TEATRO, Lio de Botnica, 1906

  Lio
    de Botnica

Textos-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, vol. II,

Rio de
  Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em Relquias de Casa Velha,

Rio de Janeiro: Editora Garnier, 1906.

PERSONAGENS

  D. Helena

D. Leonor

D. Ceclia

Baro Segismundo de Kernoberg

Lugar da cena: Andara

  ATO NICO

  Sala em casa de
  D. Leonor. Portas ao fundo, uma  direita do espectador

  CENA I

  D. Leonor, D. Helena, D. Ceclia

D. Leonor entra, lendo uma carta, D. Helena e D. Ceclia
  entram no fundo.

  D. HELENA -- J de
  volta!

D. CECLIA (a D. Helena, depois
  de um silncio) -- Ser alguma carta de namoro?

D. HELENA (Baixo) -- Criana!

D. LEONOR -- No me explicaro isto?

D. HELENA -- Que ?

D. LEONOR -- Recebi ao descer do
  carro este bilhete: 'Minha senhora. Permita que o mais respeitoso vizinho
  lhe pea dez minutos de ateno. Vai nisto um grande interesse da
  cincia'. Que tenho eu com a cincia?

D. HELENA -- Mas de quem  a carta?

D. LEONOR -- Do Baro Sigismundo de Kernoberg.

D. CECLIA -- Ah! o tio de Henrique!

D. LEONOR -- De Henrique! Que
  familiaridade  essa?

D. CECLIA -- Titia, eu...

D. LEONOR   Eu
  que?...  Henrique!

D. HELENA -- Foi uma maneira de
  falar na ausncia. Com que ento o Sr. Baro
  Sigismundo de Kernoberg pede-lhe dez minutos de
  ateno, em nome e por amor da cincia. Da parte de um botnico  por fora
  alguma gloga.

D. LEONOR -- Seja o que for, no sei se deva receber um senhor a quem nunca vimos.
  J o viram alguma vez?

D. CECLIA -- Eu nunca.

D. HELENA -- Nem eu.

D. LEONOR -- Botnico e sueco: duas
  razes para ser gravemente aborrecido. Nada, no estou em casa.

D. CECLIA -- Mas, quem sabe,
  titia, se ele quer pedir-lhe... sim... um exame no nosso jardim?

D. LEONOR -- H por todo esse Andara muito jardim para examinar.

D. HELENA -- No, senhora, h de
  receb-lo.

D. LEONOR -- Por
  que?

D. HELENA -- Porque  nosso
  vizinho, porque tem necessidade de falar-lhe, e, enfim, porque, a julgar pelo
  sobrinho, deve ser um homem distinto.

D. LEONOR -- No me
  lembrava do sobrinho. V l; aturemos o botnico. (Sai pela porta do fundo,
   esquerda).

  CENA II

D. HELENA, D. CECLIA

  D. HELENA - No me
  agradece?

D. CECLIA -- O que?

D. HELENA -- Sonsa! Pois no
  adivinhas o que vem c fazer o Baro?

D. CECLIA -- No.

D. HELENA -- Vem pedir a tua mo
  para o sobrinho.

D. CECLIA -- Helena!

D. HELENA (imitando-a) -- Helena!

D. CECLIA -- Juro...

D. HELENA -- Que o
  no amas.

D. CECLIA -- No  isso.

D. HELENA -- Que o
  amas?

D. CECLIA -- Tambm no.

D. HELENA -- Mau! Alguma coisa h
  de ser. Il faut qu'une porte soit ouverte ou ferme. Porta neste caso  corao. O teu
    corao h de estar fechado ou aberto...

D. CECLIA -- Perdi a chave.

D. HELENA (rindo) -- E no o
  podes fechar outra vez. So assim todos os coraes ao p de todos os
  Henriques. O teu Henrique viu a porta aberta, e tomou posse do lugar. No
  escolheste mal, no;  um bonito rapaz.

D. CECLIA -- Oh! uns olhos!

D. HELENA -- Azuis.

D. CECLIA -- Como o cu.

D. HELENA -- Louro...

D. CECLIA -- Elegante...

D. HELENA -- Espirituoso...

D. CECLIA -- E bom...

D. HELENA -- Uma prola... (Suspira). Ah!

D. CECLIA -- Suspiras?

D. HELENA -- Que h de fazer uma
  viva falando... de uma prola?

D. CECLIA -- Oh! tens naturalmente em vista algum diamante de primeira
  grandeza.

D. HELENA -- No tenho,
  no; meu corao j no quer jias.

D. CECLIA -- Mas as jias querem o
  teu corao.

D. HELENA -- Tanto pior para elas:
  ho de ficar em casa do joalheiro.

D. CECLIA -- Veremos isso.  (Sobe). Ah!

D. HELENA -- Que ?

D. CECLIA (olhando para a
  direita) -- Um homem desconhecido que l vem; h de ser o Baro.

D. HELENA -- Vou avisar titia. (Sai
  pelo fundo,  esquerda).

  CENA III

  D. Ceclia, Baro

  D. CECLIA -- Ser
  deveras ele? Estou trmula...  Henrique no me avisou de nada... Vir
  pedir-me?... Mas, no, no, no pode ser...  To moo?...  (O
    Baro aparece).

BARO ( porta, depois de
  profunda cortesia) -- Creio que a Excelentssima Senhora D. Leonor Gouva
  recebeu uma carta...  Vim sem esperar a resposta.

D. CECLIA --  o Sr. Baro Sigismundo de Kernoberg?  (O Baro faz um gesto afirmativo). Recebeu. Queira entrar e sentar-se. (
  parte). Devo estar vermelha...

BARO ( parte, olhando para
  Ceclia)

  -- H de ser esta.

D. CECLIA ( parte) -- E
  titia no vem...  Que demora!...  No sei que lhe diga... estou to vexada...  (O Baro tira um livro da
    algibeira e folheia-o). Se eu pudesse deix-lo...  o que vou fazer. (Sobe).

BARO (fechando o livro e
  erguendo-se) -- V. Excia. h de desculpar-me. Recebi hoje mesmo este livro da Europa;  obra que vai fazer
  revoluo na cincia; nada menos que uma monografia das gramneas, premiadas
  pela Academia de Estocolmo.

D. CECLIA -- Sim?  (
  parte) Aturemo-lo, pode vir a ser meu tio.

BARO -- As gramneas tm ou no
  tm perianto? A principio adotou-se a negativa, posteriormente... V. Excia. talvez no conhea  o que
   o perianto..

D. CECLIA -- No, senhor.

BARO -- Perianto compe-se de duas
  palavras gregas: peri, em volta, e anthos, flor.

D. CECLIA -- O invlucro da flor.

BARO -- Acertou.  o que vulgarmente
  se chama clix. Pois as gramneas eram tidas...  (Aparece D. Leonor ao fundo). Ah!

  CENA IV

  Os mesmos, D. Leonor

  D. LEONOR -- Desejava
  falar-me?

BARO -- Se me d essa honra. Vim
  sem esperar resposta  minha carta. Dez minutos apenas.

D. LEONOR -- Estou s suas ordens.

D. CECLIA -- Com licena. (
  parte, olhando para o cu). Ah! minha Nossa
  Senhora!  (Retira-se pelo fundo).

  CENA V

  D. Leonor, Baro

(D. Leonor senta-se, fazendo um
  gesto ao Baro, que a imita).

BARO -- Sou o Baro Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botnico de vocao, profisso e
  tradio, membro da Academia de Estocolmo e comissionado pelo governo da Sucia
  para estudar a flora da Amrica do Sul. V. Excia. dispensa a minha biografia?  (D. Leonor faz um gesto
    afirmativo). Direi somente que o tio de meu tio foi botnico, meu tio
  botnico, eu botnico, e meu sobrinho h de ser botnico. Todos
    somos botnicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha
  vinda a esta casa.

D. LEONOR -- Oh! o meu jardim  composto de plantas vulgares.

BARO (gracioso) --  porque
  as melhores flores da casa esto dentro de casa. Mas V. Excia. engana-se; no venho pedir nada do seu jardim.

D. LEONOR -- Ah!

BARO -- Venho pedir-lhe uma coisa
  que lhe h de parecer singular.

D. LEONOR -- Fale.

BARO -- O padre desposa a igreja;
  eu desposei a cincia. Saber  o meu estado conjugal; os livros so a minha
  famlia. Numa palavra, fiz voto de celibato.

D. LEONOR -- No se case.

BARO -- Justamente. Mas, V. Excia. compreende que, sendo para
  mim ponto de f que a cincia no se d bem com o matrimonio, nem eu devo
  casar, nem... Vossa Excia. j percebeu.

D. LEONOR -- Coisa nenhuma.

BARO -- Meu sobrinho Henrique anda
  estudando comigo os elementos da botnica. Tem talento, h de vir a ser um
  luminar da cincia. Se o casamos, est perdido.

D. LEONOR -- Mas...

BARO ( parte) -- No
  entendeu. (Alto). Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda
  apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, h pouco.
  Impus-lhe que no voltasse a esta casa; ele resistiu-me. S me resta um meio: 
  que V. Excia. lhe feche a
  porta.

D. LEONOR -- Senhor Baro!

BARO -- Admira-se do pedido? Creio
  que no  polido nem conveniente. Mas  necessrio, minha
  senhora,  indispensvel. A cincia precisa de mais um obreiro: no o encadeiemos no matrimnio.

D. LEONOR -- No sei se devo sorrir
  do pedido...

BARO -- Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Ter os meus agradecimentos e as bnos da
  posteridade.

D. LEONOR -- No  preciso tanto;
  posso fech-la de graa.

BARO -- Justo. O verdadeiro
  benefcio  gratuito.

D. LEONOR -- Antes, porm, de nos
  despedirmos, desejava dizer uma coisa e perguntar outra.  (O Baro
    curva-se). Direi primeiramente que ignoro se h tal paixo da parte de seu
  sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Sucia estes pedidos so usuais.

BARO -- Na geografia intelectual
  no h Sucia nem Brasil; os pases so outros: astronomia, geologia,
  matemticas; na botnica so obrigatrios.

D. LEONOR -- Todavia,  fora de
  andar com flores... deviam os botnicos traz-las
  consigo.

BARO -- Ficam no gabinete.

D. LEONOR -- Trazem os espinhos
  somente.

BARO -- V. Excia. tem esprito. Compreendo a afeio de Henrique a esta
  casa.  (Levanta-se). Promete-me ento...

D. LEONOR (levantando-se) -- Que
  faria no meu caso?

BARO -- Recusava.

D. LEONOR -- Com prejuzo da
  cincia?

BARO -- No, porque nesse caso a
  cincia mudaria de acampamento, isto , o vizinho prejudicado escolheria outro bairro
  para seus estudos.

D. LEONOR -- No lhe parece que era
  melhor ter feito isso mesmo, antes de arriscar um pedido ineficaz?

BARO -- Quis primeiro tentar
  fortuna.

  CENA VI

  D. Leonor, Baro, D.
  Helena

  D. HELENA (entra e
    para) -- Ah!

D. LEONOR -- Entra, no  assunto
  reservado. O Sr. Baro de Kernoberg... (Ao Baro) 
  minha sobrinha Helena. ( Helena) Aqui o Sr. Baro vem pedir que o no perturbemos no estudo da botnica. Diz que o seu
  sobrinho Henrique est destinado a um lugar honroso na cincia, e... conclua, Sr. Baro.

BARO -- No convm que se case, a
  cincia exige o celibato.

D. LEONOR -- Ouviste?

D. HELENA -- No compreendo...

BARO --  Uma paixo louca de meu sobrinho pode impedir
  que... Minhas senhoras, no desejo roubar-lhes mais tempo... Confio
  em V. Excia.,
  minha senhora... Ser-lhe-ei eternamente
  grato. Minhas senhoras.  (Faz uma grande cortesia e sai).

CENA VII

  D. Helena, D. Leonor

  D. LEONOR (rindo)
  -- Que urso!

D. HELENA -- Realmente...

D. LEONOR -- Perdo-lhe em nome da
  cincia. Fique com as suas ervas, e no nos aborrea mais, nem ele nem o
  sobrinho.

D. HELENA  Nem o sobrinho?

D. LEONOR -- Nem o sobrinho, nem o criado,
  nem o co, se o houver, nem coisa nenhuma que tenha relao com a cincia.
  Enfada-te? Pelo que vejo, entre o Henrique e a Ceclia h tal ou qual namoro?

D. HELENA -- Se promete segredo... h.

D. LEONOR -- Pois acabe-se o namoro.

D. HELENA -- No  fcil. O
  Henrique  um perfeito cavalheiro; ambos so dignos um do outro. Por que razo impediremos que dois coraes...

D. LEONOR -- No sei de coraes,
  no ho de faltar casamentos a Ceclia.

D. HELENA -- Certamente que no,
  mas os casamentos no se improvisam nem se projetam na cabea; so atos do
  corao, que a igreja santifica. Tentemos uma coisa.

D. LEONOR -- Que ?

D. HELENA -- Reconciliemo-nos com o
  Baro.

D. LEONOR -- Nada, nada.

D. HELENA -- Pobre Ceclia!

D. LEONOR --  ter pacincia, sujeite-se
  s circunstncias...  (A D. Ceclia, que entra)  Ouviste?

D. CECLIA -- O que, titia?

D. LEONOR -- Helena te explicar
  tudo. (A D. Helena, baixo). Tira-lhe todas as esperanas.  (Indo-se). Que urso!  que urso!

  CENA VIII

  D. Helena, D. Ceclia

  D. CECLIA -- Que
  aconteceu?

D. HELENA -- Aconteceu... (Olha
  com tristeza para ela).

D. CECLIA -- Acaba.

D. HELENA -- Pobre Ceclia!

D. CECLIA -- Titia recusou a minha
  mo?

D. HELENA -- Qual! O Baro  que se
  ope ao casamento.

D. CECLIA -- Ope-se!

D. HELENA  Diz que a cincia
  exige o celibato do sobrinho.  (D. Ceclia encosta-se a uma cadeira). Mas,
  sossega; nem tudo est perdido; pode ser que o tempo...

D. CECLIA -- Mas quem impede que
  ele estude?

D. HELENA -- Mania de sbio. Ou
  ento, evasiva do sobrinho.

D. CECLIA   Oh! no!  impossvel; Henrique  uma
  alma anglica! Respondo por ele. H de certamente opor-se a semelhante
  exigncia...

D. HELENA -- No convm precipitar
  as coisas. O Baro pode zangar-se e ir-se embora.

D. CECLIA -- Que devo ento fazer?

D. HELENA -- Esperar. H tempo para
  tudo.

D. CECLIA -- Pois bem, quando
  Henrique vier...

D. HELENA -- No vem, titia
  resolveu fechar a porta a ambos.

D. CECLIA -- Impossvel!

D. HELENA -- Pura verdade. Foi uma
  exigncia do Baro.

D. CECLIA -- Ah! conspiram todos contra mim. (Pe as mos na cabea). Sou
  muito infeliz! Que mal fiz eu a essa gente? Helena, salva-me!
  Ou eu mato-me! Anda, v se descobres um meio...

D. HELENA (indo sentar-se) -- Que
  meio?

D. CECLIA (acompanhando-a) -- Um
  meio qualquer que no nos separe!

D. HELENA -- H um.

D. CECLIA -- Qual? Dize.

D. HELENA -- Casar.

D. CECLIA -- Oh! no zombes de mim! Tu tambm amaste, Helena; deves respeitar estas angustias. No tornar a ver o meu Henrique  uma idia
  intolervel. Anda, minha irmzinha.  (Ajoelha-se
    inclinando o corpo sobre o regao de D. Helena). Salva-me!
  s to inteligente, que hs de achar por fora alguma idia; anda, pensa !

D. HELENA (beijando-lhe a
  testa) -Criana! supes que seja to fcil assim?

D. CECLIA -- Para ti h de ser
  fcil.

D. HELENA -- Lisonjeira! (Pega
  maquinalmente no livro deixado pelo Baro sobre a cadeira). A boa vontade
  no pode tudo;  preciso... (Tem aberto o livro). Que livro  este?...
  Ah! talvez do Baro.

D. CECLIA -- Mas vamos... continua.

D. HELENA -- Isto h de ser
  sueco... trata talvez de botnica. Sabes sueco?

D. CECLIA -- Helena!

D. HELENA -- Quem sabe se este
  livro pode salvar tudo?  (Depois de um instante de reflexo). Sim,
   possvel. Tratar de botnica?

D. CECLIA -- Trata.

D. HELENA -- Quem te disse?

D. CECLIA -- Ouvi dizer ao Baro,
  trata das...

D. HELENA -- Das...

D. CECLIA -- Das gramneas?

D. HELENA -- S das gramneas?

D. CECLIA -- No sei; foi premiado
  pela Academia de Estocolmo.

D. HELENA -- De Estocolmo. Bem. (Levanta-se).

D. CECLIA (levantando-se) -- Mas
  que ?

D. HELENA -- Vou mandar-lhe o
  livro...

D. CECLIA -- Que mais?

D. HELENA -- Com um bilhete.

D. CECLIA (olhando para a
  direita) No  preciso; l vem ele.

D. HELENA -- Ah!

D. CECLIA -- Que vais fazer?

D. HELENA -- Dar-lhe o livro.

D. CECLIA -- O livro, e...

D. HELENA -- E as despedidas.

D. CECLIA -- No compreendo.

D. HELENA -- Espera e vers.

D. CECLIA -- No posso encara-lo; adeus.

D. HELENA -- Ceclia!  (D. Ceclia
  sai).

  CENA IX

  D. HELENA, BARO

  BARO ( porta) -- Perdo,
  minha senhora; eu trazia um livro h pouco...

D. HELENA (com o livro na mo)
  -- Ser este?

BARO (caminhando para ela) -- Justamente.

D. HELENA -- Escrito em sueco,
  penso eu...

BARO -- Em sueco.

D. HELENA -- Trata naturalmente de
  botnica.

BARO -- Das gramneas.

D. HELENA (com interesse) -- Das
  gramneas!

BARO -- De que se espanta?

D. HELENA -- Um livro publicado...

BARO -- Ha quatro meses.

D. HELENA -- Premiado pela Academia
  de Estocolmo?

BARO (admirado) -- 
  verdade. Mas...

D. HELENA -- Que pena que eu no
  saiba sueco!

BARO -- Tinha noticia do livro?

D. HELENA -- Certamente. Ando
  ansiosa por l-lo.

BARO -- Perdo, minha senhora.
  Sabe botnica?

D. HELENA -- No ouso dizer que
  sim, estudo alguma coisa; leio quando posso.  cincia profunda e encantadora.

BARO (com calor) --  a
  primeira de todas.

D. HELENA -- No me atrevo a apia-lo, porque nada sei das outras, e poucas luzes tenho
  de botnica, apenas as que pode dar um estudo solitrio e deficiente. Se a
  vontade suprisse o talento...

BARO -- Por que no? Le
  gnie, c'est la patience, dizia Buffon.

D. HELENA (sentando-se) -- Nem
  sempre.

BARO -- Realmente, estava longe de
  supor, que, to perto de mim, uma pessoa to distinta dava algumas horas vagas
  ao estudo da minha bela cincia.

D. HELENA -- Da sua esposa.

BARO (sentando) -- 
  verdade. Um marido pode perder a mulher, e se a amar deveras, nada a compensar
  neste mundo, ao passo que a cincia no morre... Morremos ns, ela sobrevive
  com todas as graas do primeiro dia, ou ainda maiores, porque cada descoberta 
  um encanto novo.

D. HELENA -- Oh! tem razo!

BARO -- Mas, diga-me V. Excia.: tem feito estudo especial
  das gramneas?

D. HELENA -- Por alto... por alto...

BARO -- Contudo, sabe que a
  opinio dos sbios no admitia o perianto... (D. Helena faz sinal
    afirmativo). Posteriormente reconheceu-se a existncia do perianto.  (Novo
      gesto de D. Helena). Pois este livro refuta a segunda opinio.

D. HELENA -- Refuta o perianto?

BARO -- Completamente.

D. HELENA -- Acho temeridade.

BARO -- Tambm eu supunha isso...
  Li-o, porm, e a demonstrao  clarssima. Tenho pena que no possa l-lo. Se
  me d licena, farei uma traduo portuguesa e daqui a duas semanas...

D. HELENA -- No sei se deva
  aceitar...

BARO -- Aceite;  o primeiro passo
  para me no recusar segundo pedido.

D. HELENA -- Qual?

BARO -- Que me deixe acompanh-la em
  seus estudos, repartir o po do saber com V. Excia. 
  a primeira vez que a fortuna me depara uma discpula. Discpula , talvez,
  ousadia da minha parte...

D. HELENA -- Ousadia, no; eu sei
  muito pouco; posso dizer que no sei nada.

BARO -- A modstia  o aroma do
  talento, como o talento  o esplendor da graa. V. Excia. possui tudo isso. Posso compar-la  violeta, -- Viola odorata de Lineu, -- que  formosa e recatada...

D. HELENA (interrompendo) -- Pedirei
  licena  minha tia. Quando ser a primeira lio?

BARO -- Quando quiser. Pode ser
  amanh. Tem certamente notcia da anatomia vegetal.

D. HELENA -- Notcia incompleta.

BARO -- Da fisiologia?

D. HELENA -- Um pouco menos.

BARO -- Nesse caso, nem a
  taxonomia, nem a fitografia...

D. HELENA -- No fui at l.

BARO -- Mas h de ir... Ver que
  mundos novos se lhe abrem diante do esprito. Estudaremos, uma por uma, todas
  as famlias, as orqudeas, as jasmneas, as rubiceas, as oleceas, as
  narcseas, as umbelferas, as...

D. HELENA -- Tudo, desde que se
  trata de flores.

BARO -- Compreendo: amor de
  famlia.

D. HELENA -- Bravo! um cumprimento!

BARO (folheando o livro) -- A cincia os permite.

D. HELENA ( parte) -- O
  mestre  perigoso.  (Alto). Tinham-me dito exatamente o contrrio; disseram-me
  que o Sr. Baro era... no sei como diga... era...

BARO -- Talvez um urso.

D. HELENA -- Pouco mais ou menos.

BARO -- E sou.

D. HELENA -- No creio.

BARO -- Por que no cr?

D. HELENA -- Porque o vejo amvel.

BARO -- Suportvel apenas.

D. HELENA -- Demais, imaginava-o
  uma figura muito diferente, um velho macilento, melenas cadas, olhos encovados.

BARO -- Estou velho, minha senhora.

D. HELENA -- Trinta e seis anos.

BARO -- Trinta e nove.

D. HELENA -- Plena mocidade.

BARO -- Velho para o mundo. Que
  posso eu dar ao mundo seno a minha prosa cientfica?

D. HELENA -- S uma
  coisa lhe acho inaceitvel.

BARO -- Que ?

D. HELENA -- A teoria de que o amor
  e a cincia so incompatveis.

BARO -- Oh! isso...

D. HELENA -- D-se o esprito 
  cincia e o corao ao amor. So territrios diferentes, ainda que limtrofes.

BARO -- Um acaba por anexar o
  outro.

D. HELENA -- No creio.

BARO -- O casamento  uma bela
  coisa, mas o que faz bem a uns, pode fazer mal a outros. Sabe que Mafoma no permite o uso do vinho aos seus sectrios. Que
  fazem os turcos? Extraem o suco de uma planta, da famlia das papaverceas,
  bebem-no, e ficam alegres. Esse licor, se ns o bebssemos, matar-nos-ia. O
  casamento, para ns,  o vinho turco.

D. HELENA (erguendo os ombros) -Comparao no 
  argumento. Demais, houve e h sbios casados.

BARO -- Que seriam mais sbios se
  no fossem casados.

D. HELENA -- No fale assim. A
  esposa fortifica a alma do sbio. Deve ser um quadro delicioso para o homem que
  despende as suas horas na investigao da natureza, faze-lo ao lado da mulher
  que o ampara e anima, testemunha de seus esforos, scia de suas alegrias,
  atenta, dedicada, amorosa. Ser vaidade de sexo? Pode ser, mas eu creio que o
  melhor premio do mrito  o sorriso da mulher amada. O aplauso pblico  mais
  ruidoso, mas muito menos tocante que a aprovao domstica.

BARO (depois de um instante de
  hesitao e luta) -- Falemos da nossa lio.

D. HELENA -- Amanh, se minha tia
  consentir. (Levanta-se). At amanh, no?

BARO -- Hoje mesmo, se o ordenar.

D. HELENA -- Acredita que no
  perderei o tempo?

BARO -- Estou certo que no.

D. HELENA -- Serei acadmica de
  Estocolmo?

BARO -- Conto que terei essa honra.

D. HELENA (cortejando) -- At
  amanh.

BARO (o mesmo) -- Minha
  senhora! (D. Helena sai pelo fundo, esquerda, o Baro caminha para a
    direita, mas volta para buscar o livro que ficara sobre a cadeira ou sof).

  CENA X

  Baro, D. Leonor

  BARO (pensativo)
  -- At amanh! Devo eu c voltar? Talvez no devesse, mas  interesse
  da cincia... a minha palavra empenhada...  O
  pior de tudo  que a discpula  graciosa e bonita. Nunca tive discpula,
  ignoro at que ponto  perigoso... Ignoro? Talvez no... (Pe a mo no
    peito). Que  isto?... (Resoluto). No, sicambro!
  No hs de adorar o que queimaste! Eia, volvamos s flores e deixemos esta casa
  para sempre. (Entra D. Leonor).

D. LEONOR (vendo o Baro) -- Ah!

BARO -- Voltei h dois minutos;
  vim buscar este livro. (Cumprimentando). Minha senhora!

D. LEONOR -- Senhor Baro!

BARO (vai at  porta e volta)
  -- Creio que V. Excia. no me fica querendo mal?

D. LEONOR -- Certamente que no.

BARO (cumprimentando) -- Minha
  senhora!

D. LEONOR (idem) -- Senhor
  Baro!

BARO (vai at  porta e volta)
  -- A senhora D. Helena no lhe falou agora?

D. LEONOR -- Sobre que?

BARO -- Sobre umas lies de
  botnica...

D. LEONOR -- No me falou em nada...

BARO (cumprimentando) -- Minha
  senhora!

D. LEONOR (idem) -- Senhor
  Baro! (Baro sai). Que esquisito! Valia a pena cultiv-lo de perto.

BARO (reaparecendo) -- Perdo...

D. LEONOR -- Ah! Que manda?

BARO (aproxima-se) -- Completo
  a minha pergunta. A sobrinha de V. Excia. falou-me em receber algumas lies de botnica; V. Excia. consente?  (Pausa). H de parecer-lhe esquisito este pedido, depois do que tive a honra de
  fazer-lhe h pouco...

D. LEONOR -- Sr. Baro, no meio de tantas cpias e imitaes humanas...

BARO -- Eu acabo: sou original.

D. LEONOR -- No ouso diz-lo.

BARO -- Sou; noto, entretanto, que
  a observao de V. Excia. no responde  minha pergunta.

D. LEONOR -- Bem sei; por isso
  mesmo  que a fiz.

BARO -- Nesse caso...

D. LEONOR -- Nesse caso, deixe-me
  refletir.

BARO -- Cinco minutos?

D. LEONOR -- Vinte e quatro horas.

BARO -- Nada menos?

D. LEONOR -- Nada menos.

BARO (cumprimentando) -- Minha
  senhora!

D. LEONOR (idem) -- Senhor
  Baro! (Sai o Baro).

CENA XI

  D. Leonor, D. Ceclia

  D. LEONOR -- Singular
   ele, mas no menos singular  a idia de Helena. Para que querer ela
  aprender botnica?

D. CECLIA (entrando) -- Helena! (D. Leonor volta-se). Ah!  titia.

D. LEONOR -- Sou eu.

D. CECLIA -- Onde est Helena?

D. LEONOR -- No sei, talvez l em
  cima.  (D. Ceclia dirige-se para o fundo). Onde vais?...

D. CECLIA -- Vou...

D. LEONOR -- Acaba.

D. CECLIA -- Vou concertar o
  penteado.

D. LEONOR -- Vem c; concerto eu. (D.
  Ceclia aproxima-se de D. Leonor). No  preciso, est excelente. Diz-me:
  ests muito triste?

D. CECLIA (muito triste) -- No,
  senhora; estou alegre.

D. LEONOR -- Mas, Helena disse-me
  que tu...

D.CECLIA -- Foi gracejo.

D. LEONOR -- No creio; tens alguma
  coisa que te aflige; hs de contar-me tudo.

D. CECLIA -- No posso.

D. LEONOR -- No tens confiana em
  mim?

D. CECLIA- Oh! toda!

D. LEONOR -- Pois eu exijo... (Vendo
  Helena, que aparece  porta do fundo, esquerda). Ah! chegas a propsito.

  CENA XII

  D. Leonor, D.
  Ceclia, D. Helena

  D. HELENA -- Para que?

D. LEONOR -- Explica-me que
  historia  essa que me contou o Baro?

D. CECLIA (com curiosidade) -- O
  Baro?

D. LEONOR -- Parece que ests
  disposta a estudar botnica.

D. HELENA -- Estou.

D. CECLIA (sorrindo) -- Com
  o Baro?

D. HELENA -- Com o Baro.

D. LEONOR -- Sem o meu
  consentimento?

D. HELENA -- Com o seu
  consentimento.

D. LEONOR -- Mas de que te serve
  saber botnica?

D. HELENA -- Serve para conhecer as
  flores dos meus bouquets, para no
  confundir jasmneas com rubiceas, nem bromlias com umbelferas.

D. LEONOR -- Com que?

D. HELENA -- Umbelferas.

D.LEONOR -- Umbe...

D. HELENA -- ... lferas. Umbelferas.

D. LEONOR -- Virgem santa! E que
  ganhas tu com esses nomes brbaros?

D. HELENA -- Muita coisa.

D. CECLIA ( parte) -- Boa
  Helena! Compreendo tudo.

D. HELENA -- O perianto, por
  exemplo; a senhora talvez ignore a questo do perianto... a questo das gramneas...

D. LEONOR -- E dou graas a Deus!

D. CECLIA (animada) -- Oh! deve ser uma questo importantssima!

D. LEONOR (espantada) -- Tambm
  tu!

D. CECLIA -- S o nome! Perianto.
   nome grego, titia, um delicioso nome grego.  ( parte). Estou
  morta por saber do que se trata.

D. LEONOR -- Vocs fazem-me perder
  o juzo! Aqui andam bruxas, de certo. Perianto de um lado, bromlias de outro;
  uma lngua de gentios, avessa  gente crist. Que quer dizer tudo isso?

D. CECLIA -- Quer dizer que a
  cincia  uma grande coisa e que no h remdio seno adorar a botnica.

D. LEONOR -- Que mais?

D. CECLIA -- Que mais? Quer dizer
  que a noite de hoje h de estar deliciosa, e poderemos ir ao teatro lrico.
  Vamos, sim? Amanh  o baile do conselheiro e sbado o casamento da Jlia
  Marcondes. Trs dias de festas! Prometo divertir-me muito, muito, muito. Estou
  to contente! Ria-se, titia; ria-se e d-me um beijo!

D. LEONOR -- No dou, no, senhora.
  Minha opinio  contra a botnica, e isto mesmo vou escrever ao Baro.

D. HELENA -- Reflita primeiro;
  basta amanh!

D. LEONOR -- H de ser hoje mesmo! Esta
  casa est ficando muito sueca; voltemos a ser brasileiras. Vou escrever ao
  urso. Acompanha-me, Ceclia; hs de contar-me o que lia.  (Saem).

CENA XIII

  D. Helena, Baro

  D. HELENA -- Ceclia
  deitou tudo a perder...  No se pode fazer nada com crianas...
  Tanto pior para ela.  (Pausa). Quem sabe se tanto melhor para mim?
  Pode ser. Aquele professor no  assaz velho, como convinha. Alm disso, h
  nele um ar de diamante bruto, uma alma apenas coberta pela crosta cientfica,
  mas cheia de fogo e luz. Se eu viesse a arder ou cegar... (Levanta os
    ombros). Que idia! No passa de um urso, como titia lhe chama, um urso com patas de rosas.

BARO (aproximando-se) -- Perdo,
  minha senhora. Ao atravessar a chcara ia pensando no nosso acordo, e, sinto
  diz-lo, mudei de resoluo.

D. HELENA -- Mudou

BARO (aproximando-se) -- Mudei.

D. HELENA -- Pode saber-se o
  motivo?

BARO -- So trs. O primeiro  o
  meu pouco saber...  Ri-se?

D. HELENA -- De incredulidade. O
  segundo motivo...

BARO -- O segundo motivo  o meu

  gnio spero e desptico.

D. HELENA -- Vejamos o terceiro.

BARO -- O terceiro  a sua idade.
  Vinte e um anos, no?

D. HELENA -- Vinte e dois.

BARO -- Solteira?

D. HELENA -- Viva.

BARO -- Perpetuamente viva?

D. HELENA -- Talvez.

BARO -- Nesse caso, quarto motivo:

  sua viuvez perptua.

D. HELENA -- Concluso: todo o
  nosso acordo est desfeito.

BARO -- No digo que esteja; s
  por mim no o posso romper. V. Excia., porm, avaliar as razes que lhe dou, e decidir se ele
  deve ser mantido.

D. HELENA -- Suponha que respondo

  afirmativamente.

BARO -- Pacincia! obedecerei.

D. HELENA -- De m vontade?

BARO -- No; mas com grande
  desconsolao.

D. HELENA -- Pois, Sr. Baro, no desejo violent-lo; est livre.

BARO -- Livre, e no menos desconsolado.

D. HELENA -- Tanto melhor!

BARO -- Como assim?

D. HELENA -- Nada mais simples:
  vejo que  caprichoso e incoerente.

BARO -- Incoerente,  verdade.

D. HELENA -- Irei procurar outro
  mestre.

BARO -- Outro mestre! No faa
  isso.

D. HELENA -- Por
  que?

BARO -- Porque... (Pausa). Vossa Excia.  inteligente bastante para dispensar mestres.

D. HELENA -- Quem lho disse?

BARO -- Adivinha-se.

D. HELENA -- Bem; irei queimar os
  olhos nos livros.

BARO -- Oh! seria estragar as mais belas flores do mundo!

D. HELENA (sorrindo) -- Mas
  ento nem mestres nem livros?

BARO -- Livros, mas aplicao
  moderada. A cincia no se colhe de afogadilho;  preciso
    penetra-la com segurana e cautela.

D. HELENA -- Obrigada.  (Estendendo-lhe
  a mo). E visto que me recusa as suas lies, adeus.

BARO -- J!

D. HELENA -- Pensei que queria
  retirar-se.

BARO -- Queria e custa-me. Em todo
  caso, no desejava sair sem que V. Excia. me dissesse francamente o que pensa de mim. Bem ou mal?

D. HELENA -- Bem e mal.

BARO -- Pensa ento...

D. HELENA -- Penso que 
  inteligente e bom, mas caprichoso e egosta.

BARO -- Egosta!

D. HELENA -- Em toda a fora da
  expresso. (Senta-se). Por egosmo -- cientfico,  verdade, -- ope-se s
  afeies de seu sobrinho; por egosmo, recusa-me as suas lies. Creio que o Sr. Baro nasceu para mirar-se no vasto espelho da natureza,
  a ss consigo, longe do mundo, e seus enfados. Aposto que -- desculpe a
  indiscrio da pergunta -- aposto que nunca amou?

BARO -- Nunca.

D. HELENA -- De maneira que nunca
  uma flor teve a seus olhos outra aplicao, alm do estudo?

BARO -- Engana-se.

D HELENA -- Sim?

BARO -- Depositei algumas coroas
  de goivos no tmulo de minha me.

D. HELENA -- Ah!

BARO -- H em mim alguma coisa mais
  do que eu mesmo. H a poesia das afeies por baixo da prova cientfica. No a
  ostento,  verdade; mas sabe V. Excia. o que tem sido a minha vida? Um claustro. Cedo perdi o que
  havia mais caro: a famlia. Desposei a cincia, que me tem servido de alegrias,
  consolaes e esperanas. Deixemos, porm, to tristes memrias.

D. HELENA -- Memrias de homem; at
  aqui eu s via o sbio.

BARO -- Mas o sbio reaparece e
  enterra o homem. Volto  vida vegetativa... se me 
  lcito arriscar um trocadilho em portugus, que eu no sei bem se o . Pode ser
  que no passe de aparncia. Todo eu sou aparncias, minha senhora, aparncias
  de homem, de linguagem e at de cincia...

D. HELENA -- Quer que o elogie?

BARO -- No; desejo que me perdoe.

D. HELENA -- Perdoar-lhe o que?

BARO -- A incoerncia de que me
  acusava h pouco.

D. HELENA -- Tanto perdo que o
  imito. Mudo igualmente de resoluo, e dou de mo ao estudo.

BARO -- No faa isso!

D HELENA -- No lerei uma s linha
  de botnica, que  a mais aborrecvel cincia do mundo.

BARO -- Mas o seu talento...

D. HELENA -- No tenho talento;
  tinha curiosidade.

BARO --  a chave do saber.

D. HELENA -- Que monta isso? A
  porta fica to longe!

BARO --  certo, mas o caminho 
  de flores.

D. HELENA -- Com espinhos.

BARO -- Eu lhe quebrarei os
  espinhos.

D. HELENA -- De que modo?

BARO -- Serei seu mestre.

D. HELENA (levanta-se) -- No!
  Respeito os seus escrpulos. Subsistem, penso

  eu, os
  motivos que alegou. Deixe-me ficar na minha ignorncia.

BARO --  a ltima palavra de
  Vossa Excia.?

D. HELENA -- ltima.

BARO (com ar de despedida) -- Nesse
  caso... aguardo as suas ordens.

D. HELENA -- Que se no esquea de
  ns.

BARO -- Cr possvel que me
  esquecesse?

D. HELENA -- Naturalmente: um conhecimento
  de vinte minutos...

BARO -- O tempo importa pouco ao
  caso. No me esquecerei nunca mais destes vinte minutos, os melhores da minha
  vida, os primeiros que hei realmente vivido. A cincia no  tudo, minha
  senhora. H alguma coisa mais, alm do esprito, alguma coisa essencial ao
  homem, e...

D. HELENA -- Repare, Sr. Baro, que est falando  sua ex-discpula.

BARO -- A minha ex-discpula tem
  corao, e sabe que o mundo intelectual  estreito para conter o homem todo;
  sabe que a vida moral  uma necessidade do ser pensante.

D. HELENA -- No passemos da
  botnica  filosofia, nem tanto  terra, nem tanto ao
  cu. O que o Sr. Baro quer dizer, em boa e mediana
  prosa,  que estes vinte minutos de palestra no o enfadaram de todo. Eu digo a
  mesma coisa. Pena  que fossem s vinte minutos, e que o Sr. Baro volte s suas amadas plantas; mas  fora ir ter com elas, no quero
  tolher-lhe os passos. Adeus!  (Inclinando-se como a despedir-se).

BARO (cumprimentando) -- Minha
  senhora! (Caminha at  porta e pra). No transporei mais esta porta?

D. HELENA -- J a fechou por suas
  prprias mos.

BARO -- A chave est nas suas.

D. HELENA (olhando para as mos)
  -- Nas minhas?

BARO (aproximando-se) -- Decerto.

D. HELENA -- No a vejo.

BARO --  a esperana. D-me a
  esperana de que...

D. HELENA (depois de uma pausa)
  -- A esperana de que...

BARO -- A esperana de que... a esperana de...

D. HELENA (que tem tirado uma
  flor de um vaso) -- Creio que lhe ser mais fcil definir esta flor.

BARO -- Talvez.

D. HELENA -- Mas no  preciso
  dizer mais: adivinhei-o.

BARO (alvoroado) -- Adivinhou?

D. HELENA -- Adivinhei que quer a
  todo o transe ser meu mestre.

BARO (friamente) --  isso.

D. HELENA -- Aceito.

BARO -- Obrigado.

D. HELENA -- Parece-me que ficou
  triste?...

BARO -- Fiquei, pois que s
  adivinhou metade do meu pensamento. No adivinhou que eu... por que o no direi? di-lo-ei francamente...  No
  adivinhou que...

D. HELENA -- Que...

BARO (depois de alguns esforos
  para falar) -- Nada... nada...

D. LEONOR (dentro) -- No
  admito!

CENA XIV

  D. Helena, Baro, D.
  Leonor, D. Ceclia

  D. CECLIA (entrando
    pelo fundo com D. Leonor) -- Mas titia...

D. LEONOR -- No admito, j disse!
  No te faltam casamentos.  (Vendo o Baro). Ainda aqui!

BARO -- Ainda e sempre, minha
  senhora.

D. LEONOR -- Nova originalidade.

BARO -- Oh! no!
  A coisa mais vulgar do mundo. Refleti, minha senhora,
  e venho pedir para meu sobrinho a mo de sua encantadora sobrinha.  (Gesto
    de Ceclia).

D. LEONOR -- A mo de Ceclia!

D. CECLIA -- Que ouo!

BARO -- O que eu lhe pedia h
  pouco era uma extravagncia, um ato de egosmo e violncia, alm de descortesia
  que era, e que V. Excia. me perdoou, atendendo  singularidade das minhas maneiras. Vejo tudo isso agora...

D. LEONOR -- No me oponho ao
  casamento, se for do agrado de Ceclia.

D. CECLIA (baixo, a D.
  Helena)   Obrigada! Foste tu...

D. LEONOR -- Vejo que o Sr. Baro refletiu.

BARO -- No foi s reflexo, foi
  tambm resoluo.

D. LEONOR -- Resoluo?

BARO (gravemente) -- Minha
  senhora, atrevo-me a fazer outro pedido.

D. LEONOR -- Ensinar botnica 
  Helena? J me deu vinte e quatro horas para responder.

BARO -- Peo-lhe mais do que isso;
  V. Excia. que , por assim
  dizer, irm mais velha de sua sobrinha, pode intervir junto dela para...  (Pausa).

D. LEONOR -- Para...

D. HELENA -- Acabo eu. O que o Sr. Baro deseja  a minha mo.

BARO -- Justamente!

D. LEONOR (espantada) -- Mas...
  No compreendo nada.

BARO -- No  preciso compreender;
  basta pedir.

D. HELENA -- No basta pedir; 
  preciso alcanar.

BARO -- No alcanarei?

D. HELENA -- D-me trs meses de
  reflexo.

BARO -- Trs meses  a eternidade

D. HELENA -- Uma eternidade de
  noventa dias.

BARO -- Depois dela, a felicidade
  ou o desespero?

D. HELENA (estendendo-lhe a
  mo) -- Est nas suas mos a escolha. (A D.
    Leonor). No se admire tanto, titia; tudo isto  botnica aplicada.
