Crtica, Crtica teatral, 1906

Crtica teatral

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado em Relquias
de Casa Velha, Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1906.

O TEATRO NACIONAL

H uns bons trinta anos o Misantropo
e o Tartufo faziam as delcias da sociedade fluminense; hoje seria
difcil ressuscitar as duas imortais comdias. Querer isto dizer que,
abandonando os modelos clssicos, a estima do pblico favorece a reforma
romntica ou a reforma realista? Tambm no; Molire, Victor Hugo, Dumas Filho,
tudo passou de moda; no h preferncias nem simpatias. O que h  um resto de
hbito que ainda rene nas platias alguns espectadores; nada mais; que os
poetas dramticos, j desiludidos da cena, contemplam atentamente este fnebre
espetculo; no os aconselhamos, mas  talvez agora que tinha cabimento a
resoluo do autor das Asas de um Anjo quebrar a pena e fazer dos
pedaos uma cruz.

Deduzir de semelhante estado a
culpa do pblico, seria transformar o efeito em causa. O pblico no tem culpa nenhuma, nem do estado da arte, nem da sua indiferena por
ela; uma prova disso  a solicitude com que corre a ver a primeira
representao das peas nacionais, e os aplausos com que sempre recebe os
autores e as obras, ainda as menos corretas. Graas a essa solicitude, mais
claramente manifestada nestes ltimos anos, o teatro nacional pde
enriquecer-se com algumas peas de vulto, frutos de uma natural emulao, que,
alis, tambm amorteceu pelas mesmas causas que produziram a  indiferena
pblica. Entre a sociedade e o teatro, portanto, j no h liames nem
simpatias; longe de educar o gosto, o teatro serve apenas para desenfastiar o
esprito, nos dias de maior aborrecimento. No est longe a completa dissoluo
da arte; alguns anos mais, e o templo ser um tmulo.

As testemunhas do tempo dizem que
as comdias citadas acima acham sempre o pblico disposto e atencioso; era um
sintoma excelente.  verdade que, depois do Tartufo, aparecia Pourcegnac
e mais o cortejo dos boticrios e dos trues, no dia seguinte ao do Misantropo,
ia-se ver o doutoramento do Doente Imaginrio. Neste ponto o teatro
brasileiro de 1830 no podia andar adiante da Comdia Francesa, onde, segundo
cremos, ainda se no dispensam os acessrios daquelas duas excelentes farsas,
se  que se pode chamar farsa ao Doente Imaginrio.

Os diretores daquele tempo
pareciam compreender que o gosto devia ser plantado a pouco e pouco, e para
fazer aceitar o Molire do alto cmico, davam tambm o Molire do baixo cmico;
inimitveis ambos. Fazia-se o que, em matria financeira, se chama dar curso
forado s notas, com a diferena, porm, de que ali obrigava-se o curso do
ouro de lei. Nem eram esses os nicos exemplos de preciosas exumaes; mas nem
esses nem outros puderam subsistir; causas, em Parte naturais, em parte
desconhecidas, trouxeram ao teatro fluminense uma nova situao.

No  preciso dizer que a
principal dessas causas foi a reforma romntica; desde que a nova escola,
constituda sob a direo de Victor Hugo pde atravessar os mares, e penetrar
no Brasil, o teatro, como era natural, cedeu ao impulso e aceitou a idia
triunfante. Mas como? Todos sabem que a bandeira do Romanticismo cobriu muita
mercadoria deteriorada; a idia da reforma foi levada at aos ltimos limites,
foi mesmo alm deles, e da nasceu essa coisa hbrida que ainda hoje se
escreve, e que, por falta de mais decente designao, chama-se
Ultra-romanticismo. A cena brasileira,  exceo de algumas peas excelentes,
apresentou aos olhos do pblico uma longa srie de obras monstruosas, criaes
informes, sem nexo, sem arte, sem gosto, nuvens negras que escureceram desde
logo a aurora da revoluo romntica. Quanto mais o pblico as aplaudia, mais
requintava a inventiva dos poetas; at que a arte, j trucidada pelos maus
imitadores, foi empolgada por especuladores excelentes, que fizeram da
extravagncia dramtica um meio de existncia. Tudo isso reproduziu a cena
brasileira, e raro aparecia, no meio de tais monstruosidades, uma obra que trouxesse
o cunho de verdadeiro talento.

Sem haver terminado o perodo
romntico, mas apenas amortecido o primeiro entusiasmo, aportou s nossas
plagas a reforma realista, cujas primeiras obras foram logo coroadas de
aplausos; como anteriormente, veio-lhes no encalo a longa srie das imitaes
e das exageraes; e o Ultra-realismo tomou o lugar do Ultra-romanticismo, o
que no deixava de ser montono. Aconteceu o mesmo que com a reforma
precedente; a teoria realista, como a teoria. romntica, levadas at  exagerao,
deram o golpe de misericrdia no esprito pblico. Salvaram-se felizmente os
autores nacionais. A estas causas, que chamaremos histricas, juntam-se outras,
circunstanciais ou fortuitas, e nem por isso menos poderosas; h, porm, uma
que vence as demais, e que nos parece de carter grave: apont-la  mostrar a
natureza do remdio aplicvel  doena.

Para que a literatura e a arte
dramtica possam renovar-se, com garantias do futuro, torna-se indispensvel a
criao de um teatro normal. Qualquer paliativo, neste caso, no adianta coisa
nenhuma, antes atrasa, pois que  necessrio ainda muito tempo para colocar a
arte dramtica nos seus verdadeiros eixos. A iniciativa desta medida s pode
partir dos poderes do Estado; o Estado, que sustenta uma academia de pintura,
arquitetura e estaturia, no achar razo plausvel para eximir-se de criar
uma academia dramtica, uma cena-escola, onde as musas achem terreno digno
delas, e que possa servir para a reforma necessria no gosto pblico.

Argumentar com o exemplo do
estrangeiro seria, sobre prolixo, ocioso. Basta lembrar que a idia da criao
de um teatro normal j entrou nas preocupaes do governo do Brasil. O Sr.
Conselheiro Sousa Ramos, quando ministro do imprio, em 1862, nomeou uma
comisso composta de pessoas competentes para propor as medidas tendentes ao
melhoramento do teatro brasileiro. Essas pessoas eram os Srs. Conselheiro Jos
de Alencar e Drs. Macedo e Meneses e Sousa. Alm disso, consta-nos de fonte
insuspeita que S. Ex. escrevera  ao Sr. Porto Alegre pedindo igualmente o
auxlio das suas luzes neste assunto, e existe a resposta do autor do Colombo
nos arquivos da secretaria de Estado. No podemos deixar de mencionar com
louvor o nome do Sr. Conselheiro Sousa Ramos pelos passos que deu, e que,
infelizmente, no tiveram resultado prtico.

A carta do Sr. Porto Alegre
ocupa-se mais detidamente das condies arquitetnicas de um edifcio para
servir simultaneamente de teatro dramtico e teatro lrico. Os pareceres da comisso
 que tratam mais minuciosamente do assunto; dizemos os pareceres, por que o
Sr. Dr. Macedo separou-se da opinio dos seus colegas, e deu voto individual. O
parecer da maioria da comisso estabelece de uma maneira definitiva a
necessidade da construo de um edifcio destinado  cena dramtica e  pera
nacional. O novo teatro deve chamar-se, diz o parecer, Comdia Brasileira, e
ser o teatro da alta comdia. Alm disso, o parecer mostra a necessidade de
criar um conservatrio dramtico, de que seja presidente o inspetor-geral dos
teatros, e que tenha por misso julgar da moralidade e das condies literrias
das peas destinadas aos teatros subvencionados, e da moralidade, decncia,
religio, ordem pblica, dos que pertencerem aos teatros de particulares. A
Comdia Brasileira seria ocupada pela melhor companhia que se organizasse, com
a qual o governo poderia contratar, e que receberia uma subveno, tirada, bem
como o custo do teatro, dos fundos votados pelo corpo legislativo para a
academia da msica. Os membros do conservatrio dramtico, nomeados pelo
governo e substitudos trienalmente, perceberiam uma gratificao e teriam a
seu cargo a inspeo interna de todos os teatros.

O parecer do Sr. Dr. Macedo,
concordando, em certos pontos, com o da maioria da comisso, separa-se,
entretanto, a outros respeitos, e tais so, por exemplo, o da construo de um
teatro, que no julga indispensvel, e da organizao do conservatrio e da
companhia normal. A maioria da comisso fez acompanhar o seu parecer de um
projeto para a criao do novo conservatrio dramtico e providenciando acerca
da construo de um teatro de Comdia Brasileira. O Sr. Dr. Macedo, alm do
parecer, deu tambm um projeto para a organizao provisria do teatro normal,
acompanhado de um oramento de despesa e receita.

Esta simples exposio basta para
mostrar o zelo da comisso em desempenhar a incumbncia do governo, e neste
sentido as vistas deste no podiam ser melhor auxiliadas. Dos dois pareceres o
que nos agrada mais  o da maioria da comisso por ser o que nos parece
abranger o interesse presente e o interesse futuro, dando  instituio um
carter definitivo, do qual depende a sua realizao. No temos grande f numa
organizao provisria; a necessidade das aulas para a educao de artistas
novos e aperfeioamento dos atuais, pode ser preenchida mesmo com o projeto da
maioria da comisso, e julgamos esse acrscimo indispensvel, porquanto 
preciso legislar principalmente para o futuro. O governo do Brasil tem-se
aplicado um pouco a este assunto, e era conveniente aproveitar-lhe os bons
desejos  e propor logo uma organizao completa e definitiva. Fora sem
dvida para desejar que a Comdia Brasileira ficasse exclusivamente a cargo do
governo, que faria dela uma dependncia do ministrio do Imprio, com oramento
votado pelo corpo legislativo. Nisto no vemos s unia condio de solenidade,
mas tambm uma razo de segurana futura.

Criando um conservatrio
dramtico, assentado em bases largas e definidas, com carter pblico, a comisso
atentou para uma necessidade indeclinvel, sobretudo quando exige para as peas
da Comdia Brasileira o exame das condies literrias. Sem isso, a idia de um
teatro-modelo ficaria burlada, e no raro veramos invadi-lo os brbaros da
literatura. No regmen atual, a polcia tem a seu cargo o exame das peas no
que respeita  moral e ordem pblica. No temos presente a lei, mas se ela no
se exprime por outro modo,  difcil marear o limite da moralidade de uma pea,
e nesse caso as atribuies da autoridade policial, sobre incompetentes, so
vagas, o que no torna muito suave a posio dos escritores.

Sabemos que, alm da comisso
nomeada pelo Sr. Conselheiro Sousa Ramos, foi posteriormente consultada pelo
Sr. Marqus de Olinda uma pessoa muito competente nesta matria, que apresentou
ao atual Sr. Presidente do Conselho um longo parecer. Temos razo para crer
tambm que o Sr. Porto Alegre, consultado em 1862, j o tinha sido em 1853 e
1856. V-se, pois, que a criao do teatro normal entra h muito tempo nas
preocupaes do governo.  urgncia da matria no se tirava o carter de
importncia. e assim pode-se explicar o escrpulo do governo em no pr mos 
obra, sem estar perfeitamente esclarecido. Os nomes das pessoas consultadas, o
desenvolvimento das diferentes idias emitidas, e sobretudo o estado precrio
da literatura e da arte dramtica, tudo est dizendo que a Comdia Brasileira
deve ser criada de uma maneira formal e definitiva.

Esta demora em executar uma obra
to necessria ao pas pode ter causas diversas, mas seguramente que uma delas
 a no permanncia dos estadistas no governo, e a natural alternativa da
balana poltica; cremos, porm, que os interesses da arte entram naquela ordem
de interesses perptuos da sociedade, que andam a cargo da entidade moral do
governo, e constituem, nesse caso, um dever geral e comum. Se, depois de tantos
anos de amarga experincia, e dolorosas decepes, no vier uma lei que ampare
a arte e a literatura, lance as bases de uma firme aliana entre o pblico e o
poeta, e faa renascer a j perdida noo do gosto, fechem-se as portas do
templo, onde no h nem sacerdotes nem fiis.

Na esperana de que esta reforma
se h de efetuar, aproveitaremos o tempo, enquanto ela no chega, para fazer um
estudo dos nossos principais autores dramticos, sem nos impormos nenhuma ordem
de sucesso, nem fixao de pocas, e conforme nos forem propcios o tempo e a
disposio. Ser uma espcie de balano do passado: a Comdia Brasileira
iniciar uma nova era para a literatura.

Terminaramos aqui, se um ilustre
amigo no nos houvesse mimoseado com alguns versos inditos e recentes do poeta
brasileiro, o Sr. Francisco Muniz Barreto. Todos sabem que o Sr. Muniz Barreto
 celebrado por seu raro talento de repentista; os versos em questo foram
improvisados em circunstncias singulares. Achava-se o poeta em casa do cnsul
portugus na Bahia, onde igualmente estava Emlia das Neves, a talentosa
artista, to aplaudida nos nossos teatros. Conversava-se, quando o poeta
batendo aquelas palmas do costume, que no tempo de Bocage anunciavam os
improvisos, comps de um jacto este belssimo soneto.

Por sbios e poetas sublimado,

Teu nome ilustre pelo orbe voa:

Outra Ristri a fama te apregoa,

Outra Raquel, no portugus
tablado.

Ao teu poder magntico, prostrado,

O mais rude auditrio se agrilhoa;

Despir-te a fronte da imortal
coroa

No pode o tempo, no consegue o
fado.

De atriz o teu condo  sem
segundo;

Na cena, a cada instante, uma
vitria

Sabes das almas conquistar no
fundo.

Impera, Emlia!  teu domnio  a
histria!

Teu slio  o palco; tua corte  o
mundo;

Teu cetro o drama; teu diadema  a
glria.

Ouvindo estes versos to
vigorosamente inspirados, Emlia das Neves cedeu a um movimento natural e
correu a abraar o poeta, retribuindo-lhe a fineza, com a expresso mais
agradvel a uma fronte anci, com um beijo. Foi o mesmo que abrir uma nova
fonte de improviso; sem deter-se um minuto, o poeta produziu as seguintes
quadras faceiras e graciosas:

Como, sendo tu das Neves,

Musa, que vieste aqui,

Assim queima o peito  gente

Um beijo dado por ti?!

O que na face me deste,

Que acendeu-me o corao,

No foi sculo de  neves,

Foi um beijo de vulco.

Neves  tenho eu na cabea,

Do tempo pelos vaivns;

Tu s s  Neves  no nome,

T nos lbios fogo tens.

Beijando, no s  das Neves;

Do sol, Emlia, tu s

Como neves se derretem

Os coraes a teus ps.

O meu, que  neve  j era,

Ao toque do beijo teu,

Todo arder senti na chama,

Que da face lhe desceu.

Errou, quem o sobrenome

De  Neves  te ps, atriz.

Que s das lavas no das
neves,

Minha alma, acesa, me diz.

Chamem-te, embora, das Neves;

Vesvio te hei de eu chamar,

Enquanto a impresso do beijo,

Que me deste, conservar.

Oh! se de irm esse beijo

Produziu tamanho ardor,

Que incndio no promovera,

Se fora um beijo de amor!...

No te chames mais das Neves,

Mulher que abrasas assim;

Chama-te antes das Luzes,

E no te esqueas de mim.

Se me prometes, Emlia,

De hora em hora um beijo igual,

Por sobre neves ou fogo

Dou comigo em Portugal.

Como dissemos, estes versos so
ainda inditos; e cabe aqui aos leitores do Dirio do Rio o prazer de os
receber em primeira mo.

Semana Literria, 13 de fevereiro,
1866.

O TEATRO DE GONALVES DE MAGALHES

O nome do Sr. Dr. Magalhes, autor de Antnio
Jos, est ligado  histria do teatro brasileiro; aos seus esforos
deve-se a reforma da cena tocante  arte de declamao, e as suas tragdias
foram realmente o primeiro passo firme da arte nacional. Foi na inteno de
encaminhar o gosto pblico, que o Sr. Dr. Magalhes tentou aquela dupla
reforma, e se mais tarde voltou  antiga situao, nem por isso se devem
esquecer os intuitos do poeta e os resultados da sua benfica influncia.



Entretanto, o Sr. Dr. Magalhes s escreveu duas
tragdias, traduziu outras, e algum tempo depois, encaminhado para funes
diversas, deixou o teatro, onde lhe no faltaram aplausos. Teria ele reconhecido
que no havia no seu talento as aptides prprias para a arte dramtica? Se tal
foi o motivo que o levou a descalar o coturno de Melpmene,  crtica
sincera e amiga no pode deixar de aplaudi-lo e estim-lo. Poeta de elevado
talento, mas puramente lrico, essencialmente elegaco, buscando casar o fervor
potico  contemplao filosfica, o autor de Olgiato no  um talento
dramtico na acepo restrita da expresso.

Quando a sua musa avista de longe a cidade eterna,
ou pisa o gelo dos Alpes, ou atravessa o campo de Waterloo, v-se que tudo isso
  domnio dela, e a linguagem em que exprime os seus sentimentos  uma
linguagem prpria. O tom da elegia  natural e profundo nas  poucas
pginas dos Mistrios, livro afinado pela lamentao de J e pela
melancolia de Young. Mas a poesia dramtica no tem esses caracteres, nem essa
linguagem; e o gnio potico do Sr. Dr. Magalhes, levado, por natureza e por
estudo,  meditao expresso dos sentimentos pessoais, no pode afrontar
tranqilamente as luzes da rampa.



Isto posto, simplifica-se a tarefa de quem examina
as suas obras. O que se deve procurar ento nas tragdias do Sr. Dr. Magalhes
no  o resultado de uma vocao, mas simplesmente o resultado de um esforo
intelectual, empregado no trabalho de uma forma que no  a sua. Mesmo assim,
no  possvel esquecer que o Sr. Dr. Magalhes  o fundador do teatro
brasileiro, e nisto parece-nos que se pode resumir o seu maior elogio.



Quando o Sr. Dr. Magalhes escreveu as suas duas
tragdias, estava ainda em muita excitao a querela das escolas; o rudo da
luta no continente europeu vinha ecoar no continente americano; alistavam-se
aqui romnticos e clssicos; e todavia o autor de Antnio Jos no se
filiou nem na igreja de Racine, nem na igreja de Victor Hugo.

O poeta faz essa confisso nos prefcios que
acompanham as suas duas peas, acrescentando que, no vendo verdade absoluta em
nenhum dos sistemas, fazia as devidas concesses a ambos. Mas, apesar dessa
confisso, v-se que o poeta queria principalmente protestar contra o caminho
que levava a poesia dramtica, graas as exageraes da escola romntica,
procurando infundir no esprito pblico melhor sentimento de arte. Poderia
consegui-lo, se acaso exercesse uma ao mais eficaz mediante um trabalho mais
ativo, e uma produo mais fecunda; o seu exemplo despertaria outros, e os
talentos nacionais fariam uma cruzada civilizadora. Infelizmente no aconteceu
assim. Apareceram,  verdade, depois das obras do poeta, outras obras dignas de
ateno e cheias de talento; mas desses esforos isolados e intermitentes
nenhuma eficcia podia resultar.

O assunto de Antnio Jos  tirado da
histria brasileira. Todos conhecem hoje o infeliz poeta que morreu numa das
hecatombes inquisitoriais, por cuja renovao ainda suspiram as almas beatas.
Pouco se conhece da vida de Antnio Jos, e ainda menos se conhecia, antes da
tragdia do Sr. Dr. Magalhes. Mas do silncio da histria, diz o autor,
aproveita-se com vantagem a poesia. O autor criou, pois, um enredo: pediu duas
personagens  histria, Antnio Jos e o Conde de Ericeira, e tirou trs de sua
imaginao, Mariana, Frei Gil e Lcia. Com estes elementos escreveu a sua pea.
Mesmo atendendo ao propsito do autor em no ser nem completamente clssico,
nem completamente romntico, no se pode reconhecer no Antnio Jos o
carter de uma tragdia. Seria imprprio exigir a excluso do elemento familiar
na forma trgica ou a eterna repetio dos heris romanos. Essa no  a nossa
inteno; mas buscando realizar a tragdia burguesa, O Sr. Dr.
Magalhes, segundo nos parece, no deu bastante ateno ao elemento puramente
trgico, que devia dominar a ao, e que realmente no existe seno no 5 ato.

A ao, geralmente familiar, s vezes cmica, no
diremos nas situaes, mas no estilo, raras vezes desperta a comoo ou
interessa a alma. O 5 ato a esse respeito no sofre censura; tem apenas duas
cenas, mas cheias de interesse, e verdadeiramente dramticas; o monlogo de
Antnio Jos inspira grande piedade; as interrogaes do judeu, condenado por
uma instituio clerical a um brbaro suplcio, so cheias de filosofia e de
pungente verdade; a cena entre Antnio Jos e Frei Gil  bem desenvolvida e bem
terminada. A ltima fala do poeta  alta,  sentida,  eloqente.

Ora, estes mritos que reconhecemos no 5 ato, no
existem em tamanha soma no resto da tragdia. A prpria versificao e o
prprio estilo so diferentes entre os primeiros atos e o ltimo. H sem dvida
duas situaes dramticas, uma no 3 outra no 4, mas no so de natureza
a compensar a frieza e ausncia de paixo do resto da pea.



Aproveitando-se do silncio da histria, o Sr. Dr.
Magalhes imaginou uma fbula interessante, que, se fosse mais
aprofundada,  poderia dar magnficos efeitos. O amor de um frade por
Mariana, a luta resultante dessa situao, a denncia, a priso e o suplcio 
eis um quadro vasto e fecundo.  verdade que o autor lutava, pelo que toca a
Frei Gil, com a figura do imortal Tartufo;  mas, sem pretender entrar em
um confronto impossvel, a execuo do pensamento dramtico, o poeta podia
assumir maior interesse, e, em alguns pontos, maior gravidade. No estranhar
esta ltima expresso quem tiver presente  memria o expediente usado pelo
poeta para que Frei Gil venha a saber do refgio de Antnio Jos, e bem assim
as reflexes de Lcia, descendente em linha reta de Martine e Toinette.



No  nossa inteno entrar em anlise minuciosa;
apenas exprimimos as nossas dvidas e impresses. Ser fcil cotejar este
rpido juzo com a obra do poeta. Olgiato confirma as nossas impresses
gerais acerca da tragdia do Sr. Dr. Magalhes; tm ambas os mesmos defeitos e
as mesmas belezas; Olgiato  sem dvida mais dramtico: h cenas
patticas, situaes interessantes e vivas; mas estas qualidades, que sobressaem
sobretudo por comparao, no destroem a nossa apreciao acerca do talento
potico do Sr. Magalhes. Quando o autor pe na boca dos seus personagens
conceitos filosficos e reflexes morais, entra no seu gnero, e produz efeitos
excelentes; mas desde que estabelece a luta dramtica e faz a pintura dos
caracteres, sente-se que lhe falta a imaginao prpria e especial da cena.



O assunto de Olgiato foi bem escolhido, por
suas condies dramticas; nesse ponto a histria oferecia elementos prprios
ao poeta. Excluiu ele da tragdia o tirano Galeazzo, e explica o seu
procedimento no prefcio que acompanha a obra: a razo de exclu-lo procede de
ser Galeazzo um dos frios monstros da humanidade, diz o autor, e, alm disso,
por no ser necessrio  ao da pea.



Destas duas razes, a segunda  legtima; mas a
primeira no nos parece aceitvel. O autor tinha o direito de transportar para
a cena o Galeazzo da histria, sem ofensa dos olhos do espectador, uma vez que
conservasse a verdade ntima do carter. A poesia no tem o dever de copiar
integralmente a histria sem cair no papel secundrio e passivo do cronista.

Prevendo esta objeo, o Sr. Dr. Magalhes diz que
no podia alterar a realidade histrica, porque fazia uma tragdia,  e no um
drama. No compreendemos esta distino, e se ela exprime o que nos quer
parecer, estamos em pleno desacordo com o poeta. Por que motivo haver duas
leis especiais para fazer servir a histria  forma dramtica e  forma
trgica? A tragdia, a comdia e o drama so trs formas distintas, de ndole
diversa; mas quando o poeta, seja trgico, dramtico ou cmico, vai estudar no
passado os modelos histricos, uma nica lei deve gui-lo a mesma lei que o
deve guiar no estudo da natureza e essa lei impe-lhe o dever de alterar,
segundo os preceitos da boa arte, a realidade da natureza e da histria.
Quando, h tempos apreciamos nesta folha a ultima produo do Sr. Mendes Leal,
tivemos ocasio de desenvolver este pensamento, alis corrente e conhecido;
aplaudimos na obra do poeta portugus a aplicao perfeita deste dever
indispensvel, sem o qual, como escreve o escritor citado pelo Sr. Dr.
Magalhes, Vtor Cousin, desce-se da classe dos artistas.

Mas isto nos levaria longe, o espao de que
dispomos hoje  em extremo acanhado. As duas tragdias do Sr. Dr. Magalhes
merecem, apesar das imperfeies que nos parece haver nelas, uma apreciao
mais detida e aprofundada. Em todo o caso, o nosso pensamento a fica expresso
e claro, embora em resumo. Reconhecendo os servios do poeta em relao  arte
dramtica, o bom exemplo que deu, a conscincia com que procurou haver-se no
desempenho de uma misso toda voluntria, nem por isso lhe ocultaremos que, aos
nossos olhos, as suas tendncias no so dramticas; isto posto, crescem de
vulto as belezas das suas peas, do mesmo modo que lhe diminuem a imperfeies.



Abandonando o coturno de Melpmene, o poeta
consultou o interesse da sua glria. Que ele nos cante de novo os desesperos,
as aspiraes, os sentimentos da alma, na forma essencialmente sua, com a
lngua que lhe  prpria. O escritor, ainda novel e inexperiente, que assina
estas linhas balbuciou a poesia, repetindo as pginas dos Suspiros e
Saudades e as estrofes melanclicas dos Mistrios; para ele, o Sr.
Dr. Magalhes no vale menos, sem Antnio Jos e Olgiato.

Semana Literria, 13 de fevereiro,
1866.

O TEATRO DE JOS DE ALENCAR

I

Uma grande parte das nossas obras
dramticas apareceu neste ltimo decnio, devendo contar-se entre elas as
estrias de autores de talento e de reputao, tais como os Srs. Conselheiro
Jos de Alencar, Quintino Bocaiva, Pinheiro Guimares e outros. O Sr. Dr.
Macedo apresentou ao pblico, no mesmo perodo, novos dramas e comdias, e
estava obrigado a faz-lo, como autor d'O Cego e do Cob.
Desgraadamente, causas que os leitores no ignoram fizeram cessar  entusiasmo
de uma poca que deu muito, e prometia mais. Deveremos citar entre essas causas
a seduo poltica? No h um, dos quatro nomes citados, que no tenha cedido
aos requebros da deusa, uns na imprensa, outros na tribuna. Ora, a poltica que
j nos absorveu, entre outros, trs brilhantes talentos poticos, o Sr.
Conselheiro Otaviano, o Sr. Senador Firmino, o Sr. conselheiro Jos Maria do
Amaral, ameaa fazer novos raptos na famlia das musas. Parece-nos, todavia,
que se podem conciliar os interesses da causa pblica e da causa potica. Basta
romper de uma vez com o preconceito de que no cabem na mesma fronte os louros
da Fcion e os louros de Virglio. Por que razo o poema indito do Sr.
Conselheiro Amaral e as poesias soltas do Sr. Conselheiro Otaviano no fariam
boa figura ao lado dos seus despachos diplomticos e dos seus escritos
polticos? At que ponto deve prevalecer um preconceito que condena espritos
educados em boa escola literria ao cultivo clandestino das musas?

Felizmente, devemos reconhec-lo,
vai-se rompendo a pouco e pouco com os velhos hbitos. O Sr. Dr. Macedo, que
ocupa um lugar na poltica militante, publicou h tempos um romance; o Sr. Dr.
Pedro Lus no hesita em compor uma ode, depois de proferir um discurso na
Cmara; o Sr. Conselheiro Alencar que, apesar de retirado da cena poltica,
ser mais tarde ou mais cedo chamado a ela, enriqueceu a lista dos seus ttulos
literrios. Que nenhum deles esmorea nestes propsitos;  um servio que a
posteridade lhes agradecer.



Desculpem-nos se h ingenuidade
nestas reflexes; nem nos levem a mal se assumimos por este modo a promotoria
do Parnaso, fazendo um libelo contra a repblica. Contra, no; mesmo que
pregssemos o divrcio das musas e da poltica, ainda assim no conspirvamos
em desfavor da sociedade; de qualquer modo  servi-la, e a histria nos mostra
que, aps um longo perodo de sculos,  principalmente a musa de Homero que
nos faz amar a ptria de Aristides.



Dos recentes poetas dramticos a
que nos referimos no comeo deste artigo,  o Sr. Alencar um dos mais fecundos
e laboriosos. Estreou em 1857, com uma comdia em dois atos, Verso e Reverso.
A primeira representao foi anunciada sem nome de autor, e os aplausos com que
foi recebida a obra animaram-lhe a vocao dramtica; da para c escreveu o
autor uma srie de composies que, lhe criaram uma reputao verdadeiramente
slida. Verso e Reverso foi o prenncio; no  decerto uma composio de
longo flego;  uma simples miniatura, fina e elegante, uma coleo de
episdios copiados da vida comum, ligados todos a uma verdadeira idia de
poeta. Essa idia  simples; o efeito do amor no resultado das Impresses do
homem. Aos olhos do protagonista, no curto intervalo de trs meses, o mesmo
quadro aparece sob um ponto de vista diverso; comea por achar no Rio de
Janeiro um inferno, acaba por ver nele um paraso; a influncia da mulher
explica tudo. Dizer isto  contar a comdia; a ao, de extrema simplicidade,
no tem complicados enredos; mas o interesse mantm-se de princpio a fim,
atravs de alguns episdios interessantes e de um dilogo, vivo e natural.



Verso e Reverso no se recomenda s
por essas qualidades, mas tambm pela fiel pintura de alguns hbitos e tipos da
poca; alguns deles tendem a desaparecer, outros desapareceram e arrastariam
consigo  a obra do poeta, se ela no contivesse os elementos que guardam a
vida, mesmo atravs das mudanas do tempo. Aquela comdia que encerra todo o
autor d'As Asas de um Anjo, mas j se deixa ver ali a sua maneira, o seu
estilo, o seu dilogo, tudo quanto representa a sua personalidade literria,
extremamente original, extremamente prpria. H sobretudo um trao no talento
dramtico do Sr. Alencar, que j ali aparece de uma maneira viva e distinta; 
a observao das coisas, que vai at as menores minuciosidades da vida, e a
virtude do autor resulta dos esforos que faz por no fazer cair em excesso
aquela qualidade preciosa.  sem dvida necessrio que uma obra dramtica, para
ser do seu tempo e do seu pas, reflita uma certa parte dos hbitos externos, e
das condies e usos peculiares da sociedade em que nasce; mas alm disto, quer
a lei dramtica que o poeta aplique o valioso dom da observao a uma ordem de
idias mais elevadas e  isso justamente o que no esqueceu o autor d'O
Demnio Familiar. O quadro do Verso e Reverso era restrito demais
para empregar rigorosamente esta condio da arte; e todavia a comdia h de
merecer a ateno dos espectadores, ainda quando desapaream completamente da
sociedade fluminense os elementos postos em jogo pelo autor; e isso graas a
trs coisas: ao pensamento capital da pea, ao desenho feliz de alguns
caracteres, e s excelentes qualidades do dilogo.



Verso e Reverso deveu o bom
acolhimento que teve, no s aos seus merecimentos, seno tambm  novidade da
forma. At ento a comdia brasileira no procurava os modelos mais estimados;
as obras do finado Pena, cheias de talento e de boa veia cmica, prendiam-se
intimamente s tradies da farsa portuguesa, o que no  desmerec-las, mas
defini-las; se o autor d'O Novio vivesse, o seu talento, que era dos
mais auspiciosos, teria acompanhado o tempo, e consorciaria os progressos da
arte moderna s lies da arte clssica.



Verso e Reverso no era ainda a alta
comdia, mas era a comdia elegante; era a sociedade polida que entrava no
teatro, pela mo de um homem que reunia em si a fidalguia do talento e a fina
cortesia do salo.



A alta comdia apareceu logo
depois, com O Demnio Familiar. Essa  uma comdia de maior alento; o
autor abraa a um quadro mais vasto. O demnio da comdia, o moleque
Pedro,  o Fgaro brasileiro, menos as intenes filosficas e os vestgios
polticos do outro. A introduo de Pedro em cena oferecia graves obstculos;
era preciso escapar-lhes por meios hbeis e seguros. Depois, como apresentar ao
esprito do espectador o carter do intrigante domstico, mola real da ao, sem
faz-lo odioso e repugnante? At que ponto fazer rir com indulgncia e bom
humor das intrigas do demnio familiar? Esta era a primeira dificuldade do
carter e do assunto. Pelo resultado j sabem os leitores que o autor venceu a
dificuldade, dando ao moleque Pedro as atenuantes do seu procedimento, at
levant-lo mesmo ante a conscincia do pblico.



Primeiramente, Pedro  o mimo da
famlia, o enfant gt, como diria a viajante Azevedo; e nisso pode-se
ver desde logo um trao caracterstico da vida brasileira. Colocado em uma
condio intermediria, que no  nem a do filho nem a do escravo, Pedro volta
e abusa de todas as liberdades que lhe d a sua posio especial; depois, como
abusa ele dessas liberdades? por que serve de portador s cartinhas amorosas de
Alfredo? por que motivo compromete os amores de Eduardo por Henriqueta, e tenta
abrir as relaes de seu senhor com uma viva rica? Uma simples aspirao de
pajem e cocheiro; e aquilo que noutro repugnaria  conscincia dos
espectadores, acha-se perfeitamente explicado no carter de Pedro. Com efeito,
no se trata ali de dar um pequeno mvel a uma srie de aes reprovadas; os
motivos do procedimento de Pedro so realmente poderosos se atendermos a que a
posio sonhada pelo moleque, est de perfeito acordo com o crculo limitado
das suas aspiraes, e da sua condio de escravo; acrescente-se a isto a
ignorncia, a ausncia de nenhum sentimento do dever, e tem-se a razo da
indulgncia com que recebemos as intrigas do Fgaro fluminense.



Parece-nos ter compreendido bem a
significao do personagem principal dO Demnio Familiar; esta foi, sem
dvida, a srie de reflexes feitas pelo autor para transportar ao teatro
aquele tipo eminentemente nosso. Ora, desde que entra em cena at o fim da
pea, o carter de Pedro no se desmente nunca:  a mesma vivacidade, a mesma
ardileza, a mesma ignorncia do alcance dos seus. atos; se de certo ponto em
diante, cedendo s admoestaes do senhor, emprega as mesmas armas da primeira
intriga em uma nova intriga que desfaa aquela, esse novo trao  o complemento
do tipo. Nem  s isso: delatando os clculos de Vasconcelos a respeito do
pretendente de Henriqueta, Pedro usa do seu esprito enredador, sem grande
conscincia nem do bem nem do mal que pratica; mas a circunstncia de desfazer
um casamento que servia aos interesses de dois especuladores d aos olhos do
espectador uma lio verdadeiramente de comdia.

O Demnio Familiar apresenta um quadro de
famlia, com o verdadeiro cunho da famlia brasileira; reina ali um ar de
convivncia e de paz domstica, que encanta desde logo; s as intrigas de Pedro
transtornam aquela superfcie: corre a ao ligeira, interessante, comovente
mesmo, atravs de quatro atos, bem deduzidos e bem terminados. No desfecho da
pea, Eduardo d a liberdade ao escravo, fazendo-lhe ver a grave
responsabilidade que desse dia em diante deve pesar sobre ele, a quem s a
sociedade pedir contas. O trao  novo, a lio profunda. No supomos que o
Sr. Alencar d s suas comedias um carter de demonstrao; outro  o destino
da arte; mas a verdade  que as concluses dO Demnio Familiar, como as
concluses de Me, tm um carter social que consolam a conscincia;
ambas as peas, sem sarem das condies da arte, mas pela prpria pintura dos
sentimentos e dos fatos, so um protesto contra a instituio do cativeiro.

Em Me  a escrava que se
sacrifica  sociedade, por amor do filho; n'O Demnio Familiar,  a
sociedade que se v obrigada a restituir a liberdade ao escravo delinqente.

A pea acaba, sem abalos nem
grandes peripcias, com a volta da a paz da famlia e da felicidade geral. All is well that ends well, como na comdia de
Shakespeare.



No entramos nas mincias da pea;
apenas atendemos para o que ela apresenta de mais geral e mais belo; e contudo
no falta ainda que apreciar n'O Demnio Familiar, como, por exemplo, os
tipos de Azevedo e de Vasconcelos, as duas amigas Henriqueta e Carlotinha, to
brasileiras no esprito e na linguagem, e o carter de Eduardo, nobre,
generoso, amante. Eduardo sonha a famlia, a mulher, os hbitos domsticos,
pelo padro da famlia dele e dos costumes puros de sua casa. Mais de uma vez
enuncia ele os seus desejos e aspiraes, e  para agradecer a insistncia com
que o autor faz voltar, o esprito do personagem para esse assunto.



'A sociedade, diz Eduardo,
isto , a vida exterior, ameaa destruir a famlia, isto , a vida
interior.'

A esta frase acrescentaremos este
perodo:

A mulher moderna, diz Madama
d'Agout, vive em um centro, que no  nem o ar grave da matrona romana, nem a
morada aberta e festiva da cortes grega, mas uma coisa intermediria que se
chama sociedade, isto , a reunio sem objeto de espritos ociosos,
sujeitos s prescries de uma moral que pretende em vo conciliar as diverses
de galanteria com os deveres da famlia.

H, sem dvida, mais coisas a
dizer sobre a excelente comdia do Sr. Jos de Alencar; no nos falta
disposio, mas espao; nesta tarefa de apreciao literria h momentos de
verdadeiro prazer;  quando se trata de um talento brilhante e de uma obra de
gosto. Quando podemos achar uma dessas ocasies  s com extremo pesar que no
a aproveitamos toda.

Guardamos para outro artigo a
apreciao das demais obras do distinto autor d'O Demnio Familiar.

II

A reabilitao da mulher perdida,
tal foi durante muito tempo a questo formulada e debatida no romance e no
teatro. Negavam uns, afirmavam outros, dividiam-se os nimos, traavam-se
campos opostos; e durante uma larga poro de tempo a herona do dia oscilou
entre as gemnias e o Capitlio.



No tem conta a soma de talento
empregado nesse debate, e realmente de invejar o esplendor de muitos nomes que
figuraram nele. Mas, quaisquer que fossem os prodgios de inveno da parte dos
poetas, no era possvel fugir ao menor dos inconvenientes do assunto, que era
a monotonia.



Era o menor, porque a maior estava
na coisa em si, na prpria escolha do assunto, na pintura da sociedade que se
trasladava para a cena. Que a concluso fosse afirmativa ou negativa, pouco
importa em matria de arte. O certo  que muitos espritos delicados no
puderam fugir  tentao; e para atestar que a tentao era grande, basta
lembrar dois nomes, um nosso, outro estranho: o autor do Casamento de
Olmpia, e o autor d'As Asas de um Anjo. Nenhum deles concluiu pela
afirmativa; as suas intenes morais eram boas, as suas idias ss; mas os
costumes e os caracteres escolhidos como elementos das suas peas eram os
mesmos que estavam em voga, e de qualquer modo, aplaudindo ou condenando, eram
sempre os mesmos heris que figuravam na cena. S havia de mais o lustre de
dois nomes estimados.

Depois de escrever O Demnio
Familiar, comdia excelente, como estudo de costumes e de caracteres, quis
o Sr. Conselheiro Jos de Alencar dizer a sua palavra no debate do dia. Nisto,
o autor d'As Asas de um Anjo no cedia somente  seduo do momento,
formulava tambm uma opinio;  arriscado estar em desacordo com uma
inteligncia to esclarecida, porque  arriscar-se a estar em erro; no foi,
porm, sem detido exame que adotamos uma opinio contrria  do ilustre
escritor. A nossa divergncia  de ponto de vista; pode a verdade no estar da
parte dele; mas, qualquer que seja a maneira por que encaremos a arte, h uma
de encarar o talento do autor.

 evidente que a comdia As
Asas de um Anjo no conclui pela afirmativa de tese to celebrada; e foi o
que muita gente no quis ver. A idia da pea est contida em algumas palavras
do personagem Meneses; Carolina exprime a punio dos pais, que descuraram a
sua educao moral; do sedutor que a arrancou do seio da famlia, do segundo
amante que a acabou de perder.

O eplogo da pea  o casamento de
Carolina; mas quem v a sua reabilitao moral? Casamento quase clandestino,
celebrado para proteger uma menina, filha dos erros de uma unio sem as douras
de amor nem a dignidade de famlia,  isto acaso um ato de regenerao? No, o
autor d'As Asas de um Anjo no quis restituir a Carolina os direitos
morais que ela perdera. Mas isto, que  o desenlace de uma situao dada, no
nos parece que justifique essa mesma situao. O que achamos reparvel na
comdia As Asas de um Anjo no  o desenlace, que nos parece lgico,  a
situao de que nasce o desenlace;  o assunto em si.

O que nos parece menos aceitvel 
o que constitui o fundo e o quadro da comdia; no h dvida alguma de que a
pea e cheia de interesses e de lances dramticos; a inveno  original,
apesar do cansao do assunto; mas o que sentimos  precisamente isso;  uma
soma to avultada de talento e de percia empregada em um assunto, que, segundo
a nossa opinio, devia ser excludo, da cena.

A teoria aceita e que presidiu
antes de tudo ao gnero de peas de que tratamos  que, pintando os costumes de
uma classe parasita e especial, conseguir-se-ia melhor-la e influir-lhe o
sentimento do dever. Pondo de parte esta questo da correo dos costumes por
meio do teatro, coisa duvidosa para muita gente, perguntaremos simplesmente se
h quem acredite que as Mulheres de Mrmore, o Mundo do Equvoco,
o Casamento de Olmpia e As Asas de um Anjo chegassem a corrigir
uma das Marias e das Paulinas da atualidade. A nossa resposta  negativa; e se
as obras no serviam ao fim proposto, serviriam acaso de aviso  sociedade
honesta? Tambm no pela razo simples de que a pintura do vcio nessas peas
(exceo feita d'As Asas de um Anjo)  feita com todas as cores
brilhantes, que seduzem, que atenuam, que fazem quase do vcio um resvalamento
reparvel. Isto, no ponto de vista dos chefes da escola, se h escola; mas que
diremos ns, prevalecendo a doutrina contrria, a doutrina da arte pura, que
isola o domnio da imaginao, e tira do poeta o carter de tribuno?



Vindo depois d'O Demnio
Familiar, As Asas de um Anjo encerram muitas das qualidades do
autor, revelando sobretudo as tendncias dramticas, to pronunciadas como as
tendncias cmicas dO Demnio Familiar e do Verso e Reverso. No
empenho de no poupar nenhuma das angstias que devem acometer a mulher perdida
da sua peca, o autor no hesitou em produzir a ltima cena do 4 ato. O efeito
 terrvel, o contraste medonho; mas, consinta-nos o ilustre poeta uma
declarao franca: a cena  demasiado violenta sem satisfazer os seus intuitos;
aquele encontro do pai e da filha no altera em nada a situao desta, no lhe
aumenta o horror, no lhe cava maior abismo; e contudo o corao do espectador
sente-se abalado no pelo efeito que o autor teve em vista, mas por outro que
resulta da inconvenincia do lance, e dos sentimentos que ele inspira.



Faremos ainda um reparo, e ser o
ltimo. Carolina que, segundo a frase de Meneses exprime a punio dos pais e
dos seus corruptores, se pune a estes com justia, aplica aos pais uma punio
demasiado severa. Diz Meneses que eles no cuidaram da educao moral da filha;
mas desta circunstncia no existe vestgio algum na pea a no ser a assero
de Meneses; o primeiro ato apresenta um aspecto de paz domstica, de
felicidade, de pureza, que contrasta vivamente com a fuga da moa, sem que
aparea o menor indcio dessa atenuante, se pode haver atenuante para o ato de
Carolina.



O Sr. Conselheiro Jos de Alencar,
logo depois dos acontecimento que ocorreram por ocasio d'As Asas de um Anjo,
declarou que quebrava a pena e fazia dos pedaos uma cruz. Declarao de poeta
que um carinho da musa fez esquecer mais tarde. s As Asas de um Anjo sucedeu
um drama, a que o autor intitulou Me. O contraste no podia ser maior;
saamos de uma comdia que contrariava o nossos sentimentos e as nossas idias,
e assistamos ao melhor de todos os dramas nacionais at hoje representados;
estvamos diante de uma obra verdadeiramente dramtica, profundamente humana
bem concebida, bem executada, bem concluda. Para quem estava acostumado a ver
no Sr. Jos de Alencar o chefe da nossa literatura dramtica, a nova pea
resgatava todas as divergncias anteriores.



Se ainda fosse preciso inspirar ao
povo o horror pela instituio do cativeiro, cremos que a representao do novo
drama do Sr. Jos de Alencar faria mais do que todos os discursos que se
pudesse proferir no recinto do corpo legislativo, e isso sem que Me
seja um drama demonstrativo e argumentador, mas pela simples impresso que
produz no esprito do espectador, como convm a uma obra de arte. A maternidade
na mulher escrava, a me cativa do prprio filho, eis a situao da pea.
Achada a situao, era preciso saber apresent-la, conclu-la; tornava-se
preciso tirar dela todos os efeitos, todas as conseqncias, todos os lances
possveis; do contrrio, seria desvirgin-la sem fecund-la. O autor no s o
compreendeu, como o executou com uma conscincia e uma inspirao que no nos
cansamos de louvar.

Vejamos o que  essa me. Joana,
estando ainda com o seu primeiro senhor, teve um filho que foi perfilhado por
um homem que a comprou, apenas nascido o menino. Morreu esse, instituindo o
rapaz como seu herdeiro; nada mais fcil a Joana do que descobrir ao moo Jorge
o mistrio do seu nascimento. Mas ento onde estava a herona? Joana guarda
religiosamente o segredo e encerra-se toda na obscuridade da sua abnegao, com
receio de que Jorge venha desmerecer diante da sociedade, quando se conhecer a
condio a raa de sua me. Ela no indaga, nem discute a justia de semelhante
preconceito; aceita-o calada e resignada, mais do que isso, feliz; porque o
silncio assegura-lhe,  mais que tudo, a estima e a ventura de Jorge. At
aqui j o sacrifcio era grande; mas cumpria que fosse imenso. Quando Jorge,
para salvar o pai da noiva, precisa de uma certa soma de dinheiro Joana rasga a
carta de liberdade dada anteriormente por Jorge e oferece-se em holocausto a
necessidade do moo;  hipotecada. Mas os acontecimentos precipitam-se; o Dr.
Lima, nico que sabia do nascimento de Jorge, sabe da hipoteca de Joana, feita
por um ttulo de venda simulada, e profere essa frase tremenda, que faz
estremecer de espectadores: 'Desgraado, tu vendeste tua me!'

Descoberto o segredo, Joana no
hesita sobre o que deve fazer; teme pelo filho, e no quer lanar a menor
sombra na sua felicidade: escrpulo tocante, de que resulta o suicdio. Tal  a
peripcia deste drama, onde o pattico nasce de uma situao pungente e
verdadeira.



No diremos, uma por uma, todas as
belas cenas deste drama to superior; demais, seria intil, pois que ele anda
nas mos de todos. Uma dessas cenas  aquela em que Joana, para salvar o futuro sogro do filho, e portanto a felicidade dele, procura
convencer ao usurrio Peixoto de que deve socorrer o moo, sobre a sua hipoteca
pessoal. Nada mais pungente; sob aquele dilogo familiar, palpita o drama,
aperta-se o corao, arrasam-se os olhos de lgrimas. Se Joana  a personagem
mais importante da pea, nem por isso as outras deixam de inspirar verdadeiro
interesse, sobretudo Jorge e Elisa, criatura frgil, e delicada, que produz
inocentemente uma situao, como causa indireta do holocausto a que se oferece
Joana.

No pode haver dvida de que 
esta a pea capital do Sr. Jos de Alencar: paixo, interesse, originalidade,
um estudo profundo do corao humano, mais do que isso, do corao materno,
tudo se rene nesses quatro atos, tudo faz desta pea uma verdadeira criao.
Desde ento os louros de poeta dramtico floresceram na fronte do autor
entrelaados aos louros de poeta cmico. Villemain observa que a reunio dessas
duas faces da arte teatral nos mesmos indivduos  um sintoma das pocas
decadentes; se esta regra  verdadeira, no pode deixar de ser confirmada pela
exceo; e a exceo  decerto nossa poca, no Brasil, poca que mal comea,
mas j se ilustra com algumas obras de mrito e de futuro.

Resta-nos pouco para completar o
estudo das obras teatrais do Sr. Jos de Alencar, cujo lugar nas letras
dramticas estaria definido, mesmo que no houvesse dado O Demnio Familiar,
isto , a alta expresso dos costumes domsticos, e Me, isto , a imagem
augusta da maternidade.

III

A extinta companhia do Ateneu
Dramtico representou durante algumas noites uma pea annima, intitulada O
que  o Casamento? O autor, apesar de ser a obra bem recebida, no
apareceu, nem ento, nem depois; mas o pblico, que  dotado de uma admirvel
perspiccia, atribui a pea ao Sr. J. de Alencar, e a coisa passou em julgado. Ser temeridade da nossa parte repetir o juzo do pblico? O que  o Casamento?
rene todos os caracteres do estilo e do sistema dramtico do autor d'As
Asas de um Anjo; entre aquela pea e as outras do mesmo autor h uma
semelhana fisionmica que no pode passar despercebida aos olhos da crtica. E
atribuindo ao Sr. J. de Alencar a comdia em questo, no fazemos s um ato de
justia, resolvemos naturalmente uma questo, que seria insolvel no caso de
ser outro o autor da comdia, porque ento onde iramos buscar um Drmio de
Atenas para opor a este Drmio de feso? Quem seria esse gmeo literrio to
gmeo que pareceria, no outro homem, mas a metade deste, a sua parte
complementar? O meio simples de resolver a dvida  dar a uma rf to bela um
pai to distinto.



O que  o casamento? pergunta o
autor, e a pea  a resposta desta interrogao. Para compreender bem o ttulo
e cas-lo  peca,  preciso ter em vista que nem a pergunta nem a resposta
podem ter carter absoluto. O casamento  a confiana recproca,  tal  a
concluso de Miranda, em dilogo com Alves; e uma situao inesperada, uma
situao fatal, que envolve a honra da esposa, embora inocente e pura, faz
apagar no esprito do marido o mesmo sentimento em que, segundo ele, deve
repousar a paz domstica. No  isto bastante para  indicar que o autor
no quis tirar concluses gerais? O autor imaginou uma situao dramtica: desenvolveu-a,
concluiu-a. H a uma parte que pertence  ao dos sentimentos, e outra que
pertence um pouco  ao do acaso, mas desse acaso que , por assim dizer, o
resultado de um grupo de circunstncias. A pea rola sobre um caso de adultrio
suposto, adultrio que seria igualmente um fratricdio, pois que  o prprio
irmo de Miranda quem levanta os olhos para a esposa dele. A pea convida desde
princpio toda a ateno do espectador; Henrique vem despedir-se de Isabel,
pedindo-lhe perdo do sentimento que alimentou, e que ainda o domina; intervm
o marido, Henrique foge; o marido ouve as palavras de Isabel assaz ambguas
para destruir todo o sentimento de conversa. Uma flor, que pouco antes estivera
no peito de Sales,  encontrada pelo marido no cho; faz-lhe crer que  aquele
gamenho ridculo o assassino da sua desonra. Miranda torna uma deciso extrema;
quer matar a esposa. O grito da filha evita aquele crime.



Tal  o ponto de partida desta
pea. Colocada entre o interesse da sua honra e o interesse do irmo do marido.
Isabel sacrifica-se e aceita a situao criada por um erro que no  seu. Esta
abnegao, que faz de Isabel uma verdadeira herona, aumenta de muito o
interesse da peca, torna mais profunda a comoo dramtica. A cada passo
espera-se ouvir da esposa infeliz a narrao fiel dos fatos, mas ela mantm-se
na sua sublime reserva. Demais, a situao agravou-se depois da entrevista
fatal; Henrique, amado j por Clarinha, irm de Isabel, aparece casado no 2
ato, e esse casamento foi menos por corresponder s aspiraes da moa, do que
por achar um refgio ao prprio sofrimento. Mas estes dois casais vivem em
perfeita separao de cnjuges; Isabel e Miranda so dois estranhos em casa,
ligados apenas pelo vnculo de uma inocente menina; Henrique e Clarinha vivem
igualmente separados, e se a mocidade, a alegria, a leviandade mesmo de
Clarinha, consegue dar  sua situao um aspecto menos sombrio, nem por isso
Henrique escapa aos remorsos que o pungiam, e o trazem sempre longe da esposa.



Precipitam-se os acontecimentos;
Miranda, depois de ultimar os negcios de restituir os bens de Isabel,
anuncia-lhe que vai partir para a Europa; lembra-lhe que ela precisa da sua
reputao, se no para si, nem para o marido, ao menos para a filha, que no
tem culpa no crime que ele lhe supe. Entretanto, como esta cena tem lugar em
Petrpolis, Miranda anuncia que vem  corte; despede-se;  nesse intervalo que
Henrique pode conversar algum tempo a ss com Isabel, a quem interroga sobre a
frieza que nota h muito entre ela e o marido. Henrique faz ainda novos
protestos de modo a salvar a honra de Isabel, que ele to desastradamente
comprometera. Miranda, que tem voltado para vir buscar uma carta, ouve o
dilogo. Perdoa a Henrique, e pede perdo  mulher.



Neste resumo, em que suprimimos
muita coisa, alis incontveis belezas, pode ver-se a altura dramtica da
ltima pea do Sr. J. de Alencar.  certo que o desenlace, que um acaso
precipita, seria talvez melhor se nascesse do prprio remorso de Henrique, uma
vez sabida por ele a situao domstica de Isabel. O perdo de Miranda
arrancado pela confisso sincera e ingnua do irmo, levantaria muito mais o
carter do moo, alis simptico e humano. Mas fora deste reparo, que a estima
pelo autor arranca  nossa pena, a pea do Sr. J. de Alencar  das mais
dramticas e das mais bem concebidas do nosso teatro. O talento do autor,
valente de si, robustecido pelo estudo, conseguiu conservar o mesmo interesse,
a mesma vida, no meio de urna situao sempre igual, de uma crise domstica,
abafada e oculta.



A cor local  uma das preocupaes
do autor d'O Demnio Familiar e a habilidade dele est em distribuir as
suas tintas de acordo com o resto do quadro evitando o sobrecarregado, o
intil, o descabido. H nesta pea dois escravos, Joaquim e Rita; rompido os
vnculos morais entre Miranda e Isabel, os dois escravos, educados na confiana
e na intimidade de famlia, tornam-se os naturais confidentes de ambos, mas
confidentes nulos, inspirando apenas uma meia confiana.  por eles que aquelas
duas criaturas procuram saber das necessidades uma da outra, minorar quanto
possam a desolao comum.

Bem estudado, isto  ainda um
resto de amor da parte do marido, um sinal de estima da parte da mulher.

Henrique, entregue a punio do
seu prprio arrependimento, acha-se mais tarde em situao igual  do irmo, o
que acrescenta  pea um episdio interessante, intimamente ligado  pea,
sendo mesmo um complemento dela. Clarinha, cortejada por Sales, aproveita um
pedido de entrevista do gamenho, para reanimar a afeio de Henrique; este
estratagema leviano produz uma cena violenta e uma situao trgica. A
perspiccia do drama salva tudo.

Tanto quanto nos permite a
estreiteza do espao, eis em resumo o drama do Sr. J. de Alencar, drama interessante,
bem desenvolvido e lgico.  igualmente uma pintura da famlia, feita com
aquela observao que o Sr. Alencar aplica sempre aos costumes privados.
Caracteres sustentados, dilogo natural e vivo, estudo aplicado de sentimentos.

Alm das peas do autor, que temos
apreciado at hoje, uma h, que subiu  cena no Ginsio, O Crdito. No
tivemos ocasio de v-la, nem a comdia est impressa. O assunto, como indica o
ttulo,  da mais alta importncia social; e o autor, pela reminiscncia que
nos ficou dos artigos do tempo, soube tirar dele to-somente aquilo que entrava
na esfera de uma comdia. Folgaramos de ver impressa a obra do ilustre autor
d'As Asas de um Anjo. Limitamo-nos, porm, a mencion-la, e bem assim
duas peas mais que nos consta existir na pasta, sempre cheia, do autor: O
Jesuta e A Expiao.

Como dissemos.  o Sr. J. Alencar
um dos mais fecundos e brilhantes talentos da mocidade atual; possui sobretudo
duas qualidades to raras quanto preciosas; o gosto e o discernimento,
duas qualidades que completavam o gnio de Garrett. Nem sempre estamos de
acordo com o distinto escritor: j manifestamos as nossas divergncias pelo que
diz respeito a As Asas de um Anjo; do mesmo modo dizemos que algumas
vezes a fidelidade do autor na pintura dos costumes vai alm do limite que, em
nossa opinio, deve estar sempre presente aos olhos do poeta; nisso segue o
autor uma opinio diversa da nossa; mas, fora dessa divergncia de ponto de
vista, os nossos aplausos ao autor da Me e d'O Demnio Familiar
so completos e sem reserva. A posio que alcanou, como poeta dramtico,
impe-lhe a obrigao de enriquecer com outras obras a literatura nacional.

Estamos certos de que o far;
qualquer que seja a situao da cena brasileira; para os talentos conscienciosos,
o trabalho  um dever; e quando a realidade do presente desanima, voltam-se os
olhos para as esperanas do futuro. No autor d'O Demnio Familiar estas
esperanas so legtimas.

Semana Literria, 06, 13 e 27 de maro
de 1866.

O TEATRO DE JOAQUIM MANUEL DE
MACEDO

I

O Cego e O Cob, do Sr.
Dr. Macedo, apesar das belezas que lhe reconhecemos, no tiveram grande aplauso
pblico. Mas Lusbela e Luxo e Vaidade compensaram largamente o
poeta; representados por longo espao no Ginsio desta corte, foram levados 
cena em alguns teatros de provncia, onde o vate fluminense encontrou um eco
simptico e unnime. Se mencionamos este fato  para lembrar ao autor, que o
bom caminho no  o da Lusbela e Luxo e Vaidade, mas o d'O
Cego e d'O Cob. Estas duas peas, apesar dos reparos que lhes
fizemos e dos graves defeitos que contm, exprimem um talento dramtico de
certo vigor e originalidade; no assim as outras que caem inteiramente fora do
caminho encetado pelo autor; essas no se recomendam, nem pela originalidade da
concepo, nem pela correo dos caracteres, nem pela novidade das situaes.
Quando parecia que os anos tinham dado ao talento dramtico do autor aqueles
dotes que se no alcanam sem o tempo e o estudo, apareceram as duas peas do
Sr. Dr. Macedo, manifestando, em vez do progresso esperado, um regresso
imprevisto. Para os que amam as letras, esse regresso foi uma triste decepo.
No nos pesa diz-lo ao autor d'A Nebulosa, pesar-nos-ia afirmar o
contrrio, porque seria esconder-lhe a nossa convico profunda; e longe de
servi-lo, contribuiramos para estas reincidncias fatais  boa fama do seu
nome. O poeta Terncio faz uma observao exata quando lembra que a mentira faz
amigos e a verdade adversrios; respeitamos a convico dos amigos do poeta,
mas no temos a mesma convico; e  por no t-la que nos vemos obrigados a
contrariar idias recebidas, mesmo com risco de sermos inscritos entre os
adversrios do distinto escritor.



Luxo e Vaidade  anterior a Lusbela;
como se v do ttulo, a pea tem por fim estigmatizar a vaidade e o luxo. O
luxo tem sido constante objeto da indignao dos filsofos; e j nas cmaras
francesas, no h muito, o Senador Dupin e o Deputado Pelletan fizeram ouvir as
suas vozes contra essa chaga da sociedade; se aludimos a dois discursos
tratando da pea do Sr. Dr. Macedo,  no s pela identidade do assunto, mas
at pela semelhana da forma, entre os discursos e a pea. Luxo e Vaidade, se
no tem movimento dramtico, tem movimento oratrio; o personagem Anastcio,
como ele prprio confessa, adquiriu desde moo o gosto de fazer sermes, e se
excetuarmos alguns mais familiares, o velho mineiro atravessa o drama em
perptua preleo. Este carter cicernico da pea  a expresso de uma teoria
dramtica do Sr. Dr. Macedo dissemos que o autor dO Cego no professa
escola alguma, e  verdade;  realista ou romntico, sem preferncia, conforme
se lhe oferece a ocasio; mas, independentemente deste ecletismo literrio,
v-se que o autor tem uma teoria dramtica de que usa geralmente. Estamos
convencidos de que o teatro corrige os costumes, entende o autor, e no se acha
isolado neste conceito, que a correo deve operar-se pelos meios oratrios e
no pelos meios dramticos ou cmicos. A moral do teatro, mesmo admitindo
a teoria da correo dos costumes, no  isso: os deveres e as paixes na
poesia dramtica no se traduzem por demonstrao, mas por impresso. Quando o
Sr. Jos de Alencar trouxe para a cena o grave assunto da escravido, no fez
inserir na sua pea largos e folgados raciocnios contra essa fatalidade
social; imaginou uma situao, fazendo atuar nela os elementos poticos que a
natureza humana e o estado social lhe ofereciam; e concluiu esse drama
comovente que toda a gente de gosto aplaudiu. Este e outros exemplos no devia
esquec-los o autor de Luxo e Vaidade.

As duas peas de que tratamos, Luxo
e Vaidade e Lusbela idnticas neste ponto, assemelham-se em tudo
mais. Em ambas  uma inveno pobre, situaes gastas, lances forados,
caracteres ilgicos e incorretos. Acrescentemos que a ao em ambas as peas 
laboriosamente complicada, desenvolvendo-se com dificuldade no meio de cenas
mal ligadas entre si. Finalmente, a qualidade to louvada no Sr. Dr. Macedo de
saber pintar as paixes, se podia ser confirmada, com reservas, nos seus
primeiros dois dramas, no pode s-lo nos ltimos; provavelmente os que assim
julgam confundem, como dissemos, o sentimento e o vocabulrio; a reunio de
algumas palavras enrgicas e sonoras, em perodos mais ou menos cheios, no
supe um estudo das paixes humanas. O rudo no  a eloqncia.



Todos conhecem o Luxo e
Vaidade;  intil referirmos a marcha da pea. A primeira coisa que lhe
falta  a inveno; o assunto, j explorado em teatro, podia talvez oferecer efeitos
e estudos novos, e s com esta condio que o poeta devia tratar dele. Que
estudos, que efeitos, que combinaes achou no assunto? A novidade  s aquela
que repugna  lgica dos caracteres; por exemplo, o dio de Fabiana, alimentado
por vinte e cinco anos, antes, durante e depois do casamento, contra a pessoa
de um primeiro namorado que a desprezou; Maurcio (o namorado) casou-se com
Hortnsia, da qual tem uma filha; Fabiana, que tambm casou com um oficial do
exrcito, tem igualmente uma filha; a pea comea quando as duas filhas j
esto moas feitas; tudo est mudado, menos o dio de Fabiana, que, para
vingar-se de Maurcio e de Hortnsia, escolhe a filha de ambos, e planeia um
rapto, com o fim de infam-la e desvi-la de um casamento rico. Nesta conspirao
entra o raptor e a prpria filha de Fabiana. Tal  o lado original da pea;
supe-se um dio de vinte e cinco anos, impetuoso e feroz, como o amor de
Media, numa criatura vulgar, sem expresso, mais cobiosa de dinheiro que de
vingana.

Em geral os caracteres destas duas
peas so carregados e exagerados a tal ponto, que deixam longe de si o padro
humano. Parece que o autor preocupa-se sobretudo com os efeitos, sem atender
para a natureza. Uma prova, entre muitas,  a cena entre Anastcio, Maurcio e
Hortnsia, no terceiro ato; Maurcio  um homem bom, honesto, mas fraco; o seu
crime  ceder  mulher em tudo; mas a situao torna-se grave; esto
arruinados; aparece Anastcio, pinta-lhes o presente e o futuro, clama e
declama, chama-os  razo; os dois reconhecem a verdade das palavras do irmo,
e curvam-se aterrados; anuncia-se, porm, um baro, e eis que os dois, fazendo
ao pblico uma despedida cmica, correm a receber as visitas. Estas transies
bruscas, estes contrastes forados, produzem sempre efeito seguro; mas para
quem olha a arte um pouco acima das luzes da rampa, so violncias estas que
contrariam a verdade de um carter e condenam o futuro de uma obra.

A complicada intriga do Luxo e
Vaidade desenvolve-se com auxlio de um personagem, que no vem citado na
pea, o Acaso. Com efeito, o rapto de Leonina seria efetuado, se Henrique no
estivesse escondido por trs de uns bambus, no Jardim Botnico, donde ouve a
conversa dos conspiradores. Este meio de sair de uma dificuldade, escondendo um
personagem,  usado tambm no 5. ato, quando Maurcio quer beber um copo de
veneno; Anastcio, que se esconde alguns minutos antes, evita o crime. Voltemos
ao rapto; Filipa, sua me Fabiana e o raptor Frederico tramam no jardim o rapto
de Leonina; Fabiana e Frederico saem, e fica s em cena Filipa, que, em um breve monlogo, resolve frustrar o projeto de rapto, porque ele teria
em resultado o casamento de Leonina com um rapaz bonito e elegante. Para isso
precisa de um homem... Esse homem sou eu! exclama Henrique, aparecendo de um
lado com grande estranheza da moa e do espectador; porquanto, se nos
lembrarmos que a moa estava em monlogo, veremos logo que a apario de
Henrique e absurda. Mas o abismo atrai o abismo, o absurdo chama o absurdo;  simples
declarao que lhe faz Henrique de que entra na vingana, por despeito contra
Leonina, a moa, que no tem maior intimidade com ele, confia-lhe logo, sem
exame, os seus projetos e aceita a sua cumplicidade.

Mas qual a inteno de Filipa?
Ser salvar a Leonina contra os projetos de Fabiana? No; o que Filipa no quer
 o casamento provvel de Leonina e do raptor; mas a desonra aparente da moa e
o escndalo, isso pouco lhe importa. 'Um rapto que se malogra no momento
de executar-se  de sobra para desacreditar a mulher que se encontra nos braos
do raptor.' Quem pronuncia estas palavras?  uma donzela?  uma hetaira?
Ao menos, que motivo poderoso lana no esprito dessa moa a perverso e o mal?
Uma inveja mesquinha: no quer ver a outra casada com um moo bonito e
elegante! Com franqueza, leitor imparcial, achais que isto seja a cincia dos
caracteres? Uma me, sem um trao nobre, uma filha sem um trao virgem,
conspirando friamente contra a honra de uma donzela, tal  a expresso da
sociedade brasileira, tal  a intriga principal deste drama. Destas violncias
morais, encontram-se a cada passo na Lusbela como no Luxo e Vaidade. Qual
 a inteno do autor imaginando estas figuras repugnantes, estas cenas
impossveis? No sabemos, mas cumpre observar uma coisa, que agrava mais ainda
a situao da pea: a cena em que Filipa aceita a cumplicidade de Henrique, tem
contra si, alm do mais, a circunstncia de ser absolutamente desnecessria;
parece, ao ver aquela cena, que realmente a moa chega a substituir o seu plano
ao da me, vendo naturalmente depois substituir o seu pelo de Henrique, que a
ilude; nada disso: o rapto efetua-se at o ponto em que aparecem Henrique e
Anastcio para impedir que Leonina seja levada para fora; v-se que era preciso
para impedir a realizao do rapto, que Henrique soubesse dele e avisasse
Anastcio; da vem a colocao do rapaz na moita dos bambus; mas a necessidade
do contrato com Filipa, a necessidade do monlogo da moa, essa  que nunca se
v. Cortada a cena, a pea continua sem alterao.

A cena do rapto, que no produz
efeito algum, toma quase propores trgicas: Frederico, que  o raptor, vem
armado de punhal e quer assassinar Anastcio, que busca impedir o rapto da
moa. No se compreende bem que interesse possa ter Frederico, personagem
insignificante, sem grandes impulsos, em cometer um assassinato, que agravaria
a sua situao. Felizmente, aparece Henrique; o brao de Henrique e uma
perorao de Anastcio pem em fuga o raptor e a cmplice. Este ato, que  o
4., passa-se em um baile de mascaras, dado por Maurcio, na vspera do dia em
que deve se a sua honra em conseqncia das loucuras do luxo. Supe-se
naturalmente que Henrique e Anastcio, depois de libertarem Leonina. levam-na
aos pais; estes reconheceriam no moo o salvador da filha, e no hesitariam em
dar-lha por esposa. Longe disso, o tio e o sobrinho levam a moa para a casa de
uma parenta, e o 5. ato abre-se no meio da desolao dos pais, que de um lado
esto arruinados, e do outro choram a perda da filha que no podem encontrar.
Mas a filha aparece depois trazida por Henrique. Felisberto, o irmo de
Maurcio, desprezado por ele, aparece tambm, por inspirao tocante, e vem
socorrer com as suas economias o irmo arruinado. Anastcio, porm, j tem
prevenido o caso, tudo fica salvo e volta a paz domstica.



Mas o decoro da famlia fica
salvo? Dissemos que era natural, uma vez salva a moa, ser levada pelos
salvadores para dentro de casa e entregue aos pais. Realizando, ainda que sob
outras vistas, o rapto projetado. Henrique e Anastcio, to austeros como so e
to penetrantes como supomos que devem ser, no viram uma coisa simples, a
saber: que a ausncia de Leonina de casa dos pais, durante uma noite e um dia,
era bastante para dar  malignidade despeita de Fabiana e Frederico, campo
vasto s conjeturas, as insinuaes e as calnias?

Deste modo no ficava a menina
sujeita aos caprichos da opinio? Qual era a maneira digna e nobre que convinha
a Henrique para conquistar Leonina? Desprezado por pobre, a sua vitria devia
assinalar-se de modo que pusesse em relevo a sua nobreza moral; era uma
conquista e no uma emboscada; que faria Maurcio, vendo entrar a filha
raptada, de brao com Henrique? Qualquer que fosse o aborrecimento que lhe
inspirasse o rapaz, o decoro impunha-lhe o dever de ceder ao casamento.
Realmente, se a virtude no tem outros recursos para triunfar, no vale a pena
sofrer-lhe as privaes. O mesmo argumento serve para Anastcio, autor e
cmplice na histria do rapto; o desde que ele tem prvio conhecimento da
tentativa de Fabiana, corre-lhe o dever de prevenir os pais de Leonina; mesmo
com a certeza de salvar a moa (salv-la!), a simples tentativa bastava para
atrair a ateno pblica, e devassar o lar domstico. Francamente, se Anastcio
previne os pais e impede a tentativa, teria praticado um ato que valeria por
todos os seus discursos. O seu silncio produziu um resultado funesto, a saber:
que os personagens honestos da pea utilizam-se dos meios empregados pelos personagens
viciosos, inclusive a circunstncia do narctico, para praticar aquilo mesmo
que lhes cumpria condenar.  aceitvel esta concluso?



Se a inveno  pobre, se os
caracteres so violentos, contraditrios e incorretos, h ao menos nesta pea a
habilidade dos meios cnicos e a beleza do estilo? Os meios cnicos j vimos
quais eles so; movem-se as personagens e produzem-se as situaes. sem nenhuma
razo de ser, sem nenhum motivo alegado; h uma cena no baile de mscaras que
produziu muito efeito no teatro;  aquela em que Anastcio, mascarado, quando todos esto sem mscaras, obtm o triunfo oratrio,
definindo em termos indignados os personagens presentes; apesar de falar em voz
natural ningum o conhece; Maurcio, como lhe impe o dever de dono da casa,
quer arrancar-lhe a mscara; Anastcio lembra-lhe a hora em que, no dia
seguinte, tem de achar-se diante da justia; Maurcio acalma-se e a nica
satisfao que d aos convivas  obrigar Hortnsia a dar o brao a Anastcio.
Temos acaso necessidade de lembrar tambm a cena do jardim, na noite do baile,
em que os pais arrancam  filha o consentimento para casar com o Comendador
Pereira? Tais so os meios cnicos do Luxo e Vaidade. Quanto ao estilo,
no  o d'O Cob; a pressa com que o autor escreveu o drama revela-se
at nisso;  um estilo sem inspirao nem graa, nem movimento. O autor, que
poderia ao menos salvar a pea com uma boa prosa, descurou essa parte
importante da composio.



A anlise de Luxo e Vaidade abrevia-nos
a de Lusbela; como dissemos, os defeitos da primeira so comuns 
segunda pea. Lusbela  um quadro do mundo equvoco; subsiste aqui a
mesma objeo que fizemos a respeito do Luxo e Vaidade: entrando tambm
no caminho encetado por outros poetas, que novos elementos pretendeu tirar o
Sr. Macedo de um assunto j gasto? Lemos a pea, e no achamos resposta. A pea
no oferece nada de novo, a no ser uns tons carregados e falsos, umas
situaes violentas, nenhum conhecimento da lei imoral dos caracteres; e alm
de tudo um estilo que requinta nos defeitos o estilo do Luxo e Vaidade. Quem
estudar desprevenido a pea do Sr. Dr. Macedo ver que exprimimos a verdade; e
quanto  convenincia de exprimi-la, o prprio poeta h de reconhec-lo quando
quiser meditar sobre as suas obras, e compar-las com as exigncias da
posteridade. A posteridade s recebe e aplaude aquilo que traz em si o cunho de
belo; ao ler as peas do Sr. Dr. Macedo d vontade de perguntar se ele no tem
em conta alguma as leis da arte e os modelos conhecidos, se observa com ateno
a natureza e os seus caracteres, finalmente, se no est disposto a ser
positivamente um artista e um poeta. Em matria dramtica, se fizermos uma
pequena exceo, a resposta  negativa.

Dispensamo-nos igualmente de
narrar o enredo de Lusbela, que todos conhecem. Sofre-se este drama,
como um pesadelo, e chega-se ao fim, no comovido, mas aturdido; parece
incrvel que o delicado autor d'A Nebulosa, achando-se no terreno spero
em que entro no houvesse, graas  vara mgica da poesia, produzido uma obra
de artista, em vez do drama que nos deu. Nesta, como no Luxo e Vaidade v-se
um certo modo de pintar as personagem, que lhes tira todas as condies
humanas. Produzir efeito parece ser a preocupao constante do autor de Lusbela;
o nosso intuito deixa de parte aquilo que poderia conduzi-lo aos efeitos de
arte, e no aos eleitos de cena, no sentido vulgar da frase. Deste princpio
sente-se logo em que terreno se coloca o autor; uma moa pobre, a filha do
jardineiro Pedro Nunes,  desonrada por um homem rico, o amo do pai. As
simpatias gerais ficam seguras deste modo; a pea tem logo por si todos quantos
abraam a fraqueza da vtima de um potentado; mas o resto? como sai o autor da
situao em que se coloca? Damiana, desonrada por Lencio,  lanada fora da
casa paterna, e depois desonrada algumas peripcias narradas mais tarde, a moa
aparece no 1 ato com o nome de Rosa Lusbela. Lusbela vem de Lusbel, o
personagem dos Milagres de Santo Antnio, que ela aplaudiu um dia no
teatro de So Pedro de Alcntara. Rosa Lusbela  um tipo de mulher desenvolta
libertina; a sociedade, que  sempre o bode emissrio destas desgraas, recebe
de Lusbela algumas afrontas e apstrofes; no diremos que o tipo no seja em
parte real, o que afirmamos  que naqueles abismos j se no encontram prolas;
o amor puro de Lusbela por Leonel  simplesmente impossvel; argumenta-se com
Margarida Gautier; no entramos agora no exame da pea de Dumas, apenas
lembramos que entre Margarida Gautier e Lusbela a diferena  grande; Margarida
Gautier pertence ao mundo de Lusbela, mas parece que h nesse mundo distines
geogrficas, pois que o pas de uma no  o da outra. Margarida est longe da
virtude, mas no est prxima de Lusbela; finalmente, lutando com a audcia da
concepo, Dumas Filho procurou dar  sua herona umas cores poticas que no
existem de modo algum na herona do drama brasileiro.

Lusbela pretende amar Leonel, e
isto at certo ponto supe-lhe um pouco de sensibilidade; mas pode aceitar-se
esta hiptese? Lusbela sabendo que Leonel ama uma menina, e vai casar-se, atrai
a pobre noiva  sua casa, sob pretexto de dar-lhe costura, mas na inteno
firme de pervert-la; arrepende-se em certa ocasio, mas a certeza de que no 
amada volta-lhe o esprito para esse primeiro plano.

Por uma circunstncia imprevista,
Cristina  sua prpria irm; essa, e no outra razo, salva a pobre menina de
um abismo. Suprima-se esta circunstncia, qual seria a marcha da pea? No 
difcil prev-la, Lusbela praticaria um ato de monstruosidade.

Todos se lembram que Leonel 
primo de Lencio; esse, autor da desonra de Damiana, procura impedir o
casamento do primo com Cristina, irm de Lusbela. Daqui vem a luta entre e
Lencio, que faz uma parte da ao da pea. No tentaremos descrever essa luta,
entremeada do episdio das notas falsas, e de algumas situaes mal preparadas
para efeito.

O episdio das notas  mais uma
prova do modo fcil com que o autor resolve as dificuldades; um moedeiro falso
prope a Lusbela entrar na associao a que ele pertence e ajud-lo na
distribuio dos bilhetes. Lusbela resiste, mas a idia de fazer feliz a irm
resolve-a a aceitar; Graciano (o moedeiro) leva-lhe uma caixinha com bilhetes;
nesse ato, que  o 3, j moram com Lusbela a irm e o pai. Quem compara a castidade
de Cristina e a perversidade de Lusbela, ressente-se deste contato odioso.
Lusbela no quer receber a caixa, mas Graciano acha meio de deix-la sobre a
mesa. No  possvel haver um moedeiro falso mais estouvado; comea por fazer
uma proposta,  queima-roupa, e acaba deixando a caixa fatal em casa de uma
mulher que lhe no pode merecer confiana absoluta. A caixa das notas, que deve
servir mais tarde de corpo de delito, tem uma chave; como fazer desaparecer as
notas e a chave, e trazer suspenso o espectador at o fim da pea? Mediante um
delrio de Pedro Nunes, que sai do quarto, abre automaticamente a caixa, queima
os bilhetes e perde a chave, aparecendo depois a caixa fechada. Vai-se ao
teatro buscar uma comoo, no se vai procurar uma surpresa; o poeta deve
interessar o corao, no a curiosidade; condio indispensvel para ser poeta
dramtico.

Falta-nos tempo e espao para
maior anlise; limitamo-nos a estas consideraes; cremos que ningum haver
que, depois de ler atenta e desprevenidamente as peas de que tratamos, no se
convena de que exprimimos a verdade, com a franqueza digna do poeta e da
crtica. Em outra ocasio veremos as comdias do Sr. Dr. Macedo e procuraremos
usar da mesma imparcialidade e dos mesmos conselhos. Sentimos que a publicao
destes escritos seja contempornea da dissidncia poltica que separa o Dirio
do Rio do deputado fluminense; talvez haja quem veja na franqueza literria
uma espcie de oposio poltica; tudo  possvel num pas onde h mais talento
que modstia, mas, nesta humilde posio, s duas coisas nos preocupam: o voto
dos homens sinceros e a tranqilidade da nossa conscincia; nicas preocupaes
de quem professa o culto da verdade.

II

O Sr. Dr. Macedo goza hoje da
reputao de poeta cmico;  uma das mais belas ambies literrias. Mas at
que ponto  legtima essa reputao? Sem contestar no Sr. Dr. Macedo o talento
da comdia,  nosso dever defini-lo, e, se a palavra no  imodesta,
aconselh-lo. O autor da Torre em Concurso, arrastado por uma predileo
do esprito, pode no atender para todas as condies que exige a poesia
cmica;  fora de dvida que lhe so familiares os grandes modelos da comdia;
mas a verdade  que, possuindo valiosos recursos, o autor no os emprega em
obras de superior quilate. At hoje no penetrou no domnio da alta comdia, da
comdia do carter; nas obras que tem escrito, atendeu sempre para um gnero
menos estimado: e, se lhe no faltam aplausos a essas obras, nem por
isso assentou ele em bases seguras a reputao de verdadeiro poeta cmico.

Evitemos os circunlquios: o Sr.
Dr. Macedo emprega nas suas comdias dois elementos que explicam os aplausos
das platias: a stira e o burlesco. Nem uma nem outra exprimem a comdia.



A Torre em Concurso define e resume
perfeitamente as tendncias cmicas do Sr. Dr. Macedo; demais, o prprio autor
limitou as suas aspiraes definindo essa pea como comdia burlesca. O Fantasma
Branco, se no confessa as mesmas intenes, nem por isso exclui de si o
carter da Torre em Concurso. Finalmente, o Novo Otelo vem em apoio da nossa
apreciao. No Luxo e Vaidade houve um tentmen cmico; mas a mesmo,
logo ao abrir do primeiro ato, entra em cena o burlesco debaixo da figura de um
criado e de uma professora. Somos justos; o autor no pretende dar as suas
peas como verdadeiras comdias; o burlesco  to franco, a stira to
positiva, que bem se v a inteno do autor em reconhecer-lhes apenas o carter
de satricas e burlescas. Ora,  exatamente essa inteno que nos parece
condenvel. Dotado de talento estimado do pblico, o Sr. Dr. Macedo tem o dever
de educar o gosto, mediante obras de estudo e de observao. Se no vssemos no
autor do Fantasma Branco elementos prprios para cometimento desses,
outra seria a nossa linguagem, mas o Sr. Dr. Macedo possui o talento cmico;
no est patente nas suas obras, mas adivinha-se; pode, pois, se quiser,
renunciar s fceis vitrias da stira e do burlesco, e entrar na larga vereda
da comdia de costumes e de carter. Em relao aos costumes e aos vcios, que
podem significar a Torre em Concurso e o Fantasma Branco? A
primeira destas comdias foi representada h pouco tempo e est fresca na
memria de todos;  um quadro burlesco, uma caricatura animada de costumes
polticos. Confessando no frontispcio a natureza da composio, o autor abre 
sua musa um caminho fcil aos triunfos do dia, mas impossvel s glrias
durveis. Se o burlesco pudesse competir com o cmico, o Jodelet de
Scarron estaria ao p Mulheres Letradas de Molire. Mas no acontece
assim; a comdia  muito boa fidalga; repugnam-lhe estas alianas; pode
transformar-se com os tempos, desnaturar-se  que no. Isto que todos
reconhecem e o prprio Sr. Dr. Macedo compreende, devia produzir no nimo do
autor da Torre em Concurso um efeito salutar.  certo que, nesse caso, o
autor tinha de pedir ao tempo, ao estudo,  observao e  poesia, os materiais
das suas obras; mas os resultados desse esforo no haviam de compens-lo?

O burlesco, embora suponha da
parte de um autor certo esforo e certo talento,  todavia um meio fcil de
fazer rir as platias. A prpria Torre em Concurso fornece-nos uma
prova, desde que se levanta o pano, os espectadores riem logo s gargalhadas;
assiste-se  leitura de um grande edital. Que haver de cmico em um edital?
Nada que no seja esforo da imaginao do autor;  um edital burlesco,
dirigido na inteno de produzir efeito nos espectadores; a fantasia do autor
tinha campo vasto para redigi-lo como quisesse, para acumular as expresses mais
curiosas, as clusulas mais burlescas. Se o autor quisesse cingir-se  verdade,
levaria em conta que o escrivo Bonifcio, homem de bom senso e at certo ponto
esclarecido, como se v no correr da comdia, no podia escrever aquele
documento. Mas  intil apelar para a verdade tratando-se de uma obra que se
confessa puramente burlesca. Assentado isto, o resto da pea desenvolve-se sob
a ao da mesma lei; o autor declara-se e mantm-se nos vastos limites de uma
perfeita inverossimilhana. Como exigir que as pretenses amorosas da velha
Ana, os seus cimes e os seus furores, apaream ao pblico, no como uma
caricatura, mas como um ridculo? Se pretendssemos isto, se exigssemos a
naturalidade das situaes, a verdade das fisionomias, a observao dos costumes,
o autor responder-nos-ia vitoriosamente que no pretendeu escrever uma comdia,
mas uma pea burlesca. Duvidarmos, porm, que possa responder com igual
vantagem quando lhe perguntarmos por que motivo, poeta de talento e futuro,
escreveu uma obra que no  de poeta, nem acrescenta o menor lustre ao seu
nome.



Aceitando a pea, como ela , no
h negar que as intenes polticas da Torre em Concurso so de boa stira.
Stira burlesca,  verdade. Nada menos cmico que aquela sucesso de cenas
grotescas; mas, atravs de todas elas, no se perde a inteno satrica do
autor; a luta dos partidos, a eleio, a fraude poltica, a interveno de Ana,
tudo isso forma um quadro, onde,  mngua de cunho potico, sobram as tintas
carregadas, acumuladas no intuito de criticar os costumes polticos. No 
portanto a idia da pea que nos parece condenvel,  a forma. A mesma idia
vazada em uma forma cmica produziria uma composio de merecimento. O juiz de
paz Joo Fernandes, sem fora nem carter, levado alternativamente ora pela
irm, ora pelas influncias eleitorais, tem um qu de cmico; mas, reduzido a
estas propores, saa fora do crculo que o autor se traou, e no produziria
o desejado efeito nas platias. Que fez pois o autor? Deu-lhe propores
burlescas, e as cenas do edital escrito nas costas, do pleito dos partidos para
possu-lo, da clusula do casamento, tudo isso retirou  figura do juiz de paz
o cunho original e cmico. Esta comparao pode ser reproduzida em relao a
uma parte dos personagens; Mas basta uma para definir o nosso pensamento. No
fazemos anlise, apreciamos em sua generalidade as comdias do Sr. Dr. Macedo.
O Fantasma Branco no se confessa comdia burlesca, como a Torre em
Concurso, mas a mesmo o burlesco  o elemento principal. Entretanto, sem
que se prestasse a uma alta comdia, o Fantasma Branco podia fornecer
tela para uma obra de mais alcance; o defeito e o mal est em que o autor cede
geralmente  tentao do burlesco, desnaturando e comprometendo situaes e
caracteres. A covardia e a fanfarronice do Capito Tibrio, as rusgas de
Galatia e Baslio, a rivalidade dos dois rapazes, as entre vistas furtivas de
Maria e Jos, podiam dar observaes cmicas e cenas interessantes. Para fazer
rir no precisa empregar o burlesco; o burlesco  o elemento menos culto do
riso.

Se fosse preciso resumir por meio
de uma comparao a profunda diferena que h entre o trao cmico e o trao
burlesco, bastava aproximar um lance de mestre de um lance da Torre em Concurso. H nesta
pea uma cena de boa observao poltica;  quando Batista, em virtude de uma
descortesia de Pascoal, que  a bandeira do partido amarelo, passa para as
fileiras do partido vermelho. 'Insolente, diz Batista, no respeita um dos
chefes do seu partido!' Este dito e esta passagem tinham completo o trao;
havia alguma coisa de cmico; mas Batista no s abandona as suas fileiras,
seno que moraliza o ato: 'Fao o que muitos tm feito, arranjo a vida;
estou passado'. Esta maneira de repisar a observao cmica tira-lhe a energia
e o efeito; cai na stira; j no  o personagem,  o autor quem exprime por
boca dele um juzo poltico. Ora, quando se encontra em uma comdia um desses
traos felizes, o cuidado do poeta deve aplicar-se em no desnatur-lo. Vejamos
como o grande mestre procedia em casos idnticos; Harpago acha-se um dia
roubado; o cofre dos seus haveres desapareceu do lugar em que o avarento
costumava guard-lo; todos sabem que cenas de desespero seguem a este sucesso;
Harpago chama a justia; trata-se de saber onde pra o cofre; no  um cofre,
 a alma de Harpago, que se perdeu; o infeliz corre de um lado para outro, e,
nessa labutao, repara que h na sala duas velas acesas; apaga maquinalmente
uma delas. Movimento involuntrio, natural, cmico; mas feito isto, Harpago
no diz palavra, porque a sua idia fixa  a perda da fortuna. Pelo sistema do
autor do Fantasma Branco, Harpago no deixaria de dizer  parte:
'Duas velas! que estrago!  demais!'

Citando o exemplo de Molire, no
 nossa inteno exigir do Sr. Dr. Macedo arrojos impossveis; apenas apontamos
ao distinto autor d'O Cego as lies da boa comdia, a maneira artstica
de reproduzir as observaes cmicas, evitando anul-las por meio de torneios
de frases e consideraes ociosas; procurando enfim excluir-se da cena, onde s
devem ficar os personagens e a situao.

O autor do Fantasma Branco, como
fica dito, sacrifica muitas vezes a verdade de um carter para produzir um
efeito e uma situao; isto no drama, isto na comdia. Exemplo: os dois filhos do
Capito Tibrio so rivais, de amor; pretendem ambos a mo da prima
Mariquinhas. Daqui origina-se um duelo; mas ambos so to covardes como o pai;
o provocador arrepende-se, o outro chega-se como para um patbulo; o duelo 
marcado para a noite, na montanha do fantasma; ambos tm a idia simtrica de
esconder-se no vo da escada.  uma cena de apartes em que cada um deles mostra
o receio de ser morto pelo outro; esbarram-se, caem, pedem desculpas
mutuamente, e os espectadores riem s gargalhadas; mas o que torna esta cena
forada, impossvel, sem cmico algum,  que ela destri inteiramente o carter
dos rapazes. Se eram covardes, embora fossem obrigados a aceitar a idia do
duelo, em vez de virem para o terreiro, era natural deixarem-se ficar em casa, at
pela considerao de que a noite no  hora dos duelos. Um deles faz esta
reflexo: 'Se ele no subir a montanha, nem eu; e amanh digo que o estive
esperando toda a noite'. Ora, estas palavras so exatamente a crtica da
cena. Para dar aquela desculpa, Francisco nem precisava sair de casa: um quarto
era lugar mais seguro que o vo da escada. 'Estive quase no quase, diz
Antnio, deixando-me ficar deitado; pois o malvado fratricida no podia
matar-me sem me dar o incmodo de subir a montanha?' No somente a cena 
forada, seno que os prprios interlocutores incumbem-se de fazer-lhe a
crtica.

A rivalidade de Galatia e
Baslio, que podia fornecer algumas cenas cmicas, e alguns traos de costumes,
degenera em uma troca de palavras grotescas, de apstrofes singulares, sem
resultado algum. Do mesmo gnero  a cena em que, os dois rapazes fazem a
declarao a Mariquinhas; o amor de Francisco reduzido a libelo acusatrio 
uma idia que prima pelo burlesco, mas no pertence ao domnio da comdia. E,
todavia, insistimos, o Sr. Dr. Macedo podia fazer daquela pea uma coisa
melhor, mais sria, de mais digno alcance. Dizem-nos que o Fantasma Branco foi
escrito sem a inteno da cena; isto poderia ser uma atenuante, se o autor no
houvesse mostrado em outras peas quais so as suas predilees em teatro. A leitura refletida do Fantasma Branco e da Torre em Concurso basta
para deixar ver que essas predilees merecem o justo reparo da crtica. Nada
diremos do Novo Otelo que rene, em pequeno quadro, o gnero da
comdia do Sr. Dr. Macedo, e bem assim a imitao do francs, denominado O
Primo da Califrnia. Amor e Ptria  um ligeiro drama num ato; e
quanto ao Sacrifcio de Isaac, quadro bblico, compe-se de alguns
versos harmoniosos, sobre a lenda hebraica.

Tal  o teatro do Sr. Dr. Macedo,
talento dramtico, que podendo encher a biblioteca nacional com obras de pulso
e originalidade, abandonou a via dos primeiros instantes, em busca dos efeitos
e dos aplausos do dia; talento cmico, no penetrou na esfera da comdia, e
deixou-se levar pela seduo do burlesco e da stira teatral. A boa comdia, a
nica que pode dar-lhe um nome, talvez menos ruidoso, mas com certeza mais
seguro, essa no quis pratic-la o autor da Torre em Concurso. Foi o seu erro. Acompanhar as alternativas
caprichosas da opinio, sacrificar a lei do gosto e a lio da arte,  esquecer
a nobre misso das musas. Da parte de um intruso, seria coisa sem conseqncia;
da parte de um poeta,  condenvel.

Atender o Sr. Dr. Macedo para
estas reflexes que nos inspira o amor da arte e o sincero desejo de v-lo
ocupar no teatro um lugar distinto? No lhe perdemos a esperana; o autor do Fantasma
Branco chegou  idade de cultivar a comdia; o estudo da vida e o estudo
dos padres que o passado nos legou, lev-lo- sem dvida aos srios
cometimentos; o drama, de que nos deu alguns lampejos, pode tambm receber das
suas mos formas puras e corretas. Mas para atingir a tais resultados
cumpre-lhe abandonar o antigo caminho e os meios usados at hoje. Se j escreveu
pginas que realmente o honram, no fez ainda tudo quanto a nossa bela ptria
tem direito de exigir-lhe. Nunca  tarde para produzir belas obras; foi aos
cinqenta anos que o autor da Metromania comps esse livro admirvel, e
o Sr. Dr. Macedo ainda est muito longe da idade de Piron. A Metromania salvou
a reputao dramtica do poeta francs de um esquecimento inevitvel; exemplo
histrico que deve estar presente  memria de todos os poetas.



Fomos francos e sinceros na
anlise das obras do Sr. Dr. Macedo; assim como condenamos as suas comdias e
uma parte dos seus dramas, assim aplaudiremos, em tempo conveniente, as obras
realmente meritrias do autor d'A Moreninha; se em ambos os casos
estamos em erro,  dever dos componentes guiar-nos  verdade.

Terminaremos hoje com duas
notcias literrias. A primeira foi publicada no Correio Mercantil, em
correspondncia de Florena: traduziu-se para o italiano o belo romance O Guarani
do Sr. J. de Alencar. O correspondente acrescenta que a obra do nosso
compatriota teve grande aceitao no mundo literrio. Um escritor do pas, o
Dr. Antnio Scalvini, tirou desse romance um poema para pera, que vai ser
posto em msica pelo compositor brasileiro Carlos Gomes. A segunda notcia 
que chegaram de Bruxelas as duas obras anunciadas nesta folha, Romances
Histricos e Viagens a Venezuela, Nova Granada e Equador.  autor
delas o Sr. Conselheiro Miguel Maria Lisboa, embaixador de Sua Majestade em Bruxelas. Ocupar-nos-emos dos dois livros em ocasio oportuna.

Semana Literria, 1 e 08
de maio de 1866.
