Conto, A Carteira, 1884

A Carteira

Texto-fonte:

Obra Completa, de Machado de Assis,
vol. II,

Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/3/1884.

... De repente, Honrio olhou para
o cho e viu uma carteira. Abaixar-se, apanh-la e guard-la foi obra de alguns
instantes. Ningum o viu, salvo um homem que estava  porta de uma loja, e que,
sem o conhecer, lhe disse rindo:

 Olhe, se no d por ela;
perdia-a de uma vez.

  verdade, concordou Honrio
envergonhado.

Para avaliar a oportunidade desta
carteira,  preciso saber que Honrio tem de pagar amanh uma dvida,
quatrocentos e tantos mil-ris, e a carteira trazia o bojo recheado. A dvida
no parece grande para um homem da posio de Honrio, que advoga; mas todas as
quantias so grandes ou pequenas, segundo as circunstncias, e as dele no
podiam ser piores. Gastos de famlia excessivos, a princpio por servir a
parentes, e depois por agradar  mulher, que vivia aborrecida da solido; baile
daqui, jantar dali, chapus, leques, tanta coisa mais, que no havia remdio
seno ir descontando o futuro. Endividou-se. Comeou pelas contas de lojas e
armazns; passou aos emprstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos
a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se,
um turbilho perptuo, uma voragem.

 Tu agora vais bem, no?
dizia-lhe ultimamente o Gustavo C..., advogado e familiar da casa.

 Agora vou, mentiu o Honrio.

A verdade  que ia mal. Poucas
causas, de pequena monta, e constituintes remissos; por desgraa perdera
ultimamente um processo, em que fundara grandes esperanas. No s recebeu
pouco, mas at parece que ele lhe tirou alguma coisa  reputao jurdica; em
todo caso, andavam mofinas nos jornais.

D. Amlia no sabia nada; ele no
contava nada  mulher, bons ou maus negcios. No contava nada a ningum.
Fingia-se to alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o
Gustavo, que ia todas as noites  casa dele, dizia uma ou duas pilhrias, ele
respondia com trs e quatro; e depois ia ouvir os trechos de msica alem, que
D. Amlia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizvel
prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de poltica.

Um dia, a mulher foi ach-lo dando
muitos beijos  filha, criana de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados;
ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.

 Nada, nada.

Compreende-se que era o medo do
futuro e o horror da misria. Mas as esperanas voltavam com facilidade. A
idia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta.
Estava com trinta e quatro anos; era o princpio da carreira; todos os
princpios so difceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado
ou emprestado, para pagar mal, e a ms horas.

A dvida urgente de hoje so uns
malditos quatrocentos e tantos mil-ris de carros. Nunca demorou tanto a conta,
nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor no lhe punha a faca
aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honrio
quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a
um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assemblia 
que viu a carteira no cho, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.

Durante os primeiros minutos,
Honrio no pensou nada; foi andando, andando, andando, at o Largo da Carioca.
No Largo parou alguns instantes, -- enfiou depois pela Rua da Carioca, mas
voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se da a pouco
no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Caf. Pediu alguma coisa e encostou-se  parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a
carteira; podia no achar nada, apenas papis e sem valor para ele. Ao mesmo
tempo, e esta era a causa principal das reflexes, a conscincia perguntava-lhe
se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. No lhe perguntava com o ar de
quem no sabe, mas antes com uma expresso irnica e de censura. Podia lanar
mo do dinheiro, e ir pagar com ele a dvida? Eis o ponto. A conscincia acabou
por lhe dizer que no podia, que devia levar a carteira  polcia, ou
anunci-la; mas to depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da
ocasio, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam
mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ningum iria
entregar-lha; insinuao que lhe deu nimo.

Tudo isso antes de abrir a
carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase s escondidas; abriu-a,
e ficou trmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; no contou, mas viu duas notas
de duzentos mil-ris, algumas de cinqenta e vinte; calculou uns setecentos
mil-ris ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dvida paga; eram menos
algumas despesas urgentes. Honrio teve tentaes de fechar os olhos, correr 
cocheira, pagar, e, depois de paga a dvida, adeus; reconciliar-se-ia consigo.
Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guard-la.

Mas da a pouco tirou-a outra vez,
e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para qu? era dele? Afinal
venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-ris. Honrio teve um
calafrio. Ningum viu, ningum soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa
sorte, um anjo... Honrio teve pena de no crer nos anjos... Mas por que no
havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mos;
depois, resolvia o contrrio, no usar do achado, restitu-lo. Restitu-lo a
quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.

'Se houver um nome, uma
indicao qualquer, no posso utilizar-me do dinheiro', pensou ele.

Esquadrinhou os bolsos da
carteira. Achou cartas, que no abriu, bilhetinhos dobrados, que no leu, e por
fim um carto de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas ento, a carteira?...
Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior;
achou mais dois cartes, mais trs, mais cinco. No havia duvidar; era dele.

A descoberta entristeceu-o. No
podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilcito, e, naquele caso,
doloroso ao seu corao porque era em dano de um amigo. Todo o castelo
levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a ltima gota de caf, sem
reparar que estava frio. Saiu, e s ento reparou que era quase noite. Caminhou
para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dois empurres, mas ele
resistiu.

'Pacincia, disse ele
consigo; verei amanh o que posso fazer'.

Chegando a casa, j ali achou o
Gustavo, um pouco preocupado, e a prpria D. Amlia o parecia tambm. Entrou
rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma coisa.

 Nada.

 Nada?

 Por qu?

 Mete a mo no bolso; no te
falta nada?

 Falta-me a carteira, disse o
Gustavo sem meter a mo no bolso. Sabes se algum a achou?

 Achei-a eu, disse Honrio
entregando-lha.

Gustavo pegou dela
precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honrio
como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste
prmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara,
deu-lhe as explicaes precisas.

 Mas conheceste-a?

 No; achei os teus bilhetes de
visita.

Honrio deu duas voltas, e foi
mudar de toilette para o jantar. Ento Gustavo sacou novamente a
carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro
no quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amlia, que, ansiosa e trmula,
rasgou-o em trinta mil pedaos: era um bilhetinho de amor.
