Conto, O Passado, o passado, 1876

O Passado, o passado

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 6/1876 a 8/1876.

Acabara o jantar s seis horas e
meia. Era dia; a mor parte dos convivas descera  chcara. Um destes, o
capito-tenente Lus Pinto, ficou na sala a conversar com o dono da casa, o
Comendador Valadares, homem gordo e pacato, para quem a digesto era coisa
sria, e tanto ou quanto cientfica.

 E pretende fazer outra viagem?
perguntou o comendador continuando a conversa interrompida pela sobremesa.

 Agora, no. Salvo se embarcar
por ordem do governo. No  provvel que precise de outra licena; em todo
caso, no iria  Europa, a no ser por molstia.

 Mas gostou tanto que...

 Que preciso descansar. Estou com
quarenta e dois anos, senhor comendador, no  velhice; mas tambm no  idade
de travessuras; e uma segunda viagem era verdadeira travessura.

O comendador no aprovou nem
contestou a observao do hspede; abriu a caixa de rap. Tomou uma pitada e
interrogou o oficial de marinha a respeito de algumas particularidades da
viagem. O oficial satisfez-lhe a curiosidade narrando-lhe uma pgina das suas
memrias de turista.

Lus Pinto, que sabemos ser
capito-tenente e contar quarenta e dois anos, era um homem alto, bem-feito,
elegante, daquela elegncia grave, prpria de seus anos. Tinha os olhos negros
e rasgados, o olhar inteligente e bom, maneiras distintas e certo ar de
superioridade natural. Era isto o fsico. O moral no era diferente. No tinha
ms qualidades, ou se as tinha eram de pequena monta. Vivo h dez anos,
ficara-lhe do matrimnio uma filha, que mandara educar em um colgio. Essa
criana era todos os seus amores na terra.

Algum tempo antes por motivos de
molstia, obtivera licena por um ano e empreendera uma viagem  Europa, de
onde viera cerca de quinze dias antes.

A noite cara de todo; os convivas
recolheram-se  casa, onde uns foram jogar, outros conversar ou ouvir tocar. O
sarau acabaria para o oficial como outro qualquer se no fora a entrada de uma
visita inesperada para todas as pessoas da casa e muito mais para ele.

A visita de que se trata era uma
senhora. A mulher do comendador apressou-se a receb-la. D. Madalena Soares
entrou na sala, com um passo de deusa e com ar tranqilo e austero que lhe no
ficava mal. Das pessoas que a no conheciam houve um notvel silncio de
curiosidade. Trajava roupas escuras, de feio com a sua viuvez recente; era
formosa, e contava trinta anos de idade.

Como todas as atenes estiveram
voltadas para a recm-chegada ningum reparou na impresso que esta produzira em Lus Pinto. A impresso foi de surpresa e gosto, uma comoo que o fez ficar pregado alguns
instantes na cadeira em que estava sentado. Alguns minutos depois ergueu-se e
dirigiu-se a D. Madalena Soares.

 Estarei to velho que j me no
conhea? disse ele.

Madalena estremeceu e olhou para
ele.

 Ah! exclamou ela.

 No se viam h muito tempo?
perguntou a mulher do comendador.

 Um sculo, respondeu Madalena.

 Seis anos pelo menos,
acrescentou Lus Pinto.

 Talvez mais. Chegou h pouco da
Europa, ouvi dizer.

 H poucos dias. Seu marido?

 Estou viva.

 Ah!

Interrompeu-se a conversa neste
ponto; aproveitamos a interrupo para dizer que Madalena, tendo casado com
vinte anos, retirara-se da a quatro para uma das provncias do Norte, de onde
voltara dez meses antes, depois da morte do marido. Lus Pinto ignorava a morte
deste.

Poucas palavras disseram mais os
dois antigos conhecidos. A conversa tornou-se geral, e a noite passou-se, como
se passaram as outras, sem nenhum incidente novo. Madalena, ao despedir-se,
declarou ao capito-tenente que a sua residncia era na Rua das Mangueiras.

 Irei cumpriment-la um dia
destes.

 Aturar uma velha.

 Oh!

A exclamao de Lus Pinto foi
repetida mentalmente pelos demais circunstantes; e a viva retirou-se levando a
admirao de todos. Houve um concerto de louvores  graa de suas maneiras, 
beleza de seus olhos. Um s, entre tantos, ficara calado e pensativo: o oficial
de marinha.

Por qu? Vamos sab-lo.

Lus Pinto saiu da casa do
comendador um pouco diferente do que l entrara. Ia absorto e pensativo. O que
ele dizia consigo mesmo era:

 Que  isto? Tantos anos depois!
Viva... estava longe de sup-lo. Viva e formosa, to formosa como era naquele
tempo.

O monlogo continuou ainda por
algumas horas, sobre o mesmo tema; as idias bailaram-lhe no esprito durante o
sono. Na manh seguinte, a segunda ou terceira pessoa de quem se lembrou foi
Madalena.

Dois dias depois cumpriu Lus
Pinto a palavra dada na casa do comendador, foi  Rua das Mangueiras. Vestiu-se
mais apurado que de costume; contemplou-se repetidas vezes ao espelho, no por
vaidade, alis justificvel, porque ainda era um bonito homem, mas para ver se
havia ainda em suas feies um resto da primeira mocidade.

Madalena recebeu-o com muita
afabilidade. Estava com ela um menino de seis anos, seu filho; e, alm dele,
havia uma senhora idosa, tia de seu marido, que a acompanhara at  Corte e
ficara a residir com ela. A conversa versou sobre coisas gerais; mas por mais
indiferente ou insignificante que fosse o assunto, Madalena tinha a arte de o
tornar interessante e elev-lo. Passaram as horas naturalmente depressa; Lus
saiu satisfeito dessa primeira visita.

A segunda verificou-se dali a
cinco ou seis dias; Madalena, porm, no estava em casa, e este desencontro,
alis fortuito, pareceu enfad-lo. Encontrou-a em caminho, na Rua dos Arcos, com
o filho pela mo.

 Venho de sua casa, disse ele.

 Sim? acudiu a viva. Eu fui
visitar umas amigas de outro tempo.

 De seis anos.

 De dez.

 Ainda se lembra do passado?
perguntou Lus Pinto, dando s palavras uma entoao particular.

 Minha memria no esquece as
afeies, respondeu ela naturalmente.

Lus cumprimentou-a e seguiu. A
resposta da viva no dizia talvez tudo: ele, contudo, deu-se por satisfeito em
ter-lhe feito a pergunta.

O passado de que ele falava, como
j a leitora ter suposto, era um namoro travado entre os dois antes do
casamento de ambos. No foi namoro ligeiro e sem razes, antes passatempo que
outra coisa; foi paixo sria e forte. O pai de Madalena opunha-se ao consrcio
e declarou-se mortal inimigo do moo; empregou contra ele todas as armas de que
podia dispor. Lus Pinto afrontou tudo; para v-la de longe, colher um sorriso,
amargo embora e desconsolado, atravessava audazmente a chcara em que ela
morava, sem embargo dos espias que o dono da casa ali punha. Ia a todos os
teatros e reunies onde houvesse esperana de a ver, mantinham correspondncia,
sem embargo de todas as precaues paternais. Madalena mostrou-se firme durante
todo esse tempo; e pela sua parte usou de todas as armas que lhe inspirava o
corao: os rogos, as lgrimas, a recluso, a abstinncia de alimentos.

Nessa luta, que se prolongou por
dois anos quase, venceu o pai de Madalena. A moa casou com o noivo que lhe
apresentaram, um sujeito honrado e bom, que naquela ocasio era a mais
detestvel criatura do mundo. Lus Pinto suportou o golpe como poderia
suport-lo um corao que tantas provas dera de si. Casou mais tarde. O tempo
distanciou-os; perderam-se completamente de vista.

Tal era o passado. No o pode
haver mais pejado de recordaes, umas tristes, outras deliciosas; e a melhor
maneira de apagar as tristes, e dar corpo s deliciosas, era reatar o fio
quebrado pelas circunstncias, continuando, aps tanto tempo, o amor
interrompido, desposando-a, enfim, agora que nenhum obstculo podia haver entre
os dois.

Lus foi  casa de Madalena no dia
seguinte ao do encontro. Achou-a a ensinar a lio ao filho, com o livro sobre
os seus joelhos.

 Deixa-me acabar esta pgina?
perguntou ela.

Lus Pinto fez sinal afirmativo; e
a me concluiu a lio do filho. Enquanto ela meio inclinada, ia acompanhando
as linhas do livro, o oficial de marinha observava  luz do dia aquelas feies
que tanto amara dez anos antes. No era a mesma frescura juvenil; mas a beleza,
que no diminura, tinha agora uma expresso mais grave. Os olhos eram os
mesmos, dois grandes olhos negros e cintilantes. Eram os mesmos cabelos
castanhos, e bastos, o pescoo de cisne, as mos de princesa, o talhe esbelto,
a graa e a morbideza dos movimentos. A viva trajava com simplicidade, sem
atavios nem arrebiques, o que dava-lhe  beleza um realce austero e certa
gravidade adorvel. Lus Pinto embebeu-se todo na contemplao do quadro e da
figura. Comparava a donzela frvola e jovial de outro tempo  me desvelada e sria
que ali tinha diante de si, e as duas fisionomias confundiam-se na mesma
evocao.

A lio acabara; Madalena
dirigiu-se ao capito-tenente com a familiaridade de pessoas conhecidas, mas
ainda assim com o acanhamento natural da situao. A conversa foi curta e
salteada. Era natural falarem do passado; contudo, evitavam roar o pensamento
 a frase ao menos  pelos sucessos que romperam o vnculo de seus destinos.

 Acha-me velho, no ? perguntou
o oficial ao ouvir um reparo de Madalena acerca da mudana que o tempo fizera
nele.

 Mais velho, no, respondeu ela
sorrindo; menos moo, talvez. No admira, tambm eu perdi o frescor dos
primeiros anos.

 A comparao  malfeita; eu
entro pela tarde da vida; a senhora est em pleno meio-dia. No v estes
cabelos grisalhos? Verdade  que a vida no me foi de rosas; e os desgostos,
mais do que os anos...

 A cor dos cabelos no prova
nada, atalhou a moa como se quisesse interromper alguma confisso. Meu pai,
aos vinte e oito anos, tinha os cabelos brancos. Caprichos da natureza.
Pretende voltar  Europa?

 No pretendo; provavelmente no
voltarei mais.

 Aquilo  to bonito como dizem?

 Conforme os olhos com que se v.
Para mim  detestvel.

 Admira. Sabe que sempre tive
grande desejo de ver a Europa. Para os filhos da Amrica  uma espcie de
sonho, uma ambio, que me parece natural.

 E realizvel. Alguns dias de mar
somente.

 J agora  preciso educar meu
filho, disse Madalena afagando a cabea do menino.

 Que idade tem ele?

 Seis anos.

 Est muito desenvolvido.

 Muito.

Madalena proferiu esta palavra
sorrindo e contemplando amorosamente o rosto do filho. Quando levantou os olhos
deu com os de Lus Pinto, que estavam fitos nela, e logo os desceu, algum tanto
comovida. O silncio que se seguiu foi curto. Levantou-se o oficial para
despedir-se.

 No sei se a verei ainda muitas
vezes, disse ele.

 Por qu? perguntou Madalena com
interesse.

 O oficial de marinha nada pode
afianar a este respeito. Amanh mesmo posso embarcar...

 Mas se no embarcar?

 Virei v-la, se mo permitir.

 Com todo gosto.

Lus Pinto saiu. Madalena ficou
algum tempo calada e pensativa, como evocando o passado, que a presena daquele
homem lhe fazia despertar. Por fim sacudiu a cabea, como expelindo de si
aquelas memrias to doces e ao mesmo tempo to amargas, e beijou com ardor a
testa do filho.

Durante uma semana no se
avistaram os nossos dois ex-namorados. Ao cabo desse tempo acharam-se ambos em
casa do comendador, onde havia reunio. Lus Pinto esperava esse dia para
examinar a impresso que teria produzido na viva aquela ausncia um tanto
longa para quem tivesse debaixo das cinzas uma fasca do extinto fogo; mas a
curiosidade de Madalena era igual  dele e o olhar de ambos foi uma
interrogao sem resposta.

Ao oficial pareceu melhor
sondar-lhe mais diretamente o corao. Acabada uma valsa, dirigiram-se para uma
saleta menos freqentada.

 Quer descansar um pouco?

 Dois minutos apenas.

Sentaram-se no sof, que ficava
perto de uma janela. Lus Pinto quis fechar a janela.

 No, disse Madalena, no me faz
mal; sento-me aqui deste lado, e gozo ao mesmo tempo a vista da lua, que est
deliciosa.

 Deliciosa! respondeu o oficial
maquinalmente.

 Mas o senhor parece que preferia
danar...

 Eu?

 Vejo que gosta de danar.

 Conforme a ocasio.

 Eu gosto, confesso; meu estado
no me permite fazer o que eu fazia outrora. Mas dano alguma coisa. Pareo-lhe
ridcula, no ?

Lus Pinto protestou contra
semelhante idia. A viva continuou a falar da dana, da noite e da reunio. De
quando em quando caam os dois em silncio mais ou menos prolongado, o que deu
idia a Lus Pinto de fazer a seguinte observao entre risonho e srio:

 Calamo-nos s vezes como se
framos dois namorados.

  verdade, respondeu Madalena,
sorrindo.

 Quem sabe? murmurou o oficial a
medo.

A viva sorriu s, mas no
respondeu. Levantou-se; o oficial deu-lhe o brao. Passearam algum tempo, mais
tempo do que lhes pareceu a eles, porque a conversa interessava-os realmente,
at que ela se retirou para casa. Caminhando, Lus Pinto fez a reflexo
seguinte:

 Por que hei de estar com meias
palavras? No  melhor decidir tudo, cortar por uma dificuldade que alis no
existe? Ambos somos livres; tivemos um passado... Sim,  necessrio dizer-lhe
tudo.

A resoluo era mais de assentar
que de executar. Lus Pinto tentou trs vezes falar francamente no assunto, mas
em todas as trs vezes no passou do intrito. No em comoo, era frouxido.
Talvez o corao no ajudasse a lngua como convinha. Pela sua parte, a viva
compreendera a inteno do oficial de marinha, mas no lhe estava bem ir-lhe ao
encontro. Auxili-la, sim; mas tambm ela sentia a lngua frouxa.

Um dia, porm, depois de um jantar
em casa de terceiro, Lus Pinto achou uma porta aberta e meteu-se por ela.
Achavam-se um pouco separados da outra gente, posto que na mesma sala. No h
nada como um bom jantar para dar animao a um homem, e faz-lo expansivo,
quaisquer que sejam as circunstncias ou a irresoluo prpria. Ora, Lus Pinto
jantara largamente, apesar de namorado, donde se pode concluir que amar  uma
coisa, e comer  outra, e que no sendo a mesma coisa o corao e o estmago,
ambos podem funcionar simultaneamente.

No ouso dizer o estado de
Madalena. De ordinrio, as heronas de romance comem pouco ou no comem nada.
Ningum admite, em mulheres, ternura e arroz de forno. Helosa, e mais existiu,
nunca soube de certo o que era recheio de peru, ou mesmo trouxas dovos. Por
isso, no afirmo, se Madalena tambm havia jantado bem; limito-me a dizer que
no havia jantado mal.

Estavam os dois como disse a falar
de coisas estranhas ao corao quando Lus Pinto arriscou a pergunta seguinte:

 Nunca pensou em casar outra vez?

Madalena estremeceu um pouco.

 Nunca! disse ela da a alguns
instantes.

 Nem casar?

Silncio.

 No sei. Tudo depende...

Novo silncio.

 Depende? repetiu o oficial.

 Depende das circunstncias.

 Quais sero essas
circunstncias? perguntou Lus Pinto sorrindo.

Madalena sorriu igualmente.

 Ora! disse ela, so as
circunstncias que produzem todos os casamentos.

Lus Pinto calou-se. Minutos
depois:

 Lembra-me agora que a senhora
podia estar casada.

 Como?

A pergunta pareceu perturbar o
moo, que no lhe respondeu logo. A viva repetiu a pergunta.

 Melhor  no falar do passado,
disse ele enfim.

Desta vez foi a viva que no
respondeu. Os dois ficaram calados algum tempo at que ela levantou-se para ir
falar  dona da casa. Daqui a vinte minutos acharam-se outra vez ao p um do
outro.

 No me responde? perguntou ele.

 A qu?

 Ao que lhe disse h pouco.

 No me fez nenhuma pergunta.

  verdade mas fiz uma
observao. Concorda com ela?

A moa calou-se.

 J sei que no concorda,
observou o oficial de marinha.

 Quem lhe disse isso?

 Ah! concorda?

Madalena fez um gesto de
impacincia.

 No declarei nada, respondeu.

  verdade, mas conclu.

 Concluiu mal. No tem nada que
concluir, porque nada disse; limitei-me a calar.

Lus pinto ficou um pouco
desconsolado.

A moa consolou-o dizendo:

  sempre mau falar do passado.

 Talvez, murmurou ele.

 Se foi triste, para que
record-lo? Se foi venturoso, para que amargurar mais a hora presente?

 Sim? mas se for possvel
reproduzi-lo?

 Reproduzi-lo?

 Sim.

 Como?

 Pergunte a si mesma.

 J perguntei.

 Ah! exclamou Lus Pinto.

A viva compreendeu que ele lhe
supunha uma preocupao anterior e entendeu que devia dissuadi-lo disso.

 Perguntei agora mesmo...

 E que responde?

 Respondo...

Vieram convid-la para cantar.
Madalena levantou-se, e Lus Pinto deu a todos os diabos o convite e a msica.

Felizmente Madalena cantava como
um anjo. Lus Pinto ficou encantado com ouvi-la.

Nessa noite, porm, foi-lhe
impossvel encontrar-se mais a ss com ela, ou porque as circunstncias o no
permitiam, ou porque ela mesma se esquivasse a encontrar-se com ele.

O oficial desesperou.

Teve, porm, uma grande consolao
 sada. A viva, quando se despediu dele, fitou-o calada durante alguns
minutos, e disse em tom significativo:

 Talvez!

 Ah!

Lus Pinto foi para casa
satisfeito. Aquele talvez era tudo ou quase tudo.

No dia seguinte foi visitar a
viva. A moa recebeu-o com o mais amorvel de seus sorrisos.

 Repete-me a palavra de ontem?

 Qual palavra? perguntou
Madalena.

Lus Pinto franziu o sobrolho e
no respondeu. Nessa ocasio entrou na sala o filho da viva; esta beijou-o com
ternura de me.

 Quer que repita a palavra?

 Desejava.

 Pois sim.

 Repete?

 Repito.

 Vamos l! Pode reproduzir-se o
passado?

 Talvez.

 Por que no afirma?

 Nada se pode afirmar.

 Est em nossas mos.

 O qu?

 Sermos felizes.

 Oh! eu sou muito feliz! disse a
viva beijando o filho.

 Sermos felizes os trs.

 No  feliz?

 Incompletamente.

Daqui a um pedido de casamento s
havia um passo; e o conto acabaria a, se pudesse acabar. Mas o conto no
acabou, ou no acabou logo, conforme se ver das poucas linhas que vou ainda
escrever.

Lus Pinto no a pediu logo. Havia
certeza de que o casamento era o natural desfecho da situao. O oficial de
marinha no se achou com nimo de precipit-lo. Os dias corriam-lhe agora
suaves e felizes; ele ia todos os dias v-la ou trs vezes por semana, pelo
menos. Encontravam-se muitas vezes em reunies e ali conversavam  larga. O
singular era que no falavam de si como acontece com os demais namorados. No
falavam tambm do casamento. Gostavam de falar porque eram ambos amveis e bons
palestradores. Lus Pinto reconheceu isto mesmo, uma noite em que se retirava
para casa.

Dois meses haviam corrido depois
do ltimo colquio acima narrado, quando Lus Pinto ouviu ao comendador a
pergunta seguinte:

 Ento parece que D. Madalena tem
fumaas de casar?

 De casar? No admira; est moa
e  bonita.

 Isso  verdade.

 Casar com quem?

 Com o Dr. lvares.

 O Dr. lvares!

Lus Pinto fez aquela exclamao
de um modo que o comendador desconfiou alguma coisa a seu respeito.

 Admira-se? perguntou ele.

 Ignorava o que me est dizendo.

O Dr. lvares, de quem se fala
agora no fim, e cuja presena no  necessria no caso, era um mdico do Norte.
Lus Pinto no descobrira, nem a notcia do comendador podia ser tomada ao p
da letra. No havia projeto de casamento; e aparentemente podia dizer-se que
nem namoro havia. Contudo, Lus Pinto procurou observar e nada viu.

 Sabe o que me disseram?
perguntou ele da a duas semanas a Madalena.

 Que foi?

 Disseram-me que ia casar com o
Dr. lvares.

A moa no respondeu. O silncio
era constrangido; Lus Pinto desconfiou que a notcia era verdadeira.

Era verdadeira.

Um ms depois daquela conversa,
Madalena anunciou s pessoas de suas relaes que ia casar com o Dr. lvares.

Lus Pinto devia, no digo morrer,
mas ficar abatido e triste. Nem triste, nem abatido. No ficou coisa nenhuma.
Deixou de assistir ao casamento, por um simples escrpulo; e teve pena, de no
ir comer os bolinhos das bodas.

Qual
 ento a moralidade do conto? A moralidade  que no basta amar muito um dia
para amar sempre o mesmo objeto, e que um homem pode fazer sacrifcios por uma
fortuna, que mais tarde ver ir-se-lhe das mos sem mgoas nem ressentimento.
