Conto, Diana, 1866

Diana

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1866.

Em certo dia do ms de maro do
ano da graa de 1868 encontravam-se na Rua do Ouvidor, cidade do Rio de
Janeiro, dois rapazes, ambos acompanhados de um criado carregando as
respectivas malas.

 Lus!

 Alberto!

 Que  isso?

 A que horas chegas!

 No pde ser mais cedo. Venho do
caminho de ferro neste momento. Mas tu, chegas tambm de Minas, ou partes para
l?

 No chego nem vou para l. Vou
para o Rio Grande. Est a sair o vapor.

 Que volta to repentina  essa?

 Assim  preciso.

 Isto s pelo diabo. Se eu
soubesse de semelhante coisa tinha vindo mais cedo.

 De l te escreverei. Adeus!

 Adeus!

E os dois amigos, depois de se
abraarem, separaram-se, tomando um para a hospedaria, outro para a Praia dos
Mineiros.

Alberto foi fazendo consigo as
reflexes seguintes:

 Que diabo leva o Lus ao Rio
Grande to repentinamente? este rapaz tem o juzo a arder...

Tempos depois Alberto recebia a
seguinte carta de Porto Alegre, escrita pelo amigo Lus.

Lus a Alberto.

Prezado amigo,

S agora te escrevo porque s
agora me  dado dispensar alguns minutos.

Se fosses alguma destas
susceptibilidades que tantas vezes encontrei, dava-te outra razo, mentirosa de
certo, mas suficiente para acalmar-te o esprito e consolar-te o corao.

Mas prefiro a verdade. Eu te
conheo, tu me conheces, ns nos conhecemos.

Queres ento saber que motivo me
trouxe ao Rio Grande to repentinamente? Um motivo simples: receber um legado.
Tive notcia de que meu padrinho morrera e me deixara em testamento certa
quantia assaz avultada para colocar-me acima das atribulaes da vida.

Que tal?  ou no uma tigela de
man que me veio do cu? Eu bem te dizia muitas vezes que tinha f na minha
estrela, e que estava certo de que no havia de ganhar fortuna pela simples
posio de advogado provinciano.

Mas j te ouo dizer contigo
mesmo: Que tivesse um legado, concebe-se; mas que fosse ele prprio
arrecad-lo, isto  que eu acho esquisito.

Respondo  tua reflexo:

Podia dar procurao a algum e
ficar comodamente na corte  espera que l me fosse ter s mos a quantia
legada por aquele chorado padrinho. Se no fiz isto foi por virtude de uma
clusula que o meu referido padrinho incluiu no testamento.

Esta clusula  a seguinte:

Este legado s ser entregue ao
meu afilhado Lus depois que ele tiver, por virtude dos prprios esforos,
descoberto em certo lugar, situado na casa tal, em Pelotas, um segredo que l
conservo.

Deves compreender que eu no
podia, estando na corte, descobrir o segredo de Pelotas.

Por isso embarquei apenas recebi a
notcia.

Muitas vezes te falei neste
padrinho como o mais singular e extravagante dos padrinhos. Sobre a condio
que ele punha tinha eu a curiosidade de saber qual era esta nova excentricidade
do velho.

E parti.

Ainda no fui a Pelotas, mas
tratei de indagar que casa era aquela e quem residia l. Disseram-me que a casa
era propriedade de meu padrinho e estava vazia h cinco anos.

Isto aguou a minha curiosidade.

Decididamente temos um mistrio
neste negcio.

O que sobretudo me causa ainda
maior assombro  no haver na clusula a designao em que lugar da casa se
acha o segredo. Ser nas salas, nas alcovas, no terreiro, no teto ou no cho?
No sei. Mas o legado vale a pena, e eu tenho foras e tenacidade para levar a
obra ao cabo.

Disponho-me a partir dentro de
alguns dias, munido de instrumentos e acompanhado do meu guasca.

De tudo o que ocorrer dar-te-ei
conta.

Adeus. No sejas preguioso.
Escreve-me.

Alberto leu e releu esta carta.
Sorriu  idia de que Lus se achava envolvido em um mistrio de romance. Ele
sabia que o padrinho do advogado era um homem excntrico, desta longa famlia
que se ramifica por todas as raas e todos os pases.

Direi em duas palavras quem eram
os dois amigos.

Lus, advogado provinciano, como
ele prprio diz, tinha tomado grau na faculdade de S. Paulo e tinha vindo
advogar na corte. Fazia um ano que se achava a sem ter conseguido nome nem
fortuna. Alguma coisa que trouxera ia-se j gastando e o legado do padrinho
veio na melhor ocasio.

Alberto, natural do Rio de
Janeiro, era advogado, como ele, sem nome e sem fortuna, como ele filho da
academia de S. Paulo, havendo em tanta harmonia e identidade uma nica
diferena: era o legado do padrinho de Lus.

A viagem a Minas feita por Alberto
era por motivo de ir colher informaes minuciosas para servir em processo.

O encontro de ambos j o leitor
teve notcia no comeo destas linhas.

* * *

Alberto no respondeu  carta de
Lus por no ter certeza do lugar em que estaria este, se em Porto Alegre, se em Pelotas.

Esperou que da parte do amigo lhe
chegassem comunicaes necessrias.

Mas esperou em vo.

No fim de dois meses resolveu
escrever uma carta em duplicata, mandando uma para cada uma das cidades onde
Lus podia ser encontrado.

A carta de Alberto dizia assim:

Alberto a Lus.

 Resolvi escrever-te depois de
esperar em vo uma carta tua. Esta vai em duplicata, uma para Porto Alegre,
outra para Pelotas. Onde quer que estejas l te h de achar.

Devo crer que estejas em Pelotas,
e que o silncio se explique pelas ocupaes em que ests realmente com a
procura desse segredo do teu finado padrinho.

Eu j sabia de quanta
excentricidade era capaz esse sujeito, mas esta  de mestre, e eu no atino com
o fim de toda esta meada.

Por isso mesmo  que  segredo.

O que for soar.

Peo-te que no te esqueas, se
for possvel, de me comunicares os progressos do trabalho, e, quando chegar a
ocasio, a natureza do segredo que faz condio do legado.

Segredo em casa que se no abre h
cinco anos... deve ser coisa misteriosa!

Olha l; no vs esbarrar com
alguma daquelas surpresas das fantasias alems... Quem sabe se o teu padrinho
no tinha comrcio com o diabo?

Disse uma tolice, perdoa-me.

Enfim, escreve-me. Sou curioso,
como uma criana. Dize-me o que houver e continua a votar-me aquela amizade
antiga.

Alberto escreveu as duas cartas,
subscritou-as e remeteu-as para o correio.

Feito o que, esperou resposta.

Da a algum tempo recebeu uma
carta de Lus.

Dizia ele:

Lus a Alberto.

  segredo e segredo do diabo.
Mas no  por ora o que pensas. O do padrinho ainda est por descobrir, pela
razo de que ainda no fui a Pelotas. E no penses que  porque no possa. No;
tenho podido ir. Mas que me prende? perguntas tu.

Vais saber.

Prende-me um anjo...

No te rias, l at o fim.

Prende-me um anjo com formas de
mulher. Ou anjo ou o diabo, que tanto importa esta criatura que conseguiu
transtornar-me a razo e fazer do meu corao uma verdadeira runa a respeito
de todos os outros sentimentos.

Amo, meu Alberto, amo!

A primeira vez que a vi foi em uma
noite... ah! at agora s a tenho visto  noite, pelo que j lhe pus um nome
simblico: Diana.

Mas, como dizia, foi em uma noite
que a vi pela primeira vez, noite de sexta, noite de luar, noite de seduo:
estava linda, como a irm que ento atravessava a plancie celeste, calma e
suave, influindo amor, inspirao, poesia...

Dessa noite para c fiquei
perdido. Bem sabes como nasce o amor;  de sbito. Eu senti que naquele momento
o anjo encarregado de escrever no cu a minha biografia (porque eu acredito que
h anjos bigrafos ao cu) adicionou ao captulo do amor o nome de Diana.

Diana! sabes tu que beleza  esta?
Como encanta, como fascina, como seduz? Tu no sabes nada, pobre lorpa, nessa
cidade de lama e de prosa, cativo da prosa e da lama. Aqui, sim; aqui resido
com este serafim, a luz, a vida, a poesia...

Reli o que tinha escrito at aqui
e tive idia de rasgar. No irs tu pensar que eu estou doido ou ca na
pieguice? No creias nada que no seja isto: amo.  a palavra da criao, diz o
poeta das Orientais.

Mas deixe-me contar como foi que
eu vi e amei esta mulher.

Costumava eu ir tomar ch em casa
do major O..., meu parente afastado, bom velho que possui filhas bonitas e de
excelentes qualidades.

Ia s oito horas e voltava  meia-noite
para casa.

Ouvia l falar muitas vezes da
viva Caldas, mas nunca prestei maior ateno a essa referncia, e ouvia como
se no ouvisse.

Uma noite, em que fui mais cedo,
disseram-me as filhas do velho que esperavam a viva Caldas para tomar ch.

Perguntei quem era essa viva
Caldas que eu no conhecia. Disseram-me que era a viva de um homem do Norte
que para ali fora h um ano, o qual tinha falecido cinco meses antes. A viva
desde que eu l cheguei andava doente e por isso no tinha ido  casa do major.

Mas achava-se boa e ia l naquela
noite, pela primeira vez que saa depois da convalescena.

No se trocou a este respeito uma
s palavra mais.

Da a bocado, estvamos assentados
na chcara cujo porto dava para uma rua, aparecem a alguma distncia uns
vultos brancos. Era a viva e a me.

As moas correram a ir busc-las e
eu acompanhei-as por delicadeza, no podendo supor que essa viva Caldas fosse
a mulher destinada a mudar completamente o meu destino.

O luar estava claro, suave,
lmpido.

Quando me aproximei da viva e
troquei com ela um olhar, senti uma comoo inexprimvel. Estive alguns
segundos sem desviar os olhos dos olhos da moa. Ela tambm no desviava os
seus.

Tudo se preparava para que este
encontro fosse decisivo da minha sorte: a noite era das mais adorveis noites
do Sul.

Conversou-se, tomou-se ch e 
meia-noite fomos eu, o major e as filhas deste, acompanhar as visitas at a
casa.

Diana (no quero dar-lhe outro
nome) pareceu no ser indiferente aos sentimentos que me inspirou. Tambm ela
parecia impressionada, comovida. Pela minha parte no sei se disse coisas
acertadas naquela noite.

Da para c j a vi dez vezes, e
sempre de noite. Imagine se a impresso produzida durante a noite podia
enfraquecer; tem aumentado antes com fora redobrada.

 quinta noite no me pude ter.
Procurei um instante em que lhe pudesse falar a ss, e declarei-lhe
indiretamente o que sentia por ela. Diana, ou respondesse do mesmo modo, ou
fosse iluso minha, o que  certo  que me disse algumas coisas indiretas assaz
explcitas.

Olhe este espcime da nossa
conversao:

Dizia eu:

 Quisera ser um corao vivo.

 Por qu? perguntou ela.

 Porque os coraes vivos se
consolam, respondi.

 Ah!

E suspirou.

 claro ou no?

Ah! eu creio que estou dizendo
alguma extravagncia, mas perdoa-me tu que sabes o que  amar, e conheces o meu
corao nestas matrias.

O que te posso afianar  que
nunca amei como agora, nem mulher alguma se gabou ainda de possuir o meu
corao como esta possui.

Quem dissera, meu Alberto, que
vindo buscar uma fortuna e um segredo, levaria uma mulher, isto , outro
segredo e outra fortuna? No estranhes a frase; estou disposto a casar com
Diana, haja o que houver.  paixo doida...

Enfim o vapor est a partir, no
posso demorar mais a carta. Adeus.

Dentro de poucos dias vou para
Pelotas para ver se descubro que segredo  este de meu padrinho... Olha, se 
alguma fortuna enterrada!

Talvez a felicidade me queira
proteger agora de uma vez. Adeus.

* * *

Um ms correu ainda entre esta
carta e a terceira remetida por Lus ao amigo Alberto.

Assistiremos eu e o leitor aos
fatos que o advogado narrou na terceira carta.

Basta-nos para isso transportarmo-nos
para Porto Alegre,  casa de Lus, vinte e oito dias depois da segunda carta.

O amor de Lus e Diana
(conservemos  moa o nome que lhe dera o namorado) caminhava s mil
maravilhas.

A moa correspondera ao sentimento
do rapaz, ao ponto de receber afetuosamente uma declarao positiva de
casamento.

Como sempre se encontrassem em
casa do major, onde Diana ia tomar ch todas as noites, nunca Lus fora a casa
dela.

Um dia, porm, em que ele
manifestou desejo de l ir, Diana disse-lhe que fosse, pediu-lhe, fez at uma
intimao.

No meio de tudo isto, o legado e o
segredo tinham ficado esquecidos inteiramente.

Na manh do dia marcado Lus
levantou-se alegre como andorinha em tempo de vero. Vestiu-se, perfumou-se,
encouraou-se para todas as comoes e partiu.

Ele levava em mente fazer nesse
dia o pedido  velha. Sabia por boca de Diana que ela olhava esse amor com bons
olhos.

Quando se aproximava da porta de
Diana tirou o relgio e viu que se adiantara duas horas. Eram dez e a
entrevista devia ter lugar ao meio-dia.

Quis voltar para esperar a hora
convencionada. Mas a vista do jardim o desanimou. Teve uma tentao: esperar no
jardim que batesse a hora decisiva da sua existncia e da sua felicidade.

Hesitou alguns minutos.

Depois, fazendo um esforo, como a
porta estivesse aberta, entrou.

Seus primeiros passos foram de
receio. A areia rangia debaixo dos ps, e podia despertar algum, o que seria
estragar o romance.

A fortuna deparou-lhe uma espcie
de caramanchel, naturalmente construdo pela rama de quatro rvores plantadas
em quadrado.

Lus encaminhou-se para l.

A casa estava silenciosa; as
janelas fechadas; tudo parecia dormir ainda. Ele sabia que ela se levantava
tarde, mas no pde supor que s dez horas da manh ainda estivesse na cama.

 certo que a manh era das mais
frias e tinha chovido na vspera.

Lus sentou-se em um banquinho de
pedra que havia embaixo do caramanchel.

Descalou as luvas, guardou-as no
bolso, tirou um cigarro, concertou-o, riscou um fsforo, acendeu o cigarro e
comeou a fum-lo tranqilamente.

Quem o visse no diria que era um
homem que dali a duas horas podia estar casado... em promessa.

Ele mesmo fez algumas reflexes
anlogas a esta. Naturalmente chamado ao terreno das idias prprias de um
homem que vai pedir uma mulher em casamento, Lus deixou-se ficar no campo
vasto da fantasia e da memria.

A fantasia para o futuro, a
memria para o passado.

O passado era a vida malfadada,
erma de afeies, cheia de necessidades. Era a luta dolorosa entre a vida
material e as aspiraes do esprito, luta de que, por um lance de sorte,
achava-se agora salvo, podendo gozar de um amor e de uma fortuna.

O futuro era o gozo dessa fortuna
e desse amor. O advogado pintava j na imaginao o que faria quando se visse
na posse de Diana e do legado. Faltava-lhe ainda o segredo que, se no podia
ser uma mulher, podia muito bem ser sua fortuna ainda, o que seria uma fortuna
acumulada.

Nessas explicaes do passado e do
futuro lembrou-se do amigo que ficara na corte. Ocorreu-lhe ento que de h
muito tempo lhe no escrevia. No queria de modo algum ser acusado de ingrato,
e resolveu, apenas acabada a entrevista, escrever para o Rio de Janeiro. O
vapor partia no dia seguinte.

Durante este longo tempo de
espera, Lus fumou trs cigarros, e consultou vinte vezes o relgio.

Os ponteiros corriam lentamente
como uma agonia.

Lus levantava-se, espiava por
entre as folhagens e via as janelas ainda fechadas.

Dar-se- caso que ainda dormissem
ou teriam sado?

Esta pergunta feita a si mesmo
trouxe ao esprito do namorado uma dvida cruel. Se tivessem sado seria uma
desiluso.

Nisto sentiu passos.

Voltou-se para o lado de onde
partia o rumor da areia calcada por ps vagarosos.

Viu dois vestidos de mulher.

Imaginou logo que seriam Diana e
sua me.

Naturalmente tinham deixado a cama
nesse momento e andavam passeando no jardim, fazendo apetite.

Lus lembrou-se que ouvira algumas
vezes a Diana dizer que tinha este hbito de longos meses.

Melhor, pensou ele, causo-lhes a
surpresa de me verem aqui, e  mais uma prova do amor que dou a Diana.

E comprimiu a respirao para no
ser pressentido e aparecer como nos romances o heri avisado por algum bilhete
misterioso.

As duas aproximavam-se cada vez
mais.

Lus deixou que elas se
aproximassem bastante para aparecer ento.

Entretanto quis ainda uma vez
cravar os olhos naquela que era j senhora do corao.

Arredou cautelosamente as folhas
para melhor ver e colou os olhos  abertura.

As duas passavam nesse momento.

Lus soltou um grito e recuou.

As mulheres espantadas correram
para o caramanchel; mas, ao mesmo tempo, Diana, mal conheceu o rapaz, correu
para casa.

Ficou a velha diante de Lus.

Qual era a significao do grito
do rapaz?

Era que o sonho que durante tantos
dias criara e idealizara desfizera-se ali todo e de uma vez. Diana, a jovem, a
bela, a sedutora mulher que tanto impressionara o advogado, era uma mulher
amarela, sem beleza, sem mocidade; sem encanto algum. Todos os encantos dela
eram artifcios comprados e aplicados diariamente com uma pacincia de feia
pretensiosa.

Lus nunca a vira seno  noite,
porque Diana, apesar dos artifcios, no queria expor-se  luz meridiana. Ainda
assim pudera passar. Mas, luz do dia, e sem os socorros da arte, caminhando em
um jardim fechado, na plena confiana de quem no esperava quela hora
semelhante visita, no era feia, era horrenda!

Calcula-se qual no seria o
desencanto do rapaz. Aquele grito fora o grito do amor moribundo.

A velha me da viva, quando viu
Lus, ficou um tanto atrapalhada. Parece que ela era cmplice nas manhas da
vaidosa filha. Mas, como no se tratasse dela pessoalmente, pde falar ao rapaz,
rindo e sem ocultar a natural surpresa de encontr-lo ali.

Lus respondeu que ia visit-la e
esperava a hora marcada.

A velha convidou-o a entrar, mas o
rapaz pretextou um incmodo, explicando o grito que dera, e despediu-se.

Instncias, pedidos, rogos, tudo
foi intil.

O rapaz saiu.

Dali para casa os seus passos eram
incertos, como os de um brio. J no era amor que sentia, visto que o amor
fora dedicado  criatura que ele vira  noite e aparentemente bela. Era
mal-estar do esprito que por tanto tempo se iludira.

Quando chegou  casa fez esta
reflexo filosfica:

 Nem sempre os palpites so vos;
se eu no fosse esperar no jardim no escapava to milagrosamente ao perigo de
carregar todo o resto de minha vida com um...

No acabou a reflexo porque nesse
momento apresentou-se-lhe o criado perguntando quando partia para Pelotas.

 J, respondeu Lus.

* * *

Tempos depois recebia Alberto na
corte a terceira carta de Lus.

Lus a Alberto.

 Esta carta h de chegar s tuas
mos poucos dias antes de mim. Estou em Porto Alegre em preparativos de viagem.

Podia guardar-me para contar-te de
viva voz tudo o que me acontecesse depois da ltima que te escrevi (h um
sculo?), mas prefiro dar-te j a grande notcia.

Naturalmente supes que vou chegar
 corte casado com a bela Diana? Engano positivo; vou solteiro, como vim. E vou
explicar-te a razo.

Tive ocasio de ver  luz do sol a
mulher que eu s vira ao claro da lua ou das velas da sala. Que abismo entre
ambas! Passei do anjo ao drago! A mulher era feia como um demnio; a noite e a
tinta eram a soluo daquela charada viva. Dei graas a Deus quando fiz a
descoberta.

 vista te contarei mais
detalhadamente o episdio desta descoberta, que s difere de Colombo em no ser
de um novo mundo, mas de um velho mundo.

Desenganado dos meus amores,
decidi partir para Pelotas.

Este episdio no  menos
interessante. Ouve-me.

Cheguei a Pelotas e fui examinar a
casa que h cinco anos no recebia um bocado de ar. Foram precisos alguns dias
para que pudesse deixar entrar l algum.

Quando ficou em estado de
receber-me, l fui com o meu criado, e preparei tudo para proceder ao exame
necessrio.

Tive o cuidado de consultar as
paredes para ver se eram ocas e podiam, portanto, encerrar alguma coisa que
constitusse o segredo de que falava meu padrinho.

Nada.

Marquei um dia e comeamos os
nossos trabalhos.

Virei e revirei a casa. Comecei
por escavar o cho, mas depois de pesados trabalhos consegui a certeza de que
no cho no havia segredo de qualidade alguma.

Passei s paredes, porque, apesar
do exame a que procedera de comeo, podia haver algum ponto em que estivesse o
tal segredo; mas qual!

Supus at que o segredo se achasse
na parte da parede onde se achava pendurado um retrato a leo de meu padrinho.
Nada havia.

Fui ao teto; fiz arrancar tbua
por tbua, e depois de longos dias de exame nada encontrei.

Em resumo, nem as paredes, nem o
cho, nem o teto, nem o quintal, em parte alguma encontrei o segredo de meu
padrinho.

Ento uma idia dolorosa
assaltou-me o esprito. Meu padrinho era excntrico; ora, quem sabe se a maior
excentricidade dele no seria a de me fazer procurar em vo um segredo
imaginrio, at convencer-me de que no valia a pena procur-lo para receber um
bocado de dinheiro?

Isto era muito provvel e eu
senti-me abalado com esta idia.

Mas, passado o primeiro abalo,
voltei de novo s minhas pesquisas. Esmerilhei, foi tudo vo.

Confesso que tive um acesso de
matar-me.

Entretanto, era verdade; nada
tinha encontrado; o segredo do meu padrinho fora uma brincadeira. Como ele se
havia de rir naquele momento na eternidade!

Determinei voltar logo e logo para
Porto Alegre, disposto a no receber nada e a voltar para a corte, a fim de
comear de novo a vida de advogado.

Na ocasio em que arranjvamos as
malas, vi que entre os objetos que o meu criado enrolava existia o retrato de
meu padrinho.

 Para que trouxeste isso?
perguntei eu.

 Eu mesmo no sei, disse o
criado.

Tive ento uma idia, sbita.

Tomei o quadro das mos do criado,
e, com o auxilio de uma faca, destas de que usam os guascas, abri o quadro.

Caiu de dentro um papel dobrado.

Apanhei o papel com a mo trmula.

Seria aquele o segredo?

Abri o papel e pude ler a custo as
letras apagadas pelo tempo.

Queres saber o que dizia o papel?

L:

Conselho a meu afilhado.  Nunca
te fies em aparncias.

Se eu tivesse o segredo antes de
ver Diana!...

Enfim estou hoje de posse de uma
fortuna e de uma lio que me custaram alguma coisa.

At breve!
