Crtica, Carlos Jansen: Contos seletos das mil e uma noites, 1882

Carlos Jansen: Contos seletos das mil
e uma noites

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
como prefcio a Contos seletos das mil e uma noites, Rio de Janeiro,
Laemmert & C., s/d.

Republicada
na Revista do Brasil, junho de 1939

[Escrito em outubro de 1882.]

O Sr. Carlos Jansen
tomou a si dar  mocidade brasileira uma escolha daqueles famosos contos rabes
das Mil e Uma Noites, adotando o plano do educacionista alemo Franz
Hoffmann. Esta escolha  conveniente; a mocidade ter assim uma amostra
interessante e apurada das fantasias daquele livro, alguns dos seus melhores
contos, que esto aqui, no como nas noites de Sheherazade, ligados por uma
fbula prpria do Oriente, mas em forma de um repositrio de coisas alegres e
ss.

Para os nossos jovens
patrcios creio que  isto novidade completa. Outrora conhecia-se, entre ns,
esse maravilhoso livro, to peculiar e variado, to cintilante de pedrarias, de
olhos belos, to opulentos de sequins, to povoado de vizires e sultanas, de
idias morais e lies graciosas. Era popular; e, conquanto no se lesse ento
muito, liam-se e reliam-se as Mil e Uma Noites. A outra gerao
tinha,  verdade, a boa f precisa, uma certa ingenuidade, no para crer tudo,
porque a mesma princesa narradora avisava a gente das suas invenes, mas para
achar nestas um recreio, um gozo, um embevecimento, que ia de par com as
lgrimas, que ento arrancavam algumas obras romanescas, hoje inspidas. E
nisto se mostra o valor das Mil e Uma Noites: porque os anos passaram, o
gosto mudou, poder voltar e perder-se outra vez, como  prprio das correntes
pblicas, mas o mrito do livro  o mesmo. Essa galeria de contos, que Macaulay
citava algumas vezes, com prazer,  ainda interessante e bela, ao passo que
outras histrias do Ocidente, que encantavam a gerao passada, com ela
desapareceram.

Os melhores daqueles,
ou alguns dos melhores, esto encerrados, neste livro do Sr. Carlos Jansen. As
figuras de Sindbad, Ali-Bab, Harum al Raschid, o Aladim da lmpada misteriosa,
passam aqui, ao fundo azul do Oriente, a que a linha curva do camelo e a
fachada rabe dos palcios do o tom pitoresco e mgico daqueles outros contos
de fadas da nossa infncia. Algumas dessas figuras andam at vulgarizadas em
peas mgicas de teatro, pois aconteceu s Mil e Uma Noites o que
se deu com muitas outras invenes: foram exploradas e saqueadas para a cena.
Era inevitvel, como por outro lado era inevitvel que os compositores pegassem
das criaes mais pessoais e sublimes dos poetas para amold-las  sua
inspirao, que  por certo fecunda, elevada e grande, mas no deixa de ser
parasita. Nem Shakespeare escapou, o divino Shakespeare, como se Macbeth precisasse
do comentrio de nenhuma outra arte, ou fosse empresa fcil traduzir
musicalmente a alma de Hamlet. No obstante a vulgarizao pela mgica de
algumas daquelas figuras rabes, elas a esto com o cunho primitivo, esse que
d o silncio do livro, ajudado da imaginao do leitor.

Este, se ao cabo de
poucas pginas vier a espantar-se de que o Sr. Carlos Jansen, brasileiro de
adoo, seja alemo de nascimento, e escreva de um modo to correntio a nossa
lngua, no provar outra coisa mais do que negligncia da sua parte. A
imprensa tem recebido muitas confidncias literrias do Sr. Carlos Jansen; a Revista
Brasileira (para citar somente esta minha saudade) tem nas suas pginas um
romance do nosso autor. E conhecer e escrever uma lngua, como a nossa, no 
tarefa de pouca monta, ainda para um homem de talento e aplicao. O Sr. Carlos
Jansen maneja-a com muita preciso e facilidade, e dispe de um vocabulrio
numeroso. Esse livro  uma prova disso, embora a crtica lhe possa notar uma ou
outra locuo substituvel, uma ou outra frase melhorvel. So mincias que no
diminuem o valor do todo.

Esquecia-me que o livro
 para adolescentes, e que estes pedem-lhe, antes de tudo, interesse e
novidades. Digo-lhes que os acharo aqui. Um descendente de teutes conta-lhes
pela lngua de Alencar e Garrett umas histrias mouriscas: com aquele operrio,
esse instrumento e esta matria, d-lhes o Sr. Laemmert, velho editor
incansvel, um brinquedo graciosssimo, com que podem entreter algumas horas
dos seus anos em flor. Sobra-lhes para isso a ingenuidade necessria; e
a ingenuidade no  mais do que a primeira poro do ungento misterioso, cuja
histria  contada nestas mesmas pginas. Esfregado na plpebra esquerda de
Abdallah, deu-lhe o espetculo de todas as riquezas da terra; mas o pobre-diabo
era ambicioso, e, para possuir o que via, pediu ao derviche que lhe ungisse
tambm a plpebra direita, com o que cegou de todo. Creio que esta outra poro
do ungento  a experincia. Depressa, moos, enquanto o derviche no unge a
outra plpebra!
