Conto, No  mel para boca de asno, 1868

No  mel para boca de asno

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1868.

I

Era um dia de procisso de Corpus
Christi, que a igreja do Sacramento preparara com certo luxo.

A Rua do Sacramento, a do
Hospcio, o Largo do Rocio estavam mais ou menos cheios de povo que aguardava o
prstito religioso.

Na janela de uma casa do Rocio,
atulhada de gente como todas as janelas daquela rua, havia trs moas, duas das
quais pareciam irms, no s pela semelhana das feies, mas ainda pela
identidade dos vestidos.

A diferena  que uma era morena,
e possua belssimos cabelos negros, ao passo que a outra tinha a tez clara e
os cabelos castanhos.

Essa era a diferena que se podia
enxergar c debaixo, porque se as examinssemos de perto veramos no rosto de
cada uma delas os traos distintivos que separavam aquelas duas almas.

Para sabermos os seus nomes no 
preciso subir  casa; basta aproximarmo-nos de dois rapazes que da esquina da
Rua do Conde olham para a casa, que ficava do lado da Rua do Esprito Santo.

 Vs? diz um deles ao outro
levantando um pouco a bengala na direo da casa.

 Vejo; so as Azevedos. Quem  a
outra?

  uma prima delas.

 No  feia.

 Mas  uma cabea de vento.
Queres ir l?

 No; vou passear.

 Passear, Meneses! No sou to
tolo que o acredite.

 Por qu?

 Porque eu sei onde vais.

Meneses sorriu, e olhou para o
interlocutor perguntando:

  uma novidade que eu tinha
vontade de saber.

 Vais para casa da tua Vnus.

 No conheo!

 Nem eu; mas  natural...

 Ah!  natural! Adeus, Marques.

 Adeus, Meneses.

E os dois rapazes separaram-se;
Marques dirigiu-se para a casa onde estavam as trs moas, e Meneses seguiu
caminho pelo lado da Petalgica.

Se Marques olhasse para trs,
veria que Meneses, apenas chegou  esquina da Rua dos Ciganos, parou de novo e
lanou um ltimo olhar para a janela em questo; no fim de alguns segundos
seguiu viagem.

Marques subiu pela escada acima.
As raparigas, que o tinham visto entrar, foram receb-lo alegremente.

 No era o dr. Meneses quem
estava com o senhor? perguntou uma das Azevedos.

 Era, respondeu Marques;
convidei-o a subir mas ele no quis... Talvez fizesse mal, continuou Marques, a
casa no  minha, no acha, D. Margarida?

D. Margarida era uma senhora que
estava assentada na sala; era a dona da casa, tia das Azevedos, e me da
terceira moa que, com estas, estava  janela.

 Ora, ande l, disse D.
Margarida, faa agora cerimnias comigo. Bem sabe que esta casa  sua e dos
seus amigos. A procisso j saiu?

 Para lhe falar a verdade, no
sei; eu venho do lado do Campo.

 Passou l por casa? perguntou
uma das Azevedos, a morena.

 Passei, D. Luizinha; estava
fechada.

  natural; papai anda passeando
e ns estamos aqui.

Marques sentou-se; Luizinha foi
para o piano, com a prima, e comeou a tocar no sei que variaes sobre
motivos da Marta.

Quanto  irm de Luizinha, essa
foi encostar-se  janela, em posio tal que os seus dois belos olhos castanhos
observavam quanto se passava na sala; o corpo estava meio voltado para a rua,
mas a cabea estava voltada para dentro.

Quando digo que ela observava
quanto se passava na sala, uso de uma expresso mal cabida, porque os olhos da
moa fitavam-se nos de Marques que achava meio de atender a D. Margarida e s
olhadelas da jovem Hortnsia.

Era nem mais nem menos um namoro.

Hortnsia merecia bem que um rapaz
se apaixonasse por ela. No era alta, mas era esbelta, e sobretudo vestia com
elegncia suprema. Tinha duas coisas admirveis: os olhos que eram rasgados e
profundos, e as mos que pareciam ter sido cortadas a alguma obra-prima da
estaturia.

Comparando com ela, e atendendo-se
apenas ao exterior, Marques era uma bela escolha para o corao de Hortnsia.
Era bonito, mas a sua beleza no era nem efeminada, nem mscula; apenas um
meio-termo; tinha coisas de uma e coisas de outra: uma fronte de deus Marte e
um olhar de Ganimedes.

Era um amor j esboado que havia
entre aquelas duas criaturas. Marques, se compreendesse Hortnsia como aquele
olhar estava pedindo, seria um homem feliz. Compreendia?

II

Imaginamos que a leitora j est
curiosa por saber o que queriam dizer os repetidos olhares de Meneses
atravessando a praa da Constituio, olhares que no esto de acordo com a
recusa de no ir ver as moas.

Para satisfazer a curiosidade da
leitora, convidamo-la a entrar conosco em casa de Pascoal Azevedo, pai de Lusa
e Hortnsia, dois dias depois da cena que narramos no captulo anterior.

Pascoal Azevedo era chefe de seo
em uma secretaria de Estado, e com esse ordenado e mais os juros de algumas
aplices sustentava a famlia, que se compunha de uma irm velha e das duas
filhas.

Era um homem folgazo, amigo da
convivncia, mas modesto no trato e na linguagem. No dava banquetes nem
bailes; mas gostava que a sala e a sua mesa, despretensiosas ambas, estivessem
sempre tomadas de alguns amigos.

Entre as pessoas que l iam
notavam-se Meneses e Marques.

Marques, logo no fim de dois
meses, conseguiu fazer-se objeto de um amor grande e sincero. Hortnsia queria
doidamente ao rapaz. Pede a fidelidade histrica que se mencione uma
circunstncia, e vem a ser que Marques j era amado antes que amasse.

Uma noite reparou ele que era
objeto da preferncia de Hortnsia, e desta circunstncia, que lhe lisonjeou o
amor-prprio, comeou-lhe o amor.

Marques era, ento, e continuou a ser,
amigo de Meneses, com quem no tinha segredos, um pouco por confiana, um pouco
por estouvamento.

Uma noite, pois, ao sarem de casa
de Azevedo, Marques disparou estas palavras  cara de Meneses:

 Sabes de uma coisa?

 O que ?

 Estou apaixonado pela Hortnsia.

 Ah!

  verdade.

 E ela?

 Igualmente; morre por mim. Sabes
que eu conheo as mulheres, e no me engano. Que dizes?

 Que hei de dizer? Digo que fazes
bem.

 Tenho at idias srias; quero
casar-me.

 J!

 Pois ento! Eu sou homem de
resolues rpidas; nada de esfriar. Somente, no quero dar um passo destes sem
que um amigo, como tu, o aprove.

 Oh! eu, disse Meneses.

 Aprovas, no?

 De certo.

Nisto ficou a conversa entre os
dois amigos.

Marques foi para casa na firme
inteno de envergar a casaca no outro dia, e ir pedir a moa em casamento.

Mas como no intervalo meteu-se o
sono, Marques acordou com a idia de adiar o pedido at alguns dias depois.

 Por que motivo precipitarei um
ato destes? Reflitamos.

E entre esse dia e o dia em que o
vimos entrar na casa do Rocio, havia o espao de um ms.

Dois dias depois, amiga leitora,
encontramos os dois amigos em casa de Azevedo.

Meneses  de um natural taciturno.
Enquanto todos conversam animadamente, ele apenas solta de quando em quando um
monosslabo, ou responde com um sorriso a qualquer dito chistoso. A prima das
Azevedos chamava-o tolo; Luizinha apenas lhe supunha desmedido orgulho;
Hortnsia, mais inteligente que as duas e menos estouvada, dizia que ele era um
esprito severo.

Esquecia-nos dizer que Meneses
tivera algum tempo o sestro de escrever versos para os jornais, o que lhe
arredou a estima de alguns homens srios.

Na noite em questo, acontecia uma
vez achar-se Meneses com Hortnsia  janela, enquanto Marques conversava, com o
velho Azevedo, sobre no sei que assunto do dia.

Meneses j estava  janela, com as
costas para a rua, quando Hortnsia chegou-se a ele.

 No tem medo do sereno?
disse-lhe ela.

 No tenho, disse Meneses.

 Olhe; sempre o conheci
taciturno; mas agora reparo que  mais do que costumava a ser. Algum motivo h.
H quem suponha que a mana Luizinha...

Este simples gracejo de Hortnsia,
feito sem a menor inteno oculta, fez com que Meneses franzisse levemente as
sobrancelhas. Houve entre os dois um momento de silncio.

 Ser? perguntou Hortnsia.

 No , respondeu Meneses. Mas
quem  que supe isso?

 Quem? Imagine que sou eu...

 Mas por que sups?...

 Por nada... supus. Bem sabe que
entre moas, quando um rapaz est calado e triste,  que est apaixonado.

 Sou exceo da regra, e no sou
eu s.

 Por qu?

 Porque eu conheo outros que
esto apaixonados e andam alegres.

Desta vez foi Hortnsia quem
franziu as sobrancelhas.

  que para isto de amores, D.
Hortnsia, continuou Meneses, no h regra estabelecida. Depende dos
temperamentos, do grau de paixo, e mais que tudo da aceitao ou da recusa de
um amor.

 Ento, confessa qu?... disse
Hortnsia vivamente.

 Eu no confesso nada, respondeu
Meneses.

Serviu-se neste momento o ch.

Quando Hortnsia, saindo da
janela, atravessava a sala, olhou maquinalmente para um espelho que ficava em
frente a Meneses, e viu o longo, o profundo, o doloroso olhar que este prendera
nela, vendo-a afastar-se.

Insensivelmente olhou para trs.

Meneses mal teve tempo de voltar
para o lado da rua.

Mas a verdade estava descoberta.

Hortnsia tinha convico de duas
coisas:

Primeiramente, que Meneses amava.

Depois, que o objeto do amor do
rapaz era ela.

Hortnsia tinha um corao
excelente. Apenas conheceu que era amada por Meneses, arrependeu-se das
palavras que dissera, aparentemente palavras de remoque.

Quis reparar o mal redobrando de
atenes com o moo; mas de que valiam elas, quando Meneses surpreendia de
quando em quando os belos olhos de Hortnsia pousarem um amoroso olhar em
Marques, que andava e falava radiante e ruidoso, como um homem que no tem uma
s coisa que exprobrar  fortuna?

III

Uma noite Marques anunciou em casa
de Azevedo que Meneses estava doente, e por isso no ia l.

O velho Azevedo e Hortnsia
sentiram a doena do moo. Luizinha recebeu a notcia com indiferena.

Indagaram da doena; mas o prprio
Marques no sabia o que era.

A doena era uma febre que cedeu
no fim de quinze dias  ao da medicina. No fim de vinte dias Meneses
apresentou-se em casa de Azevedo, ainda plido e magro.

Hortnsia doeu-se de o ver assim.
Compreendeu que aquele amor no correspondido entrava por muito na doena de
Meneses. Sem que lhe coubesse culpa por isso, Hortnsia teve remorsos de lho
ter inspirado.

Era o mesmo que se a flor tivesse
culpa do perfume que exala, ou a estrela do fulgor que despede de si.

Nessa mesma noite Marques disse a
Hortnsia que ia pedi-la em casamento no dia seguinte.

 Autoriza-me? perguntou ele.

 Com uma condio.

 Qual?

  que o far secretamente, e que
nada divulgar at o dia do casamento, que deve ser daqui a alguns meses.

 Por que esta condio?

 J me nega o direito de fazer
uma condio?

Marques calou-se, sem compreender.

Era fcil, entretanto, entrar no
pensamento ntimo de Hortnsia.

A moa no queria com a
publicidade imediata do casamento amargurar fatalmente a existncia de Meneses.

Contava ela que, pouco depois do
pedido e do ajuste, alcanaria licena do pai para ir passar fora dois ou trs
meses.

  quanto basta, pensava ela,
para que o outro me esquea e no sofra.

Esta delicadeza de sentimento, que
revelava em Hortnsia uma rara elevao de esprito e uma alma perfeita, se
Marques pudesse compreend-la e adivinh-la, talvez condenasse a moa.

Entretanto, Hortnsia obrava de
boa-f. Queria ser feliz, mas teria remorsos se, para s-lo, houvesse de fazer
padecer algum.

Marques, conforme a promessa, foi
no dia seguinte  casa de Azevedo, e na forma tradicional pediu a mo de
Hortnsia.

O pai da moa no tinha objeo
alguma; e apenas, pro forma, imps a condio da aquiescncia da filha,
que no tardou em d-la.

Resolveu-se que o casamento seria
dali a seis meses; e logo da a dois dias Hortnsia pediu ao pai para ir
visitar o tio, que residia em Valena.

Azevedo consentiu.

Marques, apenas recebeu a resposta
afirmativa de Azevedo em relao ao casamento, repetiu a declarao de que at
o dia aprazado o casamento seria um inviolvel segredo.

 Mas, pensou ele consigo, para
Meneses eu no tenho segredos, e este devo dizer-lho, sob pena de mostrar-me
mau amigo.

O moo estava ansioso por
comunicar a algum a sua felicidade. Foi dali para a casa em que Meneses advogava.

 Grande notcia, disse ele ao
entrar.

 O que ?

 Vou casar-me.

 Com a Hortnsia?

 Com a Hortnsia.

Meneses empalideceu, e sentiu que
o corao batia-lhe com fora. Ele esperava por aquilo mesmo; mas ouvir a declarao
do fato, naturalmente prximo, adquirir a certeza de que a amada de seu corao
j era de outro, no s pelo amor, como pelos laos de uma prxima e assentada
aliana, era uma tortura a que ele no podia fugir nem dissimular.

A sua comoo foi to visvel, que
Marques perguntou-lhe:

 Que tens?

 Nada; restos daquela molstia.
Ando muito doente. No  nada. Ento, vais casar-te? Dou-te os meus parabns.

 Obrigado, meu amigo.

 Quando  o casamento?

 Daqui a seis meses.

 To tarde!

  vontade dela. Seja como for, 
coisa assentada. Ora, no sei que sinto com isto;  uma impresso nova.
Custa-me a crer que eu v casar deveras...

 Por qu?

 Eu sei l! Tambm, se no fosse
ela, no casava.  bonita a minha noiva, no?

 .

 E ama-me!... Queres ver a ltima
carta dela?

Meneses dispensava bem a leitura
da carta; mas como?

Marques tirou a carta do bolso e
comeou a l-la; Meneses fazia esforos para no prestar ateno ao que ouvia.

Mas era debalde.

Ouvia tudo; e cada uma daquelas
palavras, cada um daqueles protestos era uma punhalada que o pobre moo recebia
no corao.

Quando Marques saiu, Meneses
retirou-se para casa, aturdido como se o houvessem deitado ao fundo de um
grande abismo, ou como se acabasse de ouvir a sua sentena de morte.

Amava perdidamente a uma mulher
que o no amava, que amava a outro e que ia casar. O fato  comum; os que o
tiverem conhecido por experincia prpria avaliaro a dor do pobre moo.

Da a dias efetuou-se a viagem de
Hortnsia, que foi com a irm e a tia para Valena. Marques no dissimulou a
contrariedade que sentia com semelhante viagem, cuja razo no compreendia. Mas
Hortnsia facilmente o convenceu de que era necessria aquela viagem, e
despediu-se dele com lgrimas.

A leitora deste romance j ter
reparado que Hortnsia exercia sobre Marques uma influncia que tinha causa na
superioridade do seu esprito. Amava-o, como devem amar as rainhas, dominando.

Marques sentiu muito a partida de
Hortnsia, e o disse a Meneses.

O noivo amava a noiva; mas cumpre
dizer que a intensidade do seu afeto no era a mesma que a noiva sentia por
ele.

Marques gostava de Hortnsia:  a
verdadeira expresso.

Casava-se porque gostava dela, e
porque era uma mulher formosa, requestada por muitos, elegante, e finalmente
porque a idia do casamento fazia-lhe o efeito de um mistrio novo para ele,
que j andava ao corrente de todos os mistrios mais ou menos novos.

Agora por que brinco do destino
uma mulher superior apaixonou-se por um rapaz to frvolo?

A pergunta  ingnua e ociosa.

Nada mais comum do que estas
alianas entre dois coraes antpodas; nada mais raro do que uma unio
perfeitamente acertada.

Separando-se de Marques, a filha
de Azevedo no se esquecia dele um s instante. Apenas chegou a Valena,
escreveu-lhe uma carta, repassada de saudades, cheia de protestos.

Marques respondeu com outra
epstola igualmente ardente, e cheia de protestos anlogos.

Ambos almejavam pelo dia feliz do
casamento.

Ficou entendido que a
correspondncia seria regular e freqente.

O noivo de Hortnsia no deixava
de comunicar ao amigo todas as cartas da noiva, e bem assim as respostas que
lhe mandava, e que eram sujeitas  correo literria de Meneses.

O pobre advogado estava em uma
posio dolorosa; mas no podia escapar-lhe sem abrir o seu corao.

Era o que ele no queria; tinha a
altivez do infortnio.

IV

Um dia Meneses levantou-se da cama
com a resoluo firme de esquecer Hortnsia.

 Por que motivo, dizia ele
consigo, hei de alimentar um amor at aqui impossvel, agora criminoso? No
tarda muito que os veja casados, e tudo estar acabado para mim. Preciso viver;
tenho necessidade do futuro. H um grande meio;  o trabalho e o estudo.

Desse dia em diante Meneses redobrou de esforos; dividiu-se entre o trabalho e o estudo; lia at alta
noite, e procurava formar-se completamente na difcil cincia que abraara.

Procurava conscienciosamente
esquecer a noiva do amigo.

Uma noite encontrou Marques no
teatro, porque devemos dizer que a fim de no ser confidente dos amores felizes
de Hortnsia e Marques, o jovem advogado evitava o mais que podia achar-se com
ele.

Marques, apenas o viu, deu-lhe a
notcia de que Hortnsia lhe mandara lembranas na ltima carta.

  uma carta de queixas, meu caro
Meneses; tenho pena de a ter deixado em casa. Como eu me demorei em mandar-lhe a ltima carta minha, Hortnsia diz-me que eu a esqueo. V l! Mas eu j mandei
dizer-lhe que no; que a amo como sempre. Coisas de namorados que no te
interessam a ti. Que tens feito?

 Trabalho agora muito, disse
Meneses.

 Metido nos autos! que maada!

 No; gosto daquilo.

 Ah! gostas... h quem goste do
amarelo.

 Os autos so maantes, mas a
cincia  bela.

  um aforismo que eu dispenso.
Melhor processo  aquilo.

E Marques apontou para um camarote
de segunda ordem.

Meneses olhou e viu uma mulher
vestida de preto, sozinha, olhando para o lado em que os dois rapazes se
achavam.

 Que achas? disse Marques.

  bonita. Quem ?

  uma mulher...

 Respeito o mistrio.

 No me interrompas:  uma mulher
adorvel e incomparvel...

 Se Hortnsia te ouvisse, disse
Meneses sorrindo.

 Oh! ela  mulher  parte,  a
minha esposa... est fora de questo. Demais, isto so pecadilhos de pequena
monta. Hortnsia h de acostumar-se a eles.

Meneses no respondeu; mas disse
consigo: Pobre Hortnsia!

Marques props a Meneses
apresent-lo  dama em questo. Meneses recusou.

Acabado o espetculo saram os
dois.  porta, Meneses despediu-se de Marques, mas este, depois de indagar por
que lado ia ele, disse que o acompanhava. Adiante, num lugar pouco freqentado,
estava um carro parado.

  o meu carro; vou deixar-te em
casa, disse Marques.

 Mas eu ainda vou tomar ch a em
qualquer hotel.

 Toma ch comigo.

E arrastou Meneses para o carro.

No fundo do carro estava a mulher
do teatro.

Meneses j no podia recusar e
entrou.

O carro seguiu para a casa da
mulher, que Marques disse chamar-se Sofia.

Duas horas depois, Meneses seguia
para casa, a p, e meditando profundamente no futuro que ia ter a noiva de
Marques.

Este no ocultara a Sofia o
projeto do casamento, porque a rapariga, estando  mesa do ch, disse a Meneses:

 Que me diz, doutor, ao casamento
deste senhorzinho?

 Digo que  um belo casamento.

 Que tolice! casar-se nesta
idade!

Um ms depois desta cena estava
Meneses no escritrio, quando entrou o velho Azevedo com as feies um pouco
alteradas.

 Que tem? disse-lhe o advogado.

 Onde est o Marques?

 No o vejo h oito dias.

 Nem o ver mais, disse Azevedo
fulo de clera.

 Por qu?

 Veja isto.

E mostrou-lhe o Jornal do
Commercio desse dia, onde vinha, entre os passageiros para o Rio da Prata, o
nome do noivo de Hortnsia.

 Partiu para o Rio da Prata...
No leu isto?

 Leio agora, porque no tenho
tempo de ler tudo. Que iria l fazer?

 Foi acompanhar esta passageira.

E Azevedo apontou para o nome de
Sofia.

 Seria isso? balbuciou Meneses,
procurando desculpar o amigo.

 Foi. Eu sabia h dias que havia
alguma coisa; recebi duas cartas annimas que me diziam estar o meu futuro
genro de amores com aquela mulher. Entristeceu-me o fato. A coisa era to
verdadeira que ele escasseou as suas visitas  minha casa, e a pobre Hortnsia,
em duas cartas que me escreveu ultimamente, dizia ter pressentimento de que no
seria feliz. Coitadinha! se ela soubesse! h de sab-lo;  impossvel que no
saiba! e ela ama-o.

O advogado procurou acalmar o pai
de Hortnsia, censurou o procedimento de Marques, e incumbiu-se de escrever-lhe
para ver se o trazia de novo ao caminho do dever.

Mas Azevedo recusou; disse-lhe que
era j impossvel; e que, se nas vsperas do enlace Marques procedia assim, o
que no faria quando fosse casado?

  melhor que Hortnsia sofra de
uma vez do que a vida inteira, disse ele.

Azevedo, nesse mesmo dia, escreveu
 filha que viesse para a corte.

No foi difcil convencer a
Hortnsia. Ela prpria, assustada com o escassear da correspondncia de
Marques, estava decidida a isso.

Da a cinco dias estavam todas em
casa.

V

Azevedo procurou contar a
Hortnsia o ato do noivo, de modo que a impresso no fosse grande.

Mas a precauo era intil.

Quando uma criatura ama, como Hortnsia
amava, todos os meios de poupar-lhe as comoes so nulos.

O golpe foi profundo.

Azevedo ficou desesperado; se
encontrasse Marques nessa ocasio, matava-o.

Aquela famlia, que at ento era
feliz, e que estava s portas de uma grande felicidade, viu-se repentinamente
atirada em profunda agonia, graas ao estouvamento de um homem.

Meneses no foi  casa de Azevedo
apenas chegou Hortnsia, por dois motivos: o primeiro era deixar a infeliz moa
chorar em liberdade a ingratido do noivo; depois, era no reavivar a chama do
seu prprio amor com o espetculo daquela dor que exprimia para ele o mais
eloqente dos desenganos. Ver a mulher amada chorar por outro no  a maior dor
deste mundo?

VI

Quinze dias depois da volta de
Hortnsia, o jovem advogado encontrou Azevedo, e perguntou-lhe notcias da
famlia.

 Todos esto bons. Hortnsia,
compreende, est triste, com a notcia daquele fato. Pobre menina! mas h de
consolar-se. Aparea, doutor. Est mal conosco?

 Mal por qu?

 Ento no nos abandone; aparea.
Vai l hoje?

 Talvez.

 V; l o esperamos.

Meneses no queria ir; mas a
retirada absoluta era impossvel. Mais tarde ou mais cedo era obrigado quela
visita; foi.

Hortnsia estava divinamente
plida.

Meneses, contemplando aquela
figura de martrio, sentiu que mais do que nunca a amava. Aquela dor
causava-lhe cimes. Doa-lhe que aqueles olhos vertessem lgrimas por outro, e
por outro que as no merecia.

 H ali, pensava ele consigo, h
ali um grande corao, que torna um homem feliz s em palpitar por ele.

Meneses retirou-se s onze horas
da noite para casa. Sentia que o mesmo fogo de outrora ainda lhe ardia dentro
do peito. Estava um pouco coberto, mas no extinto; a presena da moa reavivou
a chama.

 Mas que posso esperar? dizia
Meneses entrando em casa. Ela sofre,  que o ama; aqueles amores no se
esquecem facilmente. Sejamos fortes.

O protesto era sincero; mas a
execuo era difcil.

Meneses continuou a freqentar a
casa de Azevedo.

Pouco a pouco, Hortnsia adquiria
as antigas cores, e posto que no tivesse a mesma alegria de outro tempo, o
olhar apresentava uma serenidade de bom agouro.

O pai tornava-se contente de ver
aquela transformao.

Entretanto, Meneses escrevera a
Marques uma carta de exprobrao; dizia-lhe que o seu procedimento no era
somente cruel, mas at feio, e procurava cham-lo  corte.

A resposta de Marques foi a
seguinte:

Meu Meneses,

Eu no sou heri de romance, nem
tenho vontade disso.

Sou um homem de resolues
sbitas.

Cuidei que no amava a ningum
mais seno a essa bela Hortnsia; mas enganei-me; encontrei Sofia, a quem me
entreguei em corpo e alma.

Isto no quer dizer que eu no
abandone Sofia; estou mesmo a ver que me prendo nos laos de alguma destas
argentinas, que so as andaluzas da Amrica.

Variar  viver. So dois verbos
que comeam por v: profunda lio que nos d a natureza e a gramtica.

Penso, logo existo, dizia creio
que o Descartes.

E vario, logo existo, digo eu.

No te importes, portanto, comigo.

O pior  que Sofia j me tem
comido umas boas centenas de pesos. Que estmago, meu caro!

At um dia.

Esta carta era eloqente.

Meneses no respondeu; guardou-a
simplesmente, e lastimou que a pobre moa tivesse posto em to indignas mos o
seu corao de vinte anos.

VII

 intil dizer que Meneses fizera
em Hortnsia, depois da volta desta  casa, a mesma impresso que antes.

A moa compreendeu que era amada
por ele, em silncio, respeitosa, resignada, desesperanadamente...

Compreendeu mais.

Meneses ia poucas vezes  casa de
Azevedo; no era como antes, que l ia todas as noites.

A moa compreendeu a delicadeza de
Meneses; viu que era amada, mas que, diante da sua dor, o rapaz procurava
esconder o mais que pudesse a sua pessoa.

Hortnsia, que era capaz de
delicadeza igual, apreciou aquela no seu justo valor.

Que havia de mais natural que uma
aproximao de duas almas to nobres, to capazes de sacrifcios, to feitas
para se compreenderem?

Uma noite Hortnsia disse a
Meneses que as suas visitas eram raras, que ele no ia l como antes, o que
entristecia a famlia.

Meneses desculpou-se; disse que os
seus trabalhos eram muitos.

Mas as visitas tornaram-se menos
raras.

O advogado chegou a conceber a
esperana de que ainda podia ser feliz, e procurou abraar o fantasma da sua
imaginao.

 Contudo, pensou ele,  cedo
demais para que ela o esquea.

T-lo- esquecido?

Nem de propsito sucedeu que nessa
mesma noite em que Meneses fazia esta reflexo, uma das pessoas que
freqentavam a casa de Azevedo soltou imprudentemente o nome de Marques.

Hortnsia empalideceu; Meneses
olhou para ela; viu-lhe os olhos midos.

 Ainda o ama, disse ele.

Nessa noite Meneses no dormiu.
Vira desfeita, num instante, a esperana que chegara a manter no seu esprito.
Era intil a luta.

No escapou  moa a impresso que
causara em Meneses a sua tristeza ao ouvir falar em Marques; e vendo que ele
outra vez rareava as suas visitas, compreendeu que o moo estava disposto a
sacrificar-se.

O que ela j sentia por ele era
estima e simpatia; nada disso, nem isso tudo forma o amor. Mas Hortnsia tinha
um corao delicado e uma inteligncia esclarecida; compreendia Meneses; podia
vir a am-lo.

Com efeito,  proporo que os
dias se passavam, sentia ela que um novo sentimento a impelia para Meneses. Os
olhos comearam a falar, as ausncias j lhe eram dolorosas; estava no caminho
do amor.

Uma noite achavam-se os dois na sala,
um pouco isolados dos mais, e com os olhos fixos um no outro, esqueciam-se de
si.

Caiu o leno da moa; ela ia
apanh-lo, Meneses apressou-se tambm; os dedos de ambos encontraram-se, e como
se fossem duas pilhas eltricas, aquele contato f-los estremecer.

No disseram nada; mas tinham-se
entendido.

Na seguinte noite Meneses declarou
a Hortnsia que a amava, e perguntou-lhe se queria ser sua mulher.

A moa respondeu afirmativamente.

 H muito tempo, disse ele, que
eu a trago no meu corao; tenho-a amado em silncio, como entendo que se devem
adorar as santas...

 Sei, murmurou ela.

E acrescentou:

 O que eu lhe peo  que me faa
feliz.

 Juro-lhe!

No dia seguinte Meneses pediu a
mo de Hortnsia, e um ms depois eram casados, indo gozar a lua-de-mel em
Petrpolis.

Dois meses depois do casamento
desembarcava do Rio da Prata o jovem Marques, sem a Sofia, que l ficara
depenando os outros Marques de l.

VIII

O velho Azevedo agradeceu ao cu o
ter achado um genro como ele sonhara, um genro que fosse homem de bem,
inteligente, esclarecido e amado por Hortnsia.

 Agora, dizia ele no dia do
casamento, s me resta concluir o meu tempo de servio pblico, pedir a minha
aposentadoria, e ir passar com vocs o resto da minha vida. Digo que s espero
isto, porque Luizinha  natural que se case breve.

Marques, apenas chegou  corte,
lembrou-se de ir  casa de Azevedo; no o fez por achar-se fatigado.

Tendo rematado o romance da mulher
que o levou ao Rio da Prata, o jovem fluminense, em cujo esprito sucediam-se
os projetos com espantosa facilidade, lembrou-se de que deixara em meio um
casamento, e voltou-se logo para essas primeiras idias.

Entretanto, como a antiga casa de
Meneses era no centro da cidade, e ficava-lhe, portanto, mais perto, Marques
resolveu ir l.

Encontrou um moleque que lhe
respondeu simplesmente:

 Nhonh est em Petrpolis.

 Fazendo o qu?

 No sei, no senhor.

Eram quatro horas da tarde.
Marques foi jantar projetando ir  noite  casa de Azevedo.

No hotel encontrou um amigo que,
depois de abra-lo, despejou um alforje de notcias.

Entre elas veio a do casamento de
Meneses.

 Ah! casou-se o Meneses? disse
Marques espantado. Com quem?

 Com uma filha do Azevedo.

 A Lusa?

 A Hortnsia.

 A Hortnsia!

  verdade; h dois meses. Esto
em Petrpolis.

Marques enfiou.

Realmente ele no amava a filha de
Azevedo; e o direito que poderia ter  mo dela, tinha-o destrudo com a viagem
misteriosa ao Rio da Prata e a carta que dirigira a Meneses; tudo isto era
assim; porm Marques era essencialmente vaidoso, e aquele casamento feito em
sua ausncia, quando ele pensava vir achar Hortnsia lavada em lgrimas e
semi-viva, feriu-lhe profundamente o amor-prprio.

Por felicidade do estmago dele s
a vaidade estava ofendida, de modo que a natureza animal readquiriu logo a sua
supremacia  vista de uma sopa de ervilhas e de uma maionese de peixe,
fabricadas por mo de mestre.

Marques comeu como um homem que
vem de bordo, onde no enjoou, e depois de comer tratou de ir fazer algumas
visitas mais ntimas.

Deveria, porm, ir  casa de
Azevedo? Como deveria falar ali? Que teria havido em sua ausncia?

Estas e outras perguntas surgiam
do esprito de Marques, que no sabia como decidir-se. Entretanto o moo
refletiu que no lhe convinha mostrar-se sabedor de nada, a fim de adquirir o
direito de censura, e que em todo caso era conveniente ir  casa de Azevedo.

Chamou um tlburi e foi.

Mas a a resposta que teve foi:

 O senhor no recebe ningum.

Marques voltou sem saber at que
ponto aquela resposta era ou deixava de ser um insulto para ele.

 Em todo caso, pensou, o melhor 
no voltar l; alm de que eu venho de fora, tenho o direito  visita.

Mas os dias passaram-se sem que
lhe aparecesse ningum.

Marques magoava-se com isso; mas o
que sobretudo lhe doa mais era ver que a mulher se lhe escapara das mos, e
tanto mais se enraivecia quanto que a coisa era toda por culpa dele.

 Mas que papel faz Meneses em
tudo isto? dizia ele consigo. Sabendo do meu projetado casamento foi traio
aceit-la por esposa.

De pergunta em pergunta, de
considerao em considerao, Marques chegou a conceber um plano de vingana
contra Meneses, e com satisfao igual  de um general que tem meditado um
ataque enrgico e seguro, o jovem dndi esperou tranqilamente a volta do casal
Meneses.

IX

O casal voltou com efeito da a
alguns dias.

Hortnsia vinha bela como nunca;
tinha na fronte o esplendor da esposa; a esposa tinha completado a donzela.

Meneses era um homem feliz. Amava
e era amado. Estava no comeo da vida, e ia fundar uma famlia. Sentia-se cheio
de fora e disposto a ser completamente feliz.

Poucos dias depois de chegarem 
corte, Marques apareceu repentinamente no escritrio de Meneses.

O primeiro encontro compreende-se
que devia ser um tanto estranho. Meneses, que estava na plena conscincia dos
seus atos, recebeu Marques com um sorriso. Este procurou afetar uma alegria
desmedida.

 Cheguei, meu caro Meneses, h
quinze dias; e tive mpetos de ir a Petrpolis; mas no pude.  intil dizer
que ia a Petrpolis para dar-te os meus sinceros parabns.

 Senta-te, disse Meneses.

 Ests casado, disse Marques
sentando-se, e casado com a minha noiva. Se eu fosse outro zangar-me-ia; mas,
graas a Deus, tenho algum juzo. Acho que fizeste muito bem.

 Creio que sim, respondeu
Meneses.

 Bem pesadas as coisas eu no
amava a minha noiva como convinha que ela fosse amada. No poderia faz-la
feliz, nem o seria eu prprio. Contigo  outra coisa.

 Ento recebes assim
alegremente...

 Pois ento! No h entre ns uma
rivalidade; nenhuma competncia nos separou. Foi apenas um episdio na minha
vida que eu estimo ver que tivesse este desenlace. Em suma, tu vales mais do
que eu; s mais digno dela...

 Fizeste boa viagem? atalhou
Meneses.

 Magnfica.

E Marques entrou na exposio
minuciosa da viagem, at que um abenoado procurador de causas veio
interromp-lo.

Meneses apertou a mo do amigo,
oferecendo-lhe a casa.

 L irei, l irei, mas peo que
convenas a tua mulher de que no me h de receber acanhadamente. O que passou,
passou: eu  que no valho nada.

 Adeus!

 Adeus!

X

No tardou muito que Marques fosse
 casa de Meneses, onde Hortnsia lhe preparara uma recepo fria.

Contudo uma coisa era planear,
outra era executar.

Depois de ter amado to
ardentemente o rapaz, a moa no podia deixar de sentir um primeiro abalo.

Sentiu, mas dominou-se.

Pela sua parte, o preterido moo,
que realmente nada sentia, pde representar tranqilamente o seu papel.

O que ele queria (por que no
diz-lo?) era reconquistar no corao da moa o terreno perdido.

Mas como?

Apenas chegado de fora do pas,
vendo a sua noiva casada com outro, Marques no recebe impresso alguma, e
longe de fugir quela mulher que lhe lembrava uma felicidade perdida, entra
friamente por aquela casa que no  dele, e fala tranqilamente  noiva que j
lhe no pertence.

Tais eram as reflexes de
Hortnsia.

Entretanto, Marques persistia no
seu plano, e empregava na execuo dele uma habilidade que ningum lhe supunha.

Um dia em que se achou s com
Hortnsia, ou antes em que l foi  casa dela na certeza que Meneses estava
fora, Marques dirigiu a conversa para os tempos dos antigos amores.

Hortnsia no o acompanhou nesse
terreno; mas ele insistiu, e como ela lhe declarasse que tudo aquilo estava
morto, Marques prorrompeu nestas palavras:

 Morto! para a senhora, 
possvel; mas no para mim; para mim que nunca a esqueci, e se por uma
fatalidade, que eu ainda hoje no posso revelar, fui obrigado a partir para
fora, nem por isso a esqueci. Cuidei que houvesse feito o mesmo, e desembarquei
com a doce esperana de ser seu esposo. Por que motivo no esperou por mim?

Hortnsia no respondeu; no fez o
menor gesto, no disse uma palavra.

Levantou-se da a alguns segundos,
e encaminhou-se altivamente para a porta do interior.

Marques ficou na sala at que
apareceu um moleque dizendo-lhe que tinha ordem de faz-lo retirar.

A humilhao era grande. Nunca
houve mais triste Sadowa nas guerras de el-rei Cupido.

 Fui um asno! disse Marques no
outro dia quando a cena lhe voltou  lembrana, eu devia esperar dois anos.

Quanto a Hortnsia, logo depois da
sada de Marques, entrou no quarto e verteu duas lgrimas, duas apenas, as
ltimas que lhe restavam para chorar aquele amor to grande e to mal posto.

As primeiras lgrimas foram-lhe
arrancadas pela dor; estas duas exprimiam a vergonha.

Hortnsia j se envergonhava de
ter amado aquele homem.

De todas as derrotas do amor, esta
 decerto a pior. O dio  cruel, mas a vergonha  aviltante.

Quando Meneses voltou para casa
achou Hortnsia alegre e ansiosa por v-lo; sem nada contar-lhe, Hortnsia
disse-lhe que tinha necessidade de apert-lo ao seio, e que mais uma vez agradecia
a Deus a circunstncia que os levou ao casamento.

Estas palavras, e a ausncia de
Marques durante oito dias, fez compreender ao feliz marido que alguma coisa
houvera.

Mas nada perguntou.

Naquele casal aliava-se tudo o que
 nobre: o amor e a confiana.  este o segredo dos casamentos felizes.
