Conto, Joo Fernandes, 1894

Joo Fernandes

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/.

Publicado originalmente em A Estao, de 15/01/1894.

H muitos anos. O sino de S.
Francisco de Paula bateu duas horas. Desde pouco mais de meia noite deixou este
rapaz, Joo Fernandes, o botequim da Rua do Hospcio, onde lhe deram ch com
torradas, e um charuto por cinco tostes. Joo Fernandes desceu pela Rua do
Ouvidor, na esquina da dos Ourives viu uma patrulha. Na da Quitanda deu com
dois caixeiros que conversavam antes de ir cada um para o seu armazm. No os
conhecia, mas presumiu que fossem tais, e acertou; eram ambos moos, quase
imberbes. Falavam de amores.

 A Rosinha no tem razo, dizia
um; eu conheo muito bem o Miranda...

 Ests enganado; o Miranda  uma
besta.

Joo Fernandes foi at  Rua Primeiro de Maro; desandou,
os dois caixeiros despediam-se; um seguiu para a Rua de S. Bento, outro para a
de S. Jos.

 Vo dormir! suspirou ele.

Iam rareando os encontros. A patrulha
caminhava at o largo de S. Francisco de Paula. No largo passaram dois vultos,
ao longe. Trs tlburis, parados junto  Escola Politcnica, aguardavam
fregueses. Joo Fernandes, que vinha poupando o charuto, no pde mais; no
tendo fsforos, endireitou para um dos tlburis.

 Vamos, patro, disse o cocheiro;
para onde ?

 No  servio, no; voc tem
fsforos?

O cocheiro esfriou e respondeu
calado, metendo a mo no bolso para tinir a caixa de fsforos; mas to
vagarosamente o fez que Joo Fernandes a tempo se lembrou de lhe cercear o
favor, bastava permitir que acendesse o charuto na lanterna. Assim fez, e
despediu-se agradecendo. Um fsforo sempre vale alguma coisa, disse ele
sentenciosamente. O cocheiro resmungou um dito feio, tomou a embrulhar-se em si
mesmo, e estirou-se na almofada. Era uma fria noite de junho. Tinha chovido de
dia, mas agora no havia a menor nuvem no cu. Todas as estrelas rutilavam.
Ventava um pouco  frio, mas brando.

Que no haja inverno para
namorados,  natural; mas ainda assim era preciso que Joo Fernandes fosse
namorado, e no o era. No so amores que o levam rua abaixo, rua acima, a
ouvir o sino de S. Francisco de Paula, a encontrar patrulhas, a acender o
charuto na lanterna dos carros. Tambm no  poesia. Na cabea deste pobre
diabo de vinte e seis anos no arde imaginao alguma, que forceje por falar e
verso ou prosa. Filosofia, menos. Certo, a roupa que o veste  descuidada, como
os cabelos e a barba; mas no  por filosofia que os traz assim. Convm firmar bem
um ponto; a nota de cinco tostes que ele deu pelo ch e pelo charuto foi a
ltima que trazia. No possua agora nada mais, salvo uns dois vintns,
perdidos no bolso do colete. Vede a triste carteira velha que ele tirou agora,
 luz do lampio, para ver se acha algum papel, naturalmente, ou outra coisa;
est cheia de nada. Um lpis sem ponta, uma carta, um anncio do Jornal do
Comrcio, em que se diz precisar algum de um homem para cobrana. O
anncio era da vspera. Quando Joo Fernandes foi ter com o anunciante (era
mais de meio-dia) achou o lugar ocupado.

Sim, no tem emprego. Para
entender o resto, no vades crer que perdeu a chave da casa. No a perdeu, no
a possui. A chave est com o proprietrio do cmodo que ele ocupou durante
alguns meses, no tendo pago mais de dois, pelo que foi obrigado a despej-lo
antes de ontem. A noite passada achou meio de dormir em casa de um conhecido, a
pretexto de ser tarde e estar com sono. Qualquer coisa servia, disse ele, uma
esteira, uma rede, um canto, sem lenol, mas teve boa: cama e almoo. Esta
noite no achou nada. A boa fada das camas fortuitas e dos amigos encontradios
andaria tresnoitada e dormia tambm. Quando lhe acontecia alguma destas (no
era a primeira), Joo Fernandes s tinha dois ou trs mil-ris, ia a alguma
hospedaria e alugava um quarto pela noite; desta vez havia de contentar-se com
a rua. No era a primeira noite que passava ao relento; trazia o corpo e a alma
curtidos de viglias foradas. As estrelas, ainda mais lindas que indiferentes,
j o conheciam de longa data. A cidade estava deserta; o silncio agravava a
solido.

 Trs horas! murmurou Joo
Fernandes no Rossio, voltando dos lados da Rua dos Invlidos. Agora amanhece
tarde como o diabo.

Abotoou o palet, e toca a
imaginar. Era preciso empregar-se, e bem, para se no expor a no ter onde
encostar a cabea. Em que lugar dormiria no dia seguinte? Teve idias
petroleiras. Do petrleo ao incndio  um passo. Oh! se houvesse um incndio
naquele momento! Ele correria ao lugar, e a gente, o alvoroo, a polcia e os
bombeiros, todo o espetculo faria correr o tempo depressa. Sim, podia muito
bem arder uma casa velha, sem morrer ningum, poucos trastes, e no seguro. No
era s distrao, era tambm repouso. Haveria um pretexto para sentar-se em
alguma soleira de porta. Agora, se o fizesse, as patrulhas poderiam desconfiar,
ou recolh-lo como vagabundo. A razo que o levava a andar sempre, sempre, era
fazer crer, se algum o visse, que ia para casa. s vezes, no podia continuar,
e parava a uma esquina, a uma parede; ouvindo passos, patrulha ou no,
recomeava a marcha. Passou um carro por ele, aberto, dois rapazes e duas
mulheres dentro, cantando uma reminiscncia de Offenbach. Joo Fernandes
suspirou; uns tinham carro, outros nem cama... A sociedade  madrasta, rugiu
ele.

A vista dos teatros azedou-lhe
mais o esprito. Passara por eles, horas antes, vira-os cheios e iluminados,
gente que se divertia, mulheres no saguo, sedas, flores, luvas, homens com
relgio no colete e charuto na boca. E toda essa gente dormia agora, sonhando
com a pea ou com os seus amores. Joo Fernandes pensou em fazer-se ator; no
teria talento, nem era preciso muito para dizer o que estivesse no papel. Uma
vez que o papel fosse bom, engraado, ele faria rir. Ningum faz rir com papis
tristes. A vida de artista era independente; bastava agradar ao pblico. E
recordava as peas vistas, os atores conhecidos, as grandes barrigadas de riso
que tivera. Tambm podia escrever uma comdia. Chegou a imaginar um enredo, sem
advertir que eram reminiscncias de vrias outras composies.

Os varredores das ruas comearam a
dificultar o trnsito com a poeira. Joo Fernandes entrou a desvairar ainda
mais os passos. Foi assim que chegou  praia da Glria, onde gastou alguns
minutos vendo e ouvindo o mar que batia na praia com fora. Tomou abaixo; ouviu
o ganir de um co, ao longe. Na rua alguns dormiam, outros fugiam, outros
latiam, quando ele passava. Invejou os ces que dormiam; foi ao ponto de
invejar os burros dos tlburis parados, que provavelmente dormiam tambm. No
centro da cidade a solido era ainda a mesma. Um ou outro vulto comeava a
aparecer, mas raro. Os ratos ainda atropelavam o noctmbulo, correndo de um
lado para outro da rua, dando idia de uma vasta populao subterrnea de
roedores, que substituam os homens para no parar o trabalho universal. Joo
Fernandes perguntava a si mesmo por que no imitaria os ratos; tinha febre, era
um princpio de delrio.

 Uma, duas, trs, quatro, contou
ele, parado no Largo da Carioca. Eram as badaladas do sino de S. Francisco.
Pareceu-lhe ter contado mal; pelo tempo deviam ser cinco horas. Mas era assim
mesmo, disse afinal; as horas noturnas e solitrias so muito mais compridas
que as outras. Um charuto, naquela ocasio, seria um grande benefcio; um
simples cigarro podia enganar a boca, os dois vintns restantes bastavam-lhe
para comprar um ordinrio; mas onde?

A noite foi inclinando o rosrio
das horas para a manh, sua companheira. Joo Fernandes ouviu-as de um relgio,
quando passava pela Rua dos Ourives; eram cinco; depois outro relgio deu as
mesmas cinco; adiante, outro; mais longe, outro.  Uma, duas, trs, quatro,
cinco, dizia ainda outro relgio.

Joo Fernandes correu ao botequim
onde tomara ch. Alcanou um caf e a promessa de um almoo, que pagaria 
tarde ou no dia seguinte. Conseguiu um cigarro. O entregador do Jornal do
Comrcio trouxe a folha; ele foi o primeiro a abri-la e l-la. Chegavam
empregados dos arsenais, viajantes da estrada de ferro, simples vizinhos que
acordavam cedo, e porventura algum vadio sem casa. O rumor trazia a Joo
Fernandes a sensao da vida; gentes, falas, carroas, a recomeava a cidade e
a faina. O dia vinha andando, rpido, cada vez mais rpido, at que tudo ficou
claro; o botequim apagou o gs. Joo Fernandes acabou de ler o Jornal  luz do
dia. Espreguiou-se, sacudiu a morrinha, despediu-se:

 At logo!

Enfiou pela rua abaixo, com os
olhos no futuro cor de rosa: a certeza do almoo. No se lembrara de procurar algum
anncio no Jornal; viu, porm, a notcia de que o ministrio ia ser interpelado
nesse dia. Uma interpelao ao ministrio! Almoaria s dez horas; s onze
estaria na galeria da cmara. A tinha com que suprir o jantar.
