. Qual seria o interesse de
  Clubin?

Via-se o ato, no se via o
  motivo.

Da vinha a dvida a muitos
  espritos. Onde no h motivo, parece que no h ato.

A lacuna era grave.

Ora, a carta de Rantaine vinha
  preencher a lacuna.

A carta dava o motivo de Clubin.
  Queria roubar 75.000 francos.

Rantaine era o Deus ex machina.
  Descia das nuvens com uma vela na mo.

A carta era o esclarecimento
  final.

Explicava tudo essa carta e, de
  mais a mais, anunciava uma testemunha: Ahier-Tostevin.

Coisa decisiva, sabia-se agora o
  emprego do revlver. Rantaine estava incontestavelmente informado de tudo. A sua
  carta fazia tocar tudo com o dedo.

Nenhuma atenuante possvel na
  malvadeza de Clubin. Premeditara o naufrgio, e a prova era a mala levada para a
  casa Plainmont. E supondo-o inocente, admitindo o naufrgio fortuito, no devia
  ele, no ltimo momento, decidido ao sacrifcio, entregar os 75.000 francos aos
  homens que se salvaram na chalupa? Era evidente. Mas que era feito de Clubin?
  Foi provavelmente vtima do seu erro. Pereceu sem dvida no escolho
  Douvres.

O andaime de conjeturas, todas
  conformes, na realidade, ocupou durante muitos dias o esprito de Mess
  Lethierry. A carta de Rantaine teve a utilidade de obrig-lo a pensar. Teve um
  primeiro abalo de surpresa, depois fez esforo de refletir. Fez outro esforo
  mais difcil ainda para informar-se. Aceitou e procurou mesmo as conversas. No
  fim de oito dias tornou-se prtico at certo ponto; o esprito fortaleceu-se e
  quase ficou curado. Saiu do estado turvo.

A carta de Rantaine, admitindo que
  Mess Lethierry tivesse algum dia a esperana do reembolso, fez desaparecer a
  ltima probabilidade.

 catstrofe da Durande
  ajuntava-se o naufrgio dos 75.000 francos. A carta empossava-o do dinheiro
  tanto quanto lhe bastava para sentir a perda. Mostrava-lhe o fundo da
  runa.

Da veio um sofrimento novo e
  agudssimo, que j indicamos. Comeou, coisa que h dois meses no fazia, a
  preocupar-se com a casa, do que havia, e que reformas devia fazer. Tdio eriado
  de mil pontas, quase pior que o desespero. Odiosa coisa  suportar a desgraa
  por mido, disputar passo a passo ao fato realizado o terreno que ele vem tomar.
  Aceita-se a massa do infortnio, a poeira no. O conjunto acabrunha, o pormenor
  tortura. H pouco a catstrofe fulminava, agora mortifica.

Essa  a humilhao agravante do
  infortnio.  uma segunda anulao que vem ajuntar-se  primeira, e feia.
  Desce-se um degrau do nada. Depois do sudrio, o andrajo.

Nada mais triste do que pensar em
  decair.

Parece simples estar arruinado.
  Golpe violento; brutalidade da sorte;  a catstrofe uma vez por todas. Seja.
  Aceita-se. Tudo est acabado. Fica-se arruinado. Est dito, morreu. Qual!
  Vive-se.  o que no dia seguinte comea-se a sentir. Por qu? Por alfinetadas.
  Passa um homem sem tirar o chapu, chovem as contas das lojas, ri-se um inimigo.
  Ri-se talvez do ltimo trocadilho de Arnal, mas  o mesmo, o trocadilho
  pareceu-lhe mais engraado, exatamente porque ests pobre. Ls a tua decadncia
  at nos olhares indiferentes; as pessoas que jantavam em tua casa acham
  demasiado os trs pratos da tua mesa; os teus defeitos saltam aos olhos de
  todos; as ingratides, no tendo que esperar mais nada, tiram a mscara; todos
  os imbecis predisseram o que te acontece; os maus dilaceram-te, os piores
  lamentam-te. E mais cem pormenores mesquinhos. A nusea sucede s lgrimas.
  Bebias vinho, bebers sidra. Duas criadas! Uma seria demais. Devia-se despedir
  esta, sobrecarregar aquela. H flores demais no jardim; planta antes batatas.
  Davas flores aos amigos, vende-as agora no mercado. Quanto aos pobres, j no
  deves pensar neles; tambm no s pobre? As toaletes, questo pungente. Diminuir
  uma fita a uma mulher, que suplcio! Recusar o enfeite, a quem te d a beleza!
  Ter ares de avarento! Talvez que ela te diga: Pois que! Tiraste as flores do
  meu jardim, e agora as tiras do meu chapu!

Ai triste! Conden-la aos vestidos
  velhos! A mesa de famlia  silenciosa. Parece-te que te querem mal. Os rostos
  amados parecem preocupados. Eis o que  a decadncia. Cumpre-te morrer todos os
  dias. Cair no  nada,  a fornalha. Decair  o fogo lento.

A queda  Waterloo; a decadncia 
  Santa Helena. A sorte, encarnada em Wellington, tem ainda alguma dignidade; mas,
  quando se faz Hudson Lowe, que vilania! O destino torna-se um bigorrilhas. V-se
  o homem de Campoformio querelando por um par de meias de seda. Agorentou-se a
  Inglaterra, agorentando Napoleo.

Essas duas fases, Waterloo e Santa
  Helena, reduzidas s propores burguesas, todos as atravessam.

Na noite de que falamos e que era
  uma das primeiras noites de maio, Lethierry, deixando Druchette passear ao
  luar, no jardim, deitou-se mais triste que nunca.

Rolavam-lhe no esprito todas
  essas mincias mesquinhas e desagradveis, complicaes de fortunas perdidas,
  todas essas preocupaes de terceira ordem, que comeam por ser inspidas e
  acabam lgubres. Triste acumulao de misrias. Mess Lethierry sentia a sua
  queda irremedivel. Que devia fazer agora? Que seria dele? Que sacrifcios devia
  impor a Druchette? Quem devia despedir, Doce ou Graa? Venderia a casa? Seria
  obrigado a abandonar a ilha? No ser coisa alguma onde se foi tudo  uma
  decadncia insuportvel.

E pensar que estava acabado!
  Recordar as viagens da Frana ao arquiplago, a partida s teras-feiras, a
  chegada s sextas, a chusma no cais, aqueles grandes carregamentos, aquela
  indstria, aquela prosperidade, aquela navegao direta e altiva, aquela mquina
  sujeita  vontade do homem, aquela caldeira onipotente, aquele fumo, aquela
  realidade! O vapor  a bssola completa; a bssola indica o caminho, o vapor
  segue por ele. Uma prope, a outra executa. Onde estava agora a sua Durande,
  aquela magnfica e soberana Durande, aquela senhora do mar, aquela rainha que o
  fazia rei? Ter sido o homem idia, o homem triunfo, o homem revoluo! E
  renunciar! Abdicar! No existir! Fazer rir aos outros! Ser um saco onde j houve
  alguma coisa! Ser o passado quem foi o futuro! Merecer a compaixo altiva dos
  idiotas! Ver triunfar a rotina, a obstinao, o ramerro, o egosmo, a
  ignorncia! Ver comear outra vez as viagens dos cteres gticos sacudidos pela
  vaga! Ver a antiqualha rejuvenescer! Perder a vida! Perder a luz e sofrer o
  eclipse! Ah! Como era belo ver sobre as vagas aquele cano orgulhoso, aquele
  prodigioso cilindro, aquele pilar de um capitel de fumo, aquela coluna maior que
  a de Vendme, porque havendo nesta apenas um homem, ostentava-se naquela o
  progresso! O oceano est por baixo; era a certeza em pleno mar. Viu-se aquilo,
  naquela pequena ilha, naquele pequeno porto, naquele pequeno Saint-Sanlpson?
  Sim, viu-se! Pois qu! Viu-se e no se ver mais!

Toda esta obsesso da saudade
  mortificava Lethierry. H soluos no pensamento. Talvez nunca sentisse mais
  amargamente a sua perda. Depois de tais excessos agudos costuma vir um
  entorpecimento. Debaixo desse peso de tristeza Lethierry adormeceu.

Ficou cerca de duas horas com as
  plpebras fechadas, dormindo pouco, sonhando muito, febril. Esses torpores
  cobrem um obscuro e fatigante trabalho do crebro. Pela meia-noite, um pouco
  antes, ou um pouco depois, Lethierry sacudiu o adormecimento. Acordou, abriu os
  olhos, a janela estava em frente  maca, viu uma coisa
  extraordinria.

Havia uma forma diante da janela.
  Forma inaudita. O cano de um vapor.

Mess Lethierry levantou-se de um
  salto. A maca oscilou, como se fosse abalada pela tempestade. Lethierry olhou.
  Havia na janela uma viso. O porto, iluminado pela lua, refletia-se nos vidros,
  e, no meio do luar e prxima  casa, surgia uma soberba forma reta, redonda e
  negra.

Era um tubo de mquina.

Lethierry precipitou-se para fora
  da maca, correu  janela, levantou a vidraa, inclinou-se e
  reconheceu.

O cano da Durande estava diante
  dele.

Estava no lugar do
  costume.

As quatro correntes prendiam o
  cano  borda de um barco dentro do qual distinguia-se uma massa de forma
  complicada.

Lethierry recuou, voltou as costas
   janela e caiu assentado na maca. Voltou-se outra vez e viu a mesma
  viso.

Um momento depois, apenas o espao
  de um relmpago, estava ele no cais com uma lanterna na mo.

 velha argola onde se prendia a
  Durande estava amarrada uma barca trazendo um pouco  r um vulto macio donde
  saa o cano que ficava em frente  janela. A proa da barca prolongava-se alm do
  canto da parede da casa e encostada ao cais.

No havia ningum na
  barca.

A barca tinha uma forma especial,
  conhecida por todos em Guernesey; era a pana.

Lethierry pulou dentro. Correu 
  massa que ficava alm do mastro. Era a mquina.

Era ela, inteira, completa,
  intata, sentada sobre o fundo de metal; a caldeira estava com todas as peas; a
  rvore das rodas estava arranjada e amarrada perto da caldeira; a bomba estava
  no seu lugar; nada faltava.

Lethierry examinou a
  mquina.

A lanterna e a lua ajudaram-lhe o
  exame.

Passou em revista todo o
  mecanismo.

Viu as duas caixas que estavam ao
  p. Olhou para a rvore das rodas.

Foi ao camarote; estava
  vazio.

Voltou  mquina e apalpou-a.
  Meteu a cabea na caldeira. Ajoelhou-se para ver dentro.

Colocou na caldeira a lanterna que
  iluminava todo o mecanismo e produzia o efeito de uma mquina acesa.

Depois deu uma gargalhada, e,
  levantando-se, com o olhar fixo na mquina e os braos estendidos para o cano,
  gritou: Socorro!

O sino do porto ficava perto.
  Lethierry correu a ele, segurou a corda, e comeou a sacudir o sino
  impetuosamente.

CAPTULO II
AINDA O SINO DO
  PORTO

Gilliatt, com efeito, depois de
  uma travessia sem incidente, mas um pouco demorada por causa do peso do
  carregamento, chegou a SaintSampson de noite, mais perto das 10 horas que das
  9.

Gilliatt calculara a hora. A mar
  comeava a encher. Havia luz e gua; podia-se entrar no porto.

O porto estava adormecido. Havia
  alguns navios ancorados, cascos sem vergas, cestos de gvea recolhidos e sem
  faris. Descobria-se no fundo alguns navios em conserto postos no estaleiro.
  Grandes cascos desmastreados, levantando acima das amuradas furadas as pontas
  curvas de seus membros desnudos, semelhantes a escaravelhos mortos deitados de
  costas e com as pernas para o ar.

Gilliatt, apenas entrou no porto,
  examinou o cais. No havia luz em parte alguma, nem na casa de Lethierry nem nas
  outras. No havia ningum na rua, exceto talvez um homem que acabava de entrar
  ou sair do presbitrio. E ainda assim poderia ser que no fosse uma pessoa,
  porque a noite esfuma tudo quanto desenha e o luar faz tudo indeciso. A
  distncia ajudava a obscuridade. O presbitrio de ento era situado do outro
  lado do porto, no lugar onde outrora havia uma estiva coberta.

Gilliatt encostou-se
  silenciosamente ao muro e amarrou a pana na argola da Durande, debaixo da
  janela de Mess Lethierry.

Depois saltou para
  terra.

Gilliatt, deixando atrs de si a
  pana, rodeou a casa, atravessou uma viela, depois outra, nem mesmo olhou para o
  entroncamento do caminho que ia ter  casa dele, e no fim de alguns minutos
  parou no recanto da parede onde havia um p de malva silvestre com flores
  cor-de-rosa em junho, azevinho, hera e urtigas. Era da que, escondido no
  espinheiro, assentado na pedra, tantas vezes, nos dias de vero e durante longas
  horas e meses inteiros, tinha ele contemplado, por cima do muro, to baixinho
  que tentava um pulo, o jardim de Braves e, atravs das rvores, duas janelas de
  um quarto da casa. Achou a pedra, o espinheiro, o muro baixo, o ngulo obscuro,
  e, como um animal que volta ao buraco, antes escorregando que andando, Gilliatt
  agachou-se. Depois de assentado no fez movimento algum. Olhou. Tornou a ver o
  jardim, as alamedas, as grutas, os canteiros, a casa, as duas janelas do quarto.
  A lua mostrava-lhe aquele sonho. Era-lhe horrvel ter de respirar. Gilliatt
  forcejava por conter a respirao.

Parecia-lhe ver um paraso
  fantasma. Tinha medo que lhe voasse tudo aquilo. Era quase impossvel que
  aquelas coisas estivessem diante dele; e se estavam, eram sem dvida prestes a
  esvair-se como acontece com as coisas divinas. Bastava um sopro para desaparecer
  tudo. Gilliatt tremia por isso.

Perto dele, e em frente, no
  jardim,  beira de uma alameda, havia um banco de pau pintado de verde. Os
  leitores lembram-se desse banco.

Gilliatt contemplava as duas
  janelas. Pensava em algum que estivesse dormindo naquele quarto. Quisera no
  estar onde estava. Preferia morrer a retirar-se. Pensava numa respirao
  levantando um seio. Ela, aquela miragem, aquela alvura dentro de uma nuvem,
  aquela obsesso de seu esprito, estava ali! Gilliatt pensava no inacessvel que
  dormia, e to perto, e ao alcance do seu xtase; pensava na mulher impossvel
  adormecida e visitada tambm pelas quimeras; na criatura desejada, remota,
  esvaecente, fechando os olhos com a fronte na mo; no mistrio do sono da
  criatura ideal; nos sonhos que pode ter um sonho. No ousava pensar alm e
  pensava; arriscava-se nas faltas de respeito do devaneio; perturbava-o a
  quantidade de forma feminina que pode haver no anjo. A hora noturna faz com que
  os olhos tmidos lancem furtivos olhares; censurava-se por ir to longe, receava
  profanar com a reflexo; a seu pesar, constrangido, trmulo, Gilliatt olhava
  para o invisvel. Sentia a comoo e quase o sofrimento de imaginar uma saia
  numa cadeira, um manto atirado ao tapete, um cinto desenlaado, um leno de
  pescoo. Imaginava um colete, um atacador arrastando no cho, meias, ligas.
  Tinha a alma nas estrelas.

As estrelas so feitas tanto para
  o corao humano de um pobre, como para o corao de um milionrio. Em certo
  grau de paixo todos os homens so sujeitos s fascinaes profundas. Se a
  natureza  spera e primitiva, razo de mais. A condio selvagem aumenta o
  sonho.

A fascinao  uma plenitude que
  transborda como todas. Ver as janelas era quase demais para Gilliatt.

De repente, viu ele a prpria
  moa.

Dentre os ramos de uma moita, j
  espessa pela primavera, saiu com inefvel lentido, fantstica e celeste, uma
  figura, um vestido, um rosto divino, quase um claro no meio do luar.

Gilliatt sentiu-se desfalecer. Era
  Druchette.

Druchette aproximou-se. Parou.
  Deu alguns passos para afastar-se, parou ainda, depois voltou e assentou-se no
  banco de pau. A lua batia nas rvores, algumas nuvens erravam por entre as
  estrelas plidas, o mar falava s coisas da sombra, a meia-voz, a cidade dormia,
  do horizonte subia uma neblina, a melancolia era profunda.

Druchette inclinava a fronte com
  aquele olhar pensativo que contempla atentamente o vcuo; estava sentada de
  perfil, com a cabea quase descoberta, tendo um barretinho desatado que lhe
  deixava ver na nuca delicada a origem dos cabelos, enrolava maquinalmente nos
  dedos uma fita do barrete, a penumbra modulava as suas mos de esttua, o
  vestido era de uma dessas cores que de noite se fazem brancas, as rvores
  moviam-se como se fossem suscetveis ao encanto que ressumbrava dela, via-se a
  pontinha de um de seus ps, havia nos seus clios fechados aquela vaga contrao
  que anuncia uma lgrima represa ou um pensamento repelido, os seus braos tinham
  a indeciso fascinante de no achar onde encostar-se, misturava-se-lhe  postura
  alguma coisa flutuante, era antes um claro que uma luz, antes uma graa que uma
  deusa, as dobras da barra da saia eram delicadas, o seu admirvel rosto meditava
  virginalmente. Estava to perto, que era terrvel. Gilliatt ouvia-a
  respirar.

Havia ao longe um rouxinol que
  cantava. A passagem do vento nos ramos punha em movimento o inefvel silncio
  noturno. Druchette, gentil e sagrada, aparecia naquele crepsculo como o
  resultado daqueles raios e daqueles perfumes; o encanto imenso e esparso ia ter
  misteriosamente a ela, nela condensava-se, era a sua irradiao. Parecia a alma
  flor de toda aquela sombra.

Toda aquela sombra, flutuante em
  Druchette, pesava sobre Gilliatt. Estava desvairado. O que ele sentia no cabe
  diz-lo em palavras; a comoo  sempre nova e as palavras j serviram muito;
  da vem a impossibilidade de exprimir a comoo. Existe o abatimento do encanto.
  Ver Druchette, v-la ela prpria, ver-lhe o vestido, ver-lhe o barrete, ver-lhe
  a fita que ela enrolava nos dedos, pode-se acaso imaginar semelhante
  coisa?

Estar perto dela, era acaso
  possvel? Ouvi-la respirar; respirava pois! Ento os astros respiram. Gilliatt
  estremecia. Era o mais miservel e o mais inebriado dos homens. No sabia que
  fazer. O delrio de v-la esmagava-o. Pois qu! Era ela quem ali estava, era ele
  quem estava ali! As suas idias, deslumbradas e fixas, paravam naquela criatura
  como se fora um rubi. Contemplava aquela nuca e aqueles cabelos. Gilliatt nem
  mesmo pensava que tudo aquilo lhe pertencia, que em pouco tempo, talvez amanh,
  ele teria o direito de tirar-lhe aquela coifa e deslaar aquela fita.

Sonhar at esse ponto era um
  excesso de audcia que ele no poderia conceber um momento. Tocar com o
  pensamento e quase tocar com a mo. O amor era para Gilliatt como mel para urso,
  o sonho exmio e delicado. Pensava confusamente. No sabia o que tinha. O
  rouxinol cantava. Ele sentia-se expirar.

Levantar-se, galgar o muro,
  aproximar-se, dizer sou eu, falar a Druchette, foi idia que no teve. Se a
  tivesse, fugiria. Se alguma coisa semelhante a um pensamento chegou a despontar
  no seu esprito, era que Druchette estava ali, que ele no tinha necessidade de
  mais coisa alguma, e que a eternidade comeava.

Um rumor arrancou a ambos, ela do
  devaneio, ele do xtase.

Andava algum no jardim. No se
  via por causa das rvores. Era um passo de homem.

Druchette levantou os
  olhos.

Os passos aproximaram-se e
  cessaram. Quem quer que era, parou. Devia estar perto. O caminho onde estava o
  banco perdia-se entre duas moitas. Era a que estava essa pessoa, nesse
  intervalo, a poucos passos do banco.

O acaso tinha disposto a espessura
  dos ramos de tal modo, que Druchette via a pessoa, sem que Gilliatt a
  visse.

O luar projetava no cho, fora das
  moitas, e at ao banco, uma sombra. Gilliatt viu essa sombra.

Olhou para Druchette.

Ela estava plida. A boca,
  entreaberta, esboava um grito de surpresa. Levantou-se um pouco do banco,
  tornou a sentar-se; havia na sua atitude uma mistura de fuga e de fascinao. O
  seu pasmo era um encanto cheio de receio. Tinha nos lbios quase a irradiao do
  sorriso, e um reflexo de lgrimas nos olhos. Estava como que transfigurada por
  aquela presena. No parecia que a criatura ali chegada fosse da terra. Havia no
  olhar de Druchette a reverberao de um anjo.

A pessoa, que era apenas uma
  sombra para Gilliatt, falou enfim. Saiu das moitas uma voz, mais doce que uma
  voz de mulher, e voz de homem, contudo. Gilliatt ouviu estas
  palavras:

 Vejo-a todos os domingos e
  quintas-feiras; disseram-me que outrora a senhora no ia l tantas vezes.
  Fizeram este reparo, peo-lhe perdo. Nunca lhe falei, era o meu dever; falo-lhe
  hoje,  meu dever. Antes de tudo devo dirigir-me  senhora. O Cashmere parte amanh; foi por isso que eu vim. A senhora passeia todas as noites neste
  jardim. Eu fazia mal em conhecer tantos os seus hbitos se no tivesse o
  pensamento que tenho. A senhora  pobre. Eu sou rico desde esta manh. Quer-me
  por seu marido?

Druchette ajuntou as duas mos
  como uma suplicante, e olhou para aquele que falava, muda, olhar fixo, trmula
  da cabea aos ps.

A voz continuou:

 Amo-a, Deus no fez o corao do
  homem para que se cale. Se ele promete a eternidade,  porque quer o consrcio.
  H para mim na terra uma mulher,  a senhora. Penso na senhora como numa orao.
  A minha f est em Deus, na senhora a minha esperana. As asas que tenho  a
  senhora quem as traz. A senhora  a minha vida, e j o meu cu.

 Senhor  disse Druchette , no
  h na casa ningum para responder-lhe.

A voz soou de novo:

 Tive este lindo sonho. Deus no
  probe os sonhos. A senhora faz-me o efeito de uma glria. Amo-a
  apaixonadamente. A santa inocncia  a senhora. Sei que esta  a hora em que
  todos esto dormindo, mas eu no tinha outra ocasio  minha escolha. Lembra-se
  daquele passo da Bblia que nos leram? Gnesis, captulo 25. Muitas vezes pensei
  nele. Reli-o muitas vezes. O Reverendo Herodes dizia-me: -lhe preciso uma
  mulher rica. Eu respondi: No, preciso de uma mulher pobre. Falo-lhe de
  longe, e recuarei mesmo se a senhora no quiser que a minha sombra toque em seus
  ps.  a senhora a soberana; vir a mim se quiser. Assim o espero. A senhora  a
  forma viva da bno.

 Senhor  balbuciou Druchette ,
  eu no sabia que reparavam em mim aos domingos e quintas-feiras.

A voz continuou:

 Nada se pode contra as coisas
  anglicas. Toda a lei  amor. O casamento  Cana. A senhora  a beleza
  prometida. Ave, cheia de graa!

Druchette respondeu:

 Eu pensava que no fazia mal
  indo como as outras pessoas  igreja.

A voz continuou:

 Deus ps as suas intenes nas
  flores, na aurora, na primavera, e Ele quer que se ame. A senhora  bela nesta
  sacra obscuridade da noite. Este jardim foi cultivado pela senhora, e no perfume
  h alguma coisa de seu hlito. Os encontros das almas no dependem delas. No 
  culpa nossa. A senhora ia  igreja, nada de mais; eu estava l, nada de mais.
  Nada fiz seno sentir que a amava. Algumas vezes os meus olhos levantaram-se
  para a senhora. Fiz mal, mas como no? Foi contemplando-a que eu fiquei assim.
  No podia impedi-lo. H vontades misteriosas acima de ns. O primeiro templo  o
  corao. Ter a sua alma em minha casa, tal  o paraso terrestre a que eu
  aspiro. Aceita? Enquanto fui pobre nada disse. Eu sei a sua idade. Tem vinte
  anos, eu tenho 26. Parto amanh, se me recusa no voltarei. Quer ser minha
  noiva? Os meus olhos j lhe fizeram esta pergunta mais de uma vez e a meu pesar.
  Amo-a, responda-me. Falarei a seu tio quando ele puder receber-me, mas em
  primeiro lugar  senhora.  a Rebeca que se pede Rebeca. S se me no
  ama.

Druchette inclinou a fronte e
  murmurou:

 Oh! Eu o adoro!

Isto foi dito em voz to baixa que
  s Gilliatt ouviu. Ela abaixou a fronte, como se o rosto na sombra pusesse na
  sombra o pensamento.

Houve uma pausa. As folhas das
  rvores no se mexiam. Era esse momento severo e aprazvel em que o sono das
  coisas ajunta-se ao sono das criaturas e em que a noite parece escutar as
  palpitaes da natureza. Neste recolhimento elevava-se, como uma harmonia que
  completa um silncio, o rudo imenso do mar.

A voz continuou:

 Senhora.

Druchette estremeceu.

A voz continuou:

 Estou esperando.

 O que espera?

 A sua resposta.

Deus a ouviu  disse
  Druchette.

Ento a voz tornou-se quase sonora
  e ao mesmo tempo mais doce que nunca. Estas palavras saram da moita como de uma
  sara ardente.

 Tu s minha noiva. Levanta-te e
  vem. Que o teto azul, onde esto os astros, assista a esta aceitao da minha
  alma pela tua alma, e que o nosso primeiro beijo se misture ao
  firmamento!

Druchette levantou-se e ficou um
  instante imvel e com o olhar fixo diante de si, fitando, sem dvida, outro
  olhar. Depois, a passos lentos, com a cabea erguida, os braos pendentes e os
  dedos das mos abertos, como quando se caminha para um amparo desconhecido, ela
  dirigiu-se para a moita e desapareceu.

Um instante depois, em vez de uma
  sombra na areia, havia duas, confundiam-se ambas, e Gilliatt via a seus ps o
  abrao daquelas duas sombras.

O tempo corre de ns como de uma
  ampulheta, e ns no temos o sentimento dessa fuga, sobretudo em certos
  instantes supremos. De um lado aquele par, que ignorava a testemunha e no a
  via, do outro aquela testemunha que no via os dois, mas que sabia que eles ali
  estavam, quantos minutos ficaram assim nessa misteriosa suspenso? Seria
  impossvel dizlo. De sbito ecoou um rudo longnquo e uma voz gritou:
  Socorro! E o sino do porto comeou a soar.  provvel que a felicidade bria e
  celeste no ouvisse o tumulto.

O sino continuou a soar. Quem
  procurasse Gilliatt no ngulo do muro j o no encontraria.

LIVRO
  SEGUNDO
RECONHECIMENTO EM PLENO
  DESPOTISMO

CAPTULO
  PRIMEIRO
ALEGRIA CERCADA DE
  ANGSTIA

Mess Lethierry agitava o sino com
  sofreguido. De sbito parou. Viu um homem voltar a esquina do cais. Era
  Gilliatt.

Mess Lethierry correu a ele, ou,
  para melhor dizer, atirou-se a ele, tomou-lhe a mo entre as suas, e olhou-o
  fitamente em silncio; um desses silncios de exploso, no sabendo por onde
  irromper.

Depois, com violncia, sacudindo,
  e puxando, e apertando-o nos braos, fez entrar Gilliatt na sala baixa de
  Braves, empurrou a porta com o taco, que ficou entreaberta, assentou-se ou
  caiu, em uma cadeira ao lado de uma grande mesa iluminada pela lua, cujo reflexo
  embranquecia vagamente o rosto de Gilliatt, e, com uma voz onde havia
  gargalhadas e soluos misturados, gritou:

 Ah! Meu Filho! Homem do bagpipe! Gilliatt! Eu bem sabia que eras tu! A pana! Que diabo! Conta-me
  isso! Pois foste! H cem anos queimavam-te.  feitiaria. No falta nada. J
  examinei, reconheci, apalpei. Adivinho que as rodas esto nas duas caixas. Ento
  chegaste. Fui procurar-te na pana. Toquei o sino. Procurava-te. Eu dizia
  comigo: onde est ele? Quero devor-lo.  preciso convir que se passam coisas
  extraordinrias. Aquele animal volta do escolho Douvres. Traz-me a vida. Com os
  diabos! Tu s um anjo. Sim, sim, sim,  a minha mquina. Ningum acredita. Ho
  de v-la e dizer: no falta nem uma serpentina. O tubo de gua no se deslocou.
   incrvel que no houvesse avaria. Falta s pr um pouco de azeite. Mas como
  foi? E a Durande vai agora navegar! A rvore das rodas est desmontada como se
  fosse feita por um ourives. D-me a tua palavra de honra que eu no estou
  doido.

Levantou-se, respirou e
  prosseguiu:

 Jura-me. Que revoluo! Dou
  belisces em mim mesmo, vejo que no sonho. Tu s meu filho, s meu rapaz, s:
  Deus. Ah! Meu filho. Ir buscar a minha pobre mquina! No mar alto! Naquela
  emboscada do escolho! Tenho visto muita coisa espantosa em minha vida. Nunca vi
  coisa assim. Vi os parisienses que so uns satanases. Boas! No faziam isto. 
  pior que a Bastilha. Vi os gachos lavrarem nos pampas, tendo por charrua um
  galho de rvore, do comprimento de 1 cvado e por grade um feixe de espinhos
  puxado por corda de couro; colhem, com isto, gros de trigo do tamanho de
  avels. No valem dois caracis ao p de ti. Fizeste um milagre, um verdadeiro
  milagre. Ah! Tratante! Salta-me ao pescoo. Como vai rosnar a gente de
  Saint-Sarpson! Vou tratar j e j de fazer o navio.  admirvel no ter quebrado
  a vara da redoua. Meus senhores, ele foi s Douvres. s Douvres! Um penedo que
  no tem rival. J sabes, est provado que a coisa foi feita de propsito. Clubin
  perdeu a Durande para furtar-me o dinheiro que devia trazer-me. Embriagou
  Tangrouille.  longo, depois te contarei a pirataria dele. Eu era um bruto,
  tinha confiana em Clubin. Mas o malvado no pde naturalmente sair de l. H um
  Deus, canalha! Olha, Gilliatt, quanto antes, ferro na forja, vamos reconstruir a
  Durande. Dar-lhe-emos 20 ps mais. Agora fazem-se os navios mais compridos. Hei
  de comprar madeira em Dantzig e Bremen. Agora que tenho a mquina ho de
  emprestar-me dinheiro. A confiana voltar.

Mess Lethierry deteve-se, levantou
  os olhos com aquele olhar que v o cu atravs do teto, disse entre dentes: H
  um meio.

Depois ps o dedo mdio da mo
  direita entre as sobrancelhas, com a unha apoiada no alto do nariz, o que indica
  passagem de um projeto no crebro, e continuou:

  o mesmo, para comear em
  grande escala, algum dinheiro basta. Ah! Se eu tivesse as minhas trs notas de
  banco que o tratante de Rantaine me restituiu e que o tratante de Clubin me
  roubou!

Gilliatt, em silncio, procurou na
  algibeira alguma coisa, que colocou diante de si. Era o cinto de Clubin. Abriu e
  ps na mesa o cinto, no interior do qual a lua deixava ler a palavra: Clubin;
  tirou da abertura uma caixinha, e da caixinha trs pedaos de papel que
  desenrolou e estendeu a Mess Lethierry.

Mess Lethierry examinou os trs
  pedaos de papel. Havia bastante claridade para que o nmero 1.000 e a palavra
  thousand fossem perfeitamente visveis. Mess Lethierry pegou nos trs bilhetes,
  p-los na mesa um ao lado do outro, olhou para eles, olhou para Gilliatt e ficou
  um momento calado, depois foi como que uma erupo depois de uma
  exploso.

 Tambm isto! Tu s prodigioso.
  As minhas notas do banco! Todas trs! Mil cada uma! Os meus 75.000 francos!
  Ento foste ao inferno?  o cinto de Clubin. Por Deus: leio-lhe o nojento nome.
  Gilliatt traz a mquina e mais o dinheiro! Isto deve ser contado nos dirios
  pblicos. Vou comprar madeira de primeira qualidade. Adivinho, achaste o
  esqueleto. Clubin apodreceu l em algum canto. Compraremos pinho em Dantzig e
  carvalho em Bremen, faremos um bom casco, carvalho por dentro, pinho por fora.
  Em outro tempo fabricavam-se navios menos perfeitos e eles duravam mais;  que a
  madeira era mais seca porque no se construa tanto. Faremos talvez a quilha de
  olmo. O olmo  bom para estar sempre na gua: andando ora molhado, ora seco,
  apodrece: o olmo alimenta-se de gua. Que bela Durande vamos fazer! No me ho
  de impor. J no preciso crdito. Tenho dinheiro. J se viu coisa assim como
  Gilliatt? Eu estava prostrado, abatido, morto. Chega ele e pe-me de p. E eu
  que no pensava nele! J nem me lembrava. Agora lembra-me tudo. Pobre rapaz! Ah!
  Bem, sabes, tu casas com Druchette.

Gilliatt encostou-se  parede como
  se vacilasse e baixinho, mas distintamente, disse:

 No.

Mess Lethierry teve um
  sobressalto.

 Como, no?

Gilliatt respondeu:

 No a amo.

Mess Lethierry foi  janela,
  abriu-a e fechou-a, pegou nas trs notas do banco, dobrou-as, ps a caixa em
  cima, coou a cabea, pegou no cinto de Clubin, atirou-o violentamente contra a
  parede e disse:

 H alguma coisa!

Meteu as mos nos bolsos, e
  continuou:

 No amas Druchette! Era ento
  por minha causa que tocavas bagpipe?

Gilliatt, sempre encostado 
  parede, empalidecia como um homem que est prestes a no respirar.  proporo
  que se tornava plido, Lethierry tornava-se vermelho.

 Vejam este parvo! No ama
  Druchette! Pois trata de am-la, porque ela no h de casar seno contigo. Que
  histrias so essas? Cuidas que te acredito? Ests doente? Pois bem, manda
  chamar um mdico, mas no digas extravagncias,  impossvel que tivesses tempo
  de brigar com ela e ficares arrufado.  verdade que os namorados so uns tolos!
  Vamos, tens alguma razo? Se tens, fala; ningum  tolo sem ter razo. Demais,
  eu tenho algodo nos ouvidos, talvez ouvisse mal, repete o que
  disseste.

Gilliatt replicou:

 Disse que no.

 Disseste que no. E teima o
  bruto! Tens alguma coisa,  claro. Disseste que no!  uma estupidez que passa
  os limites do mundo conhecido. Por muito menos do-se banhos medicinais a uma
  criatura. Ah! Tu no amas Druchette! Ento foi por amor do velhote que fizeste
  tudo isto! Foi pelos bonitos olhos do pap que foste s Douvres, que tiveste
  frio, que tiveste calor, que tiveste fome e sede, que comeste bichos do rochedo,
  que tiveste por quarto de dormir o nevoeiro, a chuva e o vento, e que me
  trouxeste a mquina como se traz a uma mulher bonita o canrio que fugiu? E a
  tempestade de h trs dias! Se tu imaginas que eu no fao idia do que
  passaste! Estiveste em boas! Foi ento com o pensamento em mim que cortaste,
  rachaste, viraste, arrastaste, limaste, serraste, inventaste, e fizeste tantos
  milagres, tu s, mais que todos os santos do paraso? Ah! Idiota! Pois olha que
  me aborreceste com a tua sanfona! Na Bretanha chama-se biniou. Sempre a
  mesma toada, animal! Ah! Tu no amas Druchette! No sei o que tens. Lembra-me
  agora, eu estava neste canto. Druchette disse: Casava-me. E h de casar
  contigo. Ah! No a amas! Feitas as reflexes, eu no compreendo nada. Ou tu
  ests doido ou eu! E no diz palavra! No  lcito fazer o que fizeste e dizer
  no fim: No amo Druchette. No se faz um obsquio  gente para obrig-la a
  ficar com raiva. Pois bem, se no te casas com ela, Druchette no se casa com
  pessoa alguma, fica para tia. Em primeiro lugar, preciso de ti. Sers piloto da
  Durande. Se cuidas que vou deixar-te ir assim! Ta, ta, ta, nada, meu amigo, j
  te no largo. s meu. Nem te quero ouvir. Onde h um marinheiro como tu? s o
  meu homem. Mas fala, com os diabos!

O sino tinha acordado a gente da
  casa e da vizinhana. Doce e Graa tinham-se levantado e acabavam de entrar na
  sala baixa, espantadas, sem dizer palavra. Graa trazia uma vela. Um grupo de
  vizinhos, burgueses, marinheiros e aldees, sados  pressa, estava fora no
  cais, contemplando com pasmo e susto o cano da Durande na pana.

Alguns, ouvindo a voz de Lethierry
  na sala baixa, comeavam a entrar silenciosamente pela porta entreaberta. Entre
  duas caras de comadres, passava a cabea do Sr. Landoys, que por acaso costumava
  sempre estar presente nos lugares onde sentiria se no estivesse.

As grandes alegrias querem sempre
  um pblico. Agrada-lhes o ponto de apoio um pouco esparso que oferece uma
  multido; partem da. Mess Lethierry descobriu repentinamente que tinha gente 
  roda de si. Aceitou logo o auditrio.

 Ah! Vocs esto a? Que
  felicidade. J sabem a notcia. Este homem l foi e de l trouxe aquilo. Bom
  dia, Sr. Landoys. Ainda h pouco quando acordei vi o cano. Estava debaixo da
  minha janela. No falta nem um prego. Fizeram-se gravuras de Napoleo; eu
  prefiro isto  batalha de Austerlitz. Sabem vocs da coisa. A Durande chegou
  enquanto dormiam. Enquanto se metiam nos lenis e apagavam as velas, h pessoas
  que so heris. Uns so covardes, vadios, aquecem os seus reumatismos;
  felizmente isso no impede que haja espritos fogosos. Esses vo aonde  preciso
  ir, fazem o que  preciso fazer. O homem da casa mal-assombrada chegou do
  rochedo Douvres. Pescou a Durande do fundo do mar, pescou o dinheiro da
  algibeira de Clubin, abismo mais profundo que o outro. Mas como fizeste isso?
  Tinhas todos os diabos contra ti, o vento e a mar, a mar e o vento.  verdade
  que tu s feiticeiro. Os que dizem isto j no so to pasccios. Voltou a
  Durande! Em vo se enfurecem as tempestades, este estrangula-as. Meus amigos,
  anuncio-lhes que j no h naufrgios. J examinei a mquina. Est como nova,
  est completa! Movem-se os cilindros to facilmente como dantes. Parecia novinha
  em folha. Sabem que a gua que sai  levada para fora do navio por um tubo
  colocado em outro tubo por onde passa a gua que entra para utilizar o calor;
  pois bem, os dois tubos esto salvos. A mquina toda! As rodas tambm! Ah! Hs
  de casar com ela!

 Com quem? Com a mquina? 
  perguntou o Sr. Landoys.

 No, a pequena. Sim, a mquina.
  Ambas. H de ser duas vezes meu genro. Goodbye, Capito Gilliatt. Vamos
  ter Durande! Vamos fazer negcio, vai haver circulao e comrcio, e transporte
  de bois e carneiros! No troco Saint-Sampson por Londres. E aqui est o autor.
  Digo-lhes que  uma aventura. H de ler-se isto sbado na gazeta de Mauger. O
  engenhoso Gilliatt  um finrio. Que dinheiro  este em ouro?

Mess Lethierry acabava de ver,
  pela fresta da tampa, que havia ouro na caixinha posta sobre as notas de banco.
  Pegou nela, abriu-a, esvaziou-a na palma da mo, ps o punhado de guinus sobre
  a mesa.

 Para os pobres. Sr. Landoys, d
  estes pounds da minha parte ao condestvel de Saint-Sampson. Sabe da
  carta de Rantaine? Mostrei-lha outro dia; pois bem; aqui esto as notas do
  banco. Com isto posso comprar carvalho e pinho, e fazer a carpintaria. Veja.
  Lembra-se do tempo que houve h trs dias? Que ataque de vento e de chuva! O cu
  disparava tiros de canho. Gilliatt recebeu tudo isso nas Douvres, sem que lhe
  obstasse o desaferrar o navio como eu tiro o meu relgio da parede. Graas a
  Gilliatt, j sou algum. A galeota do pai Lethierry vai continuar o servio,
  senhores e senhoras. Uma casca de noz com duas rodas, e um tubo de cachimbo, foi
  sempre a minha mania. Disse sempre comigo: Hei de fazer uma mquina destas!
  Data de longe; foi uma idia que tive em Paris, no caf que faz a esquina da Rua
  Cristina e da Rua Delfina, lendo um jornal que falava do invento. Sabem que
  Gilliatt era capaz de meter a mquina de Marly na algibeira e passear com ela?
  Este homem  de ferro batido,  ao de tmpera,  diamante, um marujo de polpa,
  um ferreiro, um rapazola extraordinrio, mais espantoso que o Prncipe
  Hohenlohe. A isto chamo eu um homem de engenho. Ns no valemos nada. Os
  lobos-do-mar somos ns; o leo-do-mar  ele. Hurrah, Gilliatt! No sei o que ele
  fez, mas certamente fez o diabo, e como  que no lhe hei de dar
  Druchette!

Desde alguns instantes Druchette
  entrara na sala. No dissera palavra, no fizera rumor. Entrou como uma sombra.
  Assentara-se, quase despercebida, em uma cadeira por trs de Mess Lethierry de
  p, loquaz, tempestuoso, alegre, abundante de gestos, e falando em voz alta. Um
  pouco atrs dela veio outra apario muda. Um homem vestido de preto, de gravata
  branca, com o chapu na mo, parara na abertura da porta. Havia agora muitas
  velas no grupo lentamente engrossado. As luzes batiam de lado no homem vestido
  de preto; o seu perfil, de alvura jovem e deliciosa, desenhava-se no fundo
  obscuro com uma pureza de medalha; apoiava o cotovelo numa almofada da porta, e
  tinha a fronte na mo esquerda, atitude que lhe era graciosa, sem ser meditada,
  e que fazia valer a grandeza da fronte na pequenez da mo. Havia uma ruga de
  angstia no canto de seus lbios contrados. Examinava e ouvia com ateno
  profunda. Os assistentes, tendo reconhecido o Reverendo Ebenezer Caudray, cura
  da parquia, tinham-se afastado para deix-lo passar, mas ele ficou na soleira.
  Havia hesitao na sua postura e deciso no seu olhar. O olhar de quando em
  quando encontrava o de Druchette. Quanto a Gilliatt, ou por acaso ou de
  propsito, estava na sombra, e mal se podia v-lo.

Mess Lethierry no viu ao
  princpio o Sr. Ebenezer, mas viu Druchette. Foi a ela e beijou-a com toda a
  sofreguido que pode ter um beijo na fronte. Ao mesmo tempo estendia o brao
  para o canto escuro onde estava Gilliatt.

 Druchette  disse ele , ests
  outra vez rica e o teu marido  aquele.

Druchette levantou a cabea
  desvairada e olhou para a sombra.

Mess Lethierry
  continuou:

 H de se fazer o casamento
  quanto antes, amanh, se for possvel, h de haver dispensas, mas as
  formalidades so simples, o decano faz o que quer, casa-se a gente antes de
  gritar: guarda de baixo! No  como na Frana, onde se precisam banhos,
  publicaes, dilaes, um chuveiro de formalidades e tu sers mulher de um homem
  valente e no h de que dizer,  um marinheiro, sempre o pensei desde o dia em
  que o vi voltar de Herm com a pea de artilharia. Agora volta das Douvres com a
  tua fortuna, e a minha, e a fortuna da terra;  um homem que h de dar o que
  falar; tu disseste: Caso-me com ele; pois hs de casar; e ho de ter filhos, e
  eu serei av, e ters fortuna de ser a lady de um rapago srio, que
  trabalha, que  til, que  surpreendente, que vale por cem, que salva as
  invenes dos outros, que  uma providncia, e ao menos no casars, como todas
  as raparigas ricas deste lugar, com um soldado ou um padre, isto , o homem que
  mata e o homem que mente. Mas que fazes a metido no canto, Gilliatt? Ningum te
  v. Doce! Graa! Todos! Luzes! Iluminem o meu genro a giorno. Caso-os, meus
  filhos, e eis teu marido, e eis o meu genro, o Gilliatt da casa mal-assombrada,
  o grande marinheiro, e eu no terei outro genro, e no ters outro marido, torno
  a dar a minha palavra de honra a Deus. Ah! Ah! E Vossa Reverendssima, senhor
  cura, h de casar-me estes pequenos.:

O olhar de Mess Lethierry acabava
  de cair no Reverendo Ebenezer.

Doce e Graa tinham obedecido.
  Duas velas postas na mesa iluminavam Gilliatt da cabea aos ps.

 Como est bonito!  gritou
  Lethierry.

Gilliatt estava
  hediondo.

Estava tal qual sara, naquela
  manh, do escolho Douvres, em frangalhos, os cotovelos rotos, a barba longa, os
  cabelos eriados, os olhos queimados e vermelhos, a face esfolada, as mos
  sangrentas; tinha os ps descalos. Algumas das pstulas da pieuvre estavam
  visveis nos braos cabeludos.

Lethierry
  contemplava-o.

 o meu verdadeiro genro. Como se
  bateu com o mar! Est em frangalhos! Que ombros! Que ps! Como s
  belo!

Graa correu a Druchette,
  amparou-lhe a cabea. Druchette tinha desmaiado.

CAPTULO II
A MALA DE
  COURO

Desde madrugada Saint-Sampson
  estava de p e Saint-Pierre-Port comeava a chegar. A ressurreio de Durande
  fazia na ilha um rumor comparvel ao que fez no meio-dia da Frana a Salette.
  Havia multido no cais para contemplar o cano que saa da pana. Tinham vontade
  de ver e tocar na mquina, mas Lethierry, depois de repetir, e  luz do dia, a
  inspeo triunfante da mecnica, tinha posto na pana dois marinheiros
  encarregados de impedir que ningum se aproximasse. O cano, porm, bastava 
  contemplao. A multido pasmava. S se falava de Gilliatt. Comentava-se e
  aceitava-se a alcunha de engenhoso, a admirao acabava sempre por esta frase:
  Nem sempre  agradvel ter na ilha gente capaz de fazer coisas
  destas.

De fora via-se Mess Lethierry
  assentado  mesa diante da janela e escrevendo, com um olho no papel, e outro na
  mquina. Estava de tal modo absorto que apenas uma vez interrompeu-se para
  gritar: Doce! e para pedir notcias de Druchette. Doce respondeu: A menina
  levantou-se e saiu. Mess Lethierry disse: Faz bem tomar ar. Esteve incomodada
  de noite por causa do calor. Havia muita gente na sala. E depois a surpresa, a
  alegria e as janelas fechadas. Vai ter um marido soberbo! E tornou a escrever.
  J tinha escrito e fechado duas cartas dirigidas aos mais notveis construtores
  de Bremen. Acabava de fechar a terceira.

O rumor de uma roda no cais
  fez-lhe levantar a cabea. Inclinou-se  janela e viu desembocar do atalho que
  ia ter  casa de Gilliatt um rapaz empurrando um carrinho de mo. O rapaz
  dirigia-se para o lado de Saint-Pierre-Port. Havia no carrinho uma mala de couro
  amarela com pregos de cobre e estanho.

Mess Lethierry falou ao
  rapaz:

 Aonde vais?

O rapaz parou, e
  respondeu:

 Ao Cashmere.

 Para qu?

 Levar esta mala.

 Pois bem, levars tambm estas
  trs cartas.

Mess Lethierry abriu a gaveta da
  mesa, e pegou num pedao de barbante, enlaou as trs cartas que acabava de
  escrever, e atirou o embrulho ao rapaz que o recebeu no ar entre as duas
  mos.

 Dirs ao capito do Cashmere que sou eu quem escrevo, e que ele tenha cuidado com elas. 
  para a Alemanha. Bremen via Londres.

 No falarei ao capito, Mess
  Lethierry.

 Por qu?

 O Cashmere no est no
  cais.

 Ah!

 Est na barra.

  justo, por causa do
  mar.

 S posso falar ao patro do
  escaler.

 Recomenda-lhe as minhas
  cartas.

 Sim, Mess Lethierry.

 A que horas parte o Cashmere?

 Ao meio-dia.

 Ao meio-dia hoje,  a enchente
  da mar. Tem contra si a mar.

 Mas tem vento de
  feio.

 Rapaz  disse Mess Lethierry
  pondo o dedo ndex no cano da mquina  vs isto? Isto zomba do vento e da
  mar.

O rapaz ps as cartas na
  algibeira, pegou outra vez no carrinho, e continuou a viagem para a
  cidade.

Mess Lethierry chamou:

 Doce! Graa!

Graa entreabriu a
  porta.

 Que h, Mess?

 Entra e espera.

Mess Lethierry pegou numa folha de
  papel e comeou a escrever; se Graa, de p atrs dele, fosse curiosa e
  esticasse o pescoo, poderia ler, por cima do ombro, isto:

Escrevo a Bremen para ver
  madeira. Tenho de falar durante o dia aos carpinteiros para a avaliao. Vai ter
   casa do decano para arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faa o
  mais cedo possvel, e j, ser melhor. Estou tratando de Durande, trata tu de
  Druchette.

Datou e assinou
  Lethierry.

No se deu ao trabalho de fechar a
  carta, dobrou-a simplesmente em quatro e deu-a a Graa.

 Leva isto a Gilliatt.

LIVRO
  TERCEIRO
A PARTIDA DO
  CASHMERE

CAPTULO
  PRIMEIRO
A ANGRAZINHA PRXIMA DA
  IGREJA

Saint-Sampson no pode estar
  apinhado de gente sem que Saint-Pierre-Port fique deserto. Uma coisa curiosa num
  ponto dado  uma bomba aspirante. As notcias correm depressa nas terras
  pequenas; ir ver o cano da Durande debaixo da janela de Mess Lethierry foi desde
  o romper do dia a grande ocupao de Guernesey. Qualquer outro acontecimento
  desaparecia diante desse. Eclipse da morte do decano de Saint-Asaph; j ningum
  curava do Reverendo Ebenezer Caudray, nem da sua repentina riqueza, nem da sua
  partida no Cashmere. A mquina da Durande, trazida das Douvres, estava na ordem
  do dia. Ningum acreditava. O naufrgio parecera extraordinrio, mas o
  salvamento parecia impossvel. Todos queriam ver com os seus prprios olhos.
  Todas as ocupaes ficaram suspensas. Longas fileiras de burgueses em famlia,
  desde o vesin at o mess, homens, mulheres, gentlemen, mes com
  filhos e filhos com bonecas, dirigiam-se por todas as estradas para ver a coisa,
  em Braves, e davam-se as costas a Saint-Pierre-Port. Muitas lojas de
  Saint-Pierre-Port estavam fechadas; no Commercial Arcade, estagnao absoluta de
  venda e de negcio; toda a ateno estava voltada para a Durande, nenhum
  mercador estreou, exceto um ourives que se maravilhava de ter vendido um
  anel de ouro para casamento  a uma espcie de homem que parecia muito
  apressado e que lhe perguntou onde morava o sr. decano. As lojas que ficaram
  abertas eram os lugares de conversa onde se comentava ruidosamente o milagroso
  salvamento da mquina. Ningum passeava na Hyvreuse, que se chama hoje, no se
  sabe por qu, Cambridge-Park; ningum em HighStreet, que se chamava ento a Rua
  Grande, nem em Smith Street, que se chamava a Rua das Forjas; ningum em
  Hauteville; a prpria Esplanada estava deserta. Dissera-se um domingo. Uma
  alteza real, que ali fosse de visita, e passasse em revista a milcia de
  Ancresse, no despovoaria melhor a cidade. Todo aquele abalo a propsito de uma
  coisa  toa, como Gilliatt, fazia erguer os ombros aos homens graves e s
  pessoas corretas.

A Igreja de Saint-Pierre-Port,
  trplice carreta sobreposta com transepto e flecha, fica situada  beira da
  praia no fundo do porto quase sobre o desembarque. D a saudao aos que chegam
  e o adeus aos que saem. Aquela igreja  a maiscula de uma longa linha que faz a
  fachada da cidade sobre o oceano.

 ao mesmo tempo a parquia de
  Saint-Pierre-Port e chefe de toda a ilha. Tem por proco o sub-rogado do bispo, clergyman com plenos poderes.

O ancoradouro de
  Saint-Pierre-Port, hoje largo e magnfico porto, era naquela poca, e ainda h
  dez anos, menos considervel que o ancoradouro de Saint-Sampson. Eram duas
  grossas paredes ciclpicas, curvas, partindo da praia a estibordo e bombordo e
  ligando-se quase na extremidade, onde havia um farolzinho branco. Debaixo
  daquele farol uma garganta, que ainda tinha as duas argolas da corrente que a
  fechava na Idade Mdia, dava passagem aos navios. Imaginem uma unha de lagosta
  aberta, era o ancoradouro de Saint-Pierre-Port. Aquela tenaz tomava ao mar um
  pouco de gua que obrigava a ficar tranqila. Mas, com vento de leste, havia
  marulho na entrada, o porto ficava agitado, e era acertado no penetrar l. Foi
  o que fez nesse dia o Cashmere, que ficou fora.

Os navios, quando soprava o leste,
  faziam isso que, no fim das contas, economizava as despesas do porto. Nesses
  casos, os bateleiros da cidade, tribo valente de marinheiros que o novo porto
  destitura, iam tomar em seus barcos os viajantes, ou no cais, ou nas estaes
  da praia, e os transportavam, a eles e s bagagens, muitas vezes com mars
  agitadas e sempre sem acidentes, aos navios que deviam sair. O vento de leste 
  um vento de flanco muito bom para ir  Inglaterra; o mar  agitado sem que o
  navio estremea.

Quando o navio ficava no porto,
  todos embarcavam no porto; quando estava fora, podia-se escolher uma das costas
  vizinhas do ancoradouro do navio. Achavam-se em todas as angras bateleiros 
  vontade.

A Angrazinha era dessas. Aquele
  cais ficava prximo  cidade, mas to solitrio, que parecia longe. Devia a
  solido s duas grandes penedias do forte de So Jorge que dominavam aquele
  stio discreto. Chegava-se  Angrazinha por caminhos diversos. O mais direto ia
  pela praia; tinha a vantagem de ir dar  cidade e  igreja em cinco minutos, e o
  inconveniente de ser coberto pela mar duas vezes por dia.

Outros caminhos, mais ou menos
  abruptos, mergulhavam nas anfratuosidades dos rochedos. A Angrazinha, mesmo em
  pleno dia, ficava numa penumbra. Grandes pedras amontoadas pendiam de todos os
  lados. Havia espessuras de espinhos, fazendo uma espcie de noite suave naquela
  desordem de rochas e vagas; nada mais aprazvel do que aquela angra em tempo
  calmo, nada mais tumultuoso nas grossas guas. Havia pontas de galhos
  perpetuamente molhados pela escuma. Na primavera ficava cheia de flores, ninhos,
  perfumes, aves, borboletas e abelhas. Graas aos trabalhos recentes, essa
  selvajaria j no existe; foi substituda por belas linhas retas; h obras de
  pedreiro, cais, jardins; tudo foi derrubado; o gosto destruiu as extravagncias
  da montanha e a incorreo dos rochedos.

CAPTULO II
O DESESPERO DIANTE DO
  DESESPERO

Era pouco menos de 10 horas da
  manh: o quarto de hora antes, como se diz em Guernesey.

O povo, segundo todas as
  aparncias, ia engrossando em Saint-Sampson. A populao, febricitante de
  curiosidade, ia toda para o norte da ilha, de maneira que a Angrazinha, que fica
  ao sul, estava mais deserta que nunca.

Contudo, viam-se a um bote e um
  remador. No bote havia um saco de viagem. O bateleiro parecia
  esperar.

Via-se ao largo o Cashmere ancorado, que, devendo partir l para o meio-dia, no fazia nenhum movimento de
  aparelho.

O viandante que, de qualquer dos
  caminhos-escadas tivesse prestado o ouvido, ouviria um murmrio de palavras na
  Angrazinha, e inclinando-se por cima, veria a alguma distncia do bote, num
  recanto de pedras e galhos onde no podia penetrar o olhar do bateleiro, duas
  pessoas; um homem e uma mulher, Ebenezer e Druchette.

Esses asilos obscuros das praias,
  que tentam as banhistas, no so to solitrios como se pensa. s vezes
  espreita-se e ouve-se de fora. Os que se refugiam podem ser facilmente
  acompanhados atravs das espessuras das vegetaes, e graas  multiplicidade e
  entravamento dos atalhos. Os granitos e rvores que escondem o refugiado podem
  esconder tambm uma testemunha.

E unindo-se a ele, cruzou-lhe os
  dez dedos por trs do pescoo, como para fazer com os seus braos enlaados em
  Ebenezer e com as suas mos juntas uma orao a Deus.

Ele deslaou aquela cadeia
  delicada, que resistiu enquanto pde.

Druchette caiu assentada numa
  ponta de rocha coberta de hera, levantando com um gesto maquinal a manga do
  vestido at o cotovelo, mostrando o seu delicioso brao nu, com uma luz afogada
  e plida nos olhos fixos. O bote aproximava-se.

Ebenezer segurou-lhe a cabea nas
  mos; aquela virgem tinha o ar de uma viva e aquele mancebo tinha o ar de um
  av. Tocou-lhe os cabelos com uma espcie de precauo religiosa; fitou os olhos
  nela durante alguns instantes, depositou-lhe na fronte um desses beijos debaixo
  dos quais parece que deveria abrir uma estrela e, com uma voz que tremia na
  suprema angstia e onde se sentia a dilacerao da alma, disse-lhe esta palavra,
  a palavra das profundezas: Adeus!

Druchette rompeu em
  soluos.

Neste momento ouviram uma voz
  lenta e grave que dizia:

 Por que motivo no se
  casam?

Ebenezer voltou a cabea.
  Druchette levantou os olhos.

Gilliatt estava diante
  deles.

Acabava de entrar por um atalho
  lateral.

Gilliatt j no era o mesmo homem
  da vspera. Tinha penteado os cabelos, fez a barba, calou os sapatos, vestiu
  camisa branca de marinheiro com grandes colarinhos cados, vestiu a roupa de
  marinheiro mais nova. Via-se um anel de ouro no dedo mnimo. Parecia
  profundamente calmo. Estava lvido.

Bronze que sofre, tal era aquele
  rosto.

Os dois olharam para ele
  estupefatos. Embora no se pudesse reconhec-lo, Druchette reconheceu-o. Quanto
  s palavras que ele acabava de pronunciar, estavam to longe do que eles
  pensavam nesse momento, que resvalaram-lhe no esprito.

Gilliatt continuou:

 Que necessidade  essa de se
  dizerem adeus? Casem-se. Embarquem depois.

Druchette estremeceu da cabea
  aos ps.

Gilliatt continuou:

 Miss Druchette tem 21 anos. 
  senhora de sua vontade. Seu tio  apenas seu tio. Amam-se...

Druchette interrompeu
  docemente:

 Como  que o senhor est
  aqui?

 Casem-se  continuou
  Gilliatt.

Druchette comeava a perceber o
  que lhe dizia aquele homem. Murmurou:

 O meu pobre tio...

 Recusaria se o casamento
  estivesse por fazer  disse Gilliatt , e consentir quando o casamento estiver
  concludo. Demais, vo embarcar ambos. Quando voltarem, ele os
  perdoar.

Gilliatt acrescentou com um tom
  amargo:

 E depois, ele j no pensa seno
  em construir o vapor. Isso o distrair durante a sua ausncia. Tem Durande para
  consol-lo.

 Eu no quisera  balbuciou
  Druchette num espanto misturado de alegria , no quisera deixar pesares
  indo-me embora...

 No duraro muito tempo os
  pesares  disse Gilliatt.

Ebenezer e Druchette tiveram uma
  espcie de deslumbramento. Tranqilizaram-se. Na sua decrescente perturbao,
  iam entendendo as palavras de Gilliatt. Ainda havia alguma nuvem, mas a
  obrigao deles dois no era resistir ao conselho. Quem salva domina sempre.
  Fracas so as objees quando se trata de voltar ao Eden. Havia na atitude de
  Druchette, imperceptivelmente apoiada em Ebenezer, alguma coisa que fazia causa
  comum com o que dizia Gilliatt. Quanto ao enigma da presena daquele homem e das
  suas palavras que, no esprito de Druchette em particular, produziam muitas
  espcies de assombro, eram questes  parte. Aquele homem dizia-lhes:
  Casem-se. Era claro. Se houvesse uma responsabilidade, era ele quem a tomava
  sobre si. Druchette sentia confusamente que, por diversas razes, ele tinha o
  direito de faz-lo. O que ele dizia de Mess Lethierry era verdade. Ebenezer,
  pensativo, murmurou:

 Um tio no  um pai.

Ebenezer sentia a corrupo de uma
  peripcia sbita e feliz. Os escrpulos provveis do padre fundiam-se e
  dissolviam-se naquele pobre corao apaixonado.

A voz de Gilliatt tornou-se breve
  e dura; sentia-se nela umas pulsaes de febre:

 Imediatamente. O Cashmere parte daqui a duas horas. Tm tempo, mas no de sobra; venham ambos.

Ebenezer examinava-o
  atentamente.

De sbito exclamou:

 Conheo-o. Foi o senhor quem me
  salvou a vida.

Gilliatt respondeu:

 No creio.

 L adiante, na ponta dos
  Bancos.

 No conheo esse
  lugar.

 No mesmo dia em que
  cheguei.

 No percamos tempo  disse
  Gilliatt.

 E no me engano, o senhor  o
  homem de ontem  noite.

 Talvez.

 Como se chama?

Gilliatt alou a voz:

  do bote, espere-nos. J
  voltamos. Miss, a senhora perguntou-me por que motivo estava eu aqui, 
  simples, eu acompanhei-os. A senhora tem 21 anos. Nesta terra quem chega 
  maioridade e depende de si casa-se em um quarto de hora. Tomemos o caminho da
  praia. Est praticvel, a mar h de encher l para o meio-dia. Mas vamos j.
  Venham comigo.

Druchette e Ebenezer pareciam
  consultar-se com o olhar. Estavam de p, juntinhos, sem mexer-se; pareciam
  brios. H dessas tentaes estranhas  beira desse abismo que se chama
  felicidade. Compreendiam sem compreender.

 Ele se chama Gilliatt  disse
  Druchette baixinho a Ebenezer.

Gilliatt continuou com uma espcie
  de autoridade:

 Que esperam? J lhes disse que
  me acompanhassem.

 Aonde?  perguntou
  Ebenezer.

 Ali.

E Gilliatt mostrou com o dedo a
  torre da igreja. Os dois acompanharam-no.

Gilliatt ia adiante. O seu passo
  era firme. Os dois vacilavam.

 proporo que se aproximavam da
  torre, via-se despontar naqueles puros e belos rostos de Ebenezer e Druchette
  alguma coisa que seria dentro de pouco tempo o sorriso. A proximidade da igreja
  iluminava-os. Nos olhos fundos de Gilliatt havia trevas.

Dissera-se um espectro levando
  duas almas ao paraso.

Ebenezer e Deruchette no
  compreendiam muito o que se estava passando. A interveno daquele homem era o
  ramo a que se agarra o afogado. Eles acompanhavam Gilliatt com a docilidade que
  o desespero tem para com a primeira pessoa que lhe aparece. Quem se sente morrer
  no  difcil em aceitar os incidentes. Druchette, mais ignorante, era mais
  confiante. Ebenezer pensava. Druchette era maior. As formalidades do casamento
  ingls so simplssimas, sobretudo nos pases autctones onde os procos tm
  quase um poder discricionrio; mas o decano celebraria o casamento sem saber se
  o tio consentia? Havia uma questo nisto. Contudo, podia-se tentar. Em todo o
  caso era uma delonga.

Mas quem era aquele homem? E se
  era ele quem, na vspera, foi declarado genro de Mess Lethierry, como explicar o
  que estava fazendo? Ele, que era o obstculo, tornava-se a providncia. Ebenezer
  prestava-se a tudo, mas dava ao que se estava passando o consentimento tcito e
  rpido do homem que se sente salvo.

O caminho era desigual, s vezes
  molhado e difcil. Ebenezer, absorto, no prestava ateno aos charcos de gua e
  s pedras. De quando em quando, Gilliatt voltava-se e dizia a Ebenezer: Cuidado
  com essas pedras, d-lhe a mo.

CAPTULO III
A PREVIDNCIA DA
  ABNEGAO

Soavam 10 horas e meia quando eles
  entravam na igreja. Por causa da hora, e tambm por causa da solido da cidade
  naquele dia, a igreja estava vazia.

No fundo, porm, perto da mesa
  que, nas igrejas reformadas, substitui o altar, havia trs pessoas: eram o
  decano, o seu evangelista, e mais o lanador dos registros. O decano, que era o
  Reverendo Jaquemin Herodes, estava assentado; o evangelista e o lanador estavam
  de p.

O Livro, aberto, estava sobre a
  mesa.

Ao lado havia outro livro, era o
  registro da parquia, igualmente aberto, e no qual um olhar atento poderia notar
  uma pgina escrita de fresco. Uma pena e um tinteiro ficavam ao lado do
  registro.

Vendo entrar o Reverendo Ebenezer
  Caudray, o Reverendo Jaquemin Herodes levantou-se.

 Esperava-o  disse ele.  Tudo
  est pronto.

O decano, com efeito, estava com o
  hbito de oficiante.

Ebenezer olhou para
  Gilliatt.

O Reverendo Herodes
  continuou:

 Estou s suas ordens, meu
  colega.

E fez-lhe uma cortesia.

A cortesia no foi nem para a
  esquerda nem para a direita. Era evidente, pela direo do raio visual do
  decano, que, para ele, s Ebenezer existia. Ebenezer era clergyrman e gentleman. O decano no compreendia no seu cumprimento nem Druchette, que
  estava ao seu lado, nem Gilliatt, que estava atrs. Havia no seu olhar um
  parntese em que s Ebenezer era admitido. A manuteno destas distines faz
  parte da boa ordem e consolida as sociedades.

O decano continuou com uma
  amenidade graciosamente altiva:

 Meu colega, fao-lhe o meu duplo
  cumprimento. Morreu-lhe o tio, e o senhor casa-se; fica rico por um lado e feliz
  por outro. Demais, agora, graas a este vapor que vai ser restabelecido, Miss
  Lethierry tambm  rica, o que eu aprovo. Miss Lethierry nasceu nesta parquia,
  verifiquei a data do nascimento no livro dos assentos. Miss Lethierry  maior e
  dispe de si. Depois, seu tio, que  toda a sua famlia, consente. Querem
  casar-se j por causa da viagem, compreendo, mas sendo este casamento o do cura
  da parquia, eu quisera mais alguma solenidade. Abrevio para fazer-lhes o gosto.
  O essencial pode fazer-se no sumrio. O ato j est escrito no livro do registro
  que est aqui, e falta s pr os nomes. Nos termos da lei e do costume, o
  casamento pode ser celebrado logo depois da inscrio. A declarao necessria
  para a licena j foi feita. Tomo a responsabilidade de uma pequena
  irregularidade, porque o pedido de licena devia ser previamente registrado sete
  dias antes; mas eu reconheo a necessidade e a urgncia da partida. Seja. Vou
  cas-los. O meu evangelista ser a testemunha do esposo; quanto 
  esposa...

O decano voltou-se para
  Gilliatt.

Gilliatt fez um sinal de
  cabea.

 Basta  disse o
  decano.

Ebenezer ficara imvel. Druchette
  era o xtase petrificado.

O decano continuou:

 H, porm, um
  obstculo.

Druchette fez um
  movimento.

O decano continuou:

 O enviado de Mess Lethierry, que
  aqui est presente, e pediu a licena e assinou a declarao no registro  e com
  o polegar da mo esquerda o decano indicou Gilliatt, o que o isentava de
  articular nenhum nome  o enviado de Mess Lethierry disse-me esta manh que Mess
  Lethierry, por muito ocupado, no podia vir, e desejava que o casamento se
  fizesse incontinente. Esse desejo, verbalmente expresso, no  suficiente. No
  posso, por causa das dispensas e da irregularidade que tomo sobre mim, ir alm
  disto sem informar-me de Mess Lethierry, a menos que me mostrem a assinatura
  dele. Qualquer que seja a minha boa vontade, no posso contentar-me com uma
  palavra que me repetem. Preciso de um escrito.

 No sirva isto de empecilho 
  disse Gilliatt.

E apresentou ao decano um
  papel.

O decano pegou no papel, percorreu
  com um olhar, pareceu passar algumas linhas, sem dvida, inteis, e leu
  alto:

 Vai ter  casa do decano para
  arranjar as dispensas. Desejo que o casamento se faa o mais cedo possvel, e
  j, ser melhor.

Ps o papel em cima da mesa e
  continuou:

 Assinado: Lethierry. A coisa
  seria mais respeitosa se fosse dirigida a mim. Mas, como se trata de um colega,
  no exijo mais.

Ebenezer olhou de novo para
  Gilliatt. H almas que se entendem. Ebenezer sentia naquilo uma fraude; e no
  teve fora, no teve mesmo idia de denunci-lo. Ou fosse obedincia a um
  herosmo latente que ele antevia, ou fosse que se lhe aturdisse a conscincia
  pela ventura sbita, Ebenezer no teve palavras.

O decano tomou a pena e encheu,
  com o auxlio do lanador dos assentos, os claros da pgina escrita no livro,
  depois levantou-se, e com o gesto convidou Ebenezer e Druchette a aproximar-se
  da mesa.

Comeou a cerimnia.

Ebenezer e Druchette estavam ao
  p um do outro diante do ministro. Quem tiver sonhado que se est casando saber
  o que eles sentiam.

Gilliatt estava a alguma distncia
  na obscuridade dos pilares.

Druchette, ao levantar-se da
  cama, desesperada, pensando no tmulo e no sudrio, vestira-se de branco. Esta
  idia de morte veio a propsito para as npcias. O vestido branco fez dela uma
  noiva. Tambm os tmulos so esponsais.

Druchette irradiava. Nunca foi o
  que era naquele instante. Druchette tinha o defeito de ser demasiado linda e
  no bastante formosa. A sua beleza pecava, se  pecar, por excesso de graa.
  Druchette em repouso, isto , fora da paixo e da dor, j o dissemos, era
  sobretudo gentil. A transfigurao da moa encantadora  a virgem ideal.
  Druchette, engrandecida pelo amor e pelo sofrimento, tinha tido esse progresso,
  deixem passar a palavra. Tinha a mesma candura, com mais dignidade, a mesma
  frescura, com mais perfume. Era uma espcie de bonina que se torna
  lrio.

Tinha no rosto sinais de lgrimas
  estanques. Havia ainda talvez uma lgrima no canto do sorriso. As lgrimas
  estanques, vagamente visveis, so um sombrio e doce ornato da
  felicidade.

O decano, de p perto da mesa, ps
  um dedo na Bblia aberta e perguntou em voz alta:

 H oposio?

Ningum respondeu.

 Amm  disse o
  decano.

Ebenezer e Druchette deram um
  passo para o Reverendo Jaquemin Herodes.

O decano disse:

 Joe Ebenezer Caudray, queres
  esta mulher por tua esposa?

Ebenezer respondeu:

 Quero.

O decano continuou:

 Durande Druchette Lethierry,
  queres este homem por teu marido?

Druchette, na agonia da alma
  demasiado feliz, como a da lmpada demasiado cheia de leo, murmurou em vez de
  pronunciar:

 Quero.

Ento, segundo o belo rito do
  casamento anglicano, o decano olhou em roda de si, e fez na sombra da igreja
  esta solene pergunta:

 Quem d esta mulher a este
  homem?

 Eu  disse Gilliatt.

Houve um momento de silncio.
  Ebenezer e Druchette sentiram uma vaga opresso atravs da sua
  felicidade.

O decano ps a mo direita de
  Druchette na mo direita de Ebenezer, e Ebenezer disse a Druchette:

 Druchette, tomo-te por minha
  mulher, quer sejas melhor ou pior, mais rica ou mais pobre, doente ou com sade,
  para amar-te at  morte, e dou-te a minha f.

O decano ps a mo direita de
  Ebenezer na mo direita de Druchette, e Druchette disse a Ebenezer:

 Ebenezer, tomo-te por meu
  marido, quer sejas melhor ou pior, mais rico ou mais pobre, doente ou com sade,
  para amar-te e obedecer-te at  morte, e dou-te a minha f.

O decano continuou:

 Onde est o anel?

Isto era o imprevisto. Ebenezer
  no tinha anel.

Gilliatt tirou o anel de ouro que
  tinha no dedo mnimo e apresentou ao decano. Era provavelmente o anel de
  casamento comprado de manh ao ourives de Commercial Arcade.

O decano ps o anel no livro,
  depois entregou-o a Ebenezer. Ebenezer pegou na mozinha esquerda, trmula, de
  Druchette, meteu o anel no quarto dedo e disse:

 Desposo-te com este
  anel.

 Em nome do Padre, do Filho e do
  Esprito Santo  disse o decano.

 Assim seja  disse o
  evangelista.

O decano alou a voz:

 Estais casados.

 Assim seja  disse o
  evangelista.

O decano continuou:

 Oremos.

Ebenezer e Druchette voltaram-se
  para a mesa e ajoelharam-se.

Gilliatt, que estava de p,
  inclinou a cabea.

Eles ajoelhavam-se diante de Deus,
  Gilliatt curvava-se ao destino.

CAPTULO IV
PARA TUA MULHER QUANDO TE
  CASARES

Saindo da igreja viram o Cashmere que comeava a aparelhar.

 Chegam a tempo  disse
  Gilliatt.

Seguiram pelo caminho da
  Angrazinha.

Os dois iam adiante, Gilliatt
  agora caminhava atrs.

Eram dois sonmbulos. Mudara
  apenas o atordoamento. No sabiam nem onde estavam nem o que faziam;
  apressavam-se maquinalmente, no se lembravam da existncia de coisa alguma,
  sentiam-se um outro, no podiam ligar duas idias. No pode pensar quem est em
  xtase como no pode nadar quem est numa torrente. Pareciam ir penetrando num
  paraso. No se falavam, conversavam com a alma. Druchette apertava contra si o
  brao de Ebenezer.

O passo de Gilliatt atrs deles
  fazia-lhes ver que ele estava presente. Iam profundamente comovidos mas sem
  dizer palavra; o excesso da comoo transforma-se em estupefao. A deles era
  deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar,
  o que Gilliatt fez era bem-feito, eis tudo. O fundo desses dois coraes
  agradecia-lhe ardente e vagamente. Druchette dizia consigo que havia alguma
  coisa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o fato. Sentiam-se 
  discrio daquele homem decisivo e sbito, que, por autoridade, fazia a
  felicidade deles dois. Fazer-lhe perguntas, conversar com ele, era impossvel.
  Eram de sobejo as impresses que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo.
  Estavam engolfados; era perdovel.

Os fatos so s vezes uma saraiva.
  Crivam a criatura. Ensurdecem. A precipitao dos incidentes, caindo em
  existncias habitualmente calmas, torna logo ininteligveis os acontecimentos
  aos que os sofrem ou deles se aproveitam. No se pode conhecer a sua prpria
  ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem compreender. Druchette,
  em particular, desde algumas horas recebera todas as comoes; primeiramente a
  fascinao, Ebenezer no jardim; depois o pesadelo, aquele monstro declarado seu
  marido; depois a desolao, o anjo abrindo as asas e prestes a partir; agora era
  a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifrvel; o monstro dava-lhe o
  anjo; o casamento saa da agonia; o Gilliatt, catstrofe de ontem, salvao de
  hoje. Druchette no compreendia nada. Era evidente que, desde manh, Gilliatt
  no teve outra ocupao seno a de cas-los; fez tudo; respondeu por Mess
  Lethierry, falou ao decano, pediu licena, assinou a declarao necessria; eis
  a como se realizou o casamento. Mas Druchette no compreendia nada; demais,
  mesmo quando ela compreendesse o como, no compreenderia o porqu.

Fechar os olhos, agradecer,
  mentalmente, esquecer a terra, e a vida, deixar-se levar para o cu por aquele
  bom demnio, eis o que lhe cumpria fazer. Esclarecer seria longo, agradecer no
  seria bastante. Druchette calava-se naquele doce embrutecimento da
  ventura.

Restava-lhe ainda algum
  pensamento, suficiente para gui-la. Debaixo da gua h pedaos de esponja que
  ficam brancos. Eles tinham a soma de lucidez necessria para distinguir o mar da
  terra e o Cashmere de qualquer outro navio.

Dentro de poucos minutos estavam
  eles na Angrazinha.

Ebenezer foi o primeiro a entrar
  no bote. No momento em que Druchette ia acompanh-lo, sentiu a sua manga
  docemente puxada. Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do
  vestido.

 Senhora  disse ele , no
  esperava partir. Eu cuido que naturalmente h de precisar de vestidos e roupa.
  Achar a bordo do Cashmere um caixotinho com objetos de mulher. Foi minha me
  quem mo deu. Era destinado  mulher com quem eu casasse. Consinta que lho
  oferea.

Druchette acordou a meio do sonho
  em que estava. Voltou-se para Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia,
  continuou:

 Agora, no  para demor-la,
  mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma coisa. No dia em que houve aquela
  desgraa, a senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras. No
  se lembra disso,  natural. Ningum  obrigado a lembrar-se das palavras que
  diz. Mess Lethierry sofria muito. A verdade  que era um belo navio e
  prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroada e compungida, so
  coisas que naturalmente se esquecem. S havia aquele navio perdido na costa. No
  se pode pensar sempre em um acidente. Somente o que eu queria dizer  que, como
  se dizia que ningum era capaz de l ir, eu fui. Diziam eles que era impossvel;
  no era impossvel aquilo. Agradeo-lhe o prestar-me ateno por alguns
  instantes. Compreende a senhora que se eu l fui ao escolho, no foi para
  ofend-la. Demais, a coisa data de longe. Eu sei que est com pressa. Se
  houvesse tempo, falaramos, recordaramos, mas isso de nada serve. A coisa data
  de um dia em que caiu neve. E depois eu passei uma vez, e cuido t-la visto
  sorrir.  assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou ontem, eu no tive
  tempo de ir a casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, meti-lhe medo, a
  senhora desmaiou, fiz mal, no se entra assim na casa dos outros, peo-lhe que
  me perdoe.  isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um
  belo tempo. Acha justo que eu lhe fale, no?  o ltimo minuto.

 Penso na caixinha  respondeu
  Druchette  Por que no h de guard-la para a sua mulher, quando se
  casar?

 Senhora  disse Gilliatt ,
  provavelmente eu no me casarei nunca.

 Pois  pena, porque  uma boa
  alma. Obrigada.

E Druchette sorriu. Gilliatt
  retribuiu-lhe com outro sorriso. Depois ajudou Druchette a entrar no
  escaler.

Menos de um quarto de hora depois,
  o escaler aonde iam Ebenezer e Druchette atracava ao Cashmere.

CAPTULO V
A GRANDE
  TUMBA

Gilliatt seguiu pela praia, parou
  rapidamente em Saint-Pierre-Port, depois caminhou para Saint-Sampson ao longo do
  mar, fugindo aos encontros, evitando as estradas cheias de caminhantes, por
  culpa dele.

Desde muito tempo, como se sabe,
  Gilliatt tinha um modo de atravessar a terra em todos os sentidos sem ser visto
  por ningum. Conhecia os atalhos, fez para si itinerrios isolados e em
  ziguezagues: tinha o hbito feroz do ente que no se julga estimado; andava de
  longe. Ainda criana, vendo pouco agasalho no rosto dos homens, tomou o costume,
  que depois tornou-se-lhe instinto, de andar sempre afastado.

Passou a Esplanada, depois a
  Salerie. De tempos a tempos, voltava-se e olhava para o Cashmere na barra, que
  lhe ficava por trs; e o Cashmere abria as velas. Havia pouco vento,
  Gilliatt ia mais depressa que o Cashmere.

Gilliatt caminhava nas rochas
  extremas da praia, com a cabea baixa. A mar comeava a subir.

Em certo momento parou e, voltando
  as costas para o mar, contemplou durante alguns minutos, alm dos rochedos que
  escondiam a estrada do Vale, uma moita de carvalhos. Eram os carvalhos do lugar
  chamado Basses Maisons. Foi ali, debaixo daquelas rvores, que outrora o dedo de
  Druchette escreveu o nome Gilliatt na neve. Havia muito tempo que essa neve
  estava desfeita.

Prosseguiu o caminho.

O dia estava mais belo que nenhum
  outro naquele ano. A manh tinha um qu de nupcial. Era um desses dias vernais
  em que maio ostenta-se todo inteiro; a criao parecia no ter outro fim que dar
  uma festa e fazer a prpria felicidade. Sob todos aqueles rumores, da floresta
  como da aldeia, da vaga como da atmosfera, sentiam-se uns sons de arrulho. As
  primeiras borboletas pousavam nas primeiras rosas. Tudo era novo na natureza, as
  ervas, os musgos, as folhas, os perfumes, os raios. Parecia que o sol nunca
  tinha servido. Os seixos estavam lavados de fresco. A profunda cano das
  rvores era cantada por aves nascidas na vspera. Era provvel que a casquinha
  do ovo quebrada pelo biquinho dessas aves ainda estivesse no ninho. Ensaios de
  asas rumorejavam nas folhas trmulas. Cantavam o primeiro canto, davam o
  primeiro vo. Era uma doce conversa de todos a um tempo, poupas, melharucos,
  pintassilgos, barbirruivos, pardais. Os lilases, os lrios, as dafnes, as
  glicnias compunham nas moitas uma deliciosa variedade de cores. Uma linda
  lentilha aqutica que h em Guernesey cobria as lagoas de uma toalha de
  esmeralda. Banhavam-se as alvloas nas lagoas, onde costumam fazer to graciosos
  ninhos. Via-se o cu atravs de todas as falhas da vegetao. Algumas nuvens
  lascivas perseguiam-se no ar ondeando como ninfas. Como que se sentia a passagem
  de beijos mandados por bocas invisveis. Nenhum velho muro deixava de ter, como
  um noivo, o seu ramalhete de girfleas. Os abrunheiros silvestres e os codessos
  estavam em flor; viam-se aqueles montinhos brancos luzindo e aqueles montinhos
  amarelos fulgurando atravs do cruzamento dos ramos.

A primavera atirava toda a sua
  prata e ouro no imenso cesto rasgado dos bosques. Os pimpolhos novos eram verdes
  de fresco. Ouvia-se no ar um grito de saudao. Estio hospitaleiro abria a porta
  aos pssaros longnquos. Era a hora da chegada das andorinhas. Os tirsos dos
  juncos orlavam os caminhos cavados, esperando os tirsos dos pilriteiros. O belo
  e o lindo faziam boa vizinhana: o soberbo contemplava-se pelo gracioso; o
  grande no tolhia o pequeno; no se perdia nenhuma nota do concerto; as
  magnificncias microscpicas estavam em plano prprio naquela vasta beleza
  universal; distinguia-se tudo como numa gua lmpida. Por toda a parte uma
  divina plenitude e um intumescimento misterioso faziam adivinhar o esforo
  pnico e sagrado da seiva em ao. O que brilhava, brilhava mais; o que amava,
  amava melhor. Havia um hino na flor e uma irradiao no rudo. Escutava-se a
  grande harmonia difusa. O que comeava a despontar procurava o que comeava a
  surdir. Uma turvao, que surgia de baixo, e vertia tambm de cima, agitava
  vagamente os coraes, corruptveis  influncia espessa e subterrnea dos
  germes. A flor prometia obscuramente o fruto, todas as virgens cismavam, a
  reproduo dos seres, premeditada pela imensa alma da sombra, esboava-se na
  irradiao das coisas. Era o universal noivado. A vida, que  a esposa, abraava
  o infinito, que  o esposo. O dia estava claro, formoso e ardente; atravs das
  sebes, nas cercas, viam-se rir as crianas. Algumas jogavam a palheta. As
  macieiras, os pessegueiros, as cerejeiras, as pereiras cobriam os vergis com os
  seus grossos tufos plidos ou vermelhos. Na relva, as primaveras, as pervincas,
  as mil-folhas, as margaridas, os amarlis, os jacintos, as violetas e as
  vernicas. As borragens azuis, os ris amarelos pululavam, com as belas
  estrelinhas cor-de-rosa que florescem sempre aos bandos e que por esse motivo
  chamam-se as companheiras. Animlculos dourados corriam por entre as pedras. O
  saio florescente purpureava os tetos das cabanas. As operrias das colmias
  andavam por fora. A abelha trabalhava. A extenso estava cheia do murmrio dos
  mares e do zumbido das moscas. A natureza, permevel na primavera, estava mida
  de voluptuosidade.

Quando Gilliatt chegou a
  Saint-Sampson, ainda a mar no enchera e ele pde atravessar a praia a p seco,
  despercebido por trs dos cascos de navios no estaleiro. Um cordo de pedras
  chatas, postas de espao a espao, auxiliava a passagem.

Gilliatt no foi observado. O povo
  estava do outro lado do porto, perto da sada, junto  casa de Lethierry. A
  andava o nome dele de boca em boca. Falava-se tanto dele que o no chegavam a
  ver. Gilliatt passou escondido de algum modo pelo prprio rumor que
  causava.

Viu de longe a pana no lugar onde
  a amarrara, com o cano da mquina entre as quatro correntes, com um movimento de
  carpinteiros trabalhando, lineamentos confusos de pessoas que iam e vinham de um
  para outro lado, e ouviu a voz tonante e alegre de Mess Lethierry dando
  ordens.

Meteu-se pelas ruelas
  dentro.

No havia ningum por trs de
  Braves, toda a curiosidade convergia para a frente. Gilliatt tomou o atalho que
  costeava o muro baixinho do jardim. Parou no ngulo onde estava a malva
  silvestre; tornou a ver a pedra onde costumava sentar-se; tornou a ver o banco
  de Druchette. Olhava para o cho da alameda onde viu abraarem-se as duas
  sombras, que tinham desaparecido.

Foi a caminho. Galgou a colina do
  castelo do Vale, desceu-a, e dirigiu-se para a casa mal-assombrada, onde
  morava.

O Houmet Paradis estava
  solitrio.

A casa estava tal qual ele a
  deixara de manh depois de vestir-se para ir a Saint-Pierre-Port.

Havia uma janela aberta. Via-se
  por ela o bagpipe pendurado em um prego da parede.

Via-se na mesa a pequena Bblia,
  dada em agradecimento a Gilliatt por um desconhecido, que era
  Ebenezer.

A chave estava na porta. Gilliatt
  aproximou-se, ps a mo na chave, fechou a porta com duas voltas, ps a chave no
  bolso, e afastou-se.

Afastou-se, no para o lado de
  terra, mas para o lado do mar.

Atravessou diagonalmente o jardim,
  pelo lado mais curto, pisando os canteiros, mas tendo cuidado de poupar os sea kales que plantara por serem do gosto de Druchette.

Galgou o parapeito e desceu aos
  arrecifes.

Continuou a andar, indo sempre
  para a frente, pela longa e estreita linha de cachopos que ligava a casa dele
  quele grande obelisco de granito de p, no meio do mar, que se chamava Corne de
  la Bte. Era ali que ficava a Cadeira Gild-Holm-'Ur.

Passava de um recife a outro como
  um gigante caminha nos cabeos. Andar em uma crosta de recifes assemelha-se a
  andar na borda de um telhado.

Uma pescadora de rede que andava
  com os ps descalos, nos charcos que ficavam prximos, e voltava para a praia,
  gritou-lhe: Cuidado. A mar est enchendo.

Gilliatt continuou a andar.
  Chegando ao grande rochedo da ponta, que formava um pinculo no mar, parou.
  Acabava a terra. Era a extremidade do pequeno promontrio.

Olhou.

Ao largo pescavam alguns barcos,
  com ncoras fora. Via-se de quando em quando naqueles barcos um gotejar de
  prata: eram as redes que saam da gua. O Cashmere ainda no estava na
  altura de Saint-Sampson; desenrolara a mezena. Estava entre Herm e
  Jethou.

Gilliatt torneou o rochedo. Chegou
   beira da Cadeira Gild-Holm-'Ur, ao p dessa espcie de escada tosca que, menos
  de trs meses antes, Ebenezer descera ajudado por ele.

Gilliatt subiu.

A maior parte dos degraus j
  estava debaixo da gua. Apenas dois ou trs estavam a seco. Gilliatt
  escalou-os.

Os degraus iam ter  Cadeira
  Gild-Holm-'Ur. Chegou  cadeira, contemplou-a por um momento, apoiou a mo nos
  olhos e f-la passar de uma a outra sobrancelha, gesto com que parece que se
  apaga o passado, depois assentou-se na cava da rocha, com o grande declive por
  trs de si, e o oceano aos ps.

O Cashmere, nesse momento, passava
  pela grande torre arredondada e imersa, defendida por um sargento e um canho, e
  que marca na baa a metade do caminho entre Herm e Saint-Pierre-Port.

Nas fendas do rochedo tremiam
  algumas flores, por sobre a cabea de Gilliatt. A gua estava toda azul. O vento
  era de leste, havia pouca ressaca  roda de Serk, da qual em Guernesey s se v
  a costa ocidental. Via-se ao longe a Frana como uma bruma e a longa faixa
  amarela de areias de Carteret. De quando em quando passava uma borboleta branca.
  As borboletas gostam de passear sobre o mar.

Fraca era a brisa. Todo aquele
  azul, embaixo, e em cima, estava imvel. Nenhuma tremura agitava aquelas
  serpentes de um azul mais claro ou mais carregado, que marcavam na superfcie do
  mar as tores latentes dos baixios.

O Cashmere, pouco impelido
  pelo vento, iou os cutelos para apanhar alguma brisa. Cobriu-se todo de panos.
  Mas o vento era de travs, o efeito dos cutelos obrigava-o a costear de perto
  Guernesey. J tinha passado a baliza de Saint-Sampson. Atingia a colina do
  castelo do Vale. Estava quase prximo ao promontrio da casa de
  Gilliatt.

Gilliatt via-o
  aproximar-se.

O ar e o mar estavam como que
  adormecidos. A mar enchia, no por meio de ondas, mas por intumescimento. O
  nvel da gua ia-se levantando sem palpitao. O vento do largo mar, extinto,
  assemelhava-se a um hlito de infante.

Ouviam-se na direo da porta de
  Saint-Sampson pequenos golpes surdos, que eram marteladas. Provavelmente eram os
  carpinteiros que levantavam guindastes e pranchas para tirar a mquina da pana.
  Esse rumor mal chegava a Gilliatt, por causa da massa de granito a que ele
  estava encostado.

O Cashmere aproximava-se
  com uma lentido de fantasma.

Gilliatt esperava.

De sbito uma agitao da gua e
  uma sensao de frio obrigaram-no a olhar para baixo. A gua tocava-lhe os
  ps.

Gilliatt abaixou os olhos e
  levantou-os.

O Cashmere estava
  perto.

O rochedo onde as chuvas tinham
  cavado a Cadeira Gild-Holm-'Ur era to vertical, e havia tanta gua naquele
  stio, que os navios podiam, em tempo de calma, passar ali  distncia de
  algumas braas.

O Cashmere chegou. Surgiu,
  alou-se. Parecia crescer sobre a gua. Foi como que um crescimento de sombra.
  Todo o aparelho destacou-se como massa negra, no cu azul, e no magnfico
  balano do mar. As longas velas, por um instante sobrepostas ao sol, tornavam-se
  quase cor-de-rosa e tiveram urna transparncia inefvel. As ondas tinham um
  murmrio indistinto. Nenhum rumor perturbava o resvalar majestoso daquela massa.
  De terra via-se o que se passava a bordo como se l se estivesse.

O Cashmere roou quase pela
  rocha.

O timoneiro estava no leme, um
  grumete trepava aos ovns, alguns passageiros, encostados  amurada,
  contemplavam a serenidade do tempo, o capito fumava. Mas no era nada disso o
  que Gilliatt contemplava.

Havia no tombadilho um lugar cheio
  de sol. Era para ali que ele olhava. Ali estavam Ebenezer e Druchette. Estavam
  assentados debaixo daquela luz, ele juntinho dela. Contraam-se graciosamente ao
  lado um do outro, como dois pssaros que se aquecem a um raio do meio-dia, num
  desses bancos cobertos de um assento alcatroado que os navios bem preparados
  oferecem aos viajantes, e nos quais costuma ler-se, quando o navio  ingls: For ladies only. A cabea de Druchette caa sobre o ombro de Ebenezer,
  o brao de Ebenezer estava por trs da cintura de Druchette, tinham as mos
  agarradas uma  outra e os dedos entrelaados nos dedos. As diferenas de um
  anjo a outro mostravam-se claramente naqueles dois delicados rostos feitos de
  inocncia. Um era mais virginal, o outro mais sideral. Era expressivo aquele
  casto abrao, que encerrava o himeneu e o pudor. Aquele banco era j uma alcova
  e quase um ninho. Ao mesmo tempo, era uma glria; a doce glria do amor fugindo
  numa nuvem.

O silncio era celeste.

O olhar de Ebenezer agradecia e
  contemplava; moviam-se os lbios de Druchette; e nesse silncio delicioso, como
  o vento vinha do lado oposto, no instante rpido em que o sloop resvalou
  a algumas toesas da Cadeira Gild-Holm-'Ur, Gilliatt ouvia a voz terna e delicada
  de Druchette que dizia:

 Olha! Parece que h um homem no
  rochedo.

A apario passou.

O Cashmere deixou a ponta
  do promontrio atrs de si, e mergulhou-se no franzido profundo das vagas. Em
  menos de um quarto de hora, mastros e velas assemelhavam-se a uma espcie de
  obelisco branco diminuindo no horizonte. Gilliatt tinha gua at os
  joelhos.

Via o sloop afastar-se.

A brisa refrescava ao longe.
  Gilliatt pde ver o Cashmere iar os cutelos baixos para aproveitar o
  aumento do vento. O Cashmere j estava fora das guas de Guernesey.
  Gilliatt no tirava os olhos do navio.

A gua chegava-lhe 
  cintura.

A mar levantava-se. O tempo
  corria.

As cotovias e os corvos-marinhos
  esvoaavam inquietos em roda dele. Dissera-se que procuravam adverti-lo. Talvez
  houvesse naqueles bandos alguma gaivota ainda das Douvres que o
  reconhecia.

Decorreu uma hora.

O vento do largo no soprava no
  porto, mas a diminuio do Cashmere era rpida. O sloop, segundo
  as aparncias, ia a toda a fora. J estava quase na altura de
  Casquets.

No havia espuma  roda do rochedo
  Gild-Holin-'Ur, nenhuma vaga batia no granito. A gua inchava vagarosamente. J
  estava quase na altura dos ombros de Gilliatt.

Decorreu outra hora.

O Cashmere estava j alm
  das guas de Aurigny. O rochedo Ortach escondeu-o por um momento. Ocultou-se
  atrs desse rochedo, e saiu depois, como de um eclipse. O sloop fugia
  para o norte. J entrava no mar alto. Era apenas um ponto, tendo, por causa do
  sol, a cintilao de uma luz. Os pssaros soltavam pios a Gilliatt. J no se
  via mais que a cabea dele. O mar subia com uma brandura sinistra. Gilliatt,
  imvel, olhava para o Cashmere que se desvanecia. A mar estava quase
  cheia. Caa a tarde. Por trs de Gilliatt, no porto, alguns barcos de pesca
  voltavam para terra.

Os olhos de Gilliatt, presos ao
  longe no sloop, estavam fixos.

Aqueles olhos fixos no se
  pareciam com coisa alguma que se possa ver na terra. Havia o inexprimvel
  naquela plpebra trgica e calma. O olhar continha toda a soma de tranqilidade
  que deixa o sonho abortado; era a aceitao lgubre de outro complemento. Uma
  fuga de estrela deve ser acompanhada por olhares semelhantes. De quando em
  quando a obscuridade celeste aparecia naquela plpebra cujo raio visual estava
  fixo num ponto do espao. Ao mesmo tempo que a gua infinita subia  roda do
  rochedo Gild-Holm-'Ur, ia subindo a imensa tranqilidade da sombra nos olhos
  profundos de Gilliatt.

O Cashmere, tornando-se
  imperceptvel, era j uma mancha misturada  bruma. Para distingui-lo era
  preciso saber onde ele estava.

A pouco e pouco, aquela mancha,
  que j no era uma forma, foi empalidecendo.

Depois diminuiu.

Depois dissipou-se.

No momento em que o navio
  dissipava-se no horizonte, a cabea desaparecia debaixo da gua. Tudo acabou; s
  restava o mar.

    [i] Gnesis, cap.
      III, vers. 16: Tu parirs com dor.

    [ii] Gnesis, cap.
      I, vers. 4.
