Conto, Pobre Finoca!, 1891

Pobre Finoca!

Texto-Fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis

Publicado originalmente em A Estao, 31 de dezembro,
1891.

Que  isso? Voc
parece assustada. Ou  namoro novo?

 Que novo?  o
mesmo, Alberta;  o mesmo aborrecido que me persegue; viu-me agora passar com
mame, na esquina da Rua da Quitanda, e, em vez de seguir o seu caminho, veio
atrs de ns. Queria ver se ele j passou.

 O melhor  no
olhar para a porta; conversa comigo.

Toda a gente, por
menos que adivinhe, sabe logo que esta conversao tem por teatro um armarinho
da Rua do Ouvidor. Finoca (o nome  Josefina) entrou agora mesmo com a velha
me e foram sentar-se ao balco, onde esperam agulhas; Alberta, que est ali
com a irm casada, tambm aguarda alguma coisa, parece que uma pea de cadaro.
Condio mediana de ambas as moas. Ambas bonitas. Os empregados trazem caixas,
elas escolhem.

 Mas voc no
ter animado a perseguio, com os olhos? perguntou Alberta, baixinho.

Finoca respondeu
que no. A princpio olhou para ele; curiosa, naturalmente; uma moa olha
sempre uma ou duas vezes, explicava a triste vtima; mas da em diante, no se
importou com ele. O idiota, porm ( o prprio termo empregado por ela), cuidou
que estava aceito e toca a andar, a passar pela porta, a esper-la nos pontos
dos bondes; at parece que adivinha quando ela vai ao teatro, porque sempre o
acha  porta, ao p do bilheteiro.

 No ser fiscal
do teatro? aventou Alberta rindo.

 Talvez, admitiu
Finoca.

Pediram mais
cadaros e mais agulhas, que o empregado foi buscar, e olharam para a rua,
donde entravam vrias senhoras, umas conhecidas, outras no. Cumprimentos,
beijos, notcias, perguntas e respostas, troca de impresses de um baile, de um
passeio ou de uma corrida de cavalos. Grande rumor no armarinho; falam todas,
algumas sussurram apenas, outras riem; as crianas pedem isto ou aquilo, e os
empregados curvados atendem risonhos  freguesia, explicam-se, defendem-se.

 Perdo, minha
senhora; o metim era desta largura.

 Qual, S.
Silveira! Deixe, que eu lhe trago amanh os dois metros.

 Sr. Queirs?

 Que manda V.
Ex.?

 D-me aquela
fita encarnada de sbado.

 Da larga?

 No, da
estreita.

E o Sr. Queirs
vai buscar a caixa das fitas, enquanto a dama, que as espera, examina de
esguelha outra dama que entrou agora mesmo, e parou no meio da loja. Todas as
cadeiras esto ocupadas. The table is full, como em Macbeth; e,
como em Macbeth, h um fantasma, com a diferena que este no est
sentado  mesa, entra pela porta;  o idiota, perseguidor de Finoca, o suposto
fiscal de teatro, um rapaz que no  bonito nem elegante, mas simptico e veste
com asseio. Tem um par de olhos, que valem pela lanterna de Digenes; procuram
a moa e do com ela; ela d com ele; movimento contrrio de ambos; ele,
Macedo, pede a um empregado uma bolsinha de moedas, que viu  porta, no
mostrador, e que lhe traga outras  escolha. Disfara, puxa os bigodes,
consulta o relgio, e parece que o mostrador est empoeirado, porque ele tira
do bolso um leno com que o limpa; leno de seda.

 Olha, Alberta,
v-se mesmo que entrou por minha causa. V, est olhando para c.

Alberta verificou
disfaradamente que sim; ao mesmo tempo que o rapaz no tinha m cara nem modos
feios.

 Para quem
gostasse dele, era boa escolha, disse ela  amiga.

 Pode ser, mas
para quem no gosta,  um tormento.

 Isso  verdade.

 Se voc no
tivesse j o Miranda, podia fazer-me o favor de o entreter, enquanto ele se
esquece de mim, e fico livre.

Alberta riu-se.

 No  m idia,
disse; era assim um modo de tapar-lhe os olhos, enquanto voc foge. Mas ento
ele no tem paixo; quer s namoro, passar o tempo...

 Pode ser isso
mesmo. Contra velhaco, velhaca e meia.

 Perdo; duas
velhacas, porque somos duas. Voc no pensa, porm, em uma coisa;  que era
preciso cham-lo a mim, e no  coisa que se pea a uma amiga sria. Pois eu
iria agora fazer-lhe sinais...

 Aqui esto as
agulhas que V. Ex....

Interrompeu-se a
conversao; trataram das agulhas, enquanto Macedo tratou das bolsinhas, e o
resto da freguesia das suas compras. Sussurro geral. Ouviu-se um toque de
caixa; era um batalho que subia a Rua do Ouvidor. Algumas pessoas foram v-lo
passar s portas. A maior parte deixou-se ficar ao balco, escolhendo, falando,
matando o tempo. Finoca no se levantou; mas Alberta, com o pretexto de que
Miranda (o namorado) era tenente de infantaria, no pde resistir ao espetculo
militar. Quando ela voltou para dentro, Macedo, que espiava o batalho por cima
do ombro da moa, deu-lhe galantemente passagem.

Saram e entraram
fregueses. Macedo,  fora de cotejar bolsinhas, foi obrigado a comprar uma delas,
e pag-la; mas no a pagou com o preo exato, deu nota maior para obrigar ao
troco. Entretanto, esperava e olhava para a esquiva Finoca, que estava de
costas, tal qual a amiga. Esta ainda olhou disfaradamente, como quem procura
outra coisa ou pessoa, e deu com os olhos dele, que pareciam pedir-lhe
misericrdia e auxlio. Alberta disse isto  outra, e chegou a aconselhar-lhe
que, sem olhar para ele, voltasse a cabea.

 Deus me livre!
Isto era dar corda, e condenar-me.

 Mas, no
olhando...

  a mesma
coisa; o que me perdeu foi isso mesmo, foi olhar algumas vezes, como j disse a
voc; meteu-se-lhe em cabea que o adoro, mas que sou medrosa, ou caprichosa,
ou qualquer outra coisa...

 Pois olhe, eu
se fosse voc olhava algumas vezes. Que mal faz? Era at melhor que ele
perdesse as esperanas, quando mais contasse com elas.

 No.

 Coitado! parece
que pede esmolas.

 Voc olhou
outra vez?

 Olhei. Tem uma
cara de quem padece. Recebeu o troco do dinheiro sem contar, s para me dizer
que voc  a moa mais bonita do Rio de Janeiro  no desfazendo em mim, j se
v.

 Voc l muita
coisa...

 Eu leio tudo.

De fato, Macedo
parecia implorar  amiga de Finoca. Talvez houvesse compreendido a confidncia,
e queria que ela servisse de terceira aos amores  a uma paixo do inferno,
como se dizia nos dramas guedelhudos. Fosse o que fosse, no podia ficar na
loja mais tempo, sem comprar mais nada, nem conhecer ningum. Tratou de sair;
f-lo por uma das portas extremas, e caminhou em sentido contrrio a fim de
espiar pelas outras duas portas a moa dos seus desejos. Elas  que o no
viram.

 J foi?
perguntou Finoca dali a instantes  amiga.

Alberta voltou a
cabea e percorreu a loja com os olhos.

 J foi.

  capaz de
esperar-me na esquina.

 Pois voc muda
de esquina.

 Como? se no
sei se ele desceu ou subiu?

E depois de
alguns momentos de reflexo:

 Alberta, faz-me
este favor!

 Que favor?

 O que lhe pedi
h pouco.

 Est tola!
Vamos embora...

 O tenente no
apareceu hoje?

 Ele no vem s
lojas.

 Ah! se ele
desse algumas lies ao meu perseguidor! Vamos, mame?

Saram todos e
subiram a rua. Finoca no se enganara; Macedo estava  esquina da Rua dos
Ourives. Disfarou, mas fitou logo os olhos nela. Ela no tirou os seus do
cho, e foram os de Alberta que receberam os dele, entre curiosa e piedosa.
Macedo agradeceu o favor.

 Nem caso! gemeu
ele consigo; a outra, ao menos, parece ter compaixo de mim.

Seguiu-as,
meteu-se no mesmo bonde, que as levou ao Largo da Lapa, onde se apearam e foram
pela Rua das Mangueiras. Nesta morava Alberta; a outra na dos Barbonos. A amiga
ainda lhe deu uma esmola; a avara Finoca nem voltou a cabea.

Pobre Macedo!
exclamars tu, ao invs do ttulo, e realmente, no se dir que esse rapaz ande
no regao da Fortuna. Tem um emprego pblico, qualidade j de si pouco
recomendvel ao pai de Finoca; mas, alm de ser pblico,  mal pago. Macedo faz
proezas de economia para ter o seu leno de seda, roupa  moda, perfumes,
teatro, e, quando h Lyrico, luvas. Vive em um quarto de casa de hspedes,
estreito, sem luz, com mosquitos e (para que neg-lo?) pulgas. Come mal para
vestir bem; e, quanto aos incmodos da alcova, valem tanto como nada, porque
ele ama  no de agora  tem amado sempre,  a consolao ou compensao das
outras faltas. Agora ama a Finoca, mas de um modo mais veemente que de outras
vezes, uma paixo sincera, no correspondida. Pobre Macedo!

Cinco ou seis
semanas depois do encontro no armarinho, houve um batizado na famlia de
Alberta, o de um sobrinho desta, filho de um irmo empregado no comrcio. O
batizado era de manh, mas havia baile  noite  e prometia ser de espavento.
Finoca mandou fazer um vestido especial; as valsas e quadrilhas encheram-lhe a
cabea, dois dias antes do aprazado. Encontrando-se com Alberta, viu-a triste,
um pouco triste. Miranda, o namorado, que era ao mesmo tempo tenente de
infantaria, recebera ordem de ir para S. Paulo.

 Em comisso?

 No; vai com o
batalho.

 Eu, se fosse
ele, fingia-me constipado, e ia no dia seguinte.

 Mas j foi!

 Quando?

 Ontem de
madrugada. Segundo me disse, de passagem, na vspera, parece que a demora 
pequena. Estou pronta a esperar; mas a questo no  essa.

 Qual ?

 A questo  que
ele devia ser apresentado em casa, no dia do baile, e agora...

Os olhos da moa
confirmaram discretamente a sinceridade da dor; umedeceram-se e verteram duas
lgrimas pequeninas. Seriam as ltimas? seriam as primeiras? Haveria as nicas?
Eis a um problema, que tomaria espao  narrao, sem grande proveito para
ela, porque aquilo que se no acaba entendendo, melhor  no gastar tempo em explic-lo. Sinceras eram as lgrimas, isso eram. Finoca tratou de as enxugar com algumas
palavras de boa amizade e verdadeira pena.

 Fica
descansada, ele volta; S. Paulo  aqui perto. Talvez volte capito.

Que remdio tinha
Alberta, seno esperar? Esperou. Enquanto esperava, cuidou do batizado, que, em
verdade, devia ser uma festa de famlia. Na vspera as duas amigas ainda
estiveram juntas; Finoca tinha um pouco de dor de cabea, estava aplicando no
sei que medicamento, e contava acordar boa. Em que se fiava, no sei; sei que
acordou pior com uma pontinha de febre, e posto quisesse ir assim mesmo, os
pais no o consentiram, e a pobre Finoca no estreou naquele dia o vestido
especial. Tanto pior para ela, porque o pesar aumentou o mal;  meia-noite,
quando mais acesas deviam estar as quadrilhas e valsas, a febre ia em trinta e
nove graus. Creio que se lhe dessem a escolher, ainda assim danaria. Para que
a desgraa fosse maior, a febre declinou sobre a madrugada, justamente  hora
em que, de costume, os bailes executam as ltimas danas.

Contava que Alberta
viesse naquele mesmo dia visit-la e narrar-lhe tudo; mas esperou-a em vo. Pelas trs horas recebeu um bilhete da amiga, pedindo-lhe perdo de no ir v-la.
Constipara-se e chovia; estava rouca; entretanto, no queria demorar-se em
dar-lhe notcia da festa.

Esteve magnfica, escrevia ela,
se  que alguma coisa pode estar magnfica sem voc e sem ele. Mas, enfim,
agradou a todos, e principalmente aos pais do pequeno. Voc j sabe o que meu
irmo , em coisas desta ordem. Danamos at perto de trs horas. Estavam os
parentes quase todos, os amigos de costume, e alguns convidados novos. Um deles
foi a causa da minha constipao, e dou-lhe um doce se voc adivinhar o nome
deste malvado. Digo s que  um fiscal de teatro. Adivinhou? No diga que 
Macedo, porque ento recebe mesmo o doce.  verdade, Finoca; o tal sujeito que
te persegue apareceu aqui, ainda no sei bem como; ou foi apresentado ontem a
meu irmo, e convidado logo por ele; ou este j o conhecia antes, e lembrou-se
de lhe mandar convite. Tambm no estou longe de crer, que, qualquer que fosse
o caso, ele tratou de se fazer convidado, contando com voc. Que lhe parece?
Adeus, at amanh, se no chover.

No choveu.
Alberta foi visit-la, achou-a melhor, quase boa. Repetiu-lhe a carta, e
desenvolveu-a, confirmando as relaes de Macedo com o irmo. Confessou-lhe que
o rapaz, tratado de perto, no era to desprezvel como parecia  outra.

 Eu no disse
desprezvel, acudiu Finoca.

 Voc disse
idiota.

 Sim; idiota...

 Nem idiota.
Conversado e muito atencioso. Diz at coisas bonitas. Eu lembrei-me do que voc
me pediu, e estou, quase no quase, a tentar prend-lo; mas lembrei-me tambm
do meu Miranda, e achei feio. Contudo, danamos duas valsas.

 Sim?

 E duas quadrilhas.
Voc sabe, poucos danantes. Muitos jogadores de solo e conversadores de
poltica.

 Mas como foi a
constipao?

 A constipao
no teve nada com ele; foi um modo que achei de dar a notcia. E olha que no
dana mal, ao contrrio.

 Um anjo, em
suma?

 Eu, se fosse
voc, no o deixava ir assim. Acho que d um bom marido. Experimenta, Finoca.

Macedo sara do
baile um tanto consolado da ausncia de Finoca; as maneiras de Alberta, a
elegncia do vestido, as feies bonitas, e um certo ar de tristeza que, de
quando em quando, lhe cobria o rosto, tudo e cada uma dessas notas particulares
era de fazer pensar alguns minutos antes de dormir. Foi o que lhe aconteceu.
Vira outras moas; mas nenhuma tinha o ar daquela. E depois era graciosa nos
intervalos de tristeza; dizia palavras doces, ouvia com interesse. Supor que o
tratou assim s por desconfiar que ele gostava da amiga, isto  que lhe parecia
absurdo. No, realmente, era um anjo.

 Um anjo, disse
ele da a dias ao irmo de Alberta.

 Quem?

 D. Alberta, sua
irm.

 Sim, boa alma,
excelente criatura.

 Pareceu-me isso
mesmo. Para conhecer uma pessoa, bastam s vezes alguns minutos. E depois 
muito galante  galante e modesta.

 Um anjo!
repetiu o outro sorrindo.

Quando Alberta
soube deste pequeno dilogo  contou-lho o irmo  sentiu-se um tanto
lisonjeada, talvez muito. No eram pedras que o rapaz lhe atirava de longe, mas
flores  e flores aromticas. De maneira que, quando no domingo prximo o irmo
o convidou a jantar em casa dele, e ela viu entrar, pouco antes de irem para a
mesa, a pessoa do Macedo, teve um estremecimento agradvel. Cumprimentou-o com
prazer. E perguntou a si mesma, por que  que Finoca desdenhava de um moo to
digno, to modesto... Repetiu ainda este adjetivo.  que ambos teriam a mesma
virtude.

Dias depois,
dando notcia do jantar a Finoca, Alberta referiu novamente a impresso que lhe
deixara o Macedo, e instou com a amiga para que lhe desse corda, e acabassem
casando.

Finoca pensou
alguns instantes:

 Voc, que j
danou com ele duas valsas e duas quadrilhas, e jantou  mesma mesa, e ouviu
francamente as suas palavras, pode ter essa opinio; a minha  inteiramente
contrria. Acho que ele  um cacete.

 Cacete porque
gosta de voc?

 H diferena
entre perseguir uma pessoa e danar com outra.

  justamente o
que eu digo, acudiu Alberta; se voc danar com ele, ver que  outro; mas, no
dance, fale s... Ou ento, volto ao plano que tnhamos: vou falar-lhe de voc,
anim-lo...

 No, no.

 Sim, sim.

 Ento brigamos.

 Pois
brigaremos, contanto que faamos as pazes na vspera do casamento.

 Mas que
interesse tem voc nisto?

 Porque acho que
voc gosta dele, e, se no gostava muito nem pouco, comea a gostar agora.

 Comeo? No
entendo.

 Sim, Finoca;
voc j me disse duas palavras com a testa franzida. Sabe o que ?  um
bocadinho de cime. Desde que soube do baile e do jantar, ficou meia ciumenta 
arrependida de no ter animado o moo... No negue;  natural. Mas faa uma
coisa; para que Miranda no se esquea de mim, v voc a S. Paulo, e trate de
fazer-me boas ausncias. Aqui est a carta que recebi ontem dele.

Dizendo isto,
desabotoou um pedao do corpinho, e tirou uma carta, que ali trazia, quente e
aromada. Eram quatro pginas de saudades, de esperanas, de imprecaes contra
o cu e a terra, adjetivada e beijada, como  de uso nesse gnero epistolar.
Finoca apreciou muito o documento; felicitou a amiga pela fidelidade do
namorado, e chegou a confessar que lhe tinha inveja. Foi adiante; nunca
recebera de ningum uma epstola assim, to ardente, to sincera... Alberta
deu-lhe uma pancadinha na face com o papel, e releu-o depois, para si. Finoca,
olhando para ela, disse consigo:

 Creio que
tambm ela gosta muito dele.

 Se voc nunca
recebeu uma assim  disse-lhe Alberta   porque no quer. O Macedo...

 Basta de
Macedo!

A conversa voltou
ao ponto de partida, e as duas moas andaram no mesmo crculo vicioso. No
tenho culpa se eram escassas de assunto e de idias. Hei de contar a histria,
que  curta, tal qual ela , sem lhe pr mais nada, alm da boa vontade e da
franqueza. Assim, para ser franco, direi que a repulsa de Finoca no era talvez
falta de interesse nem de curiosidade. A prova  que, naquela mesma semana,
passando-lhe pela porta o Macedo, e olhando naturalmente para ela, Finoca
afligiu-se menos que das outras vezes;  certo que desviou os olhos logo, mas
sem horror; no deixou a janela, e, quando ele, ao dobrar a esquina, voltou a
cabea, e no a viu fit-lo, viu-a fitar o cu, que  um refgio e uma
esperana. Tu concluirias assim, rapaz que me ls; Macedo no foi to longe.

 Afinal, o
melhor  no pensar mais nela, murmurou andando.

Entretanto, ainda
pensou nela, de mistura com a outra, viu-as ao p de si, uma desdenhosa, outra
atenciosa, e perguntou por que  que as mulheres haviam de ser diferentes; mas,
advertindo que os homens tambm o eram, convenceu-se que no nascera para os
problemas morais, e deixou cair os olhos no cho. No caram no cho, mas nos
sapatos. Mirou-os bem. Que lindos que eram os sapatos! No eram recentes, mas
um dos talentos do Macedo era saber conservar a roupa e o calado. Com pouco
dinheiro, fazia sempre bonita figura.

 Sim  repetiu
ele, da a vinte minutos, Rua da Ajuda abaixo  o melhor  no pensar mais
nela.

E ps mentalmente
os olhos em Alberta, to cheia de graa, to elegante de corpo, to doce de
palavras  uma perfeio. Mas por que  que, sendo atenta com ele,
furtava-se-lhe quando ele a mirava de certo modo? Zanga no era, nem desdm,
porque da a pouco falava-lhe com a mesma bondade, perguntava-lhe isto e
aquilo, respondia bem, sorria, e cantava, quando ele lhe pedia que cantasse.
Macedo animava-se com isto, arriscava outro daqueles olhares doces e ferinos, a
um tempo, e a moa voltava o rosto, disfarando. Eis a outro problema, mas
desta vez no fitou o cho nem os sapatos. Foi andando, esbarrou num homem,
escapou de cair num buraco, quase no deu por nada, to ocupado levava o
esprito.

As visitas
continuaram, e o nosso namorado universal parecia fixar-se de vez na pessoa de
Alberta, apesar das restries que ela lhe punha. Em casa desta, notavam a
assiduidade de Macedo, e a boa vontade com que ela o recebia, e os que tinham
notcia vaga ou positiva do namoro militar, no compreendiam a moa, e
concluam que a ausncia era uma espcie de morte  restrita, mas no menos
certa. E contudo ela trabalhava para a outra, no digo que com igual esforo
nem continuidade; mas em achando modo de elogi-la, fazia-o com prazer, embora
j sem grande paixo. O pior  que no h elogios infinitos, nem perfeies que
se no acabem de louvar, quando menos para no vulgariz-las. Alberta temeu,
alm disso, a vergonha do papel que lhe poderiam atribuir; refletiu tambm que,
se o Macedo gostasse dela, como entrava a parecer, ouviria o nome da outra com
impacincia, seno coisa pior  e calou-o por algum tempo.

 Voc ainda
continua a trabalhar por mim? perguntou-lhe um dia Finoca.

Alberta, um tanto
espantada da pergunta (no falavam mais naquilo) respondeu que sim.

 E ele?

 Ele, no sei.

 Esqueceu-me.

 Que se
esquecesse no digo, mas voc foi to fria, to cruel...

 A gente no v,
s vezes, o que lhe convm, e erra. Depois, arrepende-se. H dias, vi-o entrar
no mesmo armarinho em que estivemos uma vez, lembra-se? Viu-me, e no fez caso.

 No fez caso?
Ento para que entrou l?

 No sei.

 Comprou alguma
coisa?

 Creio que
no... No comprou, no; foi falar a um dos caixeiros, disse-lhe no sei qu, e
saiu.

 Mas est certa
que ele reparou em voc?

 Perfeitamente.

 O armarinho 
escuro.

 Qual escuro!
Viu-me, chegou a tirar o chapu disfaradamente, como era costume...


Disfaradamente?

 Sim, era um
gesto que fazia...

 E ainda faz
esse gesto?

 Naquele dia
fez, mas sem se demorar nada. Antigamente, era capaz de comprar ainda que fosse
uma boneca, s para ver-me mais tempo. Agora... E at j nem passa l por casa!

 Talvez passe
nas horas em que voc no est  janela.

 H dias, em que
estou a tarde inteira, no contando os domingos e dias santos.

Calou-se,
calaram-se. Estavam em casa de Alberta, e ouviram um som de caixa de rufo e
marcha de tropa. Que coisa mais adequada que fazer uma aluso ao Miranda e
perguntar quando voltaria? Finoca preferiu falar do Macedo, agarrando as mos 
amiga:

  uma coisa que
no posso explicar, mas agora gosto dele; parece-me, no digo que goste de
verdade; parece-me...

Alberta
cortou-lhe a palavra com um beijo. No era de judas, porque sinceramente
Alberta quis assim pactuar com a amiga a entrega do noivo e o casamento. Mas
quem descontaria aquele beijo, em tais circunstncias? Verdade  que o tenente
estava em S. Paulo, e escrevia; mas, como Alberta perdesse alguns correios e
explicasse o fato pela necessidade de no descobrir a correspondncia, ele j
escrevia menos vezes, menos copioso, menos ardente, coisa que uns justificariam
pelas cautelas da situao e pelas obrigaes de ofcio, outros por um namoro
de passagem que ele trazia no bairro da Consolao. Foi, talvez, este nome que
levou o namorado de Alberta a freqent-lo; achou ali uma menina, cujos olhos,
mui parecidos com os da moa ausente, sabiam fitar com igual tenacidade. Olhos
que deixam vestgio; ele recebeu-os e mandou os seus em troca  tudo pela
inteno de mirar a outra, que estava longe, e pela idia de que o nome do
bairro no era casual. Um dia escreveu-lhe, ela respondeu; tudo consolaes!
Justo  dizer que ele suspendeu a correspondncia para o Rio de Janeiro  ou
para no tirar o carter consolador da correspondncia local, ou para no
gastar todo o papel.

Quando Alberta
notou que as cartas tinham cessado de todo, sentiu em si indignao contra o
vil, e desligou-se da promessa de casar com ele. Casou trs meses depois com
outro, com o Macedo  aquele Macedo  o idiota Macedo. Pessoas que assistiram
ao casamento, dizem que nunca viram noivos mais risonhos nem mais felizes.

Ningum viu
Finoca entre os convidados, o que fez pasmar as amigas comuns. Uma destas
observou que Finoca, desde o colgio, fora sempre muito invejosa. Outra disse
que estava fazendo muito calor, e era verdade.
