ROMANCE, A Mo e a Luva,1874

A
Mo e a Luva

Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de
Assis,
Rio
de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.

Publicado
originalmente em folhetins, a partir de 26/09/1874, em O
Globo.

Advertncia de 1907

Os trinta e tantos anos
decorridos do aparecimento desta novela  reimpresso que ora se faz parece que
explicam as diferenas de composio e de maneira do autor. Se este no lhe
daria agora a mesma feio,  certo que lha deu outrora, e, ao cabo, tudo pode
servir a definir a mesma pessoa.

No existia, h muito,
no mercado. O autor aceitou o conselho de confiar a reimpresso ao editor dos
outros livros seus. No lhe alterou nada; apenas emendou erros tipogrficos, fez
correes de ortografia, e eliminou cerca de quinze linhas. Vai como saiu em
1874.

 M. de A.

Advertncia de 1874

Esta novela, sujeita s
urgncias da publicao diria, saiu das mos do autor captulo a captulo,
sendo natural que a narrao e o estilo padecessem com esse mtodo de
composio, um pouco fora dos hbitos do autor. Se a escrevera em outras
condies, dera-lhe desenvolvimento maior, e algum colorido mais aos caracteres,
que a ficam esboados. Convm dizer que o desenho de tais caracteres,  o de
Guiomar, sobretudo,  foi o meu objeto principal, seno exclusivo, servindo-me a
ao apenas de tela em que lancei os contornos dos perfis. Incompletos embora,
tero eles sado naturais e verdadeiros?

Mas talvez estou eu a
dar propores muito graves a uma coisa de to pequeno tomo. O que a vai so
umas poucas pginas que o leitor esgotar de um trago, se elas lhe aguarem a
curiosidade, ou se lhe sobrar alguma hora que absolutamente no possa empregar
em outra coisa,  mais bela ou mais til.

Novembro de 1874.

 M. de A.

CAPTULO PRIMEIRO / O FIM DA
CARTA

 Mas o que pretendes
fazer agora?

 Morrer.

 Morrer? Que idia!
Deixa-te disso, Estevo. No se morre por to pouco...

 Morre-se. Quem no
padece estas dores no as pode avaliar. O golpe foi profundo, e o meu corao 
pusilnime; por mais aborrecvel que parea a idia da morte, pior, muito pior
do que ela,  a de viver. Ah! tu no sabes o que isto ?

 Sei: um namoro
gorado...

 Lus!

 ...E se em cada caso
de namoro gorado morresse um homem, tinha j diminudo muito o gnero humano, e
Maltus perderia o latim. Anda, sobe.

Estevo meteu a mo nos
cabelos com um gesto de angstia; Lus Alves sacudiu a cabea e sorriu.
Achavam-se os dois no corredor da casa de Lus Alves,  Rua da Constituio, 
que ento se chamava dos Ciganos;  ento, isto , em 1853, uma bagatela de
vinte anos que l vo, levando talvez consigo as iluses do leitor, e
deixando-lhe em troca (usurrios!) uma triste, crua e desconsolada experincia.

Eram nove horas da
noite; Lus Alves recolhia-se para casa, justamente na ocasio em que Estevo o
ia procurar; encontraram-se  porta. Ali mesmo lhe confiou Estevo tudo o que
havia, e que o leitor saber daqui a pouco, caso no aborrea estas histrias de
amor, velhas como Ado, e eternas como o Cu. Os dois amigos demoraram-se ainda
algum tempo no corredor, um a insistir com o outro para que subisse, o outro a
teimar que queria ir morrer, to tenazes ambos, que no haveria meio de os
vencer, se a Lus no ocorresse uma transao.

 Pois sim, disse ele,
convenho em que deves morrer, mas h de ser amanh. Cede da tua parte, e vem
passar a noite comigo. Nestas ltimas horas que tens de viver na terra dar-me-s
uma lio de amor, que eu te pagarei com outra de filosofia.

Dizendo isto, Lus
Alves travou do brao de Estevo, que no resistiu dessa vez, ou porque a idia
da morte no se lhe houvesse entranhado deveras no crebro, ou porque cedesse ao
doloroso gosto de falar da mulher amada, ou, o que  mais provvel, por esses
dois motivos juntos. Vamos ns com eles, escada acima, at a sala de visitas,
onde Lus foi beijar a mo da sua me.

 Mame, disse ele, h
de fazer-me o favor de mandar o ch ao meu quarto; o Estevo passa a noite
comigo.

Estevo murmurou
algumas palavras, a que tentou dar um ar de gracejo, mas que eram fnebres como
um cipreste. Lus viu-lhe ento,  luz das estearinas, alguma vermelhido nos
olhos, e adivinhou,  no era difcil,  que houvesse chorado. Pobre rapaz!
suspirou ele mentalmente. Dali foram os dois para o quarto, que era uma vasta
sala, com trs camas, cadeiras de todos os feitios, duas estantes com livros e
uma secretria,  vindo a ser ao mesmo tempo, alcova e gabinete de estudo.

O ch subiu da a
pouco. Estevo, a muito rogo do hspede, bebeu dois goles; acendeu um cigarro e
entrou a passear ao longo do aposento, enquanto Lus Alves, preferindo um
charuto e um sof, acendeu o primeiro e estirou-se no segundo, cruzando
beatificamente as mos sobre o ventre e contemplando o bico das chinelas, com
aquela placidez de um homem a quem se no gorou nenhum namoro. O silncio no
era completo; ouvia-se o rodar de carros que passavam fora; no aposento, porm,
o nico rumor era dos botins de Estevo na palhinha do cho.

Cursavam estes dois
moos a academia de So Paulo, estando Lus Alves no quarto ano e Estevo no
terceiro. Conheceram-se na academia, e ficaram amigos ntimos, tanto quanto
podiam s-lo dois espritos diferentes, ou talvez por isso mesmo que o eram.
Estevo, dotado de extrema sensibilidade, e no menor fraqueza de nimo,
afetuoso e bom, no daquela bondade varonil, que  apangio de uma alma forte,
mas dessa outra bondade mole e de cera, que vai  merc de todas as
circunstncias, tinha, alm de tudo isso, o infortnio de trazer ainda sobre o
nariz os culos cor-de-rosa de suas virginais iluses. Lus Alves via bem com os
olhos da cara. No era mau rapaz, mas tinha o seu gro de egosmo, e se no era
incapaz de afeio, sabia reg-las, moder-las, e sobretudo gui-las ao seu
prprio interesse. Entre estes dois homens travara-se amizade ntima, nascida
para um na simpatia, para outro no costume. Eram eles os naturais confidentes um
do outro, com a diferena que Lus Alves dava menos do que recebia, e, ainda
assim, nem tudo o que dava exprimia grande confiana.

Estevo referira ao
amigo, desde tempos, toda a histria do amor, agora malogrado, suas esperanas,
desalentos e glrias, e, enfim, o inesperado desfecho. O pobre rapaz, que
folheava o captulo mais delicioso do romance  no sentir dele  caiu de toda a
altura das iluses na mais dura, prosaica e miservel realidade.

A namorada de Estevo,
  tempo de dizer alguma coisa dela,  era uma moa de 17 anos, e, por ora,
simples aluna-professora no colgio de uma tia do nosso estudante,  Rua dos
Invlidos. Estevo tinha-a visto, pela primeira vez, seis meses antes, e desde
logo sentiu-se preso por ela, "at  morte", disse ele ao amigo, referindo-lhe o
encontro, o que o fez sorrir de to estirado prazo. Qualquer que ele fosse,
porm, o prazo fatal daquele cativeiro, a verdade  que Estevo no mesmo ponto
em que a viu logo a amou, como se ama pela primeira vez na vida  amor um pouco
estouvado e cego, mas sincero e puro. Amava-o ela? Estevo dizia que sim, e
devia cr-lo; alguns olhares ternos, meia dzia de apertos de mo
significativos, embora a largos intervalos, davam a entender que o corao de
Guiomar  chamava-se Guiomar  no era surdo  paixo do acadmico. Mas, fora
disso, nada mais, ou pouco mais.

O pouco mais foi uma
flor, no colhida do p em toda a original frescura, mas j murcha e sem cheiro,
e no dada, seno pedida.

 Faz-me um favor?
disse um dia Estevo apontando para a flor que ela trazia nos cabelos; esta flor
est murcha, e, naturalmente, vai deit-la fora ao despentear-se; eu desejava
que ma desse.

Guiomar, sorrindo,
tirou a flor do cabelo, e deu-lha; Estevo recebeu-a com igual contentamento ao
que teria se lhe antecipassem o seu quinho do Cu. Alm da flor, e para suprir
as cartas, que no havia, nada mais obtivera Estevo durante aqueles seis
compridos meses, a no serem os tais olhares, que afinal so olhares, e vo-se
com os olhos donde vieram. Era aquilo amor, capricho, passatempo ou que outra
coisa era?

Naquela tarde, a tarde
fatal, estando ambos a ss, o que era raro e difcil, disse-lhe ele que em breve
ia voltar para So Paulo, levando consigo a imagem dela, e pedindo-lhe em
cmbio, que uma vez ao menos lhe escrevesse. Guiomar franziu a testa e fitou
nele o seu magnfico par de olhos castanhos, com tanta irritao e dignidade,
que o pobre rapaz ficou atnito e perplexo. Imagina-se a angstia dele diante do
silncio que reinou entre ambos por alguns segundos; o que se no imagina  a
dor que o prostrou,  a dor e o espanto,  quando ela, erguendo-se da cadeira em
que estava, lhe respondeu, saindo:

 Esquea-se disso.

 Pois quanto a mim, 
disse Lus Alves ouvindo pela terceira vez a narrao de to cru desenlace;
quanto a mim, obedecia-lhe pontualmente; esquecia-me disso e ia curar-me em cima
dos compndios; direito romano e filosofia, no conheo remdio melhor para tais
achaques.

Estevo no ouvia as
palavras do amigo; estava ento assentado na cama, com os cotovelos fincados nas
pernas, e a cabea metida nas mos, parecendo que chorava. A princpio chorou em
silncio; mas no tardou que Lus Alves o visse deitar-se na cama, estorcer-se
convulsivamente, a soluar, a abafar quanto podia os gritos que lhe saam do
peito, a puxar os cabelos, a pedir a morte, tudo entremeado com o nome de
Guiomar, to dalma tudo aquilo, to lastimosamente natural, que enfim o
comoveu, e no houve remdio seno dizer-lhe algumas palavras de conforto. A
consolao veio a tempo; a dor, chegada ao paroxismo, declinou pouco a pouco, e
as lgrimas estancaram, ao menos por algum tempo.

 Sei que tudo isto h
de parecer-te ridculo, disse Estevo sentando-se na cama; mas que queres tu? Eu
vivia na persuaso de que era amado, e era-o talvez. Por isso mesmo no entendo
o que se passou hoje. Ou o que eu supunha ser amor, no passava talvez de
passatempo ou zombaria...

 Talvez, talvez,
interrompeu Lus Alves, compreendendo que o melhor meio de o curar do amor era
meter-lhe em brios o amor-prprio.

Estevo ficou alguns
instantes pensativo.

 No, no  possvel,
contestou ele. Tu no a conheces.  uma grave e nobre criatura, incapaz de
conceber um sentimento desses, que seria vulgar ou cruel.

 As mulheres...

 J pensei se aquilo
de hoje no seria uma maneira de experimentar-me, de ver at que ponto eu lhe
queria... Escusas de rir-te, Lus; eu nada afirmo; digo que pode ser. No admira
que ela fizesse esse clculo,  um bom clculo, nesse caso, todo filho do
corao...

A imaginao de Estevo
desceu por este declvio de floridas conjeturas, e Lus Alves entendeu que era
de bom aviso no espantar-lhe os cavalos. Ela foi, foi, por ali abaixo, rdea
frouxa e riso nos lbios. Boa viagem! exclamou mentalmente o colega voltando a
estirar-se no sof. A viagem no foi longa, mas produziu efeito salutar no nimo
do namorado, adoando-lhe as penas, circunstncia que Lus Alves aproveitou para
lhe falar de cem coisas alheias ao corao e diverti-lo do pensamento que o
absorvia. Conseguiu o seu intento durante meia hora, e conseguiu mais, porque
fez com que o colega risse, a princpio de um riso amargo e dbio, depois de um
riso jovial e franco incompatvel com intuitos trgicos. Mas, ai triste! a dor
dele era uma espcie de tosse moral, que aplacava e reaparecia, intensa s
vezes, s vezes mais fraca, mas sempre infalvel. O rapaz acertara de abrir uma
pgina de Werther; leu meia dzia de linhas, e o acesso voltou mais forte
que nunca.

Lus Alves acudiu-lhe
com as pastilhas da consolao; o acesso passou; nova palestra, novo riso, novo
desespero, e assim se foram escoando as horas da noite, que o relgio da sala de
jantar, batia seca e regularmente, como a lembrar aos dois amigos que as nossas
paixes no aceleram nem moderam o passo do tempo.

A aurora para os dois
acadmicos coincidiu com as badaladas do meio-dia, o que no admira, pois s
adormeceram quando ela comeava a apagar as estrelas. Estevo passou a noite, 
a manh, quero dizer,  muito sossegado e livre de sonhos maus. Quando abriu os
olhos estranhou o aposento e os objetos que o rodeavam. Logo que os reconheceu,
despertou-se-lhe, com a memria, o corao, onde j no havia aquela dor aguda
da vspera. Os sucessos, embora recentes, comeavam a envolver-se na sombra
crepuscular do passado.

A natureza tem suas
leis imperiosas; e o homem, ser complexo, vive no s do que ama, mas tambm
(fora  diz-lo) do que come. Sirva isto de escusa ao nosso estudante, que
almoou nesse dia, como nos anteriores, bastando dizer em seu abono que, se o
no fez com lgrimas, tambm o no fez alegre. Mas o certo  que a tempestade
serenara; o que havia era uma ressaca, ainda forte, mas que diminuiria com o
tempo. Lus Alves evitou falar-lhe de Guiomar; Estevo foi o primeiro a
recordar-se dela.

 D tempo ao tempo,
respondeu Lus Alves, e ainda te hs de rir dos teus planos de ontem. Sobretudo,
agradece ao destino o haveres escapado to depressa. E queres um conselho?

 Dize.

 O amor  uma carta,
mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte-dourado, muito cheiroso e
catita; carta de parabns quando se l, carta de psames quando se acabou de
ler. Tu que chegaste ao fim, pe a epstola no fundo da gaveta, e no te lembres
de ir ver se ela tem um post scriptum...

Estevo aplaudiu a
metfora com um sorriso de bom agouro.

Duas vezes viu ele a
formosa Guiomar, antes de seguir para So Paulo. Da primeira sentiu-se ainda
abalado, porque a ferida no cicatrizara de todo; da segunda, pde encar-la sem
perturbao. Era melhor,  mais romntico pelo menos, que eu o pusesse a caminho
da academia, com o desespero no corao, lavado em lgrimas, ou a beb-las em
silncio, como lhe pedia a sua dignidade de homem. Mas que lhe hei de eu fazer?
Ele foi daqui com os olhos enxutos, distraindo-se dos tdios da viagem com
alguma pilhria de rapaz,  rapaz outra vez, como dantes.

CAPTULO II / UM
ROUPO

Um ms depois de chegar
Estevo a So Paulo, achava-se a sua paixo definitivamente morta e enterrada,
cantando ele mesmo um responso, a vozes alternadas, com duas ou trs moas da
capital,  todas elas, por passatempo. Claro  que dois anos depois, quando
tomou o grau de bacharel, nenhuma idia lhe restava do namoro da Rua dos
Invlidos. Demais, a bela Guiomar desde muito tempo deixara o colgio e fora
morar com a madrinha. J ele a no vira da primeira vez que veio  Corte. Agora
voltava graduado em cincias jurdicas e sociais, como ficou dito, mais desejoso
de devassar o futuro que de reler o passado.

A Corte divertia-se,
como sempre se divertiu, mais ou menos, e para os que transpuseram a linha dos
Cinqenta divertia-se mais do que hoje, eterno reparo dos que j no do  vida
toda a flor dos seus primeiros anos. Para os vares maduros, nunca a mocidade
folga como no tempo deles, o que  natural dizer, porque cada homem v as coisas
com os olhos da sua idade. Os recreios da juventude no so decerto igualmente
nobres, nem igualmente frvolos, em todos os tempos; mas a culpa ou o
merecimento no  dela,  a pobre juventude,   sim do tempo que lhe cai em
sorte.

A Corte divertia-se,
apesar dos recentes estragos do clera ; bailava-se, cantava-se, passeava-se,
ia-se ao teatro. O Cassino abria os seus sales, como os abria o Clube, como os
abria o Congresso, todos trs fluminenses no nome e na alma. Eram os tempos
homricos do teatro lrico, a quadra memorvel daquelas lutas e rivalidades
renovadas em cada semestre, talvez por um excesso de ardor e entusiasmo, que o
tempo diminuiu, ou transferiu,  Deus lhe perdoe,  a coisas de menor tomo. Quem
se no lembra,  ou quem no ouviu falar das batalhas feridas naquela clssica
platia do Campo da Aclamao, entre a legio casalnica e a falange chartnica,
mas sobretudo entre esta e o regimento lagrusta? Eram batalhas campais, com
tropas frescas,  e maduras tambm,  apercebidas de flores, de versos, de
coroas, e at de estalinhos. Uma noite a ao travou-se entre o campo lagrusta
e o campo chartonista, com tal violncia, que parecia uma pgina da
Ilada. Desta vez, a Vnus da situao saiu ferida do combate; um estalo
rebentara no rosto de Charton. O furor, o delrio, a confuso foram
indescritveis; o aplauso e pateada deram-se as mos,  e os ps. A peleja
passou aos jornais. "Vergonha eterna (dizia um) aos cavalheiros que cuspiram na
face de uma dama!"  "Se for mister (replicava outro) daremos os nomes dos
aristarcos que no saguo do teatro juraram desfeitear Mlle. Lagrua!"  "Patulia
desenfreada!"  "Fidalguice balofa!"

Os que escaparam
daquelas guerras de alecrim e manjerona ho de sentir hoje, aps dezoito anos,
que despenderam excessivo entusiasmo em coisas que pediam repouso de esprito e
lio de gosto.

Estevo  uma das
relquias daquela Tria, e foi um dos mais fervorosos lagrustas, antes e depois
do grau. A causa principal das suas preferncias, era decerto o talento da
cantora; mas a que ele costumava dar, nas horas de bom humor, que eram todas as
vinte e quatro do dia, tirantes as do sono, essa causa que mais que tudo o
ligava aos "arraiais do bom gosto" dizia ele, era,  imaginem l,  era o buo
de Mlle. Lagrua. Talvez no fosse ele o nico amador do buo; mas outro mais
frvido duvido que houvesse nesta boa cidade. Um chartonista maquiavlico, alis
escritor elegante, elevava o tal buo  categoria de bigode, compreendendo
sagazmente que, se o buo era graa, o bigode era excrescncia; e ele nem ao
lbio da Lagrua queria perdoar.

 Oh! aquele buo!
exclamava Estevo nos intervalos de uma pera, aquele delicioso buo h de ser a
perdio da gente de bem! Quem me dera ir encaracolado por ali acima, at ficar
mais prximo do cu, quero dizer dos seus olhos, e ser visto por ela, que me no
descobre na turba inumervel dos seus adoradores! Querem saber uma coisa? Ali 
que ela h de ter a alma, e eu quisera entreter-me com a alma dela, e dizer-lhe
muita coisinha que tenho c dentro  espera de um buo que as queira ouvir.

Estevo era mais ou
menos o mesmo homem de dois anos antes. Vinha cheirando ainda aos cueiros da
academia, meio estudante e meio doutor, aliando em si, como em idade de
transio, o estouvamento de um com a dignidade do outro. As mesmas quimeras
tinha, e a mesma simpleza de corao; s no as mostrara nos versos que imprimiu
em jornais acadmicos, os quais eram todos repassados do mais puro byronismo,
moda muito do tempo. Neles confessava o rapaz  cidade e ao mundo a profunda
incredulidade do seu esprito, e o seu fastio puramente literrio. A colao de
grau interrompeu, ou talvez acabou, aquela vocao potica; o ltimo suspiro
desse gnero que lhe saiu do peito foram umas sextilhas  sua juventude
perdida. Felizmente, que s a perdeu em verso; na prosa e na realidade era
rapaz como poucos.

Posto fizesse boa
figura na academia, mais prezava do que amava a cincia do direito. Suas
preferncias intelectuais dividiam-se, ou antes abrangiam a poltica e a
literatura, e ainda assim, a poltica s lhe acenava com o que podia haver
literrio nela. Tinha leitura de uma e outra coisa, mas leitura veloz e  flor
das pginas. Estevo no compreenderia nunca este axioma de lorde Macaulay  que
mais aproveita digerir uma lauda que devorar um volume. No digeria nada; e da
vinha o seu nenhum apego s cincias que estudara. Venceu a repugnncia por
amor-prprio; mas, uma vez dobrado o Cabo das Tormentas disciplinares, deixou a
outros o cuidado de aproar  ndia.

Suas aspiraes
polticas deviam naturalmente morrer em grmen, no s porque lhe minguava o
apoio necessrio para as arvorecer e frutificar, mas ainda porque ele no tinha
em si a fora indispensvel a todo o homem que pe a mira acima do estado em que
nasceu. Eram aspiraes vagas, intermitentes, vaporosas, umas vises
legislativas e ministeriais, que to depressa lhe namoravam a imaginao, como
logo se esvaeciam, ao resvalar dos primeiros olhos bonitos, que esses, sim,
amava-os ele deveras. Opinies no as tinha; alguns escritos que publicara
durante a quadra acadmica eram um complexo de doutrinas de toda a casta, que
lhe flutuavam no esprito, sem se fixarem nunca, indo e vindo, alando-se ou
descendo, conforme a recente leitura ou a atual disposio de esprito.

Por agora militava nas
fileiras do lagrusmo, com ardor, dedicao e fidelidade de bom apstolo. No
era abastado para pagar o luxo de uma opinio lrica; nascera pobre e no tinha
parente em boa posio. Alguns poucos recursos possua, provenientes do seu
ofcio de advogado, que exercia com o amigo Lus Alves.

Uma noite assistira 
representao de Otelo, palmeando at romper as luvas, aclamando at
cansar-lhe a voz, mas acabando a noite satisfeito dos seus e de si. Terminado o
espetculo, foi ele, segundo costumava, assistir  sada das senhoras, uma
procisso de rendas, e sedas, e leques, e vus, e diamantes, e olhos de todas as
cores e linguagens. Estevo era pontual nessas ocasies de espera, e raro
deixava de ser o ltimo que saa. Tinha agora os olhos pregados em outros olhos,
no pardos como os dele, mas azuis, de um azul-ferrete, infelizmente uns olhos
casados, quando sentiu algum bater-lhe no ombro, e dizer-lhe baixinho estas
palavras:

 Larga o pinto, que 
das almas.

Estevo voltou-se.

 Ah! s tu! disse ele
vendo Lus Alves. Quando chegaste?

 Hoje mesmo, respondeu
o colega; venho sequioso de msica. Vassouras no tem Lagrua nem Otelo...

 Vieste lavar a alma
da poeira do caminho, disse Estevo, que, ainda falando em prosa, cultivava as
suas metforas poticas. Fizeste bem; no te perdoaria se preferisses a outra, a
lambisgia, que aqui nos querem impingir por grande coisa, e que no chega aos
calcanhares do buo...

Interrompeu-se. Lus
Alves acabava de cumprimentar cerimoniosamente algum que passava; Estevo
volveu a cabea para ver quem era. Era uma moa, que ele no chegou a ver,
porque j descia as escadas; mas to elegante e gentil que os olhos lhe
fuzilaram de admirao.

 Algum namoro?
perguntou ao amigo.

 No; uma vizinha.

A desfilada acabou;
saram os dois e foram dali cear a um hotel, seguindo depois para Botafogo, onde
morava Lus Alves, desde que perdera a me, alguns meses antes.

A casa de Lus Alves
ficava quase no fim da praia de Botafogo, tendo ao lado direito outra casa,
muito maior e de aparncia rica. A noite estava bela, como as mais belas noites
daquele arrabalde. Havia luar, cu lmpido, infinidade de estrelas e a vaga a
bater molemente na praia, todo o material, em suma, de uma boa composio
potica, em vinte estrofes pelo menos, obrigada a rima rica, com alguns
esdrxulos rebuscados nos dicionrios. Estevo poetou, mas poetou em prosa, com
um entusiasmo legtimo e sincero. Lus Alves, menos propenso s coisas belas,
preferia a mais til de todas naquela ocasio, que era ir dormir. No o
conseguiu sem ouvir ao hspede tudo quanto ele pensava acerca daquele "pinto,
que era das almas", aqueles olhos azuis, "profundos como o cu", exclamava
Estevo.

Afinal dormiram ambos;
mas, ou fosse porque os tais olhos o perseguissem, ainda em sonhos, ou porque
estranhasse a cama, ou porque o destino assim o resolvera, a verdade  que
Estevo dormiu pouco, e, coisa rara, acordou logo depois de aparecer a arraiada.

A manh estava fresca e
serena; era tudo silncio, mal quebrado pelo bater do mar e pelo chilrear dos
passarinhos nas chcaras da vizinhana. Estevo, amuado por no poder conciliar
o sono, resolvera-se a ir ver a manh, de mais perto. Ergueu-se de manso,
lavou-se, vestiu-se, e pediu que lhe levassem caf ao jardim, para onde foi
sobraando um livro que acaso topou ao p da cama.

O jardim ficava nos
fundos da casa; era separado da chcara vizinha por uma cerca. Relanceando os
olhos pela chcara, viu Estevo que era plantada com esmero e arte, assaz vasta,
recortada por muitas ruas curvas e duas grandes ruas retas. Uma destas comeava
das escadas de pedra da casa e ia at o fim da chcara; a outra ia da cerca de
Lus Alves at  extremidade oposta, cortando a primeira no centro. Do lugar em
que ficava Estevo s a segunda rua podia ser vista de ponta a ponta.

Sentou-se o bacharel em
um banco que ali achou, recebeu a xcara de caf, que o escravo lhe trouxe da a
pouco, acendeu um charuto e abriu o livro. O livro era uma Prtica
Forense. Demos-lhe razo ao despeito com que o fechou e atirou ao cho,
contentando-se com o canto dos pssaros e o cheiro das flores, e a sua
imaginao tambm, que valia as flores e os pssaros.

Deus sabe at onde iria
ela, com as asas fceis que tinha, se um incidente lhas no colhera e fizera
descer  terra. Da casa vizinha sara um roupo,  ele no viu mais que um
roupo,  e seguira pela rua que enfrentava com a casa, a passo lento e
meditativo. Estevo, que adorava todos os roupes, fossem ou no meditativos,
deu as graas  Providncia, pela boa fortuna que lhe deparava, e afiou os olhos
para contemplar aquela graciosa madrugadora. Graciosa, ainda ele no sabia se o
era; mas assentou que devia de ser, justamente porque desejava que o fosse. A
deliciosa paisagem ia ter enfim uma alma; o elemento humano vinha coroar a
natureza.

Ergueu-se Estevo, de
toda a sua estatura elevada e gentil, para ver melhor,  e ser visto, digamos a
verdade toda,  aquela desconhecida vizinha, que devia ser por fora a que Lus
Alves cumprimentara no teatro. Acton cristo e modesto, no surpreendia Diana
no banho, mas ao sair dele; todavia, no palpitava menos de comoo e
curiosidade.

O roupo ia andando.

CAPTULO III / AO P DA
CERCA

A primeira coisa que
Estevo pde descobrir  que a vizinha era moa. Via-lhe o perfil, em cada
aberta que deixavam as rvores, um perfil correto e puro, como de escultura
antiga. Via-lhe a face cor de leite, sobre a qual se destacava a cor escura dos
cabelos, no penteados de vez, mas frouxamente atados no alto da cabea, com
aquele desleixo matinal que faz mais belas as mulheres belas. O roupo,  de
musselina branca,  finamente bordado, no deixava ver toda a graa do talhe,
que devia ser e era elegante, dessa elegncia que nasce com a criatura ou se
apura com a educao, sem nada pedir, ou pedindo pouco  tesoura da costureira.
Todo o colo ia coberto at o pescoo, onde o roupo era preso por um pequeno
broche de safira. Um boto, do mesmo mineral, fechava em cada pulso as mangas
estreitas e lisas, que rematavam em folhos de renda.

Estevo, da distncia e
na posio em que se achava, no podia ver todas estas mincias que aqui lhes
aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histrias. O que ele viu,
alm do perfil, dos cabelos, e da tez branca, foi a estatura da moa, que era
alta, talvez um pouco menos do que parecia com o vestido roagante que levava.
Pde ver-lhe tambm um livrinho, aberto nas mos, sobre o qual pousava os olhos,
levantando-os de espao a espao, quando lhe era mister voltar a folha, e
deixando-os cair outra vez para embeber-se na leitura.

Ia assim andando, sem
cuidar que a visse algum, to serena e grave, como se atravessara um salo.
Estevo, que no tirava os olhos dela, mentalmente pedia ao Cu a fortuna de a
ter mais prxima, e ansiava por v-la chegar  rua que lhe ficava diante.
Contudo, era difcil que lhe parecesse mais formosa do que era, vista assim de
perfil, a escapar por entre as rvores. O jovem bacharel, para no perder o
sestro dos primeiros tempos, avocava todas as suas reminiscncias literrias; a
desconhecida foi sucessivamente comparada a um serafim de Klopstock, a uma fada
de Shakespeare, a tudo quanto na memria dele havia mais areo, transparente,
ideal.

Enquanto ele trabalhava
o esprito nestas comparaes poticas, no descabidas, se quiserem, em tal
lugar, e ao p de to graciosa criatura, ela seguia lentamente e chegara 
encruzilhada das duas grandes ruas da chcara. Estevo esperava que voltasse 
direita, isto , que viesse para o lado dele, mas sobretudo receava que seguisse
pela mesma rua adiante e se perdesse no fundo da chcara. A moa escolheu um
meio-termo, voltou  esquerda, dando as costas ao seu curioso admirador e
continuando no mesmo passo vagaroso e regular.

A chcara no era em
demasia grande; e por mais lento que fosse o passo da madrugadora, no gastaria
ela imenso tempo em percorrer at o fim aquela poro da rua em que entrara. Mas
ali, ao p daquele corao juvenil e impaciente, cada minuto parecia, no direi
um sculo,  seria abusar dos direitos do estilo,  mas uma hora, uma hora lhe
parecia, com certeza.

A moa entretanto,
chegando ao fim, parou alguns instantes, pousou a mo nas costas de um banco
rstico que ali havia e enfrentava com outro, colocado na extremidade oposta. A
outra mo descara-lhe, e os olhos tambm, o que magoou o seu curioso
observador. Seriam saudades de algum? Estevo sentiu uma coisa, a que chamarei
cime antecipado, mas que na realidade eram invejas da alheia fortuna. A inveja
 um sentimento mau; mas nele, que nascera para amar, e que, alm disso, tinha
em si o contraste do nascimento com o instinto, um bero obscuro e umas
aspiraes  vida elegante,  nele a inveja era quase um sentimento desculpvel.

A moa voltou e veio
pela rua adiante. Enfim, disse consigo Estevo, vou contempl-la de mais perto.
Ao mesmo tempo, receoso de que, descobrindo ali um estranho, guiasse os passos
para casa, Estevo afastou-se do lugar em que ficara, resoluto a aparecer,
quando ela estivesse prxima  cerca do jardim. A moa vinha andando com o livro
fechado, e os olhos ora no cho, ora nas andorinhas e camaxilras que esvoaavam
na chcara. Se trazia saudades, no se lhe podiam ler no rosto, que era quieto e
pensativo, sim, mas sem a menor sombra de pena ou de tristeza.

Estevo do lugar onde
estava podia examinar-lhe as feies, sem ser visto por ela; mas foi justamente
do que no cuidou, desde que lhas pde distinguir. Valia a pena, entretanto,
contemplar aqueles grandes olhos castanhos, meio velados pelas longas, finas e
bastas pestanas, no maviosos nem quebrados, como ele os cuidara ver, mas de uma
beleza severa, casta e fria. Valia a pena admirar como eles comunicavam a todo o
rosto e a toda a figura um ar de majestade tranqila e senhora de si. No era
ela uma dessas belezas que, ao mesmo tempo que subjugam o corao, acendem os
sentidos; falava  inteligncia primeiro do que ao corao, tanto a arte parecia
haver colaborado com a natureza naquela criatura, meia esttua e meia mulher.

Tudo isto podia ver e
considerar o nosso bacharel. A verdade, porm,  que a nenhuma destas coisas
atendeu. Desde que distinguira as feies da moa, ficou como tomado de
assombro, com os olhos parados, a boca entreaberta, fugindo-lhe a vida e o
sangue todo para o corao.

A moa chegara  cerca;
esteve de p algum tempo, olhou em derredor e por fim sentou-se no banco que ali
havia, dando as costas para o jardim de Lus Alves. Abriu novamente o livro, e
continuou a leitura do ponto em que a deixara to s consigo, to embebida no
livro que tinha diante, que no a despertou o rumor, alis sumido, dos passos de
Estevo nas folhas secas do cho. Teria percorrido meia pgina, quando Estevo,
reclinando-se sobre a cerca, e procurando abafar a voz para que s chegasse aos
ouvidos dela, proferiu este simples nome:

 Guiomar!

A moa soltou um grito
de surpresa e de susto, e voltou-se sobressaltada para o lado donde partira a
voz. Ao mesmo tempo levantara-se. A impresso que lhe produzira, e no sei se
tambm algum ar de clera que lhe notasse no rosto; e alm de tudo, o remorso de
no haver sufocado aquele grito de seu corao, fez com que Estevo, quase no
mesmo instante, murmurasse em tom de splica:

 Perdoe-me; foi uma
centelha do passado que estava debaixo da cinza: apagou-se de todo.

Guiomar,  sabemos
agora que era este o seu nome,  olhou sria e quieta para o seu mal-aventurado
interruptor, dois longos e mortais minutos. Estevo, confuso e vexado, tinha os
olhos em terra; o corao palpitava-lhe com fora, como a despedir-se da vida. A
situao era em demasia aflitiva e embaraosa para que se pudesse prolongar
mais. Estevo ia cortej-la e despedir-se; mas a moa, com um sorriso de mais
piedade que afeto, murmurou:

 Est perdoado.

Caminhou para a cerca e
estendeu-lhe a mo, que ele apertou,  apertou no  bem dito,  em que ele
tocou apenas, o mais cerimoniosamente que podia e devia naquela situao.

E depois ficaram a
olhar um para o outro, sem se atreverem a dizer nada, nem a sair dali, a verem
ambos o espectro do passado, aquele to amargo passado para um deles. Guiomar
foi a primeira que rompeu o silncio, fazendo a Estevo uma pergunta natural,
como no podia deixar de ser naquelas circunstncias mas ainda assim, ou por
isso mesmo, a mais acerba que ele podia ouvir:

 H dois anos que nos
no vemos, creio eu?

 H dois anos,
murmurou Estevo abafando um suspiro.

 J est formado, no?
Lembra-me ter lido o seu nome...

 Estou formado. Sabe
que era o desejo maior de minha tia...

 No a vejo h muito
tempo, interrompeu Guiomar; eu sa do colgio, logo depois que o senhor seguiu
para So Paulo. Sa a convite da baronesa, minha madrinha, que l foi buscar-me
um dia, alegando que eu j no tinha que aprender, e que me no convinha
ensinar.

 Decerto, assentiu
Estevo.  Minha tia  que no deixou nem podia deixar de ensinar; acabou no
ofcio.

 Acabou?

 Morreu.

 Ah!

 Morreu h cerca de um
ano.

 Era uma boa criatura,
continuou Guiomar, depois de alguns instantes de silncio, muito carinhosa e
muito prendada. Devo-lhe o que aprendi... Est admirando esta flor?

Estevo, apanhado em
flagrante delito de admirao, no da flor mas da mo que a sustinha,  uma
deliciosa mo, que devia ser por fora a que se perdeu da Vnus de Milo, Estevo
balbuciou:

 Com efeito,  linda!

 H muita flor bonita
aqui na chcara. A baronesa tem imenso gosto a estas coisas, e o nosso
jardineiro  homem que sabe do seu ofcio.

Aquele natural
acanhamento da primeira ocasio foi desaparecendo aos poucos, e a conversa veio
a ser, no to familiar, como outrora, mas em todo o caso menos fria do que a
princpio estivera. Havia, contudo, uma diferena entre os dois: ele, sem
embargo do desembarao, sentia-se abalado e comovido; ela, porm, vencido o
sobressalto do princpio, mostrava-se tranqila e fria, sempre polida e grave,
risonha s vezes, mas de um risonho  flor do rosto, que no lhe alterava a
serenidade e compostura.

O stio e a hora eram
mais prprios de um idlio que de uma fria e descolorida prtica. Um cu claro e
lmpido, um ar puro, o sol a coar por entre as folhas uma luz ainda frouxa e
tpida, a vegetao em derredor, todo aquele reviver das coisas parecia estar
pedindo uma igual aurora nas almas. Estas  que deviam falar ali a sua lngua
delas, amorosa e cndida, em vez da outra, corts, elegante e rgida, que a
nenhum deles desprazia, decerto, mas que era muito menos voluntria nos lbios
de Estevo.

Guiomar falava com
certa graa, um pouco hirta e pausada, sem viveza, nem calor.

Estevo, que a maior
parte do tempo ficara a ouvi-la, observava entre si que as maneiras da moa no
lhe eram desnaturais, ainda que podiam ser calculadas naquela situao. A
Guiomar que ele conhecera e amara era o embrio da Guiomar de hoje, o esboo do
painel agora perfeito; faltava-lhe outrora o colorido, mas j se lhe viam as
linhas do desenho.

A conversa durou cerca
de trs quartos de hora, uma migalha de tempo para ele, que desejara muito mais.
Mas era preciso acabar; ela foi a primeira a dizer-lho.

 O senhor fez-me
perder muito tempo. H talvez uma hora que estamos aqui a conversar. Era
natural, depois de dois anos. Dois anos! Mas o que no era natural, continuou
ela mudando de tom, era atrever-me a falar com um estranho neste
dshabill to pouco elegante...

 Elegantssimo, pelo
contrrio.

 O senhor tem sempre
um cumprimento de reserva: vejo que no perdeu o tempo na academia. Vou-me
embora. So horas da baronesa dar o seu passeio pela chcara.

 Ser aquela senhora
que ali est no alto da escada? perguntou Estevo.

  ela mesma,
respondeu Guiomar. Est  espera que lhe v dar o brao.

E com um gesto
friamente fidalgo, estendeu a mo a Estevo dizendo:

 Passe bem, senhor
doutor, estimei v-lo.

Estevo tocou-lhe
levemente na mo, fina e macia, e inclinou-se
respeitoso. A moa caminhou para casa. Ele acompanhou-a com os olhos,
admirando
a gentileza com que ela, desta vez a passo acelerado, resvalava por entre as
rvores at subir as escadas da casa. Viu-a dar o brao  madrinha, descerem e
seguirem vagarosamente pelo mesmo caminho por onde Guiomar seguira da primeira
vez.

Estevo ainda ficou
algum tempo encostado  cerca, na esperana de que ela olhasse ou dirigisse os
passos para aquele lado; ela porm, passou indiferente, como se nem da
existncia dele soubera. Estevo retirou-se dali cabisbaixo e triste, batido de
contrrios sentimentos, cheio de uma tristeza e de uma alegria que mal se
combinavam, e por cima de tudo isso o eco vago e surdo desta interrogao:

 Entro num drama ou
saio de uma comdia?

CAPTULO IV / LATET
ANGUIS

O passeio da baronesa
durou pouco mais de meia hora. O sol comeava a aquecer, e apesar de ser
bastante sombreada a chcara, o calor aconselhava  boa senhora que se
recolhesse. Guiomar deu-lhe o brao, e ambas, seguindo pelo mesmo caminho,
guiaram para casa.

 Parece muito tarde,
Guiomar, disse a baronesa ao cabo de alguns segundos.

 E , madrinha.
Demorei-me hoje mais do que costumo, por causa de um encontro que tive aqui na
chcara.

 Um encontro?

 Um homem.

 Algum ladro?
perguntou a madrinha parando.

 No, senhora,
respondeu Guiomar sorrindo, no era ladro. A minha mestra de colgio... sabe
que morreu?

 Quem disse isso?

 O sobrinho, o tal
sujeito que encontrei aqui hoje.

 Voc est zombando
comigo! Um homem na chcara?

 No era bem na
chcara, mas no jardim do Dr. Lus Alves. Estava encostado  cerca; trocamos
algumas palavras.

A baronesa olhou para
ela alguns segundos.

 Mas, menina, isso no
 bonito. Que diriam se os vissem?... Eu no diria nada, porque conheo o que
voc vale, e sei a discrio que Deus lhe deu.  Mas as aparncias... Que
qualidade de homem  esse sobrinho?

Interrompeu-as uma
mulher de quarenta e quatro a quarenta e cinco anos, alta e magra, cabelo entre
louro e branco, olhos azuis, asseadamente vestida, a Sra. Oswald,  ou mais
britanicamente, Mrs. Oswald,  dama de companhia da baronesa, desde alguns anos.
Mrs. Oswald conhecera a baronesa em 1846; viva e sem famlia, aceitou as
propostas que esta lhe fez. Era mulher inteligente e sagaz, dotada de boa ndole
e servial. Antes da ida de Guiomar para a companhia da madrinha, era Mrs.
Oswald a alma da casa; a presena de Guiomar, que a baronesa amava
extremosamente, alterou um pouco a situao.

 So nove horas! disse
de longe a inglesa; pensei que hoje no queriam voltar para casa. O calor est
forte; e a senhora baronesa sabe que no  conveniente expor-se aos ardores do
sol, sobretudo neste tempo de epidemias.

 Tem razo, Mrs.
Oswald; mas Guiomar tardou hoje tanto em ir buscar-me, que o passeio comeou
tarde.

 Por que me no mandou
chamar?

 Estava talvez a
dormir, ou entretida com o seu Walter Scott...

 Mlton, emendou
gravemente a inglesa; esta manh foi dedicada a Mlton. Que imenso poeta, D.
Guiomar!

 Tamanho como este
calor, observou Guiomar sorrindo. Apertemos o passo e l dentro a ouviremos com
melhor disposio.

Foram as trs andando,
subiram a escada e entraram na sala de jantar, que era vasta, com seis janelas
para a chcara. Dali seguiram para uma saleta, onde a baronesa sentou-se na sua
poltrona, a esperar a hora do almoo. Guiomar saiu para ir cuidar da
toilette; e a baronesa que desde alguns minutos estivera cabisbaixa e
pensativa, olhou fixamente para Mrs. Oswald, sem dizer palavra.

Era ela uma senhora de
cinqenta anos, refeita, vestida com esse alinho e esmero da velhice, que  um
resto da elegncia da mocidade. Os cabelos, cor de prata fosca, emolduravam-lhe
o rosto sereno, algum tanto arrugado, no por desgostos, que os no tivera, mas
pelos anos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.

Tendo casado cedo,
coube-lhe a boa fortuna de ser igualmente feliz desde o dia do noivado at o da
viuvez. A viuvez custara-lhe muito; mas j l iam alguns anos, e da crua cor que
tivera ficara-lhe agora a consolao da saudade.

 Chegue-se mais perto;
preciso falar-lhe a ss, disse ela  inglesa, que se achava a alguns passos de
distncia.

Mrs. Oswald foi at a
porta espreitar se viria algum e voltou a sentar-se ao p da baronesa. A
baronesa estava outra vez pensativa, com as mos cruzadas no regao e os olhos
no cho.

Estiveram as duas ali
silenciosas alguns dois ou trs minutos. A baronesa despertou enfim das
reflexes, e voltou-se para a inglesa:

 Mrs. Oswald, disse
ela, parece estar escrito que no serei completamente feliz. Nenhum sonho me
falhou nunca; este, porm, no passar de sonho, e era o mais belo de minha
velhice.

 Mas por que
desespera? disse a inglesa. Tenha nimo, e tudo se h de arranjar. Pela minha
parte, oxal pudesse contribuir para a completa felicidade desta famlia, a quem
devo tantos e tamanhos benefcios.

 Benefcios!

 E que outra coisa so
os seus carinhos, a proteo que me tem dado, a confiana...

 Est bom, est bom,
interrompeu afetuosamente a baronesa; falemos de outra coisa.

 Dela, no ? Diz-me o
corao que com alguma pacincia tudo se alcanar. Todos os meios se ho de
tentar; e todos eles so bons se se trata de fazer a felicidade sua e dela. Bem
est o que bem acaba, disse um poeta nosso, homem de juzo. Por enquanto s vejo
um obstculo: a pouca disposio...

 S esse?

 Que outro mais?

 Talvez outro, disse a
baronesa abaixando a voz; pode ser que no, mas to infeliz sou neste meu
desejo, que h de vir a ser obstculo, talvez.

 Mas que ?

 Um homem, um moo,
no sei quem, sobrinho da mestra que foi de Guiomar... Ela mesma contou-me tudo
h pouco.

 Tudo o qu?

 No sei se tudo, mas
enfim disse-me que, estando a passear na chcara, vira o tal sobrinho da mestra,
junto  cerca do Dr. Lus Alves, e ficara a conversar com ele. Que ser isto,
Mrs. Oswald? Algum amor que continua ou recomea agora,  agora, que ela j no
 a simples herdeira da pobreza de seus pais, mas a minha filha, a filha do meu
corao.

A comoo da baronesa
ao proferir estas palavras era tal, que Mrs. Oswald pegou-lhe afetuosamente das
mos e procurou confort-la com outras palavras de esperana e confiana.
Disse-lhe, alm disso, que o simples conversar com esse homem, que alis nenhuma
delas conhecia, no era razo para supor uma paixo anterior.

 Enfim, concluiu a
inglesa, custa-me crer que ela ame a algum neste mundo. Por enquanto estou que
no gosta de ningum, e a nossa vantagem no  outra seno essa. Sua afilhada
tem uma alma singular; passa facilmente do entusiasmo  frieza, e da confiana
ao retraimento. H de vir a amar, mas no creio que tenha grandes paixes, ao
menos duradouras. Em todo o caso, posso responder-lhe atualmente pelo seu
corao, como se tivesse a chave na minha algibeira.

A baronesa abanou a
cabea.

 Quanto a esse homem,
continuou Mrs. Oswald, saberemos quem  ele, e que relaes de afeto houve no
passado.

 Parece-lhe possvel?

 Naturalmente!

A inglesa proferiu esta
nica palavra com a segurana necessria para serenar o nimo da boa senhora,
que ficou algum tempo a olhar pasmada para ela, como quem refletia.

 H ocasies, disse
enfim a baronesa ao cabo de alguns segundos de silncio, h ocasies em que eu
quase chego a sentir remorsos do amor que tenho  Guiomar. Ela veio preencher na
minha vida o vcuo deixado por aquela pobre Henriqueta, a filha das minhas
entranhas, que a morte levou consigo, para mal de sua me. Se havia de ser
infeliz, melhor  que a chore morta, com a esperana de a ir encontrar no Cu.
Mas no lhe quis mais, nem talvez tanto, como a esta criana, que levei  pia, e
de quem Deus me fez me...

A baronesa calou-se;
ouvira passos no corredor.

Guiomar, embora tivesse
ido vestir-se e aprimorar-se, com to singelos meios o fizera, que no desdizia
daquele matinal desalinho em que o leitor a viu no captulo anterior. O penteado
era um capricho seu, expressamente inventado para realar a um tempo a
abundncia dos cabelos e a senhoril beleza da testa. As pontas bordadas de um
colarinho de cambraia dobravam-se faceiramente sobre o azul do vestido de
glac, talhado e ornado com uma simplicidade artstica. Isto, e pouco
mais, era toda a moldura do painel,  um dos mais belos painis que havia por
aqueles tempos em toda a Praia de Botafogo.

 Viva a minha rainha
de Inglaterra! exclamou Mrs. Oswald quando a viu assomar  porta da saleta.

E Guiomar sorriu com
tanta satisfao e gozo ao ouvir-lhe esta saudao familiar, que um observador
atento hesitaria em dizer se era aquilo simples vaidade de moa, ou se alguma
coisa mais.

A baronesa ps os olhos
na afilhada, uns olhos amorosos e tristes, em que a moa reparou, e que a
tornaram sria durante alguns rpidos segundos. Mas sorriu depois; e pegando das
mos da madrinha deu-lhe dois beijos no rosto, com tanta ternura e to sincera,
que a boa senhora sorriu de contentamento.

 No precisa falar,
disse Guiomar, j sei que me acha bonita.  o que me diz todos os dias, com
risco de me perder, porque se acabo vaidosa, adeus, minhas encomendas, ningum
mais poder comigo.

Guiomar disse isto com
tanta graa e singeleza, que a madrinha no pde deixar de rir, e a melancolia
acabou de todo. A sineta do almoo chamou-as a outros cuidados, e a ns tambm,
amigo leitor. Enquanto as trs almoam, relanceemos os olhos ao passado, e
vejamos quem era esta Guiomar, to gentil, to buscada e to singular, como
dizia Mrs. Oswald.

CAPTULO V /
MENINICE

Guiomar tivera humilde
nascimento; era filha de um empregado subalterno no sei de que repartio do
Estado, homem probo, que morreu quando ela contava apenas sete anos, legando 
viva o cuidado de a educar e manter. A viva era mulher enrgica e resoluta,
enxugou as lgrimas com a manga do modesto vestido, olhou de frente para a
situao e determinou-se  luta e  vitria.

A madrinha de Guiomar
no lhe faltou naquele duro transe, e olhou por elas, como entendia que era seu
dever. A solicitude, porm, no foi to constante a princpio como veio a ser
depois; outros cuidados de famlia lhe chamavam a ateno.

Guiomar anunciava desde
pequena as graas que o tempo lhe desabrochou e perfez. Era uma criaturinha
galante e delicada, assaz inteligente e viva, um pouco travessa, decerto, mas
muito menos do que  usual na infncia. Sua me, depois que lhe morrera o
marido, no tinha outro cuidado na Terra, nem outra ambio mais, que a de v-la
prendada e feliz. Ela mesma lhe ensinou a ler mal, como ela sabia,  e a coser e
bordar, e o pouco mais que possua de seu ofcio de mulher. Guiomar no tinha
dificuldade nenhuma em reter o que a me lhe ensinava, e com tal afinco lidava
por aprender, que a viva,  ao menos nessa parte,  sentia-se venturosa. Hs de
ser a minha doutora, dizia-lhe muita vez; e esta simples expresso de ternura
alegrava a menina e lhe servia de incentivo  aplicao.

A casa em que moravam
era naturalmente modesta. Ali correu a infncia,  mas solitria, o que  um
pouco mais grave. A me, quando a via embebida nos jogos prprios da idade,
infantilmente alegre,  mas de uma alegria que fazia mal a seus olhos de me,
to fundo lhe doa aquele viver,  a me sentia s vezes pularem-lhe as lgrimas
dos olhos fora. A filha no as via, porque ela sabia escond-las; mas
adivinhava-as atravs da tristeza que lhe ficava no rosto. S no adivinhava o
motivo, mas bastava que fossem mgoas de sua me, para lhe descair tambm a
alegria.

Com o tempo, avultou
outra causa de tristeza para a pobre viva, ainda mais dolorosa que a primeira.
Na idade apenas de dez anos, tinha Guiomar uns desmaios de esprito, uns dias de
concentrao e mudez, uma seriedade, a princpio intermitente e rara, depois
freqente e prolongada, que desdiziam da meninice e faziam crer  me que eram
prenncios de que Deus a chamava para si. Hoje sabemos que no eram. Seria acaso
efeito daquela vida solitria e austera, que j lhe ia afeioando a alma e como
que apurando as foras para as pugnas da vida?

A primeira vez que esta
gravidade da menina se lhe tornou mais patente foi uma tarde, em que ela
estivera a brincar no quintal da casa. O muro do fundo tinha uma larga fenda,
por onde se via parte da chcara pertencente a uma casa da vizinhana. A fenda
era recente; e Guiomar acostumara-se a ir espairecer ali os olhos, j srios e
pensativos. Naquela tarde, como estivesse olhando para as mangueiras, a cobiar
talvez as doces frutas amarelas que lhe pendiam dos ramos, viu repentinamente
aparecer-lhe diante, a cinco ou seis passos do lugar em que estava, um rancho de
moas, todas bonitas, que arrastavam por entre as rvores os seus vestidos, e
faziam luzir aos ltimos raios do sol poente as jias que as enfeitavam. Elas
passaram alegres, descuidadas, felizes; uma ou outra lhe dispensou talvez algum
afago; mas foram-se, e com elas os olhos da interessante pequena, que ali ficou
largo tempo absorta, alheia de si, vendo ainda na memria o quadro que passara.

A noite veio, a menina
recolheu-se pensativa e melanclica, sem nada explicar  solcita curiosidade da
me. Que explicaria ela, se mal podia compreender a impresso que as coisas lhe
deixavam? Mas, como a me entristecesse com aquilo, Guiomar domou o prprio
esprito e fez-se to jovial como nos melhores dias.

Esta era ainda outra
feio da menina; tinha uma fora de vontade superior aos seus anos. Com ela, a
viveza intelectual que Deus lhe dera, logrou aprender tudo o que a me lhe
ensinara, e melhor ainda do que ela o sabia, desde que o tempo lhe permitiu
desenvolver os primeiros elementos.

Aos treze anos ficou
rf; este fundo golpe em seu corao, foi o primeiro que ela verdadeiramente
pde sentir, e o maior que a fortuna lhe desfechou. J ento a madrinha a fizera
entrar para um colgio, onde aperfeioava o que sabia e onde lhe ensinavam muita
coisa mais.

Vivia ainda ento a
filha da baronesa, uma interessante criana de treze anos, que era toda a alma e
encanto de sua me. Guiomar visitava a casa da madrinha; a idade quase igual das
duas meninas, a afeio que as ligava, a beleza e meiguice de Guiomar, a
graciosa compostura de seus modos, tudo apertou entre a madrinha e a afilhada os
laos puramente espirituais que as uniam antes. Guiomar correspondia aos
sentimentos daquela segunda me; havia talvez em seu afeto, alis sincero, um
tal encarecimento que podia parecer simulao. O afeto era espontneo; o
encarecimento  que seria voluntrio.

Tinha a moa dezesseis
anos quando passou para o colgio da tia de Estevo, onde pareceu  baronesa se
lhe poderia dar mais apurada educao. Guiomar manifestara ento o desejo de ser
professora.

 No h outro recurso,
disse ela  baronesa quando lhe confiou esta aspirao.

 Como assim? perguntou
a madrinha.

 No h, repetiu
Guiomar. No duvido, nem posso negar o amor que a senhora me tem; mas a cada
qual cabe uma obrigao, que se deve cumprir. A minha ...  ganhar o po.

Estas ltimas palavras
passaram-lhe pelos lbios como que  fora. O rubor subiu-lhe s faces;
dissera-se que a alma cobria o rosto de vergonha.

 Guiomar! exclamou a
baronesa.

 Peo-lhe uma coisa
honrosa para mim, respondeu Guiomar com simplicidade.

A madrinha sorriu e
aprovou-a com um beijo,  assentimento de boca, a que j o corao no
respondia, e que o destino devia mudar.

Pouco tempo depois
padeceu a baronesa o golpe quase mortal a que aludiu no captulo anterior. A
filha morreu de repente, e o inopinado do desastre quase levou a me 
sepultura.

A afeio de Guiomar
no se desmentiu nessa dolorosa situao. Ningum mostrou sentir mais do que ela
a morte de Henriqueta, ningum consolou to dedicadamente a infeliz que lhe
sobrevivia. Eram ainda verdes os seus anos; todavia revelou ela a posse de uma
alma igualmente terna e enrgica, afetuosa e resoluta. Guiomar foi durante
alguns dias a verdadeira dona da casa; a catstrofe abatera a prpria Mrs.
Oswald.

O corao da pobre me
ficara to vazio, e a vida lhe pareceu to agra e deserta sem a filha, que ela
morreria talvez de saudade, se no fora a presena de Guiomar. Nenhuma outra
criatura poderia preencher, como esta, o lugar de Henriqueta. Guiomar era j
meia filha da baronesa; as circunstncias, no menos que o corao, tinham-nas
destinado uma para a outra. Um dia, em que a afilhada fora visitar a madrinha,
esta lhe disse que a iria em breve buscar para sua casa.

 Voc ser a filha que
eu perdi; ela no me amou mais, nem eu j agora teria outra consolao.

 Oh! madrinha!
exclamou Guiomar beijando-lhe as mos.

A baronesa estava
assentada; Guiomar ajoelhou-se-lhe aos ps e ps-lhe a cabea no regao. A boa
me curvou-se e beijou-lha ternamente, com os olhos naquela filha que os
sucessos lhe haviam dado, e o pensamento no Cu, onde devia estar a outra, que
Deus lhe dera e levou para si.

Pouco depois
estabeleceu-se Guiomar definitivamente em casa da madrinha, onde a alegria
reviveu, gradualmente, graas  nova moradora, em quem havia um tino e
sagacidade raros. Tendo presenciado, durante algum tempo, e no breve, o modo de
viver entre a madrinha e Henriqueta, Guiomar ps todo o seu esforo em
reproduzir pelo mesmo teor os hbitos de outro tempo, de maneira que a baronesa
mal pudesse sentir a ausncia da filha. Nenhum dos cuidados da outra lhe
esqueceu, e se algum ponto os alterou foi para aumentar-lhe novos. Esta inteno
no escapou ao esprito da baronesa, e  suprfluo dizer que deste modo os
vnculos do afeto mais se apertaram entre ambas.

Ao mesmo tempo que ia
provando os sentimentos de seu corao, revelava a moa, no menos, a plena
harmonia de seus instintos com a sociedade em que entrara. A educao, que nos
ltimos tempos recebera, fez muito, mas no fez tudo. A natureza incumbira-se de
completar a obra,  melhor diremos, come-la. Ningum adivinharia nas maneiras
finamente elegantes daquela moa, a origem mediana que ela tivera; a borboleta
fazia esquecer a crislida.

CAPTULO VI / O POST
SCRIPTUM

Aquele conselho de Lus
Alves, na fatal noite de dois anos antes, no h dvida que era judicioso e
devera ter ficado no esprito de Estevo. No convinha reler a carta, sob pena
de lhe achar um post scriptum. Estevo era curioso de epstolas; no pde
ter-se que no abrisse aquela. O post scriptum l estava no fim.

Vindo  linguagem
natural, Estevo saiu do jardim de Lus Alves com o corao meio inclinado a
amar de novo a mulher que tanto o fizera padecer um dia. Daqui concluir algum
que ele verdadeiramente no deixara de a amar. Pode ser; havia talvez debaixo da
cinza uma fasca, uma s, e essa bastava a repetir o incndio. Mas fosse de um
ou de outro modo, o certo  que Estevo saiu dali com o princpio do amor no
corao.

Todo aquele dia foi de
alvoroo e agitao para ele, que no se resignou logo, antes buscou reagir
contra a entrada da paixo nova. A tentativa era sincera; as foras  que eram
escassas. Ele desviava de si a imagem da moa; ela, porm, perseguia-o, tenaz,
como se fora um remorso, fatal como a voz de seu destino.

Estevo nada disse a
Lus Alves do encontro e da conversa que tivera com a moa no jardim; e no lho
escondeu por desconfiana, mas por vergonha. Que lhe diria porm ele que o no
tivesse visto e percebido Lus Alves? Da janela de seu quarto, que dava para o
jardim, enfiando os olhos pela fresta das cortinas pde observ-los durante
aqueles trs quartos de hora de inocente palestra. O espetculo no o divertiu
muito; Lus Alves achou um pouco atrevida a escolha do lugar.

A circunstncia de os
ver juntos chamou-lhe a ateno para a coincidncia do nome da vizinha com o da
antiga namorada do colega; era naturalmente a mesma pessoa.

 Vai contar-me tudo,
pensou Lus Alves quando viu o colega afastar-se da cerca e dirigir os passos
para casa.

Estevo, como disse,
foi discreto. Vinha preocupado, muito outro do que entrara na vspera, a
ler-se-lhe no rosto alguma coisa mais sria do que ele prprio costumava ser.

Tinha Estevo contra si
o passado e o futuro. O presente, sim, defendia-o; ele sentia que alguma coisa o
distanciava de Guiomar. Mas o passado falava-lhe de todas as doces recordaes,
 as menos amargas,  e a memria quase no sabe de outras quando relembra o que
foi. O futuro acenava-lhe com as suas esperanas todas, e basta dizer que eram
infinitas. Alm disso, a Guiomar que ele via agora, surgia-lhe no meio de outra
atmosfera,  a mesma que o seu esprito almejava respirar; e aparecia-lhe para
fugir logo. Sobre tudo isto o obstculo, aquela porta fechada, que bem podia ser
a da citt dolente, mas que em todo o caso ele quisera ver franqueada s
suas ambies.

Os dias correram
alternados de confiana e desnimo, tecidos de ouro e fio negro, um lutar de
todas as horas, que acabou como era de prever e devia acabar. O corao levou
Estevo atrs de si.

Nenhum meio, dos que
tinha  mo, lhe esqueceu para ver Guiomar. As janelas da casa estavam quase
sempre desertas. Duas ou trs vezes aconteceu v-la de longe; ao
aproximar-se-lhe, sumira-se o vulto na sombra do salo. No perdia teatro; mas
s duas vezes teve o gosto de a ver: uma no Lrico, onde se cantava
Sonmbula, outra no Ginsio, onde se representavam os Parisienses,
sem que ele ouvisse uma nota da pera, nem uma palavra da comdia. Todo ele,
olhos e pensamento, estava no camarote de Guiomar. No Lrico foi baldada essa
contemplao; a moa no deu por ele. No Ginsio, sim; o teatro era pequeno;
contudo, antes no fora visto, to tenazmente desviou ela os olhos do lugar em
que ele ficara.

Nem por isso deixou
Estevo de ir esper-la  sada, colocar-se francamente no seu caminho,
solicitar-lhe audazmente os olhos e ateno. A famlia desceu da 2 ordem pela
escada do lado de So Francisco; a estreiteza do lugar era excelente. Dava o
brao  baronesa um moo de vinte e cinco anos, figura elegante, ainda que um
tanto afetada. Desceram todos trs e ficaram  espera do carro alguns minutos.
Na meia sombra que ali havia destacava-se o rosto marmreo de Guiomar e a
gentileza de seu talhe. Seus grandes olhos vagavam pela multido, mas no
fitavam ningum. Ela possua, como nenhuma outra, a arte de gozar, sem as ver,
as homenagens da admirao pblica.

Irritado com a
indiferena da moa, vagou Estevo toda aquela noite, a ss com o seu despeito e
o seu amor, tecendo e destecendo mil planos, todos mais absurdos uns que outros.
A taa enchera de todo; era mister entorn-la no seio de um amigo, de um amigo
que houvesse nas suas mos o nico remdio que ele nessa ocasio pedia;  a
chave daquela porta.

Lus Alves era esse
homem.

 Outra vez cado!
exclamou ele rindo quando Estevo lhe contou tudo. Eu j o havia percebido. Isto
de mulheres... Queres ento que te leve l?

 Quero.

Lus Alves refletiu
alguns instantes.

 E uma viagem, no te
seria bom fazer uma viagem? J sei o que me vais dizer; mas tambm no te
proponho uma viagem de recreio,  Europa. Olha, arranjo-te, se queres, um lugar
de juiz municipal...

A proposta era sincera;
Estevo cuidou ver-lhe uma ponta de zombaria e ergueu os ombros com enfado. A
proposta, entretanto, merecia ser examinada; era uma carreira, e vinha de um
homem que estava a entrar na vida poltica, que esperava da a algumas semanas o
resultado de uma eleio, com a certeza, ou quase, de haver triunfado. Era
influncia que nascia, e de fora viria a crescer. Mas para Estevo, naquela
ocasio, toda a carreira pblica, influncia, futuro, leis, tudo estava nos
olhos castanhos de Guiomar.

 Eu, amo-a, disse ele
enfim, isto para mim  tudo. Pode bem ser que tenhas razo; talvez me espere
algum grande desgosto; mas so reflexes, e eu no reflito agora, eu sinto...

 Em todo o caso,
acudiu Lus Alves, desempenho o meu dever de amigo; digo-te que vocs no
nasceram um para o outro; que, se ela te no amou naquele tempo, muito menos te
amar hoje, e que enfim...

Lus Alves estacou.

 Enfim? perguntou
Estevo.

 Enfim pedes-me um
sacrifcio, concluiu rindo o advogado, porque tambm eu j a namorisquei... No
 preciso carregares o sobrolho; foi namoro de vizinho, tentativa que durou
pouco mais de vinte e quatro horas. Com vergonha o digo, ela no me prestou uma
migalha de ateno sequer, e eu voltei aos meus autos.

 Ento... gostas dela?
perguntou Estevo.

 Acho-a bonita e nada
mais. Aquilo foi um lanar barro  parede; se aceitasse, casava-me; no
aceitou...

 J vs que somos
diferentes.

 Queres, ento?...

 Um servio de amigo.

 Bem, disse por fim
Lus Alves, faa-se a tua vontade. A baronesa vai cuidar agora de um processo e
mandou-me falar. Eu passo-te a prebenda; entrars ali, como advogado, o que de
alguma maneira me tira um peso da conscincia.

Estevo, que s pedia
um pretexto, aceitou a oferta com ambas as mos, e agradeceu-lha com to
expansiva ternura, que fez sorrir o outro.

A promessa cumpriu-se
pontualmente. Lus Alves apresentou Estevo  baronesa, na seguinte noite, como
seu companheiro e amigo, como advogado capaz de zelar os interesses da ilustre
cliente. A recepo, foi geralmente boa, salvo por parte de Guiomar, que pareceu
aborrecida de o ver naquela casa. Quando Estevo a saudou, como quem a conhecia
de longo tempo, ela mal pde retribuir-lhe o cumprimento; em todo o resto da
noite no lhe deu palavra. Daquela parte o acolhimento no podia ser pior; mas
Estevo sentia-se feliz desde que v-la, respirar o mesmo ar, nada mais pedindo
por ora, e deixando o resto  fortuna.

De todas as pessoas da
casa da baronesa, a primeira que reparou na indiferena com que Guiomar tratara
Estevo, foi Mrs. Oswald. A sagaz inglesa afivelou a mscara mais impassvel que
trouxera das ilhas britnicas e no os perdeu de vista. Nem da primeira nem da
segunda vez viu nada mais que os olhos dele, que solicitavam os dela, e os dela
que pareciam surdos. Havia decerto uma paixo, solitria e desatendida.

 Sabe que descobri um
namorado seu? perguntou ela alguns dias depois  Guiomar.

Guiomar fez um gesto de
estranheza.

 Entendamo-nos,
observou a inglesa; no digo que a senhora o namore tambm; digo que  ele quem
anda apaixonado. No adivinha?

 Talvez.

 O Dr. Estevo.

Guiomar fez um gesto de
desdm.

 Vejo que tinha
adivinhado, disse Mrs. Oswald; tambm no era difcil. Quem tem alguma prtica
destas coisas fareja uma paixo a cem lguas de distncia, por mais que ela
busque recatar-se dos olhos estranhos. Os namorados geralmente supem que
ningum os v;  uma lstima. Olhe, da senhora posso eu jurar que no est
namorada de pessoa nenhuma.

 Que sabe disso?
perguntou Guiomar deitando os olhos para o espelho de seu guarda-vestidos. Pois
estou, mas de mim mesma.

Mrs. Oswald desatou a
rir, de um riso grave e pausado. Ela sabia que a moa tinha orgulho de suas
graas; era bom caminho afagar-lhe o sentimento. Disse-lhe muita coisa bonita,
que no vem para aqui, e concluiu pondo-lhe as mos nos ombros, encarando-a fito
a fito, e enfim rompendo nestas palavras, meio suspiradas:

 A senhora  a flor
desta sua terra. Quem a colher? Algum sei eu que a merece...

Guiomar ficou sria, e
desviou brandamente as mos da inglesa, murmurando:

 Mrs. Oswald, falemos
de outra coisa.

CAPTULO VII / UM
RIVAL

No era a primeira vez
que Mrs. Oswald aludia a alguma coisa que desagradava  Guiomar, nem a primeira
que esta lhe respondia com a sequido que o leitor viu no fim do captulo
anterior. A boa inglesa ficou sria e calada alguns dois ou trs minutos, a
olhar para Guiomar, aparentemente buscando interrogar-lhe o pensamento, mas na
realidade sem saber como sair da situao. A moa rompeu o silncio:

 Est bom, disse ela
sorrindo, no vejo razo para que se zangue comigo.

 No estou zangada,
acudiu prontamente Mrs. Oswald. Zangada por qu? Pesa-me, decerto, que a
natureza me no d razo, e que uma aliana to conveniente, para ambos, seja
repelida pela senhora; mas se isto  motivo de desgosto, no pode s-lo de
zanga...

 Desgosto?

 Para mim... e
naturalmente para ele.

Guiomar respondeu com
um simples sacudir de ombros, seco e rpido, como quem se lhe no dava do mal ou
no acreditava nele. Mrs. Oswald no atinou qual destas impresses seria, e
concluiu que fossem ambas. A moa, entretanto, pareceu arrepender-se daquele
movimento; travou das mos da inglesa, e com uma voz ainda mais doce e macia que
de costume, lhe disse:

 Veja o que  ser
criana! No parece que ainda em cima me zango com a senhora?

 Parece.

 Pois no  exato.
Isto so caprichos de menina mal-educada. Dei para no gostar que me adorem...
Minto; disso gosto eu; mas quisera que me adorassem somente, no lhe parece?

E Guiomar acompanhou
estas palavras com uma risadinha mimosa e uns gestos de criana travessa, que
destoavam inteiramente da sua gravidade habitual.

 J sei, gosta de uma
adorao como a do Dr. Estevo, silenciosa e resignada, uma adorao...

E Mrs. Oswald, que,
como boa protestante que era, tinha a Escritura na ponta dos dedos, continuou
por este modo, acentuando as palavras:

 Uma adorao como a
que devia inspirar Jos, filho de Jac, que era belo como a senhora: "por ele as
moas andavam por cima da cerca"...

 Da cerca? perguntou
Guiomar, tornando-se sria.

 Do muro, diz a
Escritura, mas eu digo da cerca porque... nem eu sei por qu. No core! Olhe que
se denuncia.

Guiomar corara deveras;
mas era a altivez e o pundonor ofendido que lhe falavam no rosto. Olhou fria e
longamente para a inglesa, com um desses olhares, que so, por assim dizer, um
gesto da alma indignada. O que a irritava no era a aluso, que no valia muito,
era a pessoa que a fazia,  inferior e mercenria. Mrs. Oswald percebeu isto
mesmo; mordeu a ponta do lbio, mas transigiu com a moa.

 Meu Deus! disse ela.
Parece que se zangou por uma brincadeira -toa. Bem sabe que eu no podia querer
agrav-la; sup-lo  ofender-me a mim,  a mim, que tambm lhe tenho afeto de
me...

A ltima palavra
aquietou o nimo de Guiomar; ela tinha cedido ao impulso do seu carter altivo,
mas a razo veio depois, e o corao tambm, que no era mau. A inglesa, que
possua longa prtica da vida e sabia ceder a tempo, uniu o gesto  palavra e
chamou-a com os braos para si. Guiomar deixou-se ir, um pouco de m vontade, e
a conversa teria acabado ali, se Mrs. Oswald no lhe dissesse com a mais doce
voz que daquela garganta podia sair:

 Convena-se de que eu
sou importuna e indiscreta por afeio, e que a felicidade desta famlia  toda
a ambio da minha alma. No pode haver inteno melhor do que esta. Um conselho
ltimo,  ltimo se me no consentir mais falar-lhe nisto;  eu creio que a
senhora sonha talvez demais. Sonhar uns amores de romance, quase impossveis?
digo-lhe que faz mal, que  melhor, muito melhor contentar-se com a realidade;
se ela no  brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.

Guiomar cravara desta
vez os olhos no cho, com a expresso vaga e morta de quem os apagou para as
coisas externas. As palavras de Mrs. Oswald responder-lhe-iam acaso a alguma voz
ntima? A inglesa prosseguiu na mesma ordem de idias, sem que ela a
interrompesse ou desse sinal de si. Quando ela acabou, Guiomar estremeceu, como
se acordasse; levantou a cabea, e lenta, e comovida, proferiu esta nica
resposta:

 Talvez tenha razo,
Mrs. Oswald, mas em todo o caso os sonhos so to bons!

Mrs. Oswald abanou a
cabea e saiu; Guiomar acompanhou-a com os olhos, a sorrir, satisfeita de si
mesma, e a murmurar to baixo que mal a ouvia o seu prprio corao:

 Sonhos, no,
realidade pura.

Suponho que o leitor
estar curioso de saber quem era o feliz ou infeliz mortal, de quem as duas
trataram no dilogo que precede, se  que j no suspeitou que esse era nem mais
nem menos o sobrinho da baronesa,  aquele moo que apenas de passagem lhe
apontei nas escadas do Ginsio.

Era um rapaz de vinte e
cinco a vinte seis anos. Jorge chamava-se ele; no era feio, mas a arte
estragava um pouco a obra da natureza. O muito mimo empece a planta, disse o
poeta, e essa mxima no  s aplicvel  poesia, mas tambm ao homem. Jorge
tinha um lindo bigode castanho, untado e retesado com excessivo esmero. Os
olhos, claros e vivos, seriam mais belos, se ele no os movesse com afetao, s
vezes feminina. O mesmo direi dos modos, que seriam fceis e naturais, se os no
tornasse to alinhados e medidos. As palavras saam-lhe lentas e contadas, como
a fazer sentir toda a munificncia do autor. No as proferia como as demais
pessoas; cada slaba era por assim dizer espremida, sendo fcil ver ao cabo de
alguns minutos, que ele fazia consistir toda a beleza da elocuo nesse alongar
do vocbulo. As idias oravam pelo modo de as exprimir; eram chochas por
dentro, mas traziam uma cdea de gravidade pesadona, que dava vontade de ir
espairecer o ouvido em coisas leves e folgazs.

Tais eram os defeitos
aparentes de Jorge. Outros havia, e desses, o maior era um pecado mortal, o
stimo. O nome que lhe deixara o pai, e a influncia da tia podiam servir-lhe
nas mos para fazer carreira em alguma coisa pblica; ele, porm, preferia
vegetar  toa, vivendo do peclio que dos pais herdara e das esperanas que
tinha na afeio da baronesa. No se lhe conhecia outra ocupao.

No obstante os
defeitos apontados, havia nele qualidades boas; sabia dedicar-se, era generoso,
incapaz de malfazer, e tinha sincero amor  velha parenta. A baronesa, pela sua
parte, queria-lhe muito. Guiomar e ele eram as suas duas afeies principais,
quase exclusivas.

Tal era a pessoa cujos
interesses defendia Mrs. Oswald, por amor da baronesa, e no menos de si
prpria. A baronesa tambm tinha os seus sonhos, como ela mesma disse, e esses
eram deixar felizes aquelas duas crianas. Jorge pela sua parte estava disposto
a estender o colo ao sacrifcio; e, bem examinadas as coisas, talvez amasse
sinceramente a moa. A diferena entre ele e Estevo  que o seu amor era to
medido como os seus gestos, e to superficial como as suas outras impresses.

Do que a fica dito,
facilmente compreender o leitor que, dos dois namorados, s um percebeu logo o
sentimento do outro. A alma de Estevo andava-lhe nos olhos, enchendo-os de
maneira que ele no podia ver nada mais alm de Guiomar.

Ao cabo de duas semanas
a situao de Estevo podia dizer-se menos m; na opinio dele era excelente. A
baronesa soube quem ele era; Guiomar contara-lhe tudo; mas a inglesa, no menos
que a observao prpria, lhe mostrou que nenhum perigo corria Guiomar, e
excludo o perigo, restavam as boas qualidades do bacharel, que de todo lhe caiu
em graa. Mrs. Oswald navegou nas mesmas guas mansas. O prprio Jorge,
naturalmente porque confiava em si, no temeu do rival, e pouco tardou que lhe
abrisse os cancelos da sua gravidade. Que admira, pois, que a mesma Guiomar
afrouxasse um pouco da primeira rigidez?

Aquele bom rapaz tinha
a salutar crendice da esperana, em que muita vez se resumem todas as bnos da
vida. Pedia muito, como alma sequiosa que era, mas bem pouco bastava a
content-lo. A imaginao multiplicava os zeros; com um gro de areia
construiria um mundo. A afabilidade de uns e a cortesia de outros, tanto bastou
para que ele se julgasse quase no termo de suas aspiraes; e posto no lhe
desse Guiomar uma s das animaes de outro tempo,  que alis to frgeis eram,
ainda assim acreditou ele piamente que o amor nascia, ou renascia, naquele
rebelde corao.

Guiomar, no meio das
afeies que a cercavam, sabia manter-se superior s esperanas de uns e s
suspeitas de outros. Igualmente corts, mas igualmente impassvel para todos,
movia os olhos com a serenidade de iseno, no namorados, nem sequer
namoradores. Ela teria, se quisesse, a arte de Armida; saberia refrear ou
aguilhoar os coraes, conforme eles fossem impacientes ou tbios; faltava-lhe
porm o gosto,  ou melhor, sobrava-lhe o sentimento do que ela achava que era a
sua dignidade pessoal.

CAPTULO VIII /
GOLPE

Um dia de manh acordou
Estevo com a resoluo feita de dar o golpe decisivo. Os coraes frouxos tm
destas energias sbitas, e  prprio da pusilanimidade iludir-se a si mesma. Ele
confessava que nada havia feito, e que a situao exigia alguma coisa mais.

 Nunca as
circunstncias foram mais propcias do que hoje, pensava o rapaz; Guiomar
trata-me com afabilidade de bom agouro. Demais, h nela esprito elevado; h de
reconhecer que um sentimento discreto e respeitoso, como este meu, vale um pouco
mais do que lisonjarias de sala.

A resoluo estava
assentada; restava o meio de a tornar efetiva. Estevo hesitou largo tempo entre
dizer de viva voz o que sentia ou transmiti-lo por via do papel. Qualquer dos
modos tinha para ele mais perigos que vantagens. Ele receava ser frio na
declarao escrita ou incompleto na confisso oral. Irresoluto e vacilante,
ambos os meios adotou e repeliu, a curtos intervalos; enfim, deferiu a escolha
para outra ocasio.

O acaso supriu a
resoluo, e o premeditado cedeu o passo ao fortuito.

Uma tarde, havendo
algumas pessoas a jantar em casa da baronesa, foram passear  chcara. Estevo
que, como Lus Alves, era dos convivas, afastou-se gradualmente dos outros
grupos, e aproximou-se daquela cerca histrica onde, aps dois anos de ausncia
e esquecimento, vira, j transformada, a formosa Guiomar. Era a primeira vez que
ele punha os olhos nesse stio, depois da conversa, que a tivera com ela. A
comoo que sentiu foi naturalmente grande; ressurgia-lhe o quadro ante os
olhos, a hora, o cu brilhante, o doce alento da manh, e por fim a figura da
moa, que ali apareceu, como a alma do quadro, trazendo-lhe recordaes, que ele
julgava mortas, esperanas que supunha impossveis.

Estevo curvou a cabea
ao doce peso daquelas memrias, a alma bebeu, a largos haustos, a vida toda que
a imaginao lhe criava e talvez a noite o tomasse na mesma atitude, se a voz
maviosa de Guiomar, lhe no dissesse a poucos passos de distncia:

 Sr. doutor, perdeu
alguma coisa?

O rapaz volveu
rapidamente a cabea, e viu a moa, que atravessava uma das calhes prximas, a
olhar e a sorrir para ele. Estevo sorriu tambm, e com uma presena de esprito
assaz rara em namorados, sobretudo em namorados como ele era, prontamente
respondeu:

 No perdi nada, mas
achei uma coisa.

 Vejamos o que foi.

E Guiomar aproximou-se,
passo firme e seguro, e Estevo, sem muito vacilar, ali mesmo forjou uma
reflexo filosfica a respeito de um inseto que casualmente passava por cima de
uma folha seca. A reflexo no valia muito, e tinha o defeito de vir um pouco
forada e de acarreto; a moa sorriu, entretanto, e ia continuar o seu caminho,
quando ele, colhendo as foras todas, a fez deter com estas palavras:

 E se eu tivesse
achado outra coisa?

 Ainda mais! exclamou
ela voltando-se risonha.

Estevo deu dois passos
para Guiomar, desta vez comovido e resoluto. A moa fez-se sria e disps-se a
ouvi-lo.

 Se eu tivesse achado
neste lugar, continuou ele, longos dias de esperana e de saudade, um passado
que eu julgara no reviver mais, uma dor oculta e medrosa, vivida na solido,
nutrida e consolada de minhas prprias lgrimas? Se eu tivesse achado aqui a
pgina rota de uma histria comeada e interrompida, no por culpa de ningum na
Terra, mas da estrela sinistra da minha vida, que um anjo mau acendeu no Cu, e
que, talvez, talvez ningum nunca apagar?

Estevo calou-se e
ficou a olhar fixamente para Guiomar.

Aquela declarao
repentina e rosto a rosto estava to longe do temperamento do rapaz, que ela
gastou alguns segundos longos primeiro que voltasse a si do assombro. Ele
prprio admirava-se do atrevimento que tivera; e enquanto pendia dos lbios da
moa, repassava na memria, alis confusamente, o que to a frouxo lhe sara do
peito naquela hora de abenoada temeridade.

 Se tivesse achado
tudo isso, respondeu Guiomar sorrindo,  natural que preferisse achar outra
coisa menos melanclica. Entretanto, parece que nada mais achou do que esta
ocasio de falar, com a viva imaginao que Deus lhe deu; num ou noutro caso,
porm, posso decerto lastim-lo ou admir-lo, mas no me  dado ouvi-lo.

E Guiomar ia de novo
afastar-se, quando Estevo, receando perder a ocasio que a fortuna lhe
oferecia, disse de longe com voz triste e splice:

 Atenda-me um s
minuto!

 No um, mas dez 
respondeu a moa estacando o passo e voltando o rosto para ele  e sero
provavelmente os ltimos em que falaremos a ss. Cedo  comiserao que me
inspira o seu estado; e pois que rompeu o longo e expressivo silncio em que se
tem conservado at hoje, concedo-lhe que diga tudo, para me ouvir uma s
palavra.

A moa falara num tom
seco e imperioso, em que mais dominava a impacincia do que  comiserao a que
vinha de aludir. O corao de Estevo batia-lhe como nunca,  como o corao
costuma bater nas crises de uma angstia suprema. Todo aquele castelo de vento,
laboriosamente construdo nos seus dias de iluso, todo ele se esboroava e
desfazia, como vento que era. Estevo arrependera-se do impulso que o levara a
violar ainda uma vez o segredo dos seus sentimentos ntimos, a abrir mo de
tantas esperanas, alimentadas com o melhor do seu sangue juvenil.

Alguns instantes
decorreram em que nem um nem outro falou; ambos pareciam medir-se, ela serena e
quieta, ele trmulo e gelado.

 Uma s palavra,
repetiu Estevo, e essa adivinho que ser de desengano. Embora! Pois que me
atrevi a dizer-lhe alguma coisa, fora  que lhe diga tudo,  feliz, se me
restar, ao menos, a maior fortuna a que j agora posso aspirar,  o seu remorso.

Guiomar ouvira-o
tranqilamente; a ltima palavra f-la estremecer. Sorriu, entretanto, de um
sorriso um pouco voluntrio e esperou.

A narrao foi longa,
tanto quanto o permitiam a ocasio, o lugar e a pessoa; durou apenas dez
minutos. Estevo nada lhe escondeu, nem o amor que lhe tivera outrora, nem o que
agora lhe renascia, mais violento que o primeiro; disse-lhe as dores que
curtira, as esperanas que afinal lhe enfloravam a alma, tudo quanto empreendera
para ter a ventura de a contemplar de perto, de gozar naquele escasso ponto da
Terra a maior de todas as bem-aventuranas.

Tal  a transcrio,
no literal, mas fiel, do que disse Estevo durante esses dez minutos. As
palavras caam-lhe trmulas e a voz saa-lhe sumida, em parte porque ele
forcejava em a abafar, a fim de que o no ouvissem, em parte porque a comoo
lhe comprimia a garganta. A dor era visivelmente sincera; a eloqncia vinha do
corao.

Guiomar no ouvira tudo
com a mesma expresso; a princpio um meio riso parecia desabrochar-lhe os
lbios, mas no tardou que pelo rosto abaixo lhe casse um vu mais compassivo e
humano. Havia nela impacincia e ansiedade de acabar, de sair dali; era, sem
dvida, o receio de que a ausncia se prolongasse de maneira que inspirasse
suspeitas. Mas havia tambm comiserao e piedade.

 Nenhuma culpa lhe
pode caber do mal que tenho padecido, disse Estevo concluindo; sobretudo agora,
s eu, s a minha cabea  a causa nica de tudo. Parecia-me ver o contrrio do
que existia; cheguei a supor que havia em seu corao alguma coisa que no era a
total indiferena; vejo que foi tudo iluso.

O tom em que ele falara
era o mesmo das palavras que a ficam, todas humildes e resignadas, sem o menor
laivo de queixa ou de reproche. Uma submisso assim devia por fora comover a
uma mulher amada. Guiomar, falou-lhe sem azedume:

 Era iluso, disse
ela. O sentimento que me acaba de revelar inteiro, ningum o recebe ou nutre de
vontade; a natureza o infunde ou nega. Posso eu ter culpa disso?

 Nenhuma.

 Nem o senhor tambm,
e espero que esta mtua justia avigore o sentimento de estima que devemos ter
um para com o outro. Mas estima apenas, no pode haver outra coisa,  da minha
parte ao menos.  pouco, decerto...

 No  pouco,  coisa
diferente, interrompeu Estevo.

 Mas no espere nada
mais, concluiu Guiomar sem ouvir a interrupo.

Estevo abriu a boca
para falar, mas no achou palavra que lhe dissesse o que sentia; levou a mo ao
corao, que batia fortemente, e ficou a olhar para ela com os olhos secos e
parados, a voz extinta, como se a alma lhe fugira toda. Era claro, depois
daquele desengano, que lhe cumpria no voltar ali mais, pelo menos com a
assiduidade da esperana; e assim era que a nica e amarga satisfao de a ver,
nem essa j agora se lhe consentia.

 Dou-lhe um conselho,
disse Guiomar depois de alguns segundos de pausa, seja homem, vena-se a si
prprio; seu grande defeito  ter ficado com a alma criana.

 Talvez, respondeu o
moo suspirando.

 E adeus. Falamos a
ss, mais do que convinha; no sei se outra consentiria nisto. Mas eu no s
reconheo os seus sentimentos de respeito, como desejo que estas poucas palavras
trocadas agora ponham termo a aspiraes impossveis.

Guiomar estendeu-lhe a
mo, em que ele tocou levemente.

A baronesa apareceu,
entretanto, a algumas braas de distncia; vinha encostada ao brao do sobrinho,
que lhe falava, mas a quem ela j no ouvia. Tinha os olhos cravados nos dois
interlocutores de h pouco. A moa, apenas vira de longe a madrinha, deu
afoitamente o brao a Estevo, e seguiram ambos a encontrar-se com ela; o rosto
de Guiomar, no revelava nada; o de Estevo vinha perturbado e abatido. A
baronesa franziu a testa:

 Jorge, disse ela em
voz baixa, precisamos conversar.

CAPTULO IX /
CONSPIRAO

A baronesa, quando se
lhe aproximaram os dois interlocutores da cerca, mais receosa ficou e mais
perplexa. Guiomar vinha risonha e at gracejadora; mas o abatimento de Estevo
era to mal disfarado, que de duas uma,  ou ela acabava de lhe dar o ltimo
desengano,  ou aquilo era apenas um arrufo srio, que o moo no podia ou no
queria esconder de olhos estranhos. Isto  o que a baronesa pensou. O que ela
concluiu foi que, em todo caso, urgia tentar alguma coisa em favor do maior, 
do nico sonho da sua velhice.

Jorge no percebeu a
verdadeira razo por que a tia lhe dissera ser necessrio conversar com ela;
imaginou que se trataria de Guiomar e Estevo,  mas estava longe de supor todo
o alcance da entrevista.

A entrevista no pde
ser logo nesse dia; as visitas ficaram ali at tarde, e a noite foi a mais
agradvel e distrada de todas as noites; Guiomar, sobretudo, esteve como nunca,
jovial e interessante. A serenidade parecia morar-lhe na alma e refletir-se-lhe
no rosto,  tantas vezes pensativo, mas agora to frio e to nu.

No ser preciso dizer
a um leitor arguto e de boa vontade... Oh! sobretudo de boa vontade, porque 
mister hav-la, e muita, para vir at aqui, e seguir at o fim, numa histria,
como esta, em que o autor mais se ocupa de desenhar um ou dois caracteres, e de
expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer coisa, porque outra
coisa no se animaria a fazer;  no ser preciso declarar ao leitor, dizia eu,
que toda aquela jovialidade de Guiomar eram punhais que se lhe cravavam no peito
ao nosso Estevo. Ele no podia sup-la abatida; mas penalizada, ao menos, um
pouco respeitosa para com a dor que havia nele, isto, sim, imaginava que seria.
Mas nada disso foi, e o pobre rapaz saiu dali mais cedo do que pensara e quisera
sair.

Na alcova, se ele
pudesse v-la mais tarde na alcova, solitria e toda consigo, sentada na
poltrona rasa ao lado da cama, com os cabelos desfeitos, os pezinhos metidos nas
chinelas de cetim preto, as mos no regao e os olhos vagando de objeto em
objeto, como se reproduzissem fora as atitudes interiores do pensamento, ali no
s ele a adoraria de joelhos, mas at poderia supor que alguma preocupao lhe
tirava o sono e que essa era nem mais nem menos ele prprio.

Talvez fosse; em parte
ao menos seria ele. Guiomar no tinha um corao to mau, que lhe no doesse as
mgoas de um homem que acertara ou desacertara de a amar. Mas fosse uma, ou
fossem muitas as causas daquela preocupao, a verdade  que ela durou muito
tempo. Guiomar passou da poltrona  janela, que abriu toda, para contemplar a
noite,  o luar que batia nas guas, o cu sereno e eterno. Eterno, sim, eterno,
leitora minha, que  a mais desconsoladora lio que nos poderia dar Deus, no
meio das nossas agitaes, lutas, nsias, paixes insaciveis, dores de um dia,
gozos de um instante, que se acabam e passam conosco, debaixo daquela azul
eternidade, impassvel e muda como a morte.

Pensaria nisto Guiomar?
No, no pensou nisto um minuto sequer; ela era toda da vida e do mundo,
desabrochava agora o corao, vivia em plena aurora. Que lhe importava,  ou
quem lhe chegara a fazer compreender esta filosofia seca e rida? Ela vivia do
presente e do futuro e,  tamanho era o seu futuro, quero dizer as ambies que
lho enchiam,  tamanho, que bastava a ocupar-lhe o pensamento, ainda que o
presente nada mais lhe dera. Do passado nada queria saber; provavelmente havia-o
esquecido.

A madrugada achou-a
dormindo; mas os primeiros raios do sol vieram acord-la, na forma do costume,
para o matinal passeio com a madrinha. Guiomar sacrificava tudo  dedicao
filial de que j dera tantas provas. A baronesa, entretanto, estava preocupada;
o passeio foi diferente do dos outros dias.

Ao meio-dia meteu-se
Guiomar no carro, com Mrs. Oswald, e saram a uma visita. A baronesa ficou s;
Jorge no a deixou ficar s por muito tempo, porque chegou da a pouco.

A baronesa no perdeu
tempo em circunlquios. Apenas viu o sobrinho interpelou-o diretamente:

 Disseram-me, foi Mrs.
Oswald quem me disse que tu gostas de Guiomar.

Jorge no contava muito
com semelhante interrogao; todavia, no era to ingnuo que corasse, nem to
apaixonado que lhe tremesse a voz. Puxou gravemente os punhos da camisa,
concertou a gravata, e respondeu singelamente:

 No me atrevia a
falar-lhe destas coisas...

 Por que no? 
interrompeu a baronesa; so assuntos que se podem tratar entre mim e ti, sem
pesar para nenhum de ns.  ento verdade o que me disse Mrs. Oswald?

 .

 Amas deveras, ou...

 Deveras. Recuaria, se
visse que uma aliana entre ns ficava mal ao lustre de nossa famlia; mas,
posto que ela seja...

 Guiomar  minha
filha, apressou-se a dizer a baronesa.

 Justamente; no pode
haver melhor ttulo.

 Tem ainda outro,
continuou a baronesa;  uma alma anglica e pura. Henriqueta no teve melhor
corao nem mais amor aos seus. Alm disso, a natureza deu-lhe um esprito
superior, de maneira que a fortuna no fez mais do que emendar o equvoco do
nascimento. Finalmente  de uma beleza pouco comum...

 Rara, titia, pode
dizer que  de uma beleza rara, acudiu Jorge, e pela primeira vez lhe luziu nos
olhos alguma coisa, que no era a gravidade de costume.

 J vs, prosseguiu a
baronesa, que ela possui todos os direitos ao amor e  mo de um homem, como tu.

A baronesa tinha um
corao ingnuo e liso, sem desvios nem astcias; contudo, h ocasies em que o
mais reto esprito emprega, como por instinto, finuras diplomticas. A boa
senhora tinha tanto a peito aquela unio do sobrinho com a afilhada, que no
confiava s do amor; procurava interessar-lhe tambm o amor-prprio.

Jorge curvou-se com
afetada modstia.

 Um homem, como eu, 
disse ele  vale pouco por si mesmo; o valor que tenho, e esse  muito, vem do
nome de meus pais e do seu, titia, e das santas qualidades que a adornam...

 S uma, Jorge, s uma
qualidade santssima:  a de am-los, a ti e a ela. Por isso foi imenso o gosto
que senti quando Mrs. Oswald me disse que gostavas de Guiomar. Acredita que se
tivesse a fortuna de ver a vocs unidos e felizes, morreria contente.

 Oh! isso! disse Jorge
com ar de dvida.

 Julgas impossvel o
casamento?

 Impossvel, no;
impossvel, nada h. Mas... mas suponho que a vontade dela  indispensvel, to
indispensvel como duvidosa.

 Duvidosa! Ests certo
disso?

Jorge tinha-se levantado e dera
alguns passos, no agitado de todo, mas um pouco fora da impassibilidade usual.
A idia do casamento aparecia-lhe agora um pouco mais possvel e exeqvel,
desde que a tia francamente lhe propusesse aliana.

 Ests certo disso? repetiu a
baronesa.

 Certo no; mas h toda a razo
para a dvida. Guiomar sabe que eu gosto dela; e contudo no me d o menor sinal
de corresponder aos meus sentimentos.

 Jorge exps longamente todas
as razes que tinha para crer que a vontade de Guiomar no correspondia  dele;
referiu-lhe, com a maior exao e fidelidade, uns trs ou quatro episdios que
lhe pareciam boa prova daquilo que dizia. A baronesa no ouvia tudo com igual
ateno. Quando ele acabou:

  Guiomar ser muito
vexada,  disse ela  e s vezes, e por isso mesmo, tem essas
aparncias frias. Nada impede, porm, a que venha a amar-te, se  que j te no
ama. H nela certa altivez natural, que pode explicar tambm essa frieza;
parece-me que lhe seria penoso receber o amor de algum que julgasse levant-la
at si.

 Isso, talvez...

 Mas esse sentimento, que pode ser
e  honroso, no  decerto invencvel.

Todas estas palavras da baronesa
lisonjeavam o sobrinho, em cujos lbios pairava agora um sorriso de ntima
satisfao. De quando em quando no ouvia ele nada do que lhe dizia a tia; seus
ouvidos voltavam-se para dentro; ele escutava-se a si prprio. O amor de Guiomar
comeava a parecer-lhe possvel; tudo quanto a baronesa lhe dizia era razovel,
com a vantagem de lhe esclarecer as faces obscuras da situao. Demais, at que
ponto a baronesa conjeturava ou revelava? Bem podia ser que ela tivesse lido
mais fundo no corao da moa.

 Estas reflexes f-las
Jorge, enquanto a baronesa continuava a falar e a desenvolver a idia que
ultimamente indicara. At aquele dia havia ele limitado toda a sua ao a alguns
olhares, e raras palavras de cumprimento; a entrevista com a tia dera-lhe
animao; pareceu-lhe chegado o ensejo de sair daquela paz armada.

Guiomar chegou da a pouco e
achou-os na saleta de trabalho, eufemismo elegante, que queria dizer
literalmente  saleta de conversao entremeada de crochet. Mrs.
Oswald vinha com ela; ambas riam alegremente de no sei que episdio visto no
caminho. Jorge erguera-se, pausado mas risonho, apertou a mo de Guiomar, 
apertou-a deveras, mais do que era usual e corts. Guiomar no pareceu
afligir-se; perguntou-lhe pela sade, transmitiu  madrinha as lembranas que
lhe mandavam e disps-se a sair.

Durante esse tempo, Jorge olhava
para ela, enlevado deveras na contemplao de toda aquela nobre figura, agora
mais bela que dantes, desde que se lhe tornara possvel a aliana h muito
sonhada. Havia nos olhos de Jorge uns tais ou quais vestgios lbricos, donde se
podia colher que, se ele fosse poeta, e poeta arcdico, editaria pela
milionsima vez a comparao da Vnus e dos seus infalveis amorinhos;
comparao detestvel, sobretudo, porque a casta beleza de moa, se alguma coisa
pag lhe podia ser chamada, seria antes Diana convertida ao
Evangelho.

Jorge saiu dali singularmente
agitado; a conversa da baronesa dera-lhe nervo e resoluo, e o quadro do
casamento comeou a desenhar-se-lhe no esprito, como o relgio que o menino tem
de usar pela primeira vez. At ali deixara-se ele ir  feio das guas; agora
via a necessidade e a possibilidade de abicar  riba feliz do
matrimnio.

As dvidas de Jorge no lhe
saltearam o esprito; apenas chegou a casa travou da pena, e lanou na folha
branca e lustrosa de seu papel uma confisso elegante e polida, que todavia
refundiu duas ou trs vezes, primeiro que a desse por pronta. Acabada a redao
final, transcreveu aquela prosa do corao na mais ntida folha que havia em
casa,  dobrou e meteu-a na algibeira.

De noite foi  casa da tia. Achou
as senhoras  volta de uma mesa; Guiomar lia, para a madrinha ouvir, um romance
francs, recentemente publicado em Paris e trazido pelo ltimo paquete. Mrs.
Oswald lia tambm, mas para si, um grosso volume de Sir Walter Scott, edio
Constable, de Edimburgo.

Jorge veio interromp-las um
pouco, mas s interromper, porque a leitura continuou logo depois, ajudando ele
prprio a Guiomar naquela filial tarefa. Veio o ch, veio depois a hora de
recolher, e a baronesa deu por findo o sero, ainda que o livro estava quase
findo.

 Um captulo mais, aventurou Jorge
com o livro aberto nas mos.

A baronesa sorriu e voltou os
olhos para Guiomar, a cuja conta lanou aquela dedicao do sobrinho; recusou
contudo, por estar a cair de sono.

 Eu  que no me deito sem saber o
resto, declarou Guiomar; levo o livro comigo.

 Ah! disse Jorge com um gesto de
satisfao.

E enquanto Guiomar se dispunha a
acompanhar a madrinha at  porta do quarto, e Mrs. Oswald marcava a pgina e
fechava o seu livro, Jorge igualmente fechava o outro, mas com tal demora e
cuidado, que deu muito que entender  inglesa. Se ela chegou a entender,
v-lo-emos depois; o certo  que o livro foi enfim entregue a Guiomar, tendo a
pgina marcada, no com a fita que l estava pendente, mas com um pedacinho de
papel.

O pedacinho de papel era a carta;
apenas uns poucos centmetros de altura; mas por mais exguas que tivesse as
dimenses, bem podia ser que levasse ali dentro nada menos que uma tempestade
prxima.

CAPTULO X / A
REVELAO

Meia hora depois, indo
a abrir o livro para continuar a leitura, viu Guiomar a cartinha de Jorge. No
tinha sobrecarta; era um simples papelinho dobrado, rescendendo a amores. O
esprito de Guiomar estava to longe daquilo que no suspeitou nada e
distraidamente o abriu. A primeira palavra escrita era o seu nome; a ltima era
o de Jorge.

O primeiro gesto de
Guiomar foi de clera. Se ele pudesse espreit-la pelo buraco da fechadura, e
ver-lhe a expresso do rosto  muito provvel que se lhe convertesse em
aborrecimento todo o amor que at agora nutria. Mas ele no estava ali, a moa
podia traduzir fielmente no rosto os movimentos do corao.

 Mais um, pensou ela;
este porm...

E desta vez o gesto no
foi de clera, foi de alguma coisa mais, metade fastio, metade lstima, mescla
difcil e rara.

A moa ficou algum
tempo quieta, a olhar para o papel, sem o querer ler, como a hesitar entre
queim-lo ou restitu-lo intato a seu autor. Mas a curiosidade venceu por fim;
Guiomar abriu o papel e leu estas linhas:

"Guiomar! Perdoe-me se
lhe chamo assim; as convenes sociais condenam-me decerto, mas o corao
aprova, que digo? ele mesmo escreve estas letras. No  a minha pena, no so os
meus lbios que lhe falam deste modo, so todas as foras vivas da minha
existncia, que em alta voz proclamam o imenso e profundo amor que lhe tenho.

Antes de o ler neste
papel, j a senhora o h de ter visto, pelo menos adivinhado nos meus olhos, na
doce embriaguez que em mim produz a presena dos seus. Persuado-me de que todo o
meu esforo em recalcar este afeto  vo; por mais que eu sinceramente deseje
esquec-la, no o alcanarei nunca; no alcanarei mais que uma aflio nova. O
remorso de o tentar, vir coroar os demais infortnios.
Por que razo rompo
hoje o silncio em que me tenho conservado, medroso e respeitoso silncio que,
se me no abre o caminho da glria, ao menos conserva-me a palma da esperana?
Nem eu mesmo saberia responder-lhe; falo, porque uma fora interior me manda
falar, como transborda o rio, como se derrama a luz; falo porque morreria talvez
se me calasse, do mesmo modo que morrerei de desespero, se alm do perdo que
lhe peo, me no der uma esperana mais segura do que esta, que me faz viver e
consumir.
 Jorge."

Guiomar leu esta carta
duas vezes, uma leitura de curiosidade, outra de anlise e reflexo, e ao cabo
da segunda achava-se to fria como antes da primeira. Olhou algum tempo para o
papel e mentalmente para o homem que o havia escrito; enfim, ps a carta de
lado, abriu o livro e continuou o romance.

Mas o esprito, que no
ficara to indiferente como o corao, entrou a fugir-lhe do romance para a
vida, com tal tenacidade que no houve remdio seno irem os olhos atrs dele, e
a moa de novo mergulhou nas reflexes que lhe sugeria o caso da paixo de
Jorge.

Paixo no era,  no o
seria ao menos no sentido inteiro do vocbulo; mas alguma coisa menos, ou
parecida com ela, e ainda assim verdadeira, via bem Guiomar que o poderia ser.
At que ponto chegaria entretanto, o seu adorador, se ela o desatendesse logo;
e, dado o amor que a baronesa tinha ao sobrinho, at que ponto a recusa iria
mago-la? Guiomar varreu do esprito os receios que lhe nasciam de tais
interrogaes; mas sentiu-os primeiro, pesou-os antes de os arredar de si, o que
revelar ao leitor em que proporo estavam nela combinados o sentimento e a
razo, as tendncias da alma e os clculos da vida.

Excludo o receio,
voltou-lhe o riso, aquele riso interior, que  o mais involuntrio e cruel, e
tambm o menos arriscado que a gente pode dar s fatuidades humanas. No podia
ser to desprezvel assim o amor de um homem, cuja ridiculez compensavam algumas
qualidades boas, e que enfim era tambm distinto, ainda que a sua distino
primasse antes por um estilo rendilhado e complicado, que no  o melhor.
Guiomar via tudo isso, e por outro lado, no podia obstar que ele a amasse; nem
por isso achava menos temerria aquela confisso.

A moa refletia tambm
na posio especial que tinha naquela casa o sobrinho da baronesa; via-se
obrigada  presena dele, e talvez  luta, porque o pretendente no recuaria do
primeiro golpe. No havia tais receios da parte de Estevo; ela reconhecia que a
paixo deste era ardente e profunda, e por isso mais capaz de desatinos; mas
comparava as ndoles dos dois homens, e se ambos lhe pareciam de fraca
compleio moral, nem por isso desconhecia que ao bacharel faltava certa
presuno que distinguia o outro, e com a qual teria talvez de pelejar.

Quando ela fez esta
comparao entre os dois homens, ficaram-lhe os olhos um pouco mais moles e
quebrados, obra de trs minutos apenas, mas trs minutos que, se Estevo soubera
deles, trocaria por eles o resto de toda a vida. E contudo, no era amor nem
saudade; alguma simpatia, sim, ainda que leve e sem conseqncia; mas sobretudo
era pena de o no poder amar,  ou ainda melhor  era lstima de que tal corao
no fora casado a outro esprito.

Guiomar refletiu ainda
muito e muito, e no refletiu s, devaneou tambm, soltando o pano todo a essa
veleira escuna da imaginao, em que todos navegamos alguma vez na vida, quando
nos cansa a terra firme e dura, e chama-nos o mar vasto e sem praias. A
imaginao dela porm no era doentia, nem romntica, nem piegas, nem lhe dava
para ir colher flores em regies selvticas ou adormecer  beira de lagos azuis.
Nada disso era nem fazia; e por mais longe que velejasse levaria entranhadas na
alma as lembranas da terra.

Volveu enfim e os olhos
caram-lhe na carta. A realidade presente no se lhe podia mostrar de pior modo.
Guiomar ergueu-se irritada, lanou mo do papel e machucou-o febrilmente; ia
talvez rasg-lo, quando ouviu bater de manso  porta.

 Quem ? perguntou.

 Sou eu, respondeu a
voz de Mrs. Oswald.

A moa foi abrir a
porta; a inglesa entrou trajada de dormir, e um vivo espanto nos olhos, que
pareceu tirar-lhe a voz durante alguns segundos. Guiomar assustada perguntou:

 Que ? aconteceu
alguma coisa a minha madrinha?

 Longe v o agouro!
exclamou a inglesa. No lhe aconteceu nada; a senhora baronesa dorme
naturalmente a sono solto. Venho porque do meu quarto pareceu-me ouvir rumor de
passos aqui, e depois vi luz. Pensei que tivesse algum incmodo. Mas, pelo que
vejo, continuou a inglesa deitando os olhos para a mesinha em que pousava o
livro aberto,  pelo que vejo ainda no acabou de ler o seu romance...

 No li ainda uma
linha, depois que me recolhi, respondeu Guiomar cravando os olhos no rosto da
inglesa, como tomada de um pensamento sbito.

 Deveras!

 Li outra coisa,
continuou a moa; li este papel.

Mrs. Oswald inclinou-se
para ler tambm o papel, que alis adivinhou qual fosse; Guiomar atirou-o sobre
a mesa.

 No precisa, disse
ela;  uma declarao amorosa.

 De quem? perguntou a
inglesa abrindo uns olhos espantados e obedientes.

 Leia o nome.

Mrs. Oswald leu a
assinatura da carta, que a moa de novo lhe apresentava.

 Naturalmente,
continuou Guiomar, h nisto obra sua...

 Minha! interrompeu a
outra um pouco mais rispidamente do que costumava falar.

Guiomar tinha ido
sentar-se; o pezinho impaciente batia no tapete, com um movimento rpido e
regular, cruzara os braos sobre o peito, fitando a inglesa com uns olhos em que
se podia ler a viva exacerbao do esprito. Seguiu-se curto silncio; Mrs.
Oswald puxou outra cadeira e sentou-se perto da moa.

 Por que h de ser
injusta comigo? disse ela dando  voz um tom melfluo e suplicante; por que no
h de ver as coisas, como elas naturalmente so? O que h nisto  uma
coincidncia curiosa, mas nada mais. Se lhe falei em semelhante coisa algumas
vezes, foi porque eu mesma percebi o amor que lhe tem o Sr. Jorge;  coisa que
todos vem. Imaginei que o casamento, neste caso, seria agradvel a Sra.
baronesa a quem sou grata. Posso ter feito mal...

 Muito mal,
interrompeu Guiomar; so coisas de famlia em que a senhora nada tem que ver.

Guiomar levantou-se
outra vez, deu alguns passos, e voltou a sentar-se. Com o movimento
desprenderam-se-lhe os cabelos e caram-lhe sobre os ombros. Mrs. Oswald
aproximou-se dela para os colher, e atar, mas a moa secamente a repeliu:

 Deixe, deixe...

E ela mesma os recomps
com as suas mozinhas finas, e ficou depois a olhar para o cho, a morder o
lbio, a respirar fortemente, como se contivera a palavra que forcejava por sair
impetuosa e colrica. Mrs. Oswald no disse nada durante alguns minutos; esperou
que passasse o perodo agudo da irritao. Quando lhe pareceu que ela afrouxara,
rompeu enfim o silncio.

 Fiz mal, fiz, no h
dvida, mas a inteno no podia ser melhor. Talvez no me creia; pacincia! O
que lhe peo,  nem lhe peo,  o que eu acredito piamente  que no me h de
atribuir algum interesse de ordem...

Mrs. Oswald fez uma
pausa para dar aberta ao protesto de Guiomar, mas Guiomar no protestou, quero
dizer no protestou de viva voz; fez apenas um gesto negativo, bastante a
satisfazer os melindres da inglesa. A moa foi sincera; no atribua realmente a
nenhum interesse vil,  pecunirio,  a ao de Mrs. Oswald. Nem por isso a
absolvia,  no s porque ela viria concorrer talvez para uma crise penosa, mas
tambm,  bom  not-lo outra vez,  porque a condio da inglesa naquela casa
era relativamente inferior.

A inglesa continuou a
falar em defesa prpria, a justificar miudamente os bons sentimentos do corao,
e a prometer que deixava por mo todo aquele negcio, a seu juzo, o melhor que
a moa podia fazer.

 A experincia da
vida, concluiu ela, devia ter-me convencido de que o melhor de todos os
sentimentos  um egosmo quieto e calado.

Enquanto ela falava
assim, Guiomar parecia volver  tranqilidade habitual. A mudana foi,  no
sbita,  mas um pouco mais rpida do que devera ser, tratando-se de um
esprito, como o dela, em que as impresses no eram superficiais nem
momentneas. Havia at uns toques de afabilidade no rosto e na voz, quando ela
comeou a falar, o que revelaria talvez ser aquela mudana muito voluntria e
meditada.

 Est bom, Mrs.
Oswald, o que passou, passou. Sinto que as coisas chegassem a este ponto, e que
ele se lembrasse de escrever semelhante carta, confessando uma paixo que
acredito sincera, mas a que o meu corao no pode corresponder. Amores no se
encomendam como vestidos; sobretudo no se fingem, ou no se devem fingir nunca.

 Oh! decerto!

 Eu gosto dele, como
parente que  de minha madrinha, e tambm porque ela lhe tem afeio de me,
como a mim; somos uma espcie de irmos, nada mais.

 Tem muita razo,
assentiu Mrs. Oswald. A senhora pensa e fala como um doutor. Que se lhe d de
fazer? Quem no ama no ama. Dele  que eu tenho pena!

 Gosta muito de mim,
no? perguntou Guiomar fitando os olhos na inglesa.

 Oh! parece que sim! A
senhora deve sab-lo tanto como eu; eu sei o que tenho visto, e creio que 
muito.

 Eu nunca vi nada,
respondeu secamente Guiomar.

A resposta de Mrs.
Oswald foi um sorriso de incredulidade, que a outra no viu ou no quis ver.
Houve uma pausa; Guiomar continuou nestes termos:

 Mas seja como for, a
minha resposta  negativa. Estou que ele no me far a injria de querer casar
comigo, sem que eu o ame...

Guiomar parou, como a
esperar que a outra lhe dissesse alguma coisa. Desta vez coube a Mrs. Oswald no
responder nada, nem com a voz nem com o gesto. A moa inclinou o corpo, ps os
braos sobre os joelhos, com os dedos cruzados, e entre um riso amvel e um
olhar afetuoso, continuou:

 A senhora podia, se
acaso ele alguma vez lhe falou nisso ou vier a falar-lhe, podia dissuadi-lo de
tais idias, dizendo-lhe simplesmente a verdade e dando-lhe conselhos, os
conselhos que a senhora h de saber dar, e que ele aceitar decerto, porque  um
bom corao, um carter estimvel...

 Oh! excelente! um
moo excelente!

E as duas ficaram a
olhar uma para a outra. Guiomar a sorrir, mas de um sorriso, que era uma
contrao voluntria dos msculos, e a inglesa a fazer um rosto de piedade, e
adorao, e pena, e muita coisa junta, que a moa s comeou a compreender,
quando ela rompeu o silncio deste modo:

 Estou a duvidar se
devo dizer-lhe o resto.

 O resto? perguntou
Guiomar admirada. Pois que h mais?

A inglesa aproximou a
cadeira. Guiomar endireitou o busto e esperou ansiosa a revelao,  se
revelao era,  que lhe ia fazer Mrs. Oswald. Esta no falou logo; era razovel
hesitar um pouco, lutar consigo mesma, antes de dizer alguma coisa. Enfim, com
um movimento de quem ajunta as foras todas e as emprega em coisa superior 
coragem usual:

 D. Guiomar, disse
ela, pegando-lhe nas mos, ningum pode exigir que se case sem amar o noivo;
seria na verdade uma afronta. Mas o que lhe digo  que o amor que no existe por
ora, pode vir mais tarde, e se vier, e se viesse seria uma grande fortuna...

 Mas acabe, acabe,
interrompeu a moa com impacincia.

 Seria uma grande
fortuna para a senhora, para ele, ouso dizer que para mim, que os estimo e
adoro, mas, sobretudo para a Sra. baronesa.

 Como assim? disse
Guiomar.

 Oh! para ela seria a
maior fortuna da vida, porque  hoje o seu mais entranhado e vivo desejo, o seu
desejo verdadeiramente da alma. A senhora...

 Est certa disso?

 Certssima.

 No creio, no vejo
nada que...

 Creia, deve crer. Se
me promete nada dizer desta nossa conversa, nem fazer suspeitar por nenhum modo
o que lhe estou contando...

 Fale.

 Pois bem,  continuou
Mrs. Oswald abaixando a voz, como se algum pudesse ouvi-la na solido daquela
alcova, e no silncio profundo daquela casa, que toda dormia,  pois bem, eu lhe
direi que por ela mesma tive notcia deste seu desejo. Quando eu percebi a
paixo do Sr. Jorge, falei nisso a sua madrinha, gracejando na intimidade que
ela me permite, e a senhora baronesa em vez de sorrir, como eu esperava que
fizesse, ficou algum tempo pensativa e sria, at que rompeu nestas palavras:
"Oh! se Guiomar gostasse dele e viessem a casar-se, eu seria completamente
feliz. No tenho hoje outra ambio na Terra. H de ser a minha campanha."

 Minha madrinha disse
isso? perguntou Guiomar.

 Tal qual. A resposta
que lhe dei foi que o casamento no era impossvel, e que nada mais natural do
que virem a amar-se duas pessoas a princpio indiferentes. O amor nasce muita
vez do costume.

Guiomar j mal ouvia o
que lhe estava dizendo a inglesa; se ainda olhava para ela, era com os olhos
indecisos e empanados, de quem vai toda absorvida em pensamentos ntimos.

 Foi desde esse dia,
continuou Mrs. Oswald, que me pareceu conveniente falar-lhe algumas vezes nisso,
sondar-lhe o corao, ver se ele favorecia o sonho de sua madrinha, tornando
feliz toda esta casa... Fiz mal, convenho; mas a inteno era a mais respeitvel
e santa deste mundo.

 Decerto, murmurou
Guiomar.

Mrs. Oswald pegou-lhe
numa das mos e beijou-a afetuosamente. Guiomar no a repeliu nem sequer pareceu
dar-se-lhe da ternura da inglesa. As duas olharam-se uns breves minutos, sem
dizer nada, como a lerem na alma uma da outra.

Guiomar no tinha a
experincia nem a idade da inglesa, que podia ser sua me; mas a experincia e a
idade eram substitudas, como sabe o leitor, por um grande tino e sagacidade
naturais. H criaturas que chegam aos cinqenta anos sem nunca passar dos
quinze, to smplices, to cegas, to verdes as compe a natureza; para essas o
crepsculo  o prolongamento da aurora. Outras no; amadurecem na razo das
flores; vm ao mundo com a ruga da reflexo no esprito,  embora, sem prejuzo
do sentimento, que nelas vive e influi, mas no domina. Nestas o corao nasce
enfreado; trota largo, vai a passo ou galopa, como corao que , mas no
dispara nunca, no se perde nem perde o cavaleiro.

O que a afilhada da
baronesa buscava ler no rosto de Mrs. Oswald era se efetivamente a madrinha
nutria aquele desejo, ou se tal revelao no era mais do que um embuste. O
leitor sabe que era verdadeira; mas admitir, sem dvida, que a moa s depois
de muito interrogar e examinar lhe desse f. Creu enfim; creu, porque era
verossmil, creu porque a inglesa no se arriscaria a qualquer indiscrio da
parte dela, que de todo a desmascararia.

 Parece-me, disse Mrs.
Oswald, que no fiz mal em lhe dizer tudo o que sabia. Conselhos no lhe dou
nenhuns; o melhor deles no vale a voz do prprio corao. O seu  puro e reto;
consulte-o de boa vontade, e ver se h nele indiferena, ou se alguma fasca...

 Eu sei! interrompeu
Guiomar. No me lembrou consult-lo nunca.

 Faz mal, ele  o
relgio da vida. Quem o no consulta, anda naturalmente fora do tempo. Mas que
vejo! continuou Mrs. Oswald deitando os olhos para o reloginho de Guiomar.
Naquele outro relgio faltam dez minutos para uma hora! Uma hora! Que diria a
Sra. baronesa se soubesse que ainda estamos aqui de conversa! Retiro-me; Deus
lhe d um sono sossegado, e sobretudo a faa feliz, como merece. No lhe
recomendo juzo, porque o tem de sobra. Adeus, at amanh.

E Mrs. Oswald saiu p
ante p em direo ao seu quarto.

Guiomar ficou s, ali
sentada ao p da cama, a ouvir o passo surdo e cauteloso da inglesa. Quando o
som morreu de todo, e o silncio da noite volveu ao que era, profundo e
sepulcral, a moa deixou cair os braos na cama, e a cabea nas mos, e um
suspiro desentranhou-se-lhe do peito, longo, ruidoso, magoado,  o primeiro que
o leitor lhe ouve desde que a conhece  e enfim estas palavras arrancadas da
alma, to doloridas,  ia dizer to lacrimosas,  vinham elas:

 Oh meus sonhos! meus
sonhos!

No chorou; a alma dela
era das que no tm lgrimas, enquanto lhe restam foras. Os olhos estavam secos
e firmes quando ela os ergueu das mos; o rosto tinha vestgios do abalo, mas
no havia nele desnimo, menos ainda desespero.

CAPTULO XI / LUS
ALVES

Durante uma inteira e
comprida semana, deixou Estevo de aparecer no escritrio onde trabalhava com
Lus Alves; no apareceu tambm em Botafogo. Ningum o viu em todo esse tempo
nos lugares onde ele era mais ou menos assduo. Foram seis dias, no digo de
recluso absoluta, mas de completa solido, porque ainda nas poucas vezes que
saiu, f-lo sempre a horas ou em direes que a ningum via, e de ningum era
visto.

Mas no fora essa crua
e malfadada crise, e  quase certo que ele meteria uma lana na frica daqueles
dias, que era um ponto muito srio e grave, a questo magna da Rua do Ouvidor e
da casa do Jos Toms, a ponderosa, crespa e complicada questo de saber se a
Stephanoni estrearia no Ernani. Esta questo, de que o leitor se ri hoje,
como se ho de rir os seus sobrinhos de outras anlogas puerilidades, esta
pretenso a que se opunha a Lagrua, alegando que o Ernani era seu, pretenso que
fazia gemer as almas e os prelos daquele tempo, era coisa muito prpria a
espertar os brios do nosso Estevo, to marechal nas coisas mnimas, como
recruta nas coisas mximas.

Infelizmente ele no
aparecia, no sabia sequer do conflito e do debate, ocupado como estava em
travar o spero e sangrento duelo do homem contra si mesmo, quando lhe falta o
apoio, ou a consolao dos outros homens. Todo ele era Guiomar; Guiomar era o
primeiro e o ltimo pensamento de cada dia. A sombra da moa vivia ao p dele e
dentro dele, no livro em que lia, na rua solitria onde acaso transitava, nos
sonhos da noite, nas estrelas do cu, nas poucas flores do seu inculto jardim.

Um leitor perspicaz,
como eu suponho que h de ser o leitor deste livro, dispensa que eu lhe conte os
muitos planos que ele teceu, diversos e contraditrios, como  de razo em
anlogas situaes. Apenas direi por alto que ele pensou trs vezes em morrer,
duas em fugir  cidade, quatro em ir afogar a sua dor mortal naquele ainda mais
mortal pntano de corrupo em que apodrece e morre tantas vezes a flor da
mocidade. Em tudo isto era o seu esprito apenas um joguete de sensaes
contnuas e variadas. A fora, a permanncia do afeto no lhe bastava a dar
seguimento e realidade s concepes vagas de seu crebro,  enfermo, ainda
quando estava de sade.

A idia do suicdio
fincou-se-lhe mais a dentro no esprito, certa tarde em que ele saiu a
espairecer, e viu um enterro que passava, caminho do Caju. O prstito era
triste,  ainda mais triste pela indiferena que se lia no rosto dos que iam
piedosamente acompanhando o morto. Estevo descobriu-se e sinceramente desejou
ir ali dentro, metido naquelas estreitas tbuas de pinho, com todas as suas
dores, paixes e esperanas.

 No tenho outro
recurso, pensou ele;  necessrio que morra.  uma dor s, e  a liberdade.

Ao voltar para casa,
uma criana que brincava na rua, em camisa, com os ps na gua barrenta da
sarjeta, f-lo parar alguns instantes, invejoso daquela boa fortuna da infncia,
que ri com os ps no charco. Mas a inveja da morte e a inveja da inocncia foram
ainda substitudas pela inveja da felicidade, quando ao recolher-se viu as
janelas abertas de uma casa vizinha, e a sala iluminada, e uma noiva coroada de
flores de laranjeira, a sorrir para o noivo, que sorria igualmente para ela,
ambos com o sorriso indefinvel e nico da ocasio.

Os cinco dias
correram-lhe assim, travados de enojo, de desespero, de lgrimas, de reflexes
amargas, de suspiros inteis, at que raiou a aurora do sexto dia, e com ela, 
ou pouco depois dela, uma carta de Botafogo. Estevo quando viu o criado da
baronesa,  porta da sala, com uma carta na mo, sentiu tamanho alvoroo, que
no ouviu nada do que ele lhe disse. Suporia que a carta era de Guiomar? Talvez;
mas a iluso durou os poucos instantes que ele gastou em romper a sobrecarta e
desdobrar a folha de papel que vinha dentro.

A carta era da
baronesa.

A baronesa
perguntava-lhe graciosamente se ele havia morrido, e pedia que fosse falar-lhe
acerca da demanda que ela trazia. Estevo chegara j ao estado de s esperar um
pretexto para transigir consigo mesmo; no podia hav-lo melhor. Escreveu
rapidamente duas linhas de resposta, e  uma hora da tarde apeava-se de um
tlburi  porta da funesta e deliciosa casa, onde havia passado as melhores e as
piores horas da vida.

 Sabe por que razo
lhe dei este incmodo, alm do prazer que tinha em v-lo? perguntou a baronesa
logo depois dos primeiros cumprimentos.

 Disse-me que era por
causa da demanda ...

 Sim, precisamos
assentar algumas coisas, antes da nossa partida.

 V. Ex. sai da Corte?

 Vamos para a roa.

Estevo empalideceu. Na
situao dele, aquela viagem era a melhor coisa que lhe podia acontecer;
contudo, fez-lhe mal a notcia. A conversa que se seguiu foi toda sobre o
assunto forense, e durou uma longa hora, sem que aparecesse Guiomar. Ao
despedir-se atreveu-se Estevo a perguntar por ela.

 Anda passeando,
respondeu a baronesa.

Estevo despediu-se da
constituinte, que o acompanhou at porta da sala, repetindo-lhe algumas
recomendaes, que o advogado mal pde ouvir e absolutamente lhe no ficaram de
memria.

A esperana de ver a
moa levara-o, mais que tudo quela casa; saa sem ter o gosto de a contemplar
ainda uma vez; mais do que isso, ameaado de a no ver to cedo, ou quem sabe se
nunca mais. Ia ele a refletir nisto e a aproximar-se da porta, onde parava ao
mesmo tempo um carro. Estevo estremeceu naturalmente, antes de ver quem ia
apear-se; grudou-se ao portal, com os olhos fitos na portinhola, que um lacaio
abria apressadamente.

A primeira figura que
desceu foi a nossa conhecida Mrs. Oswald, que o fez, sem dar tempo a que Estevo
lhe oferecesse a mo. O bacharel, desde que a vira, aproximara-se rapidamente da
portinhola.

Guiomar desceu logo
depois. A mo apertada na luva cor de prola pousou levemente na mo de Estevo
que estremeceu todo. A moa fez-lhe um cumprimento risonho, murmurou um
agradecimento e recolheu-se com a inglesa. Era pouco; mas esse pouco alvoroou o
bacharel, que enfiou dali para a cidade, em direo ao escritrio.

Lus Alves admirou-se
de o ver; no foi com um espanto de seis dias, como devera ser, mas de quarenta
e oito horas, quando muito. Que admira? A preocupao de Lus Alves por aqueles
dias era a candidatura eleitoral; a boa nova devia chegar-lhe na primeira mala
do Norte. Ora, em boa razo, um homem que est prestes a ser inscrito nas tbuas
do parlamento, no pode cogitar muito dos amores de um rapaz, ainda que o rapaz
seja amigo e os amores verdadeiros.

Estevo no perdeu
tempo em circunlquios; foi entrando e entornando a alma toda, aflita e
consolada a um tempo, no seio do velho amigo e companheiro. A cada trecho da
confisso plena que ele ali lhe fez, respondia um comento, ora srio, ora
gracioso de Lus Alves. Quando Estevo porm lhe deu notcia de que a famlia da
baronesa ia para a roa, Lus Alves recolheu o meio-riso que lhe pousava nos
lbios desde comeo, e com a mais sbita e sincera admirao, exclamou:

 Para a roa!

 Disse-o agora mesmo a
baronesa.

 Mas...

Lus Alves no acabou;
olhou ainda meio duvidoso para Estevo, e ficou algum tempo calado, a coar o
queixo com a faca de marfim e a olhar para uma gravura que pendia na parede
fronteira.

 Na situao em que
estou, continuou Estevo, hs de dizer que a viagem  uma felicidade para mim.
Pois no ; no admito a viagem. Se ela sair da Corte, eu saio tambm.

 Tu ests doido!

 Talvez.

Lus Alves saiu daquela
natural indiferena com que o ouvia, e lhe falava sempre em tal assunto.
Falou-lhe carinhoso,  talvez pela primeira vez na vida. O que lhe disse foi
apenas uma edio aumentada do que lhe havia dito em anteriores ocasies, 
agora com maior fundamento, porque depois do formal desengano de Guiomar, no
havia outro recurso mais que ir esquec-la de todo.

 Oh! isso nunca!
interrompeu Estevo. Demais, no sei, no estou certo se ela falava de corao
naquela tarde...

A candidez com que
Estevo disse isto era a fiel traduo de seu esprito, e a razo de tais
palavras, no a procure o leitor em outra parte mais que no seja aquele sorriso
de h pouco, ao p do carro, sorriso que lhe bailava no crebro, como raio de
sol coado por entre nuvens negras de tempestade.

Lus Alves sacudiu a
cabea e enfiou os olhos pelas folhas rabiscadas de uns autos que tinha diante,
e que entrou a folhear vagarosamente. Sbito, bateu uma pancadinha, com a mo
espalmada sobre os papis, e levantou a cabea:

 H um meio talvez de
saber tudo, disse ele, de saber se ela verdadeiramente te ama, ou... Posso
tent-lo, com uma condio.

 Qual?

 A condio de
eliminares as tuas pretenses. Que diabo ganhas tu em nutrir uma paixo sem
eficcia nem remdio?

Esta promessa era a
mais dura que se podia arrancar de um corao, em que as geraes de esperanas
se sucediam quase sem soluo de continuidade; f-la, todavia, Estevo, talvez
com a secreta resoluo de a trair.

Lus Alves ficou s da
a alguns minutos. As ltimas palavras que disse ao colega foram duas ou trs
pilhrias de rapaz; mas apenas ficou s tornou-se srio, e inclinando o corpo
para a frente, com os braos na secretria, e a raspar as unhas com um canivete,
ali esteve largo tempo, como a refletir, longe de Estevo, que alis j no ia
perto, e ainda mais longe dos autos que tinha diante de si. Mas em que pensava
ele, se no era em Estevo, nem nos autos, nem tambm, por agora, nas suas
esperanas eleitorais? Pacincia, leitor; sab-lo-s daqui a nada. Contenta-te
com a notcia de que, ao cabo de vinte minutos daquela abstrao, Lus Alves
volveu a si, proferindo em alta voz esta simples palavra:

 No h dvida;  uma
ambiciosa.

E descativado daquela
preocupao, enterrou-se de todo na leitura dos autos.

CAPTULO XII / A
VIAGEM

Mal recomeara Lus
Alves a leitura dos autos, entrou no gabinete o criado apresentando-lhe um
bilhete de visita.

 Que entre! disse o
advogado lendo o nome do sobrinho da baronesa.

E logo se ouviu no
corredor o passo medido e lento do mancebo, que da a nada assomava  porta do
gabinete, fazendo uma cortesia, sisuda, mas graciosa.

 Venho incomod-lo,
doutor? perguntou Jorge.

 Pelo amor de Deus!
exclamou o advogado erguendo-se e indo busc-lo  porta. No me incomodaria em
caso nenhum; agora, sobretudo, que a leitura de uns papis me fatigou
sobremaneira, a maior fortuna que eu poderia desejar  a presena de um homem de
esprito.

Jorge agradeceu este
cumprimento um pouco enftico, e retribuiu-o com outra lisonjaria muito mais
extensa e de maior alcance. Quer dizer que ele vinha pedir alguma coisa.
Efetivamente, passados os minutos de intrito e desfiadas as generalidades,
Jorge empertigou-se mais do que at ali estivera e desfechou esta pergunta
abrupta:

 Sabe que venho
pedir-lhe uma coisa grave?

Lus Alves inclinou-se.

 Grave e simples ao
mesmo tempo, continuou o sobrinho da baronesa; mas antes disso precisava saber
se  to amigo da nossa famlia, como ela o  do senhor.

 Oh! decerto!

 O senhor  o menos
assduo, talvez, das pessoas que l vo, apesar de vizinho; s agora o vejo ali
mais a mido; entretanto  como flor que se trai pelo aroma; minha tia tem a seu
respeito a melhor opinio do mundo; acha-lhe uma gravidade, e eu tambm a sinto,
e nem compreendo que um homem possa ser outra coisa. Os tais espritos fteis...

 So insuportveis,
concluiu Lus Alves ansioso por chegar ao objeto da visita.

O objeto era a viagem
da baronesa. Um comendador, amigo do finado baro, e fazendeiro em Cantagalo,
tinha promessa da viva, havia dois anos, de ir l passar algum tempo. A
baronesa esquivara-se sempre a cumprir a palavra dada; agora porm, tal fora a
insistncia, que se resolvera a ir. Ora, o que Jorge vinha propor era, 
expresses dele,  uma conjurao de amigos para dissuadir a tia daquele
projeto. Afianava ao advogado que, ainda descoberta a conjurao, teria ele a
vida s e salva.

Lus Alves sups a
princpio que aquilo era um simples pretexto; mas, tendo observado que a bela
Guiomar no era indiferente ao rapaz, compreendeu que este tinha na conjurao
proposta, um interesse inteiramente pessoal. Enfim, Jorge chegou a confessar
que, se a tia insistisse em sair da Corte, ele no tinha remdio seno
acompanh-la.

O acordo no foi
difcil; ficou assentado que fariam todos os esforos para dissuadir a baronesa.
Jorge quis sair logo; reteve-o Lus Alves algum tempo mais, com expresses de
louvor habilmente tecidas e mais habilmente encastoadas na conversao; e tambm
deixando-se ir  feio do esprito dele, aceitando-lhe as idias e os
preconceitos, e aplaudindo-os discretamente,  srio, quando eles o eram ou
pareciam ser,  chocarreiro quando vinham com ar de graa,  respondendo enfim a
todos os gestos e meneios do outro, como faz o espelho por ofcio e obrigao: 
toda a arte em suma de tratar os homens, de os atrair e de os namorar, que ele
aprendera cedo e que lhe devia aproveitar mais tarde na vida pblica.

De noite foi Lus Alves
 casa da baronesa, onde poucas pessoas havia, todas de intimidade. A dona da
casa, sentada na poltrona do costume, tinha ao p de si uma senhora da mesma
idade que ela, igualmente viva, e defronte as suas brancas e aposentadas de
um ex-funcionrio pblico. Num sof, viam-se Mrs. Oswald e Jorge a conversarem
em voz, ora muito baixa, ora um pouco mais elevada. Adiante, dois moos contavam
a duas senhoras o enredo da ltima pea do Ginsio. Mais longe, uma moa da
vizinhana gabava a outra a tesoura de Mme. Bragaldi, que pedia meas, dizia
ela, ao pincel do cengrafo, seu marido. Enfim, junto a uma das janelas via-se
uma mocinha, viva e bonita, a dizer mil ninharias graciosas a outra pessoa, que
era nada menos que a nossa conhecida Guiomar. A conversa, assim dividida,
tornava-se s vezes geral, para recair logo no particularismo anterior; os
grupos modificavam-se tambm de quando em quando, do mesmo modo que o assunto, e
assim se iam matando agradavelmente as horas, que no resistiam, coitadas, nem
apressavam o passo um minuto sequer.

Lus Alves agregara-se
ao grupo da baronesa, ao qual no tardou juntar-se Jorge. O advogado teve a
discrio de esperar que o assunto viesse de si, se viesse, ou de o introduzir
na conversa, quando lhe parecesse de feio. Mas Jorge, que estava impaciente,
arrastou o assunto ao debate. Lus Alves, mostrou-se fiel  palavra dada;
declarou amavelmente que se opunha  viagem, como vizinho e amigo, que
reclamaria em ltimo caso o auxlio de fora pblica; que era um erro e um crime
deixar aquela casa viva da benevolncia e da graa e do gosto e de todas as
mais qualidades excelentes que ali iam achar os felizes que a freqentavam; que,
enfim, o mal era tamanho, que no deixaria de ser pecado, posto no viesse
apontado nos catecismos, e como pecado, seria de fora punido, com amargas
penas, no outro sculo, pelo que, e o mais dos autos, era sua deciso que a
baronesa devia ficar.

Todas estas razes
foram ditas como deviam de ser, de um modo galante e folgazo, a que a baronesa
respondia igualmente, e que no daria nada mais de si, se Lus Alves, mudando de
estilo, no fosse pr o assunto em diferente terreno.

 Digamos a verdade,
Sra. baronesa, a viagem h de ser-lhe imensamente incmoda, se for s isso; suas
foras no so decerto iguais s de seus primeiros anos; sua sade  melindrosa
e no poder sofrer tanta fadiga. Confesso que falo em nome de certo interesse
pessoal de amigo e de vizinho; mas a principal razo no  essa. Se houvesse um
motivo urgente, bem; mas tratando-se apenas de uma promessa feita h tanto
tempo, seria crueldade da minha parte no insistir que ficasse.

A baronesa defendia-se,
e Lus Alves no tardou em reconhecer de si para si que ela no se defendia com
o vigor de uma resoluo original e prpria. A conversa, entretanto, tornara-se
mais geral; de todos os lados partiam votos de oposio.

Guiomar havia j alguns
minutos que no atendia  interlocutora; tinha o ouvido afiado e assestado sobre
o grupo da madrinha. Ningum a observava; mas  privilgio do romancista e do
leitor ver no rosto de uma personagem aquilo que as outras no vem ou no podem
ver. No rosto de Guiomar podemos ns ler, no s o tdio que lhe causava aquela
opinio unnime contra o projeto da baronesa, mas ainda a expresso de um gnio
imperioso e voluntrio.

 Estamos de acordo,
creio eu? perguntou Lus Alves olhando alternadamente para a baronesa e as
outras pessoas.

 No  possvel,
doutor, respondia a boa senhora.

 Decerto que no 
possvel, interveio Guiomar do lugar onde estava. A viagem no oferece risco,
nem minha madrinha est invlida. Demais,  uma promessa feita; no se pode
deixar de cumprir.

Esta opinio, dita em
tom seco e firme, ainda que a voz nada perdesse do seu natural aveludado,
equivaleu a um pouco de gua fria lanada na fervura triunfante dos nimos.

 Guiomar tem razo,
disse a baronesa; j agora  preciso ir; so apenas trs ou quatro meses.

Lus Alves olhou
longamente para Guiomar, como a procurar ver-lhe no rosto todas as antecedncias
da resoluo da baronesa. A oposio afrouxara; Jorge chamou em vo o advogado
em seu auxlio. A resoluo da tia, se alguma vez fora abalada, tornara-se outra
vez firme.

Guiomar, entretanto,
erguera-se e chegara ao grupo da madrinha. Jorge fitou-a com uma expresso de
vaidade e cobia. Lus Alves, que se achava de p, recuou um pouco para deix-la
passar. Os olhos com que a contemplou no eram de cobia nem de vaidade; a
leitora, que ainda lembrar da confisso por ele mesmo feita a Estevo, supor
talvez que eram de amor. Talvez,  quem sabe?  amor um pouco sossegado, no
louco e cego como o de Estevo, no pueril e lascivo, como o de Jorge, um
meio-termo entre um e outro,  como podia hav-lo no corao de um ambicioso.

 O Dr. Lus Alves
defende causas ms, disse Guiomar sorrindo para ele; no se trata de uma coisa
impossvel. Quanto a mim, Cantagalo s tem um inconveniente; ser menos
divertido que a Corte; mas o tempo passa depressa...

 Nesse caso, disse
Jorge suspirando, eu tambm dispenso teatros e bailes; sacrifico-me  famlia.

 Queres ir conosco?
perguntou a baronesa alegremente.

 Que dvida!

Guiomar mordeu o lbio
inferior, com uma expresso de despeito, que pde conter e abafar, sem que
ningum a percebesse, ningum, exceto Lus Alves. Um sorriso tranqilo e
perspicaz roou os lbios do advogado, enquanto a moa, para esconder a
impresso que lhe ficara, de novo se dirigiu  janela, onde esteve alguns
momentos sozinha, meia voltada para fora e meia guardada pela sombra que ali
fazia a cortina. Um rumor de passos f-la voltar-se para dentro. Era Lus Alves.

 Ah! disse ela
fingindo-se tranqila; agradeo-lhe no haver insistido mais nos seus conselhos.

 A inteno era boa,
respondeu Lus Alves em voz baixa; mas ser agora excelente; nem tudo est
perdido: eu me incumbo de salvar o resto.

Guiomar franziu a testa
com o mais vivo e natural espanto; tal espanto que parecia hav-la feito
esquecer outro sentimento, igualmente natural:  o do despeito que lhe causaria
aquela singular familiaridade. Mas o assombro dominou tudo; Guiomar sentiu que
ele lera nela a razo da insistncia e o desgosto do resultado.

A ruga desfez-se a
pouco e pouco, mas a moa no retirou logo os olhos. Havia neles uma
interrogao imperiosa, que a alma no se atrevia a transmitir aos lbios. Se h
nos do leitor alguma interrogao, esperemos o captulo seguinte.

CAPTULO XIII /
EXPLICAES

Lus Alves compreendera
toda a expresso dos olhos de Guiomar; era, porm, homem frio, resoluto.
Inclinou o busto com toda a graa correta e de bom-tom, e disse-lhe na voz mais
branda que lhe permitia o seu rgo forte e severo:

 Parece-lhe que fui um
pouco audaz, no ? Fui apenas sincero; e ainda que a sua delicadeza me condene,
estou certo de que h em seu corao misericrdia de sobra...

Guiomar tinha
readquirido toda a posse de si mesma.

 Est enganado, disse
ela, no o condeno, pela simples razo de que no o entendi.

 Tanto melhor,
redargiu Lus Alves sem pestanejar; o meu delito nesse caso no passou da
esfera da inteno.

 Mas... referia-se 
viagem?

 Referia-me;
perguntava quando iam.

Esta presena de
esprito de Lus Alves ia muito com o gnio de Guiomar; era um lao de simpatia.
A moa respondeu que o comendador viria busc-las da a quinze ou vinte dias.

 Trs meses apenas?
perguntou o advogado.

 Trs ou quatro.

 Quatro meses no  a
eternidade, mas Cantagalo, para uma carioca da gema, h de ser um degredo, ou
quase... Oxal,  continuou Lus Alves, concluindo mais depressa do que queria,
ao ver que Jorge se aproximava da janela,  oxal no lhe faa esse exlio
esquecer o que solenemente lhe digo neste momento: que a senhora tem uma alma
grande e nobre, e que eu a admiro!

Jorge chegara; a
conversa tinha de acabar ou tomar diferente rumo.

As ltimas palavras de
Lus Alves eram singularmente dispostas para deixar sulco profundo na memria da
moa. No era uma declarao de amor, nem uma cortesania de sala, coisas todas
que ela ouvira muita vez, que podiam lisonje-la, e decerto a lisonjeavam; era
mais que um cumprimento e no chegava a ser uma declarao. Comoo, no a havia
na voz do advogado; firmeza, sim, e um ar de convico profunda. Guiomar olhou
para ele quase sem dar pela presena de Jorge; mas Lus Alves voltara-se para o
recm-chegado e falava-lhe em tom jovial, bem diferente daquele que empregara
pouco antes.

Se esse contraste era
premeditado,  no sei se o era,  no podia vir mais de feio ao esprito de
Guiomar. De quantos homens a moa tratara at ali, era o primeiro que lhe
inspirava curiosidade, e tambm, naquela ocasio, a primeira pessoa que se
compadecia dela. Veja o leitor:  curiosidade e gratido;  veja se h duas asas
mais prprias para arrojar uma alma no seio de outra alma,  ou de um abismo,
que  s vezes a mesma coisa.

Eu disse  compadecia 
e esta s palavra, desacompanhada de outra coisa, pode fazer crer ao leitor que,
durante aqueles dias em que a perdemos de vista, tornara-se Guiomar uma criatura
desditosa. Nada disso; a situao era a mesma, no a mesma anteriormente  carta
de Jorge, mas a mesma da noite em que ela a recebeu, situao, decerto, assaz
sombria e carregada para um corao que receia ser constrangido, mas no
desesperada nem angustiosa.

A baronesa, se soubera
dos fatos, ou se pudera ler na alma da moa, seria a primeira a dar-lhe todas as
consolaes. Mas no sabia. Seu desejo,  ou antes o sonho da velhice, como ela
dizia num dos anteriores captulos,  era deixar felizes a afilhada e o
sobrinho, e entendia que o melhor meio de os deixar felizes era cas-los um com
o outro. A notcia que tinha do corao da moa, a este respeito, era incompleta
ou inexata; pintavam-lhe como frieza o que era repugnncia. Mrs. Oswald dava-lhe
sempre esperanas de xito feliz e prximo, as cleras da moa no lhas contava
nunca. Da carta de Jorge no soube, nem da cena havida na alcova. O casamento
continuava a aparecer-lhe com todas as probabilidades de uma esperana
realizvel.

Dir a leitora que o
sobrinho no merecia tanto zelo nem to pertinaz esperana, e ter razo; mas os
olhos da baronesa no so os da leitora; ela s lhe via o lado bom,  que era
realmente bom,  ainda que de uma bondade relativa; mas no via o lado mau, no
via nem podia ver-lhe a frivolidade grave do esprito, nem o gnero de afeto que
se lhe gerava no corao.

Jorge era o seu nico
parente de sangue,  filho de uma irm que vivera infeliz e mais infelizmente
morrera, no repudiada, mas aborrecida do marido, circunstncia que lhe tornava
caro aquele moo. Mais do que a afilhada, no; nem tanto, decerto; o corao no
chegaria para dividir-se igualmente em to grandes pores; queria-lhe, porm,
muito, quanto bastava para desej-lo feliz, e trabalhar por faz-lo.
Acrescentemos que o destino da irm sempre lhe estava presente ao esprito, e
que ela receava igual sorte a Guiomar; em Jorge parecia-lhe ver todos os dotes
necessrios para torn-la venturosa.

Infelizmente, Mrs.
Oswald, sabedora daqueles secretos desejos e mais ou menos confidente dos
sentimentos de Jorge, achara azada ocasio esta para patentear toda a gratido
de que estava possuda e a profunda amizade que a ligava  famlia da baronesa.
Interps-se para servir aos outros, e mais ainda a si prpria. Viu a
dificuldade, mas no desanimou; era preciso armar ao reconhecimento da baronesa.
Por isso no hesitou em confiar a Guiomar o desejo da madrinha, exagerando-o,
entretanto,  porque nunca a baronesa dissera que "tal casamento era a sua
campanha", e Mrs. Oswald atribuiu-lhe esta frase mortal para todas as esperanas
e sonhos da moa. Mas, se falava demasiado ao p de uma, era muito mais sbria
de palavras com a outra, e da exagerao ou da atenuao da verdade resultara
aquele perene estado de luta abafada, de receios, de indeciso e de amarguras
secretas. Convm dizer, para dar o ltimo trao ao perfil, que esta Mrs. Oswald
no seguia s a voz do seu interesse pessoal, mas tambm o impulso do prprio
gnio, amigo de pr  prova a natural sagacidade, de tentar e levar a cabo uma
destas operaes delicadas e difceis, de maneira que, se houvesse uma
diplomacia domstica,  ou se se criassem cargos para ela, Mrs. Oswald podia
contar com um lugar de embaixatriz.

Vindo agora  narrao
dos sucessos da histria, cumpre que o leitor saiba, que a carta de Jorge no
teve resposta escrita nem verbal. No dia seguinte ao da entrega, foi ele jantar
a Botafogo; mas Guiomar no sara do quarto, a pretexto de uma dor de cabea; a
baronesa passou o dia com ela; Jorge apenas conseguiu saber, quando de l saiu,
que a moa ia melhor. Nos subseqentes dias nenhuma resposta foi s mos do
pretendente, nem ele conseguiu haver uns cinco minutos de conversa solitria com
a moa; Guiomar esquivava-se sempre, com aquela arte suma da mulher que
aborrece, e que  nem mais nem menos igual  da mulher que ama.

Um dia, porm, no
houve meio de fugir; e Jorge, que no tinha nenhuma comoo na voz, porque no
tinha muita no corao, olhou para ela com olhos direitos e francamente lhe
pediu uma palavra de esperana ou de desengano. A moa hesitou alguns segundos;
contudo era preciso responder. Venceu a repugnncia dizendo-lhe com um frio
sorriso:

 Nem uma nem outra
coisa.

 Nem desengano?
perguntou Jorge alvoroado.

 Ningum pode dar nem
uma coisa nem outra, disse ela; costumamos aceit-las do nosso destino.

No era responder, como
v o leitor; Jorge ia pedir uma deciso mais transparente, mas a moa
aproveitara-se da primeira impresso e esquivara-se. Quando ele recobrou a voz
no viu mais que a fmbria do vestido, que se perdia na volta de uma porta.

Guiomar encurtou as
rdeas  familiaridade que existia entre ela e Jorge; mas, se o tratava com mais
reserva, no o fazia com sequido nem frieza, nem deixava de ser polida e
afvel. A dignidade natural que havia em toda a sua pessoa servia-lhe, alm
disso, como de uma torre de marfim, onde ela se acastelava e mantinha em
respeito o pretendente.

Dos dois homens que lhe
queriam, nenhum lhe falava  alma; ela sentia que Estevo pertencia  falange
dos tbios, Jorge  tribo dos incapazes, duas classes de homens que no tinham
com ela nenhuma afinidade eletiva. No igualava, decerto, os dois pretendentes;
um era simplesmente trivial, outro sentimental apenas; mas nenhum deles capaz de
criar por si s o seu destino. Se os no igualava, tambm os no via com os
mesmos olhos; Jorge causava-lhe tdio, era um Digenes de espcie nova; atravs
da capa rota da sua importncia, via-se-lhe palpitar a triste vulgaridade.
Estevo inspirava-lhe mais algum respeito; era uma alma ardente e frouxa,
nascida para desejar, no para vencer, uma espcie de condor, capaz de fitar o
sol, mas sem asas para voar at l. O sentimento de Guiomar em relao a Estevo
no podia nunca chegar ao amor; tinha muito de superioridade e perdo.

Com outra ndole,
aspiraes diferentes e vivida em diversa esfera, am-lo-ia com certeza, do
mesmo modo que ele a amava. Mas a natureza e a sociedade deram-se as mos para a
desviar dos gozos puramente ntimos. Pedia amor, mas no o quisera fruir na vida
obscura; a maior das felicidades da Terra seria para ela o mximo dos
infortnios, se lha pusessem num ermo. Criana, iam-lhe os olhos com as sedas e
as jias das mulheres que via na chcara contgua ao pobre quintal de sua me;
moa, iam-lhe do mesmo modo com o espetculo brilhante das grandezas sociais.
Ela queria um homem que, ao p de um corao juvenil e capaz de amar, sentisse
dentro em si a fora bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos.
Voluntariamente, s uma vez aceitara a obscuridade e a mediania; foi quando se
props a seguir o ofcio de ensinar; mas  preciso dizer que ela contava com a
ternura da baronesa.

CAPTULO XIV / EX
ABRUPTO

J o leitor ficou
entendendo que a viagem a Cantagalo era obra quase exclusiva de Guiomar. A
baronesa relutara a princpio, como das outras vezes fizera, e o comendador
pouca esperana tinha j de a ver na fazenda. Mas o voto de Guiomar foi
decisivo. Ela fortaleceu, com as suas, as razes do comendador, alegando no s
a obrigao em que a madrinha estava de desempenhar a palavra dada, mas ainda a
vantagem que lhe podiam trazer aqueles trs meses de vida roceira, longe das
agitaes da Corte; enfim, invocou o seu prprio desejo de ver uma fazenda e
conhecer os hbitos do interior.

No havia tal desejo,
nem coisa que se parecesse com isso; mas Guiomar sabia que na balana das
resolues da madrinha era de grande peso a satisfao de um gosto seu. O
sacrifcio duraria trs ou quatro meses; ela afrontaria, porm, dez ou doze, se
tantos fossem necessrios, para fugir algum tempo s pretenses de Jorge, sem
embargo de lhe repugnar todo o viver que no fosse a vida fastosa e agitada da
Corte. Eu, que sou o Plutarco desta dama ilustre, no deixarei de notar, que,
neste lance, havia nela um pouco de Alcibades,  aquele gamenho e delicioso
homem de Estado, a quem o despeito tambm deu foras um dia para suportar a
frugalidade espartana.

Infelizmente, Jorge
reduziu todos esses clculos a nada. Ela contava com o seu demasiado apego aos
regalos da Corte, no contava com as sugestes de Mrs. Oswald, que percebera o
plano, e torcera a primeira resoluo de Jorge, que era ficar e esperar. O
sacrifcio da parte dele era compensado pela probabilidade da vitria, a qual
no consistia s em haver por esposa uma moa bela e querida, mas ainda em
tornar muito mais sumrias as partilhas do que a baronesa deixaria por sua morte
a ambos. Esta considerao, que no era a principal, tinha ainda assim seu peso
no esprito de Jorge, e, sejamos justos, devia t-lo: possuir era o seu nico
ofcio. Assim era que no s a moa deixava de obter um bem, mas caa de um mal
em outro maior; t-lo ao p de si, onde as distraes seriam menos prontas e
variadas, equivalia a adoecer de fastio e morrer de inanio.

Imagine-se por isso em
que estado lhe ficou o esprito depois da declarao de Jorge. No havia meio de
fugir ao pretendente, era preciso trag-lo. Esta perspectiva abateu-lhe
totalmente o nimo. Uma confidente, em tais situaes,  um presente do Cu; mas
Guiomar no a tinha, e se alguma pessoa lhe merecesse tal confiana,  certo ou
quase certo que lhe no diria nada. Suas dores eram altivas, as tristezas de seu
corao tinham pudor. Espritos desta casta ignoram a consolao que h, nas
horas de crise, em se repartirem com outro; triste, mas feliz ignorncia que
lhes poupa muita vez o contato de uma conscincia aleivosa e ruim.

No meio do longo
refletir, soaram-lhe na memria as palavras de Lus Alves; ela ouviu-as de novo,
tais quais ele as proferira, desde a frase descorts at  expresso respeitosa.
Uma era o comentrio da outra, e ambas podiam explicar-lhe o carter de Lus
Alves, se tivesse alguns elementos mais para conhec-lo; em todo o caso, era a
ponta do vu levantada. Embora se lhe no pudesse ler no fundo do esprito,
via-se desde j qual era o seu mtodo de ao.

Qualquer outro homem,
depois do efeito produzido pela primeira declarao, no se atreveria ou no lhe
importaria tentar mais nada para desfazer o projeto da viagem. Mas o esprito de
Lus Alves tinha a obstinao do dogue. Era-lhe necessrio que a famlia da
baronesa no sasse da Corte; este objetivo havia de alcan-lo a todo o transe.
Ele espreitava as ocasies, aproveitava as circunstncias, tinha a habilidade de
intercalar o pedido em qualquer retalho de conversao, onde menos apropriado
parecia a qualquer outro. Jorge aplaudia-o com as foras todas de que podia
dispor o seu interesse. A baronesa opunha s sugestes do advogado a resistncia
mole e atada de quem deseja aquilo mesmo que recusa.

 O doutor  terrvel,
dizia ela. Em se lhe metendo uma coisa na cabea, ningum mais o tira da.

 Justamente,  uma
idia fixa. Sem idia fixa no se faz nada bom neste mundo.

Guiomar sustentava a
resoluo da madrinha, posto no o fizesse a mido, nem no mesmo tom seco e
imperioso da primeira noite. Seu impulso era ser coerente; ao mesmo tempo no
queria parecer aos olhos de Lus Alves que lhe aceitava o concurso para obter o
que alis desejava de todo o corao; seria lav-lo da primeira culpa.

O argumento que mais
influa no nimo de todos, o que devera ter afastado a idia de semelhante
viagem, era o perigo de afrontar o clera-morbo que por aquele tempo percorria
alguns pontos do interior. Um dia de manh soube-se que em Cantagalo havia
aparecido o terrvel inimigo. Desta vez Lus Alves triunfou sem dizer palavra; a
baronesa recuou diante daquele fato brutal.

A viagem desfez-se
pois, a contento de todos, salvo talvez de Mrs. Oswald, que receava muito da
mocidade casadeira da Corte, e dos belos olhos castanhos de Guiomar. Mrs. Oswald
temia ver surgir a cada passo um novo inimigo emboscado em algum teatro ou
baile, ou quando menos na Rua do Ouvidor, e no via que o inimigo novo podia ser
que estivesse literalmente ao p da porta. A sagacidade da inglesa desta vez foi
um tanto mope. A razo  que Lus Alves, em todos aqueles seus preliminares,
houve-se com habilidade; longe de procurar a moa, parecia nada haver alterado
nos seus sentimentos, nem desejar mudar a espcie de relaes que at ali
mantinha. Guiomar, entretanto, no podia deixar de comparar aquela espcie de
atenciosa indiferena que havia dele para ela, com as palavras que anteriormente
lhe ouvira, e o resultado da comparao no lhe parecia muito claro.

Na noite do mesmo dia
em que ficou assentado deferir a viagem para melhores tempos, achavam-se em casa
da baronesa algumas pessoas de fora; Guiomar, sentada ao piano, acabava de
tocar, a pedido da madrinha, um trecho de pera da moda.

 Muito obrigada, disse
ela a Lus Alves que se aproximara para dirigir-lhe um cumprimento. Est alegre!
Parece que  a satisfao de me haver malogrado o maior desejo que eu tinha
nesta ocasio.

 No fui eu, disse
ele, foi a epidemia.

 Sua aliada, parece.

 Tudo  aliado do
homem que sabe querer, respondeu o advogado dando a esta frase um tanto enftica
o maior tom de simplicidade que lhe podia sair dos lbios.

Guiomar curvou a cabea
e esteve alguns instantes a perpassar os dedos pelas teclas, enquanto Lus
Alves, tirando de cima do piano outra msica, dizia-lhe:

 Podia dar-nos este
pedao de Bellini, se quisesse.

Guiomar pegou
maquinalmente na msica e abriu-a na estante.

 Era ento vontade
sua? perguntou ela continuando o assunto interrompido do dilogo.

 Vontade certamente,
porque era necessidade.

 Necessidade,  tornou
ela comeando a tocar, menos por tocar que por encobrir a voz; mas necessidade
por qu?

 Por uma razo muito
simples, porque a amo.

A msica estacou.
Guiomar erguera-se de um salto. Mas nem o gesto da moa, nem a surpresa das
outras pessoas perturbou o advogado; Lus Alves inclinou-se para o mocho, como a
consert-lo, e voltando-se para Guiomar, disse-lhe graciosamente:

 Pode sentar-se agora;
est seguro.

Guiomar sentou-se outra
vez muda, despeitada, a bater-lhe o corao como nunca lhe batera em nenhuma
outra ocasio da vida, nem de susto, nem de clera, nem... de amor, ia eu a
dizer, sem que ela o houvesse sentido jamais. No se demorou muito tempo ali;
com a mo trmula folheou a msica que estava aberta na estante, deixou-a logo e
levantou-se.

Nestes derradeiros
movimentos ningum reparou; e se algum pudesse reparar em alguma coisa, a moa
tomara a peito desvanecer todas as suspeitas. A primeira impresso fora
profunda, mas Guiomar tinha fora bastante para dominar-se e fechar todo o
sentimento no corao.

O que se passou depois,
quando, livre de olhos, estranhos, pde entregar-se a si mesma, isso ningum
soube, a no serem as paredes mudas do quarto, ou o raio da lua coado pelo
tecido raro das cortinas das janelas, como a espreitar aquela alma faminta de
luz. Soube-o, talvez, o seu espelho, quando no dia seguinte lhe refletiu o rosto
desfeito e os olhos quebrados. Se foi a meditao noturna que os amoleceu e
apagou, no o perguntou ele, naturalmente porque o sabia; mas talvez advertiu
consigo que se eram assim mais belos, pediam outro rosto em que cassem melhor.
O de Guiomar queria-os como eles eram, severos, firmes e brilhantes.

A baronesa tambm no
deixou de ver que a afilhada no acordara com o mesmo ar do costume; achou-a
taciturna e distrada.

 Eu, madrinha?
perguntou Guiomar simulando um sorriso de admirao.

 Ser engano de meus
olhos.

 No  outra coisa;
estou como sempre, como ontem, como amanh. Passei a noite um pouco mal, 
verdade; mas o que tive desapareceu inteiramente. A prova...

Guiomar parou neste
ponto, chegou-se  madrinha e deu-lhe um beijo.

 A prova, continuou
ela,  que ainda hoje me acha bonita, no ?

 Criana! respondeu a
baronesa, dando-lhe uma pancadinha na face.

A tranqilidade da moa
era simulada; apenas a madrinha voltou as costas, cobriu-se-lhe o rosto com o
mesmo vu. Ela aprendera desde criana a disfarar as suas preocupaes.

Quanto a Lus Alves,
posto houvesse contado com o seu mtodo cru e abrupto, saiu dali sem plena
certeza do resultado. Esta incerteza abalou-o mais do que ele supunha; e foi,
sem dvida, a primeira ocasio em que sentiu que a amava deveras, ainda que o
seu amor fosse como ele mesmo: plcido e senhor de si. No dia seguinte, Estevo
interrogou-o a respeito de Guiomar.

 Creio, disse ele
depois de refletir alguns instantes,  creio que por ora no deves perder as
esperanas todas.

CAPTULO XV / EMBARGOS DE
TERCEIRO

Durante trs dias
deixou Lus Alves de ir  casa da baronesa, estando alis a morrer por isso.
Entrava porm no plano esta ausncia; era das instrues que ele mesmo dera ao
seu corao; no havia remdio seno observ-las.

No quarto dia recebeu
um bilhete da baronesa que o cumprimentava pela eleio. A mala do Norte
chegara, e com ela a notcia da vitria eleitoral. Estava Lus Alves deputado;
ia enfim dar a sua demo no fabrico das leis. Estevo foi o primeiro que o
felicitou; era o antigo companheiro dos bancos da academia; tanto ou mais do que
os outros devia aplaudir aquela boa fortuna. No lhe escondeu, entretanto, a
inveja que ela lhe metia:

 Deputado! suspirou
ele. Oh! eu tambm podia ser deputado.

Estevo dizia isto,
como a criana deseja o dixe que v no colo da outra criana,  nada mais. Eram
os seus sonhos de outrora, que renasciam tais quais eram, inconsistentes, vagos,
prestes a dissiparem-se com o primeiro raio da manh.

Lus Alves apressou-se
a ir agradecer  baronesa a felicitao. Guiomar teve um leve estremecimento
quando o viu, mas recebeu-o tranqila e risonha, quase indiferente. O advogado
era hbil; no a perseguiu com os olhos; sobre acordar a ateno das demais
pessoas, era seguir o mtodo comum. Ele no queria parecer-se com os outros.

Guiomar, entretanto,
observava-o a espaos, de revs, como a querer surpreend-lo; a pouco e pouco,
porm, o seu olhar foi sendo mais direito e firme. O de Lus Alves era natural e
igual como antes era, como era ainda agora com todos.

Ao sair, junto  porta
de uma sala, onde acaso a topou, Lus Alves teve ocasio de lhe dizer esta
simples palavra:

 Perdoou-me?

A moa retirou a mo,
que ele tinha presa na sua, e furtou o corpo, ao mesmo tempo que lhe caam as
plpebras.

 Perdoou-me? repetiu
ele.

Guiomar retirou-se sem
dizer palavra. Lus Alves esperou que ela desaparecesse e saiu. A moa,
entretanto ficou irritada por nada lhe ter respondido, sendo verdade que nada
achou nem acharia talvez que lhe responder; mas arrependeu-se e pensou longo
tempo naquilo.

Quer dizer que o amava?
Quer dizer que estava prestes a isso. A arraiada branqueava o cu, tingiria
depois o cimo dos montes, entornar-se-ia enfim pela encosta abaixo, at aparecer
o sol,  o sol contemporneo de Ado, e do ltimo homem que h de vir.

Dali a dias, entrando
Lus Alves em casa da baronesa, teve a boa fortuna de encontrar a moa sozinha,
na sala do trabalho, donde a baronesa se ausentara cinco minutos antes. Mrs.
Oswald achava-se fora. Era a hora da tardinha; o dia estava prestes a afogar-se
no seio da noite.

Guiomar, molemente
sentada numa cadeira baixa, tinha um livro aberto sobre os joelhos e os olhos no
ar. Lus Alves surpreendeu-a nessa atitude meditativa, mais bela do que nunca,
porque assim, e quela hora, e com o vestido meio escuro que lhe realava a cor
de leite da face, tinha um qu de gracioso e severo, ao mesmo tempo, que parecia
buscado de propsito para receb-lo.

 Minha madrinha j
vem, disse Guiomar logo depois de lhe estender a mo, que ele apertou e sentiu
um pouco trmula.

 Talvez daqui a cinco
minutos, disse ele;  bastante para decidir o meu destino. Duas vezes lhe
perguntei se me perdoara; pela terceira lhe peo que me responda; custa pouco
uma nica palavra; custa menos ainda, um nico gesto.

A moa olhou algum
tempo para o livro que tinha diante de si. A manh, porm, era j alta no
corao de Guiomar, a claridade intensa, o sol quente e vivo, porque ela no
olhou muito tempo para o livro, nem hesitou mais do que era natural e exigvel
naquela ocasio. Dois minutos depois fez o gesto, um gesto s, mas ainda mais
eloqente do que se ela falasse,  estendeu-lhe a mo.

Lus Alves apertou-lha
entre as suas.

A comoo era natural
em ambos; ali estiveram alguns instantes calados, ele com os olhos fitos nela,
ela com os seus no cho. As mos tocavam-se e os coraes palpitavam unssonos.
Decorreram assim cinco breves minutos. Ela foi a primeira que rompeu o silncio.

 Um gesto, um s
gesto, e  o meu destino que lhe entrego com ele, disse Guiomar olhando em cheio
para o moo.

 Ainda no. Se os
nossos destinos se ligarem, estou convencido de que o meu amor, pelo menos, ter
a virtude de a tornar feliz. Mas nada est feito ainda, e se eu fui breve e
apressado na confisso, no o desejo ser na consagrao que lhe peo.

Lus Alves calara-se; a
moa olhava para ele como buscando entend-lo.

 Sim, continuou ele;
melhor  que no ceda a um instante de entusiasmo. Minha vida  sua; todo o meu
destino est nas suas mos... Contudo no quero surpreender-lhe o corao neste
momento; no dia em que me julgar verdadeiramente digno de ser seu esposo,
ouvi-la-ei e segui-la-ei.

A resposta da moa foi
apertar-lhe as mos, sorrir, e embeber os seus olhos nos dele. O passo da
baronesa interrompeu essa contemplao.

Guiomar amava deveras.
Mas at que ponto era involuntrio aquele sentimento? Era-o at o ponto de lhe
no desbotar  nossa herona a castidade do corao, de lhe no diminuirmos a
fora de suas faculdades afetivas. At a s; da por diante entrava a fria
eleio do esprito. Eu no a quero dar como uma alma que a paixo desatina e
cega, nem faz-la morrer de um amor silencioso e tmido. Nada disso era, nem
faria. Sua natureza exigia e amava essas flores do corao, mas no havia
esperar que as fosse colher em stios agrestes e nus, nem nos ramos do arbusto
modesto plantado em frente da janela rstica. Ela queria-as belas e viosas, mas
em vaso de Svres, posto sobre mvel raro, entre duas janelas urbanas,
flanqueado o dito vaso e as ditas flores pelas cortinas de cachemira, que deviam
arrastar as pontas na alcatifa do cho.

Podia dar-lhe Lus
Alves este gnero de amor? Podia; ela sentiu que podia. As duas ambies
tinham-se adivinhado desde que a intimidade as reuniu. O proceder de Lus Alves,
sbrio, direto, resoluto, sem desfalecimentos, nem demasias ociosas, fazia
perceber  moa que ele nascera para vencer, e que a sua ambio tinha
verdadeiramente asas, ao mesmo tempo, que as tinha ou parecia t-las o corao.
Demais, o primeiro passo do homem pblico estava dado; ele ia entrar em cheio na
estrada que leva os fortes  glria. Em torno dele ia fazer-se aquela luz, que
era a ambio da moa, a atmosfera, que ela almejava respirar. Estevo dera-lhe
a vida sentimental,  Jorge a vida vegetativa; em Lus Alves via ela combinadas
as feies domsticas com o rudo exterior.

Uma vez entendidos 
difcil que dois coraes se encubram, pelo menos aos olhos mais sagazes. Os de
Mrs. Oswald eram dos mais finos. A inglesa percebeu dentro de pouco tempo que
entre eles havia alguma coisa. Interrogar a moa era intil, sobre perigoso;
seria ir, de corao leve, em busca de dio, talvez. Todavia se ainda fosse
possvel salvar tudo? Guiomar resistiria dificilmente a um desejo da madrinha;
era possvel venc-la por esse lado.

Mrs. Oswald concebeu
ento um projeto insensato, que lhe pareceu alis excelente e de bom aviso. O
desejo de servir a baronesa e levar uma idia ao fim tapou-lhe os olhos da
razo. Ela foi diretamente a Jorge.

 Sabe o que me est
parecendo? disse ela. Parece-me que h mouro na costa.

 Mouro na costa!
exclamou Jorge com uma tal expresso de desgosto, que era fcil compreender o
fundo de suspeita j existente em seu esprito

 Nada menos, disse a
inglesa; mas um mouro que se pode capturar.

E a inglesa exps um
plano completo que o sobrinho da baronesa ouviu um tanto perplexo. O plano
consistia em ir Jorge pedir a moa  baronesa, em presena dela prpria. A
baronesa, que nutria o desejo de os ver casados, no deixaria de fazer pesar o
seu voto na balana, e era muito difcil que a gratido de Guiomar no decidisse
em favor de Jorge.

 A gratido... e o
interesse, continuou ela; devemos contar tambm com o interesse, que  um grande
conselheiro ntimo. Ela no h de querer sacrificar a afeio da madrinha, que
para ela vale...

 Oh! que triste
lembrana! interrompeu Jorge, recuando diante da idia de Mrs. Oswald.

A inglesa sorriu,  e
deixou por mo aquele argumento; firmou-se porm no da afeio. Guiomar no se
oporia a um desejo da madrinha; era urgente dar-lhe o golpe. Jorge no se
atrevia a surpreender por esse meio a aquiescncia da moa; mas acreditava na
eficcia dele, e sobretudo receava perder a causa. Uma vez que a vencesse, tudo
podia confiar do tempo e do seu amor.

O conselho foi seguido
pontualmente. De noite, em presena da baronesa  hora da despedida,  porque
ele hesitara a maior parte do tempo,  praticou Jorge aquele ato insensato de
declarar  moa que a amava e de lhe pedir a mo. A tia sorriu de contentamento,
mas teve a prudncia de no proferir nada enquanto Guiomar, empalidecendo, nada
dizia, porque nada achava que dizer.

O silncio durou cerca
de trs ou quatro minutos, um silncio acanhado e vexado, em que nenhum deles se
atrevia a reatar a conversao. A baronesa, pela sua parte, imaginava que os
dois estavam enfim entendidos, e que a declarao era autorizada pela moa. O
enleio de Guiomar no era dos que pudessem dar cabimento a esta suposio; mas a
boa senhora via com os olhos dos seus bons desejos.

 Pela minha parte,
declarou enfim a baronesa, no me oponho; estimaria muito que acabassem por a.
Mas  negcio do corao; devo esperar a resposta de Guiomar.

E voltando-se para a
afilhada:

 Pensa e resolve,
minha filha, disse ela; e se fores feliz, s-lo-ei ainda mais do que tu.

Duas vezes pairou a
negativa nos lbios da moa; mas a lngua no se atrevia a repetir a palavra do
corao. No fim de alguns instantes:

 Refletirei, respondeu
ela beijando a mo  madrinha; e continuou voltando-se para Jorge:  Boa Noite!
At amanh.

CAPTULO XVI / A
CONFISSO

Na mesma noite em que
Jorge, cedendo s sugestes de Mrs. Oswald, tentava o ltimo recurso que no
entender da inglesa havia, achava-se Lus Alves em casa, comodamente sentado
numa poltrona de couro, defronte da janela com os olhos no mar e o pensamento
nas suas duas candidaturas vencidas. Meia-noite estava a pingar; uma pessoa
descia de um tlburi e batia-lhe  porta.

Era Estevo.

Lus Alves naturalmente
admirou-se de o ver ali quela hora; mas Estevo explicou-lhe tudo.

 Venho passar meia
hora contigo, ou a noite toda se quiseres. Estava em casa aborrecido, a
pensar... bem sabes em qu...

 Nela? interrompeu
Lus Alves.

 Agora e sempre.

Lus Alves torceu o
bigode e olhou trs ou quatro vezes para o colega, enquanto este tirava o chapu
e dispunha-se a ir buscar uma cadeira para sentar-se ao p do outro.

 Estevo, disse Lus
Alves depois de alguns instantes de reflexo, e voltando a poltrona para dentro,
ouve-me primeiro e resolvers depois se ficas a noite ou se te vais embora
imediatamente. Talvez escolhas este ltimo alvitre.

 Vais falar-me de
Guiomar?

 Justamente.

Estevo sentou-se
defronte de Lus Alves. Seu corao batia apressado; dissera-se que toda a sua
vida pendia dos lbios do amigo. Houve um instante de silncio.

 Nenhuma... nenhuma
esperana ento? murmurou Estevo.

 Disseste a fatal
palavra! exclamou Lus Alves. Sim, no tens nenhuma esperana.

 Mas... como sabes?

 No me interrogues;
eu no poderia dizer-te tudo o que h. Poupa-me, ao menos, esse triste dever.

Estevo sentiu
arrasarem-se-lhe os olhos dgua. Quis falar, mas as palavras iam-lhe saindo
envoltas em soluos.

Lus Alves fumava
tranqilamente, acompanhando com os olhos os rolinhos de fumo que lhe fugiam da
ponta do charuto. Esse silncio durou cerca de dez minutos. O mar batia
compassadamente na praia. A voz da onda e o latido de um co ao longe eram os
nicos sons que vinham quebrar a mudez daquela hora solene para um desses dois
homens que ia perder at o repouso da esperana.

Estevo foi o primeiro
que falou:

 Ama a outro, no ?
perguntou ele com voz trmula.

 Ama, respondeu
surdamente Lus Alves.

Estevo ergueu-se e deu
alguns passos na sala, sem dizer palavra, a morder a ponta do bigode, parando s
vezes, outras traduzindo com um gesto desordenado os sentimentos que lhe
tumultuavam no corao. A dor devia ser grande, mas a manifestao j no era a
mesma que o leitor lhe viu, dois anos antes, quando ele foi confiar ao amigo o
primeiro desengano de Guiomar.

 Parece-me que eu
adivinhava isto mesmo, disse ele, enfim, parando em frente de Lus Alves. Este
desejo que me acometeu de vir aqui, a esta hora, sem certeza de encontrar-te,
era mais um benefcio do meu destino. Devia esper-lo. Que vida tem sido a
minha, Lus! Agarrei-me, nem sei por que,  esperana de ser amado por ela, de a
vencer pela piedade, ou pelo remorso, ou por qualquer outro motivo que fosse, 
o motivo importava pouco... O essencial  que ela me pagasse em ternura e amor
todas as dores que curti, as lgrimas todas que tenho devorado em silncio... E
era s essa esperana que ainda me dava foras... que me fazia crer feliz, como
pode s-lo um desgraado, como podia s-lo eu, que nasci debaixo de ruim
estrela... Oh! se tu souberas... No, no sabes, nem ela tambm, ningum sabe
nem saber nunca tudo quanto tenho padecido, tudo quanto...

Interrompeu-se. Duas
lgrimas, espremidas do fundo do corao, saltaram-lhe dos olhos e desceram-lhe
rpidas a perder-se entre os cabelos raros e finos da barba. Ele sentiu que
outras podiam vir, e foi sentar-se num sof, meio voltado de costas para Lus
Alves. As outras vieram, porque o corao ainda as tinha para as dores supremas;
mas correram-lhe silenciosas, sem um soluo, sem uma queixa nica.

Lus Alves levantara-se
e chegara  janela. Seu esprito, apesar de frio e quieto, parecia agora um
pouco alvoroado. No era dor; e no sei se lhe podia chamar remorso. Mal-estar
apenas, e comiserao. O corao era capaz de afeies; mas, como ficou dito no
primeiro captulo, ele sabia reg-las, moder-las e gui-las ao seu prprio
interesse. No era corrupto nem perverso; tambm no se pode dizer que fosse
dedicado nem cavalheiresco; era, ao cabo de tudo, um homem friamente ambicioso.

Estevo levantara-se
outra vez e pegara no chapu.

 Vem c, disse Lus
Alves entrando e indo ter com ele; vejo que ests mais homem do que antes. Resta
que o sejas completamente; varre da memria e do corao tudo o que possa
referir-se...

 Que remdio!
interrompeu Estevo sorrindo amargamente; que remdio tenho eu seno esquec-la!
Mas quando?

 Mais breve talvez do
que supes...

Lus Alves no acabou;
Estevo olhara para ele com um gesto de espanto e fora sentar-se outra vez.

 Mais breve do que
suponho! exclamou ele. Tu no tens corao: no tens sequer observao nem
memria. No vs, no sentes que esta paixo  o sangue do meu sangue, a vida da
minha vida? Esquec-la! Era bom se eu a pudesse esquecer; mas a minha m sina
at essa esperana me arranca, porque este padecer ntimo, constante, h de ir
comigo at  morte...

Desta vez era Lus
Alves que passeava de um lado para outro. Em seu esprito despontava uma idia,
que ele examinava, a ver se a poria ali mesmo em execuo. Era dizer-lhe tudo.
Estevo viria a sab-lo mais tarde; melhor era que o soubesse logo e por ele. Ao
mesmo tempo refletia na exaltao dos sentimentos do rapaz; a dor certamente se
lhe agravaria, em sabendo que era ele o preferido de Guiomar. O corao, que
perdoaria a um estranho, condenaria ao amigo.

Estevo, assentado, com
os olhos no teto, parecia entregue s suas reflexes, mas s parecia, porque ele
no pensava, evocava antigas memrias, fazia surgir diante de seus olhos a
figura gentil de Guiomar, sentia-lhe o imprio dos belos olhos castanhos,
ouvia-lhe a palavra doce e aveludada entornar-se-lhe no corao. No evocava s,
criava tambm, pintava com a imaginao a felicidade que lhe poderia dar a moa,
se entre todos os homens o escolhera, se eles dois vinculassem os seus destinos.
Ele via-a ao p de si, cingia-lhe o brao em volta da cintura, enchia-lhe de
beijos os cabelos, tudo isto em meio de uma paisagem nica na Terra, porque a
abundncia da natureza cresceria ao contato daquele sentimento puro, casto e
eterno. No falo eu, leitor; transcrevo apenas fielmente as imaginaes do
namorado; fixo nesta folha de papel os vos que ele abria por esse espao fora,
nica ventura que lhe era permitida.

No meio dessas vises
foi acord-lo Lus Alves.

 Tens razo de sentir,
disse este; mas no gastes o corao, que h maiores surpresas na vida... Em
todo o caso, deixa-me dizer-te que nenhuma razo tens de censura...

 Censuro eu algum?

 H no amor um grmen
de dio que pode vir a desenvolver-se depois. Talvez chegues a acus-la de te
no querer; nesse dia reflete que os movimentos do corao no esto nas mos da
vontade. Ela no tem culpa se outro lhe despertou o amor.

 Ah! incumbiu-te da
defesa!

Lus Alves sorriu; ele
contava com a recriminao.

 No, no me incumbiu
da defesa, disse ele; sou eu que a tomo por minhas mos. Que defendo eu aqui
seno a natureza, a razo, a lgica dos sentimentos, dura e inflexvel como toda
a outra lgica? H no fundo das tuas palavras um sentimento de egosmo...

 O amor no  outra
coisa, respondeu Estevo sorrindo por sua vez. Queres que inda em cima lhe
agradea este desespero? Queres que v apertar a mo ao homem que a soube
vencer?

Lus Alves mordeu a
ponta do lbio e acercou-se da janela. Quando ia a voltar para dentro ouviu um
rumor na janela ao p, a primeira da casa da baronesa. Lus Alves deu um passo
mais. No viu ningum; viu apenas o resto de um vestido que fugia e um objeto
que lhe caa aos ps. Inclinou-se a apanh-lo. Era uma grande folha de papel
envolvendo, para lhe dar mais peso, outra folha pequena dobrada em quatro. Lus
Alves aproximou-se da luz, e leu rapidamente o que ali vinha escrito. Leu, meteu
o papel na algibeira e encaminhou-se disfaradamente para a janela. Ningum; a
casa da baronesa dormia.

Quando voltou para
dentro, Estevo tinha-se levantado. Ele vira cair o papel, apanh-lo e l-lo
Lus Alves. No entendeu nada do que se passara; mas seu olhar como que pedia
uma explicao.

Lus Alves foi direto
ao fim.

 Estevo, disse ele,
vais saber a verdade toda; no poderia ocultar-te o que se h passado, nem
conviria talvez que tu a soubesses por boca de outro. Guiomar podia amar-te,
eras digno dela, e ela digna de ti; mas a natureza no os fez um para o outro.
So duas almas excelentes que seriam infelizes unidas. Quem h aqui que
censurar? Mas se a natureza explica o sentimento dela, igualmente explica o de
um terceiro, que sou eu. Tu confiaste-me as dores e as esperanas de teu
corao; era conhecer toda a minha amizade e a profunda estima que sempre te
consagrei. Mas nem tu nem eu contvamos comigo; porque tambm eu tenho corao,
e os prestgios da beleza tambm falam  minha alma. No a pude ver a frio. A
paixo obscureceu-me. Nessa minha felicidade de amar e ser amado, acredita que
sou alguma coisa infeliz, porque h lgrimas tuas, h o teu padecer longo e
cruel, que eu imagino e deploro. A confisso  franca; no te falo em
arrependimento, porque so atos do corao e no da conscincia, que essa  pura
e honrada. E depois desta exposio fiel, cuido que lastimars comigo o encontro
em que o acaso ou a m sorte nos reuniu a todos trs; mas no me acusars nem me
recusars a tua velha estima. Falo s da estima; a amizade, creio que no poder
ser a mesma. Mas prezars o meu carter. Pela minha parte, nem uma nem outra
coisa perece; sei o que vales. No sei aonde nos lanar a onda do destino
amanh. Pela ltima vez, porm, espero que apertars a mo do teu amigo.

Lus Alves conclura
estendendo-lhe a mo. Estevo olhou para ele, mas no disse uma s palavra, no
fez um gesto nico: caminhou para a porta e saiu.

 Estevo! gritou Lus
Alves.

Mas s lhe respondeu o
rumor dos ps que desciam, e pouco depois o do tlburi que rolava surdamente na
terra mida da praia.

Lus Alves levantou
secamente os ombros; chegou-se  luz e releu o escrito.

CAPTULO XVII / A
CARTA

No era preciso reler o
papel para entend-lo; mas olhos amantes deliciam-se com letras namoradas. O
papel continha uma palavra nica:  Pea-me,  escrita no centro da
folha, com uma letra fina, elegante, feminina. Lus Alves olhou algum tempo para
o bilhete, primeiramente como namorado, depois como simples observador. A letra
no era trmula, mas parecia ter sido lanada ao papel em hora de comoo.

Desta observao passou
Lus Alves a uma reflexo muito natural. Aquele bilhete, pouco conveniente em
quaisquer outras circunstncias, estava justificado pela declarao que ele
prprio fizera  moa alguns dias antes, quando lhe pediu que o conhecesse
primeiro, e que no dia em que o julgasse digno de o tomar por esposo, ele a
ouviria e acompanharia. Mas se isto era assim em relao ao bilhete, no o era
em relao  hora. Que motivo obrigaria a moa a deitar-lhe da janela, 
meia-noite, aquele papel decisivo, eloqente na mesma sobriedade com que o
escrevera?

Lus Alves concluiu que
havia alguma razo urgente, e portanto, que era preciso acudir  situao com os
meios da situao. Quanto  razo em si, no a pde descobrir. Ocorreu-lhe o
fato, alis patente, da corte que o sobrinho da baronesa fazia a Guiomar, mas
ignorava as circunstncias que lhe eram relativas, e no pde passar alm.

No direi que Lus
Alves gastasse a noite a cavar fundo no terreno das conjeturas vagas. No era
homem que perdesse tempo em coisas inteis; e nada mais intil naquela ocasio
do que tentar explicar o que nenhuma explicao podia ter para ele. O que
resolveu foi obedecer ao recado da moa; pedi-la sem hesitao nem prembulo.
Mas se o caso lhe no produziu insnia, no deixou de lhe estender a viglia,
alm da hora usual, como era de jeito naquela ocasio solene, sobretudo,
tratando-se de criatura que por aqueles tempos era a inveja e a cobia de muitos
olhos. Lus Alves no era, como Estevo, um adorvel cismador, no se nutria de
imaginaes e devaneios, alimento que funde pouco ou nada, mas cismou algum
tempo, embebeu-se uma hora na contemplao ideal da mulher que ele soubera
escolher. O sono chegou, e o devaneio confundiu-se com o sonho.

Guiomar dormiria to
repousadamente como ele? Dormia; a noite, porm, fora-lhe muito mais agitada e
amarga, como era natural depois da declarao de Jorge e das insinuaes da
madrinha.

A moa recolhera-se ao
quarto, logo depois da declarao. As pessoas da casa nada puderam ler-lhe no
rosto, salvo a palidez repentina e o rubor que se lhe seguiu; mas logo que ela
se achou s, deu toda a expanso aos sentimentos que at ali pudera conter.

O primeiro deles era o
despeito; Guiomar sentia-se humilhada com aquela declarao, assim feita, de
emboscada e sobressalto, para arrancar-se-lhe um consentimento que o corao e a
ndole repeliam. Nenhuma consulta, nenhuma autorizao prvia; parecia-lhe que a
tratavam como ente absolutamente passivo, sem vontade nem eleio prpria,
destinado a satisfazer caprichos alheios. As palavras da madrinha desmentiam
esta suposio; mas, a notcia que ela tinha da resoluo da baronesa, neste
negcio, diminua muito o valor de tais palavras. Se era uma campanha, como
dissera Mrs. Oswald, queriam constrang-la com aparncias de moderao, e o
tempo que lhe deixavam para refletir era-o realmente para considerar, sozinha
consigo, na necessidade de pagar os benefcios que recebera.

No a acusem de ter
feito estas reflexes, logo que entrou no quarto, com os olhos cintilantes e os
lbios frios de clera. Eram naturais; primeiramente porque supunha que o seu
casamento com Jorge estava deliberado e se realizaria, quaisquer que fossem as
circunstncias; depois, porque a alma dela era melindrosa; no esquecia os
benefcios recebidos, mas quisera que lhos no lembrassem por meio de uma
violncia: faz-lo, era o mesmo que lanar-lhos em rosto.

 No! murmurava enfim
a moa, forar-me, reduzir-me  condio de simples serva, nunca.

Mas esta clera
apaziguou-se, e o corao venceu o corao. Guiomar recordou a constante ternura
da baronesa para com ela, a solicitude com que lhe satisfazia os seus menores
desejos, que eram ali ordens, e no combinava tamanho amor com a suposta
violncia que lhe queria fazer. No tardou em arrepender-se das palavras
incoerentes que lhe haviam fugido, e dos sentimentos maus que atribura ao
corao da baronesa. Cruzou as mos no peito e ergueu o pensamento ao Cu, como
a pedir-lhe perdo. Guiomar, em meio das sedues da vida, que tantas eram para
ela e de todo lhe levavam os olhos, no perdera o sentimento religioso, nem
esquecera o que lhe havia ensinado a f ingnua e pura de sua me.

A clera acabara, mas
veio depois a luta entre a gratido e o amor,  entre o noivo que lhe propunha a
afeio da madrinha e o que o seu prprio corao escolhera. Ela nem ousava
tirar as esperanas  baronesa, nem imolar as suas prprias,  e uma de duas
coisas era preciso que fizesse naquela solene ocasio. O que sentiu e pensou foi
longo e cruel; mas se tal duelo podia travar-se-lhe na alma, no era duvidoso o
resultado. O resultado devia ser um. A vontade e a ambio, quando
verdadeiramente dominam, podem lutar com outros sentimentos, mas ho de sempre
vencer, porque elas so as armas do forte, e a vitria  dos fortes. Guiomar
tinha de decidir por um dos dois homens que lhe propunha o seu destino; elegeu o
que lhe falava ao corao.

A resposta, porm, no
podia a moa demor-la nem esquiv-la, no convinha, talvez, prolongar a luta e
a dvida. Quando isto pensou, veio-lhe ao esprito uma idia decisiva, a de
confessar tudo  madrinha. Hesitou, porm, entre faz-lo ela prpria ou por boca
de Lus Alves, cujas palavras, apontadas acima trazia escritas na memria.
Preferia este meio; mas no lhe bastava preferi-lo, era mister realiz-lo, e
para isso s dois modos tinha: escrever-lhe ou falar-lhe. O segundo podia no
ser to pronto, e talvez falhasse ocasio apropriada; adotou o primeiro, e
recuou logo. A carta seria mandada por um fmulo, mas o esprito de Guiomar era
a tal ponto sobre si que repeliu semelhante interveno. A janela estava aberta;
dali viu luz na sala de Lus Alves e a sombra do moo, que passeava de um lado
para outro. Ocorreu-lhe ento a idia que ps por obra, conforme ficou dito no
captulo anterior.

Tal  a histria
daquela palavra escrita rapidamente numa folha de papel. Apesar da declarao de
Lus Alves e das circunstncias em que a moa se achou, o leitor facilmente
compreender que ela no a escreveu sem pelejar consigo mesma, sem vacilar muito
entre a repugnncia e a necessidade. Afinal foram vencidos os escrpulos, que 
tanta vez o seu destino deles, e fora  dizer que no os vencem nunca de graa,
porque eles falam, arrazoam, obstam o mais que podem, mas  vulgar passarem-lhes
por cima. A moa entretanto, apenas lanara a carta, arrependeu-se; a dignidade
teve remorsos; a conscincia quase a acusava de uma ao vil. Era tarde; a carta
chegara a seu destino.

Na manh seguinte, a
baronesa acordou mais alegre que de costume. Cuidara ver em Guiomar, na noite
anterior, alguma coisa que s lhe pareceu enleio natural da situao. Guiomar
erguera-se tarde; a manh estava chuvosa e a madrinha no deu o seu passeio. A
moa foi beijar-lhe a mo e a face, como costumava, e receber dela o sculo
materno. O rosto parecia cansado, mas um vu de afetada alegria disfarava-lhe a
expresso natural,  semelhana das posturas de toucador, de maneira que a
baronesa, pouco ledora de fisionomias, no discerniu naquela a verdade da
impostura. Impostura, digo eu, devendo entender-se que  honesta e reta, porque
a inteno da moa no era mais do que no amargurar a madrinha, e tirar-lhe
motivo a qualquer aflio antecipada.

 Dormiu bem a minha
rainha da Inglaterra? perguntou Mrs. Oswald, pondo-lhe familiarmente as mos nos
ombros.

 A sua rainha da
Inglaterra no tem coroa, respondeu Guiomar com um sorriso contrafeito.

Pela volta do meio-dia,
recebeu a baronesa uma carta de Lus Alves. Abriu-a e leu-a. O advogado
pedia-lhe a mo de Guiomar. Poucas linhas, corteses, simples, naturais, feitas
por quem parecia senhor da situao.

 Mrs. Oswald, disse a
baronesa  sua dama de companhia que se achava na mesma sala, leia isto.

A inglesa obedeceu.

 Isto no quer dizer
nada, observou ela depois de alguns instantes.  um pretendente mais; devemos
crer, porm, que so muitos, e que se os outros no lhe escrevem cartas destas,
 porque so menos afoitos. A Sra. baronesa pensa que os olhos de sua afilhada
so inocentes? continuou a inglesa sorrindo. Eu cuido que devem estar carregados
de crimes, e que h mortos...

 Mas no v, Mrs.
Oswald, interrompeu a baronesa, que esse homem parece estar autorizado?

Mrs. Oswald calou-se
como quem refletia. Logo depois exps uma srie de argumentos e consideraes,
se no graves em substncia, pelo menos nas roupas com que ela os vestia, umas
roupas seriamente britnicas, como as no talharia melhor a melhor tesoura da
cmara dos comuns. Toda ela dava ares de um argumento vivo e sem rplica. Havia
em seus cabelos, entre louro e branco, toda a rigidez de um silogismo; cada
narina parecia uma ponta de um dilema. A concluso de tudo  que nada estava
perdido, e que a felicidade de Jorge era coisa no s possvel, mas at
provvel, uma vez que a baronesa mostrasse,  era o essencial,  certa resoluo
de nimo muito til e at indispensvel naquela ocasio. Mrs. Oswald oferecia-se
para ir chamar a moa imediatamente.

 Pois v, v, disse a
baronesa.

A inglesa saiu dali e
foi ter com Guiomar. Quando a viu de longe comps um sorriso, e Guiomar, vendo-a
sorrir, sentiu como que um movimento interno de repulsa.

 Venho busc-la, disse
Mrs. Oswald, para uma coisa que a senhora est longe de imaginar.

Guiomar interrogou-a
com os olhos.

 Para casar!

 Casar! exclamou
Guiomar sem compreender a inteno da mensageira.

 Nada menos, respondeu
ela. Admira-se, no? Tambm eu; e sua madrinha igualmente. Mas h quem tenha o
mau gosto de aproximar-se por seus belos olhos, e a afronta de a vir pedir, como
se pedissem estrelas do cu...

Guiomar compreendeu de
que se tratava. Olhou desdenhosamente para a inglesa, e disse em tom seco e
breve:

 Mas, conclua, Mrs.
Oswald.

 A senhora baronesa
manda cham-la.

Guiomar disps-se a ir
ter com a madrinha; Mrs. Oswald f-la parar um instante, e com a mais melflua
voz que possua na escala da garganta, disse:

 Toda a felicidade
desta casa est em suas mos.

CAPTULO XVIII / A
ESCOLHA

Mrs. Oswald tinha
falado demais. A baronesa no a incumbira de dizer  afilhada a razo por que a
mandava chamar. Aconteceu, porm, que aquela indiscrio no foi a nica. Mrs.
Oswald, em vez de esquivar-se e deixar que entre Guiomar e a baronesa fosse
tratado o assunto que as ia reunir, cedeu  curiosidade, e acompanhou a moa.

A baronesa estava
sentada, entre duas janelas, com a carta aberta nas mos, to atenta em rel-la,
que no ouviu o rumor dos ps de Guiomar e de Mrs. Oswald.

 Madrinha chamou-me?
perguntou Guiomar parando em frente dela.

A baronesa ergueu a
cabea.

 Ah!  verdade; sim;
chamei-te. Senta-te aqui.

Guiomar arrastou a
cadeira que ficava mais prxima e sentou-se ao p da baronesa. Esta, entretanto,
havia dobrado lentamente a carta, e tinha os olhos no cho, como a procurar por
onde comearia. Quando os levantou deu com a inglesa. Ia j falar, mas estacou.
A afeio que lhe tinha no impediu que achasse demasiada familiaridade a
presena de Mrs. Oswald em semelhante ocasio. Esperou alguns instantes; mas
como a inglesa parecesse inteiramente distrada:

 Mrs. Oswald disse a
baronesa, v ver se j deram de comer aos passarinhos.

A inglesa percebeu que
estes passarinhos, naquele caso, eram uma pura metfora, e que a baronesa nada
mais fazia do que pedir-lhe delicadamente que se fosse embora. Todavia, no se
deu por achada.

 Parece-me que no,
disse ela; vou j saber disso.

 Olhe, disse a
baronesa quando ela j ia a meio caminho; encoste-me essas portas, e d ordem
para que ningum nos interrompa.

A inglesa obedeceu e
saiu. A careta que fez ao sair ningum lha pde ver, e no se perdeu nada.

As duas ficaram ss.

 Senta-te aqui,
Guiomar, disse a baronesa indicando um banquinho que lhe ficava aos ps.

Guiomar deixou a
cadeira e foi sentar-se no banquinho, pousando amorosamente os braos nos
joelhos da madrinha. Esta cingiu-lhe a cabea com as mos, e assim esteve longo
tempo sem falar, mas eloqente naquela mudez, em que a palavra pertencia ao
corao. Ambas estavam comovidas; e Guiomar, de envolta com um suspiro, murmurou
este nico e doce nome:

 Mame!

Era a primeira vez que
ela lhe dava este nome, e to fundo lhe calou na alma  baronesa que a resposta
foi cobri-la de beijos.

 Sim, tua me, disse a
madrinha; a que te deu o ser no te amaria mais do que eu. Tens a alma e a
ternura da filha que o Cu me levou, e se todas as mes que perdem filhos
pudessem substitu-los do mesmo modo, desapareceria do mundo a maior e mais
cruel dor que h nele...

A resposta de Guiomar
foi apertar-lhe as mos e beijar-lhas. Seguiu-se uma pausa, em que a comoo a
pouco e pouco desapareceu, e a baronesa olhou para a carta de Lus Alves,
amarrotada pelo gesto de Guiomar.

 Guiomar, disse ela
enfim, j refletiste no pedido de ontem  noite?

A moa esperava que a
madrinha lhe falasse no pedido de Lus Alves; a pergunta da baronesa
desnorteou-a um pouco. Sua inteligncia, porm, era clara e sagaz; a resposta
foi outra pergunta:

 Uma noite ser
bastante para decidir de todo o resto da vida? disse ela sorrindo.

 Tens razo, minha
filha; mas a pergunta era natural da parte de quem quer ver realizado um desejo.
Jorge pediu-te em casamento. Sabes que  um excelente carter?

 Excelente, respondeu
a moa.

 Uma boa alma,
continuou a baronesa, e um moo distinto. Parece gostar muito de ti, segundo
disse ontem, no?  natural; s me admira que no te amem muitos mais.

A baronesa parou;
Guiomar brincava com as franjas da manga sem se atrever a levantar os olhos.

 Deves saber,
continuou a baronesa,  que eu estimaria ver que este casamento se efetuasse;
estou convencida de que te faria feliz, e a ele tambm, pelo menos tanto quanto
 possvel julgar das coisas presentes... Que diz o teu corao?

E como Guiomar no
respondesse logo:

 Ah! esquecia-me do
que me disseste h pouco. Uma noite no  o bastante para decidir de todo o
resto da vida. Bem; ouvir-me-s mais duas coisas. A primeira  que... L tu
mesma esta carta.

A baronesa deu a carta
a Guiomar, que a abriu e leu o pedido que Lus Alves fazia de sua mo. Enquanto
ela percorria com os olhos as poucas linhas escritas, a madrinha parecia
observ-la fixamente, como a tentar ler-lhe no rosto a impresso que o pedido
lhe fazia, se espanto, se satisfao. No houve espanto nem satisfao aparente;
Guiomar leu a carta e entregou-a  madrinha.

 Leste?  a primeira
coisa que eu queria dizer-te. O Dr. Lus Alves pede-te em casamento; tens de
escolher entre ele e Jorge. A segunda coisa  que dos dois pretendentes Jorge 
o que meu corao prefere; mas no sou eu que me caso, s tu; escolhe com plena
liberdade aquele que te falar ao corao.

Guiomar erigiu o busto
e olhou diretamente para a madrinha, com tais sinas de espanto no rosto, que
esta no pde deixar de lhe perguntar:

 Que tens?

A moa no respondeu;
quero dizer no lhe respondeu com os lbios; travou-lhe da mo e apertou-a entre
as suas, e ficou a olhar para ela como a refletir. A expresso de seu rosto
passara do espanto  satisfao e desta a uma coisa que parecia a um tempo
indignao e asco.

 Oh! madrinha!
exclamou Guiomar, por que se no entenderam logo os nossos coraes? No havia
mister pr de permeio um esprito importuno e desconsolador. Se eu adivinhara
essas palavras que acabou de dizer, no teria padecido metade do que me fazem
padecer h longos dias...

 Padecer?

 Padecer; nada menos.
Mas deixemos isso. Foi o seu corao que falou e o meu que ouviu; posso agora
dizer-lhe francamente o que sinto, sem receio de a afligir.

No precisava dizer
mais nada; a escolha que ela ia fazer estava j indicada pelo menos. Entendeu-o
a baronesa, que fechou o rosto e suspirou. A afilhada ouviu-lhe o suspiro, e
percebeu a tristeza sbita; arrependeu-se de ter ido to longe.

 Percebo, respondeu a
baronesa, queres dizer que dos dois pretendentes escolhes o Dr. Lus Alves?

A moa conservou-se
calada; a madrinha olhava para ela com uma expresso de ansiedade que a afligiu.

 Fala, repetiu a
baronesa.

 Escolho... o Sr.
Jorge, suspirou Guiomar depois de alguns instantes.

A baronesa estremeceu.

 Falas srio? No
creio; no  esse o sentimento do teu corao. V-se que no . Queres iludir-me
e a ti tambm. Percebo que o no amas; no o amaste nunca. Mas amas ao outro,
no ? Que tem isso? No me d o prazer que eu teria se... Que importa, se fores
feliz? A tua felicidade est acima das minhas preferncias. Era um sonho meu;
desejava-o com todas as foras; faria o que pudesse para alcan-lo; mas no se
violenta o corao,  um corao, sobretudo, como o teu! Escolhes o outro? Pois
casars com ele.

V o leitor que a
palavra esperada, a palavra que a moa sentia vir-lhe do corao aos lbios e
querer romp-los, no foi ela quem a proferiu, foi a madrinha; e se leu atento o
que precede ver que era isso mesmo o que ela desejava. Mas por que o nome de
Jorge lhe roou os lbios? A moa no queria iludir a baronesa, mas traduzir-lhe
infielmente a voz de seu corao, para que a madrinha conferisse, por si mesma,
a traduo com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de ttica, de
afetao, estou quase a dizer de hipocrisia, se no tomassem  m parte o
vocbulo. Havia, mas isto mesmo lhe dir que esta Guiomar, sem perder as
excelncias de seu corao, era do barro comum de que Deus fez a nossa pouco
sincera humanidade; e lhes dir tambm que, apesar de seus verdes anos, ela
compreendia j que as aparncias de um sacrifcio valem mais, muita vez, do que
o prprio sacrifcio.

A baronesa acabara de
falar. A alegria do rosto de Guiomar confirmou a sua primeira impresso, e se a
escolha era contrria ao que ela desejava, a satisfao da afilhada pagou-lhe
tudo quanto ela ia perder. Era assim aquela alma de me; boa, dedicada e
generosa.

 Oh! madrinha!
obrigada! exclamou a moa. No me fica odiando?

 Oh! exclamou a
baronesa com um tom de repreenso.

E puxou-a para si, e
abraou-a com amor. Guiomar correspondeu ao movimento, e as duas confundiram as
suas alegrias ntimas e afeies sinceras.

Mrs. Oswald viu-as da
a pouco, risonhas e entendidas. Era fcil concluir qual dos dois pretendentes
vencera; Guiomar no receberia de to boa cara o sobrinho da baronesa. Tudo
estava acabado; e talvez que a sua prpria pessoa padecera naquele lance ltimo.
A baronesa pedira a Guiomar que lhe explicasse a que padecimentos aludira, mas a
moa preferiu no dizer nada, no s por afligir a madrinha, como por no dar um
aspecto de rivalidade  situao entre ela e Mrs. Oswald.

A escolha estava feita,
o consentimento dado. A baronesa respondeu nessa mesma tarde ao pretendente
feliz. Estevo teria manifestado ruidosamente toda a alegria que semelhante
resposta lhe causara; sua alma apaixonada e exuberante contaria a Deus e aos
homens aquela imensa fortuna; Lus Alves encerrou o prazer, alis grande, dentro
de si; pensou na moa e no futuro alguns instantes, mas no falou deles a
ningum.

A baronesa escreveu
nesse mesmo dia ao sobrinho, comunicando-lhe a resposta de Guiomar. Os leitores
no tero dificuldade de admitir que o corao de Jorge no sentiu o golpe
profundamente, mas sentiu alguma coisa. No foi nessa noite  casa da tia; no
foi tambm na segunda; na terceira chegou a descer as escadas; na quarta embicou
para Botafogo.

 Tudo est acabado,
disse-lhe a tia verdadeiramente sentida.

 Acabado! suspirou
Jorge.

 Agora,  preciso
nimo; espero que sers homem.

 Oh! serei homem!
suspirou outra vez Jorge.

E dois suspiros,
arrancados do peito de um homem to grave, deviam ser por fora dois suspiros
gravssimos, como facilmente acredita o leitor.

Efetivamente a
fisionomia do moo no tinha abatimento nem aflio; no a amarrotava o menor
vestgio de noite mal dormida, menos ainda de lgrimas enxutas. Alegre no era,
mas grave e austera, como ele a trazia sempre, a contrastar com o retesado do
bigode.

A baronesa imaginou
contudo que a dor do sobrinho devia t-lo mortificado muito; apertou-lhe as mos
com ternura e disse-lhe ainda algumas palavras de animao.

Imagine-se o que seria
o primeiro encontro de Jorge com Guiomar. A moa estava serena, talvez risonha e
at compassiva. Se tivesse de casar com ele odiara-o decerto; agora j lhe
perdoava o amor. Jorge pela sua parte no deixou de ficar um tanto abalado, em
parte comoo, em parte constrangimento, sendo porm o constrangimento maior do
que a comoo. Nos lbios pairou-lhe um desses sorrisos em que o olhar
penetrante do povo ou a sua imaginao pinturesca descobriu a cor amarela. Se
outro fosse o aspecto,  provvel que ela lhe conservasse, ao menos, o respeito.
Mas aquele sorriso perdeu-o de todo no nimo de Guiomar.

Na primeira ocasio que
se lhe ofereceu, expandiu-se Jorge com Mrs. Oswald.

 Perdeu-se tudo...
murmurou ele.

A inglesa no
respondeu.

Jorge continuou ainda a
falar, e a inglesa a ouvir, mas a ouvir s, e a querer diverti-lo daquele
assunto.

 Tudo se perdeu, disse
enfim o sobrinho da baronesa, talvez por culpa sua.

 Minha? perguntou Mrs.
Oswald.

 Sua.

 Mas...

Jorge hesitou um
instante.

 No mostrou calor
suficiente, disse ele enfim.

 Que quer? disse Mrs.
Oswald. O corao no se pode dominar, nem h meio de impor-lhe um sentimento.
D. Guiomar  uma santa criatura, ama deveras ao seu rival; h nada mais justo do
que cas-los?

 De maneira
que...

 De maneira que tudo
era lcito fazer na suposio de que ela no amava a outro, mas uma vez que ama
...

Lus Alves, na noite do
dia em que recebeu a carta, foi  casa da baronesa, que o recebeu com o melhor
de seus sorrisos. A felicidade de Guiomar fazia-a completamente feliz; nem iras,
nem ressentimentos, como anunciara Mrs. Oswald. Todo o castelo de cartas cara
por terra, desde que a sinceridade da baronesa interveio.

CAPTULO XIX /
CONCLUSO

Marcado o casamento
para dois meses depois, todo o tempo de intervalo foi despendido pelos noivos
naquele deleitoso viver, que j no  o colquio furtivo do simples namoro, nem
 ainda a intimidade conjugal, mas um estado intermdio e consentido, em que os
coraes podem entornar-se livremente um no outro. Aqueles no tinham nada do
amor exttico e romanesco de Estevo, mas amavam sinceramente, ela ainda mais do
que ele, e to feliz um como outro.

A gente que os conhecia
comentou de todos os modos e feitios aquele caso inesperado, e a mais de um roeu
a inveja do favor com que o Cu tratara a Lus Alves. A gentileza e a elegncia
da moa no encontravam objeo no esprito de ningum; todos as confessavam e
aplaudiam, porque at o silncio mortificado de algumas belezas rivais, se
porventura as havia,  era tambm aplauso e do melhor. Quanto ao carter de
Guiomar, divergiam muito as apreciaes; e um dia, em que Lus Alves lhe contava
uns trechos de conversa ouvidos a furto, e de que era objeto a noiva, ela
pareceu refletir longo tempo, e enfim respondeu:

 No admira que haja
tanta opinio diferente;  natural, porque nunca vulgarizei o meu esprito.
Entretanto, a opinio dos outros importa-me pouco; eu quisera saber a sua.

 A minha  que  um
anjo.

Guiomar fez um gesto
gracioso de enfado, como quem no esperava aquele cumprimento velho e comum,
alis eternamente novo,  porque no h outro mais pronto e mais belo nas nossas
lnguas crists. O noivo sorriu, mas nada lhe disse, e todavia podia dizer-lhe
alguma coisa,  aquilo, pelo menos, que o leitor lhe ouviu num dos captulos
anteriores.

 Se no sabe o que
sou,  continuou Guiomar,  eu mesma o direi, para que te no case comigo assim
de emboscada, e no lhe acontea unir-se a um demnio supondo que  um anjo.

 Um demnio! exclamou
Lus Alves rindo.

 Nem mais nem menos,
retrucou ela rindo tambm. Saiba pois que sou muito senhora da minha vontade,
mas pouco amiga de a exprimir; quero que me adivinhem e obedeam; sou tambm um
pouco altiva, s vezes caprichosa, e por cima de tudo isto tenho um corao
exigente. Veja se  possvel encontrar tanto defeito junto.

Lus Alves respondeu
que eram tudo qualidades excelentes, e esteve quase a dizer que lhe faltava
mencionar ainda outra, que era a fundamental de todas; preferiu aludir a ela
depois do casamento.

O casamento efetuou-se,
no dia marcado com as solenidades do estilo. A manh daquele dia trajava um
manto de neblina cerrada, que o nosso inverno lhe ps aos ombros, como para
resguard-la do rigor benigno da temperatura, manto que ela sacudiu dali a nada,
a fim de se mostrar qual era, uma deliciosa e fresca manh fluminense. No
tardou que o sol batesse de chapa nas guas tranqilas e azuis, e nessas colinas
onde o verde natural ia alternando com a alvura das habitaes humanas. Vento
nenhum; apenas uma aragem, branda e fresca, que parecia o ltimo respirar da
noite j remota, e que s a trechos agitava as folhas do arvoredo.

A chcara naquele dia
era a mesma que nos outros, mas Guiomar achou-lhe um aspecto novo e melhor, uma
como expanso divina que animava as coisas em redor dela. Toda a alma feliz 
pantesta; parece-lhe que Deus lhe sorri de dentro da flor que desabrocha, do
fundo da gua que serpeia murmurando, e at de envolta com o cip humilde e
rstico, ou no seixo bronco e desprezado do cho. Era assim a alma de Guiomar
naquela manh. Nunca as rvores, as flores, a grama rasteira lhe pareceram mais
vicejantes; o sentimento interno hauria aquela vida exterior, do mesmo modo que
o pulmo bebia o puro ar matinal.

De envolta com essas
sensaes comuns a toda a alma, havia ainda as que eram dela,  dela, que via
ali o seu ltimo Sol de moa solteira e contemplava por antecipao a aurora
nova, o dia longo e feliz de suas frteis ambies. Neste ponto despia a sua
fantasia as asas de folha agreste, com que andara a pairar no meio daquela
vegetao, para envergar outras de seda e brocado, e voar sabe Deus a que stios
de grandeza humana.

O acaso quis que
naquela manh vestisse o mesmo roupo com que Estevo a vira do outro lado da
cerca, e trouxesse no colo e nos pulsos o mesmo broche e os mesmos botes de
safira. No tinha o livro; mas, em falta desta circunstncia, havia outra, que
era a mesma daquela clebre manh, havia uns olhos que do outro lado da cerca a
espreitavam namorados. No eram, porm, os mesmos; eram os do noivo, com quem
ela foi encontrar os seus;  e o mais doloroso de tudo  que nem a cerca, nem os
demais acessrios, nada lhe lembrou o outro homem que morria por ela. A
felicidade  isto mesmo; raro lhe sobra memria para as dores alheias.

No menos alegre do que
ela parecia a baronesa naquele dia. De longe em longe surgia-lhe na memria a
idia do sobrinho, mas j no havia tristeza de no ter efetuado o casamento,
como desejara; to leve foi o golpe em Jorge e to indiferente andava ele, que a
boa senhora compreendeu que o amor, se existira, no era grande, e sobretudo no
perdurou; a idia de que isto mesmo podia acontecer-lhe ao cabo de seis semanas
de casado, f-la dar graas a Deus do nenhum xito de seus planos.

Mrs. Oswald igualmente
se mostrava feliz,  talvez ainda mais, porque era-o aparatosamente, como se
quisesse resgatar as passadas culpas. Guiomar entendia a inteno latente das
manifestaes ruidosas com que ela andava a felicit-la e bajul-la; mas o dia
no era de rancores nem de ressentimentos, e ela recebia sorrindo as
cortesanices da inglesa.

O casamento fez-se
enfim. As lgrimas que a baronesa derramou, quando viu Guiomar ligada para
sempre, foram as mais belas jias que lhe podia dar. Nenhuma me as verteu mais
sinceras; e, seja dito em honra de Guiomar, nenhuma filha as recebeu mais dentro
do corao.

Na noite do casamento,
quem olhasse para o lado do mar, veria pouco distante dos grupos de curiosos,
atrados pela festa de uma casa grande e rica, um vulto de homem sentado sobre
uma ljea que acaso topara ali. Quem est afeto a ler romances, e leu esta
narrativa desde o comeo, supe logo que esse homem podia ser Estevo. Era ele.
Talvez o leitor, em lance idntico, fosse refugiar-se em stio to remoto, que
mal pudesse acompanh-lo a lembrana do passado. A alma de Estevo sentiu uma
necessidade cruel e singular, o gosto de revolver o ferro na ferida, uma coisa
que chamaremos  voluptuosidade da dor, em falta de melhor denominao. E foi
para ali, contemplar com os indiferentes e ociosos aquela casa onde reinava o
gozo e a vida, e naquela hora que lhe afundava o passado e o futuro de que
vivera. No o retinha a constncia do estico; pela face emagrecida e plida lhe
corriam as lgrimas derradeiras, e o corao, colhendo as foras que lhe
restavam, batia-lhe forte na arca do peito.

Defronte dele refulgia
de todas as suas luzes a manso afortunada; detrs batia a onda lenta e
melanclica, e via-se o fundo da enseada, escuro e triste. Esta disposio do
lugar servia ao plano que ele concebera, e era nada menos do que matar-se ali
mesmo, quando j no pudesse sofrer a dor, espcie de vingana ltima que queria
tomar dos que o faziam padecer tanto, complicando-lhes a felicidade com um
remorso.

Mas este plano no
podia realizar-se, pela razo de que era mais um devaneio, que se lhe dissipou
como os outros. A frouxido do nimo negou-lhe essa ltima ambio. Os olhos
podiam fitar a morte, como podiam encarar a fortuna; mas faltavam-lhe os meios
de caminhar a ela. Esteve ali, pois, at o fim; e em vez de mergulhar na gua e
no nada, como delineara, regressou tristemente para casa, trpego como um brio,
deixando ali a sua mocidade toda, porque a que levava era uma coisa descolorida
e seca, estril e morta. Os anos passaram depois, e  medida que vinham, ia-se
Estevo afundando no mar vasto e escuro da multido annima. O nome, que no
passara da lembrana dos amigos, a mesmo morreu, quando a fortuna o distanciou
deles. Se ele ainda vegeta em algum recanto da capital, ou se acabou em alguma
vila do interior, ignora-se.

O destino no devia
mentir nem mentiu  ambio de Lus Alves. Guiomar acertara; era aquele o homem
forte. Um ms depois de casados, como eles estivessem a conversar do que
conversam os recm-casados, que  de si mesmos, e a relembrar a curta campanha
do namoro, Guiomar confessou ao marido que naquela ocasio lhe conhecera todo o
poder da sua vontade.

 Vi que voc era homem
resoluto, disse a moa a Lus Alves, que, assentado, a escutava.

 Resoluto e ambicioso,
ampliou Lus Alves sorrindo; voc deve ter percebido que sou uma e outra coisa.

 A ambio no 
defeito.

 Pelo contrrio, 
virtude; eu sinto que a tenho, e que hei de faz-la vingar. No me fio s na
mocidade e na fora moral; fio-me tambm em voc, que h de ser para mim uma
fora nova.

 Oh! sim! exclamou
Guiomar.

E com um modo gracioso
continuou:

 Mas que me d voc em
paga? um lugar na Cmara? uma pasta de ministro?

 O lustre do meu nome,
respondeu ele.

Guiomar, que estava de
p defronte dele, com as mos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre
os joelhos do marido, e as duas ambies trocaram o sculo fraternal.
Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mo.

FIM
